O
PURGATÓRIO
O Catecismo da Igreja Católica define o Purgatório como uma "purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu", que é experimentada pelos "que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados" (CIC 1030). O documento acrescenta que "esta purificação final dos eleitos… é absolutamente distinta do castigo dos condenados" (CIC 1031).
Efetivamente, o novo Catecismo da Igreja Católica (CIC) dá esta "definição". A título de comparação, vejamos o que diz o Denzinger, uma obra de referência reconhecida que reúne uma compilação de documentos oficiais até 1954. Os números remetem para os parágrafos desses documentos; os que estão em itálico correspondem a proposições condenadas.
2) O que é o Purgatório. Não consiste unicamente no temor do moribundo (744), mas em penas satisfatórias sofridas pelas almas (464, 530, 570 t, 693, 840, 983), as quais são atormentadas pelo fogo (570 t). Estas não pecam ao procurar alívio nem ao ter horror a tais penas (779).
Enquanto a explicação light do CIC fala em "purificação" e apenas menciona, citando Gregório Magno, o "fogo purificador" no contexto de certas faltas leves, o Denzinger remete para documentos do magistério que referem explicitamente penas satisfatórias e tormentos.
O primeiro documento citado a propósito do Purgatório é a carta Sub catholicae, de Inocêncio IV (1254), na qual se afirma — com base em Mateus 12:32 e 1 Coríntios 3:13,15 — a existência do Purgatório, acrescentando-se o seguinte:
… Visto que [os gregos] afirmam que o lugar desta purificação não lhes foi indicado pelos seus doutores com um nome preciso e próprio, nós — que, de acordo com as tradições e autoridades dos Santos Padres, o chamamos Purgatório — queremos que, doravante, seja também assim designado entre eles. Pois é por meio desse fogo transitório que são purificados os pecados — não os graves ou capitais, que não tenham sido previamente perdoados mediante a penitência, mas sim os pequenos e leves que, mesmo tendo sido perdoados em vida, ainda pesam após a morte.
Denzinger
# 456
Como se pode ver, Inocêncio IV afirma que o Purgatório é um lugar — e não uma condição ou um processo. E, nesse lugar, a purificação é realizada pelo fogo, qualificado como "transitório" para o distinguir das chamas eternas do inferno.
Na carta Super quibusdam, de 1351, dirigida por Clemente VI aos arménios, faz-se uma série de perguntas que equivalem a uma profissão de fé, entre as quais a seguinte:
Perguntamos se creste e crês que existe o Purgatório, ao qual descem as almas dos que morrem em estado de graça, mas não satisfizeram pelos seus pecados mediante uma penitência completa. Também se crês que são atormentadas temporariamente pelo fogo e que, logo que estejam purificadas, ainda antes do dia do juízo final, chegam à verdadeira e eterna beatitude, que consiste na visão de Deus face a face e no amor.
Denzinger
# 570 t
Mais uma vez, segundo outro papa, o Purgatório é apresentado como um lugar onde as almas são atormentadas pelo fogo.
Mais tarde, em 1547, o Concílio de Trento, no seu Cânon 30, também pressupõe que o Purgatório é um lugar:
Se alguém disser que, depois de recebida a graça da justificação, a culpa é perdoada e a dívida da pena eterna é apagada a todo o pecador arrependido, de tal modo que não resta dívida alguma de pena temporal a ser paga, quer neste mundo, quer no outro, no Purgatório, antes que se possa abrir a entrada no reino dos céus: seja anátema.
Denzinger
# 840
Por outras palavras, a absolvição sacerdotal resulta incompleta, pois não elimina uma suposta "pena temporal" pelo pecado — a qual tem de ser paga, quer por meio de obras meritórias, quer através de sofrimentos purificadores.
O mesmo Concílio, no seu Decreto sobre o Purgatório, de 4 de dezembro de 1563, reafirma a existência do Purgatório (Denzinger # 983).
A purificação é necessária porque, como a Escritura ensina, nada impuro entrará na presença de Deus no céu (Apoc. 21:27). Além disso, embora possamos morrer com os nossos pecados mortais perdoados, podem ainda restar em nós muitas impurezas, especificamente os pecados veniais e a pena temporal devida aos pecados já perdoados.
