29 de novembro de 2010

COMO PODEM OS PROTESTANTES SER APOSTÓLICOS SE AS SUAS IGREJAS NÃO REMONTAM SEQUER AOS ÚLTIMOS 700 ANOS?


A Igreja de Roma orgulha-se de ser apostólica por afirmar ter uma sucessão ininterrupta de bispos que remonta ao século I. Esta pretensão é totalmente falsa, a começar pelo facto de faltar o primeiro elo da cadeia: não há evidência de que a Igreja de Roma tenha sido fundada pessoalmente por Pedro, nem de que ele tenha sido o seu primeiro bispo. Historicamente, a própria estrutura de um episcopado monárquico (um único bispo) só se consolidou em Roma em meados do século II, sendo a liderança inicial exercida por um conselho colegial de presbíteros.

Além disso, a alegação é falsa porque, em muitas ocasiões, o cargo foi disputado por dois ou mais pretendentes, sem que um deles representasse claramente a suposta "linha de sucessão".

É também falsa porque houve bispos de Roma que foram impostos ou apoiados diretamente pelo poder imperial.

E é falsa porque, durante o Grande Cisma do Ocidente no século XV, o Concílio de Constança teve de depor três papas rivais para nomear um quarto no seu lugar.

Portanto, por razões históricas bem conhecidas, Roma não pode reivindicar uma "sucessão apostólica ininterrupta".

A única sucessão apostólica válida é a perseverança na doutrina dos apóstolos, tal como ela se expressa no Novo Testamento (cf. Atos 2:42; Efésios 2:20). Esta fidelidade ao ensino bíblico é a única prova necessária e suficiente da apostolicidade de uma congregação, quer tenha sido fundada há vinte séculos, quer ontem. E, com os acréscimos e as distorções que fez à doutrina apostólica, Roma é precisamente quem falha em demonstrar a verdadeira apostolicidade. 

27 de novembro de 2010

O CÂNON 28 DE CALCEDÓNIA


No IV Concílio Ecuménico, reunido em Calcedónia em 451, aprovou-se, entre outros, o seguinte vigésimo oitavo cânon:

Citação:

Seguindo em tudo as decisões dos santos Padres e reconhecendo o cânon, que acaba de ser lido, dos Cento e Cinquenta bispos amadíssimos de Deus (que se reuniram na cidade imperial de Constantinopla, a qual é a Nova Roma, no tempo do imperador Teodósio, de feliz memória), nós também estabelecemos e decretamos as mesmas coisas relativamente aos privilégios da santíssima Igreja de Constantinopla, que é a Nova Roma. Pois os Padres concederam justamente privilégios ao trono da antiga Roma, porque era a cidade régia. Movidos pela mesma consideração, os Cento e Cinquenta religiosíssimos bispos, deram iguais privilégios (isa presbeia) ao santíssimo trono da Nova Roma, julgando com razão que a cidade honrada com a presença do Imperador e do Senado, e que goza de iguais privilégios com a antiga Roma imperial, devia em assuntos eclesiásticos também ser magnificada como ela é, e contada a seguir a ela, de modo que, nas dioceses do Ponto, da Ásia e da Trácia, os metropolitanos, bem como os bispos das referidas dioceses situados entre os bárbaros, deviam ser ordenados pelo santíssimo trono da santíssima Igreja de Constantinopla; ordenando cada metropolitano destas dioceses, juntamente com os bispos da sua província, os seus próprios bispos provinciais, conforme prescrevem os divinos cânones; porém, como acima se disse, os metropolitanos das dioceses mencionadas deviam ser ordenados pelo arcebispo de Constantinopla, após realizarem as devidas eleições segundo o costume e de estas lhe serem comunicadas.

Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series (= NPNF2). General Editors Philip Schaff, Henry Wace. Vol. 14, The Seven Ecumenical Councils. Volume Ed. Henry R. Percival. Grand Rapids: Eerdmans , Reprint 1988, p. 287.

