Muitos cristãos
hoje, ao questionarem o uso de imagens em ambientes católicos ou ortodoxos,
ouvem a seguinte explicação: "Nós não adoramos o objeto; nós apenas
honramos a pessoa representada. A honra prestada à imagem passa para o
protótipo."
Para o incauto, tal distinção apresenta-se
como um refúgio intelectual seguro, uma semântica que parece resolver o
conflito com o Segundo Mandamento. No entanto, o
que a história da Igreja Primitiva nos revela é algo sinistro: este era
exatamente o mesmo argumento usado pelos pagãos para defender os seus ídolos
contra os primeiros cristãos.
Pior ainda: os
Padres da Igreja não apenas conheciam este argumento, como o refutaram de
antemão, considerando-o ridículo e indigno de um seguidor de Cristo.
I) O Argumento Pagão: "Não somos ignorantes, a adoração das imagens
dos deuses é oferecida àqueles que elas representam"
- Celso
(Século II) – O precursor do "culto relativo"
Ao contrário do
que as histórias infantis sugerem, os pagãos instruídos do Império Romano não
acreditavam que a estátua de mármore era o próprio deus. Em sua obra Contra
Celso, o apologista cristão Orígenes cita o filósofo pagão Celso, que
defendia que as imagens eram meros meios
de comunicação ou símbolos
das divindades celestiais. Celso é o precursor do "culto relativo": a
lógica de que a adoração é oferecida "por meio" da imagem àquilo que
ela "representa".
"Quem,
a menos que seja totalmente tolo, acredita que estas coisas [estátuas] são
deuses, e não ofertas consagradas ao serviço dos deuses, ou imagens que os representam?" (Contra Celso 7.62)
Celso
argumentava que as imagens eram suportes visuais que ajudavam o devoto a se conectar com o divino. Ele zombava dos cristãos por acharem que os pagãos eram ignorantes a ponto de adorar o metal ou a pedra em si.
- Porfírio de Tiro (Século III) – As estátuas são como livros
Porfírio, um
filósofo neoplatónico, usou uma analogia que é idêntica à que ouvimos hoje em
sermões sobre ícones:
"Os pensamentos de uma teologia sábia - na qual os homens indicaram Deus e os poderes de Deus por meio de imagens afins aos sentidos, e esboçaram coisas invisíveis em formas visíveis - eu os mostrarei àqueles que aprenderam a ler, nas estátuas como em livros, as coisas que ali estão escritas a respeito dos deuses. Não é de se admirar que os totalmente ignorantes considerem as estátuas como madeira e pedra, assim como também aqueles que não compreendem as letras escritas olham para os monumentos como meras pedras, para as tábuas como pedaços de madeira e para os livros como papiro tecido." (Sobre
as Imagens, Fragm. 1 Bidez (citado por Eusébio de Cesareia, Prep. Evang. III, 7,1)
Porfírio estabelece aqui a base da "honra ao protótipo". Porfírio argumentava que os sábios não veem a estátua como o próprio deus, mas como uma imagem que os leva a honrar a divindade (ou a pessoa) invisível que a estátua representa.
A defesa das imagens feita por Porfírio foi preservada por Eusébio de Cesareia na sua Praeparatio Evangelica. Eusébio a incluiu para demonstrar o "absurdo" da idolatria pagã. E, ao fazê-lo, acabou por preservar a tentativa intelectual de Porfírio de alinhar o neoplatonismo com as práticas religiosas tradicionais.
- Juliano, o Apóstata (Século IV) – A distinção técnica
O imperador
Juliano, tentando restaurar o paganismo, escreveu de forma muito técnica sobre
a natureza das imagens:
"Nossos pais estabeleceram imagens e altares... como símbolos da
presença dos deuses, não para que considerássemos tais coisas como deuses, mas para que pudéssemos adorar os deuses através delas." (Fragmento de uma Carta a
um Sacerdote)
II) A Resposta dos Padres da Igreja: Uma Rejeição Total
Se a Igreja
Primitiva acreditasse na "veneração de ícones", os Padres da Igreja
teriam respondido: "Sim, o vosso princípio está certo, apenas usam as
imagens dos deuses errados". Mas não foi isso que eles fizeram. Eles atacaram o princípio de adoração da imagem material.
