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21 de março de 2026

A APOLOGÉTICA ICONÓDULA MODERNA REAPROVEITA OS ARGUMENTOS PAGÃOS QUE OS PADRES DA IGREJA REJEITARAM

 

Muitos cristãos hoje, ao questionarem o uso de imagens em ambientes católicos ou ortodoxos, ouvem a seguinte explicação: "Nós não adoramos o objeto; nós apenas honramos a pessoa representada. A honra prestada à imagem passa para o protótipo."

Para o incauto, tal distinção apresenta-se como um refúgio intelectual seguro, uma semântica que parece resolver o conflito com o Segundo Mandamento. No entanto, o que a história da Igreja Primitiva nos revela é algo sinistro: este era exatamente o mesmo argumento usado pelos pagãos para defender os seus ídolos contra os primeiros cristãos.

Pior ainda: os Padres da Igreja não apenas conheciam este argumento, como o refutaram de antemão, considerando-o ridículo e indigno de um seguidor de Cristo.

I) O Argumento Pagão: "Não somos ignorantes, a adoração das imagens dos deuses é oferecida àqueles que elas representam"

- Celso (Século II) – O precursor do "culto relativo"

Ao contrário do que as histórias infantis sugerem, os pagãos instruídos do Império Romano não acreditavam que a estátua de mármore era o próprio deus. Em sua obra Contra Celso, o apologista cristão Orígenes cita o filósofo pagão Celso, que defendia que as imagens eram meros meios de comunicação ou símbolos das divindades celestiais. Celso é o precursor do "culto relativo": a lógica de que a adoração é oferecida "por meio" da imagem àquilo que ela "representa".

"Quem, a menos que seja totalmente tolo, acredita que estas coisas [estátuas] são deuses, e não ofertas consagradas ao serviço dos deuses, ou imagens que os representam?" (Contra Celso 7.62)

Celso argumentava que as imagens eram suportes visuais que ajudavam o devoto a se conectar com o divino. Ele zombava dos cristãos por acharem que os pagãos eram ignorantes a ponto de adorar o metal ou a pedra em si.

- Porfírio de Tiro (Século III) – As estátuas são como livros

Porfírio, um filósofo neoplatónico, usou uma analogia que é idêntica à que ouvimos hoje em sermões sobre ícones:

"Os pensamentos de uma teologia sábia - na qual os homens indicaram Deus e os poderes de Deus por meio de imagens afins aos sentidos, e esboçaram coisas invisíveis em formas visíveis - eu os mostrarei àqueles que aprenderam a ler, nas estátuas como em livros, as coisas que ali estão escritas a respeito dos deuses. Não é de se admirar que os totalmente ignorantes considerem as estátuas como madeira e pedra, assim como também aqueles que não compreendem as letras escritas olham para os monumentos como meras pedras, para as tábuas como pedaços de madeira e para os livros como papiro tecido." (Sobre as ImagensFragm. 1 Bidez (citado por Eusébio de Cesareia, Prep. Evang. III, 7,1)

Porfírio estabelece aqui a base da "honra ao protótipo". Porfírio argumentava que os sábios não veem a estátua como o próprio deus, mas como uma imagem que os leva a honrar a divindade (ou a pessoa) invisível que a estátua representa.

A defesa das imagens feita por Porfírio foi preservada por Eusébio de Cesareia na sua Praeparatio Evangelica. Eusébio a incluiu para demonstrar o "absurdo" da idolatria pagã. E, ao fazê-lo, acabou por preservar a tentativa intelectual de Porfírio de alinhar o neoplatonismo com as práticas religiosas tradicionais.

- Juliano, o Apóstata (Século IV) – A distinção técnica

O imperador Juliano, tentando restaurar o paganismo, escreveu de forma muito técnica sobre a natureza das imagens:

"Nossos pais estabeleceram imagens e altares... como símbolos da presença dos deuses, não para que considerássemos tais coisas como deuses, mas para que pudéssemos adorar os deuses através delas." (Fragmento de uma Carta a um Sacerdote)

II) A Resposta dos Padres da Igreja: Uma Rejeição Total

Se a Igreja Primitiva acreditasse na "veneração de ícones", os Padres da Igreja teriam respondido: "Sim, o vosso princípio está certo, apenas usam as imagens dos deuses errados". Mas não foi isso que eles fizeram. Eles atacaram o princípio de adoração da imagem material.

Lactâncio (c. 240 - 320): Conhecido como o "Cícero Cristão", ele foi implacável na sua crítica. Em suas Instituições Divinas, sentenciou: "Onde quer que haja uma imagem, não há religião". Para Lactâncio, o ser humano foi criado com uma postura ereta para olhar para o Alto; portanto, curvar-se diante da "terra" (a matéria da imagem) para tentar alcançar o Céu seria uma inversão da própria natureza humana, rebaixando o valor do homem espiritual ao nível do objeto inanimado.

Orígenes (c. 184 - 253): Ao responder a Celso, ele não disse que os cristãos tinham imagens "melhores". Ele afirmou categoricamente que os cristãos "não podem tolerar templos, altares ou imagens" e que preferiam morrer a "rebaixar com tamanha impiedade o conceito que temos do Deus Altíssimo." (Contra Celso 7.64)

A resposta de Orígenes foi uma negação total do princípio do “culto relativo”:

"Mas nós, por outro lado, consideramos 'não instruídos' aqueles que não se envergonham de dirigir súplicas a objetos inanimados... E embora alguns possam dizer que estes objetos não são deuses, mas apenas imitações e símbolos de divindades reais, estes mesmos indivíduos, ao imaginarem que as mãos de artesãos rudes podem moldar imitações da divindade, são desprovidos de instrução, servis e ignorantes; pois afirmamos que o mais humilde entre nós foi liberto desta ignorância e falta de discernimento... pois não é possível, ao mesmo tempo, conhecer a Deus e dirigir orações a imagens." (Contra Celso 6.14; 7.65)

Orígenes não ataca apenas os deuses pagãos; ele ataca a prática de cultuar as imagens e rezar diante delas, chamando-a de "ignorância" da qual o cristianismo veio para nos libertar.

Clemente de Alexandria (c. 150 - 215): Clemente foi um dos mais brilhantes intelectuais da Igreja primitiva e um ferrenho opositor de qualquer mediação material no culto. Para ele, a ideia de que a devoção poderia "passar" através de um objeto para chegar a Deus era uma impossibilidade lógica e espiritual. Clemente ensinava que o único "ícone" legítimo de Deus é o Logos (Cristo) e, por extensão, o ser humano que o imita. Para este Padre da Igreja, o uso de imagens não elevava a mente, mas a "rebaixava" aos sentidos, sendo um obstáculo à verdadeira contemplação espiritual. Ele não via a arte como um canal para o divino, mas como uma distração que prendia a alma à matéria morta.

