27 de abril de 2011

Resposta a um católico sobre a Sola Scriptura


[Católico] …. sobre a "sola scriptura", esta é uma completa ilusão. Repare que as pessoas não possuíam Bíblias, já que cada Bíblia era produzida manualmente e totalmente copiada pelos monges. E nem sequer era copiada, pois cada letra era DESENHADA UMA A UMA. Não havia computador, nem máquina de escrever, nem sequer esferográfica.

Os monges escreviam com penas de ganso que tinha um traço quadrado. Daí, que tinha que ser tudo DESENHADO LETRA A LETRA. Você sabe quanto tempo levava para um monge copiar uma Bíblia inteira? De 10 a 20 anos de trabalho.

Agora, depois de tanto tempo copiando uma Bíblia, quanto você acha que custava uma para venda? Uma pessoa comum não tinha meios para pagar o trabalho de 10 a 20 anos do copista da Bíblia. Por isso, existiam pouquíssimas cópias disponíveis.

Além disso, hoje temos a bíblia num só volume. Mas quando elas eram copiadas à mão, os diversos livros da bíblia, ocupavam uma estante inteira.

E mais,a esmagadora maioria das pessoas era analfabeta.

Como, então, alguém poderia praticar a Sola Scriptura antes de 1450?

Esta é uma falácia repetida até à exaustão pelos apologistas católicos. É tão óbvia que deveria pelo menos dar-lhes vergonha de repeti-la. A existência de milhares de manuscritos bíblicos indica que, por muito tempo, os cristãos puderam fazer para si cópias de parte ou de toda a Bíblia.

A maioria dos eruditos acredita que uma razão para as muitas discrepâncias no texto dos manuscritos do Novo Testamento deve-se ao facto de que eram feitos por entusiastas que desejavam contar com uma cópia barata de algum livro ou livros.

Isto o indica Agostinho de Hipona, ao declarar:

"Mas o conhecimento destas linguagens é necessário, não por causa de umas poucas palavras como estas que são muito fáceis de notar e perguntar por elas, mas, como se disse, por causa da diversidade entre os tradutores. Pois as traduções do hebraico para o grego podem contar-se, mas os tradutores latinos são inumeráveis. Pois nos dias primitivos da fé todo o homem que fortuitamente pusesse as suas mãos num manuscrito grego, e considerasse ter algum conhecimento, por escasso que fosse, de ambas as linguagens, se aventurava na obra de tradução." (De doctr. christ, II, xi [16]).

Também o diz o tratado padrão sobre o texto do Novo Testamento, ao comentar acerca da mudança de escrita uncial para minúscula:

"É fácil entender que esta mudança no estilo de escrita teve um profundo efeito sobre a tradição textual da Bíblia grega. Agora a posse de cópias das Escrituras (e de outras obras literárias) foi posta ao alcance de pessoas com meios limitados. Quando as obras literárias eram copiadas quase exclusivamente na escrita uncial, tais pessoas estavam obrigadas a ter que se virar sem muitos livros. Assim, o manuscrito minúsculo foi um fator importante na disseminação da cultura em geral e das Escrituras em particular. Os manuscritos minúsculos do Novo Testamento superam em número os manuscritos unciais por mais de dez a um ... muita da disparidade no número de [manuscritos] sobreviventes deve ser por causa da maior facilidade com a qual as cópias minúsculas podiam produzir-se...

Nas épocas primitivas da Igreja, os manuscritos bíblicos eram produzidos por cristãos individuais que desejavam ter ou fornecer às congregações locais cópias de um ou mais dos livros do Novo Testamento. Devido ao número de cristãos ter aumentado rapidamente durante os primeiros séculos, muitas cópias adicionais das Escrituras foram procuradas por novos convertidos e novas igrejas. Como resultado, às vezes a velocidade de reprodução ultrapassou a exatidão da execução..." (Bruce M. Metzger, The text of the New Testament, 3rd Ed.; New York: Oxford University Press, 1992, p. 11-12, 14).

O mesmo autor explica que, ao receber o cristianismo sanção oficial, os scriptoria ou produtores comerciais de livros usavam vários escribas que copiavam simultaneamente o mesmo texto lido em voz alta, o que introduziu erros causados por tal método (por exemplo, um ómega por um ómicron em echomen, Romanos 5:1, ou em ode, Lucas 16:25, ou "lavar" (lousanti) por "livrar" (lusanti) em Apocalipse 1:5).

