29 de maio de 2011

ESVAZIANDO O PURGATÓRIO


Assim se esvazia o purgatório no site «Catholic Answers».

Este grupo de católicos segue o ensino segundo o qual "o Senhor prometeu a Santa Gertrudes que 1000 Almas do Purgatório seriam libertas de cada vez que esta oração fosse rezada, sendo o benefício extensível aos pecadores."

A chamada «Oração de Santa Gertrudes» diz assim:

"Eterno Pai, ofereço-Vos o Preciosíssimo Sangue do Vosso Divino Filho Jesus, em união com todas as Missas que hoje são celebradas em todo o mundo, por todas as Santas Almas do Purgatório, pelos pecadores em todos os lugares, pelos pecadores na Igreja Universal, pelos de minha casa e meus vizinhos. Amém."

Afinal, a obra consumada na cruz não estava assim tão consumada.

É incrível que o sofrimento de Cristo na cruz precise de ser completado pelas Missas e pela repetição da oração de Santa Gertrudes para conseguir efetuar a purificação do pecado!

Bem disse a Sabedoria: «Ainda que pisasses o insensato num gral entre grãos pilados, a sua estultícia não se apartaria dele» (Provérbios 27:22).

28 de maio de 2011

CONCÍLIOS ECUMÉNICOS VS. CONCÍLIOS CATÓLICOS ROMANOS


Embora a Igreja de Roma conte como concílios ecuménicos os convocados pelo Papa após o Grande Cisma entre a Igreja do Ocidente e as do Oriente (século XI), a verdade é que o título lhes assenta com demasiada largueza. A partir do I Concílio de Latrão, e até ao Vaticano II inclusive, trataram-se de concílios católicos romanos.

Além disso, apesar de, na Igreja de Roma, só o Papa poder convocar um concílio ecuménico, os concílios da Antiguidade foram convocados pelos imperadores, os quais não necessitavam da autorização de nenhum bispo, nem mesmo do de Roma. Houve, inclusive, um concílio realizado contra a vontade expressa do bispo romano: o II Concílio de Constantinopla (553).

Também não é verdade que a sanção papal fosse estritamente necessária para que as decisões de um concílio ecuménico fossem válidas. Na realidade, um concílio da Antiguidade chegou a condenar como herege um bispo de Roma: Honório I. 

Certamente, o assentimento do bispo de Roma era importante, visto que Roma era a principal sede do Ocidente, mas a validade dependia do consenso dos bispos participantes.

Creio que o sistema conciliar dos séculos IV a VII produziu esclarecimentos fundamentais na teologia cristã. Em vez de invocarem algum "iluminado" infalível, os bispos debatiam e tentavam chegar a decisões consensuais.

Porém, lamentavelmente, as decisões conciliares não estiveram imunes às vicissitudes da política, inclusive da política eclesiástica (a luta de poder entre a Igreja de Roma e as Igrejas do Oriente, em particular Bizâncio).

Esta dinâmica de cariz profundamente carnal causou uma decadência do sistema, que culminou quando, em 787, no II Concílio de Niceia, a liderança cristã de então (sob a autoridade imperial) sustentou como lícito e proveitoso o abominável culto às imagens.

Depois veio o Grande Cisma, e os concílios "ecuménicos" transformaram-se em concílios romanos que, de Latrão ao Vaticano II, moldaram a doutrina e a prática da instituição vaticana.

14 de maio de 2011

CITAÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO


No Novo Testamento, há pelo menos 295 citações diretas do Antigo Testamento, que ocupam à volta de 350 versículos do NT. Citam-se 278 versículos do AT (alguns várias vezes): 94 da Torá, 99 dos Profetas e 85 dos escritos.

(Fonte: Roger Nicole, "The Old Testament in the New Testament", em Frank E. Gaebelein, The Expositor's Bible Commentary, 1:617)

Se se incluírem as alusões, além das citações diretas, o número ascende, segundo diferentes autores, a um valor entre 613 e mais de 4000.

