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6 de maio de 2026

A ASSUNÇÃO DE MARIA EM FONTES TARDIAS

 

Tal como as fontes pré-nicenas, escritores de séculos posteriores frequentemente discutem temas como assunções corporais e o que aconteceu a homens como Enoque e Elias sem mencionar a assunção corporal de Maria (Constituições Apostólicas, 5:7; Cirilo de Jerusalém, Leituras Catequéticas, 3:6; João Crisóstomo, Homilias sobre João, 75; Jerónimo, Contra João de Jerusalém, 29, 32; etc.). Um adversário de Agostinho resumiu as crenças deste sobre o assunto:

"Além disso, não é apenas Elias, mas Moisés e Enoque que acreditas serem imortais, e terem sido levados com os seus corpos para o céu." (citado em Agostinho, Resposta a Fausto, o Maniqueu, 26:1)

Por que nenhuma menção a Maria? Noutra ocasião, Agostinho menciona que as pessoas por vezes perguntam para onde iriam os humanos que foram removidos corporalmente da terra (Sobre a Graça de Cristo e sobre o Pecado Original, 2:27). Ele menciona que as pessoas perguntam sobre Enoque, Elias e Paulo, mas, uma vez mais, Maria não é mencionada. O mesmo acontece com João Crisóstomo quando discute a mesma questão abordada por Agostinho (Homilias sobre Hebreus, 22).

Epifânio, um bispo dos séculos IV e V, escreve sobre como ninguém sabe o que aconteceu no fim da vida de Maria. O estudioso católico romano Michael O'Carroll comenta:

"Numa passagem posterior, ele [Epifânio] diz que ela [Maria] pode ter morrido e sido sepultada, ou ter sido morta — como mártir. 'Ou ela permaneceu viva, pois nada é impossível para Deus e Ele pode fazer tudo o que deseja; pois o seu fim ninguém conhece.'... Um palestino com oportunidade para alguma investigação, não fala de uma ressurreição corporal e não se compromete quanto à forma como a vida de Maria terminou. Ele em lugar algum nega a Assunção, nem admite a possibilidade da Assunção sem morte, pois não encontrou sinal de morte ou sepultamento. Ele sugere várias hipóteses diferentes e não tira nenhuma conclusão firme." (Theotokos [Wilmington, Delaware: Michael Glazier, Inc., 1988], p. 135)

Deve-se notar que os apologistas católicos romanos, por vezes, deturpam o pensamento de Epifânio sobre este assunto. Alguns afirmam que, ao dizer que ninguém conhece o fim de Maria, Epifânio estaria apenas a admitir a dúvida sobre se ela morreu antes de ser assunta, e não sobre o facto da assunção em si. Contudo, Epifânio refere-se ao fim da vida de Maria de forma abrangente. Ele não limita os seus comentários à questão da morte; pelo contrário, menciona a possibilidade de ela ter sido tirada da terra, discute se teria viajado com o apóstolo João ou se teria sido sepultada. Portanto, Epifânio nega que alguém conheça o desfecho da vida de Maria, contrariando precisamente o que a Igreja Católica Romana afirma saber hoje.

Aqui estão alguns comentários sobre a história desta doutrina:

"Ela [a assunção de Maria] assenta, no entanto, numa base puramente apócrifa. O silêncio total dos apóstolos e dos mestres da igreja primitiva relativamente à partida de Maria despertou a curiosidade ociosa para todo o tipo de invenções, até que lhe foi atribuído um traslado como o de Enoque e Elias. No tempo de Orígenes, alguns inferiam de Lucas 2:35 que ela teria sofrido o martírio. Epifânio não decide se ela morreu e foi sepultada, ou não. Dois escritos gregos apócrifos De Transitu Mariae, do final do século IV ou início do século V, e depois o pseudo-Dionísio, o Areopagita, e Gregório de Tours (†595), contêm pela primeira vez a lenda de que a alma da mãe de Deus foi transportada para o paraíso celestial por Cristo e Seus anjos na presença de todos os apóstolos, e na manhã seguinte o seu corpo também foi transladado para lá numa nuvem e ali unido à alma. Posteriormente, a lenda foi ainda mais embelezada e, além dos apóstolos, os anjos e patriarcas também, até Adão e Eva, foram feitos testemunhas do maravilhoso espetáculo." (Philip Schaff, History of the Christian Church (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), vol. 3, cap. VII, § 83)

"A abordagem de Epifânio sugere fortemente a ausência de uma tradição fixada sobre o destino final de Maria.... Isidoro de Sevilha (m. 636) quebra o silêncio geral, mas apenas para atestar uma profunda ignorância sobre a forma como Maria deixou esta terra. Um século depois, o inglês Beda confessou a sua ignorância sobre a disposição final do corpo de Maria." (Everett Ferguson, editor, Encyclopedia Of Early Christianity [New York: Garland Publishing, Inc., 1999], pp. 134-135)

"A génese dos relatos [apócrifos] do Transitus Mariae não é clara. Eles originaram-se aparentemente antes do final do século V, talvez no Egito ou na Síria, como consequência do estímulo dado à devoção mariana pela definição de Maria como 'mãe de Deus' no Concílio de Éfeso (431). Existem pelo menos duas dezenas de tais relatos em copta, grego, latim, siríaco, árabe, etíope e arménio. Todos relatam a morte de Maria. Todos postulam algum tipo de intervenção divina: um traslado do corpo de Maria para um paraíso presumivelmente terrestre, onde é preservado incorrupto sob a Árvore da Vida; ou uma assunção genuína, uma reunião de alma e corpo que implica a entrada de Maria no céu.... Os relatos mais antigos exerceram uma influência percetível no estabelecimento da festa oriental da Dormição ou da Migração da Mãe de Deus.... O primeiro testemunho expresso de uma assunção genuína ocorre no apócrifo Transitus do Pseudo-Melitão (possivelmente do século VI)." (Everett Ferguson, editor, Encyclopedia Of Early Christianity, pp. 134-135)

"Como relatos históricos, a literatura do Transitus [onde o conceito de uma assunção corporal de Maria é mencionado pela primeira vez] não tem valor." (Everett Ferguson, editor, Encyclopedia Of Early Christianity, p. 134)

"Com este pano de fundo, não é surpreendente encontrar os primeiros oradores na festa de 15 de agosto, no Ocidente, consistentemente cautelosos em pronunciarem-se sobre a ressurreição corporal de Maria; nem é surpreendente encontrar em Espanha, ao findar o século VIII, alguns asturianos a negar a assunção de Maria (talvez os primeiros a fazê-lo); nem surpreende ver desenvolver-se, no século IX, ao lado da tradição favorável a uma assunção representada pelo Pseudo-Agostinho, outra corrente de pensamento representada pelo Pseudo-Jerónimo e hostil, se não à doutrina, pelo menos à sua afirmação inequívoca como algo obrigatório." (Everett Ferguson, editor, Encyclopedia Of Early Christianity, p. 135)

