23 de junho de 2012

RESPOSTA ÀS OBSERVAÇÕES DE UM CATÓLICO AO ARTIGO “O CULTO ÀS IMAGENS”


Os comentários do católico ao artigo “O culto às imagens” encontram-se a negrito, seguindo-se-lhes a respetiva resposta.
Muito bem. O autor introduz-nos ao que chama "culto às imagens", mas qual culto?... Ignoramos. Como católico, creio que se deve às imagens um culto relativo de dulia e, sinceramente, não creio que seja a ESSE culto que o autor se refere.
Suponho que isto seja um artifício retórico rudimentar, pois não esperará uma definição precisa a partir do título, e suspeito que terá lido, com prudência, o artigo que está a comentar.
Caso contrário, a sua declarada ignorância será esclarecida mais à frente.
Perguntamo-nos, de novo: que classe de culto às imagens estava proibido?... Considerando o fundamentalismo evangélico, que não admite mais do que um tipo de culto, e considerando as proibições de idolatria feitas anteriormente, creio que o autor nos quer dar a entender que a idolatria às imagens está proibida. Correto: a doutrina católica PROÍBE a idolatria às imagens, embora admita um culto relativo de dulia às mesmas.
A distinção que pretende estabelecer é artificial e tardia, por razões que ficam claras no artigo. Além disso, omitiu, neste caso, a definição da expressão "fundamentalismo evangélico". 
Em que consiste este culto? Em cuidar da imagem, protegê-la e exibi-la, em considerá-la um objeto que representa Deus ou uma criação de Deus (a Virgem, os santos, os anjos...). O ato de acender velas à imagem significa devoção não pela própria imagem material, mas pela pessoa QUE A IMAGEM REPRESENTA. Até este momento, não vejo idolatria em nenhum ponto do culto católico às imagens, porque não se atribui à imagem nenhum poder nem significado próprio.
Coisa que, como notaram os mestres cristãos antigos, também não faziam os pagãos mais ou menos inteligentes.
Obrigado pela lição, embora duvide que muitos dos que leem este blog ignorem coisas tão básicas. 
Esse é precisamente um dos tipos de culto que a Escritura proscreve de maneira inequívoca, como o entenderam corretamente os cristãos dos primeiros séculos.
Êxodo 20, 4-5, diz claramente:
"Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas, nem lhes darás culto, porque eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam."
O rigorismo indica que está proibido FAZER IMAGENS e PRESTAR-LHES CULTO. Isto implica considerar DUAS partes: o fabrico de imagens e o culto prestado a elas. Antes de tudo, a ordem rigorista foi para os judeus e NÃO para os cristãos.
Não há dúvida de que a ordem foi dada primeiramente aos hebreus (que, na altura, ainda não eram conhecidos como judeus). Não obstante, em lado nenhum se insinua que a proibição não continue em vigor sob o Novo Pacto.
Em primeiro lugar, porque seria o único mandamento do Decálogo a carecer de vigência para os cristãos. Em segundo lugar, a sua revogação não aparece em parte alguma do Novo Testamento, sendo patente a ausência de qualquer ordem no sentido oposto. 
Na verdade, o próprio Magistério da Igreja de Roma reconhece a vigência do Decálogo como expressão perpétua da vontade de Deus para os seus filhos em todos os tempos — como o demonstra o facto de o Catecismo da Igreja Católica dedicar a segunda secção da III Parte precisamente aos Dez Mandamentos (que tente esquivar-se às implicações da proibição do culto às imagens é outro assunto).
O autor diz: "...não é proibida aos cristãos a criação de imagens...". Ou seja, o autor revoga a primeira parte do mandamento (criação de imagens), mas NÃO revoga a segunda (prestar-lhes culto, seja de que tipo for). Não entendo por que razão o autor revoga um ponto do mandamento e mantém o outro. O autor diz que a criação não é proibida (primeiro ponto), mas o culto sim (segundo ponto). Que argumentos dá para revogar o primeiro ponto e manter o segundo? Nenhum. Alguma objeção até ao momento, por parte do autor, quanto à revogação do segundo ponto? Nenhuma. Apenas silêncio.

Você subdivide arbitrariamente o mandamento em dois, quando, na realidade, ele é um só: não fazer imagens com o objetivo de lhes prestar culto.

Isto só é possível mediante a arte da citação seletiva, como se pode notar ao considerar a frase imediatamente anterior do meu escrito:

Deve sublinhar-se que aquilo que é proibido, de forma absoluta, é que o homem faça imagens por sua própria iniciativa com o objetivo de lhes prestar culto.

