24 de julho de 2021

A eleição incondicional é arbitrária?


Quando se diz no jargão teológico que a predestinação/eleição é incondicional é no sentido de que a escolha de Deus não é baseada no mérito humano ou na recetividade prevista do Evangelho.

Isso não significa que a eleição é uma escolha arbitrária de Deus. Deus tem razões para eleger alguns indivíduos e reprovar outros. Os seres humanos são agentes. Um mundo no qual houvesse uma distribuição diferente de eleitos e réprobos teria uma história mundial diferente. Se Deus reprovasse Abraão, isso mudaria o curso da história mundial. A eleição leva em consideração o enredo que Deus prefere. 

21 de julho de 2021

ROMA AO CONDENAR O JANSENISMO ANATEMATIZOU A TEOLOGIA DE AGOSTINHO DE HIPONA


"O Concílio de Trento havia condenado categoricamente as proposições de Lutero e Calvino acerca da graça e da predestinação. Mas havia quem temesse que uma interpretação extrema das decisões desse concílio pudesse vir a contradizer os ensinos do grande mestre Santo Agostinho acerca desses temas. Portanto, desde o fim do século XVI, particularmente nas universidades de Salamanca e Louvain, suscitaram-se disputas sobre a graça, predestinação e o livre-arbítrio."

(Justo L. González, História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 294)

"Essa explosão ocorreu várias décadas mais tarde, em torno de Cornélio Jansénio, bispo de Ypres, na Bélgica e, antes, professor de Louvain. Em 1640, publicou-se, postumamente, a volumosa obra de Jansénio, Agostinho, que causou grande agitação.

A obra em si não pretendia ser mais que um estudo e exposição dos ensinamentos do grande bispo de Hipona. Mas, o que Jansénio propunha com ela, era mostrar que Agostinho havia ensinado a primazia e necessidade da graça de um modo que não concordava com as doutrinas comumente aceites pela igreja — propostas principalmente pelos jesuítas. Esta era uma tarefa a que Jansénio havia se consagrado secretamente, anos antes, para a qual se propunha a ler e reler todas as obras de Agostinho, tantas vezes quantas fossem necessárias. Portanto, o seu livro apresentava argumentos contundentes com os quais confirmava a sua interpretação de Agostinho e não podia, senão, causar sérias controvérsias.

De facto, o Agostinho de Jansénio era parte de todo um programa de reformas da igreja. Vários anos antes, Jansénio tinha discutido este programa com seu amigo João Ambrósio Duvergier, mais conhecido como 'São Cirano', por ser abade do mosteiro deste nome. Ambos haviam chegado à conclusão de que a igreja necessitava de uma reforma fundamental e que, parte dessa reforma, devia consistir numa redescoberta das doutrinas de Santo Agostinho acerca da graça e da predestinação.

De acordo com o ponto de vista de Jansénio e São Cirano, durante a Idade Média, a igreja havia perdido de vista a mensagem da graça imerecida de Deus e, em data mais recente, no meio de sua polémica contra o protestantismo, simplesmente havia insistido nos seus erros medievais. Estes dois amigos juramentaram-se para levar a igreja a uma redescoberta da primazia da graça e do sentido do evangelho, que, quando se lê, vê-se à luz dessa primazia. Não eram, nem queriam ser protestantes. Mas estavam conscientes de que o seu programa de reforma era tal que, se não se cuidassem, os condenariam como protestantes.

(Justo L. González, História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 298)

"Mas também era certo que o que Jansénio atribuía ao venerado bispo do século quarto se parecia muito com o que Calvino e seus seguidores haviam proposto em data muito mais recente. Em sua obra, Jansénio tratava de mostrar que as suas doutrinas eram distintas das de Calvino. Mas os seus argumentos não eram suficientes e, em todo caso, baseavam-se em distinções bastante subtis."