"Mas as imagens, sendo imóveis, inertes e sem sentidos, são amarradas, pregadas, coladas - são fundidas, limadas, serradas, polidas, esculpidas. A terra insensível é desonrada pelos fabricantes de imagens, que a transformam por sua arte, tirando-a de sua própria natureza e induzindo os homens a adorá-la; e os fabricantes de deuses não adoram deuses e demónios, mas, a meu ver, terra e arte, que compõem as imagens. Pois, na verdade, a imagem é apenas matéria morta moldada pela mão do artesão. Nós, porém, não possuímos nenhuma imagem sensível feita de matéria sensível, mas uma imagem que é percebida apenas pela mente - Deus, que é o único que é verdadeiramente Deus." (Exortação aos Pagãos 4)

"Seria ridículo, como dizem os próprios filósofos, que o homem - o brinquedo de Deus - fizesse Deus, e que Deus fosse o brinquedo da arte; pois aquilo que é feito é igual àquilo de que é feito, assim como o que é feito de marfim é marfim, e o que é feito de ouro é ouro. Ora, as imagens e os templos construídos por artífices são feitos de matéria inerte; portanto, eles também são inertes, materiais e profanos; e mesmo que se aperfeiçoe a arte, eles partilham da aspereza artesanal. As obras de arte não podem, então, ser sagradas e divinas." (Stromata 7.5)

Arnóbio de Sica (c. 255 - 330): Arnóbio foi um retórico brilhante que, após sua conversão, dedicou-se a expor a irracionalidade do culto material. Ele é talvez o autor que mais atacou a lógica de que "adoramos o deus através da imagem". Para Arnóbio, essa distinção era uma desculpa esfarrapada: se os deuses são reais e celestiais, por que precisariam de um intermediário de barro ou metal? Ele argumentava que, ao dirigir preces a um objeto, o fiel está, na prática, depositando a sua esperança em algo sem vida. Para este Padre da Igreja, o conceito de "referente invisível" não passava de uma ilusão, pois a adoração, uma vez direcionada a um objeto físico, ficava presa à natureza morta desse mesmo objeto.

"Nós adoramos os deuses, dizeis vós, por meio de imagens. O quê então? Sem estas, os deuses não sabem que são adorados, e não pensarão que qualquer honra lhes é mostrada por vós? [...] E que maior erro, desonra ou degradação pode ser infligida do que reconhecer um deus e, no entanto, fazer súplicas a outra coisa - esperar ajuda de uma divindade e rezar a uma imagem sem sentimento?" (Contra os Pagãos 6.9)

Aristides de Atenas (c. Século II): Aristides foi um dos primeiros filósofos cristãos a apresentar uma defesa formal da fé (apologia) ao Imperador Adriano. A sua argumentação baseava-se na superioridade ética e racional do cristianismo sobre o paganismo. Para Aristides, o culto às imagens era uma prova da decadência intelectual das nações, pois representava a tentativa fútil de buscar socorro em objetos que são inferiores ao próprio homem. Ele questionava a lógica de se depositar esperança em "objetos fabricados", argumentando que, se a própria imagem é corruptível e precisa de manutenção humana, ela jamais poderia servir de ponte para o auxílio divino.

"Mas é uma maravilha, ó Rei, com relação aos gregos, que superam todos os outros povos no seu modo de vida e raciocínio, como eles se extraviaram atrás de ídolos mortos e imagens sem vida. Pois eles veem os seus deuses nas mãos de seus artífices sendo serrados, aplainados, cortados, retalhados, carbonizados, ornamentados e alterados por eles de todas as formas possíveis. E quando envelhecem e se desgastam pelo passar do tempo, e quando são fundidos e esmagados até virarem pó, como, eu me pergunto, eles não percebem a respeito deles que não são deuses? Pois, se eles não puderam salvar-se a si próprios, como podem valer aos homens na sua aflição?" (Apologia 13)

Minúcio Félix (c. Século II - III): Minúcio Félix foi um dos primeiros e mais elegantes apologistas latinos. Em sua obra Octavius, escrita em forma de diálogo entre um cristão e um pagão, ele responde à acusação de que os cristãos eram "ateus" por não possuírem templos nem estátuas. O argumento de Minúcio é profundo: ele inverte a lógica pagã ao afirmar que a invisibilidade de Deus não é uma falta de presença, mas uma prova de Sua grandiosidade. Para ele, tentar confinar Deus numa imagem feita por mãos humanas é um insulto, pois o próprio ser humano - vivo, racional e livre - é a única "imagem" que Deus autorizou na terra. Ao contrário do ídolo, que é uma redução de Deus à matéria, o cristão vê o próximo como o verdadeiro local de encontro com o divino.

"Mas pensas que escondemos o que adoramos, só porque não temos templos nem altares? Pois que imagem de Deus farei eu, se, se pensares bem, o próprio homem é a imagem de Deus? Que templo Lhe construirei, quando este mundo inteiro, moldado por Suas mãos, não pode contê-Lo?" (Octavius 32)

Agostinho de Hipona (354–430): Agostinho foi um dos maiores arquitetos do pensamento cristão ocidental. Na sua vasta obra apologética, ele enfrentou o desafio de consolidar a fé num Império Romano onde o paganismo não era apenas uma prática popular, mas também um sistema filosófico refinado. O bispo de Hipona, assim como Orígenes antes dele, refutou o argumento pagão que tentava legitimar a idolatria ao sustentar que o culto não se dirigia ao objeto material em si, mas sim à realidade invisível por ele simbolizada.

"Envergonhem-se todos os que servem a uma escultura, os que se gloriam nos ídolos! Mas avança um que se crê douto e diz: 'Eu não adoro uma pedra nem esta imagem que não tem sentimentos; porque não é possível que os vossos profetas tenham imaginado que tinham olhos e não viam, e que eu seja ignorante até ao ponto de não saber que a imagem não tem alma e não vê pelos seus olhos e não ouve pelos seus ouvidos. Eu não adoro isto; mas me inclino perante isto que vejo e sirvo àquele a quem não vejo', 'quem é este?'. 'Um poder invisível - diz ele - que radica nesta imagem'. Mediante este tipo de explicação acerca de suas imagens, pensam que são muito inteligentes e que de modo algum podem ser contados entre os adoradores de ídolos." (Comentários aos Salmos 96; 11)

III) A "Ridicularização" que não perdoa

Os apologistas primitivos, como Arnóbio e Minúcio Félix, usavam argumentos que hoje seriam considerados 'ofensivos' se aplicados às imagens sacras. Eles zombavam das estátuas, dizendo que pássaros defecavam nas suas cabeças e faziam ninhos nas suas bocas, e que os ratos e o mofo as destruíam. 

