15 de julho de 2023

O GNOSTICISMO ERA TOLERANTE E INCLUSIVO? DESMISTIFICANDO ALGUNS MITOS SOBRE CRISTIANISMOS “ALTERNATIVOS”

 

Por Michael J. Kruger

No mundo dos estudos bíblicos, pelo menos entre alguns académicos críticos, o gnosticismo tem sido o menino-bonito há já algum tempo. Especialmente desde a descoberta dos chamados "evangelhos gnósticos" em Nag Hammadi, em 1945, há académicos que têm cantado louvores a esta versão alternativa do cristianismo.

O gnosticismo foi uma versão herética do cristianismo que emergiu sobretudo no segundo século, tentando competir com os cristãos ortodoxos. E parece que alguns académicos olham para trás e quase lamentam que os gnósticos não tenham prevalecido.

Afinal de contas, argumenta-se, o cristianismo tradicional era tacanho, dogmático, intolerante, elitista e mesquinho, ao passo que o gnosticismo era aberto, acolhedor, tolerante e amoroso. Se pudesse escolher, qual escolheria?

Embora esta narrativa do gnosticismo de espírito livre, duramente oprimido pelos cristãos ortodoxos maus e intolerantes, possa soar retoricamente apelativa, ela simplesmente não é confirmada pelos factos. Eis cinco afirmações frequentemente feitas sobre o gnosticismo que são, comprovadamente, mais mito do que realidade:

Mito 1: O gnosticismo era mais popular do que o cristianismo tradicional.

Afirma-se repetidamente que os gnósticos estavam tão difundidos quanto os cristãos ortodoxos e que os seus livros eram igualmente populares (senão mais). De acordo com esta tese, a única razão pela qual os gnósticos não prevaleceram foi o facto de terem sido reprimidos à força pela fação ortodoxa, após esta ter alcançado o poder através de Constantino.

Contudo, isso simplesmente não corresponde à verdade. Todas as evidências indicam que foi a "Grande Igreja" (para usar a expressão do crítico pagão Celso) que dominou os primeiros séculos do cristianismo, muito antes de Constantino. Além disso, os escritos gnósticos não gozavam de tanta popularidade quanto aqueles que vieram a integrar o cânon, como o demonstra claramente o número de manuscritos preservados. Por exemplo, dispomos de mais cópias do Evangelho de João datadas dos primeiros séculos do que de todas as obras apócrifas juntas.

Mito 2: O gnosticismo era mais inclusivo e de mente aberta do que o cristianismo tradicional.

Existe a perceção popular de que os gnósticos não partilhavam da suposta mentalidade elitista do cristianismo tradicional. Afirma-se, com frequência, que eram eles os verdadeiros defensores da aceitação e da inclusão.

Contudo, mais uma vez, a realidade aponta precisamente no sentido oposto. O que a maioria das pessoas desconhece é que os gnósticos não tinham qualquer interesse numa salvação universal. Pelo contrário, encaravam a salvação como um privilégio reservado exclusivamente a uma "elite espiritual".

Como Hultgren assinala: «A atitude destes gnósticos era extremamente elitista, pois eles sustentavam que apenas um em mil, ou dois em dez mil, são capazes de conhecer os segredos [da salvação]» (Rise of Normative Christianity, p. 99).

Mito 3: O gnosticismo reflete com maior precisão os ensinamentos do Jesus histórico do que o cristianismo tradicional.

Há quem argumente que, se quisermos conhecer o Jesus real — o Jesus da história —, os escritos gnósticos (como o Evangelho de Tomé) oferecem um retrato mais fiável.

Os problemas com tal afirmação são múltiplos, mas mencionarei apenas um: os gnósticos não tinham grande interesse pelo Jesus histórico. Para eles, o importante não era a tradição apostólica transmitida, mas sim a experiência religiosa presente com o Cristo ressuscitado (Jonathan Cahana, «"None of Them Knew Me or My Brothers": Gnostic Anti-Traditionalism and Gnosticism as a Cultural Phenomenon», The Journal of Religion 94 [2014]: 49–73).

