No Novo Testamento, os irmãos de Jesus são mencionados em várias ocasiões:
Mateus 12:46-47;
Mateus 13:55;
Marcos 3:31-32;
Marcos 6:3;
Lucas 8:19-20;
João 2:12;
João 7:3-10;
Atos 1:14;
1 Coríntios 9:5;
Gálatas 1:19;
É legítimo perguntar quem eram eles e qual era a sua relação exata com Jesus. Antes de analisar as diferentes explicações, recorde-se que a palavra grega adelphos (irmão) comporta vários significados:
1. O significado primário é a relação de consanguinidade entre pessoas nascidas dos mesmos pais, ou apenas do mesmo pai ou da mesma mãe (o sentido habitual de "irmão" em português). Encontram-se numerosos exemplos deste uso, como por exemplo:
Mateus 1:2 (Judá e os seus irmãos, adelphoi)
Mateus 1:11 (Jeconias e os seus irmãos)
Mateus 4:18 (dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e o seu irmão André)
Mateus 4:21 (outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, o seu irmão)
Lucas 3:1 (Herodes, tetrarca da Galileia, e o seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia)
João 1:40 (André, irmão de Simão Pedro)
2. Secundariamente, pode aludir a parentes próximos, segundo o costume hebraico de chamar "irmão" (hebraico ach) a familiares de diversos graus. É o caso de Ló, sobrinho de Abrão, e de Jacó, sobrinho de Labão:
Génesis 13:8 (Abrão disse a Ló: «... somos irmãos»)
Génesis 29:15 (Labão disse a Jacó: «Por seres meu irmão, hás de servir-me de graça?»)
Uma das razões para este costume é o facto de não existir, no hebraico bíblico, uma palavra específica para "sobrinho" ou "primo". Contudo, existem termos para "tio" e "tia" (respetivamente dod, em Levítico 10:4 e 20:20, e dodah, em Levítico 18:14), bem como para "descendente" ou "posteridade" (neked, em Génesis 21:23, Jó 18:19 e Isaías 14:22).
3. Em sentido ainda mais amplo, o termo "irmão" é utilizado para designar laços étnicos, nacionais ou de pertença ao mesmo povo:
Atos 2:29 («Irmãos, seja-me permitido dizer-vos livremente...»)
Atos 2:37 (... disseram a Pedro e aos restantes apóstolos: «Irmãos, que faremos?»)
4. Por fim, a palavra pode também ser usada para designar vínculos espirituais e religiosos:
Mateus 18:15 («Se o teu irmão pecar contra ti...»)
Mateus 18:21 («Senhor, quantas vezes perdoarei ao meu irmão...?»)
Atos 15:23-24 («Os apóstolos, os anciãos e os irmãos, aos irmãos de entre os gentios...»)
Romanos 1:13 («Não quero, porém, irmãos, que ignoreis...»)
1 Coríntios 1:10 («Rogo-vos, irmãos...»)
Ora, no tema que nos ocupa, estes dois últimos usos devem ser descartados no caso dos irmãos e irmãs de Jesus. O terceiro por ser demasiado amplo para o contexto destas passagens, e o quarto — referente a vínculos espirituais ou religiosos — porque vários textos sublinham a incredulidade dos irmãos de Jesus antes da ressurreição (como se vê em João 7:5). Voltaremos a este ponto mais à frente.
Resta, portanto, explorar as duas primeiras possibilidades.
1.
TRATAVA-SE DE "IRMÃOS" NO SENTIDO HABITUAL DO TERMO
Dentro desta interpretação, cabem duas hipóteses:
a) Eram filhos de José e Maria, nascidos depois de Jesus
Esta explicação é sugerida por Mateus 1:25, onde se afirma que José não conheceu Maria (no sentido bíblico de ter relações íntimas com ela) até Jesus nascer. No mesmo sentido aponta Lucas 2:23, onde Jesus é chamado primogénito. Todavia, estes textos não são conclusivos por si sós. Quanto ao primeiro, pode argumentar-se que Mateus se limita a vincar o facto da concepção virginal, sem dizer explicitamente nada sobre o que ocorreu após o nascimento de Jesus. Em relação ao termo «primogénito», é possível sustentar que se trata de um título jurídico/técnico para designar o primeiro filho nascido, sem que tal implique a existência de outros irmãos.
Se não soubéssemos mais nada, as objeções mencionadas deixariam o assunto como um problema insolúvel. No entanto, os quatro evangelistas canónicos mencionam como um facto assente a existência dos irmãos de Jesus. Do mesmo modo, o apóstolo Paulo refere-se a eles, mencionando expressamente Tiago. Em nenhum destes textos se insinua que fossem outra coisa que não irmãos consanguíneos, no sentido habitual do termo, e, portanto, filhos de Maria.
Esta posição é reforçada quando se analisa a forma como os irmãos e as irmãs de Jesus são mencionados em Mateus 13:54-56:
Chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal modo que se maravilhavam e diziam: "De onde lhe vem esta sabedoria e estes poderes milagrosos? Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não se chama Maria, e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem todas entre nós? De onde lhe vem, pois, tudo isto?"
Neste texto alude-se ao pai putativo de Jesus, seguido da sua mãe, dos seus irmãos e das suas irmãs. Descreve-se, assim, um núcleo familiar primário: pai, mãe, irmãos e irmãs.