"Não vedes, finalmente, que as andorinhas, cheias de imundície, voando dentro das próprias cúpulas dos templos, lançam-se e sujam ora os próprios rostos, ora as bocas das divindades, a barba, os olhos, os narizes e todas as outras partes sobre as quais caem os seus excrementos? Envergonhai-vos, então, ainda que seja tarde, e aceitai métodos e visões verdadeiras das criaturas irracionais; deixai que estas vos ensinem que não há nada de divino em imagens, nas quais elas não temem nem hesitam em lançar coisas impuras, em obediência às leis de seu ser e guiadas por seus instintos infalíveis." (Arnóbio, Contra os Pagãos, 6:16)

"Quanto mais verdadeiramente os animais irracionais julgam, por natureza, os teus deuses? Os ratos, as andorinhas, os milhafres, sabem que eles não têm sensibilidade: roem-nos, pisam-nos, pousam sobre eles; e, a menos que os espantes, constroem os seus ninhos na própria boca do teu deus. As aranhas, aliás, tecem as suas teias sobre o seu rosto e suspendem os seus fios da sua própria cabeça. Tu limpas, lavas, raspas; tu proteges e temes aqueles que tu mesmo fazes; enquanto nenhum de vós pensa que deveria conhecer a Deus antes de O adorar; desejando, sem reflexão, obedecer aos vossos antepassados, escolhendo antes tornar-vos um acréscimo ao erro alheio do que confiar em vós mesmos, visto que nada sabeis daquilo que temeis. Assim, a avareza foi consagrada no ouro e na prata; assim se estabeleceu a forma de estátuas vazias; assim surgiu a superstição romana. E se reconsiderares os ritos destes deuses, quantas coisas são risíveis e quantas são também deploráveis!(Minúcio Félix, Octavius 24)

Ora, se os cristãos tivessem as suas próprias imagens de Cristo ou de Pedro, esse argumento seria um "tiro no pé". Os pagãos diriam: "Os vossos pássaros também sujam as vossas imagens!". O facto de os cristãos usarem essa chacota prova que eles não possuíam nenhum tipo de imagem venerável.

IV) A Grande Ironia Histórica

É uma ironia suprema que a apologética iconódula moderna use a distinção entre latria (adoração) e dulia (veneração), ou a ideia de que a honra "passa" para o protótipo, para justificar práticas que Minúcio Félix, Arnóbio, Lactâncio, Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho classificariam como "tolice infantil" ou "loucura". Para eles, essas seriam as mesmas "desculpas esfarrapadas" que os filósofos pagãos usavam para manter os seus templos cheios.

Quando um apologista moderno diz: "Eu não rezo para o gesso, rezo para o santo", ele ecoa a voz de Arnóbio... mas da parte que Arnóbio combatia.

A história é clara: a Igreja dos primeiros três séculos não apenas "não tinha" ícones; ela era teologicamente oposta à ideia de que orações ou atos de culto pudessem ser transmitidos por meio da matéria ao ser espiritual representado. Para os Padres da Igreja, Deus é espírito, e o único "ícone" legítimo de Deus na terra é o próprio ser humano transformado por Cristo.

O argumento do “culto relativo” ou "protótipo" não é uma herança apostólica; é uma capitulação aos argumentos que o paganismo usou para tentar sobreviver ao avanço do Evangelho.

20 de março de 2026

ORÍGENES E A ORAÇÃO NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

 

Orígenes, em Contra Celso 5:11, afirma que "não devemos orar a seres que, eles próprios, oram". Em 5:12, Orígenes escreve: "É errado, portanto, tentar orar a um ser que não permeia o mundo inteiro, como o sol, a lua ou uma das estrelas". Ele nos informa que "todas as orações" são oferecidas a Deus (7:51). Em resumo: "Fora com o conselho de Celso quando ele diz que 'devemos orar a demónios [anjos, sejam bons ou maus]' [1]. Não devemos dar a menor atenção a ele. Devemos orar somente ao Deus supremo, e orar, além disso, ao Logos unigénito de Deus" (8:26). Os comentários, tanto de Celso como de Orígenes, são melhor explicados se a visão cristã dominante na época fosse a de que devemos orar apenas a Deus, e não a santos ou anjos.

Para alguns comentários de académicos modernos sobre como Orígenes acreditava que se devia orar apenas a Deus, ver:

Henry Chadwick, ed., Origen: Contra Celsum (Nova York, Nova York: Cambridge University Press, 2003), n. 6 na p. 266;

Robert Bartlett, Why Can The Dead Do Such Great Things? (Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 2013), localização aproximada no Kindle 4717;

John McGuckin, ed., The Westminster Handbook To Origen (Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2004), 38; Julia Konstantinovsky, ibid., 176.

Por exemplo, McGuckin, na fonte citada acima, escreve: 

"Orígenes é claro nesta obra [Sobre a Oração] que a oração deve ser dirigida apenas a Deus Pai".

Julia Konstantinovsky, que também contribuiu para o mesmo volume, escreve: 

"Ele [Orígenes] também está muito preocupado com a questão: 'A quem se deve orar?'. No Peri Euches [Sobre a Oração], Orígenes afirma categoricamente que 'nunca devemos orar a nada gerado, nem mesmo a Cristo' (PEuch 15.1) e que é um 'pecado de ignorância' orar a Cristo (idiotiken hamartian) [2] (PEuch 16.1). Nas suas obras posteriores, no entanto, Orígenes parece ter mudado essa visão e certamente permite que a oração seja dirigida diretamente a Cristo (CCels 8.26; HomEx 13.3). De facto, ele frequentemente dirige invocações suas ao Cristo divino".

Mesmo depois que Orígenes mudou a sua visão sobre a oração a Cristo, ele continuou a condenar a oração a anjos e a outros seres criados.

Notas

[1] Demónios: No contexto de Celso (um filósofo pagão), o termo refere-se a daimones, seres intermediários que não necessariamente têm a conotação malévola do "demónio" moderno, por isso a explicação entre colchetes sobre anjos é importante.

[2] Idiotiken hamartian: Termo técnico que se refere a um erro cometido por falta de conhecimento ou por ser um "leigo" no assunto.

16 de abril de 2025

NICEIA II: UM CONCÍLIO ECUMÉNICO?

 

I) Ausência da Pentarquia. Apesar da alegação do Concílio de ter todos os cinco Patriarcas presentes — Roma, Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém —, Richard Price afirma que os bispos de Antioquia, Alexandria e Jerusalém não foram nem informados da convocação do Concílio, nem estiveram representados nele por legados oficiais (Price, 198–205) [1]. Afirma que Niceia II reviveu a ideia da Pentarquia como forma de reforçar a sua própria autoridade e anular o iconoclasta Concílio de Hieria de 754, mas que isso foi uma miragem. No final, apenas Roma e Constantinopla estavam presentes.

