sábado, 4 de dezembro de 2021

Segundo a sua vontade

 

Nele obtivemos uma herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (Ef. 1:11).

O que significa dizer que Deus faz todas as coisas segundo a sua vontade?

i) Há uma tradição de voluntarismo teológico, atribuída a Scotus e Ockham, em que Deus age segundo a sua vontade absoluta - onde a sua vontade é independente dos seus outros atributos. Mas não há nenhuma indicação de que é isso que Paulo quer dizer.

ii) A linguagem de Paulo é algo redundante acumulando sinónimos para dar ênfase.

iii) Para responder à questão, devemos perguntar o que constitui o ponto de contraste implícito. O que significaria para Deus não fazer todas as coisas segundo a sua vontade? Qual é a tese oposta?

A alternativa a Deus agir segundo a sua vontade é Deus agir de forma contrária à sua vontade. E no contexto, essa é uma distinção significativa. Paulo está se dirigindo a cristãos gentios que vivem numa cidade pagã. Cristãos convertidos do paganismo greco-romano.

Na mitologia grega, mesmo um deus não fazia todas as coisas segundo a sua vontade. Às vezes, um deus era forçado a agir sob coação, contra a sua vontade. Até Zeus teve que se curvar diante da supremacia das Parcas. Da mesma forma, na bruxaria pagã, os deuses podem ser manipulados e coagidos através de rituais mágicos.

Portanto, pelo menos um ponto de contraste contextual é a afirmação retumbante de que o Deus cristão não está sujeito a nenhum poder superior. Ele não tem oposição efetiva. Isso contrasta com o fatalismo pagão e a feitiçaria pagã.

iv) Isto tem equivalentes modernos no teísmo do livre-arbítrio. De acordo com o teísmo do livre-arbítrio, Deus muitas vezes é forçado a agir contra a sua vontade, porque agentes demoníacos e humanos têm a capacidade de vetar a vontade de Deus. Eles podem e frustram as suas melhores intenções. Portanto, Deus tem de tentar contornar as suas criaturas indomáveis. Como os deuses gregos, os seus planos são muitas vezes frustrados por centros de poder rivais.

Da mesma forma, a bruxaria e a magia popular permanecem difundidas no Terceiro Mundo, enquanto bolsas da população do mundo ocidental voltam ao ocultismo numa cultura pós-cristã.

v) Isto também explica a ligação entre a vontade de Deus e "todas as coisas". A razão pela qual todos os eventos acontecem segundo a vontade de Deus é porque não há outro agente igual ou superior a Deus para neutralizar a sua vontade - ao contrário do fatalismo pagão ou do teísmo do livre-arbítrio. Dado que Deus não tem concorrência, então por defeito, cada evento se desenrola segundo a sua vontade, ao invés de apenas alguns eventos acontecerem segundo a sua vontade porque o seu poder é confrontado por outros agentes, que fazem o seu próprio caminho algumas vezes, apesar dos desejos ineficazes de Deus.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O cânon católico

 

Os apologistas católicos consideram o cânon protestante como um calcanhar de Aquiles da teologia protestante. Sendo o cânon uma questão legítima, essa é uma questão para os dois lados. E o que dizer do cânon católico?

Qual é a base do cânon tridentino? É a evidência? Era a evidência suficiente para favorecer o cânon tridentino?

Mas católicos e protestantes têm acesso à mesma evidência. Não é como se os Padres Tridentinos tivessem uma coleção extra de evidências dos arquivos secretos do Vaticano que inclinavam a balança a favor do cânon tridentino. Os protestantes observam a mesma evidência que os católicos.

Ou é a alegação de que a evidência é inconclusiva, de modo que deve ser suplementada pela autoridade de Roma. O cânon tridentino goza de um nível de certeza que vai além da evidência, devido à autoridade eclesiástica. De acordo com esse paradigma, a pura autoridade eclesiástica é o contrapeso que fecha a lacuna entre a evidência e a certeza.

Mas, nesse caso, a certeza é separada da evidência. Poderia haver certeza direta sem qualquer evidência. Certeza por puro decreto eclesiástico. No entanto, os apologistas católicos normalmente defendem o cânon tridentino com base na evidência, como eles a veem.

Se, por um lado, a evidência é suficiente para estabelecer o cânon, então o magistério é supérfluo. Se, por outro lado, a evidência é insuficiente para estabelecer o cânon, a autoridade eclesiástica evoca a certeza do nada, sem nada correspondente para apoiá-la. Eis o dilema.

sábado, 20 de novembro de 2021

Quem criou Deus?

 

Alguns ateístas pensam que podem descartar argumentos cosmológicos simplesmente perguntando: "Quem criou Deus?" Aqui estão algumas observações que são pertinentes para essa resposta:

«Todos os seres que observamos parecem ser seres contingentes; alguns deles certamente são. Parece razoável, portanto, supor que a seguinte afirmação é verdadeira:

   Existem alguns seres contingentes.

Ora, se o Princípio da Razão Suficiente está correto, há alguma explicação para a verdade desta afirmação, alguma resposta à pergunta "Por que existem seres contingentes?". Mas como seria uma explicação para a existência de seres contingentes? Uma possível explicação para este estado de coisas é a seguinte:

  Algo necessariamente existente, algum ser necessário, é de alguma forma responsável pelo facto de existirem coisas contingentes.

Esta não é, obviamente, uma explicação muito detalhada, mas parece ser uma explicação perfeitamente satisfatória até onde vai. É concebível que alguém se oponha a ela com o fundamento de que "apenas empurra o problema da existência das coisas um passo atrás". A preocupação aqui é mais ou menos assim: "Tudo bem, o ser necessário explica a existência de seres contingentes, mas o que explica a sua existência? Por que ele existe?" Mas dizer isso é negligenciar o facto de que um ser necessário é um ser cuja inexistência é impossível. Assim, para qualquer ser necessário, há por definição uma razão suficiente para a sua existência: dificilmente poderia haver uma explicação melhor para a existência de uma coisa do que a sua inexistência ser impossível.

Quanto ao facto de que a explicação é quase totalmente carente de detalhes, devemos notar que há poucas ou nenhuma explicação que não possa ser dada em maiores detalhes. A explicação poderia ser "preenchida" de várias maneiras...» (Peter van Inwagen, Metaphysics, (Westview Press 2015), 160-61).

i) Alguns ateístas podem objetar que definir Deus como um ser necessário é circular. Isso é definir a existência de Deus. Verdade por definição.

ii) Mas essa objeção é mal concebida. Para começar, um debate sobre a existência de Deus é, em primeira instância, um debate acerca da ideia de Deus. O que "Deus" representa? Nessa etapa do argumento, não há nada de errado com uma definição estipulativa. Definir Deus como um ser necessário não significa necessariamente que Deus exista, mas que, se Deus existe, ele existe por necessidade. Em outras palavras, esta é uma declaração sobre o conceito de Deus em análise. Se existe uma realidade correspondente a esse conceito é outra etapa do argumento, mas a ideia de Deus é a ideia de um ser necessário.

E refere-se à ideia de Deus no teísmo clássico, uma vez que esse é o alvo típico dos ateus ocidentais, bem como o que seus opositores cristãos normalmente defendem. Claro, se este fosse um debate sobre o hinduísmo, então a definição seria diferente.

iii) Adicionalmente, este não é um princípio arbitrário. O que torna entidades contingentes contingentes é a sua dependência de outra coisa para a sua existência. É possível que elas não existam. Elas nem sempre existiram e algumas delas deixam de existir.