Dito de outro modo, os gnósticos preocupavam-se muito menos com o passado e muito mais com o presente.

Este tipo de abordagem "existencial" da religião pode ser popular na nossa cultura moderna, onde a experiência pessoal dita as regras e a fé é encarada como um domínio estritamente privado, mas em nada ajuda a recuperar o que realmente aconteceu na história. Se o objetivo é saber o que aconteceu na história, os Evangelhos canónicos sempre foram as melhores fontes.

Mito 4: O gnosticismo era mais favorável às mulheres do que o cristianismo tradicional.

Trata-se de uma tese bastante difundida. A perceção popular sugere que os cristãos ortodoxos oprimiram as mulheres, enquanto os gnósticos as libertaram. Contudo, uma vez mais, a realidade histórica dista muito dessa visão simplificada.

Pelo contrário, a evidência histórica sugere que as mulheres aderiram ao cristianismo tradicional em massa. De facto, a proporção de mulheres em relação aos homens pode ter chegado a quase dois para um. No seu livro A Vitória do Cristianismo, Rodney Stark defende que isto se deveu ao facto de o cristianismo se ter revelado um ambiente incomparavelmente mais acolhedor, seguro e valorizador para as mulheres.

Abordo também esta questão no meu livro mais recente, Christianity at the Crossroads: How the Second Century Shaped the Future of the Church (IVP Academic, 2018).

Vale também a pena notar que a postura supostamente pró-mulher de alguns líderes gnósticos não é o que parece. O gnóstico valentiniano Marcos era, na verdade, conhecido por atrair mulheres para o seu movimento com o intuito de as seduzir sexualmente (Ireneu, Adv. haer. 1.13.5).

Além disso, a visão gnóstica das mulheres revela-se particularmente negativa quando consideramos a passagem final do Evangelho de Tomé: "Pois toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus" (logion 114). Dificilmente se poderá ver isto como uma postura de apoio às mulheres!

Mito 5: O gnosticismo era mais positivo em relação à sexualidade humana do que o cristianismo tradicional.

Um último mito sobre o gnosticismo é o de que este seria "pró-sexo" e o cristianismo tradicional "anti-sexo". Em outras palavras, que os gnósticos celebravam a sexualidade, ao passo que os cristãos tradicionais não passavam de pudicos puritanos.

Mais uma vez, a realidade é muito diferente. Se é verdade que alguns gnósticos eram sexualmente licenciosos (como se referiu acima em relação a Marcos), uma grande parte do movimento era totalmente contra o sexo. Na verdade, grande parte do movimento defendia um severo ascetismo e o celibato.

Por exemplo, o Livro de Tomé afirma: "Ai de vós que amais a intimidade com as mulheres e a sua coabitação imunda! Ai de vós que estais sob o domínio das forças do vosso corpo, pois elas vos afligirão!”.

Embora alguns cristãos ortodoxos tenham optado por um caminho mais ascético, a maioria encarava o celibato como algo voluntário. O casamento, e a sexualidade no seu âmbito, era celebrado e tido como um dom de Deus.

Em suma, as perceções populares sobre o gnosticismo não passam disso mesmo: perceções populares. Não têm, por isso, qualquer base histórica sólida. Como aqui se viu, o gnosticismo real era profundamente diferente. Isto leva-nos a concluir que o gnosticismo não falhou por ter sido politicamente oprimido por ortodoxos astutos, mas simplesmente por se ter mostrado menos atraente para as pessoas dos primeiros séculos que procuravam seguir a Cristo.

Ou, como F. F. Bruce espirituosamente observou: «As escolas gnósticas perderam porque mereciam perder» (The Canon of Scripture, p. 277).

7 de julho de 2023

ESCOLASTICISMO REFORMADO

 

A teologia reformada é suposto estar fundamentada na teologia exegética. Somente verdades reveladas merecem o status de artigos de fé. Isso inclui interpretações corretas de verdades reveladas, bem como inferências válidas das verdades reveladas. Isso baseia-se no princípio da sola scriptura.