II) Ausência do Ocidente. Além dos dois legados papais enviados de Roma, não havia bispos ocidentais presentes em Niceia II. Isso não se deveu ao facto de não poderem comparecer, mas sim ao facto de não terem sido convidados, e isto num momento em que poderiam tê-lo feito: Carlos Magno estava a construir o que em breve se tornaria o Sacro Império Romano e tinha os recursos e o desejo de participar nos assuntos da Igreja. No Concílio de Frankfurt, os teólogos de Carlos Magno objetaram que Niceia II não tinha o direito de definir doutrina para toda a Igreja sem "investigar a opinião da Igreja sobre este assunto em cada uma das suas partes" (citado em Price, 72). Assim, com basicamente a metade ocidental da cristandade não convidada para Niceia II, quão "ecuménico" foi ele?

III) A lenta recepção e rejeição de Niceia II. De todos os sete concílios ecuménicos, a recepção de Niceia II foi a mais lenta, sendo mesmo rejeitado por alguns. No Oriente, antes da realização de Niceia II, o Concílio de Hieria de 754 — que contou com a presença de 338 bispos, mais do que qualquer uma das sessões de Niceia II (Price, 457, 685, 687) — apoiou a posição iconoclasta. Este Concílio de Hieria foi chamado o sétimo concílio ecuménico nos séculos VIII e IX no Oriente. Após Niceia II, o Oriente chegou a anulá-lo, e foi somente em 843 que o "Triunfo da Ortodoxia" pôde ser declarado, e o iconodulismo foi firmemente estabelecido [2]. No Ocidente, Niceia II foi rejeitado por Carlos Magno e seus teólogos, que realizaram o seu próprio concílio, o Concílio de Frankfurt de 794, no qual assumiram uma posição intermédia, entendendo que as imagens funcionavam como os "livros dos analfabetos" [3]. Mesmo Roma não aceitou Niceia II como o sétimo concílio ecuménico até 880, e parte da sua decisão parece ter sido uma tentativa de obter ajuda bizantina para as suas batalhas militares contra os sarracenos (Price, 75) [4]. Tanto no Oriente como no Ocidente, Niceia II parece ter permanecido desconhecido (ou ignorado) fora de Roma e Constantinopla. Price observa que "durante os séculos seguintes, Niceia II não foi adicionado à lista de concílios ecuménicos na Síria-Palestina" (204) e, no Ocidente, foi apenas quando partes de Niceia II foram incluídas no Decretum de Graciano, por volta de 1140, que ele entrou para o direito canónico "convencional" (76). Por fim, nenhuma tradição protestante aceitou Niceia II nos seus documentos oficiais, e a maioria foi hostil a parte ou a toda a sua teologia referente à veneração de ícones.

Notas:

[1] Isto pode ter ocorrido devido à dificuldade de comunicação com estes bispos devido aos seus governantes árabes.

[2] Price observa que o Sínodo de Constantinopla de 815, que restabeleceu o iconoclasta Concílio de Hieria, obteve “aceitação imediata […] pela esmagadora maioria dos bispos, clérigos e monges” e, portanto, “podemos presumir que […] a alegação de Niceia II de que a falta de veneração de imagens era uma verdadeira heresia não convenceu” (62). Germano seria um exemplo de “iconófilo moderado” que não considerava o iconodulismo idólatra, mas também não afirmava que era necessário (Price, 250-251).

[3] Esta era, essencialmente, também a posição de Gregório Magno. Curiosamente, isto não está muito longe da posição de Hieria; Price escreve: “Mas a principal preocupação dos iconoclastas bizantinos não era destruir imagens – e vimos que a extensão da destruição real é desconhecida – mas parar a sua veneração” (18).

[4] Apesar de cf. Comentários de Adriano na sua carta de 792 a Carlos Magno: “aceitamos este concílio” (Price, 66). Mas isto parece ser uma referência à sua aceitação como um sínodo local (Price, 67, 75).

Bibliografia:

Richard Price, The Acts of the Second Council of Nicaea (787) (Liverpool University Press, 2020).

9 de fevereiro de 2025

DEFENDAMOS BASÍLIO MAGNO DOS ICONÓDULOS

 

Confesso a aparência do Filho de Deus na carne, e a santa Maria como a mãe de Deus, que deu à luz segundo a carne. E eu recebo também os santos apóstolos e profetas e mártires. Suas semelhanças eu reverencio e beijo com homenagem, pois elas são transmitidas dos santos apóstolos e não são proibidas, mas, pelo contrário, pintadas em todas as nossas igrejas.” (Basílio Magno, Epístola 360).

Apesar de este texto ter sido usado no Concílio de Niceia II como argumento a favor do culto das imagens, Basílio não escreveu isto. Todos os estudiosos da área concordam que este é um texto espúrio, uma falsificação iconófila.

O que não impede que, ainda hoje, se tente passar este texto como autêntico em algumas fontes católicas ou ortodoxas pouco escrupulosas.

A linguagem da epístola 360, aparentemente endereçada a ninguém em particular, revela uma origem muito posterior ao tempo de Basílio, própria da época da controvérsia iconoclasta. Sabemos, por outras evidências da Igreja Primitiva, que pelo menos partes significativas da Igreja proibiam ícones; portanto, a afirmação de que a iconografia - descrita na referida "homenagem e beijo das imagens" - “não é proibida”, é falsa. Além disso, se a iconografia foi realmente “transmitida” desde o início e era onipresente, como a epístola afirma, por que razão Basílio declararia o óbvio? Ou seja: por que razão um cristão antigo escreveria a outro sobre uma prática cristã supostamente antiga e difundida, afirmando que ela “não era proibida”, se todos sabiam que ela não era proibida? Quando é que nós defendemos práticas cristãs antigas e difundidas, como cantar? A epístola 360 tem fortes evidências de “anacronismos” e é tão amplamente questionada que não aparece na maioria das coleções das cartas de Basílio.

The Acts of the Second Council of Nicaea (787), ed. Richard Price, Liverpool University Press 2018, p. 314.



Um outro texto presente nas atas de Niceia II (4ª Sessão) é o comentário de Basílio Magno, feito na sua obra Sobre o Espírito Santo, onde ele afirma que “a honra prestada à imagem passa para o arquétipo” (18.45.19-20). O Concílio utilizou este texto para reforçar a sua defesa sobre a veneração de imagens; mas o contexto dos comentários de Basílio era outro. Como escreve Richard Price: “O contexto era a totalidade do culto prestado a Cristo como a imagem natural do Pai; mas, retirada do seu contexto imediato, esta afirmação pode ser aplicada ao papel das imagens artísticas ou miméticas, com a mensagem de que uma imagem deve receber exatamente o mesmo grau de honra que o seu arquétipo” (45).

