11 de fevereiro de 2026

DEUS ORDENOU O GENOCÍDIO DOS CANANEUS?

 

1. Definição: por que “genocídio” é um erro de categoria

Aplicar a categoria jurídico-moral moderna de genocídio à conquista cananeia é anacrónico.

I) Genocídio, em sentido próprio, implica a exterminação intencional de um grupo étnico enquanto tal, independentemente da sua conduta moral ou estatuto religioso.

II) Os relatos bíblicos não descrevem a morte dos cananeus por serem cananeus, mas em razão das suas práticas e da sua corrupção moral-religiosa.

Assim, o erro de categoria é fundamental: trata-se de um juízo judicial, não de uma aniquilação racial.

2. Base moral: punição judicial, não ódio étnico

A conquista deve ser entendida como um ato de punição judicial divina.

Pontos centrais:

I) Os cananeus são julgados por males morais extremos e persistentes (sacrifício de crianças, violência sexual ritualizada, brutalidade cultual).

II) Deus afirma explicitamente que Israel não recebe a terra por causa da sua própria justiça (Dt 9,4–6).

III) O juízo é adiado durante séculos (cf. Gn 15,16), o que revela paciência, não violência arbitrária.

Logo, a destruição é retributiva, não discriminatória.

3. Prerrogativa divina sobre a vida e a morte

Um ponto central a ter em consideração é a soberania divina.

I) Deus, enquanto criador e sustentador da vida, possui autoridade moral para dar e retirar a vida.

II) Toda a morte humana - por doença, desastre ou guerra - ocorre, em última instância, sob a providência divina.

III) A conquista de Canaã difere nos meios, não no princípio, de outros juízos divinos (Dilúvio, Sodoma).

Portanto, quando Deus ordena a morte, isso não constitui um homicídio, pois um homicídio pressupõe autoridade ilegítima.

4. Alcance limitado e não absoluto da destruição

Deve sublinhar-se que os dados bíblicos não sustentam uma erradicação étnica total:

I) A linguagem de guerra hiperbólica (“destruiu tudo”, “não deixou sobreviventes”) é retórica comum no Antigo Oriente Próximo.

II) Muitos cananeus sobrevivem comprovadamente:

- Raab e a sua família

- Os gibeonitas

- Populações cananeias persistentes ao longo de Juízes e Reis

III) Ocorrem mais tarde casamentos mistos e assimilação.

Isto enfraquece decisivamente a tese de uma intenção genocida literal.

5. Juízo condicional e evitável

Outro ponto crucial: o juízo não era inevitável.

I) Indivíduos e grupos que se arrependem ou se submetem (por exemplo, Raab) são poupados.

II) A ameaça está ligada à resistência continuada e à corrupção religiosa, não à etnicidade imutável.

III) Israel, mais tarde, recebe o mesmo tipo de juízo pelos mesmos pecados (exílios assírio e babilónico).

Assim, o princípio é coerência moral, não privilégio étnico.

6. Contexto histórico da aliança, não política universal

A conquista de Canaã é um evento único e irrepetível na história da redenção:

I) Está ligada ao estabelecimento de Israel na terra.

II) Não constitui um modelo para guerras posteriores, cruzadas ou política moderna.

III) Não existe autorização permanente para que crentes imitem esta violência.

Isto bloqueia qualquer tentativa de legitimar atrocidades posteriores com base em Josué.

7. Crianças e responsabilidade moral (dano colateral)

Quanto à questão difícil das crianças, as crianças não constituem o alvo direto do juízo divino sobre Canaã, uma vez que não são agentes moralmente responsáveis pelas práticas condenadas. A sua morte é um dano colateral trágico decorrente de um juízo histórico coletivo contra uma cultura considerada profundamente corrupta, fenómeno comparável ao que ocorre em guerras, colapsos sociais ou catástrofes onde inocentes sofrem consequências sem culpa pessoal. Neste enquadramento teológico, além disso, a morte física não é necessariamente o maior mal possível, admitindo-se a possibilidade de misericórdia divina para aqueles que morrem antes da plena responsabilidade moral.

O horror moral pressuposto pelos críticos depende de pressupostos materialistas sobre a morte ser o pior mal possível.

Assim, a objeção pressupõe uma cosmovisão que a Bíblia rejeita explicitamente.

8. Conclusão

A conquista cananeia:

I) Não é genocídio (não há ódio étnico nem extermínio racial)

II) É juízo divino contra um mal moral profundamente enraizado

III) É limitada, condicional e historicamente específica

IV) Reflete a autoridade moral soberana de Deus

V) Não pode ser generalizada nem repetida por agentes humanos hoje

Em suma:

Os relatos da conquista de Canaã não são sobre o extermínio de um povo por aquilo que ele é, mas sobre o julgamento de uma cultura por aquilo que ela fez - sob autoridade divina e num momento único da história da aliança.