A isto deve acrescentar-se que, embora no Novo Testamento não se use o termo anepsios (que significa "primo"), aparece outro vocábulo que designa coletivamente a "parentela": sungeneia (Lucas 1:61; Atos 7:3, 14). Este vocábulo deriva de sungenes (ou sungenes/sungeneus), que significa "parente", e é usado repetidamente no Novo Testamento (Marcos 6:4; Lucas 1:58; 2:44; 14:12; 21:16; João 18:26; Atos 10:24; Romanos 9:3; 16:7, 11, 21). Conforme se lê em Lucas 1:36, o anjo Gabriel chama a Isabel «parenta» (sungenis) de Maria, e não sua «irmã» (adelphe).
As objeções comuns contra esta interpretação são:
a) Que Maria não poderia ter tido outros filhos, visto ter feito um voto de virgindade. Esta ideia procura fundamento na pergunta de Maria ao anjo Gabriel, após este lhe ter anunciado que iria conceber: «Como será isso, se eu não conheço homem?». A interpretação desta simples declaração — que pode naturalmente entender-se como uma reação ingénua de surpresa perante o anúncio angélico — no sentido de um voto de virgindade perpétua remonta aos finais do século IV, quando foi proposta por Gregório de Nissa (c. 330-395). Todavia, o apoio do próprio texto bíblico para esta inferência é extremamente ténue, para dizer o mínimo. O mesmo se conclui da ausência de evidência histórica sobre mulheres judias noivas ou casadas que assumissem tal compromisso: no judaísmo do século I, a procriação era tida como um dever religioso fundamental (mitzvah) e a prática do celibato, quando ocorria em grupos ascéticos específicos, implicava a abstenção total do matrimónio e não a sua celebração em continência.
b) A segunda objeção assenta no facto de os irmãos de Jesus nunca serem chamados "filhos de Maria". Embora isto seja verdade, explica-se facilmente pelo facto de os evangelistas e Paulo aludirem aos familiares de Jesus sob a perspetiva do seu parentesco com ele, e não com Maria. Do mesmo modo que Maria é designada como "a mãe do Senhor", Tiago e os restantes são referidos como "seus irmãos" e "suas irmãs" — ou seja, do Senhor.
c) A terceira objeção sustenta que, se se tratasse de irmãos mais novos de Jesus, estes jamais se teriam atrevido a questionar o seu ministério, dada a autoridade habitualmente reconhecida ao primogénito na cultura judaica. A isto pode responder-se:
1) Não se pode esperar demasiada coerência da parte de quem, como eles, pretendia nada menos que travar a ação de Jesus;
2) Se pensavam seriamente que Jesus não estava apenas equivocado, mas sim «fora de si», quaisquer considerações relativas à primogenitura passariam para segundo plano;
3) Não há qualquer razão para supor que parentes mais afastados tivessem maior ascendente sobre Jesus do que os seus próprios irmãos mais novos.
d) A quarta objeção sustenta que, a terem sido filhos de José e Maria, seria difícil explicar como um destes irmãos tinha o nome do seu pai. No entanto, a objeção carece de força: embora esta prática fosse inusitada nos tempos do Antigo Testamento, o mesmo já não acontecia no século I da nossa era.
«Em períodos posteriores, a patronímia (dar a um filho o nome do próprio pai: cf. Lucas 1:59-61) e a paponímia (dar a um filho o nome do seu avô) eram práticas bastante comuns. O costume generalizou-se durante o período persa, o que pode explicar a identificação popular de Dario com Ciro (se for essa a intenção) em Daniel 6:28 (v. 29 no Texto Massorético)...
Quando um cargo era hereditário, como no caso da realeza e do sacerdócio, havia uma tendência para reutilizar frequentemente os nomes próprios em gerações sucessivas. Além disso, após o período do Exílio da Judeia, a escolha dos nomes raramente se baseava em acontecimentos associados ao nascimento, a julgar, em especial, pela relativa popularidade da patronímia e da paponímia...»
"Names, proper", em International Standard Bible Encyclopedia. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1986, vol. 3, pp. 486, 487-488.
Um exemplo do Novo Testamento onde este costume se observa surge a propósito de João Batista: aqueles que vieram circuncidar o menino queriam dar-lhe o nome do seu pai, Zacarias. Foi Isabel, seguindo a indicação do próprio Zacarias, que impediu tal intenção e declarou por escrito que o filho se chamaria João. O facto causou grande estranheza aos presentes, pois ninguém na família tinha esse nome (Lucas 1:57-64). A propósito deste texto, o dominicano Manuel de Tuya escreve:
«Embora primitivamente assim não se fizesse, na época neotestamentária o nome era atribuído no dia da circuncisão. Costumava dar-se o nome do avô e, embora fosse raro atribuir-lhes o nome do próprio pai, havia casos em que tal acontecia no judaísmo tardio. Por isso, dada a idade avançada de Zacarias, queriam dar ao menino o seu nome.»
Evangelho de São Lucas, em Biblia Comentada por Professores de Salamanca. 3.ª ed. Madrid: BAC, 1977, vol. Va, p. 35.
Além deste exemplo do Novo Testamento, o referido autor cita o caso do pai e do avô de Herodes, o Grande, que se chamavam ambos Antipas (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XIV, 1, 3), bem como o de Anano, filho de Anano, que desempenhou as funções de sumo sacerdote no ano 62 da nossa era, sob o procurador Albino (ibid., XX, 9, 1). Pelo que não é de todo estranho que um filho de José e Maria tivesse o nome do seu pai.
e) A quinta objeção sustenta que, se os irmãos de Jesus fossem seus consanguíneos, seria incompreensível que o Senhor, do alto da cruz, tivesse confiado a sua mãe, Maria, ao cuidado do discípulo amado em vez de a entregar aos seus próprios irmãos. A resposta mais simples a esta objeção é que os seus irmãos — que não criam Nele e que tinham tentado afastá-lo do seu ministério — não estavam presentes junto à cruz, ao contrário do que acontecia com Maria e com o discípulo amado. Durante o seu ministério terreno, o Senhor anunciou que as famílias se dividiriam por causa Dele (Lucas 12:49-53) e insistiu na prioridade absoluta do parentesco espiritual sobre o carnal (Mateus 10:37; 12:46-50 e paralelos; Marcos 10:29). Sendo provável que os seus irmãos, por não crerem Nele, não compreendessem Maria, o discípulo amado — tão próximo do Senhor — era a pessoa perfeitamente indicada para acolher e cuidar da sua fiel mãe.
