31 de março de 2011

RESPOSTA A “O PURGATÓRIO” DE CATHOLIC ANSWERS [1]


O PURGATÓRIO

O Catecismo da Igreja Católica define o Purgatório como uma "purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu", que é experimentada pelos "que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados" (CIC 1030). O documento acrescenta que "esta purificação final dos eleitos… é absolutamente distinta do castigo dos condenados" (CIC 1031).

Efetivamente, o novo Catecismo da Igreja Católica (CIC) dá esta "definição". A título de comparação, vejamos o que diz o Denzinger, uma obra de referência reconhecida que reúne uma compilação de documentos oficiais até 1954. Os números remetem para os parágrafos desses documentos; os que estão em itálico correspondem a proposições condenadas.

2) O que é o Purgatório. Não consiste unicamente no temor do moribundo (744), mas em penas satisfatórias sofridas pelas almas (464, 530, 570 t, 693, 840, 983), as quais são atormentadas pelo fogo (570 t). Estas não pecam ao procurar alívio nem ao ter horror a tais penas (779).

Enquanto a explicação light do CIC fala em "purificação" e apenas menciona, citando Gregório Magno, o "fogo purificador" no contexto de certas faltas leves, o Denzinger remete para documentos do magistério que referem explicitamente penas satisfatórias e tormentos.

O primeiro documento citado a propósito do Purgatório é a carta Sub catholicae, de Inocêncio IV (1254), na qual se afirma — com base em Mateus 12:32 e 1 Coríntios 3:13,15 — a existência do Purgatório, acrescentando-se o seguinte:

… Visto que [os gregos] afirmam que o lugar desta purificação não lhes foi indicado pelos seus doutores com um nome preciso e próprio, nós — que, de acordo com as tradições e autoridades dos Santos Padres, o chamamos Purgatório — queremos que, doravante, seja também assim designado entre eles. Pois é por meio desse fogo transitório que são purificados os pecados — não os graves ou capitais, que não tenham sido previamente perdoados mediante a penitência, mas sim os pequenos e leves que, mesmo tendo sido perdoados em vida, ainda pesam após a morte.

Denzinger # 456

Como se pode ver, Inocêncio IV afirma que o Purgatório é um lugar — e não uma condição ou um processo. E, nesse lugar, a purificação é realizada pelo fogo, qualificado como "transitório" para o distinguir das chamas eternas do inferno.

Na carta Super quibusdam, de 1351, dirigida por Clemente VI aos arménios, faz-se uma série de perguntas que equivalem a uma profissão de fé, entre as quais a seguinte:

Perguntamos se creste e crês que existe o Purgatório, ao qual descem as almas dos que morrem em estado de graça, mas não satisfizeram pelos seus pecados mediante uma penitência completa. Também se crês que são atormentadas temporariamente pelo fogo e que, logo que estejam purificadas, ainda antes do dia do juízo final, chegam à verdadeira e eterna beatitude, que consiste na visão de Deus face a face e no amor.

Denzinger # 570 t

Mais uma vez, segundo outro papa, o Purgatório é apresentado como um lugar onde as almas são atormentadas pelo fogo.

Mais tarde, em 1547, o Concílio de Trento, no seu Cânon 30, também pressupõe que o Purgatório é um lugar: 

Se alguém disser que, depois de recebida a graça da justificação, a culpa é perdoada e a dívida da pena eterna é apagada a todo o pecador arrependido, de tal modo que não resta dívida alguma de pena temporal a ser paga, quer neste mundo, quer no outro, no Purgatório, antes que se possa abrir a entrada no reino dos céus: seja anátema. 

Denzinger # 840

Por outras palavras, a absolvição sacerdotal resulta incompleta, pois não elimina uma suposta "pena temporal" pelo pecado — a qual tem de ser paga, quer por meio de obras meritórias, quer através de sofrimentos purificadores.

O mesmo Concílio, no seu Decreto sobre o Purgatório, de 4 de dezembro de 1563, reafirma a existência do Purgatório (Denzinger # 983).

A purificação é necessária porque, como a Escritura ensina, nada impuro entrará na presença de Deus no céu (Apoc. 21:27). Além disso, embora possamos morrer com os nossos pecados mortais perdoados, podem ainda restar em nós muitas impurezas, especificamente os pecados veniais e a pena temporal devida aos pecados já perdoados.

Dois juízos

Quando morremos, experimentamos o chamado juízo particular. A Escritura declara que «aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo» (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para o bem ou para o mal, ficando desde logo a saber qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, ocorrerá o Juízo Final (ou geral), ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos». Neste Juízo Final, todos os nossos atos e intenções serão revelados publicamente (Lc. 12:2-5).

Não há controvérsia quanto à existência dos juízos particular e final. A questão, contudo, é que a doutrina do Purgatório pressupõe um intervalo temporal entre o veredicto do juízo particular e o acesso à presença de Deus — uma demora que carece de qualquer fundamentação bíblica.

Santo Agostinho afirmou, em A Cidade de Deus, que os «castigos temporais são sofridos por alguns nesta vida somente, por outros depois da morte, por outros em ambas as situações, agora e depois; mas todos antes daquele último e severíssimo juízo final».

Trata-se de uma especulação muito interessante do ilustre bispo de Hipona. No entanto, não constitui o que eu chamaria evidência.

É, portanto, entre o juízo particular e o geral que a alma é purificada das consequências restantes do pecado: «Digo-te: não sairás dali enquanto não pagares até ao último centavo» (Lucas 12:59).

Isto é uma tentativa extraordinária de encaixar à força a doutrina do Purgatório numa parábola que fala simplesmente de chegar a um acordo com o adversário a caminho do juiz ...

O seu significado fica perfeitamente claro no texto paralelo de Mateus:

Mateus 5:21-26

«Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra o seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do Sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.

Portanto, se estiveres a apresentar a tua oferta no altar e aí te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te depressa com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, o juiz te entregue ao oficial de justiça e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que não sairás dali enquanto não pagares até ao último centavo.»

Não se está aqui a falar de penas purgatórias. Os versículos 25 e 26 constituem um apelo a fazer as pazes com os adversários em vez de arriscar as consequências judiciais, sob a forma de uma parábola tirada da vida quotidiana.

Até mesmo um comentário católico o reconhece:

«Pretendeu-se retirar do v. 26 de Mt a ideia do purgatório. Mas esta não é mais do que uma redação parabólica, popular e de tipo "sapiencial". É uma advertência de prudência humana, para os assuntos da terra, sem mais pretensões, e que se deve aproveitar para evitar outras complicações. Assim, deve-se aproveitar, analogicamente, esta lição para a ética cristã (cf. Mt 18,34-35), mas sem matizações estritas.»

Manuel de Tuya, O.P., Biblia Comentada, Profesores de Salamanca, 3.ª ed., Madrid: BAC, 1977, vol. 5A, p. 78 (destaque acrescentado).

Dinheiro, dinheiro, dinheiro

Um dos argumentos que os anticatólicos usam frequentemente para atacar o Purgatório é a ideia de que a Igreja Católica ganha dinheiro ao promulgar esta doutrina. Sem o Purgatório, afirmam, a Igreja iria à falência. Um bom número de obras de controvérsia defende que a Igreja deve a maioria das suas receitas a esta doutrina. Mas os números não o sustentam.
...

Corto este ponto por não ter qualquer interesse em discutir números. O problema da doutrina do Purgatório não é, primariamente, o de constituir um subterfúgio para arrecadar dinheiro (ainda que o arrecade) ou para exercer poder (ainda que o permita).