«A alegação iconoclasta de que a reverência para com as imagens não remontava à "época de ouro" dos Padres - e muito menos aos apóstolos - seria hoje julgada por historiadores imparciais como simplesmente correta. A visão iconófila da história do pensamento cristão e da devoção cristã era [em Niceia II] virtualmente uma negação da história».

The Acts of the Second Council of Nicaea (787), ed. Richard Price, Liverpool University Press 2018, p. 43.

18 de agosto de 2024

O PANTEÃO DA IGREJA DE ROMA

Os católicos são frequentemente acusados ​​de idolatria. Há vários motivos para isso. Um é a veneração dos santos, especialmente de Maria. Outro é a Adoração Eucarística.

Uma forma em que os católicos tentam rechaçar a acusação é traçar distinções subtis entre dulia, hiperdulia e latria.

Gostaria apenas de fazer uma breve comparação. Eu considero que a veneração dos santos é um sincretismo disfarçado: apenas substitui deuses padroeiros por santos padroeiros. Nomes diferentes, a mesma função, a mesma mentalidade.

Ora, um idólatra pagão também pode distinguir entre graus ascendentes ou descendentes de veneração. No politeísmo, o panteão tem uma hierarquia. Nem todos os deuses ou deusas são criados iguais. Existem deuses superiores e deuses inferiores.

Se alguém for um marinheiro, é melhor prestar vénias a Posídon. Mas se uma pessoa viver em terra firme, tem pouco a temer de Posídon. Ela está fora da sua jurisdição.

Ninguém quer ter a inimizade de deuses ou deusas poderosos e vingativos como Zeus, Juno e Marte. No entanto, Vénus não é muito intimidante. Da mesma forma, Vulcano não é terrivelmente ameaçador — a menos para alguém que viva na sombra do Monte Vesúvio.

No hinduísmo, um hindu piedoso normalmente se torna devoto de uma divindade em particular, como Vishnu, Shiva, Devi, Durga, Kali, Rama ou Krishna.

O meu ponto é que é fácil traçar paralelos entre a devoção pagã e a devoção católica a este respeito. Tanto católicos quanto pagãos têm uma gradação no grau de veneração que concedem à numina. Desenhar distinções refinadas não protege o catolicismo da acusação de idolatria, pois os pagãos podem e fazem a mesma coisa em relação à hierarquia divina.

10 de outubro de 2021

Celso, o Pagão vs. Orígenes, o Cristão

 

Celso, o Pagão, nota que Cristãos e Judeus não têm imagens religiosas, mostrando que nisto eles são bárbaros:

"Eles não toleram templos, altares ou imagens. Nisto eles são como os Citas, as tribos nomádicas da Líbia, os Seres que não cultuam deuses e algumas das mais bárbaras e ímpias nações do mundo" (Contra Celso, Livro 7, Cap. 62)

Orígenes, o Cristão, responde explicando que, apesar desses povos não terem imagens, a razão de ser destes é distinta da razão dos Judeus e dos Cristãos:

"Os Citas, os Líbios nomádicos, os Seres ateístas e os Persas todos concordam nisto com Judeus e Cristãos, mas eles são motivados por princípios diferentes. Porque nenhum dos primeiros abomina altares e imagens com base no seu medo de degradar o culto a Deus e reduzi-lo ao culto de coisas materiais feitas pelas mãos de homens. Nem eles se opõe a elas pela crença de que demónios tomam formas e lugares [...]. Mas os Cristãos e Judeus estimam este mandamento: 'Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele servirás' e ainda 'Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás a elas, nem as servirás' e novamente 'Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele servirás'. É por consideração destes e de muitos outros mandamentos que nós não apenas evitamos templos, altares e imagens, mas estamos dispostos a enfrentar a morte se necessário, em vez de rebaixar com tamanha impiedade o conceito que temos do Deus Altíssimo" (Contra Celso, Livro 7, Cap. 64).

18 de maio de 2021

A arte como camuflagem

 

O interior das igrejas reformadas/evangélicas é tradicionalmente espartano. A simplicidade e ausência de luxos é uma das suas imagens de marca. Quem está acostumado a isso e entra numa catedral gótica ou numa basílica bizantina pela primeira vez pode ter um choque. O contraste é avassalador.

Esse impacto pode ter consequências diferentes em pessoas diferentes. Alguém com uma fé principalmente intelectual e teórica, que adere ao cristianismo pelo sentido estético da coisa, pode ficar fascinado e sentir-se atraído por toda a parafernália artística dessas igrejas. Essa é uma das razões pelas quais é um erro os evangélicos serem gratuitamente espartanos quando se trata de serviço de culto. Isso convida ao abandono de certas pessoas. 

Não estou a apelar para a ostentação nem para encher as igrejas com imagens ou pinturas. Isso certamente não seria boa arte, mas mau gosto disfarçado de piedade. Nada pior do que igrejas que mais parecem lojas de bugigangas. Porém, não custa nada ter um maior cuidado com os espaços do culto, a seleção da música sacra, a reverência no culto etc.

Mas a arte majestosa pode ser vista por um prisma diferente: é uma ótima maneira de camuflar o vazio. Se não se tem nada, faz-se com que pareça que há alguma coisa por meio de elementos externos. Se o vinho é apenas vinho, isso é disfarçado usando um cálice esplendoroso. Se a hóstia é apenas um pedaço de pão seco, dissimula-se isso colocando-a dentro de um tabernáculo magnificente, num altar magnificente, com muitos outros adornos cintilantes. Se o sacerdote na verdade não tem poderes transformativos, mas é apenas um homem como outro qualquer, mascara-se isso envolvendo-o com vestes extravagantes. Quanto menos se tem, mais se tem que compensar.

Os elementos externos, a sobrecarga sensorial, desviam a atenção do facto de que não há nada ali. Camadas sobre camadas para esconder o vazio no âmago. Arrebatar os sentidos é uma tática sagaz para desarmar as faculdades críticas.

Ou, para colocar isso ao contrário, se realmente houvesse alguma coisa ali, algo manifestamente sobrenatural, então toda a arte vistosa, arquitetura, música, ouro e brocado seria desnecessário. Na verdade, se realmente houvesse algo ali, todos os embrulhos faustosos o obscureceriam.