Este cânon foi o último dos propostos na 16ª sessão de 31 de outubro. Os legados papais tinham-se retirado (apesar de não desconhecerem a proposta), mas apresentaram no dia seguinte, na última sessão, um protesto formal. O cânon permaneceu, ainda assim, válido: fora subscrito licitamente por quase duzentos bispos, entre os quais estavam os de sedes que poderiam sentir-se menosprezadas pela decisão (como Antioquia e Jerusalém). Diversas alegações dos legados, que incluíram o apelo a um acréscimo romano a um cânon do Concílio de Niceia, foram rejeitadas pelo sínodo.

Os «Cento e Cinquenta religiosíssimos bispos» a que se alude foram os que participaram no II Concílio Ecuménico (Constantinopla, 381). O terceiro cânon desse Concílio estabelecia o seguinte:

Citação:

O bispo de Constantinopla, no entanto, terá a prerrogativa de honra depois do bispo de Roma; porque Constantinopla é a Nova Roma.

NPNF2 14:178

O Papa Leão Magno recusou-se a subscrever o cânon 28 de Calcedónia e não reconheceu o cânon 3 de Constantinopla, no qual aquele se baseava, alegando que este nunca tinha sido enviado a Roma e que era uma violação da ordem nicena. A primeira alegação era provavelmente falsa, e a segunda era-o com toda a certeza. O cânon 6 de Niceia (325) não fixava uma ordem de precedência de honra, mas limitava-se a estabelecer e confirmar certos privilégios para as sedes de Alexandria e Antioquia:

Citação:

Que prevaleçam os antigos costumes no Egipto, Líbia e Pentápolis, que o bispo de Alexandria tenha jurisdição sobre todas estas regiões, já que o mesmo é habitual também para o bispo de Roma. De igual modo, em Antioquia e nas demais províncias, que as Igrejas conservem os seus privilégios...

NPNF2 14:15

Contudo, em Roma e nas suas zonas de influência, este cânon circulava com o acréscimo «A Igreja de Roma teve sempre a primazia».

Leão escreveu ao imperador Marciano (Ep. 104) e à imperatriz Pulquéria (Ep. 105) contra Anatólio, patriarca de Constantinopla, que, segundo o Papa, procurava apenas o seu próprio interesse. Entre outras coisas, argumentava que, por mais que a cidade de Constantinopla fosse de categoria imperial, «todavia, as coisas seculares assentam numa base diferente da das coisas divinas» (Ep. 104, NPNF2 12:75). Contudo, é claro que o fundamento apresentado tanto no terceiro cânon de Constantinopla como no seu homólogo de Calcedónia assenta, quer para Constantinopla quer para Roma, na sua categoria imperial, sem qualquer menção a uma autoridade apostólica. Dito de forma simples, concedem a estas cidades o seu lugar de honra devido à sua importância como metrópoles do Império.

Leão escreveu também uma dura reprovação ao próprio Anatólio (Ep. 106), o que explica o tom defensivo da resposta deste (Ep. 108). Na sua carta a Pulquéria, Leão recusa-se a reconhecer a autoridade dos mesmos bispos que, no Concílio, haviam aclamado o seu Tomo:

Citação:

Quanto aos assentimentos dos bispos que se opõem às disposições dos santos cânones compostos em Niceia, juntamente com a cooperação da vossa fidelíssima Graça, não os reconhecemos e, pela autoridade do bem-aventurado apóstolo Pedro, anulamo-los categoricamente nos termos mais amplos. Obedecendo, em todas as causas eclesiásticas, às leis que o Espírito Santo promulgou através dos 318 bispos para a pacífica observância de todos os sacerdotes, estabelecemos que, ainda que um número muito maior sancionasse um decreto diferente do deles, tudo o que for oposto à constituição deles não merecerá qualquer respeito.