Se se analisarem estas citações, observar-se-á que podem classificar-se como se segue:

1. Na grande maioria dos casos, correspondem a um texto no qual coincidem a Septuaginta e o texto massorético.

2. Em outros casos, diferem tanto da Septuaginta como do texto massorético.

3. Também pode ocorrer que concorde com o texto massorético, mas não com a Septuaginta.

4. Pode haver concordância com uma variante textual da Septuaginta, mas não com outra.

5. Ou pode concordar com a Septuaginta, mas não com o texto massorético.

Isto sugere que o próprio Jesus e os autores sagrados exerceram uma considerável liberdade na hora de citar as Escrituras, usando a forma que melhor transmitia o que queriam dizer.

Ver:

F.F. Bruce, This is that. The New Testament Development of Some Old Testament Themes. The Paternoster Press, 1970.

A.W. Robertson, El Antiguo Testamento en el Nuevo. Buenos Aires: Nueva Creación, 1996.

11 de maio de 2011

SOBRE A FÁBULA DE FÁTIMA

 
1.º
Lúcia asseverou que a Virgem lhe afirmara, em 13 de outubro de 1917, que a "Grande Guerra" (1914-1918) havia acabado nesse mesmo dia. Como a guerra só terminou treze meses mais tarde, quem mentiu: Lúcia ou a Virgem?

2.º
Segundo declarações de Lúcia, a Virgem tinha-se designado a si própria pelos nomes de "Nossa Senhora" ou de "Senhora do Rosário". Pode acreditar-se em tal contrasenso? Nós, portugueses, quando nos referimos ao chefe de Estado, dizemos "o nosso Presidente da República". Ele é que nunca pronunciaria o seguinte dislate: "Eu sou o nosso Presidente da República".

3.º
Alguém poderá crer que a Virgem falasse sem mexer os lábios, sem modificar a expressão do rosto e sem fazer o mínimo gesto, como os videntes declararam?

4.º
Seria possível que a Virgem medisse apenas 1,10 m de altura? A altura da Virgem foi calculada pelo Padre Ferreira de Lacerda, tomando por base o que a própria Lúcia lhe dissera a esse respeito.

5.º
É credível que a Virgem se tenha exibido na Cova da Iria com argolas de ouro nas orelhas, conforme Lúcia asseverou?

6.º
Quando se deve acreditar em Lúcia? Quando afirmou ao cónego Nunes Formigão que não via a Senhora vir de parte nenhuma, ou quando disse ao Padre Ferreira de Lacerda que a Virgem aparecia vindo do lado nascente?

7.º
Em 13 de julho de 1917, a Virgem ordenou a Lúcia que comparecesse na Cova da Iria no dia 13 do mês seguinte. Lúcia e os primos não puderam cumprir a ordem recebida em virtude de o administrador do concelho de Vila Nova de Ourém os ter levado para aquela vila. Qual a explicação para o caso? Teria o administrador do concelho mais poder do que a Virgem, ao impedir que os três videntes cumprissem uma ordem por ela expressamente dada?

Para quem leu Fátima Desmascarada, a explicação é fácil de encontrar: quem mandara comparecer os videntes no dia 13 de agosto na Cova da Iria não fora a Virgem, mas sim o Padre Faustino José Ferreira, que exercia sobre Lúcia e os primos um poder ilimitado. O que ele não podia prever, com um mês de antecedência, era que o administrador do concelho impediria a ida dos três pastores à Cova da Iria nesse dia. 

8.º
Podia Lúcia, que sempre demonstrou possuir péssima memória (veja-se Fátima Desmascarada) e que, já em 1917, se mostrava incapaz de reproduzir as chãs e curtas frases por si atribuídas à Virgem, reproduzir mais tarde, em adulta, longas falas do Anjo e da Virgem, repleta de palavras cujo significado ela ignorava completamente?

9.º
Quando, em 1938, chegou ao lugarejo natal dos videntes, Aljustrel, o eco da inverosímil história dos "sacrifícios" e das "mortificações" a que os pequenos se teriam submetido logo após as primeiras aparições, os familiares, os vizinhos e os pais de Jacinta e Francisco (os de Lúcia já haviam falecido) abriram a boca de espanto e declararam unanimemente: "Nunca soubemos de nada! Eram exatamente como os demais".

