25 de abril de 2011

QUANDO UM CEGO GUIA OUTRO CEGO…


Há duas acepções principais da palavra fé (do grego pistis) a que poderíamos chamar "fé" e "a fé".

A primeira, da qual o autor de Hebreus nos diz que sem ela é impossível agradar a Deus, é a confiança absoluta no Senhor. É por meio desta fé que nos apropriamos do dom da salvação, oferecido pela graça por intermédio de Jesus Cristo.

A segunda acepção diz respeito à doutrina, ou seja, às coisas em que, enquanto cristãos, devemos crer. Quando Judas fala de «batalhar pela fé que foi dada aos santos», não se refere à confiança em Deus, mas sim às proposições doutrinais e históricas que constituem o núcleo da doutrina cristã.

No entanto, o magistério da Igreja Católica confunde muitas vezes estas duas acepções da palavra "fé". Se não compreendem esta distinção tão simples e óbvia, quem poderão pastorear? «Se um cego guia outro cego...»

Um exemplo flagrante desta confusão pode ver-se na própria declaração dogmática da infalibilidade papal:

E certamente a doutrina apostólica deles [dos "sucessores de Pedro"], todos os veneráveis Padres a abraçaram, e os santos Doutores ortodoxos veneraram-na e seguiram-na, sabendo plenissimamente que esta Sé de São Pedro permanece sempre isenta de todo o erro, segundo a promessa de nosso divino Salvador feita ao príncipe dos seus discípulos: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos» (Lc 22,32).

Constituição dogmática I sobre a Igreja de Cristo. Concílio Vaticano I, Sessão IV de 18 de julho de 1870; Denzinger # 1836.

Note-se que os bispos do Concílio Vaticano I pretendiam fundamentar a pureza doutrinal da Sé Romana. No entanto, o texto a que recorrem não fala de doutrina. Jesus Cristo anuncia a Pedro que estava prestes a passar por uma prova («Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo»), mas acrescenta que tinha orado para que a fé de Pedro «não desfalecesse».

O verbo grego traduzido por "desfalecer" é ekleipô. Este pode significar também "faltar" ou "cessar". Ora, se Jesus se referisse aqui à doutrina, este verbo seria altamente inapropriado, pois a doutrina pode ser mantida ou corrompida, mas não "desfalecer" ou "cessar". É, portanto, óbvio — tanto pelo contexto como pelo verbo utilizado — que a "fé" de Pedro que não devia cessar era a sua plena confiança em Deus, e não um compêndio de doutrina.

Consequentemente, este texto não fundamenta de modo algum a declaração da infalibilidade.

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