Ep. 105 (NPNF2 12:77)

O escrito dogmático de Leão fora recebido pelo Concílio com expressões como "Pela boca de Leão falou Pedro!" e "Leão fala como Cirilo!" (em referência a Cirilo de Alexandria, campeão da ortodoxia em Éfeso, 431), a que acrescia a carta sumamente elogiosa e quase aduladora que os orientais lhe haviam dirigido (Ep. 98). No entanto, os seus inflamados protestos contra o cânon 28 não tiveram qualquer efeito sobre os orientais. A sede romana mantinha o seu lugar de honra entre os cinco patriarcados, que incluíam também Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, mas não tinha poder para alterar unilateralmente a decisão de um Concílio Geral.

Citação:

Os Padres Conciliares receberam a leitura do documento de Leão com entusiasmo, declarando que «Pedro tinha falado através de Leão». Isto não passava daquilo em que o próprio Leão acreditava relativamente a todas as declarações papais... Os bispos reunidos em Calcedónia, contudo, não partilhavam de tal pressuposto. Eles reconheciam a especial dignidade e a honra da sede apostólica, mas não pressupunham por isto que qualquer coisa que o seu bispo dissesse devia ser verdade, e parecem ter acreditado que nesta particular ocasião Pedro tinha falado por meio de Leão. Eles adotaram a solução dele ao problema, portanto, não meramente porque era sua, mas porque a julgaram verdadeira. Para sublinhar este ponto, no cânon 28 do Concílio, reafirmaram o ensino do Concílio de Constantinopla, de que Constantinopla tinha precedência depois de Roma, «porque é a Nova Roma».

Eamon Duffy, Saints and Sinners: A History of the Popes. New Haven: Yale University Press, 1997, p. 35.

Numa atitude escandalosa, Leão retardou durante dois anos a sua ratificação dos cânones dogmáticos de Calcedónia – ratificação que era esperada de todos os bispos e, muito em especial, dos patriarcas - por causa do aborrecido cânon 28. Do mesmo modo, os seus sucessores imediatos recusaram-se taxativamente a reconhecer a Constantinopla, a «Nova Roma», a condição de segunda sede em honra.

Não obstante, os tempos mudam e com eles as prioridades.

Citação:

No Oitavo Concílio Geral em 869 [IV Constantinopla], os legados romanos (Mansi, XVI, 174) reconheceram Constantinopla como segunda na ordem patriarcal. Em 1215, no IV Concílio do Latrão (op. cit., XXII, 991), isto foi formalmente admitido para o novo patriarca latino, e em 1439, no Concílio de Florença, para o patriarca grego (Hefele-Leclercq, Hist. des Conciles, II, 25-27).

The Catholic Encyclopedia, vol. 4 (1908), s.v. Constantinople, First Council of.

De modo que, apesar de toda a argumentação de Leão e do recurso à sua «autoridade apostólica», a própria Igreja de Roma acabou, com o tempo, por acatar as disposições promulgadas pelos Concílios I de Constantinopla e de Calcedónia.

Concluo com um comentário de Karl Joseph Hefele (1809-1893), a maior autoridade católica do século XIX em matéria de história conciliar:

Citação:

Isto é, a prerrogativa atribuída à Igreja de Constantinopla é, apesar da oposição dos legados romanos, decretada pelo sínodo. Assim terminou o Concílio de Calcedónia, depois de se ter estendido por três semanas.

Não posso entender como é possível, depois de ler as atas precedentes, imaginar-se sequer por um instante que os bispos deste Concílio considerassem os direitos em discussão como sendo de origem divina, e que o ocupante da Sede de Roma fosse, jure divino, supremo sobre todos os pontífices. É bem possível, claro está, afirmar, como alguns fizeram, que as atas, tal como as possuímos, foram mutiladas; contudo, tal argumento não só encerra inúmeras dificuldades, como incorre em patentes absurdos. Ainda assim, não posso deixar de considerar que até esta hipótese extrema é preferível a qualquer tentativa de harmonizar as atas, tal como as possuímos, com a aceitação, por parte dos membros do concílio, da doutrina de uma supremacia papal jure divino, nos moldes em que é hoje professada pela Igreja Latina.

Hist Conc 3:428 (citado em NPNF2, 14:295).

15 de novembro de 2010

QUEM É MARIA?