"Hoje é geralmente aceite que a crença [na Assunção de Maria] era desconhecida nos primeiros tempos da Igreja. Santo Ambrósio (Exposit. Evan. sec. Luc. 2. 35; PL 15. 1574) e Santo Epifânio (Haer. 79. 11; PG 42. 716) aparentemente ainda a ignoravam. Encontra-se pela primeira vez em certos apócrifos do NT que datam do final do século IV em diante, alguns deles de tendência gnóstica.... Parece que uma dessas obras foi condenada no Decretum Gelasianum, embora a condenação possa ter sido dirigida contra os seus ensinamentos gnósticos e não especificamente contra a doutrina da assunção corporal. Uma homilia atribuída na maioria dos manuscritos a Timóteo de Jerusalém (provavelmente séc. IV-V) pode implicar a crença alternativa de que a BVM foi assunta em corpo e alma durante a sua vida natural. A doutrina da assunção corporal foi formulada pela primeira vez em círculos ortodoxos no Ocidente por São Gregório de Tours (m. 594), que aceitou como histórico o relato atribuído [falsamente] em manuscritos a Melitão." (F.L. Cross e E.A. Livingstone, editores, The Oxford Dictionary Of The Christian Church [New York: Oxford University Press, 1997], p. 117)

"A doutrina emergiu pela primeira vez em vários apócrifos do Novo Testamento do século IV e, com base numa passagem no pseudo-Dionísio, tornou-se aceite nos círculos ortodoxos por volta do século VII. Finalmente, em 1950, o Papa Pio XII, no decreto Munificentissimus Deus, definiu-a como um dogma divinamente revelado, fazendo afirmações que têm pouco apoio histórico: 'Esta verdade baseia-se na Sagrada Escritura,... recebeu a aprovação do culto litúrgico desde os tempos mais remotos, está em perfeita harmonia com o resto da verdade revelada.' O que é claramente verdade é o reconhecimento de que ela está 'profundamente enraizada na mente dos fiéis' (ou pelo menos de muitos deles), e com base nisso foi declarada e definida como um dogma revelado por Deus." (John Bowker, editor, The Oxford Dictionary of World Religions [Oxford, Inglaterra: Oxford University Press, 1999], p. 101)

5 de maio de 2026

A ASSUNÇÃO DE MARIA NAS FONTES PRIMITIVAS

 

Muitas pessoas conhecem as evidências relativas à assunção de Maria nos séculos tardios da era patrística. Já ouviram falar da literatura apócrifa na qual o conceito aparece pela primeira vez e estão familiarizadas com os comentários de Epifânio sobre como ninguém sabe o que aconteceu no fim da vida de Maria, etc. Abordarei essas evidências tardias num post futuro, mas neste post quero tratar das evidências mais antigas, incluindo algumas que não são discutidas com frequência.  

O teólogo católico romano conservador Ludwig Ott, ao discutir o conceito da assunção corporal de Maria, reconheceu que: "Provas bíblicas diretas e expressas não existem." (Fundamentals Of Catholic Dogma [Rockford, Illinois: Tan Books and Publishers, Inc., 1974], p. 208). Passagens como o Salmo 132:8 e Apocalipse 11:19 são por vezes citadas em apoio à doutrina, mas a arca em ambas as passagens pode ser razoavelmente vista como alguma entidade que não Maria, e nenhuma das passagens exigiria uma assunção corporal de Maria no século I, mesmo que concluíssemos que a arca é Maria. Se Maria está espiritualmente no Céu, a sua presença ali não provaria que ela foi assunta corporalmente no século I. Não há forma de chegar a uma assunção corporal de Maria no século I como uma conclusão provável de qualquer passagem das Escrituras.

Um grupo de alguns dos principais estudiosos católicos romanos e luteranos do mundo concluiu:

"Além disso, a noção da assunção de Maria ao céu não deixou vestígios na literatura do século III, muito menos na do século II. M. Jugie, a maior autoridade nesta questão, concluiu no seu estudo monumental: 'A tradição patrística anterior ao Concílio de Niceia não nos fornece qualquer testemunho sobre a Assunção'." (Raymond Brown, et al., Mary In The New Testament [Mahwah: Paulist Press, 1978], p. 266)

Há quem argumente, por vezes, que saberíamos onde estão os restos mortais de Maria, e que fontes primitivas teriam reivindicado mais relíquias marianas se ela tivesse permanecido no túmulo, uma vez que ela é uma pessoa muito importante. Mas será que os primeiros cristãos pensavam que Maria era tão importante como alguns sugerem? David Farmer comenta:

"Na igreja primitiva, tal como no ministério de Cristo, ela [Maria] permaneceu tanto em segundo plano que é difícil saber onde viveu ou mesmo onde morreu. Tanto Éfeso como Jerusalém afirmavam ser o local da sua morte, com os Padres Orientais a apoiarem geralmente Jerusalém." (Oxford Dictionary Of Saints [New York, New York: Oxford University Press, 1997], p. 336)

E a afirmação de que fontes primitivas certamente teriam discutido o túmulo e as relíquias de Maria, se ela não tivesse sido assunta corporalmente, é duvidosa. Existem muitas figuras bíblicas bem conhecidas e figuras da história posterior da igreja cujos túmulos e relíquias não são muito discutidos, ou nem sequer são mencionados, nas fontes mais antigas. A preocupação com tais questões aumentou com o tempo, à medida que conceitos como a veneração de relíquias se desenvolveram para as suas formas posteriores, mas mesmo alguém que viveu tão tarde quanto João Crisóstomo pôde comentar:

"Diz-me, não estão os ossos do próprio Moisés depositados numa terra estranha? E os de Arão, de Daniel, de Jeremias? E quanto aos dos Apóstolos, não sabemos onde estão depositados os da maioria deles. Pois de Pedro, e de Paulo, e de João, e de Tiago, os sepulcros são bem conhecidos; mas os dos restantes, sendo tantos, em nenhum lugar se tornaram conhecidos. Não lamentemos, portanto, de modo algum por isto, nem sejamos tão mesquinhos. Pois onde quer que sejamos enterrados, 'do Senhor é a terra e a sua plenitude' [Salmo 24:1]." (Homilias sobre Hebreus, 26:2, v. 22)

Não parece que João Crisóstomo pensasse que cada figura significativa do cristianismo tivesse um local de sepultamento conhecido. É compreensível que as pessoas se abstivessem de fazer reivindicações sobre relíquias marianas em séculos posteriores, quando o conceito de uma assunção corporal começou a circular. Uma assunção corporal seria uma explicação possível para a falta de relatos sobre relíquias marianas; contudo, outras explicações são plausíveis e existem evidências contrárias ao conceito de que a assunção corporal faça parte de uma tradição apostólica primitiva.

Se as fontes primitivas se abstinham de mencionar relíquias marianas porque pensavam que ela tinha sido assunta corporalmente ao Céu, então por que nunca mencionaram essa assunção corporal? Não seria provável que mencionassem um acontecimento tão invulgar, especialmente se tivessem uma visão tão elevada de Maria como os grupos que defendem a sua assunção tendem a ter?

