«Pedro disse-lhes: “Arrependei-vos e sede imersos, cada um de vós, em nome de Jesus, o Messias, com base no perdão dos pecados...” (Atos 2:38).
A preposição “para” (eis) na expressão “para o perdão dos pecados” levanta a questão da relação entre a imersão na água (o batismo) e o perdão dos pecados. Alguns interpretam a preposição como expressando propósito (o propósito do batismo é o perdão dos pecados), enquanto outros a interpretam como expressando resultado (o batismo resulta no perdão).
Uma interpretação contextualmente mais plausível adota um sentido causal (o perdão dos pecados é a causa do batismo): os judeus que tinham ouvido Pedro explicar que Jesus era o Messias crucificado, ressuscitado e exaltado e o Senhor que salva Israel nos “últimos dias” tinham-se arrependido dos seus pecados e passado a ter fé em Jesus. Caso contrário, não estariam dispostos a ser imersos em água para purificação “em nome de Jesus, o Messias”; foram imersos em água para purificação “com base no perdão dos pecados”, que tinham recebido de Jesus.»
E. Schnabel, Acts (Zondervan 2012), 164-65.
Na gramática do grego do Novo Testamento, a preposição εἰς (eis) é predominantemente usada para indicar direção, propósito ou resultado (“para”, “com vista a”). No entanto, gramáticos e lexicógrafos reconhecem que ela também pode carregar um sentido causal (“por causa de”, “com base em”).
Exemplos paralelos no Novo Testamento incluem:
Mateus 12:41: os habitantes de Nínive arrependeram-se eis to kerygma Iona — “com base na / devido à pregação de Jonas” (e não para que Jonas pregasse).
Mateus 10:41: quem recebe um profeta eis onoma prophetou — “por causa da / na qualidade de nome de profeta”.
Assim, traduzir ou interpretar εἰς em Atos 2:38 como “com base no perdão” reflete um uso gramatical válido e contextualmente fundamentado.
A leitura causal de Schnabel traz uma contribuição exegética valiosa ao demonstrar que a teologia de Lucas em Atos não condiciona a salvação a um rito exterior, mas coloca a fé e o arrependimento como a verdadeira causa do perdão. A imersão na água surge, assim, não como o meio para obter a salvação, mas como a declaração pública e o ato de purificação de quem já foi perdoado por Jesus.
Trata-se de uma leitura que harmoniza com precisão a sintaxe grega, a narrativa histórico-teológica de Atos e o ensino global do Novo Testamento de que a salvação é pela graça, mediante a fé.
Nota Complementar: O Uso Metonímico do Batismo no Contexto da Conversão
Além da análise gramatical da preposição eis, existe outro recurso hermenêutico de grande relevância para a compreensão de Atos 2:38: a metonímia (ou sinédoque), uma figura de linguagem em que a parte visível de um evento é utilizada para representar a totalidade do processo.
Na Igreja Primitiva, o arrependimento, a fé em Cristo e o batismo nas águas não eram encarados como eventos isolados ou espaçados no tempo, mas como componentes integrantes de uma única e mesma experiência de conversão:
i) A Realidade Espiritual (Invisível): O arrependimento do pecado e a fé no Messias.
ii) O Sinal Exterior (Visível): A imersão em água em nome de Jesus.
Quando o texto bíblico junta o mandato de arrepender-se e o de ser batizado, o batismo funciona como a expressão pública e externa de toda a conversão interior. Trata-se de um fenómeno comum no Novo Testamento, em que o sinal visível é mencionado para designar toda a realidade espiritual que ele representa (cf. Rm 10:13; 1Pe 3:21).
Portanto, quer se adote a interpretação gramatical causal (o batismo é realizado com base no perdão dos pecados) ou a leitura figurativa por metonímia (o batismo é a manifestação visível do evento completo da conversão), ambas as abordagens convergem para o mesmo princípio: a salvação e o perdão dos pecados ocorrem unicamente pela graça de Deus mediante a fé, sendo o batismo o seu selo e testemunho público.
