Resumo:
Este artigo analisa o célebre elogio de Inácio de Antioquia à Igreja de Roma
como “a que preside na caridade” (tê prokathemenê tês agapês) e
demonstra, à luz das fontes do século I-II e da crítica histórica moderna, que
tal expressão não implica primado jurídico, mas apenas primazia moral e
exemplar. Examina-se também a estrutura eclesial da época, na qual não existia
ainda o modelo monárquico-episcopal romano, e a Igreja era entendida como uma
comunhão de comunidades locais autónomas.
1. O texto de Inácio de Antioquia
Na Epístola
aos Romanos (prólogo), escrita por volta do ano 107 d.C., o bispo mártir de
Antioquia dirige-se à Igreja de Roma nestes termos:
“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que alcançou misericórdia pela majestade do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, Seu Filho Único; à Igreja amada e iluminada pela vontade d’Aquele que quer todas as coisas que estão de acordo com o amor de Jesus Cristo, nosso Deus; que também preside no lugar da região dos Romanos, digna de Deus, digna de honra, digna da mais alta felicidade, digna de louvor, digna de alcançar todos os seus desejos, digna de ser considerada santa, e que preside na caridade, ostentando o nome de Cristo e do Pai, a qual também saúdo em nome de Jesus Cristo...”
(Inácio de
Antioquia, Carta aos Romanos, prólogo).
Como se pode ver, Inácio tem muitas coisas boas a dizer da Igreja de Roma (tal como era em princípios do século II). Entre outras coisas, diz que “preside na caridade”. A expressão
grega tê prokathemenê tês agapês não indica que tem autoridade sobre as outras Igrejas, mas que as excede em amor. O verbo prokathemai (“sentar-se à frente”) pode indicar
precedência ou honra, mas o complemento “na caridade” (en agapê) confere
ao texto um sentido moral e espiritual, não jurisdicional. Inácio
elogia a fé e a caridade de Roma, não a coloca como sede de governo sobre as
demais Igrejas.
“Nada nas
palavras de Inácio sugere soberania. Trata-se de uma primazia de amor, não de
domínio.” (J. B. Lightfoot, The Apostolic
Fathers (1885), p. 217).
Todas as cartas de Inácio começam com um sentido elogio à Igreja a que se dirige. Inácio elogia outras
comunidades de modo semelhante: a Igreja de Éfeso é “muito amada em Deus pela prática da justiça, segundo a fé e o amor em Jesus Cristo”, a
de Magnésia é conhecida pela “ordem perfeita do vosso amor segundo Deus”, etc. (Efésios
1; Magnésios
1).
Adicionalmente, Inácio dirige-se aos romanos como a seus irmãos, e não faz nenhuma menção de alguma autoridade particular do bispo desta Igreja, o qual nem sequer menciona (à diferença de outras cartas como aos filadélfos, esmirniotas e magnésios).
2. Estrutura eclesial no tempo de Inácio
A eclesiologia do início do século
II estava em transição. Inácio foi um dos primeiros a formular a ideia do bispo
monárquico local, como garante da unidade da comunidade.
Todavia, essa estrutura ainda não existia em todas as Igrejas
— e Roma é o caso mais notório.
A Carta de Clemente de Roma aos Coríntios (c. 96 d.C.), documento
anterior a Inácio, nunca menciona um bispo romano individual; é escrita em
nome da Igreja de Roma como corpo colegial:
“Os apóstolos… estabeleceram os primeiros
frutos de sua missão, provando-os pelo Espírito, e colocaram bispos
e diáconos.” (1 Clemente 42:4-5)
“Os presbíteros
foram instituídos pelos apóstolos e, depois deles, outros homens aprovados
sucederam-lhes.” (1 Clemente 44)
A
ausência de qualquer menção a um único bispo romano e o uso do plural
(“bispos”) confirmam que Roma era então governada por um
colégio de presbíteros, não por um pontífice individual.
Assim, quando Inácio escreve a sua
carta (c. 107 d.C.), não havia ainda um “Papa”
no sentido posterior. Ele se dirige à Igreja romana, não a um bispo romano.
