18 de junho de 2026

COMO OS PROTESTANTES INVENTARAM O FUTEBOL MODERNO

 

Longe dos holofotes dos modernos estádios multimilionários, a verdadeira génese do futebol associativo remonta a um cenário inesperado: as comunidades e os valores da fé protestante do século XIX.

Quando se pensa em futebol, a tendência é associar o desporto a estádios cheios, rivalidades históricas e paixão global. No entanto, pouca gente sabe que as bases do desporto mais popular do planeta foram lançadas por iniciativa de pastores protestantes, dentro de escolas confessionais e igrejas locais.

Embora jogos rudimentares de bola com os pés existissem desde a Antiguidade (como o Cuju na China ou o violento Soule na Idade Média), o futebol associativo moderno - com regras unificadas, árbitros e campeonatos - nasceu na Inglaterra vitoriana do século XIX, moldado por valores da fé protestante (anglicanos, metodistas e presbiterianos).

Eis a história de como a religião operou a transformação do caos urbano numa paixão mundial.

1. As Escolas Públicas e a Codificação das Regras

Até ao início do século XIX, o "futebol" na Inglaterra era um jogo caótico e sem regras fixas, praticado em festividades locais. Jogava-se nas ruas, sem limite de jogadores e com uma violência brutal que frequentemente resultava em ferimentos graves. 

A transformação em desporto organizado ocorreu dentro das Public Schools (colégios internos de elite, como Rugby, Eton, Harrow e Westminster) e das universidades de Oxford e Cambridge.

Estas instituições eram profundamente ligadas à Igreja Anglicana e dedicadas à formação da elite e do clero. Os diretores destas escolas, a maioria clérigos, perceberam que o desporto canalizava a agressividade dos jovens. Em vez de se envolverem em motins ou comportamentos rebeldes, os alunos gastavam as suas energias no campo. Influenciados pelo movimento do Cristianismo Muscular, estes educadores passaram a ver o futebol como um instrumento pedagógico fundamental para desenvolver o caráter, a moral e o espírito de equipa dos rapazes.

Como cada escola tinha as suas próprias regras, era necessário criar um código único para que pudessem jogar umas contra as outras. Assim, em 1863, representantes destas escolas e clubes reuniram-se na Freemasons' Tavern, em Londres, para fundar a The Football Association (FA) e redigir o primeiro livro oficial de regras do futebol. Este momento separou definitivamente o futebol do râguebi, modalidade onde o uso das mãos e as placagens violentas continuaram a ser permitidos. 

2. O "Cristianismo Muscular"

O grande motor teológico e ideológico por trás do futebol foi um movimento da época vitoriana conhecido como Cristianismo Muscular (Muscular Christianity). Defendido por intelectuais e pastores protestantes, como Charles Kingsley e Thomas Hughes, o movimento criticava uma visão de fé excessivamente passiva ou puramente intelectual. Para estes pensadores, o corpo físico era um templo que devia ser treinado e cuidado.

A ideia central do Cristianismo Muscular era de que os desportos coletivos constituíam a ferramenta perfeita para moldar o caráter cristão. O futebol deixou de ser visto como uma distração fútil e passou a ser encarado como um exercício prático de virtudes:

Autocontrolo e disciplina: Aprender a dominar os impulsos, aceitar a derrota, respeitar o adversário e a autoridade do árbitro.

Espírito de Sacrifício: Colocar o sucesso do grupo (a equipa) acima do brilho individual.

Afastamento do Vício: Manter os jovens ocupados e longe do alcoolismo, dos jogos de azar e da criminalidade.

3. As Igrejas Locais como Incubadoras de Clubes

Com a Revolução Industrial, as jornadas de trabalho nas fábricas inglesas começaram a ser reduzidas, e o "sábado à tarde" tornou-se o momento de folga dos operários. As igrejas urbanas viram no futebol uma oportunidade perfeita de evangelismo e ação social nas periferias operárias.