Isso, por sua vez, levanta a questão de saber se é possível que tudo seja contingente ou se deve haver algo necessário para fundamentar entidades contingentes? Pode ser tudo contingência? Ou deve haver algo que não pode deixar de existir que suporta tudo o resto? Essa, é claro, uma questão calorosamente debatida. Mas possamos ou não provar que coisas possíveis exigem algo necessário, essa é, no mínimo, uma explicação razoável. Se há algo necessário de que entidades contingentes dependem, então essa é uma explicação simples de por que elas existem, já que não há nada em si mesmas que exija a sua existência.

iv) Da mesma forma, não é irrazoável pensar que a regressão explicativa deve terminar em algum ponto. Na verdade, esse é um pressuposto da ciência. Mas a questão é onde traçar a linha. Alguns pontos de paragem são arbitrários ou prematuros. Os meus pais não são a fonte última da minha existência, pois eles têm pais e avós. Além disso, a sua existência física é contingente, não apenas dos seus pais, mas da Terra e do Universo.

v) Isto elimina contraexemplos fáceis como o Bule de Russell e "um deus a menos". O Bule de Russell, se existisse, seria um objeto contingente. Portanto, não tem o mesmo poder explicativo que um ser necessário como Deus. Da mesma forma, divindades pagãs são seres contingentes.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Tribalismo na teologia católica tradicional

 

"No passado, quando um teólogo praticava teologia como membro de uma ordem religiosa, isto é, como membro de uma congregação formada segundo um certo espírito distinto daquele de outras ordens, essa teologia trazia a marca distinta e tangível da teologia dessa ordem. As ordens principais, como os beneditinos, os dominicanos, os franciscanos e os jesuítas, cada uma tinha o seu próprio estilo de teologia, um facto que era então reconhecido. Cada ordem cultivava a sua própria teologia específica e cada uma distinguia a sua teologia daquela de outras ordens religiosas. Elas se orgulhavam das suas respetivas tradições teológicas e até tinham os seus próprios doutores da Igreja oficialmente reconhecidos, bem como figuras centrais nas várias “escolas” teológicas. Em tudo isso, não há nada censurável, desde, é claro, que essas diferenças não degeneram em conflitos obstinados entre as linhas partidárias - algo que ocorreu com bastante frequência no passado. Hoje em dia acho que não é mais assim. No que diz respeito à legislação da minha ordem, devo ensinar, por exemplo, a chamada scientia media e, consequentemente, me opor e rejeitar a teologia tomista da graça como exposta na era barroca".

Karl Rahner, S.J. "Experiences of a Catholic Theologian", Theological Studies 61 (2000), 10.

Por exemplo, a imaculada conceição de Maria foi durante séculos uma causa de luta entre franciscanos e dominicanos.

Os franciscanos eram a favor e os dominicanos contra. Um famoso dominicano que rejeitou essa doutrina foi o próprio Tomás de Aquino.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Casos em que há uma contradição entre o tomismo e o teísmo bíblico – hilomorfismo e simplicidade divina

 

Há casos em que há uma contradição genuína entre o tomismo e o teísmo bíblico. Por exemplo, é realmente difícil enquadrar a teoria tomista da alma com o estado intermediário. O hilomorfismo é um tipo de fisicalismo, onde a "alma é a forma do corpo" no sentido de matéria estruturada. Mas muitos tomistas admitem que esta antropologia não dá espaço para o estado intermediário. Além de ser filosoficamente problemática.

Da mesma forma, é extremamente difícil conciliar a doutrina da simplicidade divina tomista com arbítrio divino indeterminado, a Trindade, e distinções teologicamente cruciais como justiça e misericórdia.

Há vários modelos da simplicidade divina. Segundo a simplicidade divina tomista Deus é uma unidade indiferenciada. Não há complexidade metafísica em Deus. Os seus atributos são redutivelmente equivalentes. Nós apenas os distinguimos por conveniência ou facilidade de referência. As distinções existem na mente humana, não em Deus.

Eu subscrevo a simplicidade mereológica de Deus. Se Deus é imaterial, então ele não é composto da mesma forma que objetos ou processos materiais por partes físicas. Deus não é composto por “partes” independentes dele e mais fundamentais do que ele. Deus não é, por exemplo, como um carro composto por partes mais básicas como o chassi, os pneus, os pedais, o volante, os assentos etc. Isso, no entanto, é diferente da simplicidade tomista em que os atributos de Deus são intercambiáveis ou em que a vontade de Deus em fazer o mundo não tem nenhum elemento de contingência ou potencialidade. 

Os atributos essenciais de Deus têm a sua origem em Deus e constituem a natureza imutável de Deus. Deus é o exemplar dos seus atributos que podem ser exemplificados noutras instâncias. Por exemplo, o amor é um atributo constitutivo de Deus. Deus é o exemplar ou a fonte do amor que é exemplificado nos seres humanos. Podemos concordar que Deus é idêntico à sua natureza no sentido que não exemplifica nenhuma natureza genérica além ou acima do próprio Deus. Mas cada atributo divino não é idêntico a todos os outros atributos. A justiça de Deus não é idêntica à misericórdia de Deus. 

Assim, o primeiro problema com a simplicidade tomista é que não é compatível com distinções teologicamente cruciais.

Não havendo distinção real entre os atributos divinos, de modo que justiça e misericórdia são equivalentes (para dar um exemplo), as distinções entre os atributos divinos, portanto, desaparecem em Deus. Deus simplesmente é a sua justiça, misericórdia, etc. e se Ele é todas essas coisas, então elas não podem ser verdadeiramente distintas.

Mas se essas distinções "desaparecem" numa realidade indiferenciada, então Deus é igualmente misericordioso para com todos, o que torna absurda a graça discriminativa de Deus.

Na Escritura, misericórdia e justiça divinas, graça e juízo, muitas vezes se contrastam: onde alguns pecadores são objetos de justiça (ou seja, reprovação, condenação), enquanto outros pecadores são objetos de misericórdia (ou seja, eleição, salvação eterna). Não se pode colapsar os dois atributos sem colapsar os destinos escatológicos representados pela expressão temporal dos dois atributos distintos.

Quando se diz que os atributos divinos "desaparecem" numa unidade indiferenciada, então "Deus" torna-se indistinguível de Brahma, o vazio inefável e indiferenciado do Hinduísmo.

O segundo problema na simplicidade tomista é que as escolhas divinas estão absolutamente autodeterminadas.

Segundo a simplicidade tomista a vontade de Deus é idêntica à natureza de Deus, e se a natureza de Deus é necessária, então tudo o que Deus deseja é necessário por sua natureza. Por exemplo, a criação é um ato da vontade divina. Mas segundo a simplicidade tomista, Deus não podia escolher atualizar um mundo diferente do atual ou de não criar absolutamente nada. A sua vontade de fazer o mundo não tem nenhum elemento de contingência ou potencialidade. Deus não pode escolher entre mundos possíveis, só há um mundo possível que é o que Deus deseja.

Se, entretanto, não há contingência no conhecimento, vontade ou ações de Deus, então tudo o que acontece é absolutamente inexorável. Não poderia ser diferente, nem mesmo para Deus. Em contraste, o teísmo bíblico tipicamente afirma a necessidade condicional em vez da necessidade absoluta. Colocado de outra forma, se Deus faz coisas diferentes em diferentes mundos possíveis, então Deus não pode ser simples - neste sentido radical.

É certo que Deus não pode escolher fazer coisas contrárias à sua natureza, por exemplo fazer coisas más porque ser Bom é um atributo de Deus, mas é possível que ele escolha entre uma gama de coisas boas. Deus podia criar um mundo diferente do atual ou não criar nenhum mundo sem que isso “violasse” a sua natureza, pois nenhuma dessas escolhas seria uma maldade. Deus pode ser o mesmo Deus em diferentes mundos possíveis porque a vontade criativa ou decreto criativo de Deus para mundos diferentes não é igual à natureza de Deus. Portanto, ao contrário do que implica a simplicidade tomista, o arbítrio de Deus não está absolutamente autodeterminado.

O terceiro problema é que a simplicidade tomista aniquila a doutrina da Trindade.

A simplicidade divina é unitária e não trinitária. Para que haja três pessoas distintas na Divindade, cada pessoa deve ter pelo menos uma propriedade única que a individualize e a diferencie das outras duas. Mas se todas as propriedades de Deus são redutíveis e intercambiáveis, então não há propriedade diferencial distinguindo uma pessoa da outra.

De maneira mais geral, se natureza, pessoa e relação são estritamente idênticas na Divindade, então Deus é uma pessoa em vez de três.