14 de outubro de 2017

A VITÓRIA DO PAGANISMO SOBRE A IGREJA


J.B. Bury, célebre historiador e académico classicista, afirma:

"Em cem anos o Império transformara-se de um estado em que a imensa maioria dos habitantes era devotada a religiões pagãs, num em que um Imperador podia dizer, com grande exagero, mas sem absurdo manifesto, que não sobreviveu um pagão. Tal mudança não se concretizou pela mera proibição e repressão. Não é exagero afirmar que o sucesso da Igreja na conversão do mundo gentio nos séculos IV e V foi devido a um processo que pode ser descrito como uma transmutação pagã do próprio Cristianismo. Se as crenças Cristãs e o culto tivessem sido mantidos inalterados na simplicidade inicial do seu espírito e forma, pode muito bem questionar-se se um período muito mais longo teria sido suficiente para cristianizar o Império Romano. Mas a Igreja permitiu um compromisso. Todas as religiões da época tinham em comum uma bruta superstição, e a Igreja não encontrou nenhuma dificuldade em oferecer aos convertidos crenças e cultos semelhantes àqueles a que eles estavam acostumados. Foi um problema relativamente pequeno que incenso, velas e flores, os acessórios de vários cerimoniais pagãos, fossem introduzidos no culto Cristão. Foi uma jogada importante e feliz para incentivar a introdução de um politeísmo disfarçado. Uma legião de santos e mártires substituiu a antiga legião de deuses e heróis, e o pagão hesitante podia gradualmente reconciliar-se com uma religião, a qual, enquanto lhe roubou a sua divindade protetora, a quem estigmatizou como um demónio, permitiu-lhe em compensação o culto de um santo protetor. Uma nova e banal mitologia foi criada, de santos e mártires, muitos deles fictícios; os seus corpos e relíquias, capazes de operar milagres como os que costumavam acontecer junto dos túmulos dos heróis, estavam constantemente a ser descobertos. O devoto de Atena ou Isis podia transferir o seu tributo para a Virgem Mãe. O marinheiro ou pescador Grego, que costumava orar a Poseidon, podia invocar São Nicolau. Aqueles que cultuavam em altares de pedra de Apolo no topo de colinas podiam demonstrar a mesma fidelidade a São Elias. O calendário dos aniversários Cristãos correspondia em muitos pontos aos calendários dos festivais Gregos e Romanos. As pessoas podiam mais facilmente aceitar a perda das celebrações pagãs relacionadas com o solstício de inverno e o equinócio vernal, quando encontravam as alegres celebrações da Natividade e da ressurreição associadas com essas épocas, e podiam transferir alguns dos seus antigos costumes para as novas festas. A data da Natividade foi fixada para coincidir com o aniversário de Mitra (natalis Invicti, 25 de dezembro), cuja religião tinha muitas afinidades com o Cristão. Este processo não foi o resultado, em primeira instância, de uma política deliberada. Foi um desenvolvimento natural, pois o Cristianismo não podia escapar da influência das ideias que eram correntes no seu ambiente. Mas ele foi promovido pelos homens de posição e liderança na Igreja."

(J.B. Bury, History of the Later Roman Empire, Macmillan & Co., Ltd, Vol. I Cap. XI, pg. 373)


http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/BURLAT/11*.html#3

9 de abril de 2014

KALLISTOS WARE SOBRE O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO CULTO AOS ÍCONES


Kallistos Ware, um dos mais conhecidos teólogos ortodoxos orientais contemporâneos, confirma que o culto aos ícones é uma tradição pós-constantiniana, de origem pagã.

«Foi somente em passos lentos que o uso de ícones tornou-se estabelecido na Igreja. Reagindo contra o seu ambiente pagão, os primeiros cristãos estavam ansiosos por enfatizar acima de tudo o caráter exclusivamente espiritual do seu culto, e procuraram evitar qualquer coisa que pudesse ter sabor de idolatria: "Deus é Espírito, e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade" (João 4:24). A arte cristã primitiva - como encontrada, por exemplo, nas catacumbas romanas - mostra uma certa relutância em retratar Cristo diretamente, e Ele era na maioria das vezes representado de forma simbólica, como o Bom Pastor, ou como Orfeu com a sua lira, ou afins. Com a conversão de Constantino e o progressivo desaparecimento do paganismo, a Igreja tornou-se menos hesitante no uso da arte, e por volta do ano 400 dC tornou-se uma prática aceite representar nosso Senhor não somente através de símbolos mas diretamente. Nesta data, no entanto, ainda não existe nenhuma evidência que sugira que as imagens na igreja eram veneradas ou honradas com quaisquer expressões exteriores de devoção. Elas não eram neste período objetos de culto, mas o seu propósito era decorativo e instrutivo.

Mesmo nesta forma restrita, no entanto, o uso de ícones despertou protestos por parte de alguns escritores do século IV, em particular Eusébio de Cesareia (†339), cujas objeções podem ser encontradas na sua carta a Constantia Augusta, a irmã de Imperador Constantino. Eusébio defendeu que um ícone deve representar necessariamente a imagem "histórica" ​​de Cristo, a "forma" da Sua humilhação; esta, no entanto, foi suplantada, uma vez que a humanidade de Cristo foi assumida na glória divina e agora existe num estado que não pode ser representada em pinturas e cores. Um ícone pintado de Cristo, concluiu, é tanto desnecessário como enganador. …

O primeiro tipo de ícone que recebeu veneração não era religioso, mas secular - o retrato do imperador. Este era considerado como uma extensão da presença imperial, e as honras que eram mostradas ao imperador em pessoa eram prestadas também ao seu ícone. Incenso e velas eram queimados diante dele, e como um sinal de respeito os homens inclinavam-se até ao chão perante ele, tal prostração era normalmente descrita pelo termo proskynesis [1]. Este culto da imagem imperial remonta aos tempos pagãos: com a conversão do imperador ao Cristianismo ele foi prontamente aceite pelos cristãos, e não houve qualquer objeção levantada por parte das autoridades eclesiásticas.

Se os homens dispensam tal respeito à imagem do governante terreno, não devem mostrar igual reverência à imagem de Cristo o Rei celestial? Foi uma inferência óbvia e natural, mas não foi uma inferência que foi feita de uma só vez. Na verdade, proskynesis foi mostrado para com as relíquias dos santos e da Cruz antes de começar a ser mostrado para com o ícone de Cristo. Foi só no período seguinte a Justiniano - durante os anos 550-650 - que a veneração dos ícones em igrejas e casas particulares tornou-se aceite na vida devocional dos cristãos orientais. Pelos anos 650-700 foram feitas as primeiras tentativas por escritores cristãos de fornecer uma base doutrinal para este crescente culto de ícones e de formular uma teologia cristã da arte. De particular interesse é a obra, que sobrevive apenas em fragmentos, de Leôncio de Neápolis (em Chipre), rebatendo críticas judaicas.

A veneração dos ícones não foi aceite em todos os lugares sem oposição. No final do século VI foram feitos protestos em extremos geográficos distantes, em ambos os casos fora dos limites do Império Bizantino - a Ocidente, em Marselha, e a Oriente, na Arménia».