O verdadeiro problema é que carece de base bíblica e, apesar disso, transformou-se num dogma de assentimento obrigatório para os católicos, e ainda serve para justificar o sistema de indulgências e corroborar o caráter sacrificial da Missa.

Uma "invenção" católica?

Os fundamentalistas podem gostar de dizer que a Igreja Católica "inventou" a doutrina do Purgatório para fazer dinheiro, mas têm dificuldade em determinar exatamente quando. A maioria dos anticatólicos profissionais — os que dedicam a sua vida a atacar o "romanismo" — parecem atribuir a culpa ao Papa Gregório, o Grande, que reinou entre os anos 590 e 604 d.C.

Mas nunca consideram o pedido de Mónica, a mãe de Santo Agostinho, que pediu ao seu filho, no século IV, que se lembrasse da sua alma nas suas missas. Isto não faria qualquer sentido se ela pensasse que a sua alma não beneficiaria destas orações, como seria o caso se estivesse no inferno ou na glória completa do céu.

O autor deste penoso panfleto desqualifica os seus oponentes rotulando-os de "fundamentalistas" e "anticatólicos", mas carece por completo de autocrítica ao expor os seus próprios argumentos.

Quanto ao ponto em questão, as crenças privadas de Santa Mónica não se equivalem ao ensino oficial de um bispo de Roma na sua qualidade de tal. De modo que não se pode comparar aquilo em que a mãe de Agostinho acreditava com o que Gregório Magno ensinou. Primeiro disparate.

Atribuindo a doutrina ao Papa Gregório, não se poderiam explicar as pinturas nas catacumbas, onde os cristãos, durante as perseguições dos primeiros três séculos, registaram as orações pelos mortos.

Segundo disparate: as catacumbas também não comprovam nem defendem o Purgatório. Os registos mais primitivos limitam-se a uma afirmação ou expressão de desejo para o falecido («Dorme em Paz», «Em Paz», etc.), sem constituírem orações formais de expiação.

Mais tarde, surgem inscrições no sentido de que Deus guarde a alma do defunto ou tenha misericórdia dela. No entanto, em momento algum se insinua a ideia de que as almas estejam retidas num lugar intermédio de purgação nem a sofrer penas temporais pelos seus pecados.

Na verdade, alguns dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, como os Atos de Paulo e Tecla e o Martírio de Perpétua e Felicidade (ambos escritos durante o segundo século), referem a prática cristã da oração pelos mortos.

Terceiro disparate: o autor deveria ter vergonha de classificar como "escritos cristãos" um texto manifestamente apócrifo e lendário como os Atos de Paulo e Tecla.

Quanto ao Martírio de Perpétua e Felicidade, a obra não pertence ao século II, mas sim aos inícios do século III, dado que, com toda a probabilidade, ambas as mártires foram executadas durante a perseguição de Septímio Severo, por volta de 202 d.C.

De qualquer modo, no capítulo 2 desta obra, Perpétua relata uma visão em que vê o seu irmão Dinócrates, falecido aos sete anos de idade com o rosto devastado por um cancro. Na visão, vendo-o a sofrer, Perpétua ora fervorosamente por ele até que volta a contemplá-lo num estado de alívio e alegria, já fora do lugar de sofrimento. Em momento algum o texto menciona a presença de Deus ou descreve aquele estado como uma purificação de penas.

O próprio editor da obra faz a seguinte observação:

«A avidez com que os autores de controvérsia latinos se agarram a esta passagem fantasiosa (a qual, na verdade, subverte toda a sua própria doutrina acerca do Purgatório...) enfatiza a absoluta ausência, nos Padres primitivos, de qualquer referência a tal dogma; o qual, a ter existido, deveria aparecer em cada referência ao estado dos mortos e em cada relato da disciplina dos penitentes.» 

R. E. Wallis, PhD, Appendix: The Martyrdom of Perpetua and Felicitas, em Ante-Nicene Fathers, vol. 3, p. 706.

Como bem observa Wallis, este texto entra em contradição direta com o próprio dogma católico, uma vez que não existe a menor evidência de que Dinócrates — filho de pais pagãos e descrito por Perpétua como «meu irmão segundo a carne» — tivesse sido batizado. 

Assim sendo, segundo a teologia católica, a sua alma apenas poderia encontrar-se no Limbo das crianças ou, caso se considere que já tinha atingido a idade da razão, no inferno (o que parece ser a crença da própria Perpétua ao descrever o lugar de tormento). Sucede que, segundo a doutrina católica, tanto o inferno como o Limbo são estados definitivos e, portanto, insuscetíveis de qualquer alteração pela intercessão dos vivos.

Tais orações teriam sido oferecidas somente se os cristãos cressem no Purgatório, mesmo que não tivessem utilizado esse nome para ele. (Veja-se "As Respostas dos Padres Católicos mais conhecidos" para conhecer a existência do Purgatório nas citações destes e de outras fontes cristãs antigas.) 

Trata-se de uma inferência abusiva e totalmente injustificada, a qual pressupõe uma coerência doutrinal de que essas supostas testemunhas do Purgatório, com toda a probabilidade, careciam.

A simples expressão de afeto devocional, através de orações pelo descanso das almas dos entes queridos falecidos, não constitui qualquer prova da existência de um dogma articulado sobre o Purgatório — e, muito menos, de que tal doutrina seja verdadeira.

Por que não há protestos?

Sempre que uma data é definida para a "invenção" do Purgatório, podem apontar-se evidências históricas para mostrar que a doutrina do Purgatório existia antes dessa data.

Pois bem, seria excelente que começasse finalmente a exibi-las, porque tudo o que foi apresentado até este ponto nem sequer insinua a existência de tal doutrina em data anterior ao século V ou VI.

Além disso, se em algum momento a doutrina foi tirada da cartola por um clérigo, por que razão a história eclesiástica não regista nenhum protesto contra ele? 

Não é de todo necessário supor que a doutrina foi "tirada da cartola" por um clérigo para a declarar carente de fundamento. Agarrar-se ao mais fraco dos muitos argumentos que potencialmente se podem esgrimir contra esta doutrina é optar por refutar o alvo mais fácil, evitando enfrentar o problema central.

Um estudo da história das doutrinas indica que os cristãos dos primeiros séculos pegavam em armas (às vezes de forma especialmente sangrenta) se qualquer pessoa sugeria a menor mudança nas suas crenças. 

Caramba, isto sim é novo! Quer dizer então que os cristãos dos primeiros séculos não eram mártires, mas sim guerrilheiros... Sem dúvida, o autor está a tentar uma revisão radical e fantasiosa da história da Igreja. A ter razão, Tertuliano deveria ter dito que o sangue dos hereges, e não o dos mártires, é a semente da Igreja.

Eram pessoas extremamente conservadoras que testavam a verdade de uma doutrina perguntando: Era isto crido pelos nossos antepassados? Foi-nos dada através dos Apóstolos? 

Esta é uma visão idealizada, quase bucólica, da história eclesiástica. A realidade é que, ao longo dos séculos, se foram introduzindo e consolidando diversas doutrinas sobre as quais não existe a menor evidência — quer no texto bíblico, quer nos testemunhos da Igreja pré-nicena —, sendo o Purgatório um dos exemplos mais evidentes.

Seguramente a crença no Purgatório seria considerada uma grande mudança, se não tivesse sido crida desde o primeiro momento. Então, onde estão as evidências dos protestos?

Não existem. Não há nenhuma evidência, nos mais antigos documentos disponíveis para nós (ou noutros mais tardios, a respeito deste tema), de que os "verdadeiros crentes" da época pós-apostólica falem do Purgatório como uma "nova doutrina".

