segunda-feira, 13 de maio de 2024

Lutero sobre a compatibilidade de Tiago com Paulo

Em 1530, Lutero respondeu à pergunta: “Por que Tiago [2:26] diz: ‘A fé sem obras é morta’?”

A resposta de Lutero foi:

"Tiago está a tratar de uma questão moral, não teológica, assim como trata quase inteiramente de moralidade. Moralmente falando, é verdade que a fé sem obras é morta - isto é, se a fé não faz obras ou se obras exteriores não seguem a fé. Dessa forma, então, a fé não pode existir separada das obras; isto é, ela não pode deixar de fazer obras, pois a fé não existe sozinha. No entanto, aqui [em Paulo] estamos a tratar de uma questão teológica, já que estamos a discutir a justificação diante de Deus. Aqui afirmamos que somente a fé é contada como justiça diante de Deus, independentemente das obras e dos méritos.” (Luther's Works, 61:183-184).

sábado, 12 de agosto de 2023

A IGREJA É UMA DEMOCRACIA CONSTITUCIONAL


A igreja é uma democracia constitucional. A sua constituição é a Bíblia, a Palavra de Deus. Ela é a lei fundamental, a regra da fé, o princípio da unidade que regula e pacifica os conflitos dentro da sociedade que é a igreja. 

De acordo com Gálatas 3:28, na igreja deve vigorar o princípio da igualdade, isto é, ninguém deve ser considerado superior a ninguém, todos foram salvos por graça e devem manter a humildade. O único chefe é Cristo. Por isso, na Igreja de Deus não há hierarquia. 

Quem na igreja ocupa os diferentes ministérios e cargos de autoridade deve ser eleito, legitimado, reconhecido por todo o povo de Deus. Não imposto por uma minoria à igreja contra a sua vontade ou sem o seu consentimento. 

Quem exerce um ministério deve exercê-lo dentro das funções atribuídas sem as extravasar. A função de um pastor/ancião é vigiar e zelar pelo bem da igreja local, e presidir à igreja local, não é dominar ou senhorear o povo de Deus como um tirano. 

Confissões de fé e regras internas da igreja devem ser aprovadas pela maioria dos membros da igreja.

Os bens da igreja local são de todos os seus membros. A compra e a venda de imóveis deve ser aprovado por toda a igreja, não por uma minoria.

Fuja-se, portanto, de todos os "papas" e "vaticanos", inclusive evangélicos, que querem impor os seus bispos, a sua vontade e as suas ideias às igrejas contra a vontade e sem o consentimento destas.

Como ensinou Jesus: Quem quiser ser o maior, seja servo de todos.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

A GEOGRAFIA DO CATOLICISMO

 

Recentemente, a Igreja católica romana convocou de todo o mundo adolescentes da catequese, catequistas, escoteiros e seminaristas para confluírem todos num mesmo local do planeta. Uma espécie de cruzada medieval pacífica, a que se dá o nome de Jornada Mundial da Juventude. Conseguiu assim, com a ajuda do Estado português, invadir a cidade de Lisboa com cerca de 500 mil pessoas, cujo nome oficial é “peregrinos”, que não vieram fazer mais do que turismo religioso com a atração principal a ser o papa Francisco. 

Conseguiu também colocar as televisões portuguesas a concorrerem com a TV Canção Nova em histeria coletiva, como se tivessem a cobrir a sétima aparição de Fátima, resultando isso numa enorme campanha publicitária gratuita em favor da Igreja católica romana. 

No entanto, metade dos peregrinos presentes, eram oriundos de apenas 4 países. Espanha com o maior contingente, Itália, Portugal e França. E 70% dos presentes eram oriundos de apenas 6 países se acrescentarmos os norte-americanos e os brasileiros.

Tendo em conta que metade dos católicos norte-americanos são hispânicos, pode concluir-se que o catolicismo é uma religião essencialmente latina e para latinos.


P.S. Ainda pensei que iria acontecer algo verdadeiramente surpreendente quando Francisco, no seu estilo de coach, ensinou que o único momento em que é lícito olhar alguém de cima para baixo é para o ajudar a levantar, ou seja, que ninguém se deve considerar superior a ninguém, e para dar o exemplo, Francisco iria anunciar o fim do cargo de Papa e do sistema hierárquico piramidal, um sistema de castas, que existe dentro da Igreja de Roma, mas parece que passar das palavras aos atos é que é mais difícil. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A COMUNHÃO VERDADEIRA E A UNIDADE PERFEITA

Somente na luz e na verdade a comunhão é verdadeira e a unidade é perfeita porque tudo se faz com um propósito que prescinde e transcende os interesses e objetivos pessoais.

sábado, 15 de julho de 2023

O gnosticismo era tolerante e inclusivo? Desmistificando alguns mitos sobre cristianismos “alternativos”

 

Por Michael J. Kruger

No mundo dos estudos bíblicos, pelo menos entre alguns académicos críticos, o gnosticismo tem sido o menino-bonito de há algum tempo a esta parte. Especialmente desde a descoberta dos chamados "Evangelhos Gnósticos" em Nag Hammadi em 1945, há académicos que têm cantado louvores a esta versão alternativa do cristianismo.

O gnosticismo era uma versão herética do cristianismo que entrou em cena principalmente no segundo século e que tentou competir com os cristãos ortodoxos. E parece que alguns académicos olham para trás e desejam que os gnósticos tivessem prevalecido.

Afinal de contas, argumenta-se, o cristianismo tradicional era tacanho, dogmático, intolerante, elitista e mesquinho, enquanto o gnosticismo era aberto, acolhedor, tolerante e amoroso. Se pudesse escolher, qual escolheria?

Embora esta narrativa sobre o gnosticismo de espírito livre sendo duramente oprimido pelos cristãos ortodoxos malvados e intolerantes possa soar retoricamente convincente, isso simplesmente não é confirmado pelos factos. Eis aqui cinco afirmações feitas frequentemente sobre o gnosticismo que comprovadamente são mais mito do que realidade:

Mito 1: O gnosticismo era mais popular do que o cristianismo tradicional.

É dito repetidamente que os gnósticos estavam tão difundidos quanto os cristãos ortodoxos, e que os seus livros também eram tão populares (senão mais). A razão pela qual eles não prevaleceram é porque foram oprimidos e reprimidos à força pelo partido ortodoxo que ganhou poder por meio de Constantino.

Mas, isso simplesmente não é verdade. Todas as evidências sugerem que foi “a Grande Igreja” (na linguagem do crítico pagão Celso) que dominou os primeiros séculos cristãos, muito antes de Constantino. Além disso, os escritos gnósticos não eram tão populares quanto aqueles que se tornaram canónicos, como pode ser visto pelo número de manuscritos que deixaram. Por exemplo, temos mais cópias apenas do Evangelho de João dos primeiros séculos do que de todas as obras apócrifas juntas.

Mito 2: O gnosticismo era mais inclusivo e de mente aberta do que o cristianismo tradicional.

Uma perceção popular dos gnósticos é que eles não tinham a mentalidade elitista do cristianismo tradicional. É dito que eles eram os que aceitavam os outros.

Mas, novamente, parece que a realidade era o oposto. A maioria das pessoas não sabe que os gnósticos não estavam interessados na salvação de todos. Pelo contrário, eles consideravam a salvação algo apenas para a “elite espiritual”.

Como Hultgren afirma: “A atitude destes gnósticos era extremamente elitista, pois eles sustentavam que apenas um em mil ou dois em dez mil são capazes de conhecer os segredos [da salvação]” (Normative Christianity, 99).

Mito 3: O gnosticismo reflete com mais precisão os ensinamentos do Jesus histórico do que o cristianismo tradicional.

Alguns têm argumentado que, se quisermos conhecer o Jesus real, o Jesus histórico, os escritos gnósticos (como o Evangelho de Tomé) fornecem uma imagem mais confiável.

Os problemas com tal afirmação são múltiplos, mas vou mencionar apenas um: os gnósticos não estavam muito interessados no Jesus histórico. Para os gnósticos, o que importava não era a tradição apostólica transmitida, mas sim a sua experiência religiosa atual com o Jesus ressuscitado (Jonathan Cahana, “None of Them Knew Me or My Brothers: Gnostic Anti-Traditionalism and Gnosticism as a Cultural Phenomenon,” Journal of Religion, 94 [2014]: 49-73).

