19 de abril de 2025

A ORIGEM ETIMOLÓGICA DO TERMO “PROTESTANTE”

 

Neste dia, há 496 anos, na Dieta de Speyer, seis príncipes e os representantes de 14 cidades imperiais emitem um “Protesto” formal contra a tentativa do Imperador Carlos V de suprimir o crescente movimento luterano e impor a uniformidade na religião. Defendem o direito de praticar a fé de acordo com a consciência, marcando um momento decisivo na Reforma. Desta posição ousada nasce o termo “protestante”.

O termo “protestante” está, portanto, intimamente ligado à luta pela liberdade religiosa e liberdade de consciência.

16 de abril de 2025

NICEIA II: UM CONCÍLIO ECUMÉNICO?

 

I) Ausência da Pentarquia. Apesar da alegação do Concílio de ter todos os cinco Patriarcas presentes — Roma, Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém —, Richard Price afirma que os bispos de Antioquia, Alexandria e Jerusalém não foram nem informados da convocação do Concílio, nem estiveram representados nele por legados oficiais (Price, 198–205) [1]. O autor sustenta que Niceia II reviveu a ideia da Pentarquia como forma de reforçar a própria autoridade e anular o iconoclasta Concílio de Hieria de 754, mas que isso não passou de uma miragem. No final, apenas Roma e Constantinopla marcaram presença.

II) Ausência do Ocidente. Além dos dois legados papais enviados de Roma, não havia bispos ocidentais presentes em Niceia II. Isto não se deveu à impossibilidade de comparecerem, mas sim à ausência de convite, num momento em que o poderiam ter feito: Carlos Magno estava a construir o que em breve se tornaria o Sacro Império Romano e detinha os recursos e o desejo de intervir nos assuntos da Igreja. No Concílio de Frankfurt, os teólogos carolíngios objetaram que Niceia II não tinha o direito de definir doutrina para toda a Igreja sem "investigar a opinião da Igreja sobre este assunto em cada uma das suas partes" (citado em Price, 72). Assim, com praticamente toda a metade ocidental da cristandade excluída de Niceia II, quão "ecuménico" foi ele?

III) A lenta recepção e rejeição de Niceia II. De todos os sete concílios ecuménicos, a recepção de Niceia II foi a mais lenta, tendo chegado a ser rejeitado em várias partes. No Oriente, antes da realização de Niceia II, o Concílio de Hieria de 754 — que contou com a presença de 338 bispos, mais do que qualquer uma das sessões de Niceia II (Price, 457, 685, 687) — apoiou a posição iconoclasta. Este Concílio de Hieria chegou a ser aclamado como o sétimo concílio ecuménico durante os séculos VIII e IX no Oriente. Após a realização de Niceia II, o Oriente ainda chegou a anulá-lo, sendo apenas em 843 que o "Triunfo da Ortodoxia" pôde ser declarado e o iconodulismo firmemente estabelecido [2]. 

No Ocidente, Niceia II foi rejeitado por Carlos Magno e pelos seus teólogos, que realizaram o seu próprio concílio — o Concílio de Frankfurt de 794 —, no qual assumiram uma posição intermédia, entendendo que as imagens funcionavam como os "livros dos analfabetos" [3]. Mesmo Roma não aceitou Niceia II como o sétimo concílio ecuménico até 880, e parte dessa decisão parece ter decorrido da tentativa de obter ajuda militar bizantina contra os sarracenos (Price, 75) [4]. 

Tanto no Oriente como no Ocidente, Niceia II parece ter permanecido desconhecido (ou ignorado) fora de Roma e Constantinopla. Price observa que "durante os séculos seguintes, Niceia II não foi adicionado à lista de concílios ecuménicos na Síria-Palestina" (204) e, no Ocidente, foi apenas quando partes das suas atas foram incluídas no Decretum de Graciano, por volta de 1140, que entrou para o direito canónico "convencional" (76). 

Por fim, nenhuma tradição protestante aceitou Niceia II nos seus documentos confessionais, e a maioria manteve-se hostil a parte ou a toda a teologia relativa à veneração de ícones. 

Notas:

[1] Isto poderá ter ocorrido devido à dificuldade de comunicação com estes bispos em virtude da oposição ou do controlo dos seus governantes árabes.

[2] Price observa que o Sínodo de Constantinopla de 815, que restabeleceu o iconoclasta Concílio de Hieria, obteve “aceitação imediata […] pela esmagadora maioria dos bispos, clérigos e monges” e, portanto, “podemos presumir que […] a alegação de Niceia II de que não venerar imagens constituía uma verdadeira heresia não colou” (62). Um exemplo é apontado na figura de Germano, descrito como um “iconófilo moderado” que não considerava o iconodulismo idólatra, mas que também não exigia a veneração como obrigatória (Price, 250-251).

[3] Esta era, essencialmente, também a posição de Gregório Magno. Curiosamente, isto não está muito longe da posição adotada em Hieria; como observa Price, “a principal preocupação dos iconoclastas bizantinos não era destruir imagens – e vimos que a extensão da destruição real é desconhecida –, mas sim parar a sua veneração” (18).

[4] Apesar de, conforme os comentários de Adriano na sua carta de 792 a Carlos Magno, este ter afirmado que “aceitamos este concílio” (Price, 66), tal parece constituir uma referência à respetiva aceitação meramente como um sínodo local (Price, 67, 75).

Bibliografia:

Price, Richard. The Acts of the Second Council of Nicaea (787). Liverpool University Press, 2020.