27 de janeiro de 2026

EVENTOS TRANSPLANTADOS NO TEMPO SÃO METAFISICAMENTE IMPOSSÍVEIS

 

A doutrina católica da Missa como a “repetição”, "atualização", "presentificação" ou [inserir outro nome qualquer] do sacrifício de Cristo no Calvário, tornando-o real no tempo presente para os fiéis é uma impossibilidade metafísica (à semelhança da transubstanciação).

1) Formulação lógica do problema

Se definirmos um evento E como:

E =df propriedades, causas, efeitos, tempo t

então:

- Tempo é um predicado constitutivo do evento.

- Logo, se E ocorre em x, ele ocorre em x por definição.

Dizer que o mesmo evento E ocorre em x e em x+y implica:

x = x + y

o que é uma contradição formal se y ≠ 0.

Conclusão:

O mesmo evento numericamente idêntico não pode ocorrer em dois tempos distintos.

Isto é uma impossibilidade metafísica, não apenas empírica.

2) Dependência temporal como propriedade essencial

Segundo a metafísica clássica (Aristóteles Tomás analíticos contemporâneos):

- Um evento tem propriedades essenciais

- O tempo de ocorrência é uma delas

Logo:

Se E ocorre em t, então ocorrer-em-t é essencial a E.

Alterar o tempo não preserva a identidade do evento.

Isto é análogo a dizer:

“O mesmo nascimento ocorreu em 1990 e em 2000.”

É uma contradição ontológica.

3) Modelos do tempo e se algum “salva” a possibilidade

A) Presentismo

- Só o presente existe

- Um evento não pode existir fora do seu tempo

Reforça a impossibilidade

B) Eternalismo (bloco do tempo)

- Todos os tempos existem

- Ainda assim, eventos são indexados a um tempo específico

Também não permite dupla ocorrência do mesmo evento

C) Tempo cíclico

- O universo pode repetir estados

- Mas:

- Eventos repetidos não são numericamente idênticos

Apenas identidade de tipo, não de evento

4) Conclusão final

É uma impossibilidade metafísica que um mesmo evento numericamente idêntico ocorra no tempo x e no tempo x+y se y ≠ 0.

Um evento não pode ocorrer fora do tempo que o constitui.

O que ocorre em outro tempo é necessariamente outro evento.

Logo, o significado da Missa é um mundo logicamente impossível.

25 de janeiro de 2026

O NOSSO CORDEIRO PASCAL

 

A Páscoa

3 Dizei a toda a congregação de Israel que, no décimo dia deste mês, cada homem tomará um cordeiro segundo as casas de seus pais, um cordeiro por família. 4 E, se a família for pequena demais para um cordeiro, então ele e o seu vizinho mais próximo o tomarão segundo o número de pessoas; conforme o que cada um puder comer, fareis a contagem para o cordeiro. 5 O vosso cordeiro será sem defeito, macho de um ano; podereis tomá-lo das ovelhas ou das cabras. 6 Guardá-lo-eis até o décimo quarto dia deste mês, quando toda a assembleia da congregação de Israel o imolará ao crepúsculo.

7 “Então tomarão um pouco do sangue e o porão nos dois umbrais e na verga das casas em que o comerem. 11 É a Páscoa do Senhor. 12 Porque naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei todos os primogénitos na terra do Egito, tanto de homens como de animais; e executarei juízos sobre todos os deuses do Egito: Eu sou o Senhor. 13 O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; e, quando eu vir o sangue, passarei por cima de vós, e não haverá praga para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito.

21 Então Moisés chamou todos os anciãos de Israel e disse-lhes: “Ide, escolhei cordeiros para vós segundo as vossas famílias e imolai o cordeiro pascal. 22 Tomai um molho de hissopo, mergulhai-o no sangue que está na bacia e tocai a verga e os dois umbrais com o sangue que está na bacia. Nenhum de vós sairá da porta de sua casa até de manhã. 23 Porque o Senhor passará para ferir os egípcios; e, quando vir o sangue na verga e nos dois umbrais, o Senhor passará por cima da porta e não permitirá que o destruidor entre nas vossas casas para vos ferir” (Êx 12:3–7, 11–13, 21–23).

A Última Ceia

7 Chegou o dia dos Pães Asmos, no qual era necessário sacrificar o cordeiro pascal. 8 Então Jesus enviou Pedro e João, dizendo: “Ide preparar-nos a Páscoa, para que a comamos.”