Quando Mateus 1:25 e Lucas 2:23 são lidos no contexto das dez passagens que se referem aos irmãos do Senhor, torna-se evidente a força cumulativa dos argumentos sustentados por estes dados. Por outras palavras, esta hipótese é a que exige menos conjeturas e a que melhor se fundamenta no testemunho das Escrituras.
Assim o entendeu, entre os Padres da Igreja, Tertuliano, no início do século III:
«“Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” ... Ele estava justamente indignado por pessoas que Lhe eram tão próximas permanecerem fora, enquanto estranhos se encontravam no interior, atentos às Suas palavras. Tal indignação é ainda mais compreensível sabendo-se que a Sua mãe e os Seus irmãos procuravam desviá-Lo da solene obra que tinha em mãos. Mais do que renegá-los, desautorizou-os. Portanto, à pergunta inicial — “Quem é a minha mãe, e quem são os meus irmãos?” —, acrescentou a resposta: “Não são outros senão aqueles que ouvem as minhas palavras e as praticam”. Deste modo, transferiu os termos dos laços de consanguinidade para outros que considerava mais intimamente unidos a Si devido à sua fé. ... Não é de surpreender que tenha preferido aqueles que tinham fé aos Seus próprios parentes, que careciam de tal fé.»
(Contra Marcião, IV, 19; cf. igualmente Sobre a Carne de Cristo, 7).
Esta posição foi igualmente defendida no século IV por Helvídio. Contudo, por parecer a alguns impossível — se não intolerável — a ideia de que Maria tivesse sido mãe de muitos outros filhos além de Jesus, formularam-se outras hipóteses com o intuito de sustentar a noção de que Maria jamais deu à luz qualquer outro filho além do seu primogénito. Analisaremos de seguida duas dessas hipóteses.
b) Eram filhos de José de um matrimónio anterior
Segundo esta hipótese, José teria sido casado antes de unir-se a Maria. Assim, os irmãos e irmãs de Jesus não seriam seus parentes consanguíneos, mas antes filhos de José de um primeiro casamento, partilhando com Jesus apenas o mesmo pai legal e adotivo.
A fonte desta interpretação encontra-se nos evangelhos apócrifos, em particular no Protoevangelho de Tiago. Nesta obra, que deverá datar da segunda metade do século II, narra-se que Maria foi criada no Templo. Contudo, quando completou doze anos, os sacerdotes decidiram procurar-lhe um esposo para a retirar dali e evitar que profanasse o santuário. Zacarias consultou o Senhor, e um anjo ordenou-lhe que convocasse todos os viúvos para escolher um marido, dando o Senhor um sinal para que se soubesse quem era o eleito. Entre eles estava José, sobre quem pousou uma pomba.
«E o sacerdote disse a José: "Coube-te em sorte receber em custódia a virgem do Senhor." Mas José respondeu-lhe: "Tenho filhos e sou velho, ao passo que ela é uma jovem. Oponho-me, pois; caso contrário, serei motivo de riso para os filhos de Israel." O sacerdote disse então a José: "Teme o Senhor, teu Deus [...]". E José teve medo e recebeu-a sob a sua custódia.» (9:1-2)
Esta mesma narrativa é essencialmente repetida por obras apócrifas posteriores, tais como a História de José, o Carpinteiro (datada dos séculos IV ou V) e o Evangelho do Pseudo-Mateus (composto em latim, provavelmente nos séculos VIII ou IX). Na História de José..., os nomes dos filhos de José são apresentados como "Judas, Justo, Tiago e Simeão", acrescentando-se ainda os das filhas: Lísia e Lídia.
Entre os Padres da Igreja, o primeiro a sugerir a ideia de que os irmãos de Jesus seriam, na realidade, filhos de José foi Clemente de Alexandria, nos finais do século II:
«Judas, o autor da epístola católica, era irmão dos filhos de José. Tratava-se de um homem profundamente piedoso. Apesar de conhecer a sua relação de proximidade com o Senhor, não afirma ser Seu irmão. Mas o que diz ele? "Judas, servo de Jesus Cristo" — reconhecendo-O como Senhor —, mas "irmão de Tiago". Pois isso era verdade: Judas era seu irmão por via de José.»
(Comentário sobre a Epístola de Judas, conservado nos Fragmentos de Cassiodoro)
No século III, Orígenes, que considerava Clemente seu mestre, dá conta desta mesma tradição:
«Alguns afirmam, fundamentando-se numa tradição do chamado Evangelho segundo Pedro ou no Livro de Tiago [o espúrio Protoevangelho de Tiago], que os irmãos de Jesus eram filhos de José de uma esposa anterior, com quem ele casara antes de Maria.»
(Comentário sobre Mateus, X, 17)
O principal defensor desta explicação — que permanece, até hoje, a posição oficial das Igrejas Ortodoxas Orientais — foi Epifânio, no século IV. Esta hipótese admite algumas variantes. Segundo uma delas, sugerida por Teofilacto, os irmãos de Jesus seriam filhos de José cumprindo a lei do levirato, mediante a qual este teria gerado descendência com a viúva de Cléofas, seu falecido irmão. Segundo outra variante, seriam verdadeiros filhos de Cléofas e, portanto, sobrinhos de José, que este teria adotado.