(Justo L. González, História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 8, p. 301)

O jansenismo foi um reavivamento católico, no período pós-Reforma, da teologia agostiniana, iniciado pelo bispo flamengo de Ypres, Cornelius Jansenius (Jansénio), no século XVII. Os jansenistas eram uma espécie de "calvinistas católicos", predestinistas estritos que se opunham ao semipelagianismo de Roma. Seguindo o agostinismo, defendiam que a graça seria concedida através da predestinação incondicional, contrariando a teoria de que seriam as "boas obras", realizadas de acordo com o livre-arbítrio característico do ser humano, a fazer recair sobre si (ou não) a graça divina. Da mesma forma, o jansenismo considerava que o pecado original inclinou o género humano para o mal. Um dos seus aderentes mais ilustres foi o matemático, físico e filósofo Blaise Pascal.

Os principais opositores do jansenismo dentro do catolicismo foram os jesuítas (molinistas) que, influenciados pelo humanismo renascentista, passaram a pregar a importância do livre-arbítrio e da colaboração da vontade humana na salvação, considerando que a persistência na tradição agostiniana favoreceria o calvinismo emergente.

Ao condenar o jansenismo, a Igreja de Roma anatematizou a tradição agostiniana que ocupava um lugar honroso no catolicismo antes de o calvinismo se tornar intolerável. Algo de semelhante aconteceu com a doutrina da justificação pela fé após Lutero passar a professá-la. A teologia católica da Contrarreforma era reacionária, tornando suspeita qualquer formulação que soasse familiar às teses de Genebra ou de Wittenberg.


P.S. Lendo alguns textos sobre o jansenismo aqui, é fascinante ver como o catolicismo predominante em vários países europeus, durante uma boa parte do século XVIII, era mais parecido com uma Igreja protestante do que com a Igreja Católica Romana pós-Vaticano I.

20 de julho de 2021

SEIS ESTADOS DE NEGAÇÃO CATÓLICOS

 

1. A igreja de Roma é a Noiva de Cristo. Sem o Magistério Romano, estaríamos perdidos na selva, forçados a nos defendermos por nós próprios.

2. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo que os sacerdotes, a hierarquia ou o papa fazem, mas apenas pelo que é oficialmente ensinado.

3. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo que o papa diz ocasionalmente, mas apenas quando fala ex cathedra. Tudo o mais é falível.

4. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo ensino herético do Catecismo da Igreja Católica porque ele é falível.

5. A igreja de Roma não pode ser falsificada pelo ensino conciliar herético, porque isso apenas mostra que o concílio não foi ecuménico. Mesmo que um papa definisse solenemente uma heresia como doutrina irreformável, isso não pode falsificar a igreja de Roma. Um papa herético é um antipapa, não um verdadeiro papa. A heresia ex cathedra é uma contradição de termos. Portanto, nada em princípio ou na prática, nada na história, nada no papel, pode falsificar a igreja de Roma.

6. O dogma é o nosso ponto de referência para separar o ensino de fide do ensino falível ou herético. Contamos com o ensino magisterial para saber o que é dogma e contamos com o dogma para saber o que é o ensino magisterial. A igreja de Roma é a única verdadeira Igreja® porque ela diz que é a única verdadeira Igreja®. A Igreja Católica Romana está sempre certa - exceto quando está errada. E pode-se perceber a diferença usando o dogma para peneirar o Magistério e, ao mesmo tempo, usar o Magistério para peneirar o dogma. O dogma é o ponto de partida. A menos que o Magistério seja o ponto de partida. Na dúvida, lança-se ao ar uma moeda de São Judas Tadeu.

7 de julho de 2021

O antissemitismo/judeofobia é antibíblico

 

Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades. E este será o meu concerto com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:25-29)

Os Judeus desobedientes são inimigos do Evangelho (porque endurecidos por Deus) mas amados por causa dos pais. Portanto, longe de nós qualquer sentimento de inimizade ou menosprezo para com o povo judeu. [1]

Quando então a plenitude dos gentios for alcançada, o endurecimento parcial de Deus sobre Israel será retirado e todo o Israel será salvo.

Porque assim como vós também, antigamente, fostes desobedientes a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim também estes, agora, foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós demonstrada. Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia. Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!” (Romanos 11:30-36)


[1] Isto não significa que devamos apoiar de modo especial o atual Estado secular de Israel. É um Estado que deve ser encarado como qualquer outro Estado do mundo. Como aliás, a maioria dos judeus ortodoxos também encaram. Para eles, o atual Estado de Israel é um fenómeno neutro do ponto de vista religioso.