Em outras palavras, os gnósticos se preocupavam muito menos com o passado e muito mais com o presente.

Este tipo de abordagem “existencial” da religião pode ser popular na nossa cultura moderna, onde a experiência comanda a vida e a religião é vista como totalmente privada. Mas não ajuda a recuperar o que realmente aconteceu na história. Se quisermos saber o que aconteceu na história, os Evangelhos canónicos sempre foram as melhores fontes.

Mito 4: O gnosticismo era mais favorável às mulheres do que o cristianismo tradicional.

Este é um grande problema. A perceção popular é que os cristãos ortodoxos oprimiram as mulheres, mas os gnósticos as libertaram. Mas, novamente, a verdade não é tão simples.

Pelo contrário, a evidência histórica sugere que as mulheres se juntaram ao cristianismo tradicional em massa. Na verdade, elas podem ter superado os homens quase em dois para um. Rodney Stark no seu livro The Triumph of Christianity defende que isso ocorreu porque o Cristianismo demonstrou ser um ambiente muito acolhedor, saudável e positivo para as mulheres.

Também abordo essa questão no meu último livro, Christianity at the Crossroads: How the Second Century Shaped the Future of the Church (IVP Academic, 2018).

Também vale a pena notar que a postura supostamente pró-mulher de alguns dos líderes gnósticos não é o que parece. O gnóstico valentiniano Marcus era na verdade conhecido por trazer mulheres para o movimento para que ele pudesse seduzi-las sexualmente (Ireneu, Adv. haer. 1.13.5).

Além disso, a visão gnóstica das mulheres parecia particularmente negativa se considerarmos o versículo final do Evangelho de Tomé: “Pois toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus” (logion 114). É difícil ver isso como um apoio às mulheres!

Mito 5: O gnosticismo era mais positivo em relação à sexualidade humana do que o cristianismo tradicional.

Um mito final sobre o gnosticismo é que ele era pró-sexo e que o cristianismo tradicional era anti-sexo. Em outras palavras, os gnósticos celebravam a sexualidade e os cristãos tradicionais eram pudicos puritanos.

Mais uma vez, a realidade é muito diferente. Enquanto alguns gnósticos eram sexualmente licenciosos (como observado acima com Marcus), uma grande parte do movimento era totalmente contra o sexo. De facto, grande parte do movimento defendia um severo ascetismo e o celibato.

Por exemplo, o Livro de Tomé afirma: “Ai de vocês que quereis relações sexuais que pertencem à feminilidade e a sua coabitação imunda. E ai de vocês que sois dominados pelas autoridades de vossos corpos; porque eles vos afligirão.

Enquanto alguns cristãos ortodoxos seguiram um caminho mais ascético, a maioria via o celibato como voluntário. O casamento, e o sexo dentro do casamento, era celebrado e visto como um dom de Deus.

Em suma, as perceções populares sobre o gnosticismo são apenas isso, perceções populares. E, portanto, elas não têm necessariamente uma base na história. Como vimos aqui, o gnosticismo real era muito diferente. E isso nos faz pensar que o gnosticismo falhou não porque foi politicamente oprimido pelos ortodoxos astutos, mas porque simplesmente demonstrou ser menos atraente para as pessoas dos primeiros séculos que procuravam seguir a Cristo.

Ou, como F. F. Bruce espirituosamente observou: “As escolas gnósticas perderam porque mereciam perder” (Canon of Scripture, 277).

sexta-feira, 7 de julho de 2023

ESCOLASTICISMO REFORMADO

 

A teologia reformada é suposto estar fundamentada na teologia exegética. Somente verdades reveladas merecem o status de artigos de fé. Isso inclui interpretações corretas de verdades reveladas, bem como inferências válidas das verdades reveladas. Isso é baseado no princípio da sola scriptura.

Mesmo a esse nível, as interpretações reformadas devem permanecer abertas ao escrutínio exegético. Precisamos ser capazes de defender as nossas interpretações.

A teologia reformada é bastante estável. No entanto, é necessário distinguir entre a teologia reformada e as escolas filosóficas de pensamento que são utilizadas para expor e defender a teologia reformada.

O problema é quando a teologia reformada se alinha com um paradigma filosófico particular, como o tomismo, de modo que a afirmação da teologia reformada se torna inseparável da afirmação da tradição filosófica que a patrocina.

O tomismo nunca deve ser elevado a um artigo de fé. Isso idolatra a filosofia. A teologia filosófica deve permanecer sujeita ao escrutínio racional, na medida em que a teologia filosófica antes de tudo assenta na razão natural.

A teologia filosófica deveria ser mais eclética e criteriosa. Não formar uma aliança exclusiva com nenhum filósofo em particular ou escola filosófica de pensamento.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

MÁQUINA DE PANQUECAS

 

Alguns jovens protestantes ficam apaixonados pelo tomismo. O que torna o tomismo tão atraente?

1. Uma motivação é o apelo das redes sociais. Uma comunidade virtual na qual se pode alcançar status social fazendo comentários para impressionar outros. O tomismo permite ser um exibicionista intelectual nas redes sociais.

2. Numa frente diferente, o tomismo é atraente para alguns porque é muito enciclopédico. Ele tem respostas prontas para uma série de questões, desde metafísica e epistemologia até à ética. O protestantismo não desenvolveu nada equivalente.

O tomismo tem estas categorias expeditas, gavetas em que se pode meter coisas e sai a resposta, a saber, forma/matéria, essência/existência, substância/acidente, eficiente/formal/material, causas finais.

Como uma máquina de panquecas. Despeja-se a massa dentro e saem panquecas. A máquina determina o formato que a massa terá.

Claro, isso é apenas uma virtude se a realidade for em formato de panqueca.

3. Tomás de Aquino foi um grande teólogo filosófico, um grande teólogo sistemático, bem como um influente eticista, teórico político, etc. Portanto, há alguma justificação para o interesse nele. Dito isso, o interesse por Tomás de Aquino muitas vezes torna-se míope. E isso traz problemas. Por exemplo:

i) A filosofia e a teologia filosófica não terminaram com Tomás de Aquino, logo não há nenhuma boa razão para que ele seja o paradigma padrão. Isso leva à negligência de filósofos posteriores e teólogos filosóficos fora da tradição tomista. Especialmente para os protestantes, não deve haver nenhuma presunção de que a ética, a metafísica e a epistemologia tomista seja o melhor sistema. Por exemplo, a filosofia frequentemente usa modelos e analogias alicerçados na lógica, na matemática e na ciência. Avanços na lógica, na matemática e na ciência podem levar a avanços na análise filosófica. Neste aspecto, o tomismo tem recursos conceptuais antiquados e anacrónicos.

É certo que o tomismo tem sido atualizado, mas, como a adaptação de um carro antigo, chega um ponto em que tem que se parar de ajustar a tecnologia do carburador e criar algo do zero.

ii) Quando deixado por sua conta, Tomás de Aquino é um pensador bastante claro. No entanto, ele é antes de tudo um clérigo leal. Seu dever é defender o dogma católico medieval.

Isso significa que ele está preso a coisas que são difíceis de defender. Ele tem que apresentar defesas engenhosas do dogma recebido. Isso resulta em falta de clareza. Ele torna-se pouco claro porque traça distinções ad hoc para defender tudo o que seja dogma. Ele não dá as cartas. Ele joga com as cartas que recebeu.

iii) Outro problema diz respeito à gestão do tempo: a vida é curta, os livros são caros, o dia tem apenas 24 horas. O tempo investido no tomismo é tempo retirado de outros estudos. Isso não significa que quem tem interesse por filosofia deva ignorar o tomismo, mas há, igualmente, outras coisas que não devem ignorar-se. Trata-se de uma questão de prioridades.

Por exemplo, há um lugar importante para a cristologia filosófica. Mas esse não é o ponto de partida adequado. O que sabemos sobre Jesus é baseado na revelação histórica. O ponto de partida adequado é a teologia exegética, não a teologia filosófica ou a teologia histórica. Dito de outra forma, a teologia filosófica deverá partir da teologia exegética. No caso da cristologia, a cristologia do NT é o fundamento.

