quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Supremacia papal nos escritos ante-nicenos?


A suposta "supremacia papal" antes do Concílio de Niceia

Segundo o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), na sua obra Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã que publicou imediatamente depois de deixar a Igreja de Inglaterra e ingressar na Igreja de Roma (1845), os textos patrísticos pré-nicenos sobre a supremacia do Papa, embora escassos, são mais numerosos e precisos do que aqueles que permitem defender a presença real na eucaristia.

Esta confissão é bastante significativa vindo do Cardeal Newman, cujo domínio da patrística era assinalável. Em todo o caso, os textos ante-nicenos que supostamente tratam da supremacia papal (ou seja, do bispo de Roma) também não resultam muito prometedores para a posição romanista.

A Epístola de Clemente aos coríntios

O documento patrístico mais antigo devido a um bispo de Roma é sem dúvida a Primeira Carta aos Coríntios de Clemente, que data de finais do século I. O sábio bispo escreveu uma extensa epístola por causa de distúrbios dentro da igreja coríntia contra os seus pastores legítimos. Este documento foi muito apreciado na antiguidade, a ponto que foi um candidato a ser incluído dentro do cânon do Novo Testamento. Pode-se ler a carta de cima abaixo, detalhadamente, e não se achará vestígios de nenhuma consciência de supremacia; simplesmente, o desejo fervoroso de um santo bispo de que se restabelecesse a paz na turbulenta igreja coríntia. Clemente ensina, admoesta, exorta; o que nunca faz é ordenar nem apelar à sua investidura como argumento.

Ireneu põe Roma como exemplo, mas nada diz da supremacia do seu bispo

O ilustre bispo susteve contra os hereges do seu tempo que a Igreja universal (católica) de Cristo expressa em todas as congregações locais dispersas pelo mundo, cumpriam fielmente a sua missão de ser "coluna e fundamento da verdade" ao preservar, proclamar e transmitir a autêntica tradição dos Apóstolos, com maior ou menor eloquência mas com uma mesma fidelidade. Diz Ireneu:

"Está portanto dentro da capacidade de todos os que queiram ver a verdade, contemplar claramente em toda a Igreja a tradição dos Apóstolos manifestada no mundo inteiro; e estamos em posição de reconhecer aqueles que pelos apóstolos foram constituídos bispos nas Igrejas, e a sucessão destes homens até aos nossos tempos; aqueles que nem ensinaram nem conheceram nada como os desvarios destes [os hereges]. Pois se os Apóstolos tivessem conhecido mistérios ocultos, os quais costumavam dar aos "perfeitos" à parte e separadamente do resto, eles os entregariam especialmente àqueles a quem estavam confiando as próprias Igrejas. Pois eles [os Apóstolos] estavam desejosos de que estes homens fossem perfeitíssimos e irrepreensíveis em tudo, aqueles que deixaram após si como seus sucessores, entregando o seu próprio lugar de governo a estes homens; os quais, se cumprissem as suas funções honestamente, haveriam de ser um benefício, mas se apostatassem, a pior calamidade.

Uma vez que seria muito entediante num volume como este enumerar as sucessões em todas as igrejas, indicamos a tradição derivada dos apóstolos e a fé proclamada aos homens, transmitida até aos nossos dias por meio das sucessões de bispos, como se sustenta na grande, antiga e universalmente renomada igreja que foi estabelecida em Roma pelos dois mais gloriosos apóstolos Pedro e Paulo. Deste modo confundimos todos aqueles que de qualquer forma sustentam reuniões não autorizadas por malvada auto-determinação ou vanglória ou cegueira e erróneo juízo. Com esta igreja, por causa da sua superior autoridade, toda a igreja deve concordar – isto é, os fiéis em todos os lugares, toda a igreja na qual a tradição apostólica foi preservada pelos fiéis em todos os lugares" [Adv Haer III, 3:1-2].

Dever-se-á notar aqui que não há ponta de evidência no Novo Testamento de que a Igreja de Roma tenha sido fundada por Pedro ou por Paulo, porém o argumento é válido. Ireneu, que provinha da Ásia Menor e era bispo de Lyon, tomou a Igreja de Roma, de antiguidade e prestígio indiscutíveis, como o paradigma de uma congregação fiel à doutrina dos Apóstolos, como por outro lado o eram todas as demais Igrejas dispersas pelo Império.