(Extraído de “Christian Theology in the East,” in A History of Christian Doctrine, editado por Hubert Cunliffe-Jones [Philadelphia: Fortress Press, 1980], pp. 191-92)

Poderia pensar-se que o rio da tradição apostólica, se existisse, seria mais límpido e transparente perto da origem. No entanto, em relação à veneração de imagens observa-se exatamente o contrário: rejeição unânime nos padres sub-apostólicos e durante os primeiros séculos; controvérsias a partir do século V e, por fim, o que era uma abominação transforma-se na "ortodoxia" em finais do século VIII.

Cada um deve pois decidir se opta pelas Escrituras e pela tradição unânime dos quatro primeiros séculos ou pelos costumes pagãos e pelas elucubrações dos filósofos às quais é habitual recorrer neste assunto para demonstrar o indemonstrável e justificar o injustificável.


Nota do tradutor

[1] O Concílio II de Niceia (787), enquanto reserva para Deus a latria, usa este termo proskynesis para o culto aos ícones. Em contraste, a maioria das 60 vezes que o verbo proskyneô aparece no Novo Testamento, corresponde à honra devida a Deus. Igualmente o termo “adorador” (grego proskynêtês) foi usado pelo Senhor para referir-se ao culto devido só a Deus: João 4:23.

2 de dezembro de 2013

AGOSTINHO DE HIPONA CONTRA AS ORAÇÕES DIRIGIDAS AOS MORTOS E AOS ANJOS

 
Agostinho (354-430): De modo que o bom servo, como eu disse, que já pode ser chamado um filho, não deseja que ele mesmo, mas que o seu senhor seja venerado. Pensai um pouco, irmãos e irmãs, e recordai o que assistis todos os dias; o que é realmente vos ensinado na igreja? Os fiéis sabem em que estilo os mártires são comemorados nos mistérios, quando os nossos desejos e orações são dirigidas a Deus.
 
John E. Rotelle, O.S.A., ed., The Works of Saint Augustine, Newly Discovered Sermons, Part 3, Vol. 11, trans. Edmund Hill, O.P., Sermon 198.12 (Hyde Park: New City Press, 1997), p. 190.
 
Agostinho (354-430): E pode a sua própria oração ser considerada pecaminosa. Isto acontece porque nenhuma oração pode ser justa se não for oferecida através de Cristo, a quem Judas vendeu pelo seu pecado monstruoso. Uma oração feita de outra maneira que não através de Cristo não é meramente impotente para apagar o pecado; ela mesma se torna pecado.
 
John E. Rotelle, O.S.A., ed., The Works of Saint Augustine, Part 3, Vol. 19, trans. Maria Boulding, O.S.B., Expositions of the Psalms, Psalms 99-120, Exposition of Psalm 108.9 (Psalm 109) (Hyde Park: New City Press, 2003), p. 247.
 
Texto latino: Et oratio ejus fiat in peccatum. Quoniam non est justa oratio, nisi per Christum, quem vendidit immanitate peccati: oratio autem quae non fit per Christum, non solum non potest delere peccatum, sed etiam ipsa fit in peccatum. Ver In Psalmum CVIII Enarratio, §9, PL 37:1436.
 
Além disso, ao contrário de Roma, Agostinho também ensinou contra a invocação de anjos ...
 
Agostinho (354-430): Se alguém lhe disser: "Invoque o anjo Gabriel desta forma, invoque Miguel dessa outra; ofereça este pequeno ritual antigo, ou este mais moderno"; não se deixe levar, não concorde. E não se deixe enganar por ele só porque os nomes desses anjos podem ser lidos nas escrituras; observe antes qual o papel dos anjos que lá pode ser lido, se eles alguma vez exigiram de algum homem qualquer tipo de veneração religiosa pessoal para eles próprios, ou em vez disso sempre desejaram que a glória fosse dada ao único Deus, a quem eles obedecem.
 
John E. Rotelle, O.S.A., ed., The Works of Saint Augustine, Newly Discovered Sermons, Part 3, Vol. 11, trans. Edmund Hill, O.P., Sermon 198.47 (Hyde Park: New City Press, 1997), p. 217.
 
Portanto, segundo Agostinho de Hipona, as orações devem ser dirigidas somente a Deus através de Cristo.
 
A intercessão dos crentes defuntos pelos crentes vivos carece de fundamento bíblico. Nas Escrituras, os que acabaram a carreira são nos apresentados como exemplos e testemunhas através das suas vidas, não como intercessores depois da sua morte. Na verdade, não há uma só passagem bíblica na qual se peça alguma coisa a Deus pelos méritos de qualquer outro ser humano que não seja Jesus Cristo.
 
Além disso, as Escrituras proíbem como uma abominação qualquer tipo de comunicação com os mortos.
 
No seu Manual de Teologia Dogmática, Ludwig Ott diz:

"A Sagrada Escritura não conhece ainda o culto e invocação aos santos..."
 
Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. Ed. Rev. Barcelona: Herder, 1968, p. 477).
 
A doutrina da invocação dos méritos dos "santos", certamente também não é uma tradição autenticamente apostólica conservada pela Igreja de Roma.
 
Não há evidência de que a Igreja Católica antiga, durante pelo menos os primeiros cinco séculos, ensinasse a recorrer aos méritos dos santos defuntos, e à sua intercessão para conseguir favores de Deus.
 
A comunhão dos santos é uma realidade que nada tem a ver com a doutrina extra-bíblica da invocação dos méritos dos "santos". A Bíblia chama santos a todos os crentes, não àqueles destacados em particular como tais pela Igreja de Roma.
 
Os únicos méritos que podemos invocar são os do único homem perfeito, nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo homem. Tudo o resto é não somente supérfluo mas blasfemo. Implicaria que se tem que complementar ou aperfeiçoar a obra do Senhor na cruz com os supostos méritos dos membros do santoral romano.
 
Na verdade, se analisarmos a bem-aventurada Maria e todos os santos que povoam o nutrido santoral católico:
 
- Encontraremos algum mais misericordioso do que Deus?
 
- Haverá algum mais poderoso do que Deus?
 
- Alguns deles poderiam amar-nos mais do que nos ama Deus?
 
- Sabe algum deles o que na verdade nos convém, melhor do que Deus?
 
- Possuiria algum a capacidade de escutar e responder a todas as orações como Deus?
 
São, evidentemente, perguntas retóricas que devem ser respondidas negativamente.

Então, que sentido tem orar a pessoas que talvez estejam no céu, mas que não são tão misericordiosas, nem tão poderosas, nem tão amorosas, nem tão sábias como Deus?
 
Em resumo, a doutrina da invocação dos méritos dos santos carece de qualquer prova bíblica, patrística e histórica. Além disso, por cada minuto que se ora a um santo é um minuto que se perde de oração ao Deus vivo e verdadeiro.