Esta é a clássica falácia do argumento pelo silêncio e, portanto, uma linha de raciocínio extremamente fraca, dada a falta de evidência positiva. 

O argumento chega a ser cómico: nos documentos mais antigos não é de esperar qualquer protesto contra uma noção que estava completamente ausente entre os cristãos ortodoxos dessa época. Não se tratava de uma doutrina nem "nova" nem "velha"; era, simplesmente, uma doutrina inexistente. 

Por conseguinte, aqueles crentes entendiam que o ensinamento oral dos Apóstolos, que os católicos chamam Tradição, e a Bíblia não só não contradizem a doutrina do Purgatório, mas, na verdade, a confirmam.

Aqui o autor, após ter falhado em apresentar qualquer evidência sólida, dá asas à sua imaginação e visualiza os cristãos dos primeiros séculos a abraçar devotamente uma doutrina cuja existência não conseguiu demonstrar.

Não é de admirar, pois, que os que negam a existência do Purgatório tendam a abordar apenas superficialmente a história da crença. 

E outros, não encontrando evidências da sua crença na história, dedicam-se simplesmente a inventá-las ou a imaginá-las.

Preferem afirmar que a Bíblia fala somente de Céu e Inferno. Mas isto também não é assim. A Bíblia fala claramente de uma terceira condição, geralmente chamada "Limbo dos Pais", onde os justos que morreram antes da Redenção esperavam que o Céu se abrisse para eles.

O "claramente" fica, naturalmente, por conta e risco do autor.

Depois da sua morte e antes da sua ressurreição, Cristo visitou o Limbo dos Pais e pregou-lhes a Boa Nova de que o Céu estaria agora aberto para eles (1 Pedro 3:19). Estas pessoas não estavam, portanto, no Céu, mas também não experimentavam os tormentos do Inferno.

Que simples! Que claro!

Todavia, qualquer pessoa com o mínimo conhecimento do Novo Testamento sabe que esta é uma das passagens mais difíceis e debatidas de toda a exegese bíblica.

O próprio exegeta católico Ricardo Franco, S.J., observa a este propósito:

«Este versículo é o que suscita maiores dificuldades, e não há palavra nele que não tenha interpretações diversas.»

Ricardo Franco, S.J., La Sagrada Escritura, Profesores de la Compañía de Jesús, 2.ª ed., Madrid: BAC, 1967, vol. NT 3, p. 282.

Claríssimo!

Alguns especularam que o Limbo dos Pais é igual ao Purgatório. Este pode ou não ser o caso. No entanto, se o Limbo dos Pais não é o Purgatório, a sua existência mostra que um estado temporal, intermédio, não é contrário à Escritura.

Se o autor pretende provar o inexistente a partir do obscuro, não creio que chegue muito longe. Antes de mais, deveria fundamentar melhor a própria existência do limbus patrum.

Veja-o desta maneira. Se o Limbo dos Pais era o Purgatório, então isso mostra-nos diretamente a existência do Purgatório. 

Se ao menos tivesse demonstrado a existência do Limbo dos Pais... Que pena esse pequeno, mas irritante detalhe!

Se o Limbo dos Pais era um estado temporal diferente, então a Bíblia diz, pelo menos, que tal estado pode existir. E, por conseguinte, prova que pode haver mais estados do que o Céu e o Inferno.

Mais uma vez, falta-lhe ainda começar a sua demonstração sobre o citado Limbo. E, mesmo que o conseguisse, isso apenas demonstraria que um terceiro estado diferente do Céu e do Inferno não é, em tese, contrário à Escritura — o que está muitíssimo longe de constituir uma evidência positiva a favor do Purgatório.

"O purgatório não está na Escritura"

Alguns Fundamentalistas também argumentam, como se isso provasse realmente alguma coisa: "A palavra purgatório não se encontra em nenhum lado da Escritura." Isto é verdade, mas não refuta a existência do purgatório ou o facto de a crença nele ter feito sempre parte do ensinamento da Igreja. Trindade e Encarnação são palavras que também não estão na Escritura; contudo, essas doutrinas são claramente ensinadas nela. Igualmente, a Escritura ensina que existe o purgatório, mesmo se não utiliza a palavra e mesmo se 1 Pedro 3:19 se refere a um lugar diferente do purgatório. 

Não é a mesma coisa — como pretende o nosso interlocutor ao tentar criar confusão — dizer que a palavra "purgatório" não se encontra na Bíblia do que dizer que a noção de Purgatório está ausente das Escrituras.

Se se tratasse apenas da ausência do termo latino, certamente não haveria qualquer objeção, desde que a ideia fosse claramente ensinada.

Por outro lado, o facto de a doutrina não ser ensinada pela Escritura é a questão verdadeiramente fundamental. 

Apesar dos seus ingentes esforços para criar confusão, a verdade é que o autor não demonstrou nem que a noção seja escritural, nem que tenha sido crida desde sempre pela Igreja.

Cristo refere-se ao pecador a quem "não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mt 12,32), sugerindo que alguém se pode libertar, depois da morte, das consequências dos seus pecados. 

Nem é preciso que lhe responda. Deixo que o faça um correligionário seu:

«A expressão de [Mateus], "não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro", está perfeitamente documentada nos escritos rabínicos, e significa simplesmente nunca.»

Manuel de Tuya, O.P., op. cit., p. 200. 

O facto de o pecado contra o Espírito Santo não ser perdoado «nem agora nem nunca» não significa que existam pecados que possam ser pagos no além.

Mesmo admitindo, por hipótese, a interpretação proposta, o texto não falaria de nenhuma pena de além-túmulo, mas sim de um perdão de além-túmulo — o que contraria a própria noção de expiação penal atribuída ao Purgatório.

Semelhantemente, Paulo diz-nos que, quando formos julgados, as obras de cada homem serão provadas. E o que sucede se a obra de um homem justo falha na prova? "Ele sofrerá perda, mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo" (1 Cor 3:15). Ora, esta perda, esta pena, não se pode referir ao envio ao Inferno, uma vez que ninguém é salvo ali; e ao Céu também não pode referir-se, uma vez que não há sofrimento ("fogo") ali. Só a doutrina católica do Purgatório explica esta passagem.

Extraordinária exegese... Basta ler o texto com atenção para ver quando será provada a obra de cada um. Paulo afirma expressamente que «o Dia» a demonstrará — o que, no contexto paulino, aponta não para penas de além-túmulo num estado intermédio, mas sim para o Juízo Final a seguir à Parusia.

Então, é claro, existe a aprovação da Bíblia de orações pelos mortos: "Belo e nobre ato, pois ele pensava na ressurreição dos mortos. Pois, se não esperasse que os mortos que caem ressurgirão de novo, orar a favor deles seria supérfluo e inútil. E se ele tinha a expectativa de que uma belíssima recompensa estaria reservada para quem repousa na piedade, a sua ideia foi santa e piedosa. Por isso, ofereceu um sacrifício a favor dos mortos, para que o seu pecado fosse perdoado" (2 Mac 12,43-45). As orações não são precisas pelos que estão no Céu, e ninguém pode ajudar os que estão no Inferno. Isso significa que algumas pessoas devem estar numa terceira condição, pelo menos temporariamente. Este versículo ilustra tão claramente a existência do Purgatório que, durante a Reforma, os protestantes tiveram de arrancar os livros dos Macabeus das suas Bíblias para evitar validar a doutrina. 