Eusébio de Cesareia regista uma tradição neste sentido relativamente a outro dos irmãos do Senhor, Simão:
«Depois do martírio de Tiago e da tomada de Jerusalém, que se seguiu imediatamente, é tradição que os apóstolos e discípulos do Senhor que ainda viviam reuniram-se de todas as partes num mesmo lugar, junto com os que eram da família do Senhor segundo a carne (pois muitos deles ainda viviam), e todos celebraram um conselho sobre quem seria considerado digno de suceder a Tiago, e todos, por unanimidade, decidiram que Simeão, o filho de Clopas (Symeôn ton tou Klôpa) – mencionado também pelo texto do Evangelho - era digno do trono daquela igreja, por ser primo (anepsios) do Salvador, pelo menos segundo se diz, pois Hegésipo refere que Clopas era irmão de José.»
(História Eclesiástica, III, 11, 1)
Hegésipo confundiu aqui os nomes, visto que tanto os Apóstolos chamados "Simão" (isto é, Pedro e o Zelote) como o irmão de Jesus mencionado em Mateus 13:55 e Marcos 6:3 se escrevem Simôn (Σίμων). A única personagem com o nome Symeôn (Συμεών) mencionada nos Evangelhos é o ancião que profetizou no Templo (Lucas 2:25-34).
Regressando à hipótese principal desta parte — a de que os irmãos de Jesus seriam filhos de um casamento anterior de José —, cumpre sublinhar que não existe a menor evidência bíblica a sustentá-la, sendo a sua origem apócrifa e tardia o suficiente para a tornar, por si só, extremamente duvidosa. Os supostos filhos de José não figuram em parte alguma nos relatos da natividade de Jesus, nem nas escassas alusões à sua infância; adicionalmente, o cumprimento da Lei em Lucas 2:23 atribui a Jesus o estatuto legal de primogénito na própria linhagem de José, o que pressupõe que Ele era o primeiro filho varão daquele lar e daquele pai.
Uma objeção comum a ambas as hipóteses apresentadas até aqui — isto é, a de que os irmãos fossem filhos de José de um casamento anterior ou filhos de José e Maria — reside no facto de estes não serem mencionados no episódio de Jesus no Templo aos doze anos (Lucas 2:41-52). É certo que não são referidos explicitamente, mas importa considerar que o texto também não afirma que apenas José, Maria e Jesus subiram a Jerusalém. O relato fala de uma comitiva ou caravana integrada por muitas pessoas, entre as quais familiares. O propósito da narrativa não exigia, de modo algum, a menção explícita dos irmãos de Jesus.
2. ERAM PARENTES PRÓXIMOS DE JESUS, POSSIVELMENTE PRIMOS
Esta explicação foi proposta inicialmente por Jerónimo e, mais tarde, aceite por Agostinho de Hipona e por outros Padres da Igreja. É a posição da Igreja de Roma. Entre os Reformadores, Lutero aceitou-a, embora sem caráter dogmático, tendo sido posteriormente mantida por teólogos como Chemnitz, Bengel e outros.
Em essência, segundo este ponto de vista, os irmãos de Jesus eram seus primos por via materna e, portanto, consanguíneos. Teriam sido filhos de Alfeu — que seria a mesma pessoa que Cléofas — e da irmã de Maria, a qual também se chamava Maria. Esta Maria, tia de Jesus, é a que é descrita como «mãe de Tiago e de José» (Mateus 27:56) e como «mãe de Tiago, o Menor, e de José» (Marcos 15:40).
De acordo com esta tese, dado que três dos nomes dos irmãos de Jesus figuram nas listas dos apóstolos (Tiago, Judas e Simão) e que Tiago é designado filho de Alfeu, seria uma coincidência extraordinária que, para além dos seus primos, Jesus tivesse irmãos com exatamente os mesmos nomes. Por outro lado, o facto de um dos Tiagos ser chamado «o Menor» indicaria a existência de apenas dois Tiagos no círculo íntimo do Senhor: Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, e Tiago, filho de Alfeu e primo de Jesus.
Alguns sustentam que Maria terá ido viver com a sua irmã após a morte do seu esposo José, o que explicaria o facto de surgir acompanhada pelos seus sobrinhos quando foi ver Jesus. Outros, pelo contrário, veem no facto de Jesus ter confiado o cuidado da sua mãe ao discípulo amado (João 19:25-27) uma indicação de que a relação dela com os sobrinhos não seria particularmente estreita.
Para avaliar a plausibilidade desta hipótese, é necessário rever cuidadosamente diversas passagens bíblicas. Quatro dos irmãos de Jesus são identificados pelo nome em relatos paralelos de Mateus e de Marcos:
Mateus 13:54-56
E, chegando à sua terra, ensinava-os na sua sinagoga, de tal modo que eles se maravilhavam e diziam: "De onde Lhe vem esta sabedoria e estes poderes milagrosos? Não é Este o filho do carpinteiro? A sua mãe não se chama Maria, e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não estão todas entre nós? De onde Lhe vem, pois, tudo isto
Marcos 6: 1-3
Jesus saiu dali e foi para a sua terra, e os seus discípulos acompanhavam-no. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e os muitos que O ouviam ficavam admirados e diziam: "De onde Lhe vêm estas coisas? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E como se realizam tais milagres pelas Suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as Suas irmãs aqui entre nós?" E escandalizavam-se por causa Dele.
Ambos os textos apresentam a lista dos irmãos do Senhor pelo nome. As duas passagens coincidem exatamente nos quatro nomes: Tiago, José, Judas e Simão.