Se alguém pretende ler boas obras sobre cristologia, comece com monografias exegéticas de estudiosos como Richard Bauckham, Gordon Fee, Simon Gathercole, Larry Hurtado e Sigurd Grindheim. Isso fornece a matéria-prima para a análise e modelação filosófica.

A cristologia filosófica que não está firmemente fundamentada na cristologia do NT é apenas uma incursão na história das ideias, brincar com ideias, como algumas ideias se relacionam com outras ideias. Nada disso tem qualquer base na realidade de quem Jesus realmente é. Ela torna-se idolatria intelectual: adoração das nossas próprias mentes.

4. Faz sentido para um católico piedoso começar com o dogma da igreja. Ele acha que a Madre Igreja tem a interpretação correta do NT da pessoa e da obra de Cristo. Então esse é o ponto de partida dele. E isso é lógico, dado a premissa incorreta.

Mas essa não é uma premissa dos protestantes. A menos que comecemos com verdades reveladas sobre Jesus, o que acreditamos é apenas encenação.

Por exemplo, se alguém começar com Tomás de Aquino, fica a entender as duas naturezas de Cristo em termos de antropologia tomista (p. ex. hilomorfismo) e teologia tomista (p. ex. simplicidade divina, actus purus, trinitarianismo latino). Dessa forma, o que faz é substituir a cristologia do NT por um simulacro.

Ironicamente, alguns jovens protestantes são mais católicos do que o catolicismo. Existem filósofos católicos como Nicholas Rescher, Bas van Fraassen, Michael Dummett e Dagfinn Føllesdal que não compartilham a paixão deles pelo tomismo. Sem falar em ordens religiosas inteiras (jesuíta, franciscana) que estão em desacordo com o tomismo.

O cardeal Newman adotou uma abordagem muito diferente da epistemologia religiosa de Aquino. Da mesma forma, Bento XVI estava, pelo que sei, muito mais sintonizado com os seus padres da igreja favoritos do que com Aquino. Aliás, quão central foi Tomás de Aquino para a filosofia/teologia de João Paulo II? Urs von Balthasar não era o seu teólogo favorito?

Há também filósofos católicos, como Alexander Pruss, que são bastante ecléticos. Ele defende o argumento cosmológico leibniziano e não tem problemas em combinar insights aristotélicos e leibnizianos sobre mundos possíveis.

O facto é: os verdadeiros filósofos fazem algum juízo independente na sua avaliação do tomismo. É isso que os torna pensadores críticos. Mesmo quando se apropriam do tomismo, eles o peneiram e qualificam.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

PEÇA DE MUSEU

Uma das razões para não se ser tomista é que o tomismo é uma peça de museu. Tomás de Aquino foi um apologista da teologia católica medieval. O que mais ele poderia ser?

Mas já ninguém acredita na teologia católica medieval (além dos sedevacantistas). Esse paradigma teológico está extinto.

Isso não significa que não se possa salvar alguns elementos duradouros do tomismo, mas o sucesso da operação de resgate depende em parte de se se é católico ou protestante. Há menos continuidade entre o tomismo e o evangelicalismo do que entre o tomismo e o catolicismo moderno.

É necessário desmontar o pacote tomista para aproveitar peças reutilizáveis. É sempre possível conseguir-se algumas peças reutilizáveis numa sucata de carros desmantelados.

terça-feira, 20 de junho de 2023

O cânon da Bíblia e a força da gravidade


“Em relação à abordagem católica mais rígida da relação igreja-cânon, a ideia de que o cânon é “derivado” da igreja ou “causado” pela igreja também levanta uma série de problemas:

(1) Embora o Novo Testamento não tenha sido concluído de uma só vez, o ensino apostólico foi a substância do que mais tarde se tornou o Novo Testamento. E foi esse ensino apostólico, juntamente com os profetas, que constituiu o fundamento da igreja, e não o contrário. Como afirma Efésios 2:20, a igreja foi “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas”. A igreja é sempre a creatura verbi (“criação da Palavra”). Chapman resume: “O cânon bíblico não é uma criação da igreja, antes a igreja é uma criação do cânon bíblico”.

(2) Os primeiros cristãos tinham um cânon, a saber, o Antigo Testamento (Rom. 15:4; 1 Cor. 10:6; 2 Tim. 3:15-16), que parece ter existido bem antes da fundação da igreja. Não há nenhuma razão para pensar que o Israel dos dias de Jesus teve alguma revelação infalível de Deus que o ajudou a escolher os livros do cânon do Antigo Testamento.

(3) Desde os primeiros dias, os crentes receberam as cartas de Paulo como Escritura (1 Tessalonicenses 2:13), Paulo claramente pretendia que fossem recebidas como Escritura (Gálatas 1:1–24), e até outros escritores pensaram que eram Escritura (2 Pedro 3:16). Assim, as próprias Escrituras nunca dão a impressão de que a sua autoridade era “derivada” da igreja ou de alguma futura decisão eclesiástica.

(4) Foi apenas no Concílio de Trento em 1546 que a Igreja Católica Romana fez uma declaração formal e oficial sobre o cânon da Bíblia, particularmente sobre os Apócrifos. À luz deste cenário, o que dizer da afirmação católica romana de que “sem a Igreja não haveria Novo Testamento”? Devemos acreditar que a igreja não teve nenhum cânon por mais de 1500 anos, até o Concílio de Trento? A história da igreja deixa claro que a igreja tinha, de facto, um cânon funcional muito antes do Concílio de Trento (ou mesmo dos concílios do século IV). J. I. Packer resume bem: “A Igreja não nos deu o cânon do Novo Testamento mais do que Sir Isaac Newton nos deu a força da gravidade. Deus deu-nos a gravidade... Newton não criou a gravidade, mas a reconheceu.”

Michael J. Kruger, Canon Revisited: Establishing the Origins and Authority of the New Testament Books (Wheaton: Crossway, 2012), p. 44-45.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

A TRADIÇÃO INVISÍVEL

 

Conhecemos o conteúdo das Escrituras, de modo que, tirando as diferenças relacionadas com os deuterocanónicos/apócrifos, todos os cristãos sabem a que corpus se referem quando falam da Bíblia.

No entanto, não ocorre a mesma coisa quando se fala da tradição apostólica extrabíblica.

Por isso, algum amável apologista católico, poderia nos explicar qual é precisamente o conteúdo da tradição apostólica que a Igreja de Roma se preza de guardar?

Se for possível, acrescente a evidência de que as tradições que cita são de origem autenticamente apostólica.

E seria ótimo se fornecesse uma fonte magisterial (papa ou concílio) cuja autoridade apoie a referida delimitação.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Fatalismo, paganismo e predestinação

 

Muitas pessoas têm uma aversão instintiva à ideia de predestinação. Mas uma das coisas interessantes sobre a predestinação é a forma como ela requer uma cosmovisão cristã para subscrevê-la. No paganismo, a predestinação é impossível. Não existe nenhum Deus Criador absoluto. Os deuses são eles próprios produto do processo do mundo em curso. Os deuses não são omniscientes. Nenhum deus controla tudo. Eles têm jurisdições territoriais.

Portanto, não é possível no paganismo que o mundo se desenrole de acordo com um plano mestre. Muitos eventos acontecem sem razão. A contingência absoluta desempenha um papel enorme na história. Se se repor a história numa data anterior, ela nunca se repetirá.

A mitologia grega tem uma doutrina obscura das Parcas. Elas predeterminam o tempo de vida dos humanos.

O fatalismo clássico é diferente da predestinação porque o resultado é inevitável, independentemente do que mais aconteça. Não há uma cadeia de eventos que leva a um resultado particular, mas vários caminhos que convergem todos para o mesmo resultado. Alterar as condições iniciais não altera o resultado. Não é claro que o fatalismo seja coerente mesmo numa cosmovisão pagã, exceto no sentido deus ex machina.

terça-feira, 28 de junho de 2022

«PARTO FORÇADO»

 

Abortistas por vezes rotulam a legislação pró-vida de "parto forçado" – como se houvesse algo inerentemente censurável nisso. Consideremos as variações dessa objeção. Qual é exatamente o princípio censurável?

i) A objeção é que ninguém deve ser forçado a fazer algo que não queira? Considere-se indivíduos que voluntariamente incorrem numa obrigação financeira, como usar um motel, um dentista ou um carro alugado. É errado se eles são "forçados" a pagar pelos bens e serviços que usaram? Isso dificilmente é plausível como um princípio geral.

ii) É a objeção de que ninguém tem direito ao uso do corpo de outra pessoa? Em caso afirmativo, considere-se alguns contra-exemplos: suponha-se que alguém numa cadeira de rodas precisa de ajuda para subir umas escadas. Estranhos têm a obrigação moral de ajudá-lo (ou ajudá-la). Nesse sentido, alguém pode reivindicar o uso do corpo de outra pessoa.