Dois juízos
Quando morremos, experimentamos o chamado juízo particular. A Escritura declara que «aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo» (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para o bem ou para o mal, ficando desde logo a saber qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, ocorrerá o Juízo Final (ou geral), ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos». Neste Juízo Final, todos os nossos atos e intenções serão revelados publicamente (Lc. 12:2-5).
Não há controvérsia quanto à existência dos juízos particular e final. A questão, contudo, é que a doutrina do Purgatório pressupõe um intervalo temporal entre o veredicto do juízo particular e o acesso à presença de Deus — uma demora que carece de qualquer fundamentação bíblica.
Santo Agostinho afirmou, em A Cidade de Deus, que os «castigos temporais são sofridos por alguns nesta vida somente, por outros depois da morte, por outros em ambas as situações, agora e depois; mas todos antes daquele último e severíssimo juízo final».
Trata-se de uma especulação muito interessante do ilustre bispo de Hipona. No entanto, não constitui o que eu chamaria evidência.
É, portanto, entre o juízo particular e o geral que a alma é purificada das consequências restantes do pecado: «Digo-te: não sairás dali enquanto não pagares até ao último centavo» (Lucas 12:59).
Isto é uma tentativa extraordinária de encaixar à força a doutrina do Purgatório numa parábola que fala simplesmente de chegar a um acordo com o adversário a caminho do juiz ...
O seu significado fica perfeitamente claro no texto paralelo de Mateus:
Mateus 5:21-26
«Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra o seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do Sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.
Portanto, se estiveres a apresentar a tua oferta no altar e aí te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te depressa com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, o juiz te entregue ao oficial de justiça e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que não sairás dali enquanto não pagares até ao último centavo.»
Não se está aqui a falar de penas purgatórias. Os versículos 25 e 26 constituem um apelo a fazer as pazes com os adversários em vez de arriscar as consequências judiciais, sob a forma de uma parábola tirada da vida quotidiana.
Até mesmo um comentário católico o reconhece:
«Pretendeu-se retirar do v. 26 de Mt a ideia do purgatório. Mas esta não é mais do que uma redação parabólica, popular e de tipo "sapiencial". É uma advertência de prudência humana, para os assuntos da terra, sem mais pretensões, e que se deve aproveitar para evitar outras complicações. Assim, deve-se aproveitar, analogicamente, esta lição para a ética cristã (cf. Mt 18,34-35), mas sem matizações estritas.»
Manuel de Tuya, O.P., Biblia Comentada, Profesores de Salamanca, 3.ª ed., Madrid: BAC, 1977, vol. 5A, p. 78 (destaque acrescentado).
Dinheiro, dinheiro, dinheiro
Um dos argumentos que os anticatólicos usam frequentemente para atacar o Purgatório é a ideia de que a Igreja Católica ganha dinheiro ao promulgar esta doutrina. Sem o Purgatório, afirmam, a Igreja iria à falência. Um bom número de obras de controvérsia defende que a Igreja deve a maioria das suas receitas a esta doutrina. Mas os números não o sustentam.
...
Corto este ponto por não ter qualquer interesse em discutir números. O problema da doutrina do Purgatório não é, primariamente, o de constituir um subterfúgio para arrecadar dinheiro (ainda que o arrecade) ou para exercer poder (ainda que o permita).
O verdadeiro problema é que carece de base bíblica e, apesar disso, transformou-se num dogma de assentimento obrigatório para os católicos, e ainda serve para justificar o sistema de indulgências e corroborar o caráter sacrificial da Missa.
Uma "invenção" católica?
Os fundamentalistas podem gostar de dizer que a Igreja Católica "inventou" a doutrina do Purgatório para fazer dinheiro, mas têm dificuldade em determinar exatamente quando. A maioria dos anticatólicos profissionais — os que dedicam a sua vida a atacar o "romanismo" — parecem atribuir a culpa ao Papa Gregório, o Grande, que reinou entre os anos 590 e 604 d.C.
Mas nunca consideram o pedido de Mónica, a mãe de Santo Agostinho, que pediu ao seu filho, no século IV, que se lembrasse da sua alma nas suas missas. Isto não faria qualquer sentido se ela pensasse que a sua alma não beneficiaria destas orações, como seria o caso se estivesse no inferno ou na glória completa do céu.
O autor deste penoso panfleto desqualifica os seus oponentes rotulando-os de "fundamentalistas" e "anticatólicos", mas carece por completo de autocrítica ao expor os seus próprios argumentos.