O nome Iákôbos pode traduzir-se como Jacó, Tiago e, em certos contextos, Jaime. No texto que se segue, adotou-se sistematicamente a forma «Tiago». Há um Tiago que é chamado explicitamente «o irmão do Senhor» em Gálatas 1:19. Fora do Novo Testamento, o historiador judeu Flávio Josefo refere-se a ele nos seguintes termos, a propósito da morte do procurador Festo na Judeia e da sua substituição por Albino, no ano 62:
«Sendo Anano [o sumo sacerdote] deste caráter e julgando ter encontrado uma boa oportunidade — uma vez que Festo tinha morrido e Albino estava ainda a caminho —, convocou o Sinédrio. Trouxe a julgamento o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago, juntamente com alguns outros. Acusou-os de serem infratores da Lei e condenou-os ao apedrejamento.»
(Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XX, 9, 1 [200])
Trata-se, provavelmente, do mesmo Tiago que veio a tornar-se uma «coluna» da Igreja de Jerusalém, a par de Cefas (Pedro) e João (Gálatas 2:9). É provável que todas as seguintes passagens se refiram ao mesmo Tiago, irmão do Senhor: Atos 12:17, 15:13, 21:18; 1 Coríntios 15:7 e Gálatas 2:12. A tradição — representada por autores como Clemente de Alexandria e Orígenes — aceita que foi este Tiago, «irmão do Senhor», quem escreveu a epístola que traz o seu nome. O relato de Eusébio de Cesareia é, a este respeito, particularmente elucidativo:
«Ao apelar Paulo ao César e ser enviado por Festo à cidade de Roma, os judeus, frustrada a esperança que os induziu a conspirar contra ele, voltaram-se contra Tiago, o irmão do Senhor, a quem os apóstolos tinham confiado o trono episcopal de Jerusalém ...
O modo como ocorreu a morte de Tiago já foi esclarecido pelas palavras citadas de Clemente ... Mas quem conta com maior exatidão tudo o que a ele se refere é Hegésipo, que pertence à primeira geração sucessora dos apóstolos e que, no livro V de suas Memórias, diz assim:
"Sucessor na direção da Igreja é, junto com os apóstolos, Tiago, o irmão do Senhor. Todos dão-lhe o sobrenome de 'Justo', desde os tempos do Senhor até os nossos, pois eram muitos os que se chamavam Tiago..."»
"Sucessor na direção da Igreja é, junto com os apóstolos, Tiago, o irmão do Senhor. Todos dão-lhe o sobrenome de 'Justo', desde os tempos do Senhor até os nossos, pois eram muitos os que se chamavam Tiago..."»
Historia Eclesiástica II, 23: 1,3-4; a narração ocupa todo o resto do capítulo.
Refira-se, a propósito, que Eusébio conservou também de Hegésipo a seguinte referência aos descendentes de Judas, irmão de Jesus:
«O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de David, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descendentes de Judas – que era irmão do Salvador segundo a carne (adelphon kata sarka tou soteros) –, com o pretexto de que eram da família de David e parentes (syngeneian) do próprio Cristo. Isto é o que declara Hegésipo quando diz textualmente:
"Da família do Senhor viviam ainda os netos de Judas, seu irmão segundo a carne, aos quais delataram por serem da família de David... O evocatus conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo. E perguntou-lhes se descendiam de David; eles o admitiram..."»
Ibid, III, 19-20
AS MULHERES JUNTO À CRUZ E NA RESSURREIÇÃO
Voltando à hipótese em análise, supõe-se que este Tiago é igualmente chamado Tiago, (filho) de Alfeu, e Tiago, o Menor, para o distinguir do seu homónimo, o filho de Zebedeu. Tal identificação baseia-se sobretudo nas listas das mulheres que presenciaram a crucificação e das que compraram ou prepararam perfumes para ungir o corpo do Senhor. Os textos relevantes são os seguintes:
Mateus 27:55-56
Estavam ali, a olhar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia para o servir. Entre elas encontravam-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
Marcos 15:40-41
Estavam também ali algumas mulheres a olhar de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé. Estas acompanhavam-no e serviam-no quando ele estava na Galileia, além de muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém.
Lucas 23:49
Todos os seus conhecidos e as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia estavam a olhar de longe, a observar estas coisas.
João 19:25
Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Mateus 28:1
Passado o sábado, ... Maria Madalena e a outra Maria foram visitar o sepulcro.
Marcos 16:1
Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, a de Tiago, e Salomé compraram aromas para o irem ungir.
Lucas 23:55
As mulheres que o tinham acompanhado desde a Galileia foram atrás dele e viram o sepulcro, bem como o modo como o seu corpo ali fora depositado. Regressando a casa, prepararam aromas e perfumes; e, no sábado, guardaram o descanso, segundo o mandamento.
Lucas 24:10
Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; estas e as outras mulheres que as acompanhavam contaram estas coisas aos apóstolos.
João 20:1
No primeiro dia da semana, de manhã cedo, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao sepulcro e viu que a pedra tinha sido retirada da entrada.
Todos os relatos que referem nomes incluem Maria Madalena. Entre as restantes mulheres explicitamente identificadas pelo nome contam-se:
a) Maria, mãe de Tiago e de José (Mateus) — que é, com toda a probabilidade, a Maria mãe de Tiago, o Menor, e de José, referida como «Maria, a de Tiago» (Marcos) — e, talvez, a mãe de Tiago mencionada por Lucas.
b) Maria, a de Cléofas. O texto grego não especifica que fosse esposa de Cléofas, podendo, do mesmo modo, tratar-se da sua filha.
c) «A outra Maria» (Mateus 28:1), possivelmente a mesma pessoa referida na alínea a).
d) Salomé.
e) Joana.