Maria (Míriam) é a bem-aventurada jovem judia a quem Deus, por pura graça, escolheu para ser a mãe do Messias. Segundo a Bíblia, o anjo Gabriel anunciou a Maria esta singular eleição e o modo como, pelo poder do Espírito Santo de Deus, sem intervenção de varão, ela haveria de conceber (Mateus 1:18-21; Lucas 1:26-38).

Maria é uma verdadeira crente que foi obediente a Deus e deu à luz Jesus, o Messias ou Cristo, sem ter tido, até então, relações sexuais com o seu esposo José (Isaías 7:14; Mateus 1:22-25).

É um erro metafísico chamar Maria de "mãe de Deus", pois, apesar de ela ter gerado Jesus Cristo — pessoa que tem duas naturezas, a divina e a humana —, gerou-O apenas segundo a sua natureza humana. "Deus" denota a natureza divina de Cristo, e Maria não foi mãe da natureza divina, mas sim mãe da Pessoa segundo a sua natureza humana. As propriedades das duas naturezas não se podem misturar, sob pena de transformar Jesus num ser híbrido e não num ser com duas naturezas distintas. Como disse Agostinho de Hipona: «Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus e homem: como Deus não tinha mãe, como homem, sim. Maria era, pois, mãe da carne dele, mãe da sua humanidade.» (Tratados sobre o Evangelho de João, 8.8-9). 

Maria foi um modelo de esposa, de mãe e de crente. A sua fé e a sua obediência são um exemplo perpétuo para todos os cristãos. Isto é mostrado desde o princípio: depois de o anjo lhe ter anunciado o propósito de Deus, ela exclamou: «Eu sou a serva do Senhor; que faça comigo segundo a tua palavra» (Lucas 1:38). E, depois de ser saudada pela sua prima Isabel, Maria deu glória a Deus: «A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da sua serva; por isso, desde agora, todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (Lucas 1:46-48). "

Maria levou uma vida de oração e de meditação (Lucas 2:19). Nas bodas de Caná, disse aos serventes que obedecessem a Jesus: «Fazei tudo o que ele vos disser» (João 2:5). Sem dúvida, orou pelo ministério público de Jesus, embora apenas seja mencionada no início de tal período e no final deste, no Calvário (Marcos 3:31; João 19:25). A última vez que é nomeada na Bíblia, encontramo-la a orar com os demais discípulos. Quem lê o Novo Testamento sabe bem que, fora dessa menção em Atos 1:14, Maria apenas é mencionada nos Evangelhos — e sempre em relação à obra de Jesus Cristo. Paulo é o único apóstolo que, num contexto obviamente cristológico, alude a ela numa das suas cartas, e sem mencionar o seu nome: «...Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher...» (Gálatas 4:4).

Coerente com o seu interesse central na pessoa e na obra de Cristo, o NT não nos informa rigorosamente nada sobre a vida da bem-aventurada Maria antes da concepção de Jesus, nem depois do Pentecostes. Não nos diz como se chamavam os seus pais, se teve irmãos, nem onde, como e com que idade Maria faleceu.

Como não desejamos ir além do que Deus revelou na Sua Palavra, não podemos subscrever as seguintes doutrinas:

1. Que, por uma graça especial de Deus, a bem-aventurada Maria foi completamente livre de pecado desde a sua concepção.

"...declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha da culpa original no primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus, Salvador do género humano, foi revelada por Deus e deve, portanto, ser firme e constantemente crida por todos os fiéis..." (Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854)[1]

Ao contrário da concepção milagrosa de Jesus, a chamada Imaculada Conceição de Maria não tem fundamento bíblico. Pior ainda, contradiz o claro ensino apostólico que estabelece que o único sem pecado foi o nosso Senhor Jesus Cristo (Hebreus 4:15; ver também 1 Pedro 2:22). Quanto aos restantes, declara o Apóstolo Paulo: «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Romanos 3:23). As próprias palavras de Maria indicam que ela também se encontrava nesta triste condição, da qual teve de ser resgatada pela graça de Deus (Lucas 1:28, 47).