Da mesma forma, se uma criança cai num rio e está prestes a se afogar, estranhos que sabem nadar têm o dever de resgatar a criança. Mais uma vez, essa é uma reivindicação moral sobre o uso do corpo de outra pessoa.

Estes são exemplos muito limitados, mas demonstram que não se pode descartar por princípio que uma pessoa em necessidade tenha direito à agência física de outra pessoa.

iii) É a objeção de que, embora possamos ser forçados a fazer algo ou sofrer algo se isso for uma consequência de algo que consentimos, não podemos ser forçados a fazê-lo ou sofrer sem consentimento no início. Se assim é, o que dizer dos homens que são convocados para lutar na guerra? Isso é involuntário. Além disso, muitos deles morrem, ficam mutilados ou inválidos em decorrência do serviço militar. Certamente que isso é pelo menos tão traumático como uma vítima de violação dar à luz.

iv) A propósito (iii), é a objeção não ao "parto forçado" em geral, mas ao "parto forçado" no caso de vítimas de violação? É a objeção de que é grosseiramente injusto fazer vítimas de violação grávidas levarem a gravidez até ao fim.

Se sim, concordo que é injusto fazer uma vítima de violação passar por essa tribulação. No entanto, é possível que algo seja injusto, mas ainda assim seja um dever.

Suponha-se que uma vítima de violação está grávida já no sétimo mês de gestação e levar a gravidez até ao fim não representa um risco grave para a sua saúde física e psicológica. Não é algo que seja psicologicamente insuportável para ela dar à luz aquela criança. Qual é o mal menor? Matar o bebé de sete meses ou levar a gravidez até ao fim? Apesar de ser injusto engravidar como resultado de uma violação, numa situação destas certamente levar a gravidez até ao fim seria um dever.

Suponha-se que eu tenha um irmão adolescente que ficou deficiente num acidente de bicicleta causado por um motorista imprudente. É injusto que ele de repente precise de ajuda especial de mim. Eu tinha a minha vida planeada. Agora tenho que fazer ajustes e sacrificar os meus sonhos. Mas não decorre daí que eu não tenha a obrigação de ajudar o meu irmão deficiente, embora a situação tenha sido imposta a mim (na verdade, imposta a nós dois).

Suponha-se que a minha mulher me traia. Ela tem um filho de outro homem. Na época eu não sei do caso. Não sei que a criança não é minha.

Suponha-se que eu descubra numa data posterior. Suponha-se ainda que quando a criança faz cinco anos, a minha mulher deixa-me com a criança. Ela se divorcia de mim e vai morar com outro homem.

Estou "preso" com uma criança de quem não sou o pai. Isso é "injusto". Mas nesta fase, eu sou o único pai que a criança alguma vez conheceu. Seria psicologicamente prejudicial para a criança colocá-la para adoção aos cinco anos de idade. A criança lembra-me o caso da minha mulher. Devo retirar o meu amor da criança porque é injusto que eu tenha sido empurrado para esta situação? Certamente não!

v) Evidentemente, argumentos morais não têm força quando dirigidos a um niilista moral. Há pessoas que rejeitarão esses exemplos porque são niilistas. E essa é uma das coisas perigosas do ateísmo.

sábado, 11 de junho de 2022

FÉ E OBRAS

 

Esta é uma continuação do post anterior:


Como harmonizamos Paulo e Tiago sobre a justificação? A resposta breve é que Paulo e Tiago falam sobre duas coisas diferentes.

Tiago está preocupado com a natureza da fé salvífica. Entre a fé morta e a fé viva. A fé viva é uma fé vivida. Viver o que se professa com os lábios. A fé posta em prática.

A fé viva é uma fé perseverante. A caminhada da fé é para maratonistas, não para velocistas. O verdadeiro teste não é como se começa, mas como se acaba.

E mesmo se nos ativermos à terminologia da “justificação” – que pode ser enganosa (ver o post anterior) – Tiago não diz que a justificação inclui obras. Em vez disso, ele diz que a inclui obras – não no sentido de que a fé é parcialmente uma obra, mas que a fé viva resulta em boas obras.

Em contraste, Paulo usa "justificação" para significar que a justiça é um dom divino. Não temos justiça própria. Em vez disso, temos a justiça de Cristo. Um status atribuído em vez de um status alcançado. Na verdade, apesar do que nós próprios somos. Como o filho de um rei, que é príncipe, não por algo que fez, mas por algo com que nasceu.

O uso de Paulo é idiossincrático. Ele redefine a palavra "justificação" para os seus próprios propósitos. E todo escritor tem essa prerrogativa. Os escritores não estão vinculados ao uso anterior. Eles são livres para aplicar palavras antigas com novos significados. Tiago não usa "justificação" nesse sentido especializado. Por isso não há nenhuma contradição. Mas devido à influência da teologia paulina, o seu uso inovador tornou-se o uso dominante, o que é confuso se lido posteriormente em Tiago.

E Paulo concorda com Tiago sobre a natureza da fé salvífica. Mas Paulo está preocupado com algo diferente. Ele está a lutar com um dilema teológico. Como pode um Deus santo perdoar pecadores? Pecadores não são suficientemente bons para merecer a salvação com base na sua própria bondade.

Na verdade, a situação deles é pior do que isso. É um dever de um Deus justo punir os injustos, não perdoá-los. O que torna justo um Deus justo é que ele exige a retribuição dos injustos. Absolver o culpado é a marca de um juiz injusto. Portanto, como Deus pode perdoar o injusto com justiça?

A solução de Paulo é a substituição penal. A expiação vicária de Cristo.

E a justificação pela fé espelha a expiação vicária. Colocar a fé em outro é renunciar à fé em si mesmo. Esperar em outro põe de lado a esperança em si mesmo.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Somos justificados pela fé e pelas obras?

 

i) Os apologistas católicos romanos (assim como os ortodoxos orientais) tentam negar a doutrina protestante da sola fide citando Tg 2:24. Dado que eles aceitam tudo o que a sua denominação lhes diga, não se preocupam em considerar se isso é consistente. Não prosseguem com as implicações desse apelo. Apenas citam Tg 2:24 e deixam isso por aí. Mas isso é fatalmente míope.

ii) Pensam que esta é uma relação de adição ao invés de uma relação de exclusão. Que a justificação é tanto pela fé como pelas obras. Então simplesmente adicionam Tiago a Paulo.

iii) Mas vejamos como Paulo enquadra a questão:

Romanos 3:20 Porque pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele, visto que pela lei vem o conhecimento do pecado. Romanos 3:27 Onde está, logo, a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé. Romanos 3:28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei. Romanos 4:2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, ele tem do que se gloriar, mas não diante de Deus. Romanos 4:4 Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Romanos 4:6 Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras. Romanos 11:6 Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graçaGálatas 2:16 mas sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, assim também nós cremos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado. Gálatas 3:10 Pois todos os que confiam nas obras da lei estão debaixo de maldição; pois está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, e as praticar..”

Para Paulo, a justificação pelas obras é antitética à justificação pela fé. A justificação pela fé exclui a justificação pelas obras e vice-versa. As obras não podem complementar a fé como princípio de justificação. Se se adicionar obras à fé na justificação, fé e obras anulam-se mutuamente.

iv) O apelo católico assume que Paulo e Tiago estão a usar as mesmas palavras da mesma maneira. Mas se esse for o caso, então Paulo e Tiago são contraditórios em vez de complementares. E nesse caso, não podemos dizer qual escritor está correto, ou se algum dos escritores está correto. A tática católica leva a uma destruição mútua assegurada.

v) No entanto, é falacioso assumir que as mesmas palavras denotam os mesmos conceitos. Não só a mesma palavra pode ter mais de um significado, como não é idêntico palavras e conceitos. O conceito de justificação de Paulo não é derivável de um único termo do seu grupo de palavras em particular. O conceito poderia estar presente mesmo que ele nunca usasse a palavra "justificação". A justificação paulina é uma construção teológica, baseada num argumento complexo. Um argumento que inclui inferência lógica e exegese do AT. Um argumento que contrasta uma posição com outra.