Mesmo nesse nível, as interpretações reformadas devem permanecer abertas ao escrutínio exegético. Precisamos ser capazes de defender as nossas interpretações.

A teologia reformada é bastante estável. No entanto, é necessário distinguir entre a teologia reformada e as escolas filosóficas de pensamento que são utilizadas para expor e defender a teologia reformada.

O problema é quando a teologia reformada se alinha com um paradigma filosófico particular, como o tomismo, de modo que a afirmação da teologia reformada se torna inseparável da afirmação da tradição filosófica que a patrocina.

O tomismo nunca deve ser elevado a um artigo de fé. Isso idolatra a filosofia. A teologia filosófica deve permanecer sujeita ao escrutínio racional, na medida em que a teologia filosófica antes de tudo assenta na razão natural.

A teologia filosófica deveria ser mais eclética e criteriosa. Não formar uma aliança exclusiva com nenhum filósofo em particular ou escola filosófica de pensamento.

6 de julho de 2023

MÁQUINA DE PANQUECAS

 

Alguns jovens protestantes ficam apaixonados pelo tomismo. O que torna o tomismo tão atraente?

1. Uma motivação é o apelo das redes sociais. Uma comunidade virtual na qual se pode alcançar status social fazendo comentários para impressionar outros. O tomismo permite ser um exibicionista intelectual nas redes sociais.

2. Numa frente diferente, o tomismo é atraente para alguns porque é muito enciclopédico. Ele tem respostas prontas para uma série de questões, desde metafísica e epistemologia até à ética. O protestantismo não desenvolveu nada equivalente.

O tomismo tem estas categorias expeditas, gavetas em que se pode meter coisas e sai a resposta, a saber, forma/matéria, essência/existência, substância/acidente, eficiente/formal/material, causas finais.

Como uma máquina de panquecas. Despeja-se a massa dentro e saem panquecas. A máquina determina o formato que a massa terá.

Claro, isso é apenas uma virtude se a realidade for em formato de panqueca.

3. Tomás de Aquino foi um grande teólogo filosófico, um grande teólogo sistemático, bem como um influente eticista, teórico político, etc. Portanto, há alguma justificação para o interesse nele. Dito isso, o interesse por Tomás de Aquino muitas vezes torna-se míope. E isso traz problemas. Por exemplo:

i) A filosofia e a teologia filosófica não terminaram com Tomás de Aquino, logo não há nenhuma boa razão para que ele seja o paradigma padrão. Isso leva à negligência de filósofos posteriores e teólogos filosóficos fora da tradição tomista. Especialmente para os protestantes, não deve haver nenhuma presunção de que a ética, a metafísica e a epistemologia tomista seja o melhor sistema. Por exemplo, a filosofia frequentemente usa modelos e analogias alicerçados na lógica, na matemática e na ciência. Avanços na lógica, na matemática e na ciência podem levar a avanços na análise filosófica. Neste aspecto, o tomismo tem recursos conceptuais antiquados e anacrónicos.

É certo que o tomismo tem sido atualizado, mas, como a adaptação de um carro antigo, chega um ponto em que tem que se parar de ajustar a tecnologia do carburador e criar algo do zero.

ii) Quando deixado por sua conta, Tomás de Aquino é um pensador bastante claro. No entanto, ele é antes de tudo um clérigo leal. Seu dever é defender o dogma católico medieval.

Isso significa que ele está preso a coisas que são difíceis de defender. Ele tem que apresentar defesas engenhosas do dogma recebido. Isso resulta em falta de clareza. Ele torna-se pouco claro porque traça distinções ad hoc para defender tudo o que seja dogma. Ele não dá as cartas. Ele joga com as cartas que recebeu.

iii) Outro problema diz respeito à gestão do tempo: a vida é curta, os livros são caros, o dia tem apenas 24 horas. O tempo investido no tomismo é tempo retirado de outros estudos. Isso não significa que quem tem interesse por filosofia deva ignorar o tomismo, mas há, igualmente, outras coisas que não devem ignorar-se. Trata-se de uma questão de prioridades.