Muitos dos maiores e mais tradicionais clubes de futebol ingleses nasceram diretamente como projetos sociais de igrejas protestantes:

Clube

Fundação

Origem Religiosa

Aston Villa

1874

Criado por membros de uma escola bíblica da capela metodista Villa Cross Wesleyan Chapel, em Birmingham.

Everton

1878

Fundado como St. Domingo’s FC para os jovens da Congregação Metodista de St. Domingo, em Liverpool.

Manchester City

1880

Fundado como St. Mark's (West Gorton) pela filha do reitor e por membros da Igreja Anglicana de São Marcos, para afastar os jovens dos gangues locais.

Tottenham Hotspur

1882

Criado por rapazes de uma escola bíblica da Igreja Anglicana de Todos os Santos (All Hallows Church), em Londres.

Southampton

1885

Nasceu como St. Mary's Church of England Young Men's Association (Associação de Jovens da Igreja da Inglaterra de Santa Maria).

Fulham

1879

Criado por fiéis e professores da Escola Dominical da Igreja Anglicana de St. Andrew's, em Fulham.

Wolverhampton Wanderers

1877

Fundado como St. Luke's F.C. por professores e alunos da escola da Igreja de São Lucas (St. Luke's Church).

Bolton Wanderers

1874

Fundado pelo reverendo Joseph Farrall Wright, juntamente com alunos da escola dominical da Christ Church.


4. A Expansão Global via ACM (YMCA)

Se a Inglaterra organizou o futebol de onze, a Associação Cristã de Moços/da Mocidade (ACM/YMCA) - uma organização ecuménica de base protestante fundada em Londres por Sir George Williams em 1844 - foi a grande responsável por exportar a cultura desportiva para o resto do mundo.

A ACM defendia o desenvolvimento integral do ser humano: "corpo, mente e espírito". Embora a organização seja mais famosa por ter inventado o basquetebol e o voleibol nos EUA através dos professores James Naismith (ministro presbiteriano) na ACM de Springfield e William Morgan na ACM de Holyoke, respetivamente - a ACM foi vital na introdução do futebol na América Latina, na Ásia e na Europa de Leste. Inclusive, o Futsal foi criado em 1930 dentro da ACM de Montevideu, no Uruguai.

O futebol moderno carrega, portanto, uma herança direta da ética e do pragmatismo social protestante do século XIX, visível no associativismo que caracteriza a sua estrutura organizacional, na valorização do trabalho em equipa e no respeito pelas regras. 

16 de junho de 2026

PODES TER UM CONHECIMENTO DOUTRINAL IMPECÁVEL E NÃO SER SALVO, E VICE-VERSA

 

16 de junho de 1539:

Durante um exame de ordenação em Wittenberg, Martinho Lutero foi confrontado com a seguinte afirmação: «A fé justifica; a fé é uma obra; portanto, as obras justificam.»

Ele respondeu:

«A fé justifica não como uma obra, nem como uma qualidade, nem como conhecimento, mas como assentimento da vontade e firme confiança na misericórdia de Deus. Pois, se a fé fosse apenas conhecimento, então o diabo seria certamente salvo… Consequentemente, a fé deve ser entendida de outra forma que não como conhecimento. Em parte, no entanto, ela é assentimento.»

Lutero, Conversas à Mesa N.º 4655 (16 de junho de 1539), LW 54:359–360

15 de junho de 2026

O DIA EM QUE O PAPA CHAMOU "JAVALI SELVAGEM" A LUTERO

 

Neste dia, há 506 anos, o Papa Leão X condenou formalmente o monge agostiniano Martinho Lutero através da bula papal Exsurge Domine — cujo título significa, literalmente, "Levanta-te, Senhor", num apelo dramático.

O documento não poupava nas palavras e marcou um ponto de não-retorno na Reforma Protestante. Nele, Leão X condenou Martinho Lutero em 41 acusações de heresia, que iam desde as suas duras críticas à venda de indulgências até às suas posições sobre a autoridade papal.