Da mesma forma, temos que interpretar Tiago nos seus próprios termos. Não apenas uma palavra em particular, mas o seu argumento mais amplo.

vi) Se Paulo e Tiago não estão a referir-se à mesma coisa, então não há nenhuma tensão entre as suas respetivas posições. Mas isso também significa que não se pode citar Tiago para modificar Paulo. O que Tiago diz só qualifica o que Paulo diz se eles estivessem a falar sobre a mesma coisa. Além disso, isso só funcionaria se eles fossem mutuamente consistentes.

Se, no entanto, eles estiverem a usar as mesmas palavras da mesma maneira, isso gera uma contradição imediata. Por outro lado, se eles não estão a referir-se à mesma coisa, então o que Tiago diz não tem relação direta com o que Paulo diz. Não se pode usar Tiago para interpretar Paulo, muito menos usar Tiago para atenuar a força das formulações inflexíveis de Paulo. A posição de Paulo é separada da de Tiago. 

Paulo e Tiago são conciliáveis porque as suas discussões não coincidem. Eles estão simplesmente a usar termos semelhantes para discutir questões diferentes. É ingénuo confundir gramática superficial com gramática de fundo.

sábado, 23 de abril de 2022

Uma defesa da Ressurreição

 

Há vários apologistas cristãos proeminentes que escreveram livros inteiros a defender a Ressurreição. Exemplos notáveis incluem John Warwick Montgomery, C.E.B. Cranfield, William Lane Craig, Timothy e Lydia McGrew, Richard Swinburne, Gary Habermas, N. T. Wright e Mike Licona. Craig, em particular, tem sido influente a fazer uma defesa estereotipada da Ressurreição, com base na sua estratégia de factos mínimos, que é amplamente copiada.

Então, pensei recentemente em como eu faria uma defesa da Ressurreição se me pedissem para fazer uma apresentação na igreja ou na faculdade.

I. Evidência histórica prima facie

Uma coisa que muitas vezes é perdida de vista nos debates sobre a Bíblia é que o testemunho é uma evidência prima facie por direito próprio, a menos que tenhamos razões para duvidar dele. Não são precisas evidências corroborativas para o testemunho ter valor probatório.

Por exemplo, a minha avó costumava contar-me histórias sobre a sua vida. Essa é a minha fonte primária de informação sobre ela antes de eu nascer. Não tenho nenhuma razão para pensar que ela estava a mentir ou a lembrar-se mal de factos básicos sobre a sua vida.

A maior parte do que sei sobre os meus pais antes de eu nascer vem do que eles me contaram sobre a sua vida. Em alguns casos, posso corroborar o testemunho deles, mas isso dificilmente é necessário para que o testemunho deles seja confiável.

A menos que tenhamos evidências de que a testemunha é um mentiroso crónico, ou a menos que tenhamos evidências de que a testemunha foi motivada a mentir num caso em particular, é irracional descartar provas testemunhais.

1. Os Evangelhos

O NT consiste em 27 documentos do século I sobre uma figura histórica do século I.

i) No caso dos Evangelhos, existe a antiguidade senão a originalidade dos títulos. A uniformidade dos títulos na tradição textual é difícil de explicar, a menos que sejam atribuições editoriais originais ou extremamente primitivas. Assim que mais do que um Evangelho começou a circular, era necessário que cada Evangelho tivesse um título, para distingui-lo de outro ou de outros. Cf. Martin Hengel, The Four Gospels and the One Gospel of Jesus Christ (Trinity Press International, 2000), cap. 3, §3.

ii) De acordo com Atos 12:12, a cidade natal de Marcos era Jerusalém. Assim, a sua casa era o local de uma igreja doméstica original em Jerusalém. Dado o tempo e o lugar, ele provavelmente foi uma testemunha ocular de alguns eventos do ministério público de Cristo e teve acesso aos discípulos para obter mais informações.

Este é um detalhe incidental na narrativa de Lucas, por isso não pode ser atribuído a um falsificador que está a tentar dar ao Evangelho de Marcos um pedigree ilustre.

iii) Mateus tem uma preocupação com o judaísmo que seria duvidosa após a queda de Jerusalém e a dissolução do sistema judaico estabelecido. E assumindo a autoria apostólica de Mateus, que é defensável, ele foi testemunha ocular de muito do que regista.

iv) Lucas e Atos compartilham o mesmo autor. Devido a Atos cruzar com mais história romana do que Lucas, há mais evidência corroborativa. Dado que Lucas é comprovadamente preciso em Atos, é de esperar que ele seja preciso no seu Evangelho. Evidências para a precisão histórica de Atos incluem: Colin Hemer, The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History (Eisenbrauns, 1990); Craig Keener, Acts: An Exegetical Commentary, 4 vols. (Baker Academic, 2012-2015).

v) Numa solução convencional para o Problema Sinótico, Mateus e Lucas usam Marcos como fonte. Isso nos dá a oportunidade de verificar duplamente como eles lidam com as fontes. Podemos comparar Mateus a Marcos e Lucas a Marcos. Ambos são extremamente conservadores no seu uso de Marcos. Isso nos dá razão para acreditar que eles são igualmente fiéis na forma como se apropriam ou editam as suas outras fontes.

vi) O Evangelho de João contém muitos detalhes inesperados que são consistentes com um observador em primeira mão que está a lembrar-se do passado – na verdade, a ver o passado na sua memória, por exemplo, a hora do dia ("por volta da décima hora" [1:39]; "por volta da hora sexta" [4:6]; "seis potes de pedra de água, cada um contendo vinte ou trinta galões" [2:6]). Para mais detalhes, cfr. J. B. Lightfoot, "Internal evidence for the authenticity and genuineness of St. John's Gospel," Biblical Essays (Baker, 1979), cap. 3.

A arqueologia confirmou a exatidão da descrição detalhada de João em 5:2. Cf. Craig Blomberg, The Historical Reliability of John's Gospel (IVP, 2001), 109; Craig Keener, The Gospel of John (Hendrickson, 2003), 1:636-38. Isso é espantoso, considerando o facto de que os romanos arrasaram Jerusalém em 70 dC.

Alguns críticos tentam minimizar a confirmação arqueológica do NT dizendo que autores de ficção histórica deliberadamente polvilham suas histórias com pedaços factuais para lhes dar um ar de verossimilhança. No entanto, os críticos também pensam que Atos e os Evangelhos foram escritos por autores muito distantes no tempo e do lugar dos eventos que pretendem registar. Mas, nesse caso, eles não teriam acesso a informação detalhada e contextualizada necessária. Se o tiveram, essa é uma razão para pensar que os seus relatos são geralmente precisos, uma vez que se baseiam no acesso a informação em primeira mão. Os críticos não podem defender as duas coisas ao mesmo tempo.

vii) Uma característica interessante do Evangelho de João é o número de apartes editoriais. Cf. Andreas J. Köstenberger, Encountering John (Baker Academic; 2ª ed, 2013), Excursus 3. João irá citar uma declaração de Jesus ou narrar um evento na vida de Cristo, então adicionar um comentário explicativo para evitar o mal-entendido do leitor. Isso, no entanto, seria um recurso muito desajeitado, se o seu Evangelho é ficção piedosa. Nesse caso, por que primeiro fazer uma declaração confusa que tem depois de esclarecer? Se ele está a inventar histórias inteiras, por que não constrói a sua interpretação diretamente na narração, em vez de interromper a história com essas interjeições distrativas?

Por outro lado, isso é consistente com História oral. Com alguém que está a escrever ou a ditar de memória. Ele conta o que alguém disse. Ele conta o que viu. Então ele adiciona o seu próprio comentário entre parênteses para esclarecer a cena em benefício de um ouvinte que não estava lá. Para fornecer o contexto necessário. Quem passa muito tempo a ouvir idosos falarem sobre as suas vidas está familiarizado com esta prática. Na verdade, isso até pode ser perturbador. Queremos que vão direto ao assunto.

viii) Os Evangelhos são surpreendentemente reservados nos seus relatos da Ressurreição. Nenhum deles descreve diretamente a própria Ressurreição. Nenhum deles retrata Jesus a voltar à vida no túmulo e a sair do túmulo. Em vez disso, todos eles narram as consequências da Ressurreição. Pessoas a descobrir o túmulo vazio e Jesus a reaparecer para pessoas. E isso é consistente com reportagem de testemunhas oculares, já que não houve testemunhas oculares da própria Ressurreição. Ninguém além de Jesus estava no túmulo. Se, no entanto, os Evangelhos são ficção piedosa, esperaríamos que eles descrevessem esse evento central em detalhes espetaculares.