Quanto ao ponto em questão, as crenças privadas de Santa Mónica não se equivalem ao ensino oficial de um bispo de Roma na sua qualidade de tal. De modo que não se pode comparar aquilo em que a mãe de Agostinho acreditava com o que Gregório Magno ensinou. Primeiro disparate.
Atribuindo a doutrina ao Papa Gregório, não se poderiam explicar as pinturas nas catacumbas, onde os cristãos, durante as perseguições dos primeiros três séculos, registaram as orações pelos mortos.
Segundo disparate: as catacumbas também não comprovam nem defendem o Purgatório. Os registos mais primitivos limitam-se a uma afirmação ou expressão de desejo para o falecido («Dorme em Paz», «Em Paz», etc.), sem constituírem orações formais de expiação.
Mais tarde, surgem inscrições no sentido de que Deus guarde a alma do defunto ou tenha misericórdia dela. No entanto, em momento algum se insinua a ideia de que as almas estejam retidas num lugar intermédio de purgação nem a sofrer penas temporais pelos seus pecados.
Na verdade, alguns dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, como os Atos de Paulo e Tecla e o Martírio de Perpétua e Felicidade (ambos escritos durante o segundo século), referem a prática cristã da oração pelos mortos.
Terceiro disparate: o autor deveria ter vergonha de classificar como "escritos cristãos" um texto manifestamente apócrifo e lendário como os Atos de Paulo e Tecla.
Quanto ao Martírio de Perpétua e Felicidade, a obra não pertence ao século II, mas sim aos inícios do século III, dado que, com toda a probabilidade, ambas as mártires foram executadas durante a perseguição de Septímio Severo, por volta de 202 d.C.
De qualquer modo, no capítulo 2 desta obra, Perpétua relata uma visão em que vê o seu irmão Dinócrates, falecido aos sete anos de idade com o rosto devastado por um cancro. Na visão, vendo-o a sofrer, Perpétua ora fervorosamente por ele até que volta a contemplá-lo num estado de alívio e alegria, já fora do lugar de sofrimento. Em momento algum o texto menciona a presença de Deus ou descreve aquele estado como uma purificação de penas.
O próprio editor da obra faz a seguinte observação:
«A avidez com que os autores de controvérsia latinos se agarram a esta passagem fantasiosa (a qual, na verdade, subverte toda a sua própria doutrina acerca do Purgatório...) enfatiza a absoluta ausência, nos Padres primitivos, de qualquer referência a tal dogma; o qual, a ter existido, deveria aparecer em cada referência ao estado dos mortos e em cada relato da disciplina dos penitentes.»
R. E. Wallis, PhD, Appendix: The Martyrdom of Perpetua and Felicitas, em Ante-Nicene Fathers, vol. 3, p. 706.
Como bem observa Wallis, este texto entra em contradição direta com o próprio dogma católico, uma vez que não existe a menor evidência de que Dinócrates — filho de pais pagãos e descrito por Perpétua como «meu irmão segundo a carne» — tivesse sido batizado.
Assim sendo, segundo a teologia católica, a sua alma apenas poderia encontrar-se no Limbo das crianças ou, caso se considere que já tinha atingido a idade da razão, no inferno (o que parece ser a crença da própria Perpétua ao descrever o lugar de tormento). Sucede que, segundo a doutrina católica, tanto o inferno como o Limbo são estados definitivos e, portanto, insuscetíveis de qualquer alteração pela intercessão dos vivos.
Tais orações teriam sido oferecidas somente se os cristãos cressem no Purgatório, mesmo que não tivessem utilizado esse nome para ele. (Veja-se "As Respostas dos Padres Católicos mais conhecidos" para conhecer a existência do Purgatório nas citações destes e de outras fontes cristãs antigas.)
Trata-se de uma inferência abusiva e totalmente injustificada, a qual pressupõe uma coerência doutrinal de que essas supostas testemunhas do Purgatório, com toda a probabilidade, careciam.
A simples expressão de afeto devocional, através de orações pelo descanso das almas dos entes queridos falecidos, não constitui qualquer prova da existência de um dogma articulado sobre o Purgatório — e, muito menos, de que tal doutrina seja verdadeira.
Por que não há protestos?
Sempre que uma data é definida para a "invenção" do Purgatório, podem apontar-se evidências históricas para mostrar que a doutrina do Purgatório existia antes dessa data.