Por exemplo, há um lugar importante para a cristologia filosófica. Mas esse não é o ponto de partida adequado. O que sabemos sobre Jesus é baseado na revelação histórica. O ponto de partida adequado é a teologia exegética, não a teologia filosófica ou a teologia histórica. Dito de outra forma, a teologia filosófica deverá partir da teologia exegética. No caso da cristologia, a cristologia do NT é o fundamento.

Se alguém pretende ler boas obras sobre cristologia, comece com monografias exegéticas de estudiosos como Richard Bauckham, Gordon Fee, Simon Gathercole, Larry Hurtado e Sigurd Grindheim. Isso fornece a matéria-prima para a análise e modelação filosófica.

A cristologia filosófica que não está firmemente fundamentada na cristologia do NT é apenas uma incursão na história das ideias, brincar com ideias, como algumas ideias se relacionam com outras ideias. Nada disso tem qualquer base na realidade de quem Jesus realmente é. Ela torna-se idolatria intelectual: adoração das nossas próprias mentes.

4. Faz sentido para um católico piedoso começar com o dogma da igreja. Ele acha que a Madre Igreja tem a interpretação correta do NT da pessoa e da obra de Cristo. Então esse é o ponto de partida dele. E isso é lógico, dado a premissa incorreta.

Mas essa não é uma premissa dos protestantes. A menos que comecemos com verdades reveladas sobre Jesus, o que acreditamos é apenas encenação.

Por exemplo, se alguém começar com Tomás de Aquino, fica a entender as duas naturezas de Cristo em termos de antropologia tomista (p. ex. hilomorfismo) e teologia tomista (p. ex. simplicidade divina, actus purus, trinitarianismo latino). Dessa forma, o que faz é substituir a cristologia do NT por um simulacro.

Ironicamente, alguns jovens protestantes são mais católicos do que o catolicismo. Existem filósofos católicos como Nicholas Rescher, Bas van Fraassen, Michael Dummett e Dagfinn Føllesdal que não compartilham a paixão deles pelo tomismo. Sem falar em ordens religiosas inteiras (jesuíta, franciscana) que estão em desacordo com o tomismo.

O cardeal Newman adotou uma abordagem muito diferente da epistemologia religiosa de Aquino. Da mesma forma, Bento XVI estava, pelo que sei, muito mais sintonizado com os seus padres da igreja favoritos do que com Aquino. Aliás, quão central foi Tomás de Aquino para a filosofia/teologia de João Paulo II? Urs von Balthasar não era o seu teólogo favorito?

Há também filósofos católicos, como Alexander Pruss, que são bastante ecléticos. Ele defende o argumento cosmológico leibniziano e não tem problemas em combinar insights aristotélicos e leibnizianos sobre mundos possíveis.

O facto é: os verdadeiros filósofos fazem algum juízo independente na sua avaliação do tomismo. É isso que os torna pensadores críticos. Mesmo quando se apropriam do tomismo, eles o peneiram e qualificam.

5 de julho de 2023

PEÇA DE MUSEU

Uma das razões para não se ser tomista é que o tomismo é uma peça de museu. Tomás de Aquino foi um apologista da teologia católica medieval. O que mais ele poderia ser?

Mas já ninguém acredita na teologia católica medieval (além dos sedevacantistas). Esse paradigma teológico está extinto.

Isso não significa que não se possa salvar alguns elementos duradouros do tomismo, mas o sucesso da operação de resgate depende em parte de se se é católico ou protestante. Há menos continuidade entre o tomismo e o evangelicalismo do que entre o tomismo e o catolicismo moderno.

É necessário desmontar o pacote tomista para aproveitar peças reutilizáveis. É sempre possível conseguir-se algumas peças reutilizáveis numa sucata de carros desmantelados.