Imagem publicada pela Sentinela do suposto ponto baixo
de pontuação em Lucas 23:43, Codex Vaticanus.
Todavia,
se o ponto for, de facto, uma marca
intencional de pontuação [1], não
é certamente feito pela mão original. O
escriba original não usa o “ponto baixo”, e quando
usa pontuação (coisa que ele
raramente faz), adiciona tipicamente
um espaço extra, o
que não é o caso aqui.
Espaçamento típico adicionado depois
de um sinal de pontuação no Codex Vaticanus (entre Lucas 22:30 e 22:31)
Além disso, se o escriba pretendesse colocar uma vírgula
depois de sêmeron, ele provavelmente usaria um ponto-médio como fez
depois de sarka em Romanos 9:5 (e vários outros lugares), não o ponto-baixo, que era mais ou menos equivalente ao nosso ponto e vírgula [2].
Por último, não há notícia que algum comentarista
ou crítico textual tenha mencionado a suposta vírgula no Vaticanus. Bruce Metzger,
no seu Textual
Commentary on the Greek New Testament, nada diz sobre isso, apesar de abordar o Siríaco
Curetoniano em
relação à pontuação correta de
Lucas 23:43, e discutir o sinal de pontuação no Vaticanus em Romanos 9:5 [3].
O manuscrito Vaticanus foi originalmente
escrito no século IV em tinta
castanha, com um corretor
logo em seguida fazendo algumas pequenas
alterações. Mais tarde, um
escriba posterior no século X ou
XI passou por cima das letras tinta preta,
ignorando aquelas letras ou marcas que
ele pensava serem incorretas, e
fazendo algumas alterações adicionais [4]. Embora o ponto seja "castanho desbotado" e isso possa
indicar uma data antiga para o
ponto, isso não é certo. Mesmo que seja, não está provado que proceda
da mão original ou do corretor do século IV,
e o facto de não
ter sido reforçado pelo corretor
posterior indica que ele considerou-o como não intencional ou um defeito. O Dr.
Peter M. Head,
um especialista em manuscritos do Novo
Testamento, escreve:
«Eu não penso que (o ponto) seja pontuação. Certamente não é da produção
do escriba original: não existe nada como ele em todos os espaços (a pontuação no Vaticanus
é feita quase inteiramente apenas
pelo espaçamento), ele não se parece com
um ponto, mas mais como um borrão ou como você disse, uma mancha; e, o
espaçamento está completamente errado para a pontuação feita pelo escriba original. Penso que poderá
ter sido acrescentado mais tarde por alguém que quis repontuar o texto, mas todavia
não estou convencido de que a cor é a mesma do outro
material introduzido pelo potenciador/acentuador, de modo que você deve atribuí-lo a um desconhecido leitor/pontuador» [5].
Portanto, o máximo que pode ser dito é que,
se o ponto
é pontuação intencional,
não foi copiado de um exemplar primitivo pelo
escriba original, mas foi
introduzido - por uma razão
desconhecida - por alguém desconhecido num momento incerto.
Mas se se
pudesse estabelecer que a marca é intencional e data do século IV (por mais improvável que isso pareça) – isso
forneceria suporte antigo para a
pontuação da tradução do Novo Mundo? Sim e não. Forneceria evidência além do
Siríaco Curetoniano que alguém há
muito tempo, devido à ambiguidade
do Grego, entendeu (ou
mal-entendeu) o versículo como a Torre
de Vigia faz. Mas isso não provaria
nada em relação ao que Lucas entendia. Os académicos
textuais que pontuam
os nossos autorizados Novos Testamentos Gregos não o fazem com base na
pontuação de manuscritos
antigos:
A presença de marcas de pontuação em manuscritos antigos do Novo Testamento é tão esporádica e aleatória
que não se pode inferir com confiança a construção dada pelo pontuador à
passagem [6].
Portanto, a
presença de um sinal de pontuação (se tal
ele for) num manuscrito antigo não
nos diz nada sobre como pontuar
corretamente Lucas 23:43. A pontuação correta é
uma questão de exegese, e não de
crítica textual [7].