2. Que a bem-aventurada Maria permaneceu sempre virgem, tanto antes, como durante, como depois de dar à luz Jesus.

"O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria (cf DS 427) mesmo no parto do Filho de Deus feito homem (cf DS 291; 442; 503; 571; 1880). Com efeito, o nascimento de Cristo «não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal» da sua Mãe (LG 57). A liturgia da Igreja celebra Maria como a "Aeiparthenos", a «sempre Virgem» (cf LG 52) ... Maria «foi Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem no parto, Virgem depois do parto, Virgem sempre» (S. Agostinho, serm. 186,1); com todo o seu ser; ela é a «serva do Senhor» (Lc 1, 38)". (Catecismo da Igreja Católica, 499 e 510) [2]

O que a Bíblia claramente ensina é que ela era virgem ao conceber e que permaneceu em tal condição até ao nascimento de Jesus (Mateus 1:25). Embora a concepção de Jesus tenha sido um milagre operado pelo poder do Espírito Santo, é claro que a gravidez e o parto foram completamente normais, pois não se menciona nenhum milagre ligado a estes (Mateus 1:25; Lucas 2:6-7).

Não há nada nas Escrituras que afirme, implique ou exija a perpétua virgindade de Maria. Pelo contrário, o NT menciona em várias ocasiões os «irmãos e irmãs» de Jesus (Mateus 12:46-47; 13:56; Marcos 3:31-32; Lucas 8:19-20; João 2:12; 7:3-10; Atos 1:14; 1 Coríntios 9:5). Quem eram eles?

Antes de considerar diversas explicações, recordemos que a palavra grega adelphos (irmão) se refere primariamente a filhos da mesma mãe ou do mesmo pai (por exemplo, Mateus 1:2, 11; 4:18; Lucas 3:1, 19; João 1:40). Secundariamente, pode aludir a parentes próximos (Génesis 13:8), a vínculos raciais ou nacionais (Atos 2:29, 37; Romanos 9:3), ou a laços espirituais e religiosos (Mateus 18:15; Romanos 1:13). Ora, entender a expressão "os irmãos" de Jesus neste último sentido é impossível, pois eles são claramente distinguidos dos discípulos: «Depois disto, [Jesus] desceu a Cafarnaum com a sua mãe, os seus irmãos e os seus discípulos» (João 2:12). Por outro lado, durante o ministério terreno de Jesus, os seus irmãos não criam Nele (João 7:5). Consideremos, pois, outras explicações.

A) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos de um matrimónio anterior de José.

Segundo esta visão, que é a explicação oficial da Igreja Ortodoxa, José era um viúvo idoso quando se casou com Maria. No entanto, estes supostos irmãos mais velhos nunca são mencionados nas narrativas da infância de Jesus e, por outro lado, Lucas 2:23 refere que Jesus foi o primogénito da família, ou seja, o filho mais velho.

B) Os irmãos eram parentes próximos, por exemplo, primos.

Esta é a explicação corrente da Igreja Católica Romana e tem a seu favor o uso habitual do vocábulo hebraico ah (e do seu correspondente aramaico aha), "irmão", no sentido amplo de parente. No entanto, esta opinião apresenta vários pontos fracos.

Em primeiro lugar, não há nenhum exemplo claro deste uso no Novo Testamento. 

Em segundo lugar, nenhuma das listas de irmãos de Jesus que incluem nomes próprios menciona o seu parente mais famoso, ou seja, o seu primo João Batista.

Em terceiro lugar, parece decisivo o facto de os evangelistas, que escreveram em grego, fazerem sempre uma cuidadosa distinção entre um parente e um irmão em sentido próprio. Assim, o anjo Gabriel chama a Isabel, a prima de Maria, sua «parenta» (em grego, syngenis) e não sua «irmã» (Lucas 1:36). Segundo Marcos 6:4, Jesus disse: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes [em grego, syngeneis] e na sua própria casa [o núcleo familiar, pais e irmãos]». Vejam-se também Lucas 14:12 e 21:16.