Quanto ao demais, existem razões históricas para o distanciamento entre os textos bíblicos e o "laicado", particularmente a partir da Idade Média. Sola Scriptura era certamente uma possibilidade para os que eram responsáveis pelo ensino: as suas doutrinas deviam basear-se na Escritura. Lamentavelmente, não ocorreu assim. Como no povo de Israel, os pastores desviaram-se gradual mas continuamente do caminho escritural e reprimiram sangrenta e às vezes traiçoeiramente (como o caso de Huss) aqueles que se atreveram a desafiar a sua autoridade. Tal engano tornou-se impossível, obviamente, a partir da invenção da imprensa e da possibilidade de aceder ao que a Bíblia diz, e não ao que os clérigos "diziam que dizia".

Para concluir, o argumento apresentado pelo católico falha completamente o alvo, porque o princípio protestante da "Sola Scriptura" não afirma que a Palavra escrita tenha sido o principal veículo de transmissão, mas que é a fonte definitiva da Verdade revelada. Por ela é possível julgar as homilias, os sacramentos, a liturgia, etc. A questão é se a nossa pregação e as nossas práticas são conformes às Escrituras, não se cada cristão que existiu tinha uma Bíblia. Portanto, o argumento além de falacioso é irrelevante.

26 de abril de 2011

Como podiam os primeiros cristãos, seguir o princípio da "Sola Scriptura", quando a Bíblia ainda não existia?


A palavra "Bíblia" é simplesmente um modo de referir o conjunto das Escrituras inspiradas.

Os cristãos contaram desde o princípio com as Escrituras do que hoje chamamos "Antigo Testamento" e a evidência sugere que muito rapidamente, ainda no tempo em que os Apóstolos eram vivos, começaram a formar coleções com os escritos apostólicos, que no seu conjunto formariam o que hoje chamamos "Novo Testamento".

Ou seja, embora não tivessem o equivalente de uma edição moderna impressa, certamente que contavam com as Sagradas Escrituras.

25 de abril de 2011

QUANDO UM CEGO GUIA OUTRO CEGO…


Há duas acepções principais da palavra fé (do grego pistis) a que poderíamos chamar "fé" e "a fé".

A primeira, da qual o autor de Hebreus nos diz que sem ela é impossível agradar a Deus, é a confiança absoluta no Senhor. É por meio desta fé que nos apropriamos do dom da salvação, oferecido pela graça por intermédio de Jesus Cristo.

A segunda acepção diz respeito à doutrina, ou seja, às coisas em que, enquanto cristãos, devemos crer. Quando Judas fala de «batalhar pela fé que foi dada aos santos», não se refere à confiança em Deus, mas sim às proposições doutrinais e históricas que constituem o núcleo da doutrina cristã.

No entanto, o magistério da Igreja Católica confunde muitas vezes estas duas acepções da palavra "fé". Se não compreendem esta distinção tão simples e óbvia, quem poderão pastorear? «Se um cego guia outro cego...»

Um exemplo flagrante desta confusão pode ver-se na própria declaração dogmática da infalibilidade papal:

E certamente a doutrina apostólica deles [dos "sucessores de Pedro"], todos os veneráveis Padres a abraçaram, e os santos Doutores ortodoxos veneraram-na e seguiram-na, sabendo plenissimamente que esta Sé de São Pedro permanece sempre isenta de todo o erro, segundo a promessa de nosso divino Salvador feita ao príncipe dos seus discípulos: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos» (Lc 22,32).

Constituição dogmática I sobre a Igreja de Cristo. Concílio Vaticano I, Sessão IV de 18 de julho de 1870; Denzinger # 1836.

Note-se que os bispos do Concílio Vaticano I pretendiam fundamentar a pureza doutrinal da Sé Romana. No entanto, o texto a que recorrem não fala de doutrina. Jesus Cristo anuncia a Pedro que estava prestes a passar por uma prova («Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo»), mas acrescenta que tinha orado para que a fé de Pedro «não desfalecesse».

O verbo grego traduzido por "desfalecer" é ekleipô. Este pode significar também "faltar" ou "cessar". Ora, se Jesus se referisse aqui à doutrina, este verbo seria altamente inapropriado, pois a doutrina pode ser mantida ou corrompida, mas não "desfalecer" ou "cessar". É, portanto, óbvio — tanto pelo contexto como pelo verbo utilizado — que a "fé" de Pedro que não devia cessar era a sua plena confiança em Deus, e não um compêndio de doutrina.

Consequentemente, este texto não fundamenta de modo algum a declaração da infalibilidade.

