1. Definição: por que “genocídio” é um erro de categoria
Aplicar a
categoria jurídico-moral moderna de genocídio à conquista cananeia é anacrónico.
I) Genocídio,
em sentido próprio, implica a exterminação intencional de um grupo étnico
enquanto tal, independentemente da sua conduta moral ou estatuto religioso.
II) Os relatos
bíblicos não descrevem a morte dos cananeus por serem cananeus, mas em
razão das suas práticas e da sua corrupção moral-religiosa.
Portanto, o erro de categoria é fundamental: trata-se de um juízo judicial, não de uma aniquilação racial.
2. Base moral: punição judicial, não ódio étnico
A conquista de Canaã deve ser entendida como um ato de punição judicial divina.
Pontos
centrais:
I) Os cananeus
são julgados por males morais extremos e persistentes (sacrifício de
crianças, violência sexual ritualizada, brutalidade cultual).
II) Deus afirma
explicitamente que Israel não recebe a terra por causa da sua própria
justiça (Dt 9,4–6).
III) O juízo é adiado
durante séculos (cf. Gn 15,16), o que revela paciência, não violência
arbitrária.
Logo, a destruição é retributiva, não discriminatória.
3. Prerrogativa divina sobre a vida e a morte
Um ponto
central a ter em consideração é a soberania divina.
I) Deus,
enquanto criador e sustentador da vida, possui a autoridade moral para dar
e retirar a vida.
II) Toda a
morte humana - por doença, desastre ou guerra - ocorre, em última instância, por providência divina.
III) A
conquista de Canaã difere nos meios, não no princípio, de outros juízos
divinos (Dilúvio, Sodoma).
Assim, quando Deus ordena a morte, isso não constitui um homicídio, pois um homicídio pressupõe autoridade ilegítima.
4. Alcance limitado e não absoluto da destruição
Deve sublinhar-se
que os dados bíblicos não sustentam uma erradicação étnica total:
I) A linguagem
de guerra hiperbólica (“destruíram tudo”, “não deixaram sobreviventes”) é retórica
comum no Antigo Oriente Próximo.
II) Muitos cananeus sobrevivem comprovadamente:
- Raabe e a sua família
- Os gibeonitas
- Populações cananeias persistentes ao longo de Juízes e Reis
III) Ocorrem mais tarde casamentos mistos e assimilação.
Isto enfraquece decisivamente a tese de uma intenção genocida literal.
5. Juízo condicional e evitável
Outro ponto crucial: o juízo não era inevitável.
I) Indivíduos e grupos que se arrependem ou se rendem (por exemplo, Raabe) são poupados.
II) A ameaça está ligada à resistência continuada e à corrupção religiosa, não à etnicidade imutável.
III) Israel, mais tarde, recebe o mesmo tipo de juízo pelos mesmos pecados (exílios assírio e babilónico).
Portanto, o princípio subjacente é coerência moral, não privilégio étnico.
6. Contexto histórico da aliança, não política universal
A conquista de Canaã é
um evento único e irrepetível na história da redenção:
I) Está ligada
ao estabelecimento de Israel na terra.
II) Não constitui um modelo para guerras
posteriores, cruzadas ou política moderna.
III) Não existe
autorização permanente para que crentes imitem esta violência.
Isto bloqueia qualquer tentativa de legitimar atrocidades posteriores com base em Josué.
7. Crianças e responsabilidade moral (dano colateral)
Quanto à questão difícil das crianças, as crianças não constituem o alvo direto do juízo divino sobre Canaã, uma vez que não são agentes moralmente responsáveis pelas práticas condenadas. A sua morte é um dano colateral trágico decorrente de um juízo coletivo contra uma sociedade profundamente corrompida. Fenómeno semelhante ocorre em contextos de juízos humanos: por exemplo, quando uma família é despejada de casa por não pagar a renda, os filhos sofrem mesmo sem culpa; quando uma empresa ilegal é encerrada, trabalhadores e dependentes inocentes sofrem consequências. Quando um país é alvo de sanções internacionais para penalizar o seu Governo, toda a população civil sofre. Assim como na vida quotidiana humana, em juízos coletivos divinos, inocentes podem ser afetados sem que isso implique punição moral direta. A alternativa seria nunca punir o culpado. Mas isso também faria dano ao inocente.
Além disso, Deus tem o conhecimento contrafactual para cada evento na terra que os homens não têm, e tem a autoridade para escolher entre os possíveis trad-offs (ou trocas compensatórias) que os homens não têm.
Assim, a morte física não é necessariamente o maior
mal possível, admitindo-se a possibilidade de misericórdia
divina para aqueles que morrem antes da plena responsabilidade moral.
O horror moral pressuposto pelos críticos depende de pressupostos materialistas sobre a morte ser o pior mal possível. Portanto, a objeção pressupõe uma cosmovisão que a Bíblia rejeita explicitamente.
8. Conclusão
A conquista
cananeia:
I) Não é
genocídio (não há ódio étnico nem extermínio racial)
II) É juízo divino contra um mal moral profundamente enraizado
III) É limitada,
condicional e historicamente específica
IV) Reflete a autoridade
moral soberana de Deus
V) Não pode
ser generalizada nem repetida por agentes humanos hoje
Em suma:
Os relatos da
conquista de Canaã não são sobre o extermínio de um povo por aquilo que ele
é, mas sobre o julgamento de uma cultura por aquilo que ela fez - sob
autoridade divina e num momento único da história da aliança.
Por outro lado, objeções morais de ateus materialistas são irracionais, pois não conseguem justificar dentro da sua cosmovisão por que razão o genocídio verdadeiro é objetivamente errado. Dado que só a existência de Deus permite fundamentar adequadamente a existência de valores morais objetivos.