Subjacente à doutrina da simplicidade tomista parece haver um preconceito monádico sobre a ultimidade de um sobre muitos. Essa realidade última é simples ou estritamente unitária. Parece seguir a intuição de que coisas grandes são feitas de coisas menores, então, à medida que se desce na escala, há cada vez menos constituintes até que, no fundo de tudo, só resta uma coisa. Mas e se a realidade última for um complexo irredutível?

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Evolução naturalística e niilismo moral


Se a evolução naturalística for verdadeira, nós sofremos uma lavagem cerebral para valorizar o altruísmo de parentesco, mas essa é uma projeção que não mapeia a realidade. Nada é realmente bom ou mau, certo ou errado. É assim que os nossos cérebros foram programados pela evolução cega. A valoração é arbitrária. Nós poderíamos muito bem ser reconfigurados para valorizar o canibalismo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Newman nunca se converteu ao catolicismo


cardeal Newman aprofundou-se na história da igreja e descobriu que não conseguia encontrar o catolicismo romano nos primeiros séculos da igreja, então redefiniu o catolicismo ao inventar a teoria do desenvolvimento. Ele não se converteu ao catolicismo; ele converteu foi o catolicismo a si mesmo.

O Desenvolvimento da Doutrina vs A Tradição Católica Romana

terça-feira, 2 de novembro de 2021

A Senhora de Fátima detonou todo o sistema de indulgências

Nas supostas conversas de Lúcia com a "Nossa Senhora" de Fátima a certa altura esta pergunta-lhe:

Lúcia: A Maria das Neves já está no Céu?

Nossa Senhora: Sim, está.

Lúcia: E a Amélia?

Nossa Senhora: Estará no Purgatório até o fim do mundo.

Segundo a Senhora de Fátima, a Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo. É a palavra de honra da Senhora de Fátima. Por que haveria de descer à terra para contar uma mentira? Portanto, não há indulgência, plenária ou parcial, sacrifício, orações ou ofertas que possam tirar a Amélia do Purgatório.

Se isto pode acontecer com a Amélia, não há nenhuma presunção que não possa acontecer com outras pessoas. A Senhora de Fátima descredibilizou assim todo o sistema de indulgências e sufrágios que garantem a antecipação da saída das almas do purgatório em direção ao céu.


domingo, 31 de outubro de 2021

Dia da Reforma

 

A Reforma teve um grande impacto no mundo, nos nossos sistemas políticos, na nossa literacia, no nosso sentido de responsabilidade pessoal, nas nossas crenças e aspirações, etc. Aqui estão alguns comentários sobre o assunto do historiador protestante Philip Schaff:

"A Reforma regressou aos primeiros princípios para seguir em frente. Lançou as suas raízes profundamente no passado e deu ricos frutos para o futuro. Surgiu quase simultaneamente em diferentes partes da Europa e foi saudada com entusiasmo pelas principais mentes da época na igreja e no Estado. Nenhum grande movimento na história - exceto o próprio Cristianismo - foi tão ampla e meticulosamente preparado como a Reforma Protestante. Os Concílios reformatórios de Pisa, Constança e Basileia; o conflito dos Imperadores com os Papas; a piedade contemplativa dos místicos com a sua sede de comunhão direta com Deus; o renascimento da literatura clássica; o despertar intelectual geral; os estudos bíblicos de Reuchlin e Erasmo; o espírito crescente de independência nacional; Wycliffe e os Lolardos na Inglaterra; Hus e os Hussitas na Boémia; Johannes von Goch, Johann von Wesel e Johann Wessel na Alemanha e nos Países Baixos; Savonarola na Itália; os Irmãos da Vida Comum, os Valdenses, os Amigos de Deus, - contribuíram com a sua parte para a grande mudança e aplanaram o caminho para uma nova era do Cristianismo. A vida mais interior da igreja avançava para uma nova era. Quase não existe um princípio ou doutrina da Reforma que não tenha sido antecipado e defendido nos séculos XIV e XV. Lutero fez a observação de que seus opositores poderiam acusá-lo de ter copiado tudo de Johann Wessel se ele tivesse conhecido os seus escritos mais cedo. O combustível era abundante em toda a Europa, mas precisava de uma faísca que o colocasse em chamas. Paixões violentas, intrigas políticas, a ambição e avareza dos príncipes e todos os tipos de motivos egoístas e mundanos foram misturados com a guerra contra o papado. Mas tudo contribuiu da mesma forma para a introdução do cristianismo entre os bárbaros pagãos. 'Onde quer que Deus construa uma igreja, o diabo constrói uma capela por perto'. A natureza humana é terrivelmente corrupta e deixa as suas manchas nos movimentos mais nobres da história. Mas, apesar disso, os líderes religiosos da Reforma, embora não estivessem livres de falhas, eram homens com motivos mais puros e objetivos mais elevados, e não há nação que não tenha sido beneficiada pela mudança que eles introduziram... A Reforma foi um grande ato de emancipação da tirania espiritual e uma reivindicação dos sagrados direitos de consciência em matéria de crença religiosa. A posição ousada de Lutero na Dieta de Worms, em face do papa e do imperador, é um dos eventos mais sublimes na história da liberdade, e a eloquência do seu testemunho ressoa através dos séculos. Para quebrar a força do papa, que se autodenominava e acreditava ser o vigário visível de Deus na terra, e que tinha nas suas mãos as chaves do reino dos céus, era necessário mais coragem moral do que lutar cem batalhas, e isso foi feito por um humilde monge com a força da fé. Se a liberdade, tanto civil como religiosa, desde então progrediu, isso se deve em grande medida à inspiração desse ato heróico. Mas o progresso foi lento e passou por muitos obstáculos e reações. 'Os moinhos de Deus moem lentamente, mas maravilhosamente bem'."

(Philip Schaff, in The Master Christian Library [Albany, Oregon: AGES Software, 1998], History Of The Christian Church, Vol. 7, pp. 20-21, 48)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

"Sem a Igreja católica não há Bíblia. Foi ela que decretou o cânon da Bíblia"


Apologista Católico: Sem a autoridade da Igreja não se pode saber quais livros pertencem ao cânon da Bíblia. Foi ela que decretou o cânon da Bíblia.

Eu: Quando fala em autoridade da Igreja a que entidade se está a referir? A São Paulo, a Marcião, a Agostinho, a Jerónimo, aos Padres da Igreja, ao cardeal Caetano, a Lutero, ao concílio de Trento, à Confissão de Fé de Westminster ou aos biblistas católicos modernos? É que todas estas entidades não são concordes quanto à extensão de livros que reconhecem como Escritura e sobre o que pensam dos diversos textos da Bíblia.

Apologista Católico: Refiro-me ao Magistério da Igreja Católica, única Igreja verdadeira fundada por Cristo.

Eu: Apelar simplesmente para a autoridade do Magistério da Igreja Católica para justificar o cânon é circular. Primeiro tem que argumentar por que razão reconhece autoridade ao Magistério da sua Igreja para decretar o cânon da Bíblia. Eu não reconheço autoridade ao Magistério da sua Igreja para estabelecer por decreto quais livros pertencem ao cânon e quais não. O reconhecimento do cânon bíblico não é uma questão de "autoridade", mas uma questão de razão e evidência. Aceitação da apostolicidade, antiguidade, ortodoxia, intertextualidade e inspiração divina dos textos. Por isso, de vez em quando, a sua extensão pode sofrer pequenas alterações ao longo do tempo precisamente porque não é uma arbitrariedade.

Há um sentido legítimo em que se pode dizer que a Igreja contribuiu para sabermos a extensão do cânon bíblico, se entendermos por "Igreja" a Igreja cristã dos primeiros dois séculos do cristianismo como testemunha histórica dos livros que compõe o cânon, mas não porque ela tivesse alguma autoridade intrínseca para determinar o cânon.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Não há nenhuma evidência para o ateísmo

 

O debate entre ateísmo e teísmo cristão tem uma forma tão estereotipada que é fácil negligenciar a disparidade radical: quando se pensa sobre isso, não há nenhuma evidência positiva para o ateísmo. A defesa do ateísmo resume-se a um argumento do silêncio.

Ora, não há nada de intrinsecamente errado com um argumento do silêncio, mas esse é um argumento muito vulnerável. Os ateus na verdade não apresentam nenhuma evidência positiva para o ateísmo; em vez disso, eles argumentam contra o teísmo.

