Hebreus é
formalmente anónimo. Ao longo dos séculos, isso alimentou muitas suposições
relativas à identidade do autor. Não há, como é óbvio, nada de errado com o
anonimato. E qualquer atribuição de autoria será sempre, em certa medida,
conjetural. Mas, com isto em mente, esta é a sugestão mais
interessante com que já me deparei:
"Muitas
figuras bíblicas são nomeadas em Hebreus (ver capítulo 11), mas, à exceção de
Jesus, a única pessoa do Novo Testamento nomeada em qualquer parte do texto é o
associado de Paulo, Timóteo (ver 13:23). Isto parece eliminar Timóteo de ser
considerado o autor, pois dificilmente se teria referido a si próprio pelo
nome. Mas será que elimina? Alguns têm sugerido que 13:22-25 é uma espécie de
breve apêndice ou pós-escrito à carta propriamente dita, que termina com a
longa bênção invocando ‘o Deus da paz - que ressuscitou dos mortos o nosso
Senhor Jesus, o grande Pastor das ovelhas’ (13:20). Nesse caso, a ‘voz’ que
pronuncia esses últimos quatro versículos pode não ser a do autor, mas a de outra
pessoa que encaminha o sermão de um colega para o seu público pretendido - ou até
para um público diferente, para o qual não fora inicialmente destinado.
Possivelmente, a razão pela qual esta segunda voz no final da carta soa a Paulo
(ver acima) é que era Paulo (conforme Trobisch 1993:320-323, embora sem
arriscar um palpite quanto à identidade do colega de Paulo). Quem quer que fosse, mencionou que ‘o nosso irmão Timóteo foi solto da prisão’ (13:23).
Porque é que Timóteo é mencionado? O autor da carta tinha acabado de pedir
oração ‘para que eu possa voltar para vós em breve’ (13:19), sugerindo que
estava impedido de alguma forma de ir vê-los. O autor dos últimos quatro versículos,
pelo contrário, não estava impedido. Estava aparentemente livre para ir vê-los a qualquer
momento, oferecendo a boa notícia de que, como Timóteo estava agora livre, ele
e Timóteo iriam vê-los logo que Timóteo se juntasse a ele. Uma explicação possível é
que Timóteo era o autor do sermão que agora estava a ser enviado como uma carta ‘aos
Hebreus’ (conforme Legg 1968:220-23). Timóteo, mais do que qualquer outro, é
nomeado como coautor (ou pelo menos co-remetente) de várias cartas de Paulo
(ver 2 Cor 1:1; Fil 1:1; Col 1:1; 1 Tes 1:1-2; 2 Tes 1:1; Flm 1:1), e é
concebível que aqui, também, possamos ter uma espécie de esforço conjunto.
Timóteo na prisão teria tido tempo de sobra para compor um longo sermão para
uma congregação específica. Isto é consistente com o interesse notável do autor
por ‘aqueles que foram lançados na prisão’ (10:34), ou ‘acorrentados em prisões’
(11:36), ou ‘na prisão’ (13:3). A ser este o caso, Paulo poderia, então, ter
tido a responsabilidade de garantir que a ‘palavra de exortação’ de Timóteo
chegasse ao seu público pretendido ou, talvez, a um público mais vasto do que o
inicialmente previsto. Enquanto se preparava para a enviar juntamente com a sua pequena nota de acompanhamento, Paulo soube que Timóteo tinha sido solto e
juntou-se a Timóteo na sua promessa de ir vê-los ‘em breve’ pessoalmente (13:19,23).
Depois, Paulo enviou saudações finais (13:24) e acrescentou à longa bênção de
Timóteo (13:20-21) uma bênção curta (e muito característica) de sua autoria: ‘A
graça de Deus esteja com todos vós’ (13:25). (Para mais discussão sobre isto,
ver comentário a 13:22-25)."
"Tudo isto é um pouco especulativo, mas oferece talvez a melhor opção para aqueles que sentem que devem anexar um nome específico a esta memorável carta ‘Deutero-Paulina’. Foi a Timóteo, afinal, que Paulo pediu que se ‘dedicasse à leitura das Escrituras à igreja, encorajando os crentes e ensinando-os’ (1 Tim 4:13). No livro de Hebreus, alguém, possivelmente Timóteo, estava a fazer exatamente isso."
Michaels, J. Ramsey. Hebrews. Cornerstone Biblical Commentary, vol. 17. Carol Stream, IL: Tyndale House Publishers, 2009, pp. 310-311.
