A pretensa base bíblica de todas as doutrinas papais da primazia de jurisdição e da infalibilidade — fundamento da hierarquia vaticana — apoia-se em três textos:
Mateus 16:18ss
Lucas 22:31-32
João 21:15-17
e numa série de pressuposições:
1. Que, em virtude destas palavras do Senhor, Pedro foi colocado acima dos demais apóstolos, quando, na realidade, também no seu devido tempo foi colocado abaixo deles (Mateus 16:23; Lucas 22:33-34). [1]
2. Que Pedro foi o primeiro bispo de Roma (falso). [2]
3. Que designou pessoalmente o seu sucessor (falso, em decorrência do ponto anterior). [3]
4. Que tal sucessor recebeu todas as prerrogativas de autoridade que Pedro teve (infundado). [4]
5. Que tais prerrogativas constituem o bispo de Roma como chefe da Igreja universal (falso e completamente desconhecido nos três primeiros séculos do cristianismo). [5]
6. Que tal prerrogativa inclui o dom da infalibilidade sob determinadas condições (ideia totalmente desconhecida pela Igreja durante muitos séculos, mesmo no Ocidente).
7. Que não somente o bispo que supostamente sucedeu a Pedro, mas também os seus próprios sucessores na sede episcopal romana, tinham idênticos privilégios, independentemente da sua santidade de vida (ideia alheia às Escrituras). [6]
8. Que a chamada «sucessão apostólica» não tem relação com a forma da sua eleição (visto que diferentes bispos de Roma deveram o seu cargo ao voto popular, à nomeação "a dedo" pelo imperador, à usurpação, à nomeação por um concílio ou à eleição cardinalícia).
Não se trata, pois, de uma premissa falsa, mas de um conjunto de falsidades — cada uma das quais seria, por si só, suficiente para negar ao bispo de Roma a autoridade que ele reivindica.
Notas
[1] A condição de Pedro aos olhos do Senhor sofreu oscilações em relação direta com a sua resposta à missão encomendada.
[2] Como já foi demonstrado, embora a evidência de que Pedro morreu em Roma seja razoavelmente convincente, o mesmo não ocorre com a sua suposta condição de bispo monárquico dessa cidade. Por um lado, porque não há evidências de um episcopado monárquico na Igreja senão no final do primeiro século ou início do segundo — e em Roma, em particular, antes de meados do século II; por outro, porque todos os dados disponíveis indicam que a Igreja romana já tinha um tempo considerável de existência na época em que Pedro a terá visitado. Ora, se não existe certeza, nem sequer uma probabilidade razoável, de que Pedro tenha sido bispo de Roma, qualquer suposto privilégio que os bispos dessa cidade pudessem ter como "sucessores de Pedro" carece de fundamento sólido.
[3] Além disso, resta ainda demonstrar que o ofício apostólico, tal como foi dado aos Doze e a Paulo, era transferível.
[4] No Novo Testamento, embora nada impedisse que um Apóstolo fosse também um presbítero, o ofício apostólico e o de ancião (presbítero) ou bispo (epíscopo) são claramente distintos. Afirma-o também Inácio que, sendo bispo de Antioquia da Síria, diferencia claramente a sua própria autoridade da de Pedro e Paulo (mesmo tendo ambos os Apóstolos ministrado naquela congregação). O mesmo refere Clemente de Roma, ao distinguir os Apóstolos dos "bispos e ministros" por eles estabelecidos.
[5] Durante os três primeiros séculos da Igreja cristã, nenhum escritor atribuiu a autoridade de Pedro de maneira pessoal e unívoca ao bispo de Roma. O catolicismo apela frequentemente à Tradição quando as Escrituras não lhe bastam; contudo, neste tema, mais valeria nem sequer mencionar a palavra “tradição”, pois ela em nada ajuda a sua tese — bem pelo contrário. A tradição antiga (pré-nicena) reconhece repetidamente a autoridade de Pedro, mas de modo algum considera o bispo de Roma como o único, autêntico e legítimo sucessor do Apóstolo
[6] Por exemplo, Sérgio III, João XII ou Alexandre VI foram moralmente dissolutos; no entanto, os romanistas exibem-nos com orgulho nas suas listas de “sucessores de Pedro”.