Lactâncio (c. 240 - 320): Conhecido como o
"Cícero Cristão", ele foi implacável na sua crítica. Em suas Instituições
Divinas, sentenciou: "Onde quer que haja uma imagem, não há
religião". Para Lactâncio, o ser humano foi criado com uma postura
ereta para olhar para o Alto; portanto, curvar-se
diante da "terra" (a matéria da imagem) para tentar alcançar o Céu
seria uma inversão da própria natureza humana, rebaixando o valor do
homem espiritual ao nível do objeto inanimado.
Orígenes (c. 184 - 253): Ao responder a
Celso, ele não disse que os cristãos tinham imagens "melhores". Ele
afirmou categoricamente que os cristãos "não podem tolerar templos,
altares ou imagens" e que preferiam morrer a "rebaixar com
tamanha impiedade o conceito que temos do Deus Altíssimo." (Contra Celso 7.64)
A resposta de Orígenes foi uma negação total do
princípio do “culto relativo”:
"Mas nós, por outro lado, consideramos 'não
instruídos' aqueles que não se envergonham de dirigir súplicas a objetos
inanimados... E embora alguns possam dizer que estes objetos não são deuses, mas apenas imitações e símbolos de divindades reais, estes mesmos indivíduos, ao imaginarem que as mãos de artesãos rudes podem moldar imitações da divindade, são desprovidos de instrução, servis e ignorantes; pois afirmamos que o mais humilde entre nós foi liberto desta ignorância e falta de discernimento... pois não é possível, ao mesmo tempo, conhecer a
Deus e dirigir orações a imagens." (Contra Celso 6.14; 7.65)
Orígenes
não ataca apenas os deuses pagãos; ele ataca a prática de cultuar as imagens e rezar diante delas, chamando-a de
"ignorância" da qual o cristianismo veio para nos libertar.
Clemente de Alexandria (c. 150 - 215): Clemente foi um dos mais brilhantes intelectuais da Igreja primitiva
e um ferrenho opositor de qualquer mediação material no culto. Para ele, a
ideia de que a devoção poderia "passar" através de um objeto para
chegar a Deus era uma impossibilidade lógica e espiritual. Clemente ensinava
que o único "ícone" legítimo de Deus é o Logos (Cristo) e, por
extensão, o ser humano que o imita. Para este Padre da Igreja, o uso de imagens
não elevava a mente, mas a "rebaixava" aos sentidos, sendo um
obstáculo à verdadeira contemplação espiritual. Ele não via a arte como um
canal para o divino, mas como uma distração que prendia a alma à matéria morta.
"Mas as imagens, sendo imóveis, inertes e sem
sentidos, são amarradas, pregadas, coladas - são fundidas, limadas, serradas,
polidas, esculpidas. A terra insensível é desonrada pelos fabricantes de imagens, que a transformam por sua arte, tirando-a de sua própria natureza e induzindo os homens a adorá-la; e os fabricantes de deuses não adoram deuses e demónios, mas, a meu
ver, terra e arte, que compõem as imagens. Pois, na verdade, a imagem é apenas matéria morta moldada pela mão do artesão. Nós, porém, não possuímos nenhuma imagem sensível feita de matéria sensível, mas uma imagem que é percebida apenas pela mente - Deus, que é o único que é verdadeiramente Deus." (Exortação aos Pagãos 4)
"Seria ridículo, como dizem os próprios filósofos, que o homem - o brinquedo de Deus - fizesse Deus, e que Deus fosse o brinquedo da arte; pois aquilo que é feito é igual àquilo de que é feito, assim como o que é feito de marfim é marfim, e o que é feito de ouro é ouro. Ora, as imagens e os templos construídos por artífices são feitos de matéria inerte; portanto, eles também são inertes, materiais e profanos; e mesmo que se aperfeiçoe a arte, eles partilham da aspereza artesanal. As obras de arte não podem, então, ser
sagradas e divinas." (Stromata 7.5)
Arnóbio de Sica (c. 255 - 330): Arnóbio foi um
retórico brilhante que, após sua conversão, dedicou-se a expor a
irracionalidade do culto material. Ele é talvez o autor que mais atacou a
lógica de que "adoramos o deus através da imagem". Para Arnóbio, essa
distinção era uma desculpa esfarrapada: se os deuses são reais e celestiais,
por que precisariam de um intermediário de barro ou metal? Ele argumentava que,
ao dirigir preces a um objeto, o fiel está, na prática, depositando a sua
esperança em algo sem vida. Para este Padre da Igreja, o conceito de
"referente invisível" não passava de uma ilusão, pois a adoração, uma
vez direcionada a um objeto físico, ficava presa à natureza morta desse mesmo
objeto.