A defesa do ateísmo resume-se à alegada falta de evidências de um Deus intervencionista. Afirmar que podemos explicar a origem do universo naturalisticamente. Podemos explicar a origem da vida naturalisticamente. Podemos explicar todas as doenças e recuperações naturalisticamente.

Ou considere-se a afirmação de que as respostas às orações são aleatórias. Igualmente, o argumento do mal é um apelo ao acaso. A distribuição de felicidade e desgraça parece ser aleatória. Da mesma forma, a extinção em massa parece ser aleatória. Quais espécies sobrevivem ou perecem parece ser aleatório.

Alguns ateus alegam que os organismos biológicos apresentam falhas de design. Adaptações subótimas. Essa alegação é refutável por diferentes motivos, mas, em qualquer caso, não é um argumento positivo para o ateísmo.

Alguns ateus dizem que falar de Deus não tem sentido. Isso representa um certo dilema, na medida em que não está mais claro o que o ateu está negando. Em qualquer caso, esse não é um argumento positivo para o ateísmo.

Alguns ateus ambiciosos dizem que a existência de Deus não é meramente improvável, mas impossível: a própria ideia de Deus é incoerente (por exemplo, "paradoxos da omnipotência"). Isso geralmente depende de definições arbitrárias e estipulativas dos atributos divinos, ou postulados duvidosos sobre um melhor mundo possível. E, em qualquer caso, esse não é um argumento positivo para o ateísmo.

Muitos ateus acham que a Bíblia é moralmente repugnante. Mas muitos ateus rejeitam o realismo moral, porque o naturalismo não o consegue justificar. Portanto, eles não podem levantar objeções morais objetivas à Bíblia. Em qualquer caso, esse não é um argumento positivo para o ateísmo.

Se se prosseguir na lista, os ateus não oferecem nenhuma evidência para o ateísmo, exceto no sentido indireto de que se não há nenhuma evidência para Deus, então o ateísmo ganha por defeito.

Em alguns aspectos, o argumento a favor do ateísmo é decididamente estranho. Mais uma vez, considere-se o argumento do mal. Como o mal enfraquece o teísmo cristão? Afinal, o teísmo cristão é baseado na existência do mal, então como o mal pode ser inconsistente com o teísmo cristão? Não é a presença do mal, mas a ausência do mal, que falsificaria o teísmo cristão. Na melhor das hipóteses, o argumento do mal pode enfraquecer o "mero teísmo" ou o teísmo filosófico.

Da mesma forma, como pode o argumento do mal refutar ou mesmo enfraquecer o teísmo bíblico quando o teísmo bíblico concede a existência do mal? Não é como se a Bíblia retratasse um mundo utópico. A Bíblia é uma crónica do mal.

Portanto, não há realmente nenhuma evidência direta para o ateísmo. Em contraste, académicos e filósofos cristãos reúnem resmas de evidências a favor do cristianismo. E é importante estar atento ao ónus da prova. Se a defesa do ateísmo é um argumento do silêncio, então não é preciso quase nada para derrubá-lo. Suponha-se que 99% das evidências apresentadas para um Deus intervencionista sejam naturalmente explicáveis. Se apenas 1% (na verdade, até menos de 1%) não for, então o ateísmo é falso. O ateísmo não pode permitir que um único contra-exemplo passe pela sua peneira.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Peregrinações da infalibilidade

 

De acordo com a apologética católica tradicional, Roma fornece interpretações infalíveis de um livro infalível, enquanto os protestantes fornecem apenas interpretações falíveis de um livro infalível. No entanto, no Vaticano II, Roma rebaixou para limitada a inerrância bíblica, portanto a apologética católica agora defende a posição anómala de que Roma fornece interpretações infalíveis de um livro falível!

domingo, 10 de outubro de 2021

Celso, o Pagão vs. Orígenes, o Cristão

 

Celso, o Pagão, nota que Cristãos e Judeus não têm imagens religiosas, mostrando que nisto eles são bárbaros:

"Eles não toleram templos, altares ou imagens. Nisto eles são como os Citas, as tribos nomádicas da Líbia, os Seres que não cultuam deuses e algumas das mais bárbaras e ímpias nações do mundo" (Contra Celso, Livro 7, Cap. 62)

Orígenes, o Cristão, responde explicando que, apesar desses povos não terem imagens, a razão de ser destes é distinta da razão dos Judeus e dos Cristãos:

"Os Citas, os Líbios nomádicos, os Seres ateístas e os Persas todos concordam nisto com Judeus e Cristãos, mas eles são motivados por princípios diferentes. Porque nenhum dos primeiros abomina altares e imagens com base no seu medo de degradar o culto a Deus e reduzi-lo ao culto de coisas materiais feitas pelas mãos de homens. Nem eles se opõe a elas pela crença de que demónios tomam formas e lugares [...]. Mas os Cristãos e Judeus estimam este mandamento: 'Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele servirás' e ainda 'Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás a elas, nem as servirás' e novamente 'Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele servirás'. É por consideração destes e de muitos outros mandamentos que nós não apenas evitamos templos, altares e imagens, mas estamos dispostos a enfrentar a morte se necessário, ao invés de rebaixar com tamanha impiedade o conceito que nós temos do Deus Altíssimo" (Contra Celso, Livro 7, Cap. 64).

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Non-overlapping magisteria (NOMA)

 

Non-overlapping magisteria (NOMA) ou, em tradução livre, magistérios não-interferentes, é a opinião defendida por Stephen Jay Gould de que a ciência e a religião não estão num mesmo plano de conhecimento e, portanto, não devem se sobrepor. O termo foi cunhado por Gould em 1999 no seu livro Rocks of Ages.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Magist%C3%A9rios_n%C3%A3o-interferentes

Stephen Jay Gould, foi um paleontólogo evolucionário judeu secular de Harvard. Esta dicotomia proposta por Gould é uma estratégia apologética familiar. Ao compartimentar ciência e religião, protege a religião da falsificação. Mas isso tem um custo e é extremamente simplista.

Se fosse apenas uma generalização, a distinção teria um grão de verdade, mas para ter sucesso como estratégia apologética, religião e ciência têm que ser domínios separados sem nada em comum, e é aí que ela rapidamente se desintegra:

1. A ciência opera com alguns pressupostos filosóficos. Podem eles ser justificados à parte da religião? Considere-se a indução, a inteligibilidade do mundo natural, a confiabilidade geral dos sentidos e a confiabilidade geral da razão humana. De acordo com a evolução naturalista, os seres humanos são o subproduto de um processo cheio de erros. Na maioria das vezes, a evolução produz erros. Em raras ocasiões, alcança algo benéfico. Dado esse cenário, não seria de esperar que a razão humana fosse muito limitada e altamente falível? Por que supor que a natureza seria geralmente acessível à razão humana?

2. Se a ciência secular define com total autonomia o que os seres humanos são, as suas origens, a sua natureza e o seu destino, então resta à religião comentar o que sobra depois de a ciência nos dizer o que somos. E se a ciência disser que não há vida após a morte? O cérebro produz a mente. Não há alma imortal. A necrose é irreversível. Não há ressurreição do corpo.

Da mesma forma, a evolução não tem direcionalidade. Os humanos não existem porque o processo foi direcionado para os humanos. Não há nada de especial nos humanos do ponto de vista cósmico.

Claro, pode ser-se um evolucionista teísta, mas como a evolução teísta se conjuga com magistérios não sobrepostos? Não se pode combinar evolução naturalista com evolução guiada. O naturalismo metodológico bane explicações teleológicas das ciências naturais.

Talvez um evolucionista teísta apele à teologia natural como estrutura mediadora. Se assim for, a teologia natural é uma conclusão científica ou uma estrutura dentro da qual a ciência opera? Não faz a teologia natural uso da razão pura? Nesse caso, ciência e religião não se sobrepõem nesse aspecto?

3. A religião está separada da razão e do conhecimento dos sentidos? E quanto à evidência empírica e testemunhal para a religião? E os argumentos filosóficos e científicos para a religião? Nesse caso, isso transgride os magistérios não sobrepostos.