Se os evangelistas quisessem referir-se aos parentes de Jesus, e não aos seus irmãos e irmãs carnais, com toda a probabilidade teriam usado o termo grego usual para o efeito, tal como Lucas faz em 1:58 e 2:44. Em vez disso, e sem qualquer esclarecimento, escreveram uniformemente «irmãos» (adelphoi).

C) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos da mesma mãe.

Esta é a explicação mais natural e evidente, e os que a rejeitam fazem-no por considerações dogmáticas e não pelos dados escriturais. Contrariamente ao que por vezes se insinua, esta opinião não menospreza de modo algum a bem-aventurada Maria, uma vez que, para os judeus, a fertilidade era um sinal de bênção divina.

Esta explicação óbvia tem sido rebatida com o argumento de que os irmãos de Jesus citados pelo nome em Mateus 13:55 e Marcos 6:3 — ou seja, Tiago, José, Judas e Simão — eram filhos de outras mulheres. Tal objeção baseia-se no facto de outras mulheres mencionadas no NT terem filhos com os mesmos nomes (ver, por exemplo, Mateus 27:56; 28:1; Marcos 10:35 comparado com Mateus 20:20; e Lucas 24:10). No entanto, no tempo de Jesus, todos estes nomes eram muito comuns, o que torna impossível provar que se trata das mesmas pessoas.

Outra objeção é a de que Tiago, o irmão do Senhor (ver Atos 12:17; 15:13), seria a mesma pessoa que Tiago, o Menor, um dos Doze Apóstolos, e, portanto, não um filho de Maria. Esta ideia baseia-se em Gálatas 1:19, onde Paulo chama «apóstolo» a Tiago, o irmão do Senhor (segundo esta opinião, talvez um primo). No entanto, é um facto que Paulo chamou «apóstolos» a cristãos que seguramente não pertenciam ao grupo dos Doze, como, por exemplo, Andrónico e Júnias (Romanos 16:7). A palavra grega apostolos significa «enviado», e tudo indica que Paulo a utilizou num sentido mais amplo. Em 1 Coríntios 15:5-7, Paulo menciona primeiro Cefas (Pedro) e os Doze e, depois, como se fosse um grupo diferente de cristãos, «Tiago e todos os apóstolos». O facto de um dos Tiagos mencionados no Evangelho ser chamado «o Menor» (ou «o Pequeno», ou «o Baixinho») não implica de modo algum que só houvesse dois Tiagos.

De qualquer modo, o facto decisivo é que os chamados «irmãos do Senhor» não figuravam entre os seus discípulos antes da Ressurreição, como se constata ao comparar João 7:5 («Porque nem mesmo os seus irmãos criam nele») com Atos 1:14 («Todos eles perseveravam unanimemente em oração, juntamente com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele»).

Outra objeção à posição que defendemos é a de que, se Jesus tivesse tido irmãos, ter-lhes-ia confiado o cuidado da sua mãe. Um momento de reflexão permitir-nos-á perceber que o mesmo se aplica aos seus outros supostos parentes: poderia ter confiado o cuidado de Maria a algum dos seus primos.

No entanto, para Jesus, o parentesco mais importante era o espiritual: «Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3:35). «E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher do meio da multidão exclamou: "Bem-aventurada a que te trouxe no seu ventre e os peitos que te amamentaram!" Mas ele respondeu: "Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!"» (Lucas 11:27-28). É, pois, natural que Jesus tenha depositado maior confiança no seu discípulo amado do que nos seus irmãos carnais.