Quem atirou essa história para o caixote do lixo foi a própria Lúcia, quando declarou ao Padre H. Jongen: "Nós continuávamos a brincar como dantes. Certas mulherzinhas devotas diziam-nos: 'Vocês viram Nossa Senhora, por isso já não deviam brincar'. Mas que podíamos nós fazer senão brincar?" (Revista Stella, 9-Nov-1946).

10.º
No convento das Doroteias, em Pontevedra, onde Antero de Figueiredo entrevistou Lúcia, esta atestou que tudo o que esse escritor registara como tendo-lhe sido dito era absolutamente exato. Pois bem: Lúcia negou a Antero de Figueiredo que, antes das aparições de 1917, tivesse tido qualquer contacto com o sobrenatural ("Antes das aparições, criança e pastora, nunca pensei nestas coisas", em Fátima, pág. 149). Mais tarde, nas suas Memórias, Lúcia viria a relatar várias aparições de um Anjo ocorridas antes de 1917.

11.º
Lúcia asseverava que nunca poderia revelar o segredo que dizia ter-lhe sido confiado pela Virgem em 1917. Afirmou-o também o Bispo de Leiria numa Carta Pastoral datada de 13/10/1930 e reafirmou-o Lúcia, de forma categórica, em 1936, a Antero de Figueiredo. Contudo, em 1946, Lúcia declarou ao Padre Jongen que já em 1927 revelara dois dos segredos ao Bispo de Leiria e ao cónego Galamba de Oliveira. A declaração de Lúcia não era verdadeira; contudo, o Bispo e o cónego, longe de a desmentirem, perfilharam-na — uma atitude estranha e de extrema gravidade.

12.º
Lúcia afirmou ao cónego Nunes Formigão que o segredo (que no início era apenas um, passando mais tarde a ser três) dizia respeito apenas a si e aos primos. Poderá aceitar-se como verdadeiro o texto desses dois segredos, conforme se leem em Jacinta?

Acerca de Lúcia, o Sr. Oliveira Santos (filho de Artur de Oliveira Santos, o administrador do concelho que interrogou as crianças em agosto de 1917) contou que António Santos, o "Abóbora", pai da vidente, assim falava da filha: "O Sr. Administrador não acredite na minha filha, que ela é uma intrujona!".

Do livro de João Ilharco, "Fátima Desmascarada: polémica"; Coimbra, 1972.

O trabalho de investigação e crítica histórico-documental de João Ilharco (Fátima Desmascarada) condensa a fragilidade da versão oficial do fenómeno em quatro grandes eixos:

1. Erros de Profecia e Anacronismos: O desfasamento entre o que foi anunciado em 1917 (como o fim iminente da Primeira Guerra Mundial) e a realidade histórica, além da revelação tardia das mensagens mais complexas (como o Segredo e as Aparições do Anjo), que só surgiram décadas mais tarde.

2. Antropomorfismo e Contradições Físicas: As descrições invulgares e humanizadas da figura — como medir apenas 1,10 m, usar brincos de ouro, falar sem mover os lábios ou apresentar-se dizendo "Eu sou a Nossa Senhora" — que colidem com a teologia tradicional e com o bom senso.

3. Incongruências Teológicas e Sociais: Situações em que a autoridade de uma figura divina aparece subordinada a imprevistos humanos (como a intervenção do Administrador do Concelho no dia 13 de agosto), revelando antes a influência do clero local sobre as crianças.

4. Evolução Narrativa e Manipulação da Memória: A enorme discrepância entre a ingenuidade e a fraca memória da Lúcia de 1917 e a complexidade teológica e política dos discursos que ela viria a reproduzir em adulta, moldados no ambiente de clausura e sob tutela eclesial.

Do ponto de vista da análise histórica e documental, o «fenómeno Fátima» resulta muito mais da construção progressiva de um mito religioso, moldado pela necessidade da Igreja de recuperar influência no Portugal do século XX, do que de um acontecimento de cariz verdadeiramente sobrenatural.