"Nós adoramos os deuses, dizeis vós, por meio
de imagens. O quê então? Sem estas, os deuses não sabem que são adorados, e não
pensarão que qualquer honra lhes é mostrada por vós? [...] E que maior erro,
desonra ou degradação pode ser infligida do que reconhecer um deus e, no
entanto, fazer súplicas a outra coisa - esperar ajuda de uma divindade e rezar
a uma imagem sem sentimento?" (Contra os Pagãos 6.9)
Aristides de Atenas (c. Século II): Aristides foi
um dos primeiros filósofos cristãos a apresentar uma defesa formal da fé
(apologia) ao Imperador Adriano. Sua argumentação baseava-se na superioridade
ética e racional do cristianismo sobre o paganismo. Para Aristides, o culto às
imagens era uma prova da decadência intelectual das nações, pois representava a
tentativa fútil de buscar socorro em objetos que são inferiores ao próprio
homem. Ele questionava a lógica de se depositar esperança em "objetos
fabricados", argumentando que, se a própria imagem é corruptível e precisa
de manutenção humana, ela jamais poderia servir de ponte para o auxílio divino.
"Mas é uma maravilha, ó Rei, com relação aos
gregos, que superam todos os outros povos em seu modo de vida e raciocínio,
como eles se extraviaram atrás de ídolos mortos e imagens sem vida. Pois eles veem os seus deuses nas mãos de seus artífices sendo serrados, aplainados,
cortados, retalhados, carbonizados, ornamentados e alterados por eles de todas as formas possíveis. E quando envelhecem e se desgastam pelo passar do tempo, e quando
são fundidos e esmagados até virarem pó, como, eu me pergunto, eles não
percebem a respeito deles que não são deuses? Pois, se eles não puderam salvar-se a si próprios, como podem valer aos homens em sua aflição?" (Apologia 13)
Minúcio Félix (c. Século II - III): Minúcio Félix
foi um dos primeiros e mais elegantes apologistas latinos. Em sua obra Octavius,
escrita em forma de diálogo entre um cristão e um pagão, ele responde à
acusação de que os cristãos eram "ateus" por não possuírem templos
nem estátuas. O argumento de Minúcio é profundo: ele inverte a lógica pagã ao
afirmar que a invisibilidade de Deus não é uma falta de presença, mas uma prova
de Sua grandiosidade. Para ele, tentar confinar Deus numa imagem feita por mãos
humanas é um insulto, pois o próprio ser humano - vivo, racional e livre - é a
única "imagem" que Deus autorizou na terra. Ao contrário do ídolo,
que é uma redução de Deus à matéria, o cristão vê o próximo como o verdadeiro
local de encontro com o divino.
"Mas pensas que escondemos o que adoramos, só porque não temos templos nem altares? Pois que imagem de Deus farei eu, se, se pensares bem, o próprio homem é a imagem de Deus? Que templo Lhe construirei, quando este mundo inteiro, moldado por Suas mãos, não pode contê-Lo?" (Octavius 32)
Agostinho de Hipona (354–430): Agostinho foi um dos maiores arquitetos do pensamento cristão ocidental. Na sua vasta obra apologética, ele enfrentou o desafio de consolidar a fé num Império Romano onde o paganismo não era apenas uma prática popular, mas também um sistema filosófico refinado. O bispo de Hipona, assim como Orígenes antes dele, refutou o argumento pagão que tentava legitimar a idolatria ao sustentar que o culto não se dirigia ao objeto material em si, mas sim à realidade invisível por ele simbolizada.