22 de abril de 2011

A CARTA DE CLEMENTE AOS CORÍNTIOS: EVIDÊNCIA DO PRIMADO DO BISPO DE ROMA?


Argumento católico:

Pelos anos 90 do primeiro século da nossa era, quando o apóstolo João ainda era vivo, surgiu um problema interno de não pequena importância na igreja de Corinto. Seria de supor que o mais lógico fosse o apóstolo impor a sua autoridade para solucionar a questão, já que ainda estava vivo. Mas não foi isso que aconteceu. Quem se encarregou de resolver o litígio foi nem mais nem menos do que o bispo de Roma.
 
Se com isto se pretende insinuar que um bispo, por muito "sucessor de Pedro" que se considere, podia ter uma autoridade superior à dos próprios Apóstolos, o próprio Clemente encarrega-se de contradizer tal ideia:
 
Os Apóstolos pregaram-nos o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado por Deus. Em resumo, Cristo veio da parte de Deus, e os Apóstolos da parte de Cristo: ambas as coisas aconteceram, assim, ordenadamente por vontade de Deus. Tendo, pois, recebido as suas instruções, plenamente assegurados pela ressurreição do Senhor Jesus Cristo e confirmados na fé pela palavra de Deus, os Apóstolos saíram, cheios da certeza infundida pelo Espírito Santo, a anunciar a boa nova de que o reino de Deus estava prestes a chegar. Assim, à medida que pregavam a boa nova por cidades e campos e batizavam os que obedeciam ao desígnio de Deus, iam estabelecendo os que eram primícias deles – depois de prová-los pelo Espírito - como bispos (episkopous) e diáconos (diakonous) daqueles que haviam de crer. E isto não era novidade, pois há muito se escrevera acerca desses bispos e diáconos. A Escritura, com efeito, diz em determinado lugar: «Estabelecerei os seus bispos na justiça e os seus ministros na fé» (Isaías 60:17).
 
Carta Primeira de São Clemente, 42:1-4
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979

Tendo sido estes estabelecidos pelos próprios Apóstolos, é impossível que a sua autoridade estivesse acima da de quem lhes a concedeu em primeiro lugar. Além disso, deve sublinhar-se que Clemente, em ponto algum, ensina ou insinua a existência de um episcopado monárquico (como o fará, um pouco mais tarde, Inácio de Antioquia [1]). Pelo contrário, na sua carta aos Coríntios:
 
Mencionam-se presbíteros várias vezes, mas não são distinguidos dos bispos. Não há absolutamente menção de um bispo em Corinto, e as autoridades eclesiásticas são sempre referidas no plural.
 
John Chapman, Pope St. Clement I . Em The Catholic Encyclopedia, vol. IV (1908).

Mais à frente, Clemente desenvolve com maior detalhe a forma de eleição e as qualificações das autoridades da Igreja:

Também os nossos Apóstolos souberam, por inspiração de nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contenda a respeito deste nome e da dignidade do episcopado. Por esse motivo, pois, ..., estabeleceram os já referidos ministros e deram instruções para que, quando eles morressem, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Julgamos, pois, que não podem ser justamente destituídos do seu ministério aqueles que foram estabelecidos pelos Apóstolos ou, mais tarde, por outros homens ilustres, com o consentimento de toda a Igreja; homens que serviram irrepreensivelmente o rebanho de Cristo, com humildade, paz e desapego, e que durante muito tempo receberam o bom testemunho de todos. Cometeríamos um pecado nada pequeno se depuséssemos do seu posto de bispos aqueles que, de modo irrepreensível e santo, ofereceram os dons. Bem-aventurados os presbíteros que nos precederam nesta viagem para a eternidade, pois tiveram um fim frutuoso e perfeito, e já não precisam de temer que alguém os afaste do lugar que lhes fora destinado. Dizemos isto porque vemos que destituístes do seu ministério alguns que o honraram com conduta santa e irrepreensível.
 
Carta Primeira de São Clemente, 44:1-6
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979 (negrito acrescentado)

Ou seja, para Clemente, a conduta santa e irrepreensível era o requisito mais importante para os bispos e ministros [2].
 