6 de maio de 2011

OS SADUCEUS E OS ESSÉNIOS DE QUMRAN TINHAM UM CÂNON DIFERENTE DO DOS RESTANTES JUDEUS?


Não se pode afirmar com absoluta certeza que os saduceus e os essénios tinham um cânon das Escrituras diferente do dos restantes judeus. Em particular, não é de todo claro se os qumranitas incluíam algum outro texto entre os considerados «inspirados», além dos pertencentes ao cânon hebraico atual. [1] 

Sobre o tema em geral, as seguintes observações são pertinentes:

"A investigação nas últimas décadas pôs em dúvida posições mantidas há muito tempo relacionadas com a história da formação do cânon bíblico hebraico e a existência de um cânon grego alexandrino. Até há umas décadas, costumava-se distinguir três etapas na história do cânon do Antigo Testamento. Para isso, tomava-se como ponto de referência o cisma samaritano, que supostamente tinha tido lugar no século V a.C. Dizia-se que o Pentateuco adquiriu reconhecimento canónico antes do cisma dos samaritanos, dado que estes reconhecem valor canónico a esta coleção de cinco livros. A coleção de livros proféticos, que não foi reconhecida pelos samaritanos, teve de formar-se e adquirir estatuto canónico posteriormente ao cisma, por volta do século III a.C. Por fim, a coleção de Escritos constituiu-se e passou a fazer parte do cânon numa época muito tardia. O processo final terminou em finais do século I d.C., por ocasião do chamado Sínodo de Yabneh [Jâmnia], no qual ficou definitivamente fechado o cânon da Bíblia hebraica.

Por outro lado, dizia-se também que, junto a este «cânon palestino», existiu outro «cânon alexandrino», próprio do judaísmo da diáspora. Este estaria representado por uma coleção de livros que aparece recolhida na versão grega dos LXX. O cristianismo fez seu esse cânon antes de os rabinos de Yabneh terem fechado definitivamente o cânon hebraico em finais do século I d.C., deixando «fora» os livros «exteriores» ou apócrifos, alguns dos quais figuravam na Bíblia grega dos cristãos.

As descobertas do Mar Morto e outra série de estudos deitaram por terra esta hipótese clássica, que ainda pode encontrar-se em muitos livros. Hoje reconhece-se que o chamado cisma samaritano ocorreu seguramente em finais do século II a.C., ou seja, quando a coleção de livros proféticos estava já formada há muito tempo. A teoria do cânon judeu alexandrino caiu por terra ao não existir prova alguma da sua existência.
...

Uma corrente importante da investigação atual tende a considerar que o cânon hebraico se formou na época macabeia, em meados do século II a.C. Esta explicação deixa, no entanto, no ar a questão do que mais tarde veio a ser o cânon cristão do Antigo Testamento. Se já não se pode dizer que os cristãos herdaram da diáspora judaica uma coleção de livros mais ampla do que a da Bíblia hebraica, ter-se-á de procurar uma explicação que justifique o facto de os cristãos não se sentirem obrigados a ater-se ao estrito cânon hebraico. Este facto pode ter antecedentes na comunidade essénia de Qumran. Seguramente os essénios de Qumran não tinham consciência nem intenção alguma de reabrir um cânon supostamente já fechado. No entanto, dá a impressão de que reconheciam a alguns escritos, como pode ser o caso do livro dos Jubileus, um caráter sagrado comparável ao de outros livros incluídos no cânon."