Algumas mulheres são mencionadas com a indicação das suas relações de parentesco:
a) A mãe dos filhos de Zebedeu (possivelmente Salomé; cf. Mateus 27:56 e Marcos 15:40)
b) A irmã da mãe de Jesus (cf. João 19:25)
Uma complicação adicional decorre do facto de não ser claro se João 19:25 se refere a três ou a quatro mulheres. Concretamente: será a irmã da mãe do Senhor a mesma mulher chamada Maria de Cléofas?
Embora o texto grego não seja conclusivo e admita ambas as leituras, outras considerações levam a crer que João se refere a quatro mulheres e não a três. Em primeiro lugar, se a irmã da mãe de Jesus fosse Maria de Cléofas, isso significaria que duas irmãs tinham o mesmo nome — o que seria um facto bastante invulgar.
Num manuscrito (B de Tischendorf) do Evangelho do Pseudo-Mateus, explica-se que esta Maria era filha de Ana (mãe da Bem-Aventurada Maria) e que nascera das segundas núpcias de Ana com Cléofas. Nesse caso, a expressão "Maria de Cléofas" deveria ler-se como "Maria, (filha) de Cléofas". A razão de ambas as irmãs terem o mesmo nome, segundo este apócrifo, deve-se ao facto de esta ter sido dada a Ana como compensação por ter consagrado a primeira Maria a Deus. Segundo a mesma narrativa, esta segunda Maria, filha de Cléofas, casou-se com Alfeu e foi mãe de "Tiago, o filho de Alfeu, e de Filipe, seu irmão [sic]". Tendo morrido o seu segundo marido, Ana casou-se com um terceiro esposo chamado Salomé [sic], de quem teve uma terceira filha. Chamou-lhe igualmente Maria e deu-a como esposa a Zebedeu, da qual nasceram "Tiago, o filho de Zebedeu, e João, o Evangelista".
Esta história rocambolesca é, obviamente, uma tentativa bastante rebuscada de justificar a existência de três Marias que teriam sido irmãs por parte de mãe, bem como de apresentar como primos de Jesus os apóstolos Tiago e João (filhos de Zebedeu) e Tiago (filho de Alfeu) e Filipe. Desde logo, não existe a menor evidência histórica ou textual que sustente estes laços de parentesco tal como o Pseudo-Mateus os apresenta.
O argumento baseado na lista das mulheres junto à cruz e das que foram ungir o corpo de Jesus na manhã da ressurreição assume, atualmente, uma forma mais subtil. Para o compreender, torna-se necessário rever em primeiro lugar as listas dos Apóstolos, na medida em que se procura demonstrar que um ou mais irmãos de Jesus eram filhos de outra mãe e se contavam entre os seus discípulos.
LISTAS DE APÓSTOLOS
Os Doze são listados em quatro passagens do Novo Testamento, como se segue:
Mateus 10:2-4
Simão Pedro
seu irmão André
Tiago de Zebedeu
João seu irmão
Filipe
Bartolomeu
Tomé
Mateus o publicano
Tiago de Alfeu
Tadeu
Simão Zelote
Judas Iscariotes
Marcos 3:16-19
Simão Pedro
Tiago
João irmão de Tiago
André
Filipe
Bartolomeu
Mateus
Tomé
Mateus
Tomé
Tiago de Alfeu
Tadeu
Simão Cananeu
Judas Iscariotes
Lucas 6:14-16
Simão Pedro
André seu irmão
Tiago
João
Filipe
Bartolomeu
Mateus
Tomé
Bartolomeu
Mateus
Tomé
Tiago de Alfeu
Simão Zelote
Judas de Tiago
Judas Iscariotes
Atos 1:13
Pedro
Tiago
João
André
João
André
Filipe
Tomé
Bartolomeu
Mateus
Tomé
Bartolomeu
Mateus
Tiago de Alfeu
Simão Zelote
Judas de Tiago
[lugar vago]
Destas listas, destaca-se o seguinte:
1. As quatro listas são encabeçadas por Simão Pedro.
2. Nas três listas anteriores ao suicídio de Judas Iscariotes, o seu nome figura em último lugar; na dos Atos, é omitido.
3. As quatro listas dividem-se em três grupos de quatro nomes (quaterniões), cada um invariavelmente encabeçado por Pedro, Filipe e Tiago de Alfeu.
4. As restantes posições apresentam variações de ordem.
a) No primeiro grupo, André, irmão de Pedro, figura em segundo lugar nas listas de Mateus e Lucas, mas aparece atrás de Tiago de Zebedeu e do seu irmão João nas de Marcos e dos Atos. Esta variação explica-se pela proeminência de Pedro, Tiago e João em relação aos restantes Doze.
b) No segundo grupo, Bartolomeu surge a seguir a Filipe nos três Evangelhos, surgindo porém atrás de Tomé nos Atos. Já Mateus ocupa a última posição do grupo no seu próprio Evangelho e nos Atos, lugar que é atribuído a Tomé por Marcos e Lucas.
c) No terceiro grupo, Simão, o Zelote, ocupa o segundo lugar (imediatamente a seguir a Tiago de Alfeu) em Lucas e nos Atos, mas surge em terceiro lugar, depois de Tadeu, em Mateus e Marcos.
5. Tadeu, que figura em segundo lugar no terceiro grupo em Mateus e Marcos, corresponde a Judas de Tiago em Lucas e nos Atos.
6. São mencionadas explicitamente duas parelhas de irmãos:
a) Pedro e André, nos Evangelhos de Mateus e Lucas
b) Tiago de Zebedeu e João, em Mateus e Marcos.