Passando por alto a calúnia histórica de que os protestantes «arrancaram» livros da Bíblia, é evidente que não aceitamos este texto de Macabeus como prova válida.

Em primeiro lugar, porque aprendemos com a própria tradição dos Padres da Igreja a não fundamentar doutrinas nos livros chamados apócrifos, eclesiásticos ou (desde o século XVI) deuterocanónicos. Em segundo lugar, porque este texto também não apoia o sistema de intercessão tal como é apresentado pela Igreja Católica.

A atitude de Judas Macabeu não se encontra autorizada por qualquer ensinamento do Antigo Testamento, especialmente se considerarmos que os judeus pelos quais ele orou e ofereceu sacrifícios tinham morrido precisamente por terem guardado para si «objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, o que a Lei proíbe aos judeus» (2 Mac 12,40). Por outras palavras, haviam violado o solene mandamento de Deus registado em Deuteronómio 7:25.

Por outro lado, embora tais ações mereçam o louvor do autor não inspirado do livro, não existe a menor indicação de que Deus tenha respondido favoravelmente a semelhante intercessão em favor de idólatras.

A oração por mortos que tombaram em prática de idolatria — a qual, segundo a teologia católica, constitui pecado mortal (o que colocaria esses judeus no Inferno e não no Purgatório) — é uma base manifestamente frágil para prestar qualquer apoio à doutrina do Purgatório.

As orações pelos mortos e a consequente doutrina do Purgatório foram parte da religião verdadeira desde antes da época de Cristo. Podemos mostrar que não só foram praticadas pelos judeus da época dos Macabeus, mas que inclusive foram conservadas pelos judeus ortodoxos de hoje, os quais recitam uma oração conhecida como o Kaddish durante onze meses depois da morte de um ser amado, de modo que o amado possa ser purificado. 

A tentativa de fundamentar o Purgatório na recitação do Kaddish do judaísmo rabínico contemporâneo incorre num anacronismo duplo: primeiro, confunde a tradição talmúdica pós-bíblica com o judaísmo do período do Segundo Templo; segundo, ignora que o Kaddish de luto (Kaddish Yatom) é primariamente uma doxologia de santificação do nome de Deus e de resignação perante a Sua vontade, e não uma prece de expiação por almas num fogo purificador de estilo tridentino.

Nada do que os judeus ortodoxos de hoje seguem quanto a esta matéria é ensinado na Bíblia (de facto, não admitem o livro de 2 Macabeus no seu cânon), mas sim na sua própria tradição talmúdica posterior.

Além disso, no cristianismo, a prática de orar pelos mortos não implica de modo algum a aceitação da doutrina do Purgatório, como atrás observei. Tratava-se de uma expressão de afeto, agradecimento ou súplica para que Deus guardasse as suas almas, e não de um sufrágio para as livrar de supostas "penas purificadoras".

Não foi a Igreja Católica que acrescentou a doutrina do purgatório. Pelo contrário, a mudança no ensinamento original teve lugar no Protestantismo, que rejeitou uma doutrina que tinha sido crida sempre pelos judeus e pelos cristãos.

Dizer isto é fácil. Que bonito seria se o pudesse demonstrar!

Por que ir para o Purgatório?

Por que razão alguém irá para o Purgatório? Para ser purificado, porque "nada impuro entrará [no Céu]" (Apoc. 21:27). Alguém que não se libertou totalmente do pecado e dos seus efeitos está, em certa medida, "impuro". Através do arrependimento pode ter alcançado a graça necessária para ser digno do Céu — o que quer dizer que foi perdoado e a sua alma está espiritualmente viva. Mas isso não é suficiente para ganhar a entrada no Céu. Necessita de ser totalmente purificado.

Se nos pusermos a especular — e a doutrina do Purgatório, que veio a tornar-se dogma "de fé", nasceu precisamente da especulação —, Deus poderia purificar todos os fiéis defuntos de maneira instantânea, sem ter de os deter num Purgatório.

Esta ideia tem muito mais apoio do que a invenção romana, visto que Paulo afirma expressamente que todos os crentes que estiverem vivos quando Cristo voltar (entre os quais haverá, certamente, muitos imperfeitos) serão transformados num instante, «num abrir e fechar de olhos» (1 Coríntios 15:51-52).

Os fundamentalistas protestantes argumentam que "a Escritura claramente revela que todas as exigências da justiça divina no pecador se satisfizeram totalmente em Jesus Cristo. Também revela que Cristo redimiu totalmente ou resgatou todo o que se havia perdido. Os defensores de um Purgatório (e da necessidade de oração pelos mortos) dizem, na realidade, que a redenção de Cristo foi incompleta... Tudo foi feito por nós por Jesus Cristo, não há nada a ser acrescentado ou feito pelo homem".

É inteiramente correto dizer que Cristo obteve toda a nossa salvação para nós na cruz. Mas isso não resolve a questão de como esta redenção se aplica a nós. A Escritura revela que se aplica no decorrer do tempo através, entre outras coisas, do processo de santificação pelo qual o cristão é tornado santo. A santificação envolve sofrimento (Rom 5:3-5), e o Purgatório é a etapa final da santificação que alguns de nós têm necessidade de experimentar antes de entrar no Céu. O Purgatório é a fase final em que Cristo nos aplica a purificação redentora que obteve para nós pela sua morte na cruz.

Não existe nenhuma contradição.

A resistência fundamentalista à doutrina bíblica do Purgatório pressupõe que há uma contradição entre Cristo redimir-nos na cruz e o processo pelo qual nos santificamos. Não há tal. E um fundamentalista não pode dizer que o sofrimento na etapa final da santificação entra em conflito com a suficiência do sacrifício de Cristo sem dizer que o sofrimento nas etapas iniciais da santificação também apresenta um conflito similar. O fundamentalista tem isto ao contrário: o nosso sofrimento na santificação não tira mérito à cruz. Pelo contrário, a cruz produz a nossa santificação, a qual resulta em sofrimento, porque "nenhuma correção parece, no momento, ser motivo de gozo, mas de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça" (Heb 12:11). 

Nada impuro

O Purgatório faz sentido porque existe o requisito de que uma alma declarada justa deve estar realmente limpa antes que possa entrar na vida eterna. Afinal, se uma alma culpada é meramente "aprovada", se o seu estado pecaminoso ainda existe mas é oficialmente ignorado, continua a ser uma alma culpada. Ainda está impura.

A teologia católica leva a sério a noção de que "nada impuro entrará no Céu". Disto deduz-se que uma alma imperfeitamente purificada, mesmo que "aprovada", continua a ser uma alma suja e não serve para o Céu. Necessita de ser purificada ou "purgada" das suas imperfeições restantes. A purificação ocorre no Purgatório. De facto, a necessidade de purgar é ensinada noutras passagens da Escritura, tal como 2 Tessalonicenses 2:13, a qual declara que Deus nos escolheu "para a salvação, pela santificação do Espírito". A santificação não é, portanto, uma opção, algo que pode ou não suceder antes que se consiga entrar no Céu. É um requisito absoluto, como Hebreus 12:14 indica quando exige que nos esforcemos pela "santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor". 

Sinceramente já me cansei de tanta chachada. O autor limita-se a repetir ciclicamente os mesmos sofismas, na esperança de convencer algum leitor incauto pela mera insistência.

Apenas acrescento que dificilmente o texto invocado de 2 Tessalonicenses 2:13 ensina um Purgatório, quando apresenta a santificação do Espírito e a fé na verdade como o meio gracioso através do qual Deus opera a salvação nesta vida. Não existe ali a menor alusão a uma purificação expiatória de além-túmulo.