(Florentino García Martínez e Julio Trebolle Barrera, Los hombres de Qumrán. Literatura, estructura social y concepciones religiosas. Madrid: Trotta, 1993, p. 132-133; negrito acrescentado)

Ofereço agora as seguintes explicações de um dos mais destacados eruditos evangélicos contemporâneos, F.F. Bruce [2]. Depois de examinar a evidência de Qumran, Bruce diz:

"É provável, de facto, que no começo da era cristã os essénios (incluindo a comunidade de Qumran) estivessem substancialmente de acordo com os fariseus e os saduceus sobre os limites da Escritura hebraica. Podem ter existido algumas diferenças de opinião e prática em relação a um ou dois dos 'Escritos', mas as discordâncias entre partidos recordadas na tradição judaica têm muito pouco que ver com os limites do cânon. A ideia de que os saduceus (como os samaritanos) reconheciam somente o Pentateuco como Sagrada Escritura baseia-se num mal-entendido: quando Josefo, por exemplo, diz que os saduceus «não admitem a observância de nada além do que a lei lhes impõe» [41], não se refere ao Pentateuco com exclusão dos Profetas e dos Escritos, mas à lei escrita (do Pentateuco) com exclusão da lei oral (a interpretação e aplicação farisaica da lei escrita, a qual se defendia, em teoria, ter sido recebida e transmitida por Moisés, tal como a própria lei escrita) [42]. Seria compreensível que os saduceus não aceitassem Daniel, o qual contém a afirmação mais explícita sobre a esperança da ressurreição em todo o Antigo Testamento [43]." [3]

Notas

[41] Josefo, Antiguidades, 18.16; o seu significado é esclarecido em Antiguidades, 13.297, onde se diz que os saduceus «afirmam que devemos considerar obrigatórias as observâncias que estão na lei escrita, mas não devemos observar o que deriva da tradição dos nossos pais». Foi provavelmente uma interpretação errada de Josefo, direta ou indiretamente, o que levou Orígenes (Contra Celsum, 1.49) e Jerónimo (Comentário sobre Mateus, sobre 22:31s.) a dizerem que os saduceus aceitavam como Escritura apenas os livros de Moisés.

[42] Esta lei oral é a «tradição dos anciãos» mencionada em Marcos 7:5

[43] Daniel 12:2. Quando Jesus apelou à Escritura na sua refutação da negação da ressurreição pelos saduceus, citou Êxodo 3:6, baseando o seu argumento no caráter de Deus (Marcos 12:26s.).

(F.F. Bruce, The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, p. 40-41; negrito acrescentado).

Em conclusão, não ficou demonstrado que os saduceus e os essénios tivessem um cânon particular.

Por outro lado, os autores modernos indicam que o cânon ficou provavelmente estabelecido de forma consensual na época dos macabeus, ou seja, na segunda metade do século II a.C. A partir daí, houve ocasionalmente discussões sobre se se deveria excluir algum livro, mas nunca sobre incluir algum outro, até onde sabemos.

De modo que, até onde se pode emitir um juízo histórico, deve-se aceitar que no século I existia um acordo substancial em todo o judaísmo em relação à lista de livros considerados sagrados.


Comentários Adicionais:

[1] Há quem afirme que os homens de Qumran rejeitavam o Livro de Ester e aceitavam o Livro dos Jubileus. Contudo, a evidência de que os qumranitas «rejeitavam» o Livro de Ester (que, por outro lado, sempre esteve próximo da margem do cânon entre judeus e cristãos) é basicamente negativa: não se encontraram fragmentos deste livro entre os Manuscritos do Mar Morto. Ainda assim, não existe nenhuma declaração explícita a esse respeito.

Por outro lado, há evidência positiva de que os qumranitas consideravam inspirados os livros da Bíblia hebraica.

Além de existirem manuscritos completos ou fragmentários de todos eles (exceto Ester), muitos deles — das três divisões do Tanach — são citados com a fórmula «como está escrito». A parte mais citada é o Pentateuco, seguido pelos Profetas e pelos Escritos, nessa mesma ordem.

Num dos rolos, o 4QMMT, menciona-se uma divisão tripartida semelhante à que já se encontra em Jesus ben Sirá (Eclesiástico), em Josefo e no Novo Testamento: «no livro de Moisés, nas palavras dos Profetas e em David».

Os homens de Qumran também escreveram comentários (pesharim) sobre diversos livros do Tanach, como, por exemplo, Isaías, Salmos, Oseias e Habacuque; contudo, não há vestígios de tais comentários a livros apócrifos.