7. Nos casos do primeiro Tiago em Mateus e do segundo Tiago nas quatro listas, acrescenta-se um genitivo: respetivamente, Tiago (o) de Zebedeu e Tiago (o) de Alfeu. A maioria das versões traduz este genitivo como um patronímico: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu.
8. As listas de Mateus e Marcos mencionam Tadeu, o que representa provavelmente um cognome — forma grega do hebraico tadday ("peito"). Isto é sugerido, além disso, pela variante Lebeu (do hebraico leb, "coração") presente em alguns manuscritos, bem como pela conflação "Lebeu, também chamado Tadeu", que se encontra em algumas testemunhas do Evangelho de Mateus. Ambas as alcunhas podem traduzir as mesmas qualidades: ternura, integridade ou coragem. Este apóstolo é designado por Lucas (no Evangelho e nos Atos) como "Judas de Tiago". Embora diversas versões traduzam "Judas, irmão de Tiago", o texto grego não inclui a palavra "irmão" (adelphos), ao contrário do que faz relativamente a Pedro em relação a André ou a João em relação a Tiago de Zebedeu. Outras versões, por seu lado, traduzem "Judas, filho de Tiago", embora também a palavra grega correspondente (huios) não figure no texto. Contudo, considerar Judas como "filho de Tiago" é a forma mais natural de entender a expressão — ou seja, como um genitivo de filiação, uma estrutura aplicada exatamente do mesmo modo a Tiago de Zebedeu e a Tiago de Alfeu.
A propósito da identidade de Judas, autor da carta homónima — que é identificado explicitamente como «irmão de Tiago» —, refere o comentarista católico José Salguero:
«No Novo Testamento, quando o parentesco é expresso por um genitivo a seguir a um nome, pretende-se designar uma relação não de fraternidade, mas de paternidade. O Judas do Evangelho é filho de Tiago, tratando-se, portanto, de um indivíduo distinto do nosso Judas, irmão de Tiago. Por conseguinte, é provável que o Judas autor da nossa epístola e irmão de Tiago não seja apóstolo, tal como o próprio Tiago.»
José Salguero, O.P., «Epístola de San Judas», em Profesores de Salamanca: Biblia Comentada, vol. VII. Madrid: BAC, 1965, p. 277 (negrito acrescentado).
Face a este uso habitual e ao facto de, diferentemente das duplas Pedro–André e Tiago–João (explicitamente designadas como de irmãos), não se constatar o mesmo quanto a Tiago de Alfeu e Judas de Tiago, torna-se altamente provável que não estejamos perante outro grupo de irmãos, mas antes perante filhos de pais distintos.
OS EVANGELISTAS NOMEIAM A MÃE DE TIAGO DE ALFEU?
O argumento a que aludimos antes de apresentar e discutir as listas dos Apóstolos baseia-se no seguinte:
1. Além de Maria Madalena, os Evangelhos sinópticos mencionam explicitamente «outra Maria»: «a mãe de Tiago e de José» (Mateus); «a mãe de Tiago, o Menor, e de José» (Marcos); e «Maria, a mãe de Tiago» (Marcos e Lucas).
2. O Evangelho de João menciona a mãe do Senhor e a irmã da sua mãe, «Maria de Cléofas», mas não faz menção dos seus filhos.
3. Dado que, à exceção de Maria Madalena, é a única Maria mencionada pelo nome, a Maria mãe de Tiago, o Menor, e de José deve ser a mesma Maria de Cléofas.
4. Tiago, o Menor, pode ter-se chamado assim em contraposição a Tiago, filho de Zebedeu; se este figura na lista dos Apóstolos, deve corresponder ao outro Tiago, chamado «de Alfeu».
5. Ora, os nomes Alfeu e Cléofas podem constituir diferentes transliterações gregas do mesmo nome aramaico (Halfai).
6. Portanto, Tiago, o Menor, seria o Tiago filho de Alfeu/Cléofas e de Maria, a irmã da Bem-Aventurada Maria — sendo, por conseguinte, primo-irmão de Jesus.
Quem tenha acompanhado atentamente o texto perceberá a quantidade de suposições que este argumento implica. Contudo, em prol da clareza, enumerá-las-emos em seguida:
a) A expressão «Tiago, o Menor» não implica que existissem apenas dois Tiagos. No grego original, a expressão não funciona como um comparativo: significa, na realidade, «o pequeno», «o jovem» ou «o baixinho», aludindo provavelmente à sua juventude ou a uma estatura invulgarmente baixa. Alude-se aqui a uma característica própria deste Tiago, e não a uma comparação com outro. Por conseguinte, este texto não exclui a existência de outros homens com o nome Tiago além de Tiago de Zebedeu e de Tiago de Alfeu.
b) Os três Evangelhos sinópticos deixam claro que havia todo um grupo de mulheres, das quais mencionam apenas algumas. Quando Mateus alude à «outra Maria» além da Madalena, refere-se, com toda a probabilidade, à outra Maria que ele próprio já nomeara: a mãe de Tiago e de José. Contudo, não é claro que fosse a única outra Maria do grupo e que se deva, por isso, identificar com Maria de Cléofas. Na verdade, João, que menciona esta última, refere também a mãe de Jesus além de Maria de Cléofas e de Maria Madalena, pelo que sabemos com certeza que no grupo das mulheres galileias havia pelo menos três Marias, e talvez mais.
c) Como nenhum dos evangelistas afirma explicitamente que Maria, a mãe de Tiago, o Menor, é a mesma pessoa que Maria de Cléofas, não é possível identificá-las sem margem para dúvidas.
d) Adicionalmente, a identificação de Cléofas com Alfeu, o pai de Tiago, o Apóstolo, assenta numa mera conjetura linguística.