Dionísio de Alexandria, um bispo do século III, escreveu:

"Queremão, que era muito idoso, era bispo da cidade chamada Nilus. Ele fugiu com a sua mulher para a montanha da Arábia e não regressou. E embora os irmãos tenham procurado diligentemente, não conseguiram encontrar nem a eles nem aos seus corpos." (citado em Eusébio, História Eclesiástica, 6:42:3)

Esta passagem ilustra alguns pontos relevantes para a assunção de Maria. Primeiro, é uma ilustração do absurdo da ideia de que os cristãos, durante centenas de anos, saberiam da assunção corporal de Maria e, no entanto, nunca teriam dito nada sobre isso nos seus escritos existentes, mesmo quando comentam sobre Maria. Se o desaparecimento dos corpos de um bispo e da sua mulher foi considerado um detalhe relevante por Dionísio e Eusébio, por maior razão o seria uma assunção de Maria. O silêncio absoluto das fontes primitivas sobre um evento tão mais significativo levanta a questão: por que não há uma única menção a isso nos primeiros séculos?

Segundo, esta passagem de Dionísio ilustra o absurdo de concluir que uma assunção ocorreu apenas porque o paradeiro do corpo de uma pessoa não é conhecido. E se concluíssemos que os restos mortais de Maria não foram guardados pelos primeiros cristãos, que o seu túmulo estava vazio, etc.? Tal evidência, por si só, provaria que ocorreu uma assunção? Não. Seria consistente com uma assunção, mas não provaria, por si só, uma assunção.

Os padres da igreja dos primeiros séculos citam repetidamente Enoque e Elias como exemplos de pessoas que não morreram, foram transladadas para o Céu, etc. (Clemente de Roma, Primeira Clemente, 9; Tertuliano, Um Tratado sobre a Alma, 50; Tertuliano, Sobre a Ressurreição da Carne, 58; Tertuliano, Contra Marcião, 5:12; Metódio, Do Discurso sobre a Ressurreição, 3:2:14), mas nunca dizem tal coisa sobre Maria nem a incluem como exemplo. Ireneu, por exemplo, escreve sobre o poder de Deus para livrar as pessoas da morte e cita Enoque, Elias e Paulo (2 Coríntios 12:2) como ilustrações de pessoas que foram "assuntas" e "transladadas", mas nada diz de Maria (Contra Heresias, 5:5).

Há quem afirme ver referências a uma assunção de Maria em passagens bíblicas como Apocalipse 12. No entanto, Hipólito, Metódio e outros padres primitivos comentam tais passagens sem dizer nada sobre uma assunção.

Quão provável é que todos estes escritores, comentando em tantos contextos diferentes, se abstivessem todos de mencionar a assunção de Maria, embora soubessem dela? Embora os católicos romanos deem muita atenção a Maria e afirmem que Maria é a maior criação de Deus, a apócrifa assunção de Moisés recebe mais atenção entre os padres ante-nicenos do que a assunção de Maria (que não é mencionada de todo).

1 de novembro de 2025

MARTINHO LUTERO E JOÃO CALVINO SOBRE MARIA

 

Comparação teológica e documental com a visão dogmática da Igreja de Roma


1. MARTINHO LUTERO (1483–1546)

Tema

Citação (tradução)

Referência

Observação crítica

Maria como Mãe de Deus (Theotokos)

“Ela é a Mãe de Deus e, no entanto, permaneceu virgem. [...] É a maior honra que foi possível conceder a uma criatura.”

LUTERO, Martin. Das Magnificat verdeutscht und ausgelegt (1521). In: D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe (WA) 7, p. 572–574. Weimar: Böhlau, 1883ss.

Lutero aceita o título Theotokos como afirmação da encarnação, mas não o usa para justificar culto ou intercessão.

Contra o culto e a invocação de Maria

“Não devemos fazer de Maria uma deusa, pois ela não concede graça, não salva. É Deus quem faz tudo, por meio de seu Filho.”

LUTERO, Martin. Predigten über das Evangelium des Johannes (1521). WA 10 I/1, p. 268.

Rejeita toda forma de invocação mariana; condena o culto que a “transforma em ídolo”.

Maria aponta para Cristo, não para si mesma

“Maria não quer que recorramos a ela, mas através dela aprendamos a ir a Cristo.”

LUTERO, Martin. Weihnachtspredigt (1529). WA 29, p. 182.

Lutero vê Maria como testemunha de Cristo, não como intercessora.

Imaculada Conceição

“Maria foi concebida de maneira natural, como todos os outros seres humanos, mas o Espírito Santo manteve-a livre do pecado.”

LUTERO, Martin. Predigt am Tag der Empfängnis Mariä (1527). WA 17 II, p. 287.

Em fase inicial, Lutero admite certa “purificação” de Maria, mas mais tarde nega qualquer concepção imaculada.

Somente Cristo é sem pecado

“Somente Cristo é sem pecado; todos os outros nascem em pecado.”

LUTERO, Martin. Vorlesung über den Psalter (1535). WA 39 II, p. 88.

Lutero exclui Maria da impecabilidade absoluta.

Contra a idolatria mariana

“Maria não quer que façamos dela um ídolo, ela não quer que a adoremos. Ela aponta para Deus.”

LUTERO, Martin. Das Magnificat (1521). WA 7, p. 572.

Lutero considera o culto a Maria como desvio idolátrico.


2. JOÃO CALVINO (1509–1564)

Tema

Citação (tradução)

Referência

Observação crítica

Maria como Mãe de Deus (Theotokos)

“Não hesito em dizer que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, porque ela gerou aquele que é Deus e homem.”

CALVINO, Jean. Commentaire sur l’Évangile selon saint Luc (1555). In: Ioannis Calvini Opera Selecta (CO) 45, p. 39. Brunswick: Schwetschke, 1863.

Calvino usa Theotokos apenas cristologicamente: para confirmar que o Filho de Maria é o Verbo encarnado.

Contra o culto mariano

“É uma blasfêmia atribuir a Maria o que pertence somente a Deus e a Cristo. [...] A superstição papista transformou-a em uma deusa.”

CALVINO, Jean. Institutes of the Christian Religion, I.11.10. In: Opera Selecta (CO) 2, p. 83–84.

Condena a “idolatria papista” e o culto a Maria como usurpação da glória divina.

Cristo como único mediador

“Maria não é uma mediadora. Cristo é o único mediador entre Deus e os homens.”

CALVINO, Jean. Commentaire sur l’Évangile selon saint Jean (1553). CO 47, p. 57.

Recusa qualquer mediação de Maria. Cita 1Tm 2,5 como regra absoluta.

Imaculada Conceição

“Chamar Maria de imaculada é dizer que ela não precisou da redenção de Cristo, o que é absurdo. Ela foi redimida como todos os demais.”

CALVINO, Jean. Sermon sur Luc 1:28. CO 46, p. 37–38.

Rejeita explicitamente o conceito de Imaculada Conceição (séculos antes do dogma de 1854).

Assunção Corporal de Maria

“Não encontramos nas Escrituras que Maria tenha sido isenta da condição comum dos mortais, ou que tenha sido elevada ao céu em corpo e alma. Isto é pura invenção dos papistas, sem fundamento algum na Palavra de Deus.”

CALVINO, Commentaire sur l’Évangile selon saint Luc (1555), CO 45, p. 44..

Rejeita explicitamente a ideia de Assunção física como “invenção papista” e “fábula sem Escritura”. Para ele, a morte de Maria foi como a de qualquer crente: dormiu no Senhor, esperando a ressurreição final.

Honra devida a Maria

“Devemos honrar Maria, não adorando-a, mas imitando sua fé e humildade.”