3. Que a bem-aventurada Maria seja a mãe universal de todos os crentes

"Ou seja, que ela, pelo facto de ter dado à luz o Redentor do género humano, é também, de certo modo, mãe benigníssima de todos nós, a quem Cristo Senhor quis ter por irmãos. «Tal – diz o nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII - no-la deu Deus, que, pelo facto de a ter escolhido para mãe de seu Unigénito, lhe infundiu sentimentos verdadeiramente maternais... ; tal, com o seu modo de operar, no-la mostrou Jesus Cristo, ao querer estar voluntariamente submetido e obedecer a Maria como filho à sua mãe; tal no-la proclamou desde a cruz, quando, no discípulo João, confiou ao seu cuidado e amparo todo o género humano [João 19,26s]; tal, finalmente, se deu ela mesma, quando, ao abraçar generosamente aquela herança de imenso trabalho que o seu filho moribundo lhe deixava, começou imediatamente a cumprir todos os seus deveres de mãe»." (Pio XI, Encíclica Lux Veritatis de 25 de dezembro de 1931[3]; ver Concilio Vaticano II, Lumen Gentium 61-63 e Catecismo da Igreja Católica, 964-970).

O facto de Maria ter sido a mãe de Jesus na ordem terrena não implica que seja a sua mãe — e, por extensão, a nossa — também na ordem sobrenatural. Visto que Maria foi uma criatura que necessitou de redenção tanto como qualquer outro ser humano, de Adão em diante, a verdade é que, na ordem da salvação, esta «serva do Senhor» é uma irmã mais nova de Jesus Cristo, o Salvador, e uma filha adotiva do Pai celestial (veja-se Hebreus 2:10-18; João 1:12-13).

Enquanto padecia na cruz, Jesus disse à sua mãe, referindo-se ao seu discípulo amado (provavelmente o apóstolo João): «Mulher, eis o teu filho»; e ao discípulo: «Eis a tua mãe» (João 19:25-27). Estas palavras mostram a terna provisão de Jesus para com a sua mãe e implicam um encargo íntimo e familiar, feito pessoalmente a um dos discípulos e não a todos eles. Isto deveu-se, provavelmente, ao facto de este ser o único que estava presente no Calvário e, talvez, também ao afeto particular que Jesus sentia por ele.

Além disso, pelo contexto fica claro que era Maria quem necessitava do cuidado do discípulo, e não o contrário. O próprio texto diz-nos que ele honrou o encargo do Senhor, acolhendo na sua casa a idosa e presumivelmente viúva Maria: «E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa» (ou «levou-a para a sua casa»).

4. Que a bem-aventurada Maria foi assunta ao céu em corpo e alma

"... proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma à glória celestial." (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1 de novembro de 1950[4]; veja-se Catecismo da Igreja Católica, # 966, 974).

Temos a certeza de que a alma de Maria, tal como a de todos os crentes, está na presença gloriosa de Deus (vejam-se, por exemplo, Lucas 23:43; 2 Coríntios 5:1-10; Filipenses 1:21-23; Apocalipse 6:9-11; 7:9). Por outro lado, dado que a Bíblia não diz uma única palavra sobre este assunto, não é possível afirmar que a bem-aventurada Maria foi elevada ao céu em corpo e alma.

Também não se pode afirmar, categoricamente, que isso seja impossível, visto existirem indicações bíblicas de que, no passado, Deus concedeu tal privilégio a Enoque e a Elias (vejam-se Génesis 5:24 e 2 Reis 2:11). Portanto, não é inconcebível que o tivesse concedido também a Maria. No entanto, o Novo Testamento não diz absolutamente nada sobre este assunto, e tal silêncio impede-nos de afirmar esta doutrina.

5. Que se possa pedir à bem-aventurada Maria o que a Bíblia ensina a pedir a Deus através de Jesus Cristo

"E esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem cessar... Pois, uma vez assunta aos céus, não abandonou o seu múnus salvífico, mas continua a alcançar-nos, pela sua múltipla intercessão, os dons da salvação eterna. Com o seu amor materno cuida dos irmãos do seu Filho que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, e lutam contra o pecado, até que sejam conduzidos à pátria feliz. Por isso, a bem-aventurada Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Socorro e Mediadora. O que, todavia, se deve entender de modo que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador." (Concilio Vaticano II, Lumen Gentium, 62[5]; veja-se Catecismo da Igreja Católica, # 969, 975).

As Escrituras ensinam claramente que existe um único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote, que é o Senhor Jesus Cristo.