Finalmente, é verdade que os qumranitas tinham em grande estima livros pseudoepigráficos como Jubileus, 1 Enoque e o Rolo do Templo; mas não é absolutamente claro que os tivessem ao mesmo nível que os livros canónicos. Seja como for, estes livros não figuram nem no cânon palestino nem no católico.

[2] Outros autores que afirmam essencialmente o mesmo que Bruce sobre os saduceus são:


«Nas suas descrições das três filosofias, Josefo contrasta os saduceus com os fariseus e os essénios [...]. Nota também que [...] aceitam somente as leis escritas, em contraste com as tradições dos fariseus.»

James F. Driscoll, Sadducees (The Catholic Encyclopedia, vol. 13):

«Eles rejeitavam igualmente as tradições orais que os fariseus mantinham e enfatizavam como um suplemento divinamente ordenado para a lei escrita.»

W. J. Moulder, Sadducees. Em: Geoffrey W. Bromiley (Ed.), International Standard Bible Encyclopedia, Rev. Ed. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1988; 4:279; negrito acrescentado:

«Josefo indicou que os saduceus não concediam autoridade vinculativa à lei oral porque «não está registada nas leis de Moisés» (Ant. XIII, 10:6 [297]). Os fariseus, em contraste, afirmavam que as [...] «tradições dos anciãos» remontavam ao próprio Moisés e eram, portanto, obrigatórias. Até que ponto a rejeição saduceia da tradição oral se estendia até à negação do status canónico dos Profetas e Escritos veterotestamentários (como afirmavam vários Padres; por exemplo, Hipólito, Ref. IX, 29; Orígenes, Contra Celsum, 1.49; Jerónimo, In Matt. 22:31s.) é outro assunto; no entanto, visto que durante o período intertestamentário estes escritos eram considerados Escrituras por todos os judeus, e dado que nem Josefo nem o Novo Testamento dizem nada sobre os saduceus rejeitarem estas porções da Escritura, a maior parte dos eruditos modernos acredita que os Padres incorriam num erro.»

R. Le Déaut, Los saduceos. Em: Augustin George e Pierre Grelot (Dir.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento (Trad. J. Cabanes e M. Villanueva). Barcelona: Herder, 1983, 1:159:

«A sua atitude fundamental é uma fidelidade ao sentido literal da Escritura, a manutenção da Sola Scriptura, perante as tradições e a lei oral dos fariseus [...]. Os saduceus tinham as suas tradições e a sua halakha, que defendiam tenazmente; mas nunca lhes deram a mesma categoria que à lei escrita.»

Emil Schürer, Historia del pueblo judío en tiempos de Jesús, 175 a.C.-135 d.C. (Ed. rev. por Géza Vermes, Fergus Millar e Matthew Black; trad. J. Valiente Malla). Madrid: Cristiandad, 1985, 1:530-531:

«A opinião de numerosos Padres da Igreja de que os saduceus reconheciam unicamente o Pentateuco e rejeitavam os Profetas não conta com apoio algum em Josefo e, por conseguinte, é considerada errónea pela maior parte dos investigadores modernos [25].»

Nota 25. Cf. Le Moyne, op. cit., pp. 358-359; é possível que tanto os fariseus como os saduceus considerassem que os Profetas e os Escritos tinham menor autoridade do que a Torá...

[3] Como podiam os saduceus aceitar a canonicidade do Livro de Daniel se negavam a ressurreição, que está claramente expressa em Daniel? Não é ilógico?

Não, não é nada ilógico. É bem sabido que, na história da interpretação bíblica, diversos grupos ignoraram ou reinterpretaram passagens que não se enquadravam nas suas ideias. Um exemplo claro é o Targum de Isaías 53, um texto messiânico que é reinterpretado ou ignorado pelo judaísmo tradicional até aos dias de hoje. É, pois, possível que o texto de Daniel 12:1-2 fosse tratado de igual forma pelos saduceus.

Não sabemos muito acerca dos saduceus, mas o pouco que sabemos indica que aceitavam as Escrituras, mas rejeitavam as tradições orais — pelo menos as dos fariseus — e recusavam-se a colocá-las, como estes faziam, ao mesmo nível das Escrituras.