CALVINO, Jean. Commentaire sur le Magnificat. CO 45, p. 41.

Maria é “exemplo”, não “objeto” de fé.


3. IGREJA CATÓLICA ROMANA (VISÃO DOGMÁTICA)

Dogma / Doutrina

Definição oficial

Fonte magisterial

Maternidade divina (Theotokos)

Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, pois gerou o Verbo encarnado.

Concílio de Éfeso (431). Denzinger-Hünermann (DH) 252.

Imaculada Conceição

Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção.

Pio IX, Ineffabilis Deus (1854). DH 2803.

Assunção corporal

Maria, ao fim de sua vida terrena, foi levada em corpo e alma ao céu.

Pio XII, Munificentissimus Deus (1950). DH 3903.

Mediação universal e culto hiperdúlico

Maria é medianeira de todas as graças e digna de culto especial (hiperdulia).

Concílio Vaticano II, Lumen Gentium §62; DH 4420.


4. ANÁLISE COMPARATIVA FINAL

Questão

Lutero

Calvino

Catolicismo Romano

Maternidade divina

Aceita, sem culto

Aceita, sentido cristológico

Dogma (Éfeso 431)

Imaculada Conceição

Rejeita (fase tardia)

Rejeita

Dogma (1854)

Assunção corporal

Silêncio, não defende

Rejeita

Dogma (1950)

Intercessão / mediação

Rejeita

Rejeita

Afirma

Culto / invocação

Rejeita

Rejeita

Afirma (hiperdulia)

Valor espiritual

Exemplo de fé

Exemplo de fé

Exemplo + intercessora


5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (ABNT)

  • CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 2008.
  • CALVIN, Jean. Ioannis Calvini Opera quae supersunt omnia. Ed. Baum, Cunitz, Reuss. Brunswick: Schwetschke, 1863–1900. (CO 45–47).
  • DENZINGER, Heinrich; HÜNERMANN, Peter (org.). Enchiridion Symbolorum: Compendium of Creeds, Definitions, and Declarations on Matters of Faith and Morals. 45. ed. Freiburg: Herder, 2017.
  • LUTERO, Martinho. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe (Weimarer Ausgabe – WA). Weimar: Böhlau, 1883–2009.
  • LUTERO, Martinho. O Magnificat de Maria: Comentário. Trad. Werner Fuchs. São Leopoldo: Sinodal, 1983.
  • PIO IX. Ineffabilis Deus. Roma, 8 dez. 1854.
  • PIO XII. Munificentissimus Deus. Roma, 1 nov. 1950.
  • CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. Vaticano, 1964.

15 de agosto de 2025

ADOMNANO DE IONA NÃO ACREDITAVA NA ASSUNÇÃO CORPORAL DE MARIA


Adomnano de Iona (c. 625–704) foi um abade e estudioso irlandês, particularmente conhecido como biógrafo de Columba de Iona.

Escreveu uma obra intitulada De locis sanctis (“Sobre os lugares santos”), baseada nos relatos do bispo franco Arculfo, o qual fez uma peregrinação à Terra Santa (c. 680). No regresso, este foi empurrado por uma tempestade para a costa ocidental da Grã-Bretanha e se tornou hóspede de Adomnano.

O seu testemunho demonstra a crença de que Maria morreu e foi sepultada, e que a sua ressurreição ainda não ocorreu. Afirmações semelhantes são feitas por Beda (672-735), o qual também criticou os apócrifos da Assunção. 

“Frequentador assíduo dos lugares santos, o santo Arculfo costumava visitar a igreja de santa Maria no vale de Josafá. Ela tem dois andares, e o andar inferior, com teto de pedra, está construído com uma redondeza admirável. Na parte oriental, há um altar, e à direita do altar está o sepulcro de pedra vazio de santa Maria, onde ela foi sepultada. Mas como, quando ou por quais pessoas os seus santos restos mortais foram removidos deste sepulcro, ou onde ela aguarda a ressurreição, ninguém, como se diz, consegue saber ao certoAs pessoas que entram nesta igreja redonda inferior de santa Maria veem à direita, inserida na parede, a rocha sobre a qual o Senhor orou de joelhos no jardim de Getsêmani antes da hora de sua traição, naquela noite em que foi traído por Judas nas mãos dos pecadores. Agora, as marcas de seus dois joelhos são visíveis nesta rocha, profundamente implantadas como na cera mais macia. Assim nos contou nosso irmão Arculfo, um visitante dos lugares santos, que viu com os seus próprios olhos as coisas que descrevemos aqui. Na igreja superior de santa Maria, também redonda, quatro altares estão à vista.” 

(Adomnano de Iona, De Locis SanctisEd. Denis Meehan, The Dublin Institute for Advanced Studies, 1958, pag. 59)

27 de janeiro de 2017

A CARTA ESPÚRIA DE DIONÍSIO, O AREOPAGITA, SOBRE A ASSUNÇÃO DE MARIA


A doutrina católica de que Maria foi elevada ao céu, em corpo e alma, é uma ficção que não possui nenhum tipo de evidência histórica, bíblica ou patrística que a valide; de modo que a única forma de tentar dar-lhe alguma credibilidade é utilizando fontes apócrifas e fraudes.

Já aqui fizemos referência ao sermão apócrifo de Agostinho e à carta espúria de Jerónimo sobre a assunção de Maria aos céus. Agora, é a vez de fazer justiça a Dionísio, o Areopagita.

Dionísio é referido por alguns sites católicos romanos e ortodoxos como uma testemunha da crença na assunção/dormição de Maria, já no século I. Por exemplo, um texto que é replicado em vários lugares é este: 

O texto mais antigo relatando a Assunção de Virgem Maria é o texto de Dionísio:

Dionísio o Areopagita, sobre a Dormição da Deípara

Dionísio o Areopagita (+ 96dC), sobre a Dormição da Deípara:

“Pois até mesmo entre os nossos hierarcas inspirados, quando, como tu sabes, nós juntamente com ele [um presbítero ateniense chamado Hierotheos] e muitos de nossos santos irmãos se reuniram para contemplar aquele corpo mortal [de Maria], Fonte da Vida, que recebeu o Deus encarnado, e Tiago, irmão de Deus [isto é, Tiago de Jerusalém] estava lá, e Pedro, o chefe maior dos escritores sagrados, e então, depois de terem contemplado isso, todos os hierarcas ali presentes celebraram, segundo o poder de cada um a bondade onipotente da fraqueza Divina [ou seja, que Deus se fizesse homem]”.

“Naquela ocasião, eu digo, ele [isto é, Hierotheos] ultrapassou todos os Iniciados com exceção dos escritores divinos, sim, ele estava completamente transportado, completamente absorto, e ficou tão emocionado através da comunhão com aqueles mistérios que ele estava comemorando, que todos os que o ouviram, viram e conheceram (ou melhor, não o conheceram) considerou que ele foi arrebatado por Deus e um hinografo divino”.

Fonte: Dionísio o Areopagita - Sobre os Nomes Divinos 3:2 

No entanto, este documento - sobre o qual católicos e ortodoxos elaboram a sua doutrina - é espúrio. Quaisquer semelhanças no texto com noções gnósticas não são mera coincidência.