14 Quando chegou a hora, reclinou-se à mesa, e os apóstolos com ele. 15 E disse-lhes: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de padecer. 16 Pois vos digo que não a comerei mais até que se cumpra no reino de Deus.” 17 E, tomando um cálice, tendo dado graças, disse: “Tomai isto e reparti-o entre vós. 18 Pois vos digo que, desde agora, não beberei do fruto da videira até que venha o reino de Deus.” 19 E, tomando pão, tendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” 20 E, do mesmo modo, o cálice, depois de cear, dizendo: “Este cálice que é derramado por vós é a nova aliança no meu sangue” (Lc 22:7–8, 14–20).

Poucas doutrinas sofreram uma distorção mais sistemática do que a Eucaristia. E isso é irónico, porque o significado real da Eucaristia é transparente e direto.

A Última Ceia baseia-se na Páscoa. Isso não quer dizer que seja idêntica a uma refeição do Seder. Trata-se de uma analogia, que convida à comparação e ao contraste. Como seria de esperar, a Última Ceia tem um significado mais especificamente cristão. O que têm em comum?

i) A Páscoa é uma refeição. Uma refeição comunitária.

ii) A Páscoa ilustra um princípio substitutivo, no qual o cordeiro pascal morre no lugar do primogénito masculino.

iii) Na Páscoa o sangue tem uma função. Não meramente o sangue, mas o sangue derramado.

iv) Embora seja uma refeição, o significado do rito não está em consumir os elementos. O rito pascal não é sobre internalizar a carne e o sangue.

Pelo contrário, o cordeiro é exsanguinado, para evitar o consumo do sangue. O sangue é externo ao celebrante.

O sangue não está dentro dos celebrantes. Pelo contrário, os celebrantes estão dentro das suas casas, enquanto o sangue está pintado na porta. A porta é tanto uma entrada como uma saída. Representa a fronteira entre a casa e o mundo exterior.

O sangue é um “sinal” (v. 13). No rito pascal, pintar a porta com sangue forma uma barreira emblemática, que impede o Destruidor de entrar na casa e matar o primogénito masculino no interior. Trata-se de uma espécie de teatro divino. E uma lição prática.

Portanto, o sangue tem uma função protetora. Ele resguarda o primogénito masculino do juízo divino.

Estes princípios básicos passam para a Última Ceia:

i) O rito retrata a expiação vicária de Cristo. Isso já é claro do seu contexto pascal, mas é reforçado por alusões ao Servo Sofredor (Is 53:6, 10, 12, LXX).

Os elementos são algo diferentes. Há uma ênfase no pão e no vinho, em vez de no cordeiro. Isso porque Jesus tomará o lugar do cordeiro. A refeição pascal original incluía vinho para acompanhar os alimentos sólidos. Mas aquele ritual já tinha sangue literal (o sangue derramado do cordeiro), de modo que não havia necessidade de outro elemento (vinho) para simbolizar o sangue - ao contrário do que ocorre na Última Ceia.

ii) Por analogia com a Páscoa, a Última Ceia não é sobre consumir sangue. Não é sobre internalizar o corpo e o sangue de Cristo.

Pelo contrário, o sangue conserva o seu significado protetor. O vinho representa o sangue derramado de Cristo, antecipando a Crucificação - a poucas horas de distância. O pão representa o corpo de Cristo, prestes a sofrer uma morte violenta, como vítima sacrificial.

O sangue de Cristo protege o cristão do juízo divino. Neste caso, do juízo escatológico (condenação), e não da morte física (a praga dos primogénitos). O sangue de Cristo está “fora” de nós, e não dentro de nós - como uma barreira protetora.

22 de janeiro de 2026

JESUS É DEUS, E OS AUTORES DO NOVO TESTAMENTO SABIAM-NO

 

Alguns críticos afirmam que a ideia de que Jesus é Deus foi uma invenção tardia. Que Marcos, o Evangelho mais antigo, não ensina a divindade de Jesus.

Dêmos então uma vista de olhos rápida a Marcos…

Marcos 1 - João Batista prepara o caminho para Jesus.

(Marcos está a aplicar Isaías 40, que prepara o caminho para Deus.)

Marcos 2 - Jesus perdoa pecados — e os líderes religiosos dizem: “Só Deus pode fazer isto.”

Marcos 3 - Jesus expulsa os demónios e diz que amarrou o homem forte (Satanás) para saquear a sua casa.

- Que humano amarra Satanás?

Marcos 4 - Jesus acalma a tempestade. O Antigo Testamento diz que só Deus o pode fazer.

Marcos 5 - Jesus ressuscita os mortos. Mais uma vez, um ato divino.