12 de abril de 2025

A OPINIÃO DE GREGÓRIO NAZIANZENO SOBRE OS CONCÍLIOS

 

Gregório de Nazianzo escreveu a seguinte carta, em 382, após ter presidido ao segundo concílio “ecuménico” [1], reunido em Constantinopla em 381, e ter abandonado tal concílio a meio:

Epístola CXXX para Procopius:

«De minha parte, para escrever a verdade, a minha inclinação é evitar todas as assembleias de bispos, porque nunca vi nenhum Concílio chegar a um bom fim, nem se tornar uma solução para os males. Pelo contrário, costuma aumentá-los. Sempre se encontra ali amor à contenda e amor ao poder (espero que não me achem desagradável por escrever assim), de forma indescritível; e, enquanto julga os outros, um homem pode muito bem ser condenado por ter cometido um erro muito antes de conseguir reprimir os erros de seus opositores. Por isso me afastei; e cheguei à conclusão de que a única segurança para a alma reside em manter o silêncio.» 

Gregório respondia a Procopius, que em nome do imperador o convocou em vão para outro sínodo. A experiência que teve um ano antes, no concílio de Constantinopla, o levou a não querer ouvir falar mais em “assembleias de bispos”.

O seu discurso, claramente, não é de alguém que acredita que os Concílios ecuménicos são infalíveis, como hoje acreditam os católicos romanos e os ortodoxos orientais nas suas visões míticas da história.

E quanto à figura do papa como autoridade suprema e universal sobre toda a igreja? É uma noção completamente ausente nesta epístola de Gregório de Nazianzo.

[1] O concílio de Constantinopla em 381 não tinha um único bispo latino, era constituído apenas por cento e cinquenta bispos gregos, e foi elevado à categoria de “ecuménico” pelo consentimento da igreja latina em meados do século seguinte.

11 de abril de 2025

JESUS ENSINANDO A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

 

«E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.» (Lucas 18:9-14)

5 de abril de 2025

O «FIAT» DE JOSÉ

 

Segundo o Catecismo da Igreja Católica:

973 Ao pronunciar o «Fiat» da Anunciação e dando o seu consentimento ao mistério da Encarnação, Maria colabora desde logo com toda a obra a realizar por seu Filho. Ela é Mãe, onde quer que Ele seja Salvador e Cabeça do Corpo Místico.

O «fiat» alude à tradução da Vulgata de Lc 1,38:

fiat mihi secundum verbum tuum

“Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Os teólogos católicos agem como se isso significasse que Deus estava a colocar à votação o plano da redenção, ao dar a Maria um poder de veto. Obviamente, a Anunciação é um anúncio do que Deus fará acontecer.

1) Há apologistas católicos que defendem que, se a concepção virginal não foi consensual, então ela foi uma violação. Isto ignora o facto elementar de que uma violação requer um ato sexual: penetração na relação sexual. Mas é evidente que a concepção virginal não envolve relações sexuais. Violação sem sexo?

2) Ainda assim, continuemos com o argumento católico, fazendo uma comparação. Em Mt 2, José recebe alguns sonhos reveladores. Eles são premonições de perigo. Os sonhos levantam implicitamente o espectro de futuros alternativos. Se José ficar em Belém, o seu pequeno filho será morto pelos sicários de Herodes. Mas ele pode evitar este resultado hipotético se fugir a tempo. Se as coisas continuarem como estão, na sua trajetória atual, Jesus terá uma morte prematura.

3) Isto levanta uma questão para os cristãos libertários: não atender ao aviso angélico era uma opção viável para José? Pense-se no que isso implicaria. Não estamos a falar aqui apenas do destino de um indivíduo isolado; o destino de toda a raça humana estaria em causa. A Encarnação seria em vão, séculos de preparação providencial seriam destruídos, e Deus teria de começar do zero. Então, aplicando a mesma lógica, por que razão o catolicismo realça o «fiat» de Maria, mas ignora o «fiat» de José? 

4) Além disso, a lógica do argumento católico estende-se a muitos outros intervenientes na história da redenção. Atente-se no chamamento de Abraão.

4 de abril de 2025

DORMINDO COM O INIMIGO

 

Arthur Lovejoy está certamente correto ao dizer que o Deus austero da metafísica aristotélico-tomista “não tem quase nada em comum com o Deus do Sermão do Monte — contudo, por um dos mais estranhos e marcantes paradoxos da história ocidental, a teologia filosófica da cristandade identificou um com o outro” (Arthur Lovejoy, The Great Chain of Being (Harvard, 1936), p. 5).

“Os ‘incrédulos’ contra cujo ‘ridículo’ [Aquino] desejava proteger a causa cristã ao não tentar oferecer provas racionais para a Trindade eram, sem dúvida, os filósofos muçulmanos e judeus, cuja abordagem ele tanto admirava e imitava. O que ele provavelmente não percebeu é que os seus argumentos para a simplicidade divina que ele adotou, e que eram o fundamento para o ‘ridículo’ deles, não tinham de forma alguma surgido num contexto neutro, mas tinham sido forjados como armas numa batalha contra a doutrina da Trindade... Ironicamente, então, Tomás aceitou como os resultados do raciocínio natural autêntico uma tradição que tinha sido formada especificamente para se opor ao teísmo trinitário no qual ele acreditava.” (Robert M. Burns, “The Divine Simplicity in St. Thomas”, Religious Studies 25/3 (1989), p. 287).