Os textos atribuídos a Dionísio, o Areopagita, são conhecidos no meio académico como corpus Pseudo-Dionísio, o Areopagita, cujo autor é um grego do final do século V ou início do século VI. Não é, obviamente, a pessoa do Areópago mencionada nos Atos dos Apóstolos; e isto já se sabe, pelo menos, desde o tempo do célebre erudito Lorenzo Valla (falecido em 1457).

A Catholic Encyclopedia no tema da assunção de Maria diz o seguinte: 

A crença na assunção corporal de Maria está fundamentada no tratado apócrifo de De Obitu S. Dominae, que traz o nome de São João, o qual no entanto pertence ao quarto ou quinto  século. Também é encontrada no livro De Transitus Virgines, falsamente atribuído a Melitão de Sardes, e numa carta espúria atribuída a Dionísio o Areopagita. Se consultarmos escritos genuínos no Oriente, a crença é mencionada nos sermões de Santo André de Creta, São João de Damasco, São Medestus de Jerusalém e outros. No Ocidente, São Gregório de Tours (De gloria mart., I, iv), foi o primeiro a mencioná-la.

Holweck, Frederick. "The Feast of the Assumption." The Catholic Encyclopedia. Vol. 2.New York: Robert Appleton Company, 1907.

E relembrando o que diz Ludwing Ott, um famoso teólogo romano, no seu Manual de Teologia Dogmática:

"A ideia da assunção corporal da Virgem encontra-se expressa, primeiramente, nos relatos apócrifos sobre o trânsito da Virgem, que datam dos séculos V e VI... O primeiro escritor eclesiástico que fala da assunção corporal de Maria, seguindo um relato apócrifo do Transitus B.M.V., é Gregório de Tours (m. 594)..." (p. 328).

Portanto, se quisermos consultar escritos autênticos que mencionem a crença na assunção de Maria, temos de recorrer a autores que viveram muitos séculos depois do suposto evento - e não a qualquer texto de Dionísio, o Areopagita.

25 de junho de 2011

O SERMÃO APÓCRIFO DE AGOSTINHO E A CARTA ESPÚRIA DE JERÓNIMO SOBRE A ASSUNÇÃO DE MARIA AOS CÉUS


Desmascarando a Pseudonímia

Vários sites católicos divulgam citações de Agostinho e Jerónimo como se fossem autênticas, apresentando-as como prova de que a doutrina da Assunção de Maria era aceite desde os primórdios do cristianismo. No entanto, estas passagens pertencem a um sermão falsamente atribuído a Agostinho e a uma carta espúria de Jerónimo. 

Eis o teor dos textos que têm sido erroneamente atribuídos a estes dois vultos da patrística

São Jerônimo afirma que Maria subiu ao Céu no dia 18 das calendas de Setembro [15 de Agosto]: “Se alguns dizem que quem ressuscitou na mesma época que Cristo conheceu a Ressurreição perpétua, e se alguns acreditam que João, o guardião da Virgem, teve sua carne glorificada e desfruta da alegria celeste ao lado do Cristo, por que não acreditar com mais forte razão que o mesmo acontece com a mãe do Salvador? Aquele que disse: “Honre seu pai e sua mãe” (Êxodo 20, 12), e “Não vim destruir a lei, mas cumpri-la” (Mateus 5, 17), certamente honrou Sua mãe acima de todas as coisas, e por isso não duvidamos que o mesmo aconteceu com a bem-aventurada Maria”.

Santo Agostinho também defendeu a mesma coisa: “Já que a natureza humana está condenada à podridão e aos vermes, e que Jesus foi poupado desse ultraje, a natureza de Maria também está imune a isso, pois foi nela que Jesus assumiu a sua natureza. (...) O trono de Deus, o leito nupcial do Senhor, o tabernáculo de Cristo, deve estar onde Ele próprio está, pois é mais digno conservar este tesouro no Céu do que na Terra (...) Alegre-se, Maria, de uma alegria indizível em seu corpo e em sua alma, em seu próprio filho Cristo, com se próprio filho e por seu próprio filho, pois a pena da corrupção não deve ser conhecida por aquela que não teve sua integridade corrompida quando gerou seu filho. Será sempre incorrupta aquela que foi cumulada de tantas graças, que viveu íntegra, que gerou vida em total e perfeita integridade, que deve ficar junto daquele a quem carregou em seu útero, a quem gerou, aqueceu, nutriu – Maria, mãe de Deus, nutriz escrava de Deus. Por tudo isso não ouso pensar de outra maneira, seria presunção dizer diferente”.

O Pseudo-Agostinho é, muitas vezes, identificado como o Sermo 208; foi escrito séculos após a morte do bispo de Hipona. Agostinho, nas suas obras autênticas, é extremamente cauteloso e nunca menciona a Assunção.
A Pseudo-Jerónimo (Cogitis me) é uma carta que foi um instrumento poderoso de "fabricação de tradição" na Idade Média. Durante muito tempo, ela enganou até estudiosos, pois imitava o estilo de Jerónimo, mas hoje sabe-se que foi escrita por Pascasio Radberto, no século IX.
É curioso notar que o próprio "Pseudo-Jerónimo" admitia que a Igreja da sua época (o século IX!) ainda discutia se a Assunção era corporal ou não. Ou seja, usar esse texto como prova de "crença desde o princípio" (século I ao IV) é um erro histórico duplo.
Os testemunhos mais antigos da crença na assunção de Maria aos céus provêm de apócrifos dos séculos V e VI, e não de tradições preservadas por escritores cristãos ortodoxos dos primeiros séculos. A noção ganhou maior impulso a partir da Baixa Idade Média - para o qual contribuíram as falsificações de Agostinho e Jerónimo - até à sua proclamação oficial em 1950.
A assunção de Maria aos céus carece de qualquer prova bíblica, patrística e histórica; e a sua origem não poderia ser mais questionável.
No seu Manual de Teologia Dogmática diz Ludwig Ott: "A ideia da assunção corporal da Virgem encontra-se expressa, primeiramente, nos relatos apócrifos sobre o trânsito da Virgem, que datam dos séculos V e VI... O primeiro escritor eclesiástico que fala da assunção corporal de Maria, seguindo um relato apócrifo do Transitus B.M.V., é Gregório de Tours (m. 594)..." (p. 328).

24 de junho de 2011

O CULTO A MARIA, OS DOGMAS MARIANOS E A TRADIÇÃO APOSTÓLICA


Na sua erudita obra Maria na Patrística dos séculos I e II (Madrid: BAC, 1970, p. 371) o marianíssimo José Antonio de Aldama, S.I., confessa: "Falar de verdadeiro culto a Maria no século II seria anacrónico".

Sobre os dogmas marianos:

1. A primeira defesa da virgindade perpétua é, provavelmente, o Adversus Helvidium de Jerónimo, escrito em finais do século IV. Foi, depois, defendida por Leão I. O dogma da virgindade perpétua - antes, durante e depois do parto - foi definido por um sínodo local (III Latrão, 649) sob o papa Martinho I, e ratificado pelo III de Constantinopla, o sexto ecuménico (680-681).

Ou seja, nada se ouve acerca da virgindade perpétua antes de finais do século IV.