Porque foi, então, Roma a corrigir os Coríntios, e não o apóstolo João? Teria que se perguntar ao próprio João. Entretanto, cabe notar que um facto inexplicado — e, se quisermos, intrigante — dificilmente serve como prova de seja o que for. Neste caso particular, foi a Igreja de Roma que assumiu a correção. Demonstra isto que ela era superior à de Corinto? A meu ver, não mais do que a carta que Ireneu dirigiu a Vítor demonstra que o bispo das Gálias era superior ao de Roma. Na ausência de uma estrutura acima das igrejas locais, nada impedia que uma Igreja se dirigisse a outra, ou que um bispo admoestasse outro. O que demonstra isto? Simplesmente que é pura fantasia, ou wishful thinking, imaginar que a hierarquia que Roma estabeleceu para o Ocidente na Idade Média já existia nos séculos anteriores.
 
Argumento católico:
 
Apesar de alguns protestantes e ortodoxos tenderem a minimizar a autoridade de Clemente, o certo é que do texto da sua carta se depreende, com grande clareza, a consciência que o próprio bispo de Roma tinha sobre a sua autoridade à frente da Igreja. Senão vejamos:
 
"Mas, se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio Ele mesmo vos dirigiu, saibam que se tornarão réus de não pequeno pecado e se expõem a um grave perigo" (1 Clemente aos Coríntios, LIX, 1)
 
Ou seja, o bispo de Roma intervém diretamente nos assuntos internos de outra igreja para impor a sua autoridade a qual, como faz questão de reconhecer, lhe vem da parte de Deus.
 
Algumas observações a este respeito:
 
1. A suposta consciência que Clemente teria da sua própria autoridade só pode parecer dotada de "grande clareza" a quem, anacronicamente, pretenda sustentar um poder que Roma reclamaria para si mais tarde, e que jamais seria reconhecido pelas igrejas orientais.
 
A este propósito, é preciso notar que, ao longo de toda a carta, não há o mínimo apelo à autoridade do bispo de Roma enquanto tal.
 
2. Embora não subsista dúvida razoável de que Clemente tenha sido o seu autor, importa assinalar que o sabemos por evidência externa, a saber, pelo testemunho unânime da tradição. De facto, o nome de Clemente nem sequer figura no texto da carta. Isto estabelece, desde logo, um notável contraste com as epístolas de Paulo e de Pedro. A longa epístola é dirigida da «Igreja de Deus que habita como forasteira em Roma, à Igreja de Deus que habita como forasteira em Corinto, aos chamados e santificados pela vontade de Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo». Ao contrário do que costumam alegar os apologistas católicos, o cabeçalho não é o de um superior para um subordinado, mas o de uma igreja irmã para outra.
 
Este facto é reconhecido até por aqueles que defendem tenazmente a doutrina do primado romano, como Johannes Quasten, que escreveu:
 
É inegável que o texto não contém uma afirmação categórica do primado da Sé Romana. Em ponto algum o autor afirma expressamente que a sua intervenção vincule e obrigue, juridicamente, a comunidade cristã de Corinto.
 
Patrología (edição preparada por Ignacio Oñatibia). Madrid: BAC, 1978; 1:56.

De igual modo, Daniel Ruiz Bueno (o.c., p. 118), que enquanto católico também considera a epístola como evidência do suposto primado, afirma categoricamente:
 
E adianto-me a dizer que, por muito que nela se possa investigar sobre o direito e a constituição da Igreja, afirmar que esta carta é uma decisão jurídica, em vez de uma homilia, parece-me uma imperdoável falta de penetração no seu espírito, nascida de um excessivo afã apologético.

3. A declaração, tão cara aos apologistas católicos - "Mas, se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio Ele mesmo vos dirigiu, saibam que se tornarão réus de não pequeno pecado e se expõem a um grave perigo" -, deve ser entendida no seu devido contexto. O autor não faz qualquer apelo à sua autoridade pessoal; em vez disso, apresenta as Escrituras como fonte da sua autoridade e demonstra onde reside o erro dos sediciosos de Corinto. É sobre esta base, e não sobre a de um primado imaginário, que ele pode afirmar, com toda a razão, que aqueles que desprezassem semelhante admoestação, perfeitamente fundamentada, se expunham a um grave perigo: não por desobedecerem ao "Papa", mas por desobedecerem ao próprio Deus. Clemente fala aqui, em nome da Igreja de Roma, com autoridade profética. Isto torna-se claro pelo trecho que se segue à frase citada, o qual, com frequência (como neste caso), se omite transcrever: «Mas nós seremos inocentes deste pecado». O autor parece estar a pensar nos exatos termos em que Deus falou ao profeta Ezequiel:
 
Quando o justo se desviar da sua justiça para cometer injustiça, eu porei um obstáculo diante dele e ele morrerá; por não o teres advertido, morrerá ele pelo seu pecado e não serão lembradas as obras de justiça que praticou, mas do seu sangue eu te pedirei contas a ti. Se, pelo contrário, advertires o justo para que não peque, e ele não pecar, viverá ele por ter sido advertido, e tu salvarás a tua vida.
 