A religião não usa a perceção dos sentidos para nos dizer como é o mundo? E quanto aos milagres? Eles são sinais. Eventos visíveis. Alguns milagres são empiricamente verificáveis, ou não? E quanto a teofanias, cristofanias e angelofanias. Não são esses objetos de perceção sensorial? Ou considere-se algo mais vulgar como uma oração atendida. Não há evidência empírica quando Deus concede um pedido numa oração peticionária ou intercessória?

As aparições marianas em que os católicos romanos acreditam. Não infringe isso magistérios não sobrepostos? Se elas acontecem, são essencialmente religiosas, porém são objetos de perceção sensorial.

E quanto a sonhos revelatórios, como sonhos proféticos. Eles dizem ao sonhador algo sobre o futuro. Algo sobre o mundo.

E quanto à história? A fé cristã não faz afirmações sobre o envolvimento ativo de Deus na história, incluindo na história da Bíblia e na história da igreja? Não há testemunhas oculares da atividade de Deus na história sagrada? Ter uma compreensão do mundo que nos rodeia inclui a observação da intervenção divina na experiência humana.

Longe de serem domínios separados que não falam das mesmas coisas, ciência e religião têm frequentemente em mira o mesmo referencial. E isso cria um potencial para afirmações conflitantes.

4. Finalmente, é realmente vantajoso que a religião em geral seja imune ao escrutínio empírico e racional? E os falsos profetas? E os charlatães que curam pela fé?

5. Não se vê como os magistérios não sobrepostos possa ser consistentemente aplicado. Existem muitos contra-exemplos. E estes não são apenas exceções especiais, mas muitas vezes vão à centralidade da experiência e compreensão religiosa. Compartimentar ciência e religião em domínios separados é procurar refúgio numa fácil mas intelectualmente insustentável falsa dicotomia. Embora muitas vezes haja uma diferença entre os métodos da ciência e da religião, isso dificilmente é universal.

Por exemplo, a ciência médica faz suposições sobre o que acontecerá se a natureza seguir o seu curso. O mundo físico geralmente opera como uma máquina, com regularidade robótica e previsibilidade. Essa é a configuração padrão. É para isso que está programado.

Mas às vezes uma oração por cura contorna os processos naturais, resultando numa recuperação miraculosa. Isso fornece informações sobre o tipo de mundo em que habitamos. Uma realidade na qual agentes espirituais podem interagir e às vezes interagem com a matéria para contornar a causa e o efeito físicos, resultando em resultados que não são rastreáveis a condições antecedentes. No entanto, esses resultados são empiricamente detetáveis.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Afinador ou multiverso?

 

Dada a afinação minuciosa das constantes da natureza, a evidência favorece igualmente a existência de um Afinador ou de um Multiverso? Farei uma analogia para se compreender melhor o que está em causa.

Suponha-se que o primeiro prémio do Euromilhões (ou Mega-Sena para os amigos brasileiros) saía 50 vezes seguidas à mesma pessoa. Se os números estivessem a sair aleatoriamente isto seria tão improvável que a melhor explicação seria inferir que os números não estavam a sair aleatoriamente. Algo de errado estava a acontecer no sorteio dos números. Com base na impossibilidade estatística de acertar 50 vezes seguidas no Euromilhões seria logicamente inferido que os números estavam a sair escolhidos intencionalmente para aquela pessoa ganhar o primeiro prémio. Ninguém acreditaria que fosse possível o primeiro prémio sair 50 vezes seguidas à mesma pessoa se os números estivessem a sair ao acaso.

Mas para evitar esta conclusão, aparecia então alguém que especulava, sem nenhuma evidência, que aquela pessoa acertava sempre no primeiro prémio porque apostava em todas as chaves possíveis em cada sorteio. Esta explicação ad hoc tem a mesma probabilidade de ser verdadeira do que a explicação de que os números não estão a sair aleatoriamente? É claro que não. A evidência das probabilidades é real, enquanto a suposição de que a pessoa está a apostar em todas as chaves possíveis é apenas uma conjetura, uma especulação sem evidência que a suporte.

Por isso, a inferência com melhor poder explicativo com base na evidência disponível é que os números não estão a sair aleatoriamente, mas intencionalmente para aquela pessoa ganhar sempre o primeiro prémio.

Transpondo isto por analogia para o argumento da afinação minuciosa do universo, a inferência com melhor poder explicativo é que, com base nas probabilidades, os valores das constantes físicas não surgem de forma aleatória, mas há uma agência intencional por trás deles, sendo a hipótese do multiverso uma especulação ad hoc, uma vez que não há qualquer evidência substancial da sua existência, para evitar a conclusão de um Afinador por trás dos valores das constantes físicas.

Há uma assimetria evidencial entre o Afinador e o multiverso.

O Afinador é inferido de evidência real, a impossibilidade estatística dos valores das contantes físicas serem resultado de um processo aleatório, a existência do multiverso não é inferida de nenhuma evidência real. É essencialmente formalismo matemático que precisa ser demonstrado que corresponde a alguma coisa do mundo real. Por isso, postular a existência do multiverso é uma falácia do apelo à ignorância, um argumento do naturalismo das lacunas.

Portanto, a evidência de afinação minuciosa do universo favorece a existência de intencionalidade, de um agente inteligente por trás dos valores das constantes da natureza em detrimento de um imaginário multiverso.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

A formação do cânon do AT

 

Um possível modelo para a formação do cânon hebraico pode ser sugerido aqui em linhas gerais. Deuteronómio 31:26 regista que o "livro da lei" (presumivelmente Deuteronómio ou um texto semelhante a ele) deveria ser colocado no lugar santíssimo do tabernáculo. À medida que a Palavra de Deus era escrita, ia sendo coletada e preservada no templo de Jerusalém, onde podia ser lida e copiada por outros interessados ​​no seu conteúdo. Em 586 a.C, cópias terão sido levadas pelos exilados para fora do país, enquanto outras cópias podem ter sido escondidas perto de Jerusalém. Mesmo se cópias já não estavam presentes em Jerusalém, Esdras voltou com os livros da Lei (o Pentateuco). Ele e outros podem ter trazido novamente vários livros da Bíblia para Jerusalém. Seja como for, uma coleção no templo permitia aos sacerdotes regular o que consideravam Escritura e o que não consideravam. Em algum momento, a profecia foi considerada como tendo cessado, e os rolos finais entraram na coleção [Assim, 1 Mac 4:46, "Até que venha um profeta", sugere a ausência de profecia]. Depois disso, tanto quanto as fontes atestam [1 e 2 Macabeus, bem como as fontes citadas acima que atestam as principais divisões e o número de livros nas Escrituras Hebraicas], nenhum outro rolo foi adicionado à Bíblia Hebraica conforme preservada no templo de Jerusalém. Conforme observado acima, esses eram os trinta e nove livros que vieram a ser conhecidos como Antigo Testamento. Os rabinos reconheceram a autoridade desses textos após a queda de Jerusalém em 70 d.C. 

Richard Hess, The Old Testament: A Historical, Theological, and Critical Introduction (Baker 2016), 8-9.

sábado, 28 de agosto de 2021

Divórcio, novo casamento, contraceção, filosofia moral

 

A minha posição sobre estes temas que causam alguma confusão nas igrejas é a seguinte:

Divórcio e novo casamento

O casamento é um contrato entre um homem e uma mulher oficializado perante o magistrado estabelecido pela lei civil, o qual é um ministro de Deus.

O casamento é dissolvido naturalmente apenas com a morte de um dos cônjuges.

Porém, o casamento, como qualquer contrato, pode ser rescindido se uma das partes não cumprir com o que se comprometeu. Por isso o divórcio é admitido quando há uma forte razão moral que o justifique. O adultério, o abandono por parte de um dos cônjuges são exemplos de situações que legitimam o divórcio. Seria um erro esperar que a Bíblia listasse todas as situações possíveis que legitimam o divórcio. Apesar de tudo ela é finita. Temos que usar a nossa inteligência e as nossas intuições morais para discernir as situações que legitimam o divórcio.