Pois bem, seria excelente que começasse finalmente a exibi-las, porque tudo o que foi apresentado até este ponto nem sequer insinua a existência de tal doutrina em data anterior ao século V ou VI.
Além disso, se em algum momento a doutrina foi tirada da cartola por um clérigo, por que razão a história eclesiástica não regista nenhum protesto contra ele?
Não é de todo necessário supor que a doutrina foi "tirada da cartola" por um clérigo para a declarar carente de fundamento. Agarrar-se ao mais fraco dos muitos argumentos que potencialmente se podem esgrimir contra esta doutrina é optar por refutar o alvo mais fácil, evitando enfrentar o problema central.
Um estudo da história das doutrinas indica que os cristãos dos primeiros séculos pegavam em armas (às vezes de forma especialmente sangrenta) se qualquer pessoa sugeria a menor mudança nas suas crenças.
Caramba, isto sim é novo! Quer dizer então que os cristãos dos primeiros séculos não eram mártires, mas sim guerrilheiros... Sem dúvida, o autor está a tentar uma revisão radical e fantasiosa da história da Igreja. A ter razão, Tertuliano deveria ter dito que o sangue dos hereges, e não o dos mártires, é a semente da Igreja.
Eram pessoas extremamente conservadoras que testavam a verdade de uma doutrina perguntando: Era isto crido pelos nossos antepassados? Foi-nos dada através dos Apóstolos?
Esta é uma visão idealizada, quase bucólica, da história eclesiástica. A realidade é que, ao longo dos séculos, se foram introduzindo e consolidando diversas doutrinas sobre as quais não existe a menor evidência — quer no texto bíblico, quer nos testemunhos da Igreja pré-nicena —, sendo o Purgatório um dos exemplos mais evidentes.
Seguramente a crença no Purgatório seria considerada uma grande mudança, se não tivesse sido crida desde o primeiro momento. Então, onde estão as evidências dos protestos?
Não existem. Não há nenhuma evidência, nos mais antigos documentos disponíveis para nós (ou noutros mais tardios, a respeito deste tema), de que os "verdadeiros crentes" da época pós-apostólica falem do Purgatório como uma "nova doutrina".
Esta é a clássica falácia do argumento pelo silêncio e, portanto, uma linha de raciocínio extremamente fraca, dada a falta de evidência positiva.
O argumento chega a ser cómico: nos documentos mais antigos não é de esperar qualquer protesto contra uma noção que estava completamente ausente entre os cristãos ortodoxos dessa época. Não se tratava de uma doutrina nem "nova" nem "velha"; era, simplesmente, uma doutrina inexistente.
Por conseguinte, aqueles crentes entendiam que o ensinamento oral dos Apóstolos, que os católicos chamam Tradição, e a Bíblia não só não contradizem a doutrina do Purgatório, mas, na verdade, a confirmam.
Aqui o autor, após ter falhado em apresentar qualquer evidência sólida, dá asas à sua imaginação e visualiza os cristãos dos primeiros séculos a abraçar devotamente uma doutrina cuja existência não conseguiu demonstrar.
Não é de admirar, pois, que os que negam a existência do Purgatório tendam a abordar apenas superficialmente a história da crença.
E
outros, não encontrando evidências da sua crença na história, dedicam-se simplesmente a inventá-las ou a imaginá-las.
Preferem afirmar que a Bíblia fala somente de Céu e Inferno. Mas isto também não é assim. A Bíblia fala claramente de uma terceira condição, geralmente chamada "Limbo dos Pais", onde os justos que morreram antes da Redenção esperavam que o Céu se abrisse para eles.
O "claramente" fica, naturalmente, por conta e risco do autor.
Depois da sua morte e antes da sua ressurreição, Cristo visitou o Limbo dos Pais e pregou-lhes a Boa Nova de que o Céu estaria agora aberto para eles (1 Pedro 3:19). Estas pessoas não estavam, portanto, no Céu, mas também não experimentavam os tormentos do Inferno.
Que simples! Que claro!
Todavia, qualquer pessoa com o mínimo conhecimento do Novo Testamento sabe que esta é uma das passagens mais difíceis e debatidas de toda a exegese bíblica.
O próprio exegeta católico Ricardo Franco, S.J., observa a este propósito:
«Este versículo é o que suscita maiores dificuldades, e não há palavra nele que não tenha interpretações diversas.»