Marcos 6 - Jesus caminha sobre as águas. O Antigo Testamento diz que só Deus caminha sobre as ondas.

Marcos 9 - Jesus expulsa um demónio sem orar e, de seguida, diz aos seus discípulos: “Esta casta só sai pela oração”.

Eles ficam perplexos. Por quê? Ele não orou.

- Implicação: Ele não precisa.

Marcos 12 - Jesus chama-se Senhor de David, e não apenas filho de David.

(Quem é maior que o Rei David?)

Marcos 13-14 - Jesus fala da sua volta como o Filho do Homem em glória e juízo – partilhando a autoridade de Deus.

Do primeiro ao último capítulo, Marcos mostra-nos um Jesus que fala, age e é adorado como Deus.

Uma das formas em que os autores do NT apresentam Jesus como Deus é citar passagens do AT que se referem a Deus e aplicá-las diretamente a Jesus. Aqui está um exemplo:

Romanos 10:9 diz: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.”

Aqui Paulo está a citar Joel 2:32, que diz: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

No contexto de Joel, “o Senhor” se refere a Deus — o próprio Yahweh.

Então, o que Paulo está a fazer?

Está a pegar num versículo sobre Deus e a aplicá-lo diretamente a Jesus.

Isto nada tem de obscuro. Nada tem de vago.

É Paulo a afirmar de maneira cristalina que Jesus é Deus.

O Novo Testamento não mostra os seus autores a “evoluir” na sua visão de Jesus.

O Novo Testamento mostra que eles sabiam quem Ele era desde o início.

19 de janeiro de 2026

QUEM É O “ALTO E O SUBLIME”?

 

Isaías 6:1 – o SENHOR – רָם וְנִשָּׂא

Isaías 52:13 – o Servo – יָרוְּם וְנִשָּׂא

Isaías 57:15 – o SENHOR – רָם וְנִשָּׂא

Implicação?

O Servo é o SENHOR (Yahweh)

15 de janeiro de 2026

O JUDAÍSMO RABÍNICO ATUAL NÃO REPRESENTA O JUDAÍSMO DO SÉCULO I

 

Um dos argumentos mais comuns usados contra a fé cristã é o seguinte: “A Trindade é impossível porque o judaísmo sempre foi estritamente unitário.”

O problema desta afirmação é simples: o judaísmo rabínico moderno não é o mesmo judaísmo do tempo de Jesus.

O que hoje se chama “judaísmo normativo” é, na realidade, um desenvolvimento tardio, posterior à destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Quando voltamos às fontes do século I - Bíblia hebraica, literatura apocalíptica, escritos intertestamentários e tradições judaicas antigas - o quadro é muito mais complexo (ver abaixo).

Graças, em grande parte, a académicos judeus, é hoje mais comum, ainda que não seja generalizado ou universal, o reconhecimento de que doutrinas cristãs como a Trindade, a divindade e a encarnação do Messias, a compatibilidade entre a soberania divina e a responsabilidade humana, a natureza caída do ser humano (ou pecado original), a expiação penal substitutiva, etc., eram ideias inegavelmente judaicas antes, e por vezes ainda depois, da vinda de Jesus Cristo ao mundo no século I. Durante o período rabínico que se seguiu à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C, estas crenças amplamente difundidas entre os judeus foram em grande parte suprimidas, e é esta forma resultante de judaísmo que a maioria das pessoas considera quando diz que certas doutrinas cristãs não são "judaicas". Ao mesmo tempo, embora amplamente difundidas anteriormente e em grande parte suprimidas posteriormente, muitas destas crenças não conseguiram ser completamente erradicadas, e alguns judeus resistentes ao que mais tarde se tornou a corrente dominante por vezes as reafirmam de várias formas.

A dicotomia clássica entre conceitos judaicos e cristãos deve, portanto, ser refinada numa relação dialética: antigas noções judaicas influenciaram as primeiras ideias cristãs e foram posteriormente suprimidas pelo judaísmo rabínico. Isto explica porque é que o cristianismo primitivo contém frequentemente temas e motivos judaicos antigos - ainda que completamente transformados - que desapareceram no judaísmo rabínico.

Houtman, A., De Jong, A., & Misset-Van de Weg, M. (Eds.). (2008). Empsychoi Logoi—Religious Innovations in Antiquity: Studies in Honour of Pieter Willem van der Horst (Vol. 73). Brill. p. 441)

“…De acordo com muitos académicos contemporâneos, o judaísmo rabínico não possuía uma visão simples e indiferenciada de Deus. Os historiadores aceitam que o judaísmo na Antiguidade apresentava uma variedade de estruturas intra-divinas... As pesquisas históricas atuais demonstram que, durante este período, não existia um monoteísmo judaico puro em contraste com a Trindade cristã; pelo contrário, o judaísmo possuía também uma visão mais complexa de aspetos de Deus.