Divorciar-se do marido ou da mulher sem justificação moral válida é ilegítimo. O racional da proibição do divórcio sem justa causa é impedir que o marido ou a mulher sejam gratuitamente abandonados e deixados à sua sorte, podendo isso causar graves danos materiais, morais e emocionais à parte abandonada.

Consumado o divórcio legítimo deixa de existir vínculo matrimonial e a pessoa é como se ficasse de novo solteira, podendo voltar a casar se assim o desejar.

Contraceção

Em termos gerais e abstratos não há nenhum impedimento moral no uso de contraceção.

Filosofia moral

Não há absolutos morais. Isso não significa que a moralidade não seja objetiva (subscrevo o realismo moral). As ações morais são intrinsecamente certas ou erradas, mas isso não se determina em abstrato mas sim no contexto concreto em que as ações são realizadas. Por exemplo, o aborto geralmente é moralmente errado mas em certas circunstâncias específicas pode ser permissível ou mesmo obrigatório.

A consciência moral de Deus é a fonte da lei moral.

domingo, 1 de agosto de 2021

O Senhor da lógica

 

Se, por um lado, se pensa que Deus é Lógico, enquanto, por outro lado, se pensa que a fonte da lógica não é Deus, mas é independente de Deus, então isso torna a racionalidade divina contingente de algo que não é Deus, que é independente de Deus e mais fundamental do que Deus. Se Deus não é a fonte de coisas como lógica, números e mundos possíveis, então esse é um Deus menor, um Deus menos impressivo. Não é o maior ser concebível.

O argumento da lógica a favor de Deus

1. As leis da lógica são verdades (ou seja, proposições verdadeiras).

2. As leis da lógica são verdades necessárias.

3. As leis da lógica realmente existem.

4. As leis da lógica necessariamente existem.

5. As leis da lógica não são físicas.

6. As leis da lógica são pensamentos.

7. As leis da lógica são pensamentos divinos.


sábado, 24 de julho de 2021

A eleição incondicional é arbitrária?


Quando se diz no jargão teológico que a predestinação/eleição é incondicional é no sentido de que a escolha de Deus não é baseada no mérito humano ou na recetividade prevista do Evangelho.

Isso não significa que a eleição é uma escolha arbitrária de Deus. Deus tem razões para eleger alguns indivíduos e reprovar outros. Os seres humanos são agentes. Um mundo no qual houvesse uma distribuição diferente de eleitos e réprobos teria uma história mundial diferente. Se Deus reprovasse Abraão, isso mudaria o curso da história mundial. A eleição leva em consideração o enredo que Deus prefere. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Roma ao condenar o jansenismo anatematizou a teologia de Agostinho de Hipona

 

O jansenismo foi um reavivamento católico pós-Reforma da teologia agostiniana iniciado pelo bispo holandês de Ypres, Cornellius Jansenius (Jansen), no século XVII. Os jansenistas eram uma espécie de "calvinistas católicos", predestinarianos estritos, que se opunham ao semipelagianismo de Roma. Seguindo o agostinismo, defendiam que a graça seria concedida através da predestinação incondicional, contrariando a teoria de que seriam as "boas obras" realizadas de acordo com o livre-arbítrio característico ao ser humano que faria recair sobre si (ou não) a graça divina. De igual forma, considerava o jansenismo que o pecado original inclinou o género humano para o Mal. Um dos seus aderentes ilustres foi o matemático, físico e filósofo Blaise Pascal.

Os principais opositores do jansenismo dentro do catolicismo foram os jesuítas (molinistas) que influenciados pelo humanismo renascentista, passaram a pregar a importância do livre-arbítrio e da colaboração da vontade humana na salvação, considerando que a persistência na tradição agostiniana favoreceria o calvinismo emergente

Ao condenar o jansenismo, a Igreja de Roma anatematizou a tradição agostiniana que ocupava um lugar honroso no catolicismo antes do calvinismo tornar-se intolerável após o calvinismo. Algo de semelhante aconteceu com a doutrina da justificação pela fé após Lutero passar a professá-la. A teologia católica é um tanto reacionária.


P.S. Lendo alguns textos sobre o jansenismo aqui, é fascinante ver como o catolicismo predominante em vários países europeus durante uma boa parte do século XVIII, era mais parecido com uma igreja protestante do que com a igreja católica pós-Vaticano I.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Seis estados de negação Católica

 

1. A igreja de Roma é a Noiva de Cristo. Sem o Magistério Romano, estaríamos perdidos na selva, forçados a nos defendermos por nós mesmos.

2. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo que os sacerdotes, a hierarquia ou o papa fazem, mas apenas pelo que é oficialmente ensinado.

3. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo que o papa diz ocasionalmente, mas apenas quando fala ex cathedra. Tudo o mais é falível.

4. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo ensino herético do Catecismo da Igreja Católica porque isso é falível.

5. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo ensino conciliar herético, porque isso apenas mostra que o concílio não foi ecuménico. Mesmo que um papa definisse solenemente uma heresia como doutrina irreformável, isso não pode falsificar a igreja de Roma. Um papa herético é um antipapa, não um verdadeiro papa. A heresia ex cathedra é uma contradição de termos. Portanto, nada em princípio ou na prática, nada na história, nada no papel, pode falsificar a igreja de Roma.

6. O dogma é o nosso ponto de referência para separar o ensino de fide do ensino falível ou herético. Contamos com o ensino magisterial para saber o que é dogma e contamos com o dogma para saber o que é o ensino magisterial. A igreja de Roma é a única verdadeira Igreja® porque ela diz que é a única verdadeira Igreja®. A Igreja Católica Romana está sempre certa - exceto quando está errada. E pode-se perceber a diferença usando o dogma para peneirar o Magistério e, ao mesmo tempo, usar o Magistério para peneirar o dogma. O dogma é o ponto de partida. A menos que o Magistério seja o ponto de partida. Na dúvida, lance ao ar uma moeda de São Judas Tadeu.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

O antissemitismo/judeofobia é antibíblico

 

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades. E este será o meu concerto com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:25-29)

Os Judeus desobedientes são inimigos do Evangelho (porque endurecidos por Deus) mas amados por causa dos pais. Portanto, longe de nós qualquer sentimento de inimizade ou menosprezo para com o povo judeu. [1]

Quando então a plenitude dos gentios for alcançada, o endurecimento parcial de Deus sobre Israel será retirado e todo o Israel será salvo.

“Porque assim como vós também, antigamente, fostes desobedientes a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim também estes, agora, foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós demonstrada. Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia. Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!” (Romanos 11:30-36)


[1] Isto não significa que devamos apoiar de modo especial o atual Estado secular de Israel. É um Estado que deve ser encarado como qualquer outro Estado do mundo. Como aliás, a maioria dos judeus ortodoxos também encaram. Para eles, o atual Estado de Israel é um fenómeno neutro do ponto de vista religioso.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

E se o Holocausto nunca tivesse acontecido?

 

Quando se fala do problema do mal, um clichê é invocar o Holocausto e perguntar onde estava Deus durante o Holocausto? Por que permitiu Deus o Holocausto?

Mas seria um mundo alternativo em que o Holocausto nunca aconteceu melhor do que o nosso mundo? Melhor em que aspecto? Melhor em todos os aspectos?

Um mundo no qual o Holocausto nunca tivesse acontecido teria um passado diferente e um futuro diferente. As condições históricas que levaram ao Holocausto não existiriam. E as consequências históricas do Holocausto não existiriam.

Mas, entre outras coisas, isso requer a eliminação de muitas pessoas do passado e a sua substituição por um conjunto diferente de pessoas. Da mesma forma, isso requer a eliminação de todas as pessoas que nasceram como resultado do Holocausto. De certa forma, isso seria um tipo diferente de Holocausto.

Isso seria melhor para as pessoas que nunca existiriam neste mundo alternativo? E se algumas delas estiverem perto de ter um futuro eterno de felicidade? Ao criar o mundo alternativo, Deus as priva dessa bênção incomparável.

Algumas coisas boas resultam de um mundo onde ocorreu o Holocausto que nunca resultariam sem o Holocausto. Portanto, um mundo em que o Holocausto ocorreu é melhor em alguns aspectos, mas pior em outros. Melhor para algumas pessoas, mas pior para outras.