Ricardo Franco, S.J., La Sagrada Escritura, Profesores de la Compañía de Jesús, 2.ª ed., Madrid: BAC, 1967, vol. NT 3, p. 282.
Claríssimo!
Alguns especularam que o Limbo dos Pais é igual ao Purgatório. Este pode ou não ser o caso. No entanto, se o Limbo dos Pais não é o Purgatório, a sua existência mostra que um estado temporal, intermédio, não é contrário à Escritura.
Se o autor pretende provar o inexistente a partir do obscuro, não creio que chegue muito longe. Antes de mais, deveria fundamentar melhor a própria existência do limbus patrum.
Veja-o desta maneira. Se o Limbo dos Pais era o Purgatório, então isso mostra-nos diretamente a existência do Purgatório.
Se ao menos tivesse demonstrado a existência do Limbo dos Pais... Que pena esse pequeno, mas irritante detalhe!
Se o Limbo dos Pais era um estado temporal diferente, então a Bíblia diz, pelo menos, que tal estado pode existir. E, por conseguinte, prova que pode haver mais estados do que o Céu e o Inferno.
Mais uma vez, falta-lhe ainda começar a sua demonstração sobre o citado Limbo. E, mesmo que o conseguisse, isso apenas demonstraria que um terceiro estado diferente do Céu e do Inferno não é, em tese, contrário à Escritura — o que está muitíssimo longe de constituir uma evidência positiva a favor do Purgatório.
"O purgatório não está na Escritura"
Alguns Fundamentalistas também argumentam, como se isso provasse realmente alguma coisa: "A palavra purgatório não se encontra em nenhum lado da Escritura." Isto é verdade, mas não refuta a existência do purgatório ou o facto de a crença nele ter feito sempre parte do ensinamento da Igreja. Trindade e Encarnação são palavras que também não estão na Escritura; contudo, essas doutrinas são claramente ensinadas nela. Igualmente, a Escritura ensina que existe o purgatório, mesmo se não utiliza a palavra e mesmo se 1 Pedro 3:19 se refere a um lugar diferente do purgatório.
Não é a mesma coisa — como pretende o nosso interlocutor ao tentar criar confusão — dizer que a palavra "purgatório" não se encontra na Bíblia do que dizer que a noção de Purgatório está ausente das Escrituras.
Se se tratasse apenas da ausência do termo latino, certamente não haveria qualquer objeção, desde que a ideia fosse claramente ensinada.
Por outro lado, o facto de a doutrina não ser ensinada pela Escritura é a questão verdadeiramente fundamental.
Apesar dos seus ingentes esforços para criar confusão, a verdade é que o autor não demonstrou nem que a noção seja escritural, nem que tenha sido crida desde sempre pela Igreja.
Cristo refere-se ao pecador a quem "não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mt 12,32), sugerindo que alguém se pode libertar, depois da morte, das consequências dos seus pecados.
Nem é preciso que lhe responda. Deixo que o faça um correligionário seu:
«A expressão de [Mateus], "não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro", está perfeitamente documentada nos escritos rabínicos, e significa simplesmente nunca.»
Manuel de Tuya, O.P., op. cit., p. 200.
O facto de o pecado contra o Espírito Santo não ser perdoado «nem agora nem nunca» não significa que existam pecados que possam ser pagos no além.
Mesmo admitindo, por hipótese, a interpretação proposta, o texto não falaria de nenhuma pena de além-túmulo, mas sim de um perdão de além-túmulo — o que contraria a própria noção de expiação penal atribuída ao Purgatório.
Semelhantemente, Paulo diz-nos que, quando formos julgados, as obras de cada homem serão provadas. E o que sucede se a obra de um homem justo falha na prova? "Ele sofrerá perda, mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo" (1 Cor 3:15). Ora, esta perda, esta pena, não se pode referir ao envio ao Inferno, uma vez que ninguém é salvo ali; e ao Céu também não pode referir-se, uma vez que não há sofrimento ("fogo") ali. Só a doutrina católica do Purgatório explica esta passagem.
Extraordinária exegese... Basta ler o texto com atenção para ver quando será provada a obra de cada um. Paulo afirma expressamente que «o Dia» a demonstrará — o que, no contexto paulino, aponta não para penas de além-túmulo num estado intermédio, mas sim para o Juízo Final a seguir à Parusia.
