Longe dos holofotes dos modernos estádios multimilionários, a verdadeira génese do futebol associativo remonta a um cenário inesperado: as comunidades e os valores da fé protestante do século XIX.
Quando se
pensa em futebol, a tendência é associar o desporto a estádios cheios,
rivalidades históricas e paixão global. No entanto, pouca gente sabe que as
bases do desporto mais popular do planeta foram lançadas por iniciativa de
pastores protestantes, dentro de escolas confessionais e igrejas locais.
Embora jogos rudimentares de bola com os pés existissem
desde a Antiguidade (como o Cuju
na China ou o violento Soule na Idade Média), o futebol associativo moderno — com regras
unificadas, árbitros e campeonatos — nasceu na Inglaterra vitoriana do século
XIX, moldado por valores da fé protestante (anglicanos, metodistas e
presbiterianos).
Eis a
história de como a religião operou a transformação do caos urbano numa paixão
mundial.
1. As Escolas Públicas e a Codificação das Regras
Até o início do século XIX, o "futebol" na
Inglaterra era um jogo caótico e sem regras fixas, jogado em festividades
locais. Jogava-se
nas ruas, sem limite de jogadores e com uma violência brutal que frequentemente
resultava em ferimentos graves. A transformação em desporto organizado
ocorreu dentro das Public Schools
(colégios internos de elite, como Rugby, Eton, Harrow e Westminster) e das
universidades de Oxford e Cambridge.
Estas
instituições eram profundamente ligadas à Igreja Anglicana e dedicadas à
formação da elite e do clero. Os diretores destas escolas, a maioria clérigos, perceberam a necessidade
de canalizar a energia agressiva e corrigir a indisciplina dos jovens rapazes.
Em 1863,
representantes destas escolas e clubes reuniram-se na Freemasons' Tavern,
em Londres, para fundar a The Football Association (FA) e redigir
o primeiro livro oficial de regras do futebol, separando definitivamente o
futebol do râguebi
(onde o uso das mãos e as placagens violentas continuaram a ser permitidos).
2. O "Cristianismo Muscular"
O grande
motor teológico e ideológico
por trás do futebol foi um movimento da época vitoriana conhecido como Cristianismo
Muscular (Muscular Christianity). Defendido por intelectuais e
pastores protestantes, como Charles Kingsley e Thomas Hughes, o movimento
criticava uma visão de fé excessivamente passiva ou puramente intelectual. Para
estes pensadores, o corpo físico era um templo que devia ser treinado e
cuidado.
A pregação central era de que os desportos coletivos eram a ferramenta perfeita para moldar o caráter cristão. O futebol deixou de ser visto como uma distração fútil e passou a ser encarado como um exercício prático de virtudes:
- Autocontrolo: Aprender a dominar os impulsos, aceitar a derrota e respeitar a autoridade do árbitro.
- Espírito de Sacrifício: Colocar o sucesso do grupo (a equipa) acima do brilho individual.
- Afastamento do Vício: Manter os jovens ocupados e longe do alcoolismo, dos jogos de azar e da criminalidade.
3. As Igrejas
Locais como Incubadoras de Clubes
Com a Revolução Industrial, as jornadas de trabalho nas
fábricas inglesas começaram a ser reduzidas, e o "sábado à tarde" tornou-se
o momento de folga dos operários. As igrejas urbanas viram no futebol uma oportunidade perfeita de
evangelismo e ação social nas periferias operárias.
Muitos dos maiores e mais tradicionais clubes de futebol
ingleses nasceram diretamente como projetos
sociais de igrejas protestantes:
|
Clube |
Fundação |
Origem Religiosa |
|
Aston Villa |
1874 |
Criado por membros de uma escola
bíblica da capela metodista Villa Cross Wesleyan Chapel, em
Birmingham. |
|
Everton |
1878 |
Fundado como St. Domingo’s FC
para os jovens da Congregação Metodista de St. Domingo, em Liverpool. |
|
Manchester City |
1880 |
Fundado como St. Mark's (West
Gorton) pela filha do reitor e por membros da Igreja Anglicana de São Marcos,
para afastar os jovens dos gangues locais. |
|
Tottenham Hotspur |
1882 |
Criado por rapazes de uma escola
bíblica da Igreja Anglicana de Todos os Santos (All Hallows Church),
em Londres. |
|
Southampton |
1885 |
Nasceu como St. Mary's Church
of England Young Men's Association (Associação de Jovens da Igreja da
Inglaterra de Santa Maria). |
|
Fulham |
1879 |
Criado por fiéis e professores da
Escola Dominical da Igreja Anglicana de St. Andrew's, em Fulham. |
|
Wolverhampton Wanderers |
1877 |
Fundado como St. Luke's F.C.
por professores e alunos da escola dominical da Igreja de São Lucas (St.
Luke's Church). |
|
Bolton Wanderers |
1874 |
Fundado pelo reverendo Joseph
Farrall Wright, juntamente com alunos da escola dominical da Christ Church. |
4. A Expansão Global via ACM (YMCA)
Se a
Inglaterra organizou o futebol de onze, a Associação Cristã de Moços (ACM /
YMCA) — uma organização ecuménica de base protestante fundada em Londres em
1844 — foi a grande responsável por exportar a cultura desportiva para o resto
do mundo.
A ACM
defendia o desenvolvimento integral do ser humano: "corpo, mente e
espírito". Embora a organização seja mais famosa por ter inventado o
basquetebol e o voleibol nos EUA (ambos criados por pastores presbiterianos
e congregacionais da ACM de Springfield), a ACM foi vital na introdução do futebol na América
Latina, na Ásia e na Europa de Leste. Inclusive, o Futsal foi criado em
1930 dentro da ACM de Montevideu, no Uruguai.
O futebol moderno carrega, portanto, uma herança direta da ética vitoriana e do pragmatismo social protestante do século XIX, visível no associativismo que caracteriza a sua estrutura organizacional, na valorização do trabalho em equipa e no respeito pelas regras.

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