Ezequiel 3:20-22; cf. 33:1-9
 
Argumento católico:
 
Poder-se-ia alegar que uma coisa é o bispo de Roma pretender exercer essa autoridade, e outra é os Coríntios reconhecerem-na e aceitarem-na. Contudo, dispomos do testemunho indiscutível de alguém que foi bispo de Corinto poucas décadas mais tarde: Dionísio. Na sua carta dirigida a Sotero (então bispo de Roma), por volta de 170 d.C., Dionísio afirma:
 
"Hoje celebrámos o santo dia do Senhor, no qual lemos a vossa carta [a do Papa Sotero] [3], a qual continuaremos a ler sempre para nossa admoestação, ASSIM COMO A QUE ANTERIORMENTE NOS FOI ESCRITA POR CLEMENTE." (Citação em Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, IV, 23, 11)
 
Ou seja, constata-se que, na igreja de Corinto, a carta do bispo de Roma, Clemente, continuava a ser lida na liturgia do dia do Senhor quase um século depois de ter sido escrita. Além disso, lia-se também a carta do então bispo de Roma, Sotero, com o intuito de acolherem a sua correção.
 
Repare-se que não estamos a falar do papado na época de Constantino, ou do século X ou XV. Não; estamos a ver qual era a verdadeira realidade sobre a primazia da sé romana nos séculos I e II da era cristã. 
 
O testemunho de Dionísio demonstra o efeito benéfico que a epístola teve sobre a Igreja de Corinto, bem como o valor intrínseco do documento — que, tanto quanto se sabe, ninguém colocou em causa. Por outras palavras: a epístola foi recebida, lida e conservada pelo seu elevado valor espiritual e pedagógico, e não por provir de um bispo com jurisdição sobre Roma ou sobre a Igreja universal.
 
Embora, segundo Eusébio, a carta de Dionísio tivesse como destinatário Sotero, então bispo de Roma, trazia, segundo o mesmo autor, o título Aos Romanos (pros Rômaious) e dirigia-se à comunidade no plural, referindo o bispo na terceira pessoa (História Eclesiástica, IV, 23, 9-10). O responsável pela edição da BAC da obra de Eusébio assinala, numa nota de rodapé:
 
A carta de Dionísio é, pois, resposta à que tinha recebido dos romanos, escrita, sem dúvida, «por ministério» de Sotero, como «a primeira» o fora «por ministério de Clemente». O mais provável é que Dionísio diga «primeira» não por relação a uma «segunda de Clemente», mas em relação com a «segunda da Igreja de Roma» - isto é, a mesma de que está a falar, escrita «por ministério» de Sotero.
 
Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica. Texto, versão espanhola, introdução e notas por Argimiro Velasco Delgado, O.P. Madrid: BAC, 1978, 1:249, nota 198.

Velasco Delgado emprega a expressão «por ministério de» porque, ao contrário da tradução anteriormente apresentada («como a que anteriormente nos foi escrita por Clemente»), traduz com maior exatidão: «como a primeira que nos foi escrita por meio de Clemente» (hôs kai tēn proteran hēmin dia Klēmentos grapheisan). 
 
Da forma como o argumento católico é exposto, poder-se-ia inferir que apenas a Igreja de Roma — ou os seus bispos — escrevia a outras comunidades para as exortar, encorajar ou admoestar. No entanto, semelhante inferência seria redondamente errada.
 
A título de exemplo, a respeito precisamente do mesmo bispo de Corinto, Dionísio, cujo testemunho é aqui invocado, Eusébio assinala:

... que suas atividades divinas influenciaram abundantemente não apenas os que estavam sujeitos a ele, mas também os de outros países, sendo utilíssimo a todos com as suas cartas católicas que compunha para as igrejas.
 
Eusébio, o.c., IV, 23, 1 (depois menciona muitas delas, incluída a dirigida aos romanos)

Da mesma forma, dispomos das epístolas redigidas por Inácio de Antioquia a caminho do seu martírio. E, como é evidente, contamos também com a carta de Policarpo aos Filipenses, a respeito da qual Quasten assinala (o.c., 1:89): «É uma exortação moral comparável à Primeira Epístola aos Coríntios de São Clemente.»
 