Então, é claro, existe a aprovação da Bíblia de orações pelos mortos: "Belo e nobre ato, pois ele pensava na ressurreição dos
mortos. Pois, se não esperasse que os mortos que caem ressurgirão de novo, orar
a favor deles seria supérfluo e inútil. E se ele tinha a expectativa de que uma
belíssima recompensa estaria reservada para quem repousa na piedade, a sua
ideia foi santa e piedosa. Por isso, ofereceu um sacrifício a favor dos mortos,
para que o seu pecado fosse perdoado" (2 Mac 12,43-45). As orações não são precisas pelos que estão no Céu, e ninguém pode ajudar os que estão no Inferno. Isso significa que algumas pessoas devem estar numa terceira condição, pelo menos temporariamente. Este versículo ilustra tão claramente a existência do Purgatório que, durante a Reforma, os protestantes tiveram de arrancar os livros dos Macabeus das suas Bíblias para evitar validar a doutrina.
Passando por alto a calúnia histórica de que os protestantes «arrancaram» livros da Bíblia, é evidente que não aceitamos este texto de Macabeus como prova válida.
Em primeiro lugar, porque aprendemos com a própria tradição dos Padres da Igreja a não fundamentar doutrinas nos livros chamados apócrifos, eclesiásticos ou (desde o século XVI) deuterocanónicos. Em segundo lugar, porque este texto também não apoia o sistema de intercessão tal como é apresentado pela Igreja Católica.
A atitude de Judas Macabeu não se encontra autorizada por qualquer ensinamento do Antigo Testamento, especialmente se considerarmos que os judeus pelos quais ele orou e ofereceu sacrifícios tinham morrido precisamente por terem guardado para si «objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, o que a Lei proíbe aos judeus» (2 Mac 12,40). Por outras palavras, haviam violado o solene mandamento de Deus registado em Deuteronómio 7:25.
Por outro lado, embora tais ações mereçam o louvor do autor não inspirado do livro, não existe a menor indicação de que Deus tenha respondido favoravelmente a semelhante intercessão em favor de idólatras.
A oração por mortos que tombaram em prática de idolatria — a qual, segundo a teologia católica, constitui pecado mortal (o que colocaria esses judeus no Inferno e não no Purgatório) — é uma base manifestamente frágil para prestar qualquer apoio à doutrina do Purgatório.
As orações pelos mortos e a consequente doutrina do Purgatório foram parte da religião verdadeira desde antes da época de Cristo. Podemos mostrar que não só foram praticadas pelos judeus da época dos Macabeus, mas que inclusive foram conservadas pelos judeus ortodoxos de hoje, os quais recitam uma oração conhecida como o Kaddish durante onze meses depois da morte de um ser amado, de modo que o amado possa ser purificado.
A tentativa de fundamentar o Purgatório na recitação do Kaddish do judaísmo rabínico contemporâneo incorre num anacronismo duplo: primeiro, confunde a tradição talmúdica pós-bíblica com o judaísmo do período do Segundo Templo; segundo, ignora que o Kaddish de luto (Kaddish Yatom) é primariamente uma doxologia de santificação do nome de Deus e de resignação perante a Sua vontade, e não uma prece de expiação por almas num fogo purificador de estilo tridentino.
Nada do que os judeus ortodoxos de hoje seguem quanto a esta matéria é ensinado na Bíblia (de facto, não admitem o livro de 2 Macabeus no seu cânon), mas sim na sua própria tradição talmúdica posterior.
Além disso, no cristianismo, a prática de orar pelos mortos não implica de modo algum a aceitação da doutrina do Purgatório, como atrás observei. Tratava-se de uma expressão de afeto, agradecimento ou súplica para que Deus guardasse as suas almas, e não de um sufrágio para as livrar de supostas "penas purificadoras".
Não foi a Igreja Católica que acrescentou a doutrina
do purgatório. Pelo contrário, a mudança no ensinamento original teve lugar no Protestantismo, que rejeitou uma doutrina que tinha sido crida sempre pelos
judeus e pelos cristãos.
Dizer isto é fácil. Que bonito seria se o pudesse demonstrar!
Por que ir para o Purgatório?