Existe, além disso, evidência de que no judaísmo sempre houve um «cânon dentro do cânon»: a Torá sempre foi considerada suprema, acima dos Profetas e dos Escritos, ainda que estes dois últimos também fossem considerados Escritura. Isto observa-se ainda em certas regras talmúdicas; por exemplo, é lícito vender um rolo dos Profetas ou dos Escritos para comprar um rolo do Pentateuco, mas o inverso não é permitido.

3 de maio de 2011

Os Depoimentos Contraditórios da Irmã Lúcia Sobre as "Aparições de Fátima"


No passado dia 13 de Fevereiro, morreu aos 97 anos (faria 98 em 30 de Março) Lúcia de Jesus dos Santos. E, com o seu abandono do mundo dos vivos, estão criadas condições para a hierarquia da Igreja Católica consumar aquilo que há muito parece ser o seu desejo: beatificar a mais importante das videntes de Fátima. Os fatimistas indefectíveis - e os políticos mais oportunistas - irão entretanto produzir sobre ela os já previsíveis discursos hagiográficos, os quais não deixarão de apregoar as suas incomensuráveis virtudes católicas e invocar o seu piedoso protagonismo na história das aparições de Fátima. A lamentável morte da irmã Lúcia poderá até servir de álibi para relançar no país e no mundo a imagem de um santuário que no último ano parece ter perdido demasiados peregrinos e, ainda, fornecer fundamentos para que o Vaticano apresse também o processo de beatificação de uma outra preciosa figura do panteão fatimista: o cónego Nunes Formigão.

No entanto, à margem de uma história mística e laudatória que sucessivos cronistas católicos, com o imprimatur da hierarquia da Igreja, souberam tão bem construir e difundir desde 1917, importa responder com rigor e objectividade a esta incontornável questão: qual o papel desempenhado pela irmã Lúcia em todo o processo das aparições de Fátima?

Neste breve e necessariamente preambular artigo de jornal, queria apenas propor aos leitores um exercício (que, obviamente, não é original) de análise comparativa de um conjunto de documentos fundamentais e que permitirá ajudar a responder à questão supracitada: os interrogatórios efectuados pelo pároco de Fátima à mais velha dos pastorinhos, entre Maio e Outubro de 1917 (ver Documentação Crítica de Fátima I, 1992), os interrogatórios aos videntes Lúcia, Francisco e Jacinta, feitos oficiosamente pelo cónego Nunes Formigão, entre Setembro e Novembro de 1917 (ver op. cit.), os interrogatórios oficiais de Lúcia, realizados pelo mesmo cónego e o padre Manuel Marques dos Santos, em 1924 (ver Documentação Crítica de Fátima, II, 1999), e as primeiras memórias redigidas pela freira Carmelita, entre 1935 e 1941, por ordem do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva (ver Memórias da Irmã Lúcia, 8.º edição, 2000) - também ele um protagonista incontornável do processo das aparições e culto da Cova da Iria.

Do primeiro documento, datado de 1917, - e, sem dúvida, o mais fidedigno - ressaltam duas ideias singelas e pouco originais: a oração e a devoção, através da recitação do Rosário; o cumprimento escrupuloso desse popular preceito espiritual teria como contrapartida o final da guerra (de 1914-18) e a implantação da paz no mundo. Deste interrogatório vale ainda a pena reter a falsa profecia presumivelmente avançada por "Nossa Senhora" (em 13 de Outubro de 1917) sobre o final imediato da guerra, efectuada nos seguintes termos: "a guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito breve".