"Envergonhem-se todos os que servem a uma escultura, os que se gloriam nos ídolos! Mas avança um que se crê douto e diz: 'Eu não adoro uma pedra nem esta imagem que não tem sentimentos; porque não é possível que os vossos profetas tenham imaginado que tinham olhos e não viam, e que eu seja ignorante até ao ponto de não saber que a imagem não tem alma e não vê pelos seus olhos e não ouve pelos seus ouvidos. Eu não adoro isto; mas me inclino perante isto que vejo e sirvo àquele a quem não vejo', 'quem é este?'. 'Um poder invisível - diz ele - que radica nesta imagem'. Mediante este tipo de explicação acerca de suas imagens, pensam que são muito inteligentes e que de modo algum podem ser contados entre os adoradores de ídolos." (Comentários aos Salmos 96; 11)
III) A "Ridicularização" que não perdoa
Os apologistas primitivos, como Arnóbio e Minúcio Félix, usavam argumentos que hoje seriam considerados 'ofensivos' se aplicados às imagens sacras. Eles zombavam das estátuas, dizendo que pássaros defecavam nas suas cabeças e faziam ninhos nas suas bocas, e que os ratos e o mofo as destruíam.
"Não vedes, finalmente, que as andorinhas,
cheias de imundície, voando dentro das próprias cúpulas dos templos, lançam-se
e sujam ora os próprios rostos, ora as bocas das divindades, a barba, os olhos,
os narizes e todas as outras partes sobre as quais caem os seus excrementos? Envergonhai-vos, então, ainda que
seja tarde, e aceitai métodos e visões verdadeiras das criaturas irracionais;
deixai que estas vos ensinem que não há nada de divino em imagens, nas quais
elas não temem nem hesitam em lançar coisas impuras, em obediência às leis de
seu ser e guiadas por seus instintos infalíveis." (Arnóbio, Contra os Pagãos, 6:16)
"Quanto mais verdadeiramente os animais irracionais julgam, por natureza, os teus deuses? Os ratos, as andorinhas, os milhafres, sabem que eles não têm sensibilidade: roem-nos, pisam-nos, pousam sobre eles; e, a menos que os espantes, constroem os seus ninhos na própria boca do teu deus. As aranhas, aliás, tecem as suas teias sobre o seu rosto e suspendem os seus fios da sua própria cabeça. Tu limpas, lavas, raspas; tu proteges e temes aqueles que tu mesmo fazes; enquanto nenhum de vós pensa que deveria conhecer a Deus antes de O adorar; desejando, sem reflexão, obedecer aos vossos antepassados, escolhendo antes tornar-vos um acréscimo ao erro alheio do que confiar em vós mesmos, visto que nada sabeis daquilo que temeis. Assim, a avareza foi consagrada no ouro e na prata; assim se estabeleceu a forma de estátuas vazias; assim surgiu a superstição romana. E se reconsiderares os ritos destes deuses, quantas coisas são risíveis e quantas são também deploráveis!" (Minúcio Félix, Octavius 24)
Ora, se os
cristãos tivessem as suas próprias imagens de Cristo ou de Pedro, esse
argumento seria um "tiro no pé". Os pagãos diriam: "Os vossos
pássaros também sujam as vossas imagens!". O facto de os cristãos
usarem essa chacota prova que eles não
possuíam nenhum tipo de imagem venerável.
IV) A Grande Ironia Histórica
É uma ironia
suprema que a apologética iconódula moderna use a distinção entre latria
(adoração) e dulia (veneração), ou a ideia de que a honra "passa"
para o protótipo, para justificar práticas que Minúcio Félix, Arnóbio, Lactâncio, Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho classificariam como "tolice infantil" ou "loucura". Para eles, essas seriam as mesmas "desculpas esfarrapadas" que os filósofos pagãos usavam para manter os seus templos cheios.
Quando um
apologista moderno diz: "Eu não rezo para o gesso, rezo para o
santo", ele ecoa a voz de Arnóbio... mas da parte que Arnóbio combatia.
A história é
clara: a Igreja dos primeiros três séculos não apenas "não tinha"
ícones; ela era teologicamente oposta
à ideia de que orações ou
atos de culto pudessem ser transmitidos por meio da matéria ao ser espiritual
representado. Para os Padres da Igreja, Deus é espírito, e o único
"ícone" legítimo de Deus na terra é o próprio ser humano transformado
por Cristo.
O argumento do
“culto relativo” ou "protótipo" não é uma herança apostólica; é uma
capitulação aos argumentos que o paganismo usou para tentar sobreviver ao
avanço do Evangelho.