Por outras palavras: o facto de muitos bispos ou comunidades se sentirem impelidos a escrever a outras igrejas não constituía algo de invulgar, nem pressupunha qualquer autoridade extraordinária para além daquela que derivava de um bom testemunho e do conhecimento das Escrituras. [4]
 
A este respeito, observa um autor católico:

Mesmo quando o bispo tem na sua própria igreja o seu campo de ação, tal não o dispensa da responsabilidade em relação à Igreja universal. Não é apenas um sentimento de mera solidariedade com os fiéis de outras comunidades que impele bispos como Inácio e Policarpo a dirigir-lhes palavras de alento ou de admoestação; eles agem assim por se sentirem movidos por um dever claramente sentido. Contudo, não se pode citar nenhum bispo da época pós-apostólica que intervenha na situação de outras igrejas com a mesma autoridade com que atua na sua própria, nem que dê instruções à Igreja universal. O próprio Clemente Romano fica muito em segundo plano perante a Igreja de Roma como tal para que, com base na sua carta à igreja de Corinto, se lhe possa atribuir um direito consciente de correção, respaldado por uma autoridade especial, no sentido, por exemplo, da ideia do primado.
 
Karl Baus, De la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia. Em Hubert Jedin (Dir.), Manual de historia de la Iglesia. Versão de D. Ruiz Bueno. Barcelona: Herder, 1980; 1:240-241 (negrito acrescentado).

Com base nos factos, reafirmo, pois, o que já disse em "Supremacia papal nos escritos antenicenos?":
 
Pode ler-se a carta de fio a pavio, ao pormenor, que não se encontrará vestígio de qualquer consciência de supremacia; apenas o desejo fervoroso de um santo bispo de ver restabelecida a paz na turbulenta Igreja de Corinto. Clemente ensina, admoesta e exorta; o que nunca faz é ordenar ou apelar à sua investidura como argumento.
 
Notas
 
[1] O episcopado monárquico não aparece em lado nenhum nos 65 capítulos de 1 Clemente, um facto indiscutível e amplamente assinalado pelos eruditos católicos. Quando esta realidade é confrontada com os ensinos de Inácio (m. 107), que pressupõem uma estrutura episcopal monárquica, a conclusão mais razoável é a de que existia heterogeneidade na organização eclesial da Igreja primitiva. Com o decorrer do tempo (já na segunda metade do século II), prevaleceu o modelo refletido nas cartas de Inácio e não o pressuposto em 1 Clemente. Esta constatação, como é evidente, desfavorece drasticamente a hipótese de um primado de autoridade jurisdicional e doutrinal da Igreja de Roma no século I. 
 
[2] A Igreja de Roma sustenta que o Papa não perde a sua autoridade jurisdicional ainda que seja simoníaco, nepotista ou moralmente dissoluto. Nisto se evidencia que a teologia romana posterior se afasta do critério exposto em 1 Clemente, onde a legitimidade e o respeito devidos aos presbíteros surgem intimamente vinculados à sua irrepreensibilidade moral e ao seu procedimento exemplar perante a comunidade. 
 
[3] Ao referir-se à «vossa carta», Dionísio designa a missiva da comunidade romana, redigida por intermédio do seu bispo Sotero. Trata-se, pois, de um agradecimento endereçado à Igreja de Roma no seu conjunto, e não de uma submissão ou deferência dirigida ao seu bispo em particular.
 
[4] Por que razão interveio, então, a Igreja de Roma, e não a de Éfeso, a de Tessalónica ou qualquer outra das igrejas geograficamente muito mais próximas de Corinto do que Roma? 
 
Em primeiro lugar, ao carecer a Igreja primitiva da organização hierárquica que mais tarde se veio a impor (para já não falar da centralização jurídica medieval), as jurisdições não se encontravam delimitadas. De modo que, de uma maneira saudável e evangélica, uma igreja podia exortar outra sem violar a inexistente lei canónica. Não havia nada que o impedisse.
 
Em segundo lugar, se o bispo de Roma tivesse gozado, numa época tão recuada, da autoridade ou das pretensões de um papado universal, torna-se difícil compreender por que razão — tendo as seitas gnósticas assentado arraiais na própria cidade de Roma sob a liderança de Valentim e de Cerdão (o predecessor de Marcião) — tais desvios doutrinais não foram enfrentados e refutados pelos bispos locais (Higino, Pio e Aniceto), mas sim por figuras oriundas de outras regiões, como Ireneu, bispo de Lyon, ou Justino, que nem sequer era bispo (História Eclesiástica, IV, 11).