16 de março de 2013

OS PADRES DA IGREJA E O CULTO ÀS IMAGENS


A Igreja de Roma, assim como as Orientais, dizem dar importância à tradição.
No entanto, ao que parece, veneram a tradição com os lábios, mas só a têm em conta quando lhes convém.
Eis aqui um caso onde a tradição e o consenso dos padres dizem uma coisa, e as Igrejas romana e orientais dizem o contrário. Pelo que, demonstram ser elas a sua própria autoridade, e não as Escrituras, nem a autêntica tradição primitiva.
Ireneu de Lyon diz: “Como a Igreja recebeu liberalmente do Senhor, assim liberalmente ministra e nada pede. Nada faz pela evocação dos anjos, nem por encantamentos e outras perversas artes curiosas, mas dirigindo as suas orações num espírito puro, sincero e direto ao Senhor, de quem são todas as coisas, e invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ela foi acostumada a operar milagres em benefício dos homens, e não para levá-los ao erro (Adv Haer, II,32,5).

E ainda: “Denominam-se Gnósticos. Eles também possuem imagens, algumas delas pintadas, e outras formadas a partir de diferentes tipos de materiais; e afirmam que uma imagem de Cristo foi feita por Pilatos no tempo em que Jesus viveu entre eles. E coroam estas imagens e as expõem com as imagens dos filósofos do mundo, a saber, com as imagens de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e de outros. Eles têm também outras formas de honrar estas imagens, precisamente como os pagãos” (Adv Haer, I, 25,6).

Clemente de Alexandria sentencia: “É uma tolice extrema rogar como deuses àqueles que não são deuses, porque há um só bom Deus; nós e os anjos suplicamos unicamente a Ele” (Stromata, v.4, MG 11, 1185). E noutro lugar: “Toda imagem ou estátua deve chamar-se ídolo porque não é outra coisa que matéria vil e profana, e por isso Deus, para arrancar pela raiz a idolatria, proibiu em seu culto qualquer imagem ou semelhança das coisas que estão no céu ou na terra, proibindo igualmente a sua fabricação; e é por isto que nós os cristãos não temos nenhuma daquelas representações materiais”.
Orígenes o célebre escritor e teólogo do século III, diz em Contra Celso: “Os anjos seguem com interesse a tua salvação. Foram dados como ajudadores do Filho de Deus; mas toda a oração que se dirija a Deus, seja rogativa ou em ação de graças, deve elevar-se para Ele por Cristo, o Sumo Sacerdote, que está sobre todos os anjos...os homens não conhecem os anjos e, portanto, não é razoável que se dirijam a eles em vez de dirigir-se a Cristo, a quem conhecem. Ainda que tivéssemos o conhecimento deles, não nos seria permitido dirigir nossas orações a nenhum outro ser senão a Deus, o Senhor de toda a criação, que é suficiente para todos, e vamos também a Ele por nosso Salvador, o Filho de Deus”. E também: “São os mais ignorantes que não se envergonham de dirigir-se a objetos sem vida ... e ainda que alguns possam dizer que estes objetos não são deuses mas tão-só imitações deles e símbolos, contudo se necessita ser ignorante e escravo para supor que as mãos vis de uns artesãos possam modelar a semelhança da Divindade; vos asseguramos que o mais humilde dos nossos se vê livre de tamanha ignorância e falta de discernimento” (Contra Celso, 6:14).

E noutro lugar: “Nenhum de nós confie no seu pai justo, na sua santa mãe, nos seus castos irmãos. Bem-aventurado o homem que põe a sua esperança em si mesmo e no caminho reto. Aos que confiam nos santos direi como admoestação: “Maldito o varão que confia no homem” (Jeremias 17:5), e: “Melhor é esperar em YHVH que esperar no homem” (Salmos 118:8). Se fosse necessário confiar-nos a alguém, deixemos todos os outros e confiemos no Senhor” (Ezequiel 17. Homilia IV, MG 13, 702-703).

Lactâncio escreveu: “É indubitável que onde quer que há uma imagem não há religião. Porque se a religião consiste de coisas divinas, e não há nada divino a não ser nas coisas celestiais, segue-se que as imagens se acham fora da esfera da religião, porque não pode haver nada de celestial no que se faz da terra ... não há religião nas imagens, mas uma simples imitação de religião” (Instituições Divinas 2:19).
Cipriano declara: “Para quê prostrar-se diante das imagens? Eleva os teus olhos ao céu e o teu coração; aí é onde deves buscar a Deus” (Ad Demetr. Pág.191).
Agostinho de Hipona afirmou: “Que não seja a nossa religião o culto das obras feitas por mão de homem...que não seja a nossa religião o culto dos animais. Pois são melhores que elas os mais ínfimos homens aos quais, no entanto, não devemos prestar culto. Que não seja a nossa religião o culto dos defuntos, porque se viviam uma vida santa, é impossível crer que desejem tais honras, antes desejam que demos o nosso culto Àquele a quem devemos ser participantes com eles da salvação. Portanto, temos que prestar-lhes honra imitando-os, e não prestando-lhes culto religioso” (De vera Rel., LV, 108; ML 24,169).
E também...
“A única imagem que nós devemos fazer de Cristo é ter sempre presente a sua humildade, a sua paciência, a sua bondade, e esforçar-nos para que a nossa vida em tudo se pareça à sua. Aqueles que andam em busca de Jesus e dos seus apóstolos pintados nas paredes, longe de conformar-se com as Escrituras, caem no erro” (De consens. Evang., Lib.1, cap.10).
Jerónimo relata-nos uma carta de Epifânio na qual este santo narra: “Num sítio da aldeia que eu visitei, achei pendurado na porta da igreja um véu sobre o qual se encontrava pintada a imagem de Cristo, e outra de um santo, e nem vi bem quem, contra a Sagrada Escritura, a imagem de um homem estava pendurada na igreja de Cristo, eu rasguei aquele véu, aconselhando o sacristão que o usasse antes para a sepultura de algum pobre” (Obras de São Jerónimo, tomo II, carta 52).
Eusébio de Cesareia diz: “Que lhe repugna só a ideia de que possa haver pinturas nos lugares destinados ao culto” (Eusébio, Epístola a Constância Augusta).

O culto às imagens defendido hoje pelas Igrejas romana e orientais é, simplesmente, o resultado do sincretismo entre o cristianismo e as culturas pagãs grega e romana, ocorrido depois do cristianismo se ter tornado a religião do Império.
Nenhum autor cristão ortodoxo, dos primeiros quatro séculos da Igreja, inculcou, promoveu ou defendeu o culto às imagens. Observam-se, a partir do século V, controvérsias e, por fim, o que era uma abominação transforma-se na "ortodoxia" em finais do século VIII.