Note-se que não há apelação a alguma autoridade única e suprema do bispo de Roma. Já antes na mesma obra, Ireneu tinha esgrimido essencialmente o mesmo argumento acerca da ortodoxia da igreja universal ou católica:

"A Igreja, apesar de dispersa por todo o mundo, até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos esta fé: num Deus, o Pai Omnipotente, Fazedor do céu, e da terra, e do mar, e de todas as coisas que neles há; e num Cristo Jesus, o Filho de Deus, que encarnou para nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou através dos profetas as dispensações de Deus, e as vindas, e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão na carne aos céus do amadíssimo Cristo Jesus, nosso Senhor, e a sua manifestação desde o céu na glória do Pai, "para reunir todas as coisas numa" e para ressuscitar toda a carne da raça humana inteira, de forma que perante Cristo Jesus, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, "todo o joelho se dobre, das coisas no céu, e das coisas na terra e das coisas debaixo da terra, e toda a língua o confesse" a Ele, e que Ele execute o justo juízo de todos; que Ele possa enviar as impiedades espirituais e os anjos que prevaricaram e se tornaram apóstatas, juntamente com os ímpios, e injustos, e malvados, e profanos de entre os homens, para o fogo eterno; mas possa, em exercício da sua graça, conferir imortalidade aos justos, e santos, e àqueles que guardaram os seus mandamentos, e perseveraram no seu amor, alguns desde o princípio e outros desde o seu arrependimento, e possa rodeá-los com sempiterna glória.

Como já observei, a Igreja, tendo recebido esta pregação e esta fé, apesar de dispersa pelo mundo inteiro, mesmo assim, como se não ocupasse senão uma casa, a preserva cuidadosamente. Ela também crê estes pontos exactamente como se possuísse uma só alma, e um e idêntico coração, e ela os proclama, e os ensina, e os transmite, com perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca. Pois ainda que as linguagens do mundo sejam distintas, o conteúdo da tradição é um só e idêntico. Pois as igrejas que foram plantadas na Germânia não crêem nem transmitem nada diferente, nem aquelas de Espanha, nem aquelas nas Gálias, nem aquelas do Oriente, nem aquelas do Egipto, nem aquelas na Líbia, nem aquelas que foram estabelecidas nas regiões centrais do mundo. Mas como o sol, essa criatura de Deus, é um só em todo o mundo, assim também a pregação da verdade resplandece em todos os lugares, e ilumina todos os homens que estão dispostos a vir a um conhecimento da verdade. Nem nenhum dos governantes das Igrejas, sem importar quão dotado possa ser no tocante à eloquência, ensina doutrinas diferentes destas (pois ninguém é maior do que o Mestre); nem, por outro lado, quem seja deficiente em poder de expressão infligirá dano à tradição. Pois sendo sempre a fé uma só, nem alguém que é capaz de dissertar sobre ela lhe fará adição alguma, nem a diminuirá quem possa dizer pouco" [Adv Haer I, 10, 1-2].

Aqui é interessante observar o resumo que Ireneu formula da fé apostólica e católica; coisas todas elas que se ensinam claramente nas Escrituras e que são cridas hoje nas Igrejas evangélicas. Em outro lado apresenta também uma espécie de credo, e depois continua com uma exposição do ensino cristão baseado nas Escrituras [Adv Haer III, 4, 2ss]. Por último, Ireneu não se cansa de afirmar que é nas Igrejas cristãs, estabelecidas pelos Apóstolos e por aqueles que lhes sucederam no pastorado, onde se achará a exposição fiel da doutrina apostólica que se encontra nas Escrituras.

"O verdadeiro conhecimento é a doutrina dos Apóstolos, e a antiga constituição da Igreja em todo o mundo, e a manifestação distinta do Corpo de Cristo conforme as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram aquela Igreja que existe em todos os lugares, e chegou até nós, sendo guardada e preservada sem nenhuma falsificação de Escrituras, por um sistema muito completo de doutrina, e sem receber adição nem subtracção; e a leitura [da Palavra] sem falsificação, e uma exposição lícita e diligente em harmonia com as Escrituras, sem perigo nem blasfémia, e o preeminente carisma do amor, o qual é mais precioso do que o conhecimento, mais glorioso do que a profecia, e que excede todos os outros dons" [Adv Haer IV, 33,8].

Ora, o que Ireneu dizia no século II não é sustentável depois dos cismas do oriente e ocidente, pelo menos não no sentido que o nobre bispo lhe deu. Para além disso, as igrejas evangélicas crêem nas coisas que segundo Santo Ireneu eram o núcleo da fé sustentada em todos os lugares.