Fonte: Baseado num escrito de Robert Hommel, em linha aqui
Notas
[1] "O ponto no topo da linha (·)
(stigmh teleia,
'ponto alto') era um ponto final; aqueles sobre a linha (.)
(upostigmh)
era equivalente ao nosso ponto e vírgula, enquanto um ponto médio (stigmh mesh) era equivalente à nossa vírgula. Mas gradualmente surgiram mudanças sobre
estas pausas até que o ponto alto tornou-se equivalente aos nossos dois pontos, o ponto baixo tornou-se um ponto final, e o ponto médio desapareceu, e por volta do século IX dC a vírgula (,) tomou o
seu lugar" (Robertson, Grammar, p. 242).
[2] Ver nota 1. No entanto, a
pontuação em manuscritos antigos,
e particularmente no Codex Vaticanus, estava longe de ser consistente. Por conseguinte, devemos
admitir que é possível
que um escriba ou
corretor pudesse usar um ponto-baixo de uma forma consistente com a nossa vírgula moderna, no entanto dado o facto de que o ponto-baixo não parece
ter sido usado de modo nenhum pelo escriba do século IV
ou pelo seu corretor
contemporâneo, ao mesmo tempo que eles
(raramente) usaram tanto o ponto-alto
como o ponto-médio, parece muito improvável que um deles fizesse isso aqui. Robertson
diz: "B tem
o ponto-alto como um período,
e o ponto-baixo para uma pausa curta" (Ibid.).
No entanto, Robertson não diz que o
"ponto baixo" foi feito pelo escriba original ou pelo seu corretor do século IV.
[3] Metzger, p. 155 (c.f., pp. 459-462). Enquanto
estava a preparar este artigo, correspondi-me brevemente com o Dr. Wieland
Willker sobre a suposta vírgula no Vaticanus. O Dr. Willker tem uma página
dedicada ao Codex Vaticanus e um Comentário Textual sobre os Evangelhos Gregos on-line. Como resultado
de nossa correspondência, o Dr. Willker adicionou informações sobre o ponto no
Vaticanus na terceira edição do seu Comentário. O Dr. Willker concorda que o
ponto é "de origem desconhecida", e não é feito pelo escriba original.
Ele conclui:
«O ponto em B
não é de muita relevância porque a
questão da pontuação existe
independente dele. A pontuação, se havia alguma,
era, como a ortografia, irregular nos manuscritos antigos. Qualquer pontuação em
manuscritos antigos é MUITO duvidosa. A pontuação na Nestle-Aland ou GNT NUNCA é baseada numa pontuação de
um Manuscrito. É SEMPRE uma decisão baseada na gramática, sintaxe,
linguística e exegese» (Willker, Textual Commentary, p. 436, ênfase no original).
O Dr. Willker enumera
as seguintes manuscritos que
colocam hoti
depois de legô, enfatizando assim que "hoje" qualifica "estarás comigo ...": L, 892, L1627, b, c,
Co, e Sy-S. Ele
enumera AM 118 PS8, 11 (1,8), Apo,
e Hil como
manuscritos que fazem a mesma coisa com sintaxe diferente.
[4] Finegan, pp. 127-28.
[5]
Peter M. Head,
PhD, e-mail pessoal para Robert Hommel,
datado de 11/1/2005. Larry W. Hurtado, PhD, também
suspeita que a marca é uma mancha ou borrão e
não um sinal de pontuação
(e-mail pessoal para Robert
Hommel, datado de 1/5/2005).
Bibliografia
Robertson, Archibald Thomas. 1934. A Grammar of the
Greek New Testament: in the Light of Historical Research. Nashville, TN:
Broadman Press. (Robertson, Grammar)
Metzger, Bruce M.
1975. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 3rd Edition.
Stuttgart, Germany: United Bible Societies.
Finegan, J. 1974. Encountering New Testament Manuscripts. Grand Rapids, MI:
Eerdmans.
|