Há inclusive judeus - muitos judeus - que beneficiaram do Holocausto. Há judeus que nasceram como resultado do Holocausto que nunca existiriam sem esse acontecimento horrível. Por exemplo, alguns sobreviventes do Holocausto casaram com pessoas que nunca teriam oportunidade de conhecer num mundo sem os deslocamentos do Holocausto.

Os melhores meios para um fim não tornam os meios bons em si mesmo. Como uma amputação para evitar a morte por gangrena.

Um mundo com o Holocausto não é o melhor mundo possível, porque o melhor mundo possível é uma impossibilidade lógica, mas é o melhor mundo possível para a realização dos propósitos de Deus.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Abortar o desenvolvimento de um corpo humano é moralmente irrelevante?

 

Definamos ser humano como a união corpo humano-mente humana. Um corpo humano incapaz de incorporar uma mente humana não é um ser humano, é apenas um corpo humano. Este é o caso de um feto humano nos seus estágios de desenvolvimento iniciais. Enquanto um cérebro capaz de “acoplar” uma mente não se desenvolve, um feto humano é um organismo/corpo humano mas não um ser humano.

Há quem defenda, então, que interromper o desenvolvimento de um corpo humano nos seus estágios iniciais é moralmente equiparável a destruir uma unha humana ou um cabelo humano. O facto de simplesmente ser “humano” não concede direitos morais a estas entidades. O que torna moralmente censurável matar um corpo humano é a existência de uma mente incorporada no corpo, porque nessa condição mata-se não apenas um corpo humano mas também um ser humano.

Mas destruir um corpo humano em desenvolvimento é moralmente equiparável a destruir outro material biológico humano? A resposta parece óbvia. Claro que não. Um corpo humano é uma das partes constituintes de um ser humano sem a qual o ser humano não existe. Interromper o seu desenvolvimento é abortar o processo de formação de um ser humano único. Não é como descartar uma unha ou cabelo humano. Um ser humano pode existir sem unhas ou cabelo mas não pode existir sem um corpo humano. 

Um ser humano não é só o seu corpo mas é também o seu corpo. O corpo de um ser humano é sempre o mesmo desde o momento da sua conceção até que morre. Sem ele o ser humano não existe. Destruí-lo é destruir uma das partes constituintes de um ser humano. Como tal deve ter a integridade protegida. A sua destruição em qualquer momento da sua existência tem implicações morais óbvias.

Que se saiba uma árvore não tem mente mas não é moralmente irrelevante matá-la. Ter uma mente é uma condição suficiente para um organismo/corpo não ser morto mas não é uma condição necessária. É preciso ter uma boa razão moral que justifique matar um organismo/corpo quer este tenha uma mente ou não. 

Um organismo vivo tem valor em si mesmo, é moralmente errado matá-lo gratuitamente.

Então, mesmo que concedamos que um feto humano nos seus estágios iniciais de desenvolvimento não é um ser humano mas apenas um organismo/corpo humano, matá-lo (abortá-lo) continua a ser moralmente censurável na ausência de uma razão moralmente relevante que o justifique.

Nota

A definição de ser humano como uma "mente incorporada" pressupõe a existência de duas entidades ontologicamente independentes - o corpo e a mente. Não faz sentido para um fisicalista falar em "mente incorporada" quando a mente é o corpo. Se o cérebro produz a mente não há nada incorporado, há apenas um cérebro/corpo que produz um efeito. Assim, quando um fisicalista fala em "mente incorporada" é como se estivesse a falar em "bílis incorporada" ou "insulina incorporada". Puro nonsense.

Ovos de águia não são águias. Bora destruir os ninhos...Ups

domingo, 6 de junho de 2021

NO BEM, NO MAL

 

Muitos cristãos assumem a posição de que Deus é responsável por todas as coisas boas que nos acontecem, mas não por nenhuma das coisas más que nos acontecem. Na verdade, a sua principal objeção ao calvinismo [N.d.T. isto é, que Deus preordena todas as coisas] é que o calvinismo torna Deus responsável pelas coisas más assim como pelas boas. Do seu ponto de vista, isso é evidentemente errado. Não conseguem pensar em coisa pior que se pudesse dizer sobre Deus. Não conseguem imaginar como alguns cristãos realmente acreditam nisso.

Uma vez que isso é tão óbvio para eles, não pensam duas vezes. Ou se pensam duas vezes, gastam o tempo a elaborar como isso seria indescritivelmente abominável. Nunca param para questionar a sua pressuposição.

Falando por mim, tenho exatamente o instinto oposto. É claro que acredito que Deus é responsável por tudo o que acontece. Mas suponhamos, para fins de argumentação, que eu tivesse uma escolha: ou Deus é apenas responsável pelas coisas boas que me acontecem ou ele é apenas responsável pelas coisas más que me acontecem.

Se tivesse que decidir, eu optaria pela alternativa "má". Se pudesse escolher, prefiro que Deus seja responsável pelas coisas más do que pelas coisas boas.

No que diz respeito às coisas boas, não tenho nada a temer. Nada a perder. Estou seguro. Elas não representam nenhuma ameaça para mim ou para as pessoas que amo. O bom é isento de riscos.

Mas o mal pode ferir-me. O mal pode ferir as pessoas que amo. No que diz respeito ao mal, eu teria tudo a temer, tudo a perder - a menos que Deus esteja por trás do mal. A menos que Deus limite o mal. A menos que o mal sirva um bem ulterior.

Se Deus é responsável pelo mal que se abate sobre mim ou as pessoas que amo, então não importa quão mau isso fique, nunca ficará tão mau quanto poderia. Nunca envolverá dano irreparável ou perda irremediável. Se Deus é responsável pelos males da minha vida, então há uma marca além da qual eles não passam. Se tudo, incluindo todos os eventos maus, se desenrola de acordo com o plano e a providência sábia e benéfica de Deus, então o mal não é um poço sem fundo. Não para os seus filhos.

Todo mal que se abate sobre mim como cristão, por mais horrível que seja, será um mal redimível. Há esperança. Há coisas boas à minha espera do outro lado da provação - nesta vida ou na próxima.

Muitos de nós chegamos a um ponto na vida, mais cedo ou mais tarde, em que a vida se fecha sobre nós. Onde, apesar dos nossos melhores esforços para evitá-lo, os nossos piores medos se tornam realidade. Por vezes, podemos vê-los a chegar e nos sentimos impotentes para impedi-lo. Esperamos e suplicamos para que se desviem no último momento, mas não se desviam.

Em vez de acordar de um pesadelo, acordamos para um pesadelo. Aquela sensação terrível de naufrágio. Saber que se está encurralado. Tudo que poderia dar errado deu errado. Todos os dados se alinham contra nós.

É em tempos como estes, enquanto nos agarramos a uma rocha fustigada pelo vento, que saber que Deus está por trás da nossa provação é uma fonte de esperança, força e consolação. Na verdade, a única fonte de esperança, força e consolação. Ao sabermos disso, sabemos que isso não é o fim. Isso não é o epitáfio. Se Deus está por trás disso, então Deus também está na frente disso. Para nos abençoar. Para nos fazer bem.

No bem e no mal. Mas não para o pior - mas para o melhor.

Steve Hays (1959-2020) 

What he lived by, he died by.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Lactâncio e a simplicidade das Escrituras

 

Lactâncio (ca. 240 — ca. 320), em Divinae Institutiones 5.1.15-18, escreveu ao imperador que os escritos sagrados dos cristãos (presumivelmente incluindo o AT e o NT) eram desprezados pelos eruditos do mundo secular porque eram verdadeiros e sem embelezamento e não se concentravam em agradar aos ouvidos dos ouvintes. Isso é relevante para tentativas de alegação que os Evangelhos teriam usado "artifícios composicionais" greco-romanos para mudar os factos e que o seu público não se importaria. Mas não somente não há evidências para sustentar a existência do género que os teóricos afirmam, como as Escrituras cristãs eram explicitamente conhecidas nos tempos antigos pela sua simplicidade e ausência de embelezamento retórico.

