Se há um dogma
que a teologia filosófica clássica insiste em colocar num pedestal, por vezes
acima da própria clareza da revelação, é a Doutrina da Simplicidade Divina (DSD) na sua formulação tomista
estrita. Segundo esta perspetiva, Deus não tem apenas uma essência; Ele é
a sua essência. Mais ainda: em Deus, não há qualquer composição ontológica, o
que obriga a afirmar que a Pessoa é
estritamente idêntica à Essência Divina (Pessoa = Essência).
À primeira
vista, isto é apresentado como uma afirmação piedosa sobre a transcendência de
Deus. No entanto, quando aplicamos a lógica elementar a esta equação, a
arquitetura Trinitária e a própria Cristologia implodem - ironicamente empurrando
o teísmo clássico para os braços das próprias heresias que ele pretendia
evitar.
A Matemática Impossível da Identidade Estrita
Considere-se o
axioma fundamental da DSD estrita:
- O Pai = a Essência Divina.
- O Filho = a Essência Divina.
- O Espírito Santo = a Essência Divina.
Se a relação
entre cada Pessoa e a Essência Divina é de identidade estrita (e não uma relação em que três Pessoas
distintas partilham a mesma natureza divina), a Lei da Transitividade da Identidade (se A = B e C = B, logo A = C)
aplica-se de forma implacável.
Se o Pai é
idêntico à Essência Divina e o Filho é idêntico à mesma Essência Divina, então
o Pai é estritamente idêntico ao Filho. O teísmo clássico tenta escapar a este
colapso argumentando que a distinção entre as Pessoas reside apenas em
"relações de oposição" (Paternidade vs. Filiação). Mas se as próprias relações têm de ser idênticas à Essência Divina, como
a DSD exige para evitar qualquer tipo de composição em Deus, a distinção
dissolve-se. O resultado ontológico inevitável não é o Deus Trino bíblico, mas
o Modalismo (Sabelianismo).
A Desnecessidade da Geração e a Realidade Ontológica do Filho
Muitos teólogos
tentam salvar o esquema clássico recorrendo ao conceito de "geração
eterna". Contudo, do ponto de vista de uma metafísica rigorosa, postular a
geração eterna é completamente desnecessário para fundamentar a identidade do
Filho.
O Filho não
precisa de ser "gerado" eternamente pelo Pai para ser ontologicamente
o Filho desde toda a eternidade.
1) Identidade
Pessoal Sem Derivação: A Filiação é uma propriedade
pessoal eterna e incriada da segunda Pessoa da Trindade, assim como a
Paternidade é a propriedade pessoal do Pai. O Filho é o Filho simplesmente
porque é a segunda Pessoa Divina que possui a essência divina eternamente, e
não por causa de um processo metafísico de derivação ou causalidade
intratrinitária.
2) A Ilusão da
Geração na DSD: Sob o paradigma da DSD estrita, a própria ideia de
geração torna-se uma contradição. Se a Pessoa é a Essência, a
"geração" teria de ser a Essência a gerar a Essência; uma
auto-causação sem sentido. Ao descartar a geração eterna como um construto
filosófico redundante, percebe-se que a distinção pessoal tem de ser primitiva
e real, e não derivada.
Do Modalismo ao Docetismo Cristológico
Quando a DSD
força a identificação estrita entre a Pessoa do Filho e a Essência Divina sem
qualquer margem para complexidade ontológica, o impacto na Encarnação é
devastador:
O Dilema da
Encarnação: Se a Pessoa do Filho é estritamente a Essência
Divina, e a Pessoa do Filho assume a humanidade, então a Essência Divina em si
assumiu a humanidade. Isto significaria que o Pai e o Espírito Santo também se
encarnaram (Patripassianismo), ou então que a divindade sofreu uma fusão com a
humanidade, gerando um híbrido incompatível com Calcedónia.
A
fuga para o Docetismo:
A teologia clássica tenta esquivar-se do hibridismo (fusão de naturezas)
recorrendo a uma contradição ontológica insolúvel. Ao postular que a relação
com a humanidade é uma mera relatio
rationis (conceptual) no polo divino, a tradição escolástica não preserva a
União Hipostática, mas desfaz a própria ideia de "União".
Se a relação do Filho com a sua humanidade não tem qualquer ancoragem ontológica na sua realidade, então a natureza humana não subsiste na Pessoa do Filho; subsiste apenas como um apêndice extrínseco. Afirmar que o Filho "assumiu" a humanidade sem que essa assunção constitua ou afete o modo de ser do sujeito é transformar a Pessoa num simples suporte sintático, e não num sujeito ontológico real.
O dilema é inescapável:
1) Se a união é real no Sujeito (Pessoa): Como a Pessoa do Filho é indistinguível da essência divina na simplicidade pura, qualquer relação real assumida pela Pessoa afeta necessariamente o polo divino.
2)
Se a relação é de mera razão no Sujeito: O Filho permanece intocado pela Encarnação, tornando o
"assumir a carne" uma metáfora linguística. A humanidade é real, mas
a sua "assunção pelo Filho" é uma ficção metafísica.
O teísmo clássico atinge, assim, um Docetismo de Segundo Grau (ou
Docetismo Relacional). O docetismo histórico dizia que a carne era uma ilusão; o
teísmo clássico concede a realidade da carne, mas transforma a sua união com a Pessoa divina numa
ilusão nominal. Sem reciprocidade ontológica no Sujeito que assume, Cristo
deixa de ser o Emanuel ("Deus connosco") para se tornar um homem real
associado a um Deus ontologicamente ausente da própria relação.
A Alternativa: Deus Como uma Realidade Complexa
Se queremos
manter a Trindade e a Cristologia genuínas, a solução é abandonar a camisa de
forças da Simplicidade Tomista estrita.
Deus é uma entidade metafisicamente complexa:
A Essência
Divina é o conjunto dos atributos divinos necessários (omnisciência, omnipotência,
eternidade, etc.) partilhados por três Pessoas.
O Pai, o Filho
e o Espírito Santo são sujeitos reais, eternos e distintos que possuem a
essência divina.
O Filho é
ontologicamente o Filho de forma primária e eterna, sem necessitar de esquemas
de derivação metafísica, possuindo a capacidade real de assumir uma natureza
humana no tempo sem anular a divindade nem transformar a Encarnação num mero
teatro de aparências
abstratas.
O teísmo clássico, ao tentar defender a simplicidade absoluta de Aristóteles, acabou por criar um sistema onde a Trindade se aproxima perigosamente do modalismo e a Cristologia do docetismo. É tempo de reconhecer que a coerência cristológica exige aceitar a complexidade ontológica do Deus vivo.

Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.