16 de abril de 2011

Citações trinitárias primitivas


Existem grupos que negam a Trindade e afirmam que a doutrina não foi mencionada até o tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.). Este concílio, primeiro ecuménico, "foi convocado pelo imperador Constantino para tratar o erro do arianismo, o qual ameaçava a unidade da Igreja cristã". Teria sido Constantino quem introduziu a noção e o termo da Trindade.

Para refutar esta fábula que atribui a doutrina trinitária a Constantino, eis aqui algumas citações de autores cristãos anteriores ao tempo de Constantino, que desmentem tal erro:

As seguintes citações mostram que a doutrina da Trindade na verdade estava vigente e generalizada muito antes do concílio de Niceia.

Policarpo (70-155/160). Bispo de Esmirna, discípulo do Apóstolo João.

"Senhor Deus omnipotente: Pai de teu amado e bendito servo Jesus Cristo ... Eu te bendigo, porque me tiveste por digno desta hora, a fim de tomar parte ... na incorrupção do Espírito Santo... Tu, o infalível e verdadeiro Deus. Portanto, eu te louvo ... por mediação do eterno e celeste Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu servo amado, pelo qual seja glória a Ti com o Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros" (Martírio de São Policarpo, 14:1-3, em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apostólicos, p. 682).

Inácio de Antioquia (aprox. 35-107). Bispo de Antioquia. No seu caminho para o martírio, escreveu várias cartas em defesa da fé cristã.

"Sois pedras do templo do Pai, preparadas para o edifício de Deus Pai, levantadas às alturas pelo guindaste de Jesus Cristo, que é a cruz, fazendo vezes de corda o Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 9:1; Ruiz Bueno, o.c., pág. 452-453).

"A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi trazido por Maria no seu seio conforme a dispensação de Deus [Pai]; da linhagem, certamente, de David; por obra, no entanto, do Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 17:2; Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, pág. 457).

Justino Mártir (aprox. 100-165). Foi um mestre, apologista e mártir, discípulo de Policarpo.

"A Ele [o "Deus verdadeiríssimo"] e ao Filho, que d`Ele veio e nos ensinou tudo isto ... e ao Espírito profético, damos culto e adoramos, honrando-os com razão e verdade" (Primeira Apologia 6:2; em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apologetas Griegos, pág. 187)

"então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai e Soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo." (Primeira Apologia 61:3; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 250).

Ireneu (115-190). Originário da Ásia Menor, em jovem foi discípulo de Policarpo. Veio a ser bispo de Lyon, nas Gálias. Foi o principal teólogo do segundo século.

"A Igreja, ainda que dispersa em todo o mundo, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e seus discípulos esta fé: ... num Deus, o Pai Omnipotente, fazedor do céu e da terra e do mar e de todas as coisas que neles há; e num Jesus Cristo, o Filho de Deus, que encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou por meio dos profetas as dispensações de Deus e os adventos e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão ao céu, na carne, do amadíssimo Jesus Cristo, nosso Senhor, e a Sua manifestação desde o céu na gloria do Pai, a fim de 'reunir num todas as coisas', e para ressuscitar renovada toda carne da inteira raça humana, para que diante de Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, 'se dobre todo o joelho, das coisas nos céus, e das coisas na terra, e das coisas debaixo da terra, e que toda a língua o confesse, e que Ele execute um justo juízo sobre todos..." (Contra todas as heresias, I, 10:1; em Ante-Nicene Fathers vol. 1).

Teófilo de Antioquia (Segunda metade do século II). Bispo de Antioquia e apologista. Apresentou a doutrina cristã aos pagãos. É o primeiro a utilizar o termo "Trindade" (grego, trias).

"Igualmente também os três dias que precedem a criação dos luminares são símbolos da Trindade, de Deus, do seu Verbo e da sua Sabedoria [o Espírito]" (Três livros a Autólico II:15; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 805).

Atenágoras de Atenas (Segunda metade do século II). Defensor da fé cristã. Dirigiu uma "Legação" ou defesa dos cristãos ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cómodo, em 177.

"Quem, pois, não se surpreenderá de ouvir chamar ateus aos que admitem um Deus Pai e um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram a sua potência na unidade e a sua distinção na ordem?" (Legação a favor dos cristãos, 10; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 661).

Tertuliano de Cartago (160-215). Apologista e teólogo africano. De profissão advogado, escreveu eloquentemente em defesa do cristianismo.