(Alan Brill, A Jewish Trinity: Contemporary Christian Theology through Jewish Eyes, (Fortress Press, 2025), pp. 4-5)

______________________________________________________

Fontes judaicas do século I

1. Pluralidade divina no judaísmo do Segundo Templo

Diversas fontes judaicas pré-rabínicas apresentam mais de uma figura divina ao lado de YHWH, sem que isso fosse entendido como politeísmo.

I) O “Ancião de Dias” e o “Filho do Homem” (Daniel 7)

Daniel 7 descreve duas figuras entronizadas, ambas participando da autoridade divina.

“Daniel 7 apresenta uma clara distinção entre duas figuras divinas, algo que o judaísmo posterior tentou reinterpretar.”

(John J. Collins, Daniel (Hermeneia Commentary, Fortress Press, 1993), p. 304)

II) O Nome, a Palavra (Memra) e a Sabedoria

No judaísmo pré-rabínico, atributos divinos como a Sabedoria (Hokmah) e a Palavra eram hipostasiados, isto é, tratados como realidades pessoais.

“A Sabedoria não é apenas uma metáfora, mas uma realidade divina distinta, participante da criação.”

(Gerhard von Rad, Wisdom in Israel (Abingdon Press, 1972), p. 144)

O Targum palestino frequentemente substitui YHWH por Memra (a Palavra), funcionando como agente pessoal de Deus.

“A Memra atua, fala, cria e salva — funções divinas.”

(Martin McNamara, Targum and Testament (Eerdmans, 1972), p. 99)

2. A doutrina dos “Dois Poderes no Céu”

O judaísmo rabínico reconhece explicitamente que existiu uma doutrina herética chamada “dois poderes no céu”, que precisou ser combatida.

Obra fundamental

Alan F. Segal, Two Powers in Heaven: Early Rabbinic Reports about Christianity and Gnosticism (Brill, 1977)

Segal demonstra que:

- A doutrina não surgiu com os cristãos

- Era uma crença judaica antiga

- Foi posteriormente classificada como heresia

“A crença em dois poderes no céu era originalmente uma especulação judaica legítima.”

Segal, p. 23

“O rabinismo redefiniu os limites do monoteísmo para excluir essas tradições.”

Segal, p. 260

3. Literatura de Enoque e o Messias divino

I) 1 Enoque (pré-cristão)

O “Filho do Homem”:

- Preexiste

- Julga o mundo

- É entronizado

“O Filho do Homem de 1 Enoque possui atributos exclusivamente divinos.”

(George W. E. Nickelsburg, 1 Enoch 1 (Hermeneia, Fortress Press, 2001), p. 250)

II) 4 Esdras (final do século I)

O Messias:

- Vem do céu

- Reina eternamente

- É adorado

“A cristologia elevada encontra paralelos diretos no judaísmo apocalíptico.”

(Larry Hurtado, Lord Jesus Christ (Eerdmans, 2003), p. 57)

4. O Espírito como realidade pessoal no judaísmo antigo

O Espírito de Deus no judaísmo do Segundo Templo:

- Fala

- Ensina

- Pode ser entristecido

- Atua independentemente

“O Espírito no judaísmo antigo é muito mais do que uma força impessoal.”

(Max Turner, Power from on High (Sheffield Academic Press, 1996), p. 38)

12 de janeiro de 2026

ORÍGENES: "O HOMEM É JUSTIFICADO PELA FÉ. AS OBRAS DA LEI NÃO PODEM CONTRIBUIR PARA ISSO."

 

Orígenes, sobre o ladrão na cruz como exemplo de justificação somente pela fé:

“Resta-nos a nós, que procuramos afirmar tudo o que o apóstolo diz, e fazê-lo de forma correta, indagar quem é justificado somente pela fé, independentemente das obras. Se um exemplo for necessário, creio que basta mencionar o ladrão na cruz, que pediu a Cristo que o salvasse e ouviu: ‘Em verdade, hoje mesmo estarás comigo no paraíso.’ ... O homem é justificado pela fé. As obras da lei não podem contribuir para isso. Onde não há fé que justifique o crente, mesmo que haja obras da lei, estas não estão baseadas no fundamento da fé.

Mesmo que sejam boas em si mesmas, não podem justificar quem as pratica, porque falta a fé, e a fé é a marca dos que são justificados por Deus.” 