2. A imaculada conceição é completamente desconhecida para a Igreja antiga. A sua formulação é medieval tardia e originou controvérsias entre os próprios teólogos escolásticos. Com efeito, foi proposta como dogma no concílio de Basileia (1439), mas de maneira inválida, já que o papa Eugénio IV excomungou os membros do concílio. O primeiro a aceitar esta doutrina foi Sisto IV, em 1477 - pelo menos de modo indireto -, ao aprovar a festa da Imaculada Conceição da Virgem.

O próprio Concílio de Trento se absteve, prudentemente, de sancionar o dogma. Não veio a ser tal até 1854, graças a Pio IX.

3. Sobre a assunção corporal de Maria aos céus, diz o hipermariologista P. Carol: "Não existe nenhum documento do magistério, anterior a Pio XII, em que se declare oficialmente a assunção corporal da Virgem aos céus".

Não há vestígios no Ocidente da ideia - para não falar do dogma - até finais do século VIII.

Fonte: J.B. Carol (Dir.): Mariología. Madrid: BAC, 1964.


De modo que é óbvio que estes dogmas não surgiram de tradições provenientes dos Apóstolos - das quais falta, completamente, qualquer testemunho -, mas de desvios doutrinais produzidos, sobretudo, a partir da Idade Média.

A desculpa da tradição apostólica transmitida oralmente na Igreja não serve. A própria Igreja de Roma, até hoje, não conseguiu (ou melhor, não quis) delimitar e enunciar o que arbitrariamente chama de "tradição apostólica"; a qual lhe permitiu introduzir doutrinas totalmente desconhecidas pelos Apóstolos.

15 de novembro de 2010

QUEM É MARIA?


Maria (Miriam) é a bem-aventurada jovem hebreia a quem Deus, por pura graça, escolheu para que fosse a mãe do Messias. Segundo a Bíblia, o anjo Gabriel anunciou a Maria esta singular eleição, e o modo em que, pelo poder do Espírito Santo de Deus, sem intervenção de varão, ela haveria de conceber (Mateus 1:18-21; Lucas 1:26-38).

Maria é uma verdadeira crente que foi obediente a Deus e deu à luz Jesus o Messias, ou Cristo, sem ter tido até então relações sexuais com seu esposo José (Isaías 7:14; Mateus 1:22-25).

Maria pode corretamente ser chamada a mãe de Deus pois o seu primogénito Jesus foi "Deus connosco" (Mateus 1:23). Claro está que ela não gerou o Verbo eterno, a segunda Pessoa da Trindade, o Filho único de Deus; mas Jesus, o ser que nasceu de Maria, era tanto Deus como homem.

Embora a expressão exata "a mãe de Deus" não apareça na Bíblia, em Lucas 1:43 lemos que Isabel, cheia do Espírito Santo, disse a Maria: "Quem sou eu para que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?". Em todo o primeiro capítulo de Lucas, a palavra "Senhor" se utiliza como sinónimo de "Deus", de modo que a pergunta de Isabel é um testemunho claro da divindade de Jesus Cristo (ver também João 1:1; 20:28; Romanos 9:5; Hebreus 1:8; Tito 2:13).

Maria foi um modelo de esposa, de mãe e de crente. A sua fé e a sua obediência são um exemplo perpétuo para todos os cristãos. Isto é mostrado desde o princípio: Depois do anjo lhe ter anunciado o propósito de Deus ela exclamou: "Eu sou a serva do Senhor; que Deus faça comigo como me disseste" (Lucas 1:38). E depois de ser saudada pela sua prima Isabel, Maria deu a glória a Deus: "A minha alma louva a grandeza do Senhor; o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador. Porque Deus pôs os seus olhos em mim, sua humilde serva, e desde agora sempre me chamarão ditosa" (Lucas 1:46-48).

Maria levou uma vida de oração e de meditação (Lucas 2:19). Nas bodas de Caná, ela disse aos serventes que obedecessem a Jesus: "Fazei tudo o que ele vos disser" (João 2:5). Sem dúvida, ela orou pelo ministério público de Jesus, embora apenas seja mencionada no princípio de tal período e no final deste, no Calvário (Marcos 3:31, João 19:25). A última vez que é nomeada na Bíblia, encontramo-la orando com os demais discípulos. Quem leu o Novo Testamento sabe bem que, fora desta menção em Atos 1:14, Maria apenas é mencionada nos Evangelhos - e sempre em relação à obra de Jesus Cristo. Paulo é o único apóstolo que, num contexto obviamente cristológico, alude a ela numa das suas cartas, e não menciona o seu nome: "...Deus enviou o seu Filho, que nasceu de uma mulher..." (Gálatas 4:4).

Consequente com o seu interesse central na pessoa e na obra de Cristo, o NT não nos informa absolutamente nada sobre a vida da bem-aventurada Maria antes da concepção de Jesus, nem depois de Pentecostes. Não nos diz como se chamaram os seus pais, se teve irmãos, nem onde, como e em que idade faleceu Maria.

Como não desejamos ir além do que Deus revelou na Sua Palavra, não podemos subscrever as seguintes doutrinas.

1. Que por uma graça especial de Deus a bem-aventurada Maria foi completamente livre de pecado desde a sua concepção.

"...declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha da culpa original no primeiro instante da sua concepção por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do género humano, foi revelada por Deus e deve portanto ser firme e constantemente crida por todos os fiéis..." (Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854)[1]

À diferença da concepção milagrosa de Jesus, a denominada imaculada concepção de Maria não tem fundamento bíblico. Pior ainda, contradiz o claro ensino apostólico que estabelece que o único sem pecado foi nosso Senhor Jesus Cristo (Hebreus 4:15; ver também 1 Pedro 2:22). Dos restantes declara o Apóstolo Paulo: "todos pecaram e estão longe da presença salvadora de Deus" (Romanos 3:23). As próprias palavras de Maria indicam que ela também se encontrava nesta triste condição, da qual teve de ser resgatada pela graça de Deus (Lucas 1:28, 47).

2. Que a bem-aventurada Maria permaneceu sempre virgem, tanto antes, como durante, como depois de dar à luz Jesus.

"O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria (cf DS 427) mesmo no parto do Filho de Deus feito homem (cf DS 291; 442; 503; 571; 1880). Com efeito, o nascimento de Cristo «não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal» da sua Mãe (LG 57). A liturgia da Igreja celebra Maria como a "Aeiparthenos", a «sempre Virgem» (cf LG 52) ... Maria «foi Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem no parto, Virgem depois do parto, Virgem sempre» (S. Agostinho, serm. 186,1); com todo o seu ser; ela é a «serva do Senhor» (Lc 1, 38)". (Catecismo da Igreja Católica, 499 e 510) [2]

O que a Bíblia claramente ensina é que ela era virgem ao conceber, e que permaneceu em tal condição até ao nascimento de Jesus (Mateus 1:25). Embora a concepção de Jesus tenha sido um milagre operado pelo poder do Espírito Santo, parece claro que a gravidez e o parto foram completamente normais. Não se menciona nenhum milagre ligado a eles (Mateus 1:25; Lucas 2:6-7).