"Definimos que existem dois, o Pai e o Filho, e três com o Espírito Santo, e este número está dado pelo modelo da salvação ... [o qual] traz unidade em trindade, inter-relacionando os três, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Eles são três, não em dignidade, mas em grau; não em substância mas em forma; não em poder, mas em espécie. Eles são de uma substância e poder, porque há um Deus de quem estes graus, formas e espécies se mostram no nome do Pai, Filho e Espírito Santo." (Contra Práxeas, 23; PL 2.156-7).

Orígenes (aprox. 185-254). Teólogo de Alexandria, crítico e exegeta bíblico, prolífico autor. Discípulo de Clemente de Alexandria.

"Se alguém disser que o Verbo de Deus ou a Sabedoria de Deus tiveram um começo, advirtamos esse tal não seja que dirija a sua impiedade também contra o ingénito Pai, já que negaria que Ele foi sempre Pai e que Ele gerou sempre o Verbo, e que sempre teve sabedoria em todos os tempos anteriores ou idades, ou qualquer coisa que possa imaginar-se anteriormente. Não pode haver título mais antigo do Deus omnipotente que o de Pai, e é através do Filho que Ele é Pai." (Sobre os princípios 1.2.; Patrologia Graeca 11.132).

"Pois se este fosse o caso [que o Espírito Santo não fosse eternamente como Ele é, e tivesse recebido conhecimento em algum momento e então chegado a ser o Espírito Santo] o Espírito Santo nunca teria sido reconhecido na unidade da Trindade, ou seja, junto com os imutáveis Pai e Filho, a menos que Ele sempre tivesse sido o Espírito Santo... De qualquer modo, parece apropriado inquirir qual é a razão pela qual quem é regenerado por Deus para salvação tem que ver tanto com o Pai e o Filho como com o Espírito Santo, e não obtém a salvação senão com a cooperação de toda a Trindade; e por que é impossível ter parte com o Pai e o Filho, sem o Espírito Santo" (Sobre os princípios I, 3:4-5, em Alexander Roberts and James Donaldson, eds., The Ante-Nicene Fathers, Grand Rapids: Eerdmans, Reimpr. 1989, Vol. 4, pág. 253).

"Além disso, nada na Trindade pode ser chamado maior ou menor, uma vez que sozinha a fonte da divindade contém todas as coisas pela Sua palavra e razão, e pelo Espírito de Sua boca santifica todas as coisas que são dignas de santificação ... Tendo feito estas declarações respeitantes à Unidade do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, voltemos à ordem em que começamos a discussão. Deus o Pai concede, antes de tudo, a existência; e a participação em Cristo, considerando que o Seu ser é a palavra da razão, os torna seres racionais ... [e] é a graça do Espírito Santo presente pela qual aqueles seres que não são santos por essência, podem ser tornados santos por participar dela" (Sobre os princípios I, 3:7-8, em Roberts and Donaldson, pág. 255).

Se é verdade, como sustentam os antitrinitários, que a Trindade não é uma doutrina bíblica nem nunca foi ensinada até o Concílio de Niceia em 325, por que razão existem estes textos? A resposta é simples: A Trindade é uma doutrina bíblica e foi ensinada antes do Concílio de Niceia.

Poderia acrescentar-se que o Concílio de Niceia não fez mais que tornar claro, de forma consensual, o que já era, há muito tempo, a doutrina ortodoxa ensinada e aceite pelos cristãos.

8 de abril de 2011

SERIA AGOSTINHO DE HIPONA CATÓLICO ROMANO?

Agostinho de Hipona, no seu tempo, desconheceu por completo doutrinas que hoje são marcas distintivas e obrigatórias da Igreja Católica Romana, tais como:

1) A eficácia ex opere operato dos sacramentos;

2) O culto às imagens;  

3) A infalibilidade do Papa;  

4) A confissão auricular como sacramento;  

5) A Imaculada Conceição de Maria;  

6) A transubstanciação;  

7) A missa como repetição do sacrifício de Cristo;  

8) O primado de jurisdição do bispo de Roma sobre a Igreja universal.  

Perante isto, a questão é incontornável: pode alguém legitimamente ser considerado católico romano sem subscrever nenhuma destas doutrinas?

A resposta só pode ser negativa. Agostinho foi, sem dúvida, um bispo importante da Igreja antiga e católico no sentido de pertença à grande Igreja imperial e universal do seu tempo, mas o seu universo teológico era substancialmente distinto — e, em vários pontos nevrálgicos, incompatível — com o perfil doutrinal do catolicismo romano moderno.