Lutero foi oficialmente declarado inimigo da Igreja. O decreto comparava-o a um "javali selvagem" que invadia e destruía a vinha do Senhor. Como demonstração imediata de poder e rejeição, os escritos do monge foram publicamente confiscados e queimados nas praças de Roma.

Roma deu a Lutero um prazo de 60 dias para se retratar. Em vez disso, o monge alemão respondeu à sua maneira: queimou publicamente a própria bula papal em Wittenberg, solidificando a rutura que mudaria para sempre o mapa político e religioso da Europa.

9 de junho de 2026

MARIOLATRIA E UNITARISMO


Existe um paralelo interessante entre a mariolatria e o unitarismo. Por exemplo, os católicos fazem distinções bizantinas entre dulia, hiperdulia e latria. Há a veneração prestada aos santos, a veneração especial prestada a Maria e a adoração reservada a Deus.

Da mesma forma, os unitaristas dizem que Jesus é justamente "adorado", mas não da mesma forma que Deus é adorado.

Os católicos também dizem que é correto rezar a Maria. Apesar de ser apenas humana, Maria consegue processar simultaneamente milhões de orações em dezenas de línguas estrangeiras todos os dias.

Da mesma forma, o Novo Testamento regista orações dirigidas a Jesus (por exemplo, João 14:13-14; Atos 7:59; 9:6; Apocalipse 22:20). Portanto, os unitaristas têm de acreditar que Jesus, embora seja meramente humano, consegue processar simultaneamente milhões de orações em dezenas de línguas estrangeiras todos os dias.

Além disso, os católicos acreditam que Maria é a Rainha do Céu. Da mesma forma, os unitaristas acreditam que Jesus, embora seja apenas um homem, está sentado à direita de Deus e a subjugar os seus inimigos no céu.

4 de junho de 2026

DIA DO CORPO DE DEUS


Hoje é feriado nacional e festeja-se o dia do Corpo de Deus (Corpus Christi). Festeja-se, portanto, uma absurdidade. 

Deus não tem corpo. Quem tem corpo é a pessoa de Jesus Cristo, segundo a sua natureza humana. “Deus” denota a natureza divina, e uma das propriedades da natureza divina é a imaterialidade; portanto, não pode possuir um corpo humano material. Misturar as duas naturezas, atribuindo propriedades próprias de uma natureza à outra, anula a dupla natureza humana e divina de Cristo, transformando-o num ser híbrido que não é humano nem divino. Uma heresia cristológica, portanto.

Continuação de um bom feriado, o único em que, além de se suspender o trabalho, se suspendem também as leis da lógica.

2 de junho de 2026

ENCARNAÇÃO E REENCARNAÇÃO

 

Na cristologia tradicional, a Encarnação sobrevive à morte de Cristo. Isto acontece porque a cristologia tradicional possui uma antropologia dualista. A Encarnação envolve a união do Filho Eterno com um corpo e uma alma humanos. Para citar uma formulação clássica: "criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais" (WCF 4.2).

Assim, mesmo na morte, a união hipostática permanece intacta, na medida em que o Filho permanece unido a uma alma humana.

Contudo, se o aniquilacionismo for verdadeiro, então a morte de Cristo dissolve a união hipostática. Não que o Filho tenha deixado de existir, mas o Jesus homem deixou de existir no momento da morte. 

O aniquilacionismo está logicamente baseado no fisicalismo. A consciência ou a personalidade não podem sobreviver à morte cerebral, pois a mente é gerada pelo cérebro. Inversamente, a imortalidade está indexada à ressurreição do corpo. Não existe um estado intermediário.

Isto exige que a Ressurreição não seja meramente a restauração de um corpo, mas uma reencarnação. A Encarnação ocorre duas vezes: na concepção e, novamente, no primeiro Domingo de Páscoa.

Se isso é ortodoxo ou não, é uma questão interessante. É surpreendentemente semelhante ao Budismo, com a sua versão de reencarnação sem alma (anatta).