(Orígenes de Alexandria; Comentário sobre a Epístola aos Romanos. [CER 2:132, 134-36.] in Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI (IVP Academic), pg. 100)

8 de janeiro de 2026

O SALMO 69, JESUS E UM PROBLEMA ESQUECIDO DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA

 

Entre os salmos mais citados no Novo Testamento, poucos ocupam um lugar tão central quanto o Salmo 69. Ele é usado repetidamente para interpretar a vida, o ministério e, sobretudo, o sofrimento de Jesus. Ainda assim, um dos seus versículos — Salmo 69:8 — raramente é levado até às últimas consequências teológicas. Quando o fazemos, surge uma tensão séria com um dos dogmas marianos mais importantes da Igreja de Roma: a virgindade perpétua de Maria.

Vamos explicar por que o Salmo 69 é legitimamente messiânico e por que o versículo 69:8, quando aplicado a Jesus de forma coerente, levanta um problema real para essa doutrina.

Por que o Salmo 69 é considerado messiânico?

O critério decisivo não é uma leitura cristã tardia, mas o uso direto e consistente do salmo no Novo Testamento. Jesus e os apóstolos aplicam várias passagens do Salmo 69 à experiência de Cristo:

“O zelo da tua casa me consumirá” (Sl 69:9) João 2:17

“Odiaram-me sem causa” (Sl 69:4) João 15:25

“Deram-me fel por comida e vinagre para beber” (Sl 69:21) Mateus 27; João 19

“Fique deserta a sua habitação” (Sl 69:25) Atos 1:20

Não se trata de citações isoladas. O Novo Testamento lê o salmo como um todo, descrevendo o sofrimento injusto do Messias fiel a Deus. David fala historicamente de si mesmo, mas como rei ungido, funciona como tipo do Messias sofredor. O cumprimento pleno encontra-se em Jesus.

O conteúdo do Salmo 69: rejeição, zelo e sofrimento

O Salmo 69 não descreve apenas perseguição externa. Ele insiste num ponto mais doloroso: a rejeição vinda dos próprios. O justo não é apenas odiado por inimigos, mas marginalizado socialmente, ridicularizado e abandonado, inclusive no seu círculo mais próximo.

É neste contexto que surge o versículo 8.

O que diz exatamente o Salmo 69:8?

Tornei-me estranho a meus irmãos, e desconhecido aos filhos de minha mãe.

Aqui não estamos perante uma metáfora vaga. O paralelismo hebraico é claro e cumulativo:

- “meus irmãos”

- “os filhos de minha mãe”

A segunda expressão elimina qualquer ambiguidade possível. O salmista fala de irmãos uterinos, membros da mesma unidade familiar. A ideia central é alienação real, não um simples conflito ou distanciamento emocional.

A aplicação a Jesus faz sentido?

O Novo Testamento responde de forma inequívoca: sim.

Os Evangelhos afirmam repetidamente que Jesus foi rejeitado pelos seus próprios irmãos:

- “Nem mesmo os seus irmãos criam nele” (João 7:5)

- A família considera-o “fora de si” (Marcos 3:21)

- Os irmãos são identificados pelo nome (Mateus 13:55-56)

- Jesus redefine publicamente quem é a sua verdadeira família (Marcos 3:31-35)

O padrão é o mesmo do Salmo 69: rejeição motivada pela missão divina, não por falha moral. A correspondência é histórica, psicológica e teológica.

Onde entra o problema da virgindade perpétua?

A doutrina católica romana afirma que Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto. Para manter essa posição, a tradição desenvolveu explicações alternativas para os “irmãos de Jesus”:

- seriam primos,

- parentes próximos,

- ou filhos de um casamento anterior de José.

O problema é que nenhuma dessas hipóteses surge do texto bíblico. São soluções posteriores, criadas para proteger um dogma já assumido.

Quando Salmo 69:8 é aplicado a Jesus — como o Novo Testamento autoriza — surgem dificuldades sérias:

1. O texto fala de “filhos da minha mãe”, não de primos.

2. A rejeição é interna à família nuclear.

3. Os Evangelhos nunca explicam que os irmãos de Jesus não eram irmãos reais.

4. A explicação alternativa aparece apenas na patrística tardia, sob forte influência ascética.

Em termos simples: a leitura mais natural e histórica do texto entra em conflito com a virgindade perpétua.

Uma escolha hermenêutica inevitável

Aqui surge um dilema claro:

i) Ou o Salmo 69 não deve ser lido como messiânico (o que contradiz o Novo Testamento),

ii) Ou Jesus teve irmãos uterinos, e Maria não permaneceu perpetuamente virgem.

A Igreja apostólica escolheu a primeira via: leu o salmo cristologicamente. A mariologia posterior escolheu outra: reinterpretou os textos bíblicos à luz do dogma.