«E há também um só Senhor, Jesus Cristo, por quem existem todas as coisas e por quem nós existimos.» (1 Coríntios 8:6)

«Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu não há outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos.» (Atos 4:12)

Não há dúvida de que podemos orar uns pelos outros; mas, quando se trata da mediação celestial, nada nem ninguém pode substituir ou complementar o ministério de Jesus Cristo:

«... no templo celestial... Jesus entrou como nosso precursor, tornando-se Sumo Sacerdote para sempre» (Hebreus 6:20).

Este único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote é também o único Advogado e Mediador em quem somos chamados a depositar toda a nossa esperança:

«Meus filhinhos, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um Advogado junto do Pai: Jesus Cristo, o Justo.» (1 João 2:1)

«Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem.» (1 Timóteo 2:5)

O facto de termos um profundo amor, uma enorme admiração e um reverente respeito por Maria não implica que esqueçamos que ela não é, nem nunca poderia ser, tão boa como Jesus, nem mais sábia do que Ele; tampouco pode possuir, como Jesus possui, os atributos divinos de omnipotência e omnipresença. Jesus pode ouvir — e ouve — toda e qualquer oração nossa. Tem também o poder de mediar perante o Pai e de lhes dar a resposta divina. Isto é algo que jamais poderia ser concedido a qualquer criatura, nem mesmo aos anjos.

Com todo o respeito, não vemos razão alguma para depositar a nossa confiança nesta santa mulher que — como ela própria seria a primeira a reconhecer — não é tão boa, nem tão sábia, nem tão poderosa como Jesus Cristo. A bem-aventurada Maria deu-nos um grande exemplo ao confiar primeiro em Deus (Lucas 1:38) e, depois, em Jesus, o Filho de Deus (João 2:5). Tal como Maria fez, devemos deixar o Espírito Santo atuar na nossa vida; só assim poderemos compreender cabalmente as coisas de Deus (1 Coríntios 2:6-16).


Notas

1. Enrique Denzinger, O Magistério da Igreja. Manual dos Símbolos, Definições e Declarações da Igreja em Matéria de Fé e Costumes (versão de D. Ruiz Bueno; Barcelona: Herder, 1963, p. 385-386).
2. Edição Livraria João Paulo II: Santo Domingo, 1993, p. 118-119. DS = Denzinger, o.c.; LG, Lumen Gentium (Concilio Vaticano II).
3. Denzinger, o.c., # 2271, p. 572-573.
4. Denzinger, o.c., # 2333, p. 613.
5. Vaticano II – Documentos conciliares. Edições Paulinas, p. 85-86.


Nota adicional sobre o significado do nome Maria:

De uma revisão sumária de diversas obras depreende-se que não está clara a etimologia nem, por conseguinte, o significado do nome «Maria» (do hebraico Míriam).

Segundo o Vocabulário de Teologia Bíblica (dir. X. Léon-Dufour; Barcelona: Herder, 1985), significaria em aramaico «senhora» ou «princesa», embora tal afirmação não surja documentada. De qualquer modo, na sua obra Jesus, o Judeu (Barcelona: Muchnik Editores, 1977, pp. 117-130), Geza Vermes aborda o título mar como equivalente ao grego kyrios («senhor»), uma forma respeitosa de se dirigir a alguém de relevo. Mar faz parte da expressão Maranatha.

O Novo Dicionário Bíblico (dir. J. D. Douglas e N. Hillyer; Certeza, 1991) refere que existe uma «ténue possibilidade» de o nome derivar do egípcio marye, «amada».

A International Standard Bible Encyclopedia (dir. G. W. Bromiley; Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1986) aponta como possíveis significados: (1) «amada», da raiz egípcia mr; (2) «amada de Yahveh» (mr + yw/m); (3) «roliça», de meri'; ou (4) «amarga» ou «amargura», de mar.

Também poderia derivar de meri, «rebelião».

Em suma, dada a incerteza quanto ao significado do nome, não é sensato construir qualquer argumento com base num dos seus hipotéticos significados
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