A controvérsia pascal do século II e como o bispo de Roma teve que reconsiderar

O testemunho de Ireneu acerca da Igreja de Roma pode entender-se melhor à luz desta controvérsia e do papel que coube ao bispo de Lyon em restaurar a paz.

No Livro V, Capítulos 23 ao 25, da sua História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia apresenta um relato da controvérsia pascal, por causa das diferenças entre a forma de observar a Páscoa dos bispos asiáticos e outros, incluído o de Roma, Vítor. O asiático Polícrates escreveu a Vítor:

"Nós, pois, celebramos intacto este dia, sem acrescentar nem tirar nada. Porque também na Ásia repousam grandes luminárias ... Felipe ... João, o que se recostou sobre o peito do Senhor ...repousa em Éfeso. E em Esmirna, Policarpo, bispo e mártir. E Traseas, também ele bispo e mártir ... repousa em Esmirna. E é preciso falar de Sagaris, bispo e mártir, que descansa em Laodiceia, assim como do bem-aventurado Papírio e de Melitão, o eunuco, que ... repousa em Sardes esperando a visita que vem dos céus no dia em que ressuscitará dentre os mortos? Todos estes celebraram como dia da Páscoa o da décima quarta lua, conforme o Evangelho, e não transgrediam, mas seguiam a regra da fé.

E eu mesmo, Polícrates, o menor de todos vós, [sigo] a tradição de meus parentes ... Sete parentes meus foram bispos, e eu sou o oitavo... Portanto, irmãos, eu, com os meus sessenta e cinco anos no Senhor, que conversei com irmãos procedentes de todo o mundo e que recorri toda a Sagrada Escritura, não me assusto com os que tratam de impressionar-me, pois os que são maiores do que eu disseram: Importa mais obedecer a Deus do que aos homens... Poderia mencionar os bispos que estão comigo, que vós me pedistes que convidasse e que eu convidei. Se escrevesse os seus nomes, seria demasiado grande o seu número. Eles, mesmo conhecendo a minha pequenez, deram o seu comum assentimento à minha carta, sabendo que não é em vão que trago os meus cabelos brancos, mas que sempre vivi em Cristo Jesus".

Eusébio diz que em resposta Vítor, bispo de Roma, "tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou a condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem excepção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou aos bispos, que por sua parte exortavam-no a ter em conta a paz e a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se inclusive as palavras destes, que repreendem Vítor com bastante energia".

Uma de tais enérgicas cartas foi escrita por Ireneu, bispo de Lyon, admirador da Igreja de Roma (ver mais acima) e partidário da posição de Vítor quanto à celebração pascal mas não do seu procedimento contra os asiáticos. Eis aqui o que cita Eusébio:

"Efectivamente, a controvérsia não é somente sobre o dia, mas também sobre a própria forma do jejum, porque uns pensam que devem jejuar durante um dia, outros que dois e outros que mais; e outros dão a seu dia uma medida de quarenta horas do dia e da noite. E uma tal diversidade de observantes não se produziu agora, em nossos tempos, mas já muito antes, sob nossos predecessores, cujo forte, segundo parece, não era a exactidão, e que forjaram para a posteridade o costume em sua simplicidade e particularidade. E todos eles nem por isso viveram menos em paz uns com os outros, tanto quanto nós; o desacordo quanto ao jejum confirma o acordo quanto à fé. ... Entre eles, também os presbíteros antecessores de Sotero, que presidiram a igreja que tu reges agora, quero dizer Aniceto, Pio e Higinio, assim como Telésforo e Sisto: nem eles mesmos observaram o dia nem permitiam aos que estavam com eles escolher, e nem por isso eles mesmos, que não observavam o dia, viviam menos em paz com os que procediam das igrejas em que se observava o dia... E nunca se rechaçou ninguém por causa desta forma, antes, os próprios presbíteros, teus antecessores, que não observavam o dia, enviavam a Eucaristia [em sinal de comunhão] aos de outras igrejas que o observavam. E encontrando-se em Roma o bem-aventurado Policarpo nos tempos de Aniceto, surgiram entre os dois pequenas divergências, mas em seguida estavam em paz, sem que sobre este capítulo se querelassem mutuamente, porque nem Aniceto podia convencer Policarpo a não observar o dia – como sempre o havia observado, com João, discípulo de nosso Senhor, e com os demais apóstolos com quem conviveu -, nem tampouco Policarpo convenceu Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia manter o costume dos presbíteros seus antecessores. E apesar de estarem assim as coisas, mutuamente comunicavam entre si, e na Igreja Aniceto cedeu a Policarpo a celebração da eucaristia, evidentemente por deferência, e em paz se separaram um do outro; e toda a Igreja tinha paz, tanto os que observavam o dia como os que não o observavam".

(Citações da edição preparada por Argimiro Velasco Delgado; Madrid: BAC, 1973).

Cipriano de Cartago

Diversos textos do bispo de Cartago citam-se como supostos testemunhos do século III a favor da supremacia papal; por exemplo, a sua declaração na Epístola 54 a Cornélio acerca de certos hereges:

"Depois de tais coisas como estas, ainda se atrevem – tendo sido nomeado para eles um falso bispo pelos hereges - a embarcar e levar cartas de pessoas cismáticas e profanas ao trono de Pedro, e à Igreja principal onde a unidade sacerdotal tem a sua fonte; e a não considerar que estes foram os romanos cuja fé foi louvada na pregação pelo Apóstolo, aos quais a falta de fé não podia aceder".

Elogiosas palavras que, se se tomarem fora do contexto, parecem dizer mais do que São Cipriano quis. Com efeito, o bispo e mártir continua dizendo:

"Mas qual foi a razão da sua vinda e anúncio da feitura do pseudo-bispo em oposição aos bispos? Porque eles ora estão satisfeitos de como fizeram as coisas, e persistem na sua impiedade; ou, se estão descontentes e se retratam, sabem para onde podem voltar. Porque, como foi decretado por todos nós – e é igualmente equânime e justo - que o caso de cada um seja ouvido ali onde o delito foi cometido; e uma porção do rebanho foi confiada a cada pastor individual, a qual ele deve dirigir e governar, devendo dar conta dos seus actos ao Senhor; certamente não corresponde àqueles sobre quem estamos o correr por aí nem quebrantar a unidade dos bispos com a sua artificiosa e enganosa precipitação, mas o apresentar a sua causa ali onde eles podem ter tanto os acusadores como as testemunhas do seu crime; a menos que porventura pareça demasiado pouco a uns poucos homens abandonados e desesperados a autoridade dos bispos de África, que já os julgaram e finalmente condenaram, pela gravidade do seu juízo, estando a consciência daqueles atada em muitas ligaduras de pecado. O seu caso já foi examinado, a sua sentença já foi pronunciada; nem convém à dignidade dos sacerdotes ser culpados pela leveza de uma mente mutável e inconstante, quando o Senhor ensina e diz, "Que o teu sim seja sim, e que o teu não seja não".

Em outras palavras, depois dos seus elogios São Cipriano diz muito claramente que o caso destes hereges não deve ser julgado por Roma, já que isso é, de comum acordo entre os bispos (e não por algum dictum papal) prerrogativa dos bispos em cuja sede se cometeu o delito.

Os bispos africanos rectificam um erro do bispo de Roma

E que este e não outro é o sentido das suas palavras não somente se depreende do contexto, fica claramente demonstrado em primeiro lugar por um incidente a propósito da destituição de dois bispos ibéricos. Os bispos depostos apelaram a Estêvão e obtiveram deste o apoio para a sua restauração. No entanto, aqueles que tinham deposto os bispos apelaram a Cipriano e aos bispos africanos, que ratificaram a condenação dos bispos depostos. Este último critério foi o que prevaleceu, e não o do bispo romano Estêvão:

"Consequentemente alguns dos seus companheiros bispos se puseram do seu lado, mas os outros levaram o caso perante São Cipriano. Uma assembleia de bispos africanos convocada por ele renovou a condenação de Basílides e Marcial, e exortou o povo a entrar em comunhão com os sucessores deles. Ao mesmo tempo, [os bispos africanos] se esmeraram em assinalar que Estêvão tinha agido como o tinha feito porque «situado à distância, e ignorante dos verdadeiros factos do caso» tinha sido enganado por Basílides."

Horace K. Mann, Pope St. Stephen I (Catholic Encyclopedia, vol. XIV)

Em bom português, com toda a delicadeza os africanos "desculparam" Estêvão por ter sido vítima de um engano por causa da sua ignorância da verdadeira situação.

A controvérsia baptismal

Em segundo lugar, pela atitude que Cipriano e os demais bispos africanos, além do mais célebre bispo da Ásia, Firmiliano, adoptaram quando Estêvão, o bispo de Roma, quis impor a sua opinião acerca do baptismo dos hereges. Que fosse Estêvão ou