A isto deve acrescentar-se a estranha anomalia de que os mesmos evangelistas que mencionam pelo nome quatro irmãos de Jesus — Mateus e Marcos — ao referirem-se à mulher em questão, nomeiam apenas Tiago e José, sem qualquer alusão a Simão e Judas. Dado que nada mais sabemos acerca deste José, é possível que se trate de uma pessoa distinta do irmão de Jesus; o mesmo se pode aplicar ao seu irmão Tiago, o Menor.
Em resumo, não há forma de identificar de modo inequívoco Tiago, o Menor, irmão de José, com Tiago (filho) de Alfeu.
No entanto, existe evidência adicional que demonstra — tão conclusivamente quanto o permite a análise histórica — que os irmãos do Senhor não pertenciam ao grupo dos discípulos. Com efeito, no Novo Testamento, os irmãos do Senhor são consistemente mencionados como um grupo distinto do dos Doze.
TEXTOS QUE MENCIONAM OS IRMÃOS DO SENHOR E OS DOZE APÓSTOLOS COMO GRUPOS DISTINTOS
João 2:12
Depois disto, desceu a Cafarnaum, ele [Jesus], a sua mãe, os seus irmãos e os seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias.
Atos 1:13-14
Quando chegaram, subiram ao cenáculo, onde se encontravam habitualmente Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas de Tiago. Todos estes perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, Maria, mãe de Jesus, e os seus irmãos.
1 Coríntios 9:5
Não temos nós o direito de nos fazer acompanhar por uma esposa crente, como fazem os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas?
ANTES DA RESSURREIÇÃO DE JESUS, OS SEUS IRMÃOS NÃO CRIAM NELE
Mateus 12:46-50
Ainda Ele falava às multidões, quando a sua mãe e os seus irmãos surgiram do lado de fora, procurando falar-lhe. Alguém lhe disse: "Eis que a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo." Ele, porém, respondeu a quem o avisava: "Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?" E, estendendo a mão para os seus discípulos, disse: "Eis aqui a minha mãe e os meus irmãos! Pois todo aquele que fizer a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe."
Marcos 3:14-21, 31-35
Então designou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar e para que tivessem o poder de curar as enfermidades e expulsar os demónios: Simão, ..., Tiago de Zebedeu, e João, irmão de Tiago,...; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão o cananeu, e Judas Iscariotes, o que o entregou. E foram para uma casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal maneira que nem
sequer podiam comer pão. Quando os seus ouviram isso, vieram para o prender, porque diziam: «Está fora de si».
(segue-se uma discussão com os escribas, vv. 22-30)
Chegaram então os seus irmãos e a sua mãe e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. E a multidão estava sentada ao redor dele, e
disseram-lhe: Eis que a tua mãe e os teus irmãos te procuram, e estão lá fora. Ele ele lhes respondeu, dizendo: Quem é a minha mãe e os meus irmãos? E olhando para os que estavam sentados à volta dele, disse: Eis aqui a minha mãe e os meus irmãos, porque todo aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
Lucas 8:1-2, 4, 19-21
Aconteceu depois que Jesus ia por todas as cidades e aldeias, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus. Acompanhavam-no os doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades... Juntando-se uma grande multidão e os que de cada cidade vinham ter com ele, disse-lhes por parábola....
Então a sua mãe e os seus irmãos vieram ter com ele; mas não podiam aproximar-se dele por causa da multidão. E o avisaram, dizendo: A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem ver-te. Ele então respondendo, lhes disse: Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a observam.
Embora difiram em vários pormenores, os três relatos sinópticos coincidem — como demonstram as expressões assinaladas a negrito — no facto de os discípulos estarem junto do Senhor, ao passo que a mãe e os irmãos de Jesus se encontravam do lado de fora, afastados. A conclusão de que se trata de dois grupos distintos é, portanto, inevitável. Marcos explica, além disso, o motivo da visita: vinham para o levar pela força, pois pensavam que estava fora de si.
João 6:66-68; 7:1-5
Desde então muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam com ele. Disse então Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, a quem iremos nós? Tu tens palavras de vida eterna. E nós cremos e conhecemos que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. Depois disto andava Jesus pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. Estava próxima a festa dos judeus, a dos Tabernáculos, e lhe disseram os seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes, porque ninguém que procura dar-se a conhecer faz algo em segredo. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Porque nem mesmo os seus irmãos criam nele.
Aqui, os próprios irmãos de Jesus distinguem-se a si mesmos dos discípulos. Além disso, os Doze, representados por Pedro, acabavam de confessar que criam nEle, ao passo que, segundo João, os seus irmãos não criam nEle. Trata-se, portanto — de forma ainda mais clara do que em João 2:12 —, de dois grupos distintos: um crente, o outro incrédulo.
CONCLUSÕES
1. O Novo Testamento (sem contar com as fontes históricas) faz referência aos familiares de Jesus, por vezes no contexto do seu núcleo familiar primário, utilizando consistentemente a palavra grega para «irmãos» ou «irmãs» sem qualquer qualificação ou esclarecimento.
2. Não existe qualquer dado consistente que indique que estes «irmãos» fossem outra coisa que não filhos de José e Maria.
3. Os irmãos de Jesus não podem ser identificados com nenhum dos apóstolos ou discípulos em particular.
4. Os irmãos de Jesus eram incrédulos antes da ressurreição.
5. Os irmãos de Jesus são claramente distinguidos dos seus discípulos.
6. Portanto, a interpretação que apresenta maior sustentação e objeções menos relevantes é a de que se tratava de meios-irmãos de Jesus, isto é, filhos de Maria e José.