3. A comunhão de Igrejas:
modelo horizontal, não imperial
A teologia eclesial dos séculos I–II
concebia a Igreja universal como uma comunhão de Igrejas locais,
cada uma plena em si mesma, unida às demais pela fé e pela caridade.
As
sete cartas autênticas de Inácio refletem uma eclesiologia de comunhão
horizontal.
Cada
Igreja local é presidida pelo seu bispo, símbolo
da unidade local, mas todas são irmãs entre si. Inácio
nunca fala de “o bispo dos bispos”.
Inácio
exorta os fiéis:
“Onde
estiver o bispo, aí esteja o povo, assim como onde estiver Cristo, aí está a
Igreja. Onde está o bispo, aí deve estar a comunidade, assim como onde está
Cristo Jesus, aí está a Igreja Católica.” (Epístola aos Esmirnenses 8,1-2).
Aqui, Igreja
Católica significa universalidade da fé, não uma instituição
centralizada sob Roma.
Jean Daniélou
resume:
“A Igreja
primitiva é uma comunhão de Igrejas locais unidas por vínculos de fé e
caridade. Não há ainda um centro de comando jurídico.” (Histoire des
Doctrines Chrétiennes avant Nicée (1952), p. 75).
4. A interpretação de Ireneu de Lyon
O primeiro
autor a citar Roma como referência de ortodoxia foi Ireneu de Lyon, em Adversus
Haereses III, 3, 2 (c. 180 d.C.):
“Com esta
Igreja [de Roma], por causa de sua origem mais excelente, deve necessariamente
concordar toda Igreja, isto é, os fiéis de toda parte, porque nela sempre se
conservou a tradição dos apóstolos.”
Todas as Igrejas devem necessariamente “concordar” com Roma porque partilham a mesma tradição apostólica, não porque lhe devem obediência.
Aqui, a
expressão convenire oportet significa “concordar na fé”, não
“submeter-se juridicamente”.
Ireneu
argumenta a partir da fidelidade doutrinária de Roma, não de um poder
papal.
Yves Congar
observa:
“O primado
romano, no início, é de honra e de caridade, não de jurisdição. Ele nasce do
testemunho apostólico de Roma, não de um poder sobre as demais Igrejas.” (L’Église,
de Saint Augustin à l’époque moderne (1970), p. 34).
5. Conflitos do século III: Cipriano e o “bispo dos bispos”
No século III,
o papa Estêvão I tentou impor a sua decisão sobre a validade do batismo
dos hereges.
Cipriano de
Cartago respondeu de modo firme:
“Nenhum de nós
se proclama bispo dos bispos, nem obriga os seus colegas à obediência pela
tirania do medo.” (Epístola 59, 14)
Esse testemunho
mostra que a autoridade universal de Roma era contestada e considerada
inovação.
6. Conclusão
O elogio de
Inácio de Antioquia à Igreja de Roma como “a que preside na caridade” não
afirma supremacia jurídica, mas reconhece exemplaridade espiritual.
Nos séculos
I-II, a Igreja era uma comunhão de comunidades locais autónomas, unidas
pela fé comum e pela caridade fraterna, não uma hierarquia monárquica.
O modelo papal
centralizado é um desenvolvimento histórico posterior, sobretudo a
partir do século IV, e não parte da estrutura original da Igreja apostólica.
Referências bibliográficas essenciais
- Inácio de Antioquia, Epistula ad Romanos, em Patres Apostolici, ed. Funk,
I, 1901.
- 1 Clemente, ed. Lightfoot &
Harmer, The Apostolic Fathers, 1891.
- Ireneu de Lyon, Adversus
Haereses, III, 3, 2.
- Cipriano de Cartago, Epistulae 59, 14.
- J. B. Lightfoot, The Apostolic
Fathers, Londres 1885.
- Henry Chadwick, The Early Church,
Londres 1967.
- Yves Congar, L’Église,
de Saint Augustin à l’époque moderne, Paris 1970.
- Jean Daniélou, Histoire
des Doctrines Chrétiennes avant Nicée, Paris 1952.
- Raymond E. Brown, The Churches the
Apostles Left Behind, Nova Iorque 1984.