A sua contenção é uma indicação de historicidade. Eles só reportam o que sabem. Não embelezam os seus relatos com detalhes sensacionais.

É certo que alguns críticos pensam que quaisquer incidentes sobrenaturais são um sinal revelador de embelezamento lendário, mas isso é um reflexo do preconceito secular do crítico.

2. Tiago e Judas

De acordo com os Evangelhos, o ministério público de Jesus deixou-o afastado da sua família. Isso não é surpreendente. Ele tornou-se uma figura controversa. Um embaraço para a sua família. Jesus alienou o poder judaico instalado. Os seguidores foram expulsos das sinagogas (Jo 9:22). Líderes cristãos foram presos (Atos).

Isso não depende da crença prévia na historicidade dos Evangelhos e Atos. Pois essa é uma reação previsível do establishment religioso. É assim que as pessoas no poder normalmente respondem a dissidentes, rivais, revolucionários, "cismáticos" e "hereges". Isso pode ser documentado em qualquer historiador religioso e político. Não está confinado a nenhuma religião em particular.

Por fim, ele foi condenado por blasfémia pelo tribunal supremo de Israel e executado como inimigo do Estado. Seus meios-irmãos estariam fortemente motivados a renegá-lo para sua própria proteção. A excomunhão convidaria a um boicote económico da família dominical. Eles teriam muito a perder por associação culposa com Jesus.

Foi preciso um encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado para que os seus irmãos desafeiçoados (Tiago, Judas) se reconciliassem com Jesus.

Tiago e Judas não se aproveitam do seu meio-irmão. Eles mencionam a ligação familiar de passagem, mas não exploram essa ligação para ganho pessoal. Eles não usam isso como alavanca para fazer reivindicações controversas. Portanto, não há nenhuma razão para pensar que as suas cartas são pseudónimas. E não há nenhuma razão para pensar que Lucas mente sobre a posição de Tiago na igreja primitiva.

3. Pedro e João

De acordo com os Evangelhos, os discípulos ficaram desmoralizados pela morte humilhante de Jesus. Isso não depende da crença prévia na historicidade dos Evangelhos. Essa reação é perfeitamente razoável, dada a psicologia humana comum.

No entanto, de acordo com Atos, assim como 1-2 Pedro, Pedro e João tornam-se representantes declarados da nova fé. Se eles pensassem que Jesus morreu em ignomínia, se eles pensassem que a associação com Jesus, como um reputado "blasfemador", "feiticeiro" e inimigo do Estado, os manchava, eles não fariam o que pudessem para se distanciar de Jesus? A sua saída de cena os deixava muito vulneráveis.

Mesmo que se ache que a defesa da autoria tradicional de 2 Pedro é fraca, uma defesa sólida pode ser feita para a autoria tradicional de 1 Pedro. Eu penso que ambas são defensáveis. Cf. Karen Jobes, 1 Peter (Baker, 2005); E. E. Ellis, The Making of the New Testament Documents (Brill, 1999), 120-33.  

4. Paulo

Concordo com académicos como Paul Barnett e Stanley Porter que Paulo provavelmente teve algum conhecimento em primeira mão de Jesus antes da Ressurreição. Cf. Stanley Porter, When Paul Met Jesus: How an Idea Got Lost in History (Cambridge University Press, 2016).

Alguns críticos pensam que Paulo teve apenas uma visão subjetiva de Jesus. Mas "visões" podem ser objetivas. O facto de ser luminosa não a torna subjetiva. Jesus estava luminoso na Transfiguração.

Se Paulo viu e ouviu Jesus durante as suas visitas a Jerusalém, isso explicaria por que razão Paulo foi um dos primeiros opositores do Cristianismo, com sede em Jerusalém.

Paulo era uma estrela em ascensão no judaísmo. Ele não tinha nada a ganhar e tudo a perder mudando de equipa.

1 Coríntios 15:3-8. A fonte óbvia da tradição de Paulo é a sua primeira visita aos líderes da igreja de Jerusalém (Gl 1:18-19). Paulo não tem nenhuma motivação para fabricar esta tradição. Ao contrário, dado como ele defende zelosamente a independência da sua comissão e revelação divina, ele tinha um desincentivo para apelar para esta tradição. Portanto, ele relata isso apesar das suas inclinações exclusivistas em contrário.

5. Hebreus

O autor de Hebreus identifica-se incidentalmente como um membro do círculo paulino (Hb 13,23), que está, além disso, em contacto com testemunhas oculares (Hb 2,3). Por que ele mentiria sobre isso? Se ele é um charlatão, por que não alega ser um apóstolo ou testemunha ocular por direito próprio?

6. Mulheres no túmulo

Naquela cultura misógina, as mulheres eram consideradas testemunhas oculares de segunda categoria. Se os Evangelhos são ficção piedosa, por que os narradores inventariam testemunhas inferiores em vez de testemunhas culturalmente mais credíveis?

Ironicamente, alguns críticos se opõem ao NT porque não diz que Jesus apareceu a testemunhas mais sonantes como Pilatos, Caifás, Anás ou César. Mas se os Evangelhos são ficção piedosa, por que eles não dizem isso? Se os Evangelhos são ficção piedosa, eles não estavam limitados pelos factos.

Eles não dizem isso porque relatam o que eles realmente sabem. Porque eles relatam o que realmente aconteceu.

II. Milagres

1. Em resposta a (I), um descrente dirá que mesmo que o testemunho seja evidência prima facie em casos comuns, quando o relato inclui milagres reportados, isso, por si só, o torna factualmente duvidoso. Milagres só acontecem na Bíblia, não na vida real. Ou, de modo mais geral, milagres só acontecem na mitologia e na ficção piedosa, mas não no mundo que vivenciamos.

Mas um problema básico com essa negação é a evidência monumental de milagres extrabíblicos. E não apenas milagres em geral, mas milagres cristãos em particular.

Eu acrescentaria que enquanto os milagres cristãos não são evidência direta da Ressurreição, eles são evidência direta do Cristianismo, o que por sua vez os torna evidência indireta da Ressurreição na medida em que a verdade do Cristianismo implica a verdade da Ressurreição. Coleções úteis de estudos de caso incluem Rex Gardner, Healing Miracles: A Doctor Investigates (DLT, 1987); Craig Keener, Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, 2 vols. (Baker, 2011); Robert Larmer, The Legitimacy of Miracle (Lexington Books, 2013); Robert Larmer, Dialogues on Miracle (Wipf & Stock, 2015). Os livros de Larmer são primariamente uma defesa filosófica dos milagres, mas os seus apêndices incluem relatos em primeira mão de alguns milagres.

Adicionalmente, existem alguns recursos online, por exemplo:

http://www.premierchristianity.com/Blog/Derren-Brown-wants-to-see-objective-evidence-for-miracles-Challenge-accepted

http://www.craigkeener.com/talbot-school-of-theology-lecture-1-30-minutes/

http://www.craigkeener.com/talbot-lecture-2/

http://www.craigkeener.com/wp-content/uploads/2020/03/Crooked-Spirits-from-Journal-of-Mind-and-Behavior-39-4-2018-complete.pdf

Relacionado com isto está a oração cristã respondida. Ela às vezes se sobrepõe com milagres cristãos. Refiro-me a orações dirigidas a Jesus ou orações em nome de Jesus ou orações dirigidas ao Pai de Jesus. No caso de orações cristãs respondidas, isso não seria evidência direta da Ressurreição. Seria, no entanto, evidência direta do Cristianismo, que por sua vez fornece evidência indireta da Ressurreição – na medida em que a verdade do Cristianismo implica a Ressurreição.

2. Descrentes descartam milagres relatados alegando que isso por si só torna a testemunha suspeita. Além disso, dizem que os milagres estão em desacordo com o que sabemos sobre o funcionamento do mundo.