O conflito não está na Bíblia, mas entre a exegese apostólica e o desenvolvimento dogmático posterior.

Conclusão

O Salmo 69 é um salmo messiânico por direito próprio, confirmado pelo uso explícito que o Novo Testamento faz dele. Dentro desse salmo, o versículo 69:8 descreve a rejeição do Messias pelos seus próprios irmãos, “os filhos de sua mãe”. Quando aplicado a Jesus de forma consistente, esse texto entra em contradição direta com a doutrina da virgindade perpétua de Maria, revelando-a como um desenvolvimento dogmático posterior sem base sólida na exegese bíblica.

Ignorar essa tensão não é exegese; é harmonização dogmática. Levar o texto a sério exige reconhecer que a teologia do Novo Testamento é mais simples — e mais histórica — do que a mariologia desenvolvida séculos depois.

31 de dezembro de 2025

JOHN WYCLIFFE: A ESTRELA DA MANHÃ DA REFORMA

 

Neste dia, há 641 anos, John Wycliffe, muitas vezes chamado de "Estrela da Manhã da Reforma", morria aos 64 anos. Wycliffe defendeu a autoridade das Escrituras e dirigiu a primeira tradução completa da Bíblia para inglês. Os seus ensinos influenciaram profundamente os movimentos reformistas posteriores, especialmente Jan Hus, e ajudaram a lançar as bases teológicas que viriam a moldar a Reforma Protestante. Condenado postumamente no Concílio de Constança (1415), os seus restos mortais foram exumados e queimados como ato de censura simbólica.

23 de dezembro de 2025

O MESSIAS DEVIA NASCER EM BELÉM

 

“Mas tu, ó Belém Efrata, que és pequena demais para estar entre os clãs de Judá...”

Referência: Miqueias 5:2 [Bíblia Hebraica, versículo 1]
Cumprimento: Mateus 2:1-6; João 1:46; João 7:27, 41-42

O local de nascimento do Messias parecia ser um tema bastante debatido entre o povo judeu que encontramos no Novo Testamento.

Como os anos da infância de Jesus foram passados em Nazaré, uma cidade da região da Galileia, alguns presumiram que ele também tivesse nascido ali. Em João 1:46, Natanael disse a Filipe a respeito de Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”. A resposta implícita é “não” - e muito menos o Messias!

De modo semelhante, em João 7:41-42, durante a festa de Sucot (ou dos Tabernáculos), as pessoas discutiam a identidade de Jesus. À medida que a conversa avançava, “outros diziam: ‘Este é o Cristo [Messias]’. Mas alguns diziam: ‘Vem, porventura, o Cristo [Messias] da Galileia? Não diz a Escritura que o Cristo [Messias] vem da descendência de Davi e de Belém, a aldeia de onde era Davi?’”

Outros ainda, talvez menos familiarizados com o ensino tradicional, pareciam agnósticos quanto ao local de nascimento do Messias: “Quando o Cristo [Messias] vier, ninguém saberá de onde ele é” (João 7:27).

Em consonância com a ideia de que o Messias nasceria em Belém, constatamos, em primeiro lugar, que Jesus nasceu realmente ali, embora tenha crescido em Nazaré. Em segundo lugar, os “principais sacerdotes e escribas” citaram o profeta Miqueias em apoio desta ideia:

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, dizendo: ‘Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.’ Ouvindo isso, o rei Herodes perturbou-se, e toda Jerusalém com ele; e, reunindo todos os principais sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo [Messias]. Eles lhe disseram: ‘Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta:

“E tu, ó Belém, na terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre os governantes de Judá; porque de ti sairá um governante que apascentará o meu povo Israel.”’”

(Mateus 2:1-6)

Este é um caso raro em que, em vez de ser o escritor de um evangelho a citar uma passagem messiânica, são os mestres judeus daquela época a fazer a citação. Primeiro, vemos que “magos”, também chamados sábios, chegaram “do Oriente”, provavelmente astrólogos pagãos da Babilónia, da Pérsia ou da Arábia (não sabemos o local exato). Embora proibida na Bíblia, a astrologia era bastante popular em vários países, e “todos concordavam que os melhores astrólogos viviam no Oriente” [1]. Aparentemente, se alguém quisesse astrólogos de primeira classe, o Oriente era o lugar certo!

Herodes, que não era um governante muito piedoso, deu crédito ao anúncio deles de que o “Rei dos Judeus” havia nascido (seja lá o que fosse exatamente a “estrela” que eles viram).