Nada há nas Escrituras que afirme, implique ou exija a perpétua virgindade de Maria. Pelo contrário, o NT menciona em várias ocasiões os "irmãos e irmãs" de Jesus (Mateus 12:46-47; 13:56; Marcos 3:31-32; Lucas 8:19-20; João 2:12; 7:3-10; Atos 1:14; 1 Coríntios 9:5). Quem eram eles?

Antes de considerar diversas explicações, recordemos que a palavra grega adelphos, irmão, se refere primariamente a filhos da mesma mãe ou pai; por exemplo, Mateus 1:2,11; 4:18; Lucas 3:1,19; João 1:40. Secundariamente pode aludir a parentes próximos [Génesis 13:8], a vínculos raciais ou nacionais (Atos 2: 29,37; Romanos 9:3), ou espirituais e religiosos (Mateus 18:15; Romanos 1:13). Ora bem, entender a expressão "os irmãos" de Jesus neste último sentido é impossível, pois eles são claramente distinguidos dos discípulos: "Depois disto, [Jesus] desceu a Cafarnaum, acompanhado da sua mãe, seus irmãos e seus discípulos" (João 2:12). Por outro lado, durante o ministério terrenal de Jesus os seus irmãos não criam n`Ele (João 7:5). Consideremos pois outras explicações.

A) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos de um matrimónio anterior de José.

Segundo esta noção, que é a explicação oficial da Igreja Ortodoxa Grega, José era um velho viúvo quando se casou com Maria. No entanto, estes supostos irmãos mais velhos nunca são mencionados nas narrações da infância de Jesus, e por outro lado Lucas 2:23 diz que Jesus foi o primogénito da família, ou seja, o filho mais velho.

B) Os irmãos eram parentes próximos, por exemplo, primos.

Esta é a explicação corrente da Igreja Católica Romana, e tem em seu favor o uso habitual do vocábulo hebreu ah (e o seu correspondente arameu aha), irmão, no sentido de parente. No entanto, esta opinião tem vários pontos fracos.

Em primeiro lugar, não há nenhum exemplo claro deste uso no Novo Testamento.

Em segundo lugar, nenhuma das listas de irmãos que incluem nomes próprios mencionam o parente mais famoso de Jesus, ou seja o seu primo João o Baptista.

Em terceiro lugar, parece decisivo que os Evangelistas, que escreveram em grego, fazem sempre uma cuidadosa distinção entre um parente e um irmão em sentido próprio. Assim, o anjo Gabriel chama Isabel, a prima de Maria, sua "parenta" [grego syngenis] e não sua "irmã" (Lucas 1:36). Segundo Marcos 6:4, Jesus disse: "Em todos os lugares se honra um profeta, menos na sua própria terra, entre os seus parentes [grego syngeneus] e na sua própria casa [o núcleo familiar, pais e irmãos]". Também pode ver-se Lucas 14:12 e 21:16.

Se os Evangelistas quisessem referir-se aos familiares de Jesus e não aos seus irmãos e irmãs carnais, com toda a probabilidade teriam usado o termo grego usual, como faz Lucas em 1:58 e 2:44. Em vez disso, e sem nenhuma aclaração, escreveram uniformemente "irmãos" [adelphoi].

C) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos da mesma mãe.

Esta é a explicação mais natural e evidente, e os que a rejeitam o fazem por considerações dogmáticas e não pelos dados escriturais. Contrariamente ao que por vezes se insinua, esta opinião não menospreza de modo nenhum a bem-aventurada Maria, uma vez que para os hebreus a fertilidade era um sinal de bênção divina.

Esta óbvia explicação tem sido objetada com o argumento de que os irmãos de Jesus citados pelo nome em Mateus 13:55 e Marcos 6:3, ou seja, Tiago, José, Judas e Simão, eram filhos de outras mulheres. Tal objeção se baseia no facto de que outras mulheres que são mencionadas no NT terem filhos com os mesmos nomes; ver, por exemplo, Mateus 27:56; 28:1; Marcos 10:35 com Mateus 20:20; Lucas 24:10. No entanto, nos tempos de Jesus todos estes nomes eram muito comuns, o que torna impossível provar que se trata das mesmas pessoas.

Outra objeção é que Tiago, o irmão do Senhor (ver Atos 12:7; 15:13) teria sido a mesma pessoa que Tiago o Menor, um dos Doze Apóstolos, e portanto não um filho de Maria. Esta ideia se baseia em Gálatas 1:19 onde Paulo chama "apóstolo" a Tiago, o irmão do Senhor (nesta opinião quiçá um primo). No entanto, é um facto que Paulo chamou "apóstolos" a cristãos que seguramente não pertenciam ao grupo dos Doze, como, por exemplo, Andrónico e Júnias (Romanos 16:7). A palavra grega apostolos significa "enviado" e parece que Paulo a utilizou num sentido mais amplo. Em 1 Coríntios 15:5-7, Paulo nomeia primeiro Cefas (Pedro) e os Doze, e depois, como se fosse um grupo diferente de cristãos, "Tiago e todos os apóstolos". O facto de a um dos Tiagos que são mencionados no Evangelho se chamar "o Menor" (ou "o Pequeno", ou "o Baixinho") não implica de modo algum que só houvesse dois Tiagos.

Em todo o caso, o facto decisivo é que os chamados "irmãos do Senhor" não figuravam entre os seus discípulos antes da Ressurreição, como se constata ao comparar João 7:5 ("Porque nem mesmo os seus irmãos criam nele") com Atos 1:14 ("Todos eles perseveravam unanimemente em oração com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele").

Outra objeção à opinião que sustentamos é que se Jesus tivesse tido irmãos, teria encomendado a eles o cuidado da sua mãe. Um momento de reflexão nos permitirá dar conta de que o mesmo se aplica aos seus outros supostos parentes: poderia ter encomendado o cuidado de Maria a algum dos seus primos.

No entanto, para Jesus o parentesco mais importante era o espiritual. "Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Marcos 3:35). "Uma mulher da multidão exclamou: Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou! Ele respondeu: Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem!" (Lucas 11:27-28). Obviamente, Jesus teve mais confiança no seu discípulo do que nos seus irmãos carnais.

3. Que a bem-aventurada Maria seja a mãe universal de todos os crentes

"Ou seja, que ela, pelo facto de ter dado à luz o Redentor do género humano, é também, de certo modo, mãe benigníssima de todos nós, a quem Cristo Senhor quis ter por irmãos. «Tal – diz nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII - no-la deu Deus, que pelo facto de tê-la escolhido para mãe de seu Unigénito, lhe infundiu sentimentos verdadeiramente maternais ... ; tal, com o seu modo de operar, no-la mostrou Jesus Cristo, ao querer estar voluntariamente submetido e obedecer a Maria como filho à sua mãe; tal no-la proclamou desde a cruz, quando no discípulo João encomendou ao seu cuidado e amparo todo o género humano [João 19,26s]; tal, finalmente, se deu ela mesma, quando ao abraçar generosamente aquela herança de imenso trabalho que seu filho moribundo lhe deixava, começou imediatamente a cumprir todos os seus ofícios de mãe»." (Pio XI, Encíclica Lux veritatis de 25 de dezembro de 1931[3]; ver Concilio Vaticano II, Lumen Gentium 61-63 e Catecismo da Igreja Católica, 964-970).