No entanto, isso é circular. Como se sabe como o mundo é? Ninguém nasce a saber o que é possível. Descobre-se isso através da própria observação e da observação de outros. E isso inclui milagres relatados. Se, não importa a frequência com que um determinado tipo de evento é relatado, se se descarta os relatos, independentemente de quem os relatou, então tem-se uma cosmovisão que não é baseada na evidência.

III. Sonhos e visões de Jesus

Há casos bem documentados de Jesus aparecendo a pessoas ao longo da história da igreja. Cf. P. Wiebe, Visions of Jesus: Direct Encounters from the New Testament to Today (Oxford 1997).

i) Alguns apologistas cristãos podem ver isso como uma ameaça à defesa da Ressurreição, se considerarmos que é uma explicação alternativa para as aparições pós-Ressurreição de Cristo no NT, mas eu penso que isso é um erro de categoria.

Para começar, "visão" é ambíguo. Uma "visão" não é necessariamente um evento psicológico. Em princípio, pode ser uma aparição física objetiva do Senhor ressuscitado. Não estou a dizer que é assim que todas as aparições relatadas devem ser classificadas. Mas é uma falsa dicotomia definir uma visão em contraste com uma aparição física.

Além disso, as duas coisas podem ser verdadeiras em momentos diferentes. Por exemplo, o facto de Jesus poder aparecer a alguém num sonho verídico não impede a sua Ressurreição. É apenas um modo diferente de comunicação. Há mais de uma maneira pela qual uma pessoa pode encontrar Jesus. Não há nenhuma razão antecedente para que visões de Jesus não possam ser causadas pelo Jesus ressuscitado. Ele é visto, ouvido e sentido através da perceção sensorial normal. Um estímulo externo produzindo a experiência.

Sonhos são psicológicos, mas, da mesma forma, as pessoas não confundem sonhos com encontros físicos.

ii) Se algumas descrições de aparições de Jesus são tangíveis, então isso favorece uma aparição corpórea nesses casos.

iii) Não estou a citar o fenómeno como evidência direta da Ressurreição, mas evidência do facto de que Jesus não caiu no esquecimento depois que morreu. É uma condição necessária, ainda que insuficiente, da Ressurreição, que Jesus ainda exista. E, na verdade, ele continua a aparecer para algumas pessoas em tempo de necessidade. O Cristianismo é uma religião viva com um Salvador vivo. Jesus responde a orações. Jesus aparece a pessoas. Não é apenas uma coisa do passado, registada em livros antigos.

iv) Os relatos podem ser descartados com o argumento de que algumas visões podem ser produto de expectativas piedosas. Alucinações devotas. E tenho certeza de que algumas aparições relatadas são alucinatórias.

No entanto, mesmo no caso de expectativa piedosa, essa é uma razão inadequada para descartar automaticamente a realidade do relato. Para fazer uma comparação, os cristãos oram com a expectativa de que Deus às vezes responde à oração. Mas a sua expectativa não produz oração respondida, e a sua expectativa não pode ser usada para descartar evidência de oração respondida. Na verdade, se Deus existe, a expectativa tem fundamento. A experiência confirma essa expectativa.

Além disso, a explicação alucinatória falha no caso de sonhos e visões verídicos.

v) Adicionalmente, nem todos os sonhos e visões são esperados. Há relatos de visões de Jesus a aparecer para pessoas que não o esperavam. Na verdade, para indivíduos hostis que estão naturalmente predispostos a rejeitar o Cristianismo, por exemplo, Hugh Montefiore, The Paranormal: A Bishop Investigates (Upfront Publishing, 2002), 234-35; Nabeel Qureshi, Seeking Allah, Finding Jesus (Zondervan, 2016); Tom Doyle, Dreams and Visions. Is Jesus Awakening the Muslim World (Thomas Nelson 2012); David Garrison, A Wind in the House of Islam (WIGTake Resources, 2014); https://triablogue.blogspot.com/2020/04/jewish-visions-of-jesus.html

O meu "post" não pretende ser exaustivo. Estou apenas a destacar o que considero serem as melhores linhas de evidência. Existem outros trabalhos que pormenorizam muitos dos detalhes. Não concordo com tudo o que dizem, mas muitas vezes suplementam o que digo.

IV. Profecia messiânica

Os dois textos-prova do AT da ressurreição do messias são Sl 16:10, que é tipológico, e Is 53:

http://triablogue.blogspot.com/2019/05/the-resurrected-servant-in-isaiah.html

O mais interessante é a conjunção de dois outros temas do AT. Por um lado, há três textos proféticos sobre a morte violenta do messias (Sl 22; Is 52-53; Zc 12:10). Por outro lado, há vários textos sobre o triunfante e eterno reinado do messias davídico. Mas em termos de cronologia relativa, o messias não pode reinar para sempre antes do seu reinado terminar em morte. Isso seria contraditório. Portanto, isso implica uma ressurreição messiânica.

Por certo, um apologista terá que defender a interpretação messiânica de Sl 22, Is 52-53 e Zc 12:10.

Para leitura adicional:

Paul Barnett, Finding the Historical Christ (Eerdmans, 2009)

Richard Bauckham, Jesus: A Very Short Introduction (Oxford University Press, 2011), 104-09.

C. E. B. Cranfield, "The Resurrection of Jesus Christ," On Romans and Other New Testament Essays (T&T Clark, 1998), cap. 11.

William Lane Craig, Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics (Crossway, 3rd ed., 2008), cap. 8.

Gary Habermas & Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus (Kregel, 2004).

Craig Keener, The Historical Jesus of the Gospels (Eerdmans, 2009), cap. 22.

Michael Licona, The Resurrection of Jesus: A New Historiographical Approach (IVP, 2010).

Andrew Loke, Investigating the Resurrection of Jesus Christ: A New Transdisciplinary Approach (Routledge 2020).

Lydia & Timothy McGrew, "The Argument from Miracles: A Cumulative Case for the Resurrection of Jesus of Nazareth"

http://www.lydiamcgrew.com/Resurrectionarticlesinglefile.pdf

John Warwick Montgomery, "A New Approach to the Apologetic for Christ's Resurrection 13 by Way of Wigmore 's Juridician Analysis of Evidence" Journal of the International Society of Christian Apologetics, 3/1 (2010):

http://www.isca-apologetics.org/sites/default/files/JISCA-2010-volume-3_1.pdf

Richard Swinburne, The Resurrection of God Incarnate (Clarendon Press, 2003)

N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God (Fortress, 2003).

sábado, 2 de abril de 2022

Concordamos que a oração não funciona?

 

Expandindo uma resposta deixada no Facebook:

Alguém já tentou pedir a Deus para acabar com o Coronavírus ou concordamos todos que a oração não funciona?

Essa é uma abordagem simplista da oração.

i) A existência ou não de um Deus que responde à oração não é determinada pela oração não respondida, mas pela oração respondida. Agarrar-se a um exemplo particular de oração não respondida é arbitrariamente restritivo, como se Deus concedendo essa petição fosse a única evidência saliente de um Deus que responde à oração.

ii) Uma pandemia é, por definição, um evento complexo, neste caso tornando-se global em escala. Portanto, não é como se houvesse apenas um tipo de oração para Deus responder nessa situação. O facto de Deus não impedir ou interromper totalmente a pandemia não significa que Deus não tenha respondido a muitas orações envolvendo casos específicos da pandemia.

A pandemia impacta muitas pessoas de muitas maneiras diferentes, por isso não espero uma resposta indiferenciada de Deus. Em vez disso, espero que a resposta de Deus a orações sobre a pandemia seja variada e individualizada.

iii) Num mundo de causa/efeito, cada evento tem um efeito dominó, ainda mais com eventos de grande escala como a pandemia. Males como a pandemia também podem ser fonte de bem. Algumas coisas boas acontecerão como resultado da pandemia que não aconteceriam se Deus a impedisse. Portanto, é uma questão de equilibrar as compensações. Mitigar a pandemia em alguns aspectos sem eliminar os efeitos colaterais benéficos.

quinta-feira, 31 de março de 2022

O coração dos poderosos da terra está na mão de Deus

Num tempo em que se ouve falar tanto de guerra, lembremo-nos sempre que “o coração do rei, na mão do Senhor, é como corrente de águas; ele o inclina para onde quer” (Provérbios 21:1). Por isso também os poderosos da terra têm que submeter-se à vontade de Deus, que opera com eles como quer e ninguém pode impedi-lo de executar a sua vontade. Lembremo-nos do rei do Egito, do rei da Assíria, do rei da Babilónia e de César Augusto, para citar apenas alguns poderosos da terra dos quais Deus se usou para cumprir os seus desígnios sobre a terra.

