"O Concílio de Trento
havia condenado categoricamente as proposições de Lutero e Calvino acerca da
graça e da predestinação. Mas havia quem temesse que uma interpretação extrema
das decisões desse concílio pudesse vir a contradizer os ensinos do grande
mestre Santo Agostinho acerca desses temas. Portanto, desde o fim do século
XVI, particularmente nas universidades de Salamanca e Louvain, suscitaram-se
disputas sobre a graça, predestinação e o livre-arbítrio."
(Justo L. González,
História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 294)
"Essa explosão
ocorreu várias décadas mais tarde, em torno de Cornélio Jansénio, bispo de
Ypres, na Bélgica e, antes, professor de Louvain. Em 1640, publicou-se,
postumamente, a volumosa obra de Jansénio, Agostinho, que causou grande
agitação.
A obra em si não pretendia
ser mais que um estudo e exposição dos ensinamentos do grande bispo de Hipona.
Mas, o que Jansénio propunha com ela, era mostrar que Agostinho havia ensinado
a primazia e necessidade da graça de um modo que não concordava com as
doutrinas comumente aceites pela igreja — propostas principalmente pelos
jesuítas. Esta era uma tarefa a que Jansénio havia se consagrado secretamente,
anos antes, para a qual se propunha a ler e reler todas as obras de Agostinho,
tantas vezes quantas fossem necessárias. Portanto, o seu livro apresentava
argumentos contundentes com os quais confirmava a sua interpretação de
Agostinho e não podia, senão, causar sérias controvérsias.
De facto, o Agostinho de
Jansénio era parte de todo um programa de reformas da igreja. Vários anos
antes, Jansénio tinha discutido este programa com seu amigo João Ambrósio
Duvergier, mais conhecido como 'São Cirano', por ser abade do mosteiro deste
nome. Ambos haviam chegado à conclusão de que a igreja necessitava de uma
reforma fundamental e que, parte dessa reforma, devia consistir numa redescoberta
das doutrinas de Santo Agostinho acerca da graça e da predestinação.
De acordo com o ponto de
vista de Jansénio e São Cirano, durante a Idade Média, a igreja havia perdido
de vista a mensagem da graça imerecida de Deus e, em data mais recente, no meio
de sua polémica contra o protestantismo, simplesmente havia insistido nos seus
erros medievais. Estes dois amigos juramentaram-se para levar a igreja a uma
redescoberta da primazia da graça e do sentido do evangelho, que, quando se lê,
vê-se à luz dessa primazia. Não eram, nem queriam ser protestantes. Mas estavam
conscientes de que o seu programa de reforma era tal que, se não se cuidassem,
os condenariam como protestantes.
(Justo L. González,
História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 298)
"Mas também era certo
que o que Jansénio atribuía ao venerado bispo do século quarto se parecia muito
com o que Calvino e seus seguidores haviam proposto em data muito mais recente.
Em sua obra, Jansénio tratava de mostrar que as suas doutrinas eram distintas
das de Calvino. Mas os seus argumentos não eram suficientes e, em todo caso,
baseavam-se em distinções bastante subtis."
(Justo L. González,
História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 301)
O jansenismo foi um
reavivamento católico, no período pós-Reforma, da teologia agostiniana,
iniciado pelo bispo flamengo de Ypres, Cornelius Jansenius (Jansénio), no
século XVII. Os jansenistas eram uma espécie de "calvinistas
católicos", predestinistas estritos que se opunham ao semipelagianismo de Roma.
Seguindo o agostinismo, defendiam que a graça seria concedida através da
predestinação incondicional, contrariando a teoria de que seriam as "boas
obras", realizadas de acordo com o livre-arbítrio característico do ser
humano, a fazer recair sobre si (ou não) a graça divina. Da mesma forma, o
jansenismo considerava que o pecado original inclinou o género humano para o
mal. Um dos seus aderentes mais ilustres foi o matemático, físico e filósofo
Blaise Pascal.
Os principais opositores
do jansenismo dentro do catolicismo foram os jesuítas (molinistas) que,
influenciados pelo humanismo renascentista, passaram a pregar a importância do
livre-arbítrio e da colaboração da vontade humana na salvação, considerando que
a persistência na tradição agostiniana favoreceria o calvinismo emergente.
Ao condenar o jansenismo,
a Igreja de Roma anatematizou a tradição agostiniana que ocupava um lugar
honroso no catolicismo antes de o calvinismo se tornar intolerável. Algo de
semelhante aconteceu com a doutrina da justificação pela fé após Lutero passar
a professá-la. A teologia católica da Contrarreforma era reacionária, tornando
suspeita qualquer formulação que soasse familiar às teses de Genebra ou de
Wittenberg.
P.S. Lendo alguns textos
sobre o jansenismo aqui, é fascinante ver como o catolicismo predominante em
vários países europeus, durante uma boa parte do século XVIII, era mais parecido
com uma Igreja protestante do que com a Igreja Católica Romana pós-Vaticano I.