Este ponto encaixa-se com o que Paulo diz em 1 Coríntios. 1:26: “Considerai, pois, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados...”. Ao longo dessa passagem Paulo enfatiza que a eloquência de palavras é um "extra" na propagação do evangelho e que, em geral, o evangelho e o cristianismo estão associados à verdade franca da mensagem, em vez de a floreados retóricos.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O determinismo é autoderrotante?

 

Se a crença no determinismo foi determinada por fatores externos irracionais, então o determinismo minaria a crença no determinismo. Mas se a crença no determinismo foi determinada por um Deus racional, então isso não derrota a racionalidade da crença no determinismo.

Dizer “a razão pela qual se acredita no determinismo é simplesmente porque estava determinado a fazê-lo” é simplista e equívoco. Isso confunde a razão que se tem para acreditar no determinismo (ou seja, a coisa que torna o determinismo uma ideia persuasiva) com a razão pela qual algo acontece. A razão pela qual choveu hoje não é a mesma razão pela qual eu penso que choveu hoje. O facto de eu estar predeterminado a pensar que choveu hoje não implica que não tenha boas razões para pensar que choveu hoje. A diferença é clara.

Um agente determinado pode pesar os argumentos a favor e contra. Um agente determinado será predeterminado para pesar os argumentos a favor e contra. Não há nenhum motivo para assumir que um processo determinístico não pode fazer uso de boas razões para convencer um agente determinado de que o determinismo é verdadeiro.

Conselho amigável: Se alguém acha que o determinismo é autoderrotante não deverá confiar nos resultados das máquinas de calcular.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Catolicismo quântico

 

Alguns católicos lidam com o papa Francisco assumindo a posição de que, mesmo que ele seja um herege, isso não tem grande importância, desde que as suas opiniões heréticas sejam apenas um seu ponto de vista privado, e não um dogma.

Mas é claro que isso representa um dilema. E se Francisco oficializar as suas heresias? Então, elas deixam de ser heréticas. A heresia de ontem pode ser a ortodoxia de amanhã, enquanto a ortodoxia de ontem pode ser a heresia de amanhã.

O catolicismo é semelhante ao voluntarismo teológico nesse aspecto. De acordo com o voluntarismo, nada é intrinsecamente certo ou errado. Depende do ditame arbitrário de Deus.

No catolicismo, algo não é herético, a menos que seja oficialmente herético. É herético se um concílio ecuménico condenar.

O catolicismo é como o gato de Schrödinger, suspenso num estado de sobreposição onde está vivo e morto até que alguém abra a caixa e espreite para dentro.

Francisco é um herege até tornar a heresia oficial, momento em que se torna dogma.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Alma imaterial e segunda lei da termodinâmica


Uma objeção levantada à existência de uma mente/alma imaterial é que a sua interação com o cérebro violaria a segunda lei da termodinâmica. Mas esta lei apenas se aplica a sistemas fechados e o cérebro ao interagir com uma mente/alma imaterial não é um sistema fechado por definição. Por isso, pode ter variações de entropia negativas sem violar nenhuma lei da física ou impossibilidade lógica. 

A objeção o que na verdade faz é assumir o fisicalismo para rejeitar uma posição não fisicalista. É simplesmente circular.

As leis da física, incluindo as da termodinâmica, governam processos naturais do universo físico. Descrevem um resultado natural de um contínuo de causas e efeitos físicos. Mas o universo físico não é um sistema fechado. Embora geralmente opere como tal, na verdade é um sistema aberto. Uma causação exterior não-física pode mudar o resultado natural previsto pelas leis da física.

Por exemplo, a causação mental pode alterar o estado físico de uma zona do meu cérebro previsto pelas leis da física. Se eu decidir mentalmente levantar o braço direito o estado físico do meu cérebro será um, se eu não decidir levantar o braço o estado físico será outro. Se não decidir levantar o braço o estado físico dessa zona do cérebro será o naturalmente previsto pelas leis da física.

Na cosmovisão bíblica, o universo físico não está fechado a causas não-físicas. Na verdade, é um palco para agentes pessoais (Deus, anjos, demónios, humanos). 

sábado, 29 de maio de 2021

Como o perdão e o batismo estão ligados?

 

Pedro disse-lhes: “Arrependei-vos e sede imersos, cada um de vós, em nome de Jesus, o Messias, com base no perdão dos pecados ...” (Atos 2:38).

A preposição “para” (eis) na expressão “para o perdão dos pecados” levanta a questão da relação entre a imersão na água (batismo) e o perdão dos pecados. Alguns interpretam a preposição como expressando propósito (o propósito do batismo é o perdão dos pecados), alguns como expressando resultado (batismo resulta em perdão).

Uma interpretação contextualmente mais plausível assume um significado causal (o perdão dos pecados é a causa do batismo); os judeus que ouviram Pedro explicar que Jesus era o Messias crucificado, ressuscitado e exaltado e o Senhor que salva Israel nos “últimos dias” se arrependeram dos seus pecados e passaram a ter fé em Jesus. De outra forma, eles não estariam dispostos a ser imersos em água para purificação “em nome de Jesus o Messias”; eles foram imersos em água para purificação “com base no perdão dos pecados”, que receberam de Jesus.


E. Schnabel, Acts (Zondervan 2012), 164-65.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

O batismo não pode ser uma burocracia

Uma maneira de refutar a regeneração batismal é colocar a seguinte questão: O batismo é absolutamente necessário para a salvação? 

Como a absoluta necessidade do batismo é indefensável, até mesmo os defensores da necessidade do batismo geralmente preveem sempre uma condição de salvação sem o batismo, o batismo revela-se uma burocracia, um capricho, uma exigência gratuita de Deus, pois Deus pode salvar e justificar sem o batismo, ele não é inerentemente necessário para a salvação.

A menos que se considere o batismo como absolutamente necessário para a salvação, o batismo como exigência para a salvação não faz sentido. Deus não é um burocrata.

terça-feira, 18 de maio de 2021

A arte como camuflagem

 

O interior das igrejas reformadas/evangélicas é tradicionalmente espartano. A simplicidade e ausência de luxos é uma das suas imagens de marca. Quem está acostumado a isso e entra numa catedral gótica ou numa basílica bizantina pela primeira vez pode ter um choque. O contraste é avassalador.

Esse impacto pode ter consequências diferentes em pessoas diferentes. Alguém com uma fé principalmente intelectual e teórica, que adere ao cristianismo pelo sentido estético da coisa, pode ficar fascinado e sentir-se atraído por toda a parafernália artística dessas igrejas. Essa é uma das razões pelas quais é um erro os evangélicos serem gratuitamente espartanos quando se trata de serviço de culto. Isso convida ao abandono de certas pessoas. 

Não estou a apelar para a ostentação nem para encher as igrejas com imagens ou pinturas. Isso certamente não seria boa arte, mas mau gosto disfarçado de piedade. Nada pior do que igrejas que mais parecem lojas de bugigangas. Porém, não custa nada ter um maior cuidado com os espaços do culto, a seleção da música sacra, a reverência no culto etc.

Mas a arte majestosa pode ser vista por um prisma diferente: é uma ótima maneira de camuflar o vazio. Se não se tem nada, faz-se com que pareça que há alguma coisa por meio de elementos externos. Se o vinho é apenas vinho, isso é disfarçado usando um cálice esplendoroso. Se a hóstia é apenas um pedaço de pão seco, dissimula-se isso colocando-a dentro de um tabernáculo magnificente, num altar magnificente, com muitos outros adornos cintilantes. Se o sacerdote na verdade não tem poderes transformativos, mas é apenas um homem como outro qualquer, mascara-se isso envolvendo-o com vestes extravagantes. Quanto menos se tem, mais se tem que compensar.

Os elementos externos, a sobrecarga sensorial, desviam a atenção do facto de que não há nada ali. Camadas sobre camadas para esconder o vazio no âmago. Arrebatar os sentidos é uma tática sagaz para desarmar as faculdades críticas.

Ou, para colocar isso ao contrário, se realmente houvesse alguma coisa ali, algo manifestamente sobrenatural, então toda a arte vistosa, arquitetura, música, ouro e brocado seria desnecessário. Na verdade, se realmente houvesse algo ali, todos os embrulhos faustosos o obscureceriam.

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