Porém, Herodes ficou perturbado com a notícia, e também “toda Jerusalém” — mas por que razão a cidade inteira? Teriam os “magos” feito um grande anúncio público? Sugere-se que eles vinham acompanhados de um grande séquito, ou que a impopularidade de Herodes entre o povo fez com que um anúncio discreto se espalhasse rapidamente entre aqueles que não suportavam o seu governo, na esperança de que um rei substituto estivesse para chegar [2]. Além disso, o povo pode ter ficado alarmado simplesmente por conhecer a reputação de Herodes: e se ele reagisse de forma imprevisível e violenta à notícia de um novo rei?

Não sabemos exatamente por que razão a cidade inteira ficou em alvoroço, nem como os magos determinaram que algo estava a acontecer na Judeia. Pode ser que eles conhecessem algo da tradição judaica sobre o tema, pois cada uma das possíveis regiões de sua origem abrigava uma população judaica significativa.

A astrologia era temida pelos governantes romanos como um presságio de maus agouros, e Herodes não era diferente, como rei fantoche de Roma. Preocupado com a ameaça ao seu governo representada por esse “Rei dos Judeus”, Herodes reuniu um comité dos “entendidos” e perguntou-lhes sobre o local de nascimento do Messias. Eles deram uma resposta unânime: Belém, na Judeia, e, como prova, citaram o profeta Miqueias. Isso acabou por levar ao ato desvairado de Herodes de mandar massacrar todos os meninos de dois anos para baixo na região de Belém. Ele não toleraria nenhum rival ao seu trono! Mas, a essa altura, a família de Jesus já havia fugido para o Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes (ver Mateus 2:14-15).

O que é interessante é que a citação de Miqueias feita pelos sacerdotes e escribas difere, na redação, do texto original. Compare-se:

Mateus 2:6

E tu, ó Belém, na terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre os governantes de Judá; porque de ti sairá um governante que apascentará o meu povo Israel.

Miqueias 5:2 (v. 1 no hebraico)

Mas tu, ó Belém Efrata, que és pequena demais para estar entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que há de governar Israel, cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.

Alguns apontam estas diferenças como exemplos de supostas citações incorretas da Bíblia Hebraica no Novo Testamento. Contudo, a Escritura é frequentemente citada no Novo Testamento com alterações que não afetam o sentido real, mas servem a um propósito homilético ou midráshico. Afinal, qualquer pessoa podia consultar um rolo dos Profetas, ou pelo menos recorrer a quem tivesse acesso a um, e verificar o texto original.

Assim, Mateus altera “Belém Efrata” para “Belém, na terra de Judá” – que é o mesmo local, especificando qual das duas Beléns estava em vista - para sublinhar que se tratava de Judá e não de algum outro local, a terra da tribo de Judá, de onde se esperava que viesse o Messias.

Em seguida, Mateus muda “pequena demais para estar entre os clãs de Judá” para “de modo nenhum és a menor entre os governantes de Judá”. No texto original, Miqueias enfatiza a insignificância de Belém. No entanto, o ponto de Miqueias é que, embora seja uma cidade pequena e sem importância, ela verá grandeza ao produzir o Messias, o “governante em Israel”. Mateus vai direto a este ponto, destacando a grandeza última de Belém, que também é a intenção de Miqueias.

Em terceiro lugar, Mateus troca “clãs” por “governantes”. Esta também é uma mudança de caráter homilético: dos clãs procedem os governantes, de modo que Mateus simplesmente quer enfatizar que Belém produzirá um governante, talvez para contrastar este governante messiânico com os opressivos governantes romanos então no poder.

Por fim, a última linha de Mateus vem de 2 Samuel 5:2, um versículo que indica que o rei Davi será o verdadeiro pastor de Israel. Desta forma, ao enfatizar anteriormente o “governante” e citando agora um versículo sobre um “pastor”, Mateus pode estar contrastando o Messias tanto com os governantes romanos como com os líderes de Israel que, mais tarde, Jesus diria serem falsos pastores. A criança que há de nascer se elevará acima da liderança romana e judaica como o líder supremo, o Messias. Mateus substitui o pensamento final de Miqueias sobre os antepassados longínquos desta criança por um versículo de 2 Samuel, provavelmente porque deseja salientar a questão do governo e da liderança, e não as origens antigas do Messias.

Portanto, não temos uma “citação incorreta”, mas uma forma muito típica de lidar com a Escritura para enfatizar o seu verdadeiro significado e desenvolver vários pontos homiléticos. Trata-se de midrash, um método judaico de interpretação que realça o sentido e a aplicação de um texto.

Notas

[1] Craig S. Keener, IVP Bible Background Commentary: New Testament (Downers Grove: InterVarsity Press, 1993), comentário sobre Mateus 2:1.

[2] Ibid., comentário sobre Mateus 2:3.