Como nos ensina o livro de Jó “Deus engrandece os povos e os destrói; amplia as nações e as reconduz às suas fronteiras” (Jó 12:23). Jesus disse-nos que é necessário que guerras e rumores de guerras aconteçam.

A guerra acaba quando Deus na sua soberania decidir que a guerra deve acabar. A paz não está condicionada a mais nada a não ser a sua vontade, como causa primeira de todas as coisas que acontecem na sua criação.

Podemos e devemos orar para que venha a paz, sabendo que a nossa oração pode mudar o futuro, mas não pode mudar os planos de Deus. A oração e a resposta à oração são meios pelos quais o plano de Deus para o mundo se realiza.

Fiquemos, pois, tranquilos sabendo que tudo está sob controle de Deus e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o amam.

Teísmo aberto e oração


Eis que Deus está prestes a cessar a Guerra na Ucrânia, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, que o tenta convencer que é mais sábio e justo terminar já com o conflito bélico, quando de repente Ele ouve a oração urgente de sua santidade o Patriarca de Moscovo, Cirilo I, que incensando o ícone de Nossa Senhora de Kazan, pede a continuação abençoada da guerra santa, até que todos os objetivos russos sejam alcançados e os valores cristãos restabelecidos na Ucrânia decadente. Então, Deus muda de ideias e defere em favor do Patriarca Ortodoxo. 

No entanto, a decisão de Deus não é definitiva, ele pode voltar a mudar de ideias dependendo do número de consagrações feitas ao Imaculado Coração de Maria, da quantidade de terços rezados e da qualidade do incenso utilizado pelo patriarca ortodoxo. Na verdade, Deus não tem qualquer plano para o futuro, nem pode ter dado o imprevisível livre-arbítrio dos humanos. Os seus caminhos podem ser alterados (e presumivelmente melhorados) por uma qualquer oração inesperada. Confuso? É só o Deus do teísmo aberto em ação.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Por que não sou Ortodoxo Oriental

 

1. Eu tenho estudado o Catolicismo Romano com muito mais profundidade do que a Ortodoxia Oriental, e tenho uma visão clara do que o Catolicismo representa. Acho mais difícil entrar no mundo conceptual da Ortodoxia Oriental. Isso em parte porque, na minha leitura, a exposição é muitas vezes metafórica. Portanto, a questão é o que significa a linguagem figurativa.

2. Dito isso, mesmo que eu não tenha claro o que algo é, posso ter bastante claro o que não é. Seja o que for que a Ortodoxia Oriental represente, não é o cristianismo do NT. Quando comparo os dois, são paradigmas diferentes e divergentes.

3. A Ortodoxia Oriental rejeita o conceito forense penal da salvação difundido nas Escrituras. A salvação bíblica não se resume a isso. Há também a santificação. Mas a Ortodoxia Oriental rejeita um elemento central da soteriologia bíblica. Ele não está confinado à teologia paulina ou à sola fide. O modelo sustentado da expiação no NT (prenunciado no AT) é penal e sacrificial. O pecado viola a justiça divina. O pecado é culpável e censurável. Isso não é tudo o que o pecado é. O pecado também é corrupção moral. Mas na minha leitura, a Ortodoxia Oriental apaga o modelo primário de expiação do NT.

4. A alternativa é o conceito Ortodoxo Oriental de theosis. Não tenho inteiramente a certeza do que isso significa. Pelo que entendi, a salvação Ortodoxa Oriental é uma categoria metafísica. O pecado envolve alienação da vida de Deus. A salvação envolve a participação na vida de Deus. Somos libertos do pecado quando somos levados à própria vida de Deus. Compartilhamos, não a sua essência, mas as suas energias.

5. Ora, há um sentido em que a salvação do NT também tem uma dimensão ontológica: santificação e glorificação. E há um sentido em que os cristãos participam na vida de Deus. Mas Deus e o homem não se estendem ao longo de um continuum metafísico comum. Há uma diferença qualitativa e categórica entre o modo de subsistência necessário, incomparável e transcendente de Deus e a existência de agentes contingentes, finitos, limitados no tempo e corporificados. O nosso modo de subsistência nunca interseta com o modo de subsistência de Deus. Deus compartilha a sua vida conosco no sentido de que ele é a fonte de nosso ser e bem-estar. Toda a bondade flui dele.

6. Dá-me a impressão de que a Ortodoxia Oriental cria uma salvaguarda postulando a dicotomia/distinção essência/energia. Isso parece-me uma distinção ad hoc e instável. As energias são Deus ou não são Deus? Idênticas com Deus ou algo diferente de Deus? Se for diferente de Deus, então as energias fazem parte do mundo. Elas caem do lado da criação.

7. Na soteriologia do NT, a Encarnação é uma precondição necessária da expiação, mas não expia por si mesmo. É a morte sacrificial de Cristo que é redentora. E a necessidade de renovação moral/psicológica é suprida pela agência do Espírito Santo.

8. Pelo que li, os teólogos Ortodoxos às vezes falam como se a Encarnação não fosse apenas uma relação confinada a um indivíduo único (Jesus), mas que de alguma forma a Encarnação une Deus e o homem a um nível universal. Como se todos os humanos estivessem ligados à vida de Deus em virtude do Filho Encarnado.

9. Dessa forma, isso está em tensão com a particularidade dos sacramentos. Presumivelmente, os teólogos Ortodoxos têm estratégias para suavizar essa tensão, mas ela pode ser solucionada?

10. A propósito de (9), em 4. há um sacramentalismo sufocante, onde a salvação é canalizada através dos sacramentos. Isso, por sua vez, necessita de sacerdócio. Assim como o Catolicismo, a Ortodoxia Oriental opera com um paradigma sacerdote-sacramento, enquanto a teologia evangélica opera com um paradigma Palavra-Espírito.

11. Depois, há o papel supersticioso dos ícones, que parecem funcionar como projeções ou extensões da Encarnação.

12. Em cima disso está a ficção de uma igreja infalível.

Todo o sistema está muito distante da teologia e da piedade do NT. É claro que os teólogos Ortodoxos tentam provar a posição deles a partir das Escrituras, mas, pelo que observo, a sua exegese é deficiente, forçada e circular, pois apelam para a autoridade dos padres gregos para alavancar as suas interpretações das Escrituras (por exemplo, a luz do Tabor como luz incriada).

13. Tenho outras objeções, não exclusivas para a Ortodoxia Oriental. Eu sou predestinacionista enquanto a Ortodoxia Oriental é libertarianista.

14. Discordo da doutrina de Deus da Ortodoxia Oriental. Rejeito o seu conceito hierárquico da Trindade, onde o Pai é o Deus primário e a fonte metafísica do Filho e do Espírito.

Pode-se objetar que, tradicionalmente, muitas denominações protestantes herdaram um conceito hierárquico da Trindade, então por que isso é uma razão para eu rejeitar a Ortodoxia Oriental, mas não as contrapartes protestantes? Uma razão é que não se pode ser Ortodoxo Oriental honesto a menos que se afirme os dogmas da Ortodoxia Oriental. Não se pode ser um Ortodoxo Oriental honesto se se rejeitar a doutrina de Deus da Ortodoxia Oriental.

Em contraste, há mais liberdade dentro do evangelicalismo. Eu posso ser um protestante honesto sem reafirmar cada transferência reflexiva da Ortodoxia Grega ou da teologia Latina.

15. Finalmente, adiro a uma cristologia de duas-mentes. A inter-relação delas é assimétrica. O Filho é independente da alma humana, enquanto a alma é contingente. O Filho controla a alma humana. O Filho tem acesso completo à alma humana. A alma não tem acesso à mente do Filho, exceto quando o Filho compartilha seu conhecimento com a alma humana de Cristo. Não tenho certeza de que uma cristologia de duas-mentes seja compatível com a cristologia ciriliana, mas também não me importo, porque não presto contas aos Padres Gregos.

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