Que Maria fosse a mãe de Jesus na ordem terrenal não implica que seja a sua mãe, e por extensão a nossa, também na ordem sobrenatural. Uma vez que Maria foi uma criatura que necessitou da redenção tanto como qualquer ser humano desde Adão em diante, na realidade, na ordem da salvação, esta "serva do Senhor" é uma irmã mais nova de Jesus Cristo o Salvador, e uma filha adotiva do Pai celestial (veja-se Hebreus 2:10-18; João 1:12-13).

Enquanto padecia na cruz, Jesus disse à sua mãe, referindo-se ao seu discípulo amado (provavelmente o apóstolo João): "Mulher, aí tens o teu filho" e ao discípulo: "Aí tens a tua mãe" (João 19:25-27). Estas palavras mostram a terna provisão de Jesus para a sua mãe, e implicam um encargo íntimo e familiar, feito pessoalmente a um dos discípulos, e não a todos eles. Isto provavelmente se deveu a que este era o único deles que esteve presente no Calvário e, talvez, também ao particular afeto que Jesus sentia por ele.

Além disso, do contexto fica claro que era Maria quem necessitava do cuidado do discípulo, não ao contrário. O mesmo texto nos diz que ele honrou o encargo do Senhor, tomando ao seu cuidado a idosa e presumivelmente viúva Maria: "Desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa".

4. Que a bem-aventurada Maria ascendeu ao céu em corpo e alma

"... proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial." (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1 de novembro de 1950[4]; veja-se Catecismo da Igreja Católica, # 966, 974).

Estamos seguros de que a alma de Maria, como a de todos os crentes, está na presença gloriosa de Deus (veja-se, por exemplo: Lucas 23:43; 2 Coríntios 5:1-10; Filipenses 1:21-23; Apocalipse 6:9-11; 7:9). Por outro lado, uma vez que a Bíblia não diz nem uma palavra a este respeito, não é possível afirmar que a bem-aventurada Maria ascendeu em corpo e alma ao céu.

Também não se pode afirmar, terminantemente, que isso seja impossível, já que existem indicações bíblicas de que, no passado, Deus concedeu tal privilégio a Enoque e a Elias (veja-se Génesis 5:24 e 2 Reis 2:11). Portanto, não é inconcebível que o tivesse concedido também a Maria. No entanto, o Novo Testamento não diz absolutamente nada sobre este tema, e tal silêncio nos impede de afirmar esta doutrina.

5. Que possa pedir-se à bem-aventurada Maria o que a Bíblia ensina a pedir a Deus através de Jesus Cristo

"E esta maternidade de Maria perdura sem cessar na economia da graça ... Pois uma vez assunta aos céus, não deixou o seu ofício salvador, mas continua a alcançar-nos por sua múltipla intercessão os dons da eterna salvação. Por seu amor materno cuida dos irmãos de seu Filho que peregrinam e se debatem entre perigos e angústias e lutam contra o pecado até que sejam conduzidos à pátria feliz. Por isso, a bem-aventurada Virgem na Igreja é invocada com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Socorro, Mediadora. O que, no entanto, se entende de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador." (Concilio Vaticano II, Lumen Gentium, 62[5]; veja-se o Catecismo da Igreja Católica, # 969, 975).

As Escrituras ensinam claramente que existe um único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote, que é o Senhor Jesus Cristo.

"E há também um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também" (1 Coríntios 8:6)

"Em nenhum outro há salvação, porque em todo o mundo Deus não nos deu outra pessoa pela qual nos possamos salvar" (Atos 4:12).

Não há dúvida que podemos orar uns pelos outros, mas quando se trata da mediação celestial, nada nem ninguém pode substituir ou complementar o ministério de Jesus Cristo:

"no templo celestial ... Jesus entrou como nosso precursor, tornando-se Sumo Sacerdote para sempre" (Hebreus 6:20).

Este único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote é também o único Advogado e Mediador em quem somos chamados a depositar toda a nossa esperança:

"Meus filhinhos, eu vos escrevo estas coisas, para que não pequeis; e se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" (1 João 2:1).

"Porque há um só Deus, e também um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2:5).

O facto de termos um profundo amor, uma enorme admiração e um reverente respeito por Maria não implica que esqueçamos que ela não é, nem nunca poderia ser, tão boa como Jesus, nem mais sábia que Ele; nem tampouco pode possuir, como Jesus possui, os atributos divinos de omnipotência e omnipresença. Jesus pode ouvir - e ouve - todas e cada uma das nossas orações. Também tem o poder de mediar perante o Pai e dar a resposta divina a elas. Isto é algo que jamais poderia ser concedido a alguma criatura, nem mesmo aos anjos.

Com todo respeito, não vemos absolutamente nenhuma razão para depositar a nossa confiança nesta santa mulher que – como ela própria seria a primeira a reconhecer – não é tão boa, nem tão sábia, nem tão poderosa como Jesus Cristo. A bem-aventurada Maria deu-nos um grande exemplo ao confiar primeiro em Deus (Lucas 1:38) e depois em Jesus, o Filho de Deus (João 2:22). Tal como Maria fez, devemos deixar operar na nossa vida o Espírito Santo; só assim poderemos compreender cabalmente as coisas de Deus (1 Coríntios 2:6-16).


Notas

1. Enrique Denzinger, O Magistério da Igreja. Manual dos Símbolos, Definições e Declarações da Igreja em Matéria de Fé e Costumes (versão de D. Ruiz Bueno; Barcelona: Herder, 1963, p. 385-386).
2. Edição Livraria João Paulo II: Santo Domingo, 1993, p. 118-119. DS = Denzinger, o.c.; LG, Lumen Gentium (Concilio Vaticano II).
3. Denzinger, o.c., # 2271, p. 572-573.
4. Denzinger, o.c., # 2333, p. 613.
5. Vaticano II – Documentos conciliares. Buenos Aires: Edições Paulinas, p. 85-86.


Nota adicional sobre o significado do nome Maria:

De uma revisão sumária de diversas obras se depreende que não está clara a etimologia, nem, por conseguinte, o significado, do nome "Maria" (hebreu miryam).

Segundo o Vocabulário de Teologia Bíblica (Dir. X. Leon-Dufour; Barcelona: Herder, 1985) significava em arameu 'senhora' ou 'princesa', embora tal afirmação não seja documentada. De qualquer modo, no seu livro "Jesus o judeu" (Barcelona: Muchnik, 1977, pp. 117-130), Geza Vermes trata do título 'mar' como equivalente do grego 'kyrios', senhor, forma respeitosa de dirigir-se a alguém  importante. 'Mar' forma parte da palavra 'Maranatha'.

O Novo Dicionário Bíblico (Dir. J.D. Douglas e N. Hyllier. Buenos Aires: Certeza, 1991) diz que há uma 'ténue possibilidade' de que derive do egípcio marye, 'amada.'

A International Standard Bible Encyclopedia (Dir. G.W. Bromiley; Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1986) dá como possíveis significados (1) 'amada', da raiz egípcia mr ; (2) 'amada de Yahveh' (mr + yw/m); (3) 'roliça', de meri' ou (4) amarga, amargura, de mar.

Também poderia derivar de meri, rebelião.

Em suma, dada a incerteza quanto ao significado do nome, não é sensato construir qualquer argumento com base num dos seus hipotéticos significados
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