Um dos argumentos mais
comuns usados contra a fé cristã é o seguinte: “A Trindade é impossível porque
o judaísmo sempre foi estritamente unitário.”
O problema desta afirmação
é simples: o judaísmo rabínico moderno não é o mesmo judaísmo do tempo de
Jesus.
O que hoje se chama
“judaísmo normativo” é, na realidade, um desenvolvimento tardio, posterior à
destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Quando voltamos às fontes do
século I - Bíblia hebraica, literatura apocalíptica, escritos
intertestamentários e tradições judaicas antigas - o quadro é muito mais
complexo (ver abaixo).
Graças, em grande parte, a
académicos judeus, é hoje mais comum, ainda que não seja generalizado ou
universal, o reconhecimento de que doutrinas cristãs como a Trindade, a
divindade e a encarnação do Messias, a compatibilidade entre a soberania divina
e a responsabilidade humana, a natureza caída do ser humano (ou pecado
original), a expiação penal substitutiva, etc., eram ideias inegavelmente
judaicas antes, e por vezes ainda depois, da vinda de Jesus Cristo ao mundo no
século I. Durante o período rabínico que se seguiu à destruição de Jerusalém
pelos romanos em 70 d.C, estas crenças amplamente difundidas entre os judeus
foram em grande parte suprimidas, e é esta forma resultante de judaísmo que a
maioria das pessoas considera quando diz que certas doutrinas cristãs não são
"judaicas". Ao mesmo tempo, embora amplamente difundidas
anteriormente e em grande parte suprimidas posteriormente, muitas destas
crenças não conseguiram ser completamente erradicadas, e alguns judeus
resistentes ao que mais tarde se tornou a corrente dominante por vezes as reafirmam de
várias formas.
“A dicotomia clássica
entre conceitos judaicos e cristãos deve, portanto, ser refinada numa relação
dialética: antigas noções judaicas influenciaram as primeiras ideias cristãs e
foram posteriormente suprimidas pelo judaísmo rabínico. Isto explica porque é
que o cristianismo primitivo contém frequentemente temas e motivos judaicos
antigos - ainda que completamente transformados - que desapareceram no judaísmo
rabínico.”
Houtman, A., De Jong, A., & Misset-Van de Weg, M.
(Eds.). (2008). Empsychoi Logoi—Religious Innovations in Antiquity: Studies in
Honour of Pieter Willem van der Horst (Vol. 73). Brill. p. 441)
“…De acordo com muitos
académicos contemporâneos, o judaísmo rabínico não possuía uma visão simples e
indiferenciada de Deus. Os historiadores aceitam que o judaísmo na Antiguidade
apresentava uma variedade de estruturas intra-divinas... As pesquisas
históricas atuais demonstram que, durante este período, não existia um
monoteísmo judaico puro em contraste com a Trindade cristã; pelo contrário, o
judaísmo possuía também uma visão mais complexa de aspetos de Deus.”
(Alan Brill, A Jewish Trinity: Contemporary Christian
Theology through Jewish Eyes, (Fortress Press, 2025), pp. 4-5)
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Fontes judaicas do século
I
1. Pluralidade divina no
judaísmo do Segundo Templo
Diversas fontes judaicas
pré-rabínicas apresentam mais de uma figura divina ao lado de YHWH, sem que
isso fosse entendido como politeísmo.
I) O “Ancião de Dias” e o
“Filho do Homem” (Daniel 7)
Daniel 7 descreve duas
figuras entronizadas, ambas participando da autoridade divina.
“Daniel 7 apresenta uma
clara distinção entre duas figuras divinas, algo que o judaísmo posterior
tentou reinterpretar.”
(John J. Collins, Daniel (Hermeneia Commentary,
Fortress Press, 1993), p. 304)
II) O Nome, a Palavra
(Memra) e a Sabedoria
No judaísmo pré-rabínico,
atributos divinos como a Sabedoria (Hokmah) e a Palavra eram hipostasiados,
isto é, tratados como realidades pessoais.
“A Sabedoria não é apenas
uma metáfora, mas uma realidade divina distinta, participante da criação.”
(Gerhard von Rad, Wisdom in Israel (Abingdon Press,
1972), p. 144)
O Targum palestino
frequentemente substitui YHWH por Memra (a Palavra), funcionando como agente
pessoal de Deus.
“A Memra atua, fala, cria
e salva — funções divinas.”
(Martin McNamara, Targum and Testament (Eerdmans,
1972), p. 99)
2. A doutrina dos “Dois
Poderes no Céu”
O judaísmo rabínico
reconhece explicitamente que existiu uma doutrina herética chamada “dois
poderes no céu”, que precisou ser combatida.
Obra fundamental
Alan F. Segal, Two Powers in Heaven: Early Rabbinic
Reports about Christianity and Gnosticism (Brill, 1977)
Segal demonstra que:
- A doutrina não surgiu
com os cristãos
- Era uma crença judaica
antiga
- Foi posteriormente
classificada como heresia
“A crença em dois poderes
no céu era originalmente uma especulação judaica legítima.”
Segal, p. 23
“O rabinismo redefiniu os
limites do monoteísmo para excluir essas tradições.”
Segal, p. 260
3. Literatura de Enoque e
o Messias divino
I) 1 Enoque (pré-cristão)
O “Filho do Homem”:
- Preexiste
- Julga o mundo
- É entronizado
“O Filho do Homem de 1
Enoque possui atributos exclusivamente divinos.”
(George W. E. Nickelsburg, 1 Enoch 1 (Hermeneia,
Fortress Press, 2001), p. 250)
II) 4 Esdras (final do
século I)
O Messias:
- Vem do céu
- Reina eternamente
- É adorado
“A cristologia elevada
encontra paralelos diretos no judaísmo apocalíptico.”
(Larry Hurtado, Lord Jesus Christ (Eerdmans, 2003), p.
57)
4. O Espírito como realidade
pessoal no judaísmo antigo
O Espírito de Deus no
judaísmo do Segundo Templo:
- Fala
- Ensina
- Pode ser entristecido
- Atua independentemente
“O Espírito no judaísmo
antigo é muito mais do que uma força impessoal.”
(Max Turner, Power from on High (Sheffield Academic
Press, 1996), p. 38)