Aqui o autor admite que a proibição de imagens era relativa, porque atribui aos judeus a interpretação ABSOLUTA. O autor, novamente, não explica quais os pontos do mandamento completo (Êxodo 20, 4-5) que eram absolutos e quais os que eram relativos. Até ao momento, NÃO há argumento que demonstre que o primeiro ponto é relativo e o segundo absoluto.
De facto, não considerei necessário alargar-me sobre este ponto por julgar que estava suficientemente claro e que haveria consenso geral, sem necessidade de mais argumentos. Admito o meu erro.
Bom, eis o que diz Êxodo 20, 4-5, o mais literalmente possível:
Não farás para ti ídolo nem imagem [do] que está nos céus em cima, nem na terra em baixo, nem nas águas debaixo da terra; não te inclinarás diante delas nem as servirás.
A palavra hebraica que aqui se traduz por "ídolo" é pésel, que também significa "imagem esculpida".
Em hebraico, o segundo mandamento do Decálogo é uma só frase que não é correto subdividir como você o faz.
Repito que o texto e o contexto deixam claro que o que se proíbe taxativamente é a criação de estátuas ou representações com o objetivo de lhes prestar culto, como o indica a expressão "inclinar-se diante delas e servi-las". Isto abrange tanto a dulia como a latria.
A prova de que este texto e o seu paralelo em Deuteronómio causam um enorme desconforto à Igreja de Roma (e a outras que prestam culto a imagens) é o facto de este mandamento do Decálogo ter estado suprimido durante muitíssimo tempo. Aqueles que foram educados em colégios católicos na década de 1960 não o aprenderam, algo que a geração "pós-conciliar" provavelmente ignora.
O Catecismo da Igreja Católica teve, pelo menos, a decência de reproduzir o Decálogo em três versões: duas bíblicas (Êxodo 20 e Deuteronómio 5) e uma terceira cuja fonte não se indica, mas que corresponde ao "Decálogo" apócrifo tradicionalmente ensinado:
1º Amarás a Deus sobre todas as coisas.
2º Não tomarás o Nome de Deus em vão.
3º Guardarás os domingos e festas de guarda.
4º Honrarás o teu pai e a tua mãe.
5º Não matarás.
6º Não pecarás contra a castidade. (versão politicamente correta)
7º Não roubarás.
8º Não levantarás falsos testemunhos.
9º Não desejarás a mulher do teu próximo.
10º Não cobiçarás as coisas alheias.
Nesta versão manipulada, suprimiu-se alegremente o mandamento sobre as imagens e, para manter o número de dez, desdobrou-se o último.
Aqui sim, o Catecismo omite a indicação da fonte e da data do pseudo-Decálogo da terceira coluna. Terá tido as suas razões... Com efeito, o texto explica o Decálogo apócrifo e não o bíblico.
O autor não se alarga sobre a Serpente de Bronze. Javé mandou erguer a Serpente de Bronze (uma imagem FEITA) para que, ao olharem para ela, os israelitas mordidos por serpentes se curassem. Na minha humilde opinião, se o culto (de qualquer tipo) às imagens estivesse proibido, Javé não recorreria a ela como instrumento do seu poder curativo.
Mera conjetura. Deus pode, certamente, ordenar coisas que estão vedadas ao homem. O homem NÃO pode fazer imagens para lhes prestar culto, mas Deus pôde, SIM, mandar erigir uma imagem como meio de cura. Não há a menor insinuação de que procurar a cura olhando para a serpente constituísse qualquer tipo de culto.
Com isso, Javé arriscava-se a uma má interpretação por parte dos israelitas. Se Javé autorizou que a imagem fosse intermediária entre o seu poder e os homens, fica claro que a imagem pode ser um intermediário e, desse modo, ser digna de um apreço mais elevado do que outra imagem qualquer. É isso o culto relativo de dulia que os católicos entendem: uma estima elevada.
Naturalmente que Deus corre "riscos" com os homens, desde Adão até ao presente.
A imagem foi, sem dúvida, um meio escolhido pelo próprio Deus, na sua sabedoria e soberania, para um fim determinado. Não obstante, parece claro que nunca quis que se prestasse qualquer tipo de culto à serpente. De facto, como referi antes, quando a serpente de bronze se tornou um objeto de culto, o procedimento correto foi destruí-la — mesmo sendo uma prefiguração do próprio Senhor Jesus Cristo.
Para os católicos, as imagens RARAMENTE são intermediários diretos entre Deus e os homens (como foi o caso da Serpente de Bronze); para nós, são intermediários MUITO indiretos, porque são simples representações, ao passo que a Serpente de Bronze foi mais um instrumento do que uma simples representação.
Correto. Disse bem: um instrumento divinamente ordenado, não um objeto de culto.
Quanto a serem intermediários "muito indiretos", suponho que se esteja a referir aos católicos que vivem bem distantes de Fátima, Lourdes, Guadalupe ou do Pilar. Porque, para as multidões que aí afluem, essas representações não parecem, de todo, tão distantes ou secundárias quanto nos quer fazer crer.
O autor fala sobre as imagens cristãs dos primeiros séculos e, pela primeira vez, menciona que há mais do que um tipo de culto, pois diz "nenhum tipo de culto". Obviamente, o autor omite (ignoro por que razão) o tipo de culto que a Igreja Católica ensina (como prática e não como dever) relativamente às imagens.
Se alguma vez escreveu um artigo, saberá que é impossível dizer tudo ao mesmo tempo. O convencional e didático é ir do geral para o particular. De novo, é bastante tosco usar esta objeção como recurso retórico.
Mas isto não é tudo. É patentemente falso que o tipo de culto que a Igreja Católica ensina seja uma simples prática e não um dever.
O Concílio de Trento, na sua Sessão XXV, de 3 e 4 de dezembro de 1563, estabeleceu:
«...devem ser absolutamente condenados, como muito antigamente os condenou e agora também os condena a Igreja, os que afirmam que não se devem honrar nem venerar as relíquias dos santos; ou que é em vão a veneração que estas e outros monumentos sagrados recebem dos fiéis; e que são inúteis as frequentes visitas às capelas dedicadas aos santos com o fim de alcançar o seu socorro. Além disso, declara que se devem ter e conservar, principalmente nos templos, as imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e de outros santos, e que se lhes deve dar a devida honra e veneração...»
(Negrito acrescentado; omito as explicações adicionais por serem tratadas no artigo).
Não se trata, pois, de uma simples prática opcional: é um dever religioso.
Ou seja, o autor fala de uma veneração, mas NÃO explica que a Igreja Católica entende haver diferenças entre Adoração e Veneração... Vejamos.
Agradeço-lhe o crédito pela confusão, mas não posso aceitá-lo. Quem criou a ambiguidade foi a própria Igreja de Roma ao falar da veneração às imagens como sinónimo de lhes prestar uma espécie de culto — relativo, é certo, mas culto, no fim de contas.
TODAS as citações patrísticas indicadas pelo autor condenam a IDOLATRIA. É de notar que, nessa época, ainda imperava o paganismo clássico; por isso, os cristãos não concebiam ainda o culto relativo de dulia às imagens — embora sim aos santos (mártires) e às relíquias. O autor abstém-se de explicar que a Igreja Católica considera distintos o culto de Adoração a Objetos (Idolatria) e a Veneração aos mesmos.
Sem dúvida que se trata de denúncias dirigidas contra a idolatria dos pagãos, a qual se manifestava de maneira bastante ostensiva no culto prestado às imagens. O que não pode ignorar-se é que os Padres antigos viam claramente que, pela sua natureza intrínseca, tais práticas não eram suscetíveis de ser adotadas pelos cristãos. Por exemplo, reproduzo aqui parte do que diz Orígenes (já citado):
«...ao imaginarem que as mãos de artesãos rudes podem moldar imitações da divindade, mostram-se desprovidos de instrução, servis e ignorantes; pois afirmamos que o mais humilde entre nós foi liberto desta ignorância e falta de discernimento.»

Ou seja: o que atribui a uma "falta de luz" (a incapacidade de conceber o “culto relativo” de dulia) era, no século III, atribuído a uma ignorância e falta de discernimento inconcebíveis no mais rústico dos cristãos.

A invenção do “culto relativo” não foi, portanto, nenhum avanço, mas antes um retrocesso grave que contribuiu para a sobrevivência do paganismo e da superstição até aos nossos dias. 
Mas o próprio autor reconhece ANTES que o simples facto de utilizar imagens como representações não é nenhum problema, porque a ordem era RELATIVA. Portanto, se os autores cristãos antigos condenavam as simples representações, devemos entender que estavam ao mesmo nível do judaísmo tardio, que entendia como ABSOLUTA a proibição das imagens.
Este argumento é um mero sofisma baseado na ambiguidade dos termos. Como disse antes, a proibição era absoluta quanto à confeção de imagens com o propósito de lhes prestar culto, e nunca foi revogada para os que acreditam que os Dez Mandamentos são uma expressão perpétua da lei moral de Deus. Tal proscrição taxativa não exclui, naturalmente, o uso de imagens com fins não cultuais (didáticos, estéticos, identificativos, etc.).
Disto tiramos como conclusão que esses autores antigos estavam ao mesmo nível do judaísmo tardio, pelo menos no que à criação e ao culto de imagens se refere. A opinião de quem estava ao mesmo nível dos judeus não é uma grande base cristã.
Este comentário, além de libertar um certo odor a judeofobia, chega a uma conclusão errada por se basear numa premissa falsa: a que supõe uma genuína e lícita evolução na ideia de que é correto e bom para os cristãos prestar culto às imagens, desde que se estabeleçam certas condições. Portanto, devo insistir em que os cristãos dos primeiros séculos demonstraram uma compreensão mais perfeita do que o judaísmo do tempo de Jesus e do que o cristianismo posterior.
Aqui vemos que se tem de evitar a ADORAÇÃO das imagens, isto é, exatamente o mesmo que manda o catolicismo oficial. Pela primeira vez o autor admite que o catolicismo considera dois tipos de culto: o de latria e o de dulia. ANTES não o fez, para dar a impressão, em minha opinião, de que o culto só pode ser de latria. Não explica que a Igreja Católica considera distintos os dois tipos de culto, nem explica que o culto prestado às imagens é de DULIA.
É livre de opinar como entender sobre a minha forma de expor o problema. Sinceramente, creio que recorre repetidamente a este argumento duvidoso à falta de elementos mais sólidos.
O que o “catolicismo oficial” (sic) proíbe é de tal modo óbvio que roça o ridículo: que se adore a imagem em si mesma, como sendo algo distinto daquele que a imagem representa. Esta distinção não requer um magistério infalível, pois qualquer pagão com dois dedos de testa entenderia isto.
Por outro lado, parece evidente que as proibições “oficiais” não são muito incisivas, a julgar pelas multidões católicas que se acotovelam em santuários específicos para prestar culto a uma determinada invocação da Virgem ou a um santo em particular.

Diz o autor que, na época de São Gregório Magno (600 d.C.), ainda "não se tinha inventado" a distinção entre ambos os cultos, mas isto É FALSO.

Sobre o culto de dulia (que, em sentido absoluto, se presta aos anjos e aos santos), o testemunho mais antigo data de 156 d.C., no Martyrium Polycarpi, onde o autor afirma: «A Este (Cristo) adoramos por ser o Filho de Deus; e aos mártires amamo-los com razão como discípulos e imitadores do Senhor, pela sua exímia adesão ao seu Rei e Mestre» (17, 3). Isto seria redundante se não se desse aos mártires um tipo de culto DISTINTO do que se dava a Cristo, pois tal explicação seria desnecessária em caso contrário. 
Julgue o leitor a diferença entre factos e conjeturas. O meu interlocutor nem sequer tenta demonstrar que Gregório Magno abriu qualquer exceção às suas proibições.
Lamentavelmente, a sua ousada afirmação não é sustentada pelo texto que apresenta como prova, no qual não surge a palavra latria nem tampouco o termo dulia.
A passagem do Martyrium Polycarpi a que apela usa, relativamente a Cristo, o verbo proskyneô, que se deve traduzir corretamente por “adorar”. Em relação aos mártires, utiliza o verbo “amar” (do grego agapaô). Naturalmente, qualquer cristão subscreve tal declaração, a qual não presta o mínimo apoio ao culto das imagens nem à dulia dos santos.
São Jerónimo, na sua polémica com Vigilâncio, defendeu este tipo de culto, distinguindo-o da adoração a Deus (Ep. 109, 1; Contra Vigil. 6). Santo Agostinho também defendeu o culto aos mártires, refutando a objeção de que, com isso, se adoravam homens (Contra Faustum XX, 21). 
«Veneramos os servos para que os resplendores DESSE CULTO glorifiquem o Senhor» — palavras de São Jerónimo (Ep. 109, 1; cf. Catecismo Romano III, 2, 14).

Sobre o culto relativo de dulia (às relíquias), o Martyrium Polycarpi recolhe também dados, referindo como os cristãos de Esmirna recolheram os ossos do bispo mártir: «mais valiosos do que pedras preciosas e mais estimáveis do que o ouro» (18, 2).

Antes de analisar o que dizem Jerónimo e Agostinho, cabem aqui duas observações. A primeira é que o meu interlocutor está, segundo a sua própria admissão, a tentar demonstrar que a distinção entre “latria” e “dulia” se encontrava estabelecida muito antes do tempo de Gregório Magno. 
A segunda é que apela a autores que escreveram em latim quando os termos que pretende distinguir são, como é sabido, gregos. Deveria, pois, demonstrar quais são os termos latinos que correspondem aos respetivos termos gregos, e que eles foram usados por Jerónimo e Agostinho de maneira consistente com a sua tese. Alternativamente, deveria demonstrar, como minimum minimorum, que as noções a que se referem Jerónimo e Agostinho refletem a distinção posterior entre “latria” e “dulia”.
Agora sim, vejamos o que diz Jerónimo:
«Nós, é verdade, recusamo-nos a prestar culto ou a adorar — digo não só as relíquias dos mártires, mas também o Sol e a Lua, os anjos e os arcanjos, os querubins e os serafins, e “todo o [outro] nome que se nomeie, não só neste mundo, mas também no que há de vir”. Pois não podemos “servir a criação em vez do Criador, que é bendito para sempre”. Não obstante, honramos as relíquias dos mártires para podermos adorar Aquele de quem os mártires são. Honramos os servos para que a sua honra se possa refletir no seu Senhor, que diz Ele próprio: “quem vos recebe a vós, a mim me recebe”.»
É evidente que este texto não diz uma palavra acerca do uso das imagens no culto, que é o tema em debate. E o que diz sobre os mártires parece plenamente compreensível e aceitável para qualquer cristão. Por fim, afirma claramente que não presta nenhum tipo de culto ou adoração quer aos mártires, quer aos anjos.
Agora leiamos Agostinho contra Fausto, o maniqueu:
«É verdade que os cristãos prestam honra religiosa à memória dos mártires, para nos incitar a imitá-los, para ter parte nos seus méritos e para obter a ajuda das suas orações. Mas não erigimos altares a nenhum mártir, e sim ao Deus dos mártires, embora o façamos em memória dos mártires (...) A oferta é feita a Deus, que concedeu a coroa do martírio, enquanto feita em memória dos que foram assim coroados (...) Dedicamos aos mártires a mesma intimidade afetuosa que sentimos pelos homens santos de Deus nesta vida, quando sabemos que os seus corações estão preparados para suportar o mesmo sofrimento pela verdade do Evangelho. Há mais devoção nos nossos sentimentos em relação aos mártires porque sabemos que a sua luta terminou; e podemos falar com mais confiança em louvor daqueles que já são vencedores no céu do que daqueles que ainda combatem na terra. O culto propriamente divino, que os gregos chamam latria, e para o qual não há palavra em latim, tanto na doutrina como na prática, prestamo-lo exclusivamente a Deus. A este culto pertence a oferta de sacrifícios — como se observa na palavra idolatria, que significa dar este culto aos ídolos. Consequentemente, nunca oferecemos, nem exigimos que alguém ofereça, um sacrifício a um mártir, a uma alma santa ou a um anjo. Quem quer que caia neste erro é instruído pela doutrina, seja por forma de correção, seja de advertência. Pois os próprios seres santos, sejam homens ou anjos, recusam-se a aceitar o que sabem ser devido apenas a Deus (...) Sacrificar aos mártires, mesmo em jejum, é pior do que regressar a casa embriagado da sua festa; sacrificar aos mártires, digo — o que é algo muito diferente de sacrificar a Deus em memória dos mártires, como o fazemos constantemente, da maneira requerida desde a revelação do Novo Testamento —, porque isso pertence ao culto ou latria que se deve unicamente a Deus.»
Como se pode ver, Agostinho estabelece a distinção entre latria e a honra prestada aos mártires, mas não menciona, de modo algum, a dulia, deixando claro que tal honra é qualitativamente semelhante à que se deve às pessoas santas ainda vivas. Isto corrobora a afirmação de que a suposta distinção entre latria e dulia é posterior.
Como se tal não bastasse, nem a citação do Martyrium Polycarpi, nem a de Jerónimo, nem a de Agostinho dizem uma única palavra sobre o tema em questão — que, caso alguém se tenha esquecido, é o culto às imagens.
Tudo isto nos indica CLARAMENTE que, muito antes de São Gregório Magno, JÁ se sabia, amplamente, que o culto de Adoração a Deus e o culto de Veneração de Relíquias e Santos eram diferentes; por isso, São Gregório Magno não podia ignorar que existiam distintos tipos de culto.
Como acabo de assinalar, o que proclama como sendo tão claro e amplamente sabido não o é, de modo algum.
O autor fala aqui do desenvolvimento do culto às imagens, embora a sua comparação não seja muito acertada: em praticamente todos os templos católicos há imagens de Cristo e cruzes. O autor diz acertadamente que o culto às imagens não remonta aos tempos primitivos. O culto relativo de dulia às imagens não remonta aos tempos primitivos devido ao paganismo e ao perigo que representava o culto às imagens na altura em que o cristianismo convivia com ele.
Menos mal... Significa isto, portanto, que a proibição podia ser ignorada caso já não houvesse perigo... O facto é que o perigo da idolatria nunca desapareceu, como o demonstram os frequentes abusos que a este respeito se toleram no seio da grei católica.

Neste sentido, é bastante ilustrativa a obra de J. Seznec, The Survival of the Pagan Gods: The Mythological Tradition and Its Place in Renaissance Humanism and Art (New York: Princeton University Press, 1953).

De qualquer modo, pelo menos admite que o culto às imagens (o nosso tema) não existia nos tempos primitivos — ou seja, acrescento eu, durante os primeiros quatro séculos da nossa era. A irrupção do culto às imagens foi introduzida como contrabando no cristianismo quando este se tornou a religião oficial do Império. 
O que existia nos tempos primitivos era o culto relativo de dulia aos santos e às relíquias, o que indica distinções: no paganismo, embora se conhecesse o culto látrico às imagens, NÃO se prestava nenhum tipo de culto a "santos" ou "relíquias"; por isso, no que se refere a santos e relíquias, o cristianismo apresentava grandes diferenças em relação ao paganismo, o que permitiu que os Padres da Igreja anteriormente mencionados reconhecessem outros tipos de culto.
Esta parte é confusa, possivelmente devido à sua repetida tentativa de equiparar a veneração a quem nos precedeu na fé ao tipo de culto a que mais tarde se chamou dulia.
Nos escritos clássicos e nos Padres da Igreja mais antigos, latreia, douleia e vocábulos afins usavam-se de forma intercambiável. Ambas as palavras estão relacionadas com o conceito de “servir”. Isto é também evidente no Novo Testamento:
«Outrora, quando não conhecíeis a Deus, servíeis (edouleusate) àqueles que por natureza não são deuses.» (Gálatas 4:8)
«Porque eles mesmos anunciam, a nosso respeito, qual a receção que tivemos entre vós e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes (douleuein) ao Deus vivo e verdadeiro...» (1 Tessalonicenses 1:9)
Daqui resulta que deve ficar claro que a veneração de que se falava desde o Martyrium Polycarpi não é o mesmo que o culto às imagens sancionado no II Concílio de Niceia, nem o justifica.
A memória afetuosa dos mártires e o respeito pelos seus restos mortais visavam honrar o seu testemunho histórico de fidelidade, e não transferir a devoção para suportes materiais ou objetos esculpidos. Tentar equiparar esse afeto dos primeiros cristãos ao posterior aparato litúrgico de genuflexões, incensos e orações diante de ícones é um anacronismo histórico e teológico. Trata-se de uma tentativa de legitimar retroativamente uma prática que a Igreja dos primeiros séculos desconhecia e rejeitava categoricamente.
“Mais de 300 bispos reuniram-se num concílio convocado em Hieria por Constantino V, filho e sucessor de Leão III, em 754. Ali, após escutar e discutir os argumentos dos partidários das imagens, estabeleceu-se que os únicos símbolos do culto cristão eram o pão e o vinho da Eucaristia.” O autor não nos dá o número do Denzinger do Concílio que estabeleceu tal coisa, pelo que fico à espera de que nos proporcione esse dado. Seria interessante determinar quem estabeleceu que o Pão e o Vinho eram "símbolos".
Trata-se de outro recurso retórico, por duas razões:
1) Se alguém alguma vez teve um Denzinger nas mãos, saberá que o material está disposto por ordem cronológica, pelo que não é estritamente necessária numeração alguma para localizar um texto, caso se conheça o ano em que foi promulgado.
2) Obviamente, este Concílio nunca foi incluído no Denzinger, que é uma compilação contemporânea do que a Igreja de Roma hoje crê e ensina.
Em todo o caso, reproduzo abaixo o parágrafo relevante:
«A única figura admissível da humanidade de Cristo é o pão e o vinho na Santa Ceia. Esta e nenhuma outra forma, este e nenhum outro tipo escolheu Ele para representar a sua encarnação. Ordenou que se trouxesse pão, mas não uma representação da forma humana, para que não surgisse a idolatria.»
(The Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series. Philip Schaff, Henry Wace, Eds. Edinburgh: T&T Clark and Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1899; Reprinted 1988. Vol. 14, p. 544).
“As resoluções do sínodo foram assinadas pela regente Irene e pelo seu filho Constantino VI. Foi neste concílio que se introduziu a arbitrária distinção entre o culto de latria, devido exclusivamente a Deus, e o de dulia, que seria lícito prestar aos santos. Falou-se também de um culto «terminativo», dirigido à pessoa, e de outro «relativo», dirigido à imagem que a representa.”
Já ficou demonstrado que São Jerónimo e outros Padres da Igreja reconheciam diferentes graus e tipos de culto muito ANTES deste Concílio de Niceia, pelo que é impossível que tenha sido neste concílio que se introduziram essas distinções. Os termos sim, mas não as distinções; estas JÁ eram reconhecidas muito antes.
Ah, os termos sim, são uma novidade, mas não a distinção...
Precisamente: este é o ponto central. A diferença entre o culto devido a Deus e a honra de que falou Jerónimo, ou a intimidade afetuosa a que se refere Agostinho, é qualitativamente distinta da gradação que se estabeleceu em Niceia. Não se trata de uma simples elaboração, mas de uma novidade teológica que apenas podia fundamentar-se em referências vagas à “tradição”, sem qualquer prova documental, fosse nas Escrituras ou nos autores cristãos dos primeiros séculos.
“Sem dúvida, tais bizantinismos (stricto sensu) são por completo alheios às Escrituras, nas quais há um só culto válido: aquele que é prestado ao Deus Trino.”
As Escrituras NÃO dizem que haja apenas um tipo de culto, embora deixem claro que só a Deus se deve adorar. Também há na Escritura outros tipos de culto e bases para os mesmos:
Santos (Daniel 8, 17; Tobias 12, 16; 2 Macabeus 15, 11-16; Tobias 12, 12; Apocalipse 8, 3)
Imagens (Números 21, 8)
Relíquias (Êxodo 13, 19; 2 Reis 13, 21; Atos dos Apóstolos 19, 12).
As referências bíblicas fornecidas não apoiam, de modo algum, a tese católica.
Daniel 8:17 diz que o profeta caiu com o rosto em terra devido ao medo, e não num ato de adoração ou culto. Além disso, não era um "santo", mas sim um anjo quem ele tinha à sua frente.
Em Apocalipse 8:3, não há qualquer culto aos santos; pelo contrário, um anjo medeia a adoração oferecida a Deus pelos santos.
Em Números 21:8, também não se trata de um ato de culto, mas sim do remédio providenciado por Deus para a praga das serpentes.
Êxodo 13:19 refere-se ao transporte dos restos mortais de José, não para lhes prestar qualquer culto, mas para dar cumprimento à sua vontade.
2 Reis 13:21 não descreve nenhum culto, mencionando apenas, de forma muito concisa, um milagre operado através dos ossos de Eliseu.
Atos dos Apóstolos 19:12 também não descreve qualquer classe de culto, mas sim os milagres que Deus operava (v. 11) por intermédio de Paulo.
A evidência fornecida por Tobias e 2 Macabeus não é aceitável, por não terem sido estes livros reconhecidos como canónicos pelos judeus. Não obstante, ainda que, por mero exercício de argumento, os admitíssemos, estes também não sustentariam a tese romana:

Tobias 12:12 (fala o anjo Rafael): «Quando tu e Sara oráveis, era eu quem apresentava as vossas súplicas diante da Glória do Senhor e as lia; eu fazia o mesmo quando enterravas os mortos.»

O texto refere-se ao trabalho de mediação que os anjos realizam, e não a algum culto prestado aos anjos.

Tobias 12:16: «Ficaram ambos cheios de espanto e caíram com o rosto em terra, tomados de grande temor.»

É um caso análogo ao de Daniel 8:17: não se trata de um ato de culto, mas de uma reação provocada pelo medo. O anjo encoraja-os e acrescenta que é a Deus que devem bendizer e adorar (vv. 17-21). 
2 Macabeus 15:11-16 refere um sonho ou visão de Macabeu, onde aparece o sacerdote Onias a orar e, em seguida, o profeta Jeremias. A respeito deste, diz Onias: «Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo seu povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.» Não há qualquer indicação de que Onias preste algum culto a Jeremias.
Além de estes textos narrativos não demonstrarem que fosse prestado culto a qualquer criatura, não existe nenhum texto bíblico que prescreva ou ensine tal tipo de culto.
Quando Paulo e Barnabé foram tomados por deuses, rejeitaram com horror o culto que se lhes pretendia prestar, perdendo uma excelente oportunidade para explicar que havia outro tipo de culto (dulia) que era lícito (Atos dos Apóstolos 14:8-18).
Da mesma forma, o anjo diante do qual João se prostrou desperdiçou, em duas ocasiões, a oportunidade de explicar ao vidente de Patmos que havia um tipo de culto (dulia, distinto do dirigido a Deus) que lhe era lícito aceitar. Na verdade, as suas palavras excluem categoricamente que se deva prestar culto a santos e a anjos (Apocalipse 19:10; 22:8-9).
“Este concílio niceno, de triste memória, ao não conseguir fundamentar escrituralmente o culto às imagens, declarou a insuficiência das Escrituras e lançou um anátema contra todos os que não estivessem dispostos a aceitar doutrinas com base apenas na autoridade da tradição e dos concílios, caso estas carecessem de um claro fundamento bíblico.”
O autor omite, novamente, o número — ou números — do Denzinger referente a tal Concílio... Falta aqui um trabalho de investigação histórica.
Ainda que, pelas razões que assinalei anteriormente, não seja necessária a numeração do Denzinger para localizar uma declaração nessa obra, a verdade é que, neste caso, o meu interlocutor leu o texto com descuido, uma vez que essa numeração se encontra indicada no final da citação.
“Note-se que os bispos iconólatras nem sequer conseguiram apelar a uma suposta tradição apostólica, pois nenhuma existia para apoiar o culto às imagens.”
O autor acusa os bispos de serem "iconólatras", sem apresentar provas históricas de que esses bispos tenham prestado um culto de latria às imagens — o que os tornaria, efetivamente, "iconólatras". Falta aqui mais um elemento de investigação histórica.
Haja paciência... As provas históricas são as que até aqui foram acumuladas, e que demonstram claramente que a prática do culto às imagens se introduziu na Igreja de Cristo procedente não das Escrituras nem da tradição cristã mais antiga, mas de práticas e conceções pagãs. Os bispos de Niceia tentaram desembaraçar-se da acusação de iconolatria recorrendo à distinção artificial e injustificada entre latria e dulia, evidentemente para se justificarem como “iconódulos” (literalmente escravos dos ícones) em vez de "iconólatras" (adoradores dos ícones). Trata-se, porém, de um mero verniz para dissimular o desvio fundamental que sancionaram em relação à Igreja antiga.
“Esgrimiram, em contrapartida, uma espúria «tradição da Igreja Católica» quando, na realidade, todos os escritores cristãos dos primeiros séculos que trataram o tema se opuseram por completo a semelhante abominação.”
Lendo o trecho anterior, “semelhante abominação” era o culto idolátrico às imagens, algo que os próprios bispos “iconólatras” não aceitariam... Caso contrário, não teriam proposto, no Concílio de Niceia, termos distintos para ambos os tipos de culto.
“Outro tipo” de culto que não se pode documentar nem na Igreja antiga (pré-nicena) nem, muitíssimo menos, nas Escrituras.
“Em conclusão, o culto às imagens — expressamente proibido na Bíblia”
Se o autor se arroga o direito de revogar o primeiro ponto do mandamento de Êxodo 20, 4-5 (a criação de imagens), por o tomar de modo RELATIVO, os católicos podem, com igual direito, revogar o valor absoluto do segundo ponto (o culto às imagens) e tomá-lo do mesmo modo relativo; de modo que o culto proibido na Bíblia é, não nos resta dúvida, o culto idolátrico, e NÃO o relativo de dulia — ao qual se aproxima, muito de perto, o episódio da Serpente de Bronze.
Como deve ficar claro do que precede, eu não me arrogo nenhum direito salvo o de praticar uma correta exegese. Por razões que já apresentei, é arbitrário desdobrar o mandamento em duas partes, como pretende o meu interlocutor iconódulo.
O episódio da serpente de bronze não é, de modo algum, um ato de culto, quer absoluto, quer relativo. Pela minha parte, reconheço aos católicos todo o direito de invocarem as razões que quiserem e de adotarem as práticas que entenderem. O que não admito é que pretendam apresentá-las como compatíveis com as Escrituras e, muito menos, como sendo por elas ensinadas.
“rejeitado unanimemente com horror pelos mestres cristãos primitivos e condenado quer pelo bispo de Roma, Gregório I, quer pelos trezentos bispos reunidos no Concílio de Hieria”
Naturalmente, tais cristãos primitivos rejeitavam a idolatria às imagens, pelo que a Igreja Católica a condena da mesma forma.
Vamos lá outra vez: as Escrituras e os cristãos antigos rejeitavam todo e qualquer culto dirigido às imagens, e não apenas um tipo determinado.
“Assim, caros católicos e ortodoxos, convido-vos a rejeitar os falsos mestres que vos extraviam e a regressar às Escrituras e à prática da Igreja primitiva.”
Certamente que tenho em conta a recomendação do autor e, quando a Igreja me disser que devo adorar imagens, sairei dela; mas, enquanto me disser que as posso VENERAR (não como dever, mas como opção), não vejo motivos para sair dela.
Era o que mais faltava. É óbvio que não vê motivos — colocou a fasquia no impossível, admitindo que só sairá no dia em que a sua Igreja prescreva abertamente o inadmissível!
Em todo o caso, impõe-se corrigir, mais uma vez, a errónea conceção de que prestar culto às imagens é, para um católico, uma mera opção. Eis os anátemas relativos às sagradas imagens:
1. Se alguém não confessa que Cristo, nosso Deus, pode ser representado na sua humanidade, seja anátema.
2. Se alguém não aceita a representação na arte de cenas evangélicas, seja anátema.
3. Se alguém não saúda tais representações como símbolos do Senhor e dos Seus santos, seja anátema.
4. Se alguém rejeita qualquer tradição da Igreja, quer escrita, quer não escrita, seja anátema.
(Retirado de Documenta Catholica Omnia)
No Denzinger (606-609) consta uma versão algo diferente.
Opcional... é preciso descaramento!
A validade do culto às imagens foi objeto de uma definição dogmática por um concílio ecuménico (II Concílio de Niceia), mais tarde reafirmada por outro menos ecuménico (Trento), mas igualmente tido como tal pela Igreja de Roma. É, segundo a teologia católica, uma verdade de fé, já que foi — dizem — ensinada por Deus e proposta pelo Magistério.
Os bispos nicenos declararam:
«Seguindo a doutrina divinamente inspirada dos nossos santos Padres e a tradição da Igreja Católica, que nós sabemos ser a tradição do Espírito Santo que nela habita, definimos com toda a certeza e cuidado que as veneráveis e santas imagens, bem como as representações da Cruz preciosa e vivificante, pintadas, representadas em mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus [...] Porque, quanto mais frequentemente são contemplados por meio da sua representação em imagem, tanto mais aqueles que as contemplam são levados à recordação e ao desejo dos seus originais, e a tributar-lhes a saudação e a adoração de honra [grego: aspasmós kai timêtikê proskynêsis], não, certamente, a verdadeira latria que, segundo a nossa fé, só convém à natureza divina, mas [...] honrando-as com a oferta de incenso e de luzes, segundo o piedoso costume dos antigos.» (Denzinger 600; negrito acrescentado).
É interessante notar que, enquanto se reserva a latria exclusivamente para Deus, se utilize para o culto aos ícones o termo proskynêsis — quando a maioria das cerca de 60 ocorrências do verbo proskyneô no Novo Testamento corresponde precisamente à honra e adoração devidas a Deus. Do mesmo modo, o termo «adorador» (no grego, proskynêtês) foi utilizado pelo Senhor para se referir ao culto devido unicamente a Deus (João 4:23).
Este texto é citado pelo Catecismo da Igreja Católica (§ 1161).
Também esta pérola:
«Para dizer brevemente a nossa profissão de fé, nós conservamos todas as tradições da Igreja, escritas ou não, que nos foram transmitidas intactas. Uma delas é a representação pictórica das imagens...» (Ibid. § 1160; negrito acrescentado).
O que o Catecismo não cita é a sanção correspondente, hoje politicamente incorreta: 
«Aqueles, pois, que se atreverem a pensar ou a ensinar de outra maneira, ou a descartar, seguindo os sacrílegos hereges, as tradições da Igreja e a inventar novidades, ou a rejeitar alguma das coisas consagradas à Igreja... se forem bispos ou clérigos, ordenamos que sejam depostos; se forem monges ou leigos, que sejam excomungados.»
P.S.: O autor mencionou o Manual de Teologia Dogmática, de Ludwig Ott, explicando quando surgiu o culto às imagens nas igrejas gregas, mas omitiu (este autor omite muitas coisas...) indicar quem defendeu tal culto.
Obviamente, o facto de alguém citar um autor a propósito de um assunto específico não exige que transcreva tudo o que ele disse.
De resto, e falando de omissões, noto que a sua crítica se dirige a aspectos selecionados da minha apresentação — obviamente aqueles que considerou mais discutíveis.
Recordando os ensinamentos de São Jerónimo, para alguns mestres do conflito iconoclasta e, na verdade, para a doutrina católica atual, fica claro que o culto às imagens é idêntico ao prestado às relíquias (este, sim, remonta aos tempos primitivos): ou seja, trata-se do culto relativo de dulia.
Como referi noutro lugar, o culto às imagens não é o mesmo, pelo menos em princípio, que a conservação de relíquias. Os restos mortais e os pertences daqueles que nos precederam na fé devem ser tratados com respeito. A conservação das relíquias dos santos mártires não é uma prática ensinada explicitamente na Bíblia, mas não parece contrária às Escrituras, dado que existem exemplos que a sustentam.
Ora, prestar-lhes culto — mesmo que relativo — é já um assunto completamente diferente, tal como o é esperar milagres por seu intermédio, como se Deus se tivesse comprometido a operar através de restos mortais ou objetos de santos falecidos. O problema é que a Igreja de Roma vai, no seu ensino, muito além da mera reverência devida às relíquias, ao doutrinar que é lícito e proveitoso prestar-lhes culto, com o pretexto de que, com isso, se honra na realidade a Deus: «pois quando adoramos e veneramos as relíquias dos mártires e dos confessores adoramos Aquele do qual eles são mártires e confessores; honramos os servos, para que a honra redunde ao Senhor que disse: “Quem vos recebe a mim me recebe" [Mt 10,40]» (João XV, 985-996 e Concílio Romano de 993; Denzinger 675). No entanto, nem os apóstolos nem os anjos de Deus (Apocalipse 22:8-9) aceitaram algum tipo de veneração — mesmo que «relativa».
Para além disso, uma coisa é uma relíquia — ou seja, um objeto ou fragmento dos pertences ou dos restos mortais de algum santo, da cruz de Cristo, etc. —, e outra, muito diferente, é uma imagem, frequentemente fruto da imaginação do artista. A relíquia, se for autêntica, tem uma ligação direta com o santo, visto ter feito parte do seu corpo ou dos seus haveres. A imagem, por sua vez, não possui qualquer outra relação além daquela que lhe é atribuída pela crença de quem a venera.
São João Damasceno, Germano e Nicéforo de Constantinopla, bem como o abade Teodoro do Estúdio, deixaram claro o caráter relativo do culto às imagens.
Nenhum deles nasceu antes do século VII — todos raciocinando a posteriori, com base na prática em que o culto se tornara, para o justificarem à custa da Escritura e inclusivamente da tradição mais antiga e fidedigna.
O facto de, nessa época, o culto às imagens contar com defensores não altera a sua conspícua ausência nos séculos anteriores, por mais «tradição» que o II Concílio de Niceia invocasse.

3 comentários:

  1. "Que o mandato foi dado primeiramente aos hebreus (por então não eram conhecidos como judeus) não cabe dúvida."

    Por que ? Qual a diferença substancial entre os Hebreus e os Judeus?

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  2. A apologética católica,principalmente os nossos "conhecidos" apologistas, sobre as imagens de escultura se baseia em algumas premissas:

    1-Mostrar que Deus mandou fazer imagens baseado nas passagens dos querubins e da serpente de bronze,portanto,Deus não proibiu de se fazer imagens e como Deus não pode se contradizer,sob pena de não ser Deus, a fabricação de imagens está permitida!Entretanto,conforme frisou o autor do site brilhantemente,DEUS proibiu TAXATIVAMENTE a fabricação de imagens com o objetivo de prestar-lhes culto!

    2-Mostrar que a proibição foi somente para os ídolos pagãos ou mostrar que a adoração dos santos difere substancialmente da adoração pagã!Isto também é refutado aqui no blog!

    3-Apontar os erros comportamentais e vicíos doutrinários da Igrejas evangélicas e mostrar que existe idolatria no meio evangélico!Isto não negamos!Que algum "evangélico" ou pseudopastor mal formado ou ignorante nas Sagradas Escrituras permita que o foco da adoração seja desviado para outro que não seja Deus,entretanto,isto não nos é posto como ensinamento ou dogma e os que o fazem estão fora do nosso padrão!!!Os que o fazem são o "Joio e não o Trigo"!

    4-Mostrar que não se trata de adoração e sim de veneração,respeito e admiração!!!!!

    Estes são os argumentos mais comuns utilizados!!!!!Inclusive pelos grandes apologistas romanistas,padres,freis...e não apenas por estes blogueiros "cristãos" que nós já conhecemos!!!!!

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  3. [Olhar crítico] Que o mandato foi dado primeiramente aos hebreus (por então não eram conhecidos como judeus) não cabe dúvida."

    Por que ? Qual a diferença substancial entre os Hebreus e os Judeus?


    O termo «hebreu» foi aplicado inicialmente a Abraão (Gn 14:13) e por extensão aos seus descendentes pela linhagem de Isaque. Por isso quando Moisés recebeu o Decálogo o povo que liderava era conhecido como o povo hebreu.

    O vocábulo judeu provém do hebraico yehudi. Inicialmente aplicava-se aos membros da tribo de Judá, um dos doze filhos de Jacob.

    Quando a nação se dividiu em dois reinos, chamou-se yehudi a todo o súbdito do reino do sul, independentemente da sua tribo de origem. Quando o reino do Norte (Israel) foi dominado pela Assíria, o termo começou a usar-se – em especial fora de Judá - em relação a todos os hebreus; os próprios hebreus do reino de Judá preferiram, por seu lado, denominar-se «israelitas».

    Seja como for, o termo «judeu» foi o que finalmente se impôs para denominar este singular povo, ainda que sem fazer desaparecer as outras denominações (hebreu e israelita).

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