Por que razão alguém irá para o Purgatório? Para ser purificado, porque "nada impuro entrará [no Céu]" (Apoc. 21:27). Alguém que não se libertou totalmente do pecado e dos seus efeitos está, em certa medida, "impuro". Através do arrependimento pode ter alcançado a graça necessária para ser digno do Céu — o que quer dizer que foi perdoado e a sua alma está espiritualmente viva. Mas isso não é suficiente para ganhar a entrada no Céu. Necessita de ser totalmente purificado.
Se nos pusermos a especular — e a doutrina do Purgatório, que veio a tornar-se dogma "de fé", nasceu precisamente da especulação —, Deus poderia purificar todos os fiéis defuntos de maneira instantânea, sem ter de os deter num Purgatório.
Esta ideia tem muito mais apoio do que a invenção romana, visto que Paulo afirma expressamente que todos os crentes que estiverem vivos quando Cristo voltar (entre os quais haverá, certamente, muitos imperfeitos) serão transformados num instante, «num abrir e fechar de olhos» (1 Coríntios 15:51-52).
Os fundamentalistas protestantes argumentam que "a Escritura claramente revela que todas as exigências da justiça divina no pecador se satisfizeram totalmente em Jesus Cristo. Também revela que Cristo redimiu totalmente ou resgatou todo o que se havia perdido. Os defensores de um Purgatório (e da necessidade de oração pelos mortos) dizem, na realidade, que a redenção de Cristo foi incompleta... Tudo foi feito por nós por Jesus Cristo, não há nada a ser acrescentado ou feito pelo homem".
É inteiramente correto dizer que Cristo obteve toda a nossa salvação para nós na cruz. Mas isso não resolve a questão de como esta redenção se aplica a nós. A Escritura revela que se aplica no decorrer do tempo através, entre outras coisas, do processo de santificação pelo qual o cristão é tornado santo. A santificação envolve sofrimento (Rom 5:3-5), e o Purgatório é a etapa final da santificação que alguns de nós têm necessidade de experimentar antes de entrar no Céu. O Purgatório é a fase final em que Cristo nos aplica a purificação redentora que obteve para nós pela sua morte na cruz.
Não existe nenhuma contradição.
A resistência fundamentalista à doutrina bíblica do Purgatório pressupõe que há uma contradição entre Cristo redimir-nos na cruz e o processo pelo qual nos santificamos. Não há tal. E um fundamentalista não pode dizer que o sofrimento na etapa final da santificação entra em conflito com a suficiência do sacrifício de Cristo sem dizer que o sofrimento nas etapas iniciais da santificação também apresenta um conflito similar. O fundamentalista tem isto ao contrário: o nosso sofrimento na santificação não tira mérito à cruz. Pelo contrário, a cruz produz a nossa santificação, a qual resulta em sofrimento, porque "nenhuma correção parece, no momento, ser motivo de gozo, mas de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça" (Heb 12:11).
Nada impuro
O Purgatório faz sentido porque existe o requisito de que uma alma declarada justa deve estar realmente limpa antes que possa entrar na vida eterna. Afinal, se uma alma culpada é meramente "aprovada", se o seu estado pecaminoso ainda existe mas é oficialmente ignorado, continua a ser uma alma culpada. Ainda está impura.
A teologia católica leva a sério a noção de que "nada impuro entrará no Céu". Disto deduz-se que uma alma imperfeitamente purificada, mesmo que "aprovada", continua a ser uma alma suja e não serve para o Céu. Necessita de ser purificada ou "purgada" das suas imperfeições restantes. A purificação ocorre no Purgatório. De facto, a necessidade de purgar é ensinada noutras passagens da Escritura, tal como 2 Tessalonicenses 2:13, a qual declara que Deus nos escolheu "para a salvação, pela santificação do Espírito". A santificação não é, portanto, uma opção, algo que pode ou não suceder antes que se consiga entrar no Céu. É um requisito absoluto, como Hebreus 12:14 indica quando exige que nos esforcemos pela "santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor".
Sinceramente
já me cansei de tanta chachada. O autor limita-se a repetir ciclicamente os mesmos sofismas, na esperança de convencer algum leitor incauto pela mera insistência.
Apenas acrescento que dificilmente o texto invocado de 2 Tessalonicenses 2:13 ensina um Purgatório, quando apresenta a santificação do Espírito e a fé na verdade como o meio gracioso através do qual Deus opera a salvação nesta vida. Não existe ali a menor alusão a uma purificação expiatória de além-túmulo.
[1] O artigo original em inglês encontra-se
publicado Aqui