Os segundos e terceiros documentos supracitados, de 1917 e 1924, introduzem já elementos novos que complementam e tornam a mensagem primitiva mais intricada. Atestam o mandamento Mariano da recitação do Rosário em prol do fim da guerra e da implantação da paz no mundo. Contudo, acrescentam à prática da oração os conceitos explícitos de penitência e conversão, aludem ao ensinamento por Maria de uma jaculatória cujo conteúdo consubstancia a existência de um mundo trinitário pós-terreno onde o Céu, por um lado, e o Purgatório e o Inferno, por outro lado, se configuram respectivamente como os destinos dos piedosos (ou seja, dos fiéis ou convertidos aos mandamentos católicos) e dos pecadores. Os mesmos textos mencionam pela primeira vez um (e não três) enigmático(s) e polémico(s) segredo(s) revelado(s) por "Nossa Senhora" às crianças e uma misteriosa aparição, em 1916, de um anjo a Lúcia e a outras crianças da freguesia de Fátima. E reformulam já a profecia feita sobre o final da guerra, agora apresentada em duas versões ambíguas e literariamente retocadas: "Se o povo se emendasse, acabava a guerra", ou "convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito em breve".

Os últimos textos aqui citados, as memórias escritas pela irmã Lúcia, depois de 1935, com singulares e misteriosos pormenores, os quais contrastam aliás com as respostas lacónicas e simples que emitiu nos diversos inquéritos de que foi alvo logo após os acontecimentos de 1917, retomam e ampliam intangíveis revelações, algumas já avançadas em primeira mão pelo cónego Nunes Formigão, ao longo da década de 20: entre muitas outras novidades, a morte precoce de Jacinta e Francisco, a visão de um inferno dantesco e do Imaculado Coração de Maria cercado de espinhos, o famigerado pedido da "Virgem" para "consagrarem a Rússia ao Seu Imaculado Coração". E a referência ao final da guerra, que aqui foi feita de maneira a depurar as perplexidades que as mensagens anteriores encerravam: "A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve."

Em face do exposto, podemos inferir que a história e a mensagem de Fátima que conhecemos através das palavras de Lúcia não são lineares. Isto é, muitos dos factos por ela narrados foram gradualmente alterados e efabulados entre 1917 e os anos 30. E podemos também adiantar, através da análise das diferentes mensagens, que essas transformações estão directamente relacionadas com as diferentes conjunturas político-ideológicas que se verificaram, entre 1917 e a década de 30 do século passado, em Portugal e no mundo.

A quem cabe a responsabilidade desta inequívoca falsificação da história? Não creio que se possa atribuir a Lúcia cuja vida pública e privada foi controlada e mesmo amordaçada desde 1921 (tinha então 14 anos). Pode e deve antes imputar-se a sectores poderosos da hierarquia da Igreja Católica que oportunamente souberam utilizar a última das videntes de Fátima como precioso peão ao serviço de um ambicioso e permanente movimento de renascimento católico de dimensões nacional e mundial.

Sei bem que, hoje como ontem, - num mundo pragmático, contaminado pela preponderância do "parecer" sobre o "ser" - os argumentos que sustentam esta perspectiva de nada valem e aqueles que a advogam são até rotulados, por sectores católicos mais conservadores e intolerantes, de ateus e anticlericais obstinados ou então de loucos inspirados por maquiavélicas teorias da conspiração. São esses mesmos sectores que em público preferem sistematicamente ignorar, omitir ou desvalorizar as contradições que a história de Fátima encerra e branquear os axiomáticos paradoxos consubstanciados nos depoimentos de Lúcia (e de outros cronistas) com o fundamento de que, afinal, o culto da Cova da Iria se impôs ao mundo - e tal facto, na opinião deles, legitima o argumento de que as "aparições de Fátima" beneficiaram da mão de Deus.

Em verdade vos digo, não creio que Deus possa abençoar aqueles que em nome de Cristo se assenhorearam deste culto de primitiva expressão popular - igual a tantos outros que existem no país - e depois construíram de modo premeditado um conjunto elaborado de representações místicas com o desígnio supremo de disciplinar, angariar e manipular fiéis. Contudo, estou já profundamente convicto de que a irmã Lúcia sairá inocente de tal julgamento divino.

Luís Filipe Torgal
Historiador

Bibliografia

"Os depoimentos contraditórios da Irmã Lúcia (1907-2005) sobre as «aparições de Fátima»". In: Público, 21 de Fevereiro de 2005.