[1] O artigo original em inglês encontra-se publicado Aqui

20 de março de 2011

O PURGATÓRIO E OS PADRES DA IGREJA

A seguir, apresenta-se uma resposta a um católico (texto em azul) que defendia que os Padres da Igreja acreditavam na doutrina do Purgatório. 
filósofo_católico: Não há escritos na Igreja Primitiva sobre o purgatório? A evidência extrabíblica mais explícita da crença na doutrina do purgatório na Igreja Antiga encontra-se nas suas liturgias. Sem exceção, no Oriente e no Ocidente, as várias liturgias eucarísticas continham pelo menos um memento mori — uma "lembrança dos mortos". Não teria sentido orar pelos mortos se fosse certo que já estavam no céu, onde não precisariam de orações; se estivessem no inferno, a oração também não lhes traria qualquer benefício. Contudo, a Igreja sabia na altura, tal como sabe agora, que existe um "estado intermédio", no qual alguns dos que morrem em estado de graça — e cuja salvação está garantida — podem beneficiar das nossas orações.
O problema desta argumentação é que a Igreja Primitiva podia fazer a lembrança dos mortos sem introduzir a ideia de purgatório no processo. A Igreja pode orar pelos mortos independentemente da existência de um purgatório, e é precisamente isso que a evidência histórica revela. Como esclarece o historiador e académico especialista em Idade Média, Jacques Le Goff:
«Finalmente, alguns destes textos descrevem um lugar que, apesar de ser bastante semelhante ao "seio de Abraão", nem sempre é idêntico a ele: o refrigerium. Várias inscrições funerárias mencionam as palavras refrigerium ou refrigerare ("refrigério", "refrigerar"), tanto isoladamente como em conjunto com a palavra pax ("paz"): in pace et in refrigerio, esto in refrigerio ("que ele esteja em refrigério"), in refrigerio anima tua ("que a sua alma esteja em refrigério"), Deus refrigeret spiritum tuum ("que Deus refrigere o seu espírito").
Um excelente estudo filológico de Christine Mohrmann traçou claramente a evolução semântica de refrigerium do latim clássico para o latim cristão: «Paralelamente a estas definições bastante vagas e inconstantes, as palavras refrigerare e refrigerium assumiram, na linguagem cristã, um significado técnico muito preciso: a felicidade celestial. Encontramos refrigerium usado neste sentido já em Tertuliano, em cujos escritos denota tanto a felicidade temporária das almas que esperam o regresso de Cristo no seio de Abraão — segundo a concepção do próprio Tertuliano sobre o assunto —, como a eterna bem-aventurança do Paraíso, que é gozada pelos mártires a partir do momento em que morrem e que é prometida aos eleitos após o veredicto divino final… Entre os escritores cristãos mais tardios, refrigerium é usado de forma geral para designar as alegrias do mundo do além, prometidas por Deus aos eleitos.
Refrigerium tem um lugar especial na pré-história do purgatório apenas devido à concepção pessoal de Tertuliano, à qual Mohrmann alude no parágrafo anterior. De facto, como vimos, refrigerium denota um estado quase-paradisíaco de felicidade e não um lugar. Contudo, Tertuliano imaginou um tipo especial de refrigerium: o refrigerium interim ou "refrigério intermédio", reservado a alguns dos mortos escolhidos por Deus como merecedores de um tratamento especial no período entre a sua morte e o momento do juízo final (The Birth of Purgatory, Cap. 1, pp. 46-47).»
Como Le Goff afirma acertadamente, estas orações (que dizes encontrarem-se nas liturgias antigas) não refletem a crença num purgatório. Orava-se por refrigerium — um refrigério de felicidade celestial. Para enquadrar esta questão na perspetiva correta: as orações pelos mortos não têm de ser reduzidas à falsa dicotomia de que «não teria sentido orar pelos mortos se fosse certo que já estavam no céu, onde não precisariam de orações; se estivessem no inferno, a oração também não lhes traria qualquer benefício», precisamente porque alguns na Igreja Primitiva oravam pelo refrigerium. Portanto, sim: podia-se orar pelos mortos na Igreja Primitiva sem aderir ao conceito de purgatório.
Aqui estão alguns dos Padres da Igreja e o que eles têm a dizer sobre o Purgatório:
Antes de começarmos, deixa-me apenas dizer que reconheço que alguns Padres sustentaram um ponto de vista que integrou a pré-história do Purgatório, mas trata-se de Padres tardios. Os Padres mais antigos, como Tertuliano, falaram de um estado intermédio de natureza paradisíaca (como explicarei abaixo), e outros, como Agostinho, teorizaram essa possibilidade, embora sem firmes convicções a respeito. O que é verdadeiramente revelador é a ausência de quaisquer escritos primitivos que formalizem uma crença no purgatório. De resto, podias ter indicado a origem destas citações: tive de colocar cada uma num motor de busca para descobrir de onde vinham, e acabei por encontrá-las replicadas numa infinidade de sites católicos com o propósito de apoiar o purgatório.
Tertuliano (160–225 d.C.): "Oferecemos sacrifícios pelos mortos nos seus dias de aniversário." (211 d.C.)
"Uma mulher, depois da morte do seu marido… ora pela sua alma e pede que ele possa, enquanto espera, encontrar descanso e participar na primeira ressurreição. E, a cada ano, no aniversário da sua morte, ela oferece o sacrifício." (216 d.C.)
Tal como Le Goff mencionou na passagem anterior, Tertuliano acreditava no refrigerium e não sustentava qualquer concepção de purgatório. Nada nas passagens que apresentas alude ao purgatório, mas sim ao refrigerium. A escatologia de Tertuliano aproxima-se da que é ensinada pela Igreja Ortodoxa: a ideia de que a alma recebe uma antecipação da sua morada eterna — os justos no seio de Abraão (ou num estado equivalente) e os ímpios no inferno dos condenados (ver Lc 16,19-31) —, sem que exista qualquer purgação pós-morte. Novamente, Le Goff afirma sobre Tertuliano (presta especial atenção ao quarto parágrafo, que confere o devido contexto às citações que apresentaste):
«Africano, falecido algum tempo depois de 220, Tertuliano escreveu um breve tratado, hoje perdido, no qual afirmava «que toda a alma estava confinada no Inferno até ao dia [do Juízo] do Senhor» (De anima 55,5). Esta foi uma adaptação da ideia de sheol do Antigo Testamento. Este outro mundo situava-se debaixo da terra, e foi lá que Cristo desceu durante três dias (De anima 54,4). 
Em Contra Marcião e Sobre a Monogamia, Tertuliano entra em pormenor sobre o outro mundo e apresenta o seu conceito de refrigerium. Marcião argumentava que não apenas os mártires, mas também as pessoas comuns que fossem justas, eram admitidas no Céu ou Paraíso imediatamente após a sua morte. Tertuliano, por outro lado, baseando a sua discussão na história do homem rico e de Lázaro, sustenta que, enquanto aguardam a ressurreição, as almas dos justos residem não no céu, mas num refrigerium interim — o seio de Abraão. Este lugar, o seio de Abraão, embora não se situe no céu e fique acima do inferno, oferece às almas dos justos um refrigério intermédio (refrigerium interim) até que o fim dos tempos traga a ressurreição geral e a recompensa final (Adversus Marcionem 4,34). Até ao fim dos tempos, o seio de Abraão serve como "o recetáculo temporário das almas fiéis".
O pensamento de Tertuliano, de facto, permanece profundamente dualista. Na sua perspetiva, existem dois destinos opostos: a punição, expressa por palavras como tormento (tormentum), agonia (supplicium) e tortura (cruciatus), e a recompensa, expressa pelo termo refrigério (refrigerium). Em duas passagens, afirma-se inclusivamente que estes destinos são eternos.
Por outro lado, Tertuliano dá grande ênfase às oferendas feitas pelos mortos no aniversário da sua morte e declara que tais práticas piedosas podem fundar-se na tradição e na fé, ainda que para elas não exista qualquer fundamento na Escritura. (De modo geral, com excepção de Mateus 12,32 e de 1 Coríntios 3,10-15 em Paulo, as bases textuais para a doutrina do Purgatório são praticamente inexistentes). Tertuliano escreve: "Fazemos oblações pelos falecidos no aniversário da sua morte… Se procurares na Escritura uma lei formal que reja estas e outras práticas semelhantes, não encontrarás nenhuma. É a tradição que as justifica, o costume que as confirma e a fé que as observa." (De corona militis 3,2-3).
Em relação à pré-história do Purgatório, a inovação de Tertuliano — se é que se tratou de uma inovação — consistiu em colocar o justo a passar um período de tempo no refrigerium interim antes de ir habitar no refrigerium eterno. Contudo, não há nada de verdadeiramente novo quanto ao lugar de refrigério, que continua a ser o seio de Abraão. Entre o refrigerium interim de Tertuliano e o Purgatório existe uma diferença não só de género — para Tertuliano, trata-se de uma espera tranquila até ao Juízo Final, ao passo que no Purgatório se trata de um sofrimento purificador por ser punitivo e expiatório —, mas também de duração: as almas permanecem no refrigerium até à ressurreição, enquanto no Purgatório permanecem apenas o tempo necessário para expiar os seus pecados.»
Tudo somado, não existe qualquer purgatório na escatologia de Tertuliano. A citação que utilizaste é enganadora quando analisada à luz do quadro geral. No entanto, assumo que a tenhas retirado de outro site.
São Cipriano de Cartago (escrito em 253 d.C.): "A força do verdadeiro crente permanece inabalável, e, naqueles que temem e amam a Deus de todo o coração, a integridade continua firme e forte. Até aos adúlteros concedemos um tempo de arrependimento e damos a paz. No entanto, nem por isso a virgindade escasseia na Igreja, nem a nobre escolha da continência fraqueja perante os pecados alheios. A Igreja, coroada por tantas virgens, floresce, e a castidade e a modéstia mantêm o brilho da sua glória. O vigor da continência não diminui pelo facto de o arrependimento e o perdão serem concedidos ao adúltero. Uma coisa é pedir perdão, outra é alcançar a glória; uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo, outra é receber simultaneamente o prémio e a glória da fé; uma coisa é ser purificado dos pecados através de um longo sofrimento e ser limpo pelo fogo, outra é ser purificado de todos os pecados pelo martírio; uma coisa é estar em suspenso até à sentença do Senhor no Dia do Juízo, outra é ser imediatamente coroado pelo Senhor."
De novo, Le Goff comenta sobre isto: 
«Alguns autores têm atribuído a Cipriano uma importante contribuição doutrinária para o Purgatório logo em meados do século III. Na sua Carta a Antoniano [Carta 51,20], Cipriano faz a distinção entre dois tipos de cristãos: "Uma coisa é esperar o perdão, outra é chegar à glória; uma coisa é ser lançado na prisão para ser solto apenas quando o último centavo for pago, outra é receber imediatamente a recompensa da fé e da virtude; uma coisa é ser purificado dos seus pecados através de um longo sofrimento pelo fogo, outra é ter todas as suas faltas purificadas pelo martírio; e uma coisa é estar suspenso perante o Senhor no Dia do Juízo, outra é ser imediatamente coroado por Ele." … A refutação de Jay sobre a noção de que Cipriano propôs uma doutrina semelhante à do Purgatório parece-me bem fundamentada. Segundo Jay, o que está em discussão na Carta a Antoniano é a diferença entre os cristãos que não resistiram à perseguição (os lapsos e apóstatas) e os mártires. Não se trata de um "purgatório" no além, mas sim de penitência aqui na terra. A referência à prisão nada tem a ver com o Purgatório — que ainda não existia —, mas sim com a disciplina penitencial da Igreja.» (The Birth of Purgatory, pp. 57-58).
São João Crisóstomo (347–407 d.C.): "Socorramo-los, pois, e façamos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício do seu pai, por que haveríamos de duvidar de que as nossas oferendas pelos mortos lhes trazem alguma consolação? Não hesitemos em prestar auxílio aos que partiram e em oferecer orações por eles."
Ao analisar o texto no seu contexto original (Homilias sobre a 1.ª Epístola aos Coríntios, 41,5), verifica-se que Crisóstomo não menciona nem pressupõe qualquer doutrina do purgatório.
Para Crisóstomo, a oração e a esmola pelos mortos visavam obter de Deus um «alívio» ou «consolação» (paramythia) para as almas, incluindo até uma atenuação do sofrimento no inferno dos que morreram em pecado, e não a expiação de penas num fogo purificador para almas destinadas ao céu. Além disso, Crisóstomo é categórico noutras passagens ao afirmar que «após a partida desta vida, não há mais lugar para o arrependimento nem para a purificação dos pecados» (Homilia 2 sobre São Lázaro). Tal como nos Padres anteriores, a prática litúrgica de orar pelos falecidos existia, mas sem qualquer relação com o conceito de Purgatório.
Santo Agostinho (354–430 d.C.): "Lemos no livro dos Macabeus que foi oferecido um sacrifício pelos mortos. Mas, mesmo que tal não se encontrasse em lugar algum nos escritos do Antigo Testamento, a autoridade da Igreja universal, que é clara neste ponto, não tem pequeno peso, uma vez que, nas orações que o sacerdote dirige ao Senhor Deus no Seu altar, a comemoração dos mortos tem o seu lugar próprio." 
Citarei o meu amigo Jason Engwer desta vez:
«Agostinho é amplamente considerado o pai do Purgatório. Os católicos romanos citam-no muitas vezes ao referirem-se a algo semelhante à moderna doutrina católica. O que estes católicos não explicam, contudo, é que o próprio Agostinho reconhecia estar a especular. Por outras palavras: ele não estava a transmitir nenhuma tradição apostólica transmitida de geração em geração em sucessão ininterrupta desde os apóstolos; pelo contrário, estava a teorizar sobre o que poderia acontecer no além. Jacques Le Goff explica:
"[Joseph Ntedika] pôs o dedo num ponto-chave, mostrando não apenas que a posição de Agostinho evoluiu ao longo dos anos, o que seria de esperar, mas que passou por uma mudança acentuada num momento específico, que Ntedika situa no ano 413… Na Carta a Dárdano (417), ele [Agostinho] esboçou uma geografia do além onde não há lugar para o Purgatório." (The Birth of Purgatory [Chicago, Illinois: The University of Chicago Press, 1986], pp. 62, 70). 
Por outras palavras: as opiniões de Agostinho sobre o tema evoluíram ao longo do tempo, e ele acabou por ser inconsistente. O historiador protestante George Salmon explica o significado destes factos:
"Da mesma forma, quando Agostinho ouve a ideia sugerida de que, assim como os pecados dos homens bons lhes causam sofrimento neste mundo, o mesmo pode acontecer em certa medida no mundo vindouro, afirma que não se arriscará a dizer que tal coisa seja impossível, porque talvez possa ocorrer. Ora, se a ideia de purgatório não tinha conseguido ir além de um "talvez" no início do século V, podemos dizer com segurança que não foi através da tradição que a Igreja mais tarde chegou à certeza sobre o assunto; afinal, se a Igreja possuísse alguma tradição sobre isto no tempo de Agostinho, um grande Padre como ele não poderia ter deixado de a conhecer." (The Infallibility of the Church [Londres, Inglaterra: John Murray, 1914], pp. 133-134). 
Aqui está um exemplo de Agostinho a expressar a sua incerteza:
"E não é impossível que algo deste tipo possa ocorrer mesmo após esta vida. É uma matéria que pode ser investigada, e apurada ou deixada na dúvida: saber se alguns crentes, através de uma espécie de fogo purificador, e na proporção em que amaram com mais ou menos apego os bens perecíveis, são libertados dele mais ou menos rapidamente." (Enchiridion, 69)»
São Cirilo de Jerusalém (315–386 d.C.): “Em seguida, fazemos menção também daqueles que já dormem: em primeiro lugar, os patriarcas, os profetas, os apóstolos e os mártires, para que, pelas suas orações e súplicas, Deus receba a nossa petição. Depois, fazemos menção também dos santos padres e bispos falecidos e, para o dizer de forma simples, de todos aqueles que de entre nós já dormem, pois acreditamos que será de grande benefício para as almas daqueles por quem a petição é elevada, enquanto se oferece este santo e solene sacrifício."
Ao analisarmos esta passagem no seu contexto original (Catequeses Mistagógicas, 5, 9–10), fica evidente que a citação de Cirilo não demonstra a existência do Purgatório. Em primeiro lugar, Cirilo inclui na mesma sequência de oração litúrgica os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires e os falecidos em geral. Se a oração pelos mortos fosse uma prova da existência do Purgatório, teríamos de aceitar que também os apóstolos e os mártires lá se encontravam, algo que a própria teologia católica rejeita. Em segundo lugar, a Igreja Primitiva orava por todos os falecidos em sinal de comunhão e para rogar a misericórdia, o repouso e o alívio de Deus (refrigerium), e não para cumprir penas num fogo purificador de transição. Portanto, Cirilo limita-se a atestar a prática litúrgica de fazer a lembrança dos mortos, uma tradição que existia na Igreja antiga de forma inteiramente independente do conceito de Purgatório.
Epifânio de Salamina (escrito em 375 d.C.): "São úteis, com efeito, as orações que se fazem em seu favor, ainda que não possam eliminar todas as suas culpas. São também úteis porque, neste mundo, tropeçamos frequentemente, de forma voluntária ou involuntária, servindo isto de lembrete para agirmos melhor.”
Esta citação provém do Panarion (Heresia 75, 8), onde Epifânio de Salamina responde às objeções do presbítero Aério de Sebaste contra a prática eclesiástica de orar pelos falecidos. O pronome "seu" refere-se, portanto, aos mortos recordados na liturgia. Contudo, o argumento de Epifânio não estabelece a existência do Purgatório. Em primeiro lugar, Epifânio defende a oração pelos mortos invocando a tradição e o benefício pedagógico para os vivos («servindo isto de lembrete para agirmos melhor»), sem definir qualquer lugar ou estado de purgação no além. Em segundo lugar, ao admitir que as orações «não podem eliminar todas as suas culpas», Epifânio refere-se ao pedido tradicional da Igreja antiga por misericórdia e alívio (refrigerium) para os falecidos, uma prática litúrgica mantida por séculos sem qualquer associação à ideia de um fogo expiatório pós-morte. 
Gregório de Nissa (escrito em 382 d.C.): "Se um homem distinguir em si o que é estritamente humano do que é irracional, e se atentar em ter uma vida de virtude nesta vida presente, purificar-se-á a si próprio de qualquer mal contraído, superando o irracional pela razão. Se, pelo contrário, se deixar levar pelo impulso irracional das paixões, ele pode, mais tarde e de uma forma totalmente diferente, vir a desejar o que é melhor quando, após a sua partida do corpo, tomar consciência da diferença entre a virtude e o vício e descobrir que não pode participar da divindade até que seja purificado da contaminação da sua alma pelo fogo purificador." (Sermão sobre os Mortos)
Embora este texto de Gregório de Nissa utilize a expressão «fogo purificador», a sua inclusão para defender a doutrina católica do Purgatório é profundamente problemática e descontextualizada. Gregório de Nissa defendia a ideia da apocatástase (a restauração universal de todas as coisas), uma doutrina segundo a qual o fogo purificador não se destinava apenas às almas dos fiéis em estado de graça que precisavam de expiar penas temporais, mas sim a todas as criaturas, incluindo os Ímpios e até o próprio Diabo, com o objetivo de, no fim dos tempos, salvar e restaurar a criação inteira em Deus. Esta visão de salvação universal e de uma purificação restauradora para todos foi explicitamente rejeitada pela Igreja e condenada no V Concílio Ecuménico (Constantinopla II, 553). Tentar fundar o dogma do Purgatório em Gregório de Nissa é selecionar uma metáfora isolada de um sistema escatológico que a própria Igreja Católica considera heterodoxo.
Não obstante, Orígenes e Clemente de Alexandria viveram nos séculos II e III. Ambos levantaram a hipótese de uma purificação após a morte. Houve outros Padres que viveram durante e após este período que também especularam sobre essa possibilidade, pelo que não é surpresa ver a ideia do purgatório a desenvolver-se progressivamente. Contudo, existiram outros Padres que contradisseram frontalmente a ideia do purgatório. Cito, mais uma vez, o meu amigo Jason Engwer e os seus comentários:
«Clemente de Roma refere sempre que os cristãos falecidos estão no céu. Ele menciona repetidamente esta noção, sem qualquer referência ao Purgatório. É verdade que a Igreja Católica Romana ensina que "alguns" cristãos não passam pelo Purgatório, mas como poderiam Clemente de Roma e outros Padres da Igreja saber que determinada pessoa tinha evitado o Purgatório? Uma vez que eles não teriam forma de possuir esse conhecimento, a explicação mais provável para o facto de referirem que os cristãos falecidos estão no Céu é, simplesmente, que não tinham qualquer noção de Purgatório. Clemente escreve:
"Pedro, por inveja injusta, suportou não um ou dois, mas numerosos trabalhos e, tendo finalmente sofrido o martírio, partiu para o lugar de glória que lhe era devido… Assim, ele [Paulo] foi retirado do mundo e entrou no lugar santo, tendo demonstrado ser um exemplo notável de paciência… A estes homens que viveram na prática da santidade deve juntar-se uma grande multidão de eleitos que, tendo suportado por inveja muitas afrontas e torturas, nos deixaram um exemplo magnifico. Por inveja, certas mulheres, sofrendo como Danaides e Dirces, e após suportarem terríveis e indizíveis tormentos, concluíram com firmeza a corrida da fé e, embora fracas no corpo, receberam uma nobre recompensa… Bem-aventurados os presbíteros que concluíram a sua carreira até ao presente e obtiveram uma partida frutuosa e perfeita deste mundo, pois não temem que alguém os prive do lugar que lhes foi reservado… Todas as gerações, desde Adão até ao dia de hoje, já passaram; mas aqueles que, pela graça de Deus, foram aperfeiçoados no amor possuem um lugar entre os piedosos e serão manifestados na revelação do reino de Cristo." (1 Clemente, 5–6; 44; 50).
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Gregório Taumaturgo parece não ter tido qualquer noção de Purgatório. Tal como os protestantes, ele refere-se apenas a dois destinos na vida do além, e não a três, sustentando que todos os "homens bons" vão para o Céu logo após a morte:
"E o homem bom partirá com alegria para a sua habitação eterna, ao passo que o vil ocupará o seu lugar com pranto, e nem a prata acumulada nem o ouro provado terão já qualquer utilidade. Pois uma catástrofe terrível abater-se-á sobre todas as coisas — até sobre o cântaro junto à fonte e sobre a roda do poço que porventura tenha sido deixada no aljube —, quando o curso do tempo chegar ao seu fim e o período desta vida, fugaz como a água, tiver passado." (Paráfrase do Livro do Eclesiastes, 12).
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Ireneu não acreditava na doutrina do Purgatório. Sabemos que Jesus foi para o Paraíso no próprio dia da sua crucificação (Lucas 23,43), e Ireneu refere que todos os crentes vão para esse mesmo lugar até ao momento da ressurreição. Ele identifica inclusivamente esse lugar com aquele a que Paulo foi em 2 Coríntios 12,2-4. Ireneu menciona que todos os crentes vão para o Paraíso — o qual distingue do Céu — até ao momento da ressurreição. Como expliquei em relação a Papias, o Paraíso é simplesmente outra região daquela a que os evangélicos se referem como "Céu". A terminologia de Ireneu difere da dos evangélicos, mas as suas definições são basicamente as mesmas, como o provam as suas referências a Jesus ter ido para esse lugar e a menção a 2 Coríntios 12. O Catolicismo Romano ensina que se deve orar para que os cristãos falecidos sejam libertados de um lugar de sofrimento antes da ressurreição; Ireneu, pelo contrário, afirma que todos os cristãos falecidos estão no Paraíso — e não num lugar de sofrimento — até à ressurreição:
"Portanto, também os anciãos que foram discípulos dos apóstolos nos dizem que aqueles que foram trasladados foram transferidos para esse local (pois o Paraíso foi preparado para os homens justos que possuem o Espírito, lugar onde também o apóstolo Paulo, quando foi arrebatado, ouviu palavras indizíveis para nós na nossa presente condição), e que ali devem os que foram trasladados permanecer até à consumação de todas as coisas, como prelúdio da imortalidade… Pois, assim como o Senhor foi ao meio da sombra da morte, onde estavam as almas dos mortos, mas depois ressurgiu no corpo e, após a ressurreição, foi elevado ao céu, é manifesto que também as almas dos Seus discípulos — por amor de quem o Senhor realizou estas coisas — irão para o lugar invisível que lhes foi atribuído por Deus, e ali permanecerão até à ressurreição, aguardando esse evento. Então, recebendo os seus corpos e ressuscitando na sua totalidade — isto é, corporalmente, tal como o Senhor ressurgiu —, chegarão assim à presença de Deus. Pois "nenhum discípulo está acima do seu Mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu Mestre". Como o nosso Mestre, portanto, não partiu imediatamente para o céu, mas aguardou o tempo da Sua ressurreição determinado pelo Pai (o qual fora também prefigurado por intermédio de Jonas) e, ressurgindo ao terceiro dia, foi elevado ao céu, assim também nós devemos aguardar o tempo da nossa ressurreição determinado por Deus e anunciado pelos profetas; e assim, tendo ressuscitado, seremos elevados, todos quantos o Senhor julgar dignos desse privilégio." (Contra as Heresias, V, 5,1; 31,2). 
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Justino Mártir contradisse a doutrina do Purgatório, não apenas ao referir que os remidos vão para um lugar melhor, mas também ao mencionar unicamente duas regiões no além, e não três. Ele parece não ter qualquer noção de que as pessoas vão para um terceiro lugar para, mais tarde, serem transferidas para o Céu algum tempo antes do Juízo Final:
"As almas dos piedosos permanecem num lugar melhor, enquanto as dos injustos e perversos estão num pior, aguardando o momento do Juízo." (Diálogo com Trifão, 5). 
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Atenágoras rejeita a noção de Purgatório ao sustentar que os crentes vão para o Céu logo que morrem. Ele não só afirma que os crentes vão para o Céu, como menciona o Inferno como a única alternativa, sem fazer qualquer referência ao Purgatório:
"Pois se acreditássemos que viveríamos apenas a vida presente, poderíamos ser suspeitos de pecar por sermos escravos da carne e do sangue, ou vencidos pelo ganho ou pelo desejo carnal. Contudo, como sabemos que Deus é testemunha do que pensamos e do que dizemos, tanto de noite como de dia, e que Ele próprio, sendo luz, vê tudo o que está no nosso coração, estamos convencidos de que, ao sermos retirados da vida presente, viveremos uma vida diferente, melhor do que a atual e celestial, não terrena — já que habitaremos junto de Deus e com Deus, livres de qualquer mutabilidade ou sofrimento na alma, não como carne (embora conservemos o corpo), mas como espírito celestial —; ou então, caindo com os restantes, teremos uma vida pior, lançados no fogo. Afinal, Deus não nos criou como ovelhas ou animais de carga, meras bestas de trabalho que morrem e são aniquiladas." (Petição em favor dos Cristãos, 31). 
Por que haveria eu de acreditar num escritor que nasceu no século XX e escreveu contra o purgatório? Prefiro antes colocar a minha fé no que os Antigos Padres da Igreja ensinaram.
Porque estás a incorrer num raciocínio circular: abordas os escritos patrísticos já com a pressuposição de que o Purgatório existe e, por isso, interpretas seletivamente qualquer menção a orações pelos mortos ou à vida futura como se fosse uma referência ao dogma católico. Além disso, assumes erroneamente que existiu um consenso entre os Antigos Padres sobre esta matéria — quando a evidência histórica e os próprios textos demonstram claramente que esse consenso nunca existiu.
Quanto mais próximo da fonte, mais clara é a água.
Esse é precisamente o meu ponto! Quanto mais nos aproximamos da Igreja Primitiva, mais evidente se torna a total ausência de qualquer noção de Purgatório. Foi apenas a partir das especulações de Clemente de Alexandria e de Orígenes que se começou a desenhar a ideia de um lugar ou estado de purificação após a morte. A minha objeção central permanece: o Purgatório é uma construção doutrinária tardia, baseada em conjeturas e desprovida de qualquer fundamentação bíblica válida.
Eu desafio o autor a refutar o que os Padres da Igreja disseram sobre o Purgatório.
Creio ter apresentado razões mais do que suficientes para demonstrar que nenhum dos Padres mais antigos fala do Purgatório — tu simplesmente pressupões que falam. A evidência histórica e textual mostra uma realidade muito diferente daquela que pretendes pintar: 
i) Os Padres mais antigos não mencionam esse conceito; 
ii) Vários Padres mais tardios não são claros sobre aquilo em que realmente acreditavam;
iii) Alguns teorizaram ou especularam sobre a possibilidade; 
iv) Outros contradisseram abertamente qualquer noção de Purgatório;
v) E outros, ainda, podem ter admitido algum tipo de purificação no além antes da ressurreição, sem contudo definir como ou em que moldes ela ocorreria.
O ponto fundamental é que os Padres da Igreja sustentavam opiniões diversas sobre este tema e, tal como qualquer escritor cristão do passado ou do presente, partilhavam as suas reflexões e interpretações pessoais — não eram infalíveis. 
No fundo, tu só podes pressupor que eles estão a falar do Purgatório porque abordas os textos deles sob a pré-compreensão de que o Purgatório já existe. Essa tua petição de princípio ficou perfeitamente evidente na tua última afirmação.