A Igreja Católica Romana divide-se entre o Magistério — constituído pelo clero, principalmente o Papa e os bispos em comunhão com ele — e os leigos, que são os crentes comuns. Os leigos estão obrigados a aderir ao que o Magistério ensina, porquanto este é considerado a única voz autorizada da verdade. Esta estrutura cria uma bizarria epistemológica na relação entre os crentes comuns e o Magistério, na medida em que o leigo tende a encarar os ensinamentos magisteriais como leis a que deve estrita obediência, em sentido jurídico.
Em discussões do âmbito da «verdade», isto redunda no absurdo de, para um leigo, a verdade ser estabelecida «por decreto» do Magistério. Os leigos ficam, assim, remetidos a um estado niilista: a única forma de acederem ao conhecimento de uma verdade de fé ou de moral é através do ensino do Magistério.
No caso particular da Bíblia, é frequente os leigos católicos — sobretudo os doutrinados por plataformas de apologética católica — afirmarem que acreditam na Escritura porque a «Igreja» (leia-se: o Magistério Romano) o ordena, ou que aceitam a sua inspiração apenas e só porque o Magistério assim o declara. Na cosmovisão destes leigos, não existe outra via para dar crédito à Bíblia ou reconhecer a sua inspiração divina que não seja a chancelada «por decreto» do Magistério. Ou seja, a confiabilidade e a autoridade da Bíblia são fixadas de forma puramente heterónoma: pouco importa se o Magistério apresenta bons ou maus argumentos — aliás, avaliar a validade de tais argumentos é algo que se considera totalmente fora do alcance do leigo.
Por exemplo, num breve diálogo que mantive recentemente, o meu interlocutor católico — além de ter incorrido num autêntico «suicídio epistemológico» logo à segunda mensagem — demonstrava ignorar que o próprio fundamento do seu Magistério para ensinar que as Escrituras são sagradas e canónicas reside no facto de estas serem inspiradas por Deus. Para ele, os livros da Bíblia são sagrados simplesmente porque o Magistério diz que o são. Na verdade, para a lógica deste leigo, o fundamento objetivo que o Magistério possa ter para ensinar uma doutrina é irrelevante; o que conta é o seu «ditame». Não é por acaso que se acaba por aceitar acriticamente coisas tão infundadas, como a Imaculada Conceição, a transubstanciação ou a infalibilidade papal.
Estamos, portanto, perante uma distorção epistemológica que conduz a uma visão profundamente equivocada do que é a Bíblia.
A Bíblia não é um documento legal emanado de uma autoridade eclesiástica — algo que conferiria «por decreto» autoridade a escritos que, de outro modo, não a teriam, impondo a sua aceitação por força de lei.
A Bíblia reúne relatos históricos, ensinamentos e testemunhos de múltiplos autores, transmitidos ao longo de gerações, que recebemos e aos quais podemos dar ou recusar crédito. Sim, podemos, porque somos dotados de razão e de sentidos para discernir a verdade e dar passos de fé racionalmente plausíveis; o niilismo e a cegueira intelectual não são virtudes cristãs. Uma vez constatada a veracidade e a fidedignidade do conteúdo bíblico, segue-se logicamente o reconhecimento da sua inspiração divina, até porque o próprio texto reivindica essa origem. Posteriormente, a experiência pessoal e o testemunho interior do Espírito Santo no crente vêm confirmar e selar essa convicção.
Na vida real, quando alguém contacta pela primeira vez com a Bíblia, passa a considerá-la autoritativa na medida em que reconhece a fiabilidade do seu conteúdo e experimenta o seu impacto transformador na própria vida — e não porque um determinado grupo, num passado remoto e distante, «decretou» que aquele livro possuía autoridade. Seria um absurdo pretender que a fé na Escritura assentasse apenas nesse motivo, pois isso equivaleria a aceitar que a verdade se define por mero decreto humano.
Portanto, para quem crê, a Bíblia possui uma autoridade intrínseca que emana do seu Autor divino, não dependendo de qualquer sanção humana em geral, nem eclesiástica em particular.
Em suma, a autoridade da Bíblia é totalmente independente da autoridade da Igreja. Ser verdadeira é a condição necessária e suficiente para que a Bíblia seja autoritativa. É a própria verdade que possui autoridade e que se impõe à consciência.
Os cristãos confessam a Bíblia, exercem a fé no seu conteúdo e proclamam a sua verdade; não prestam uma obediência ex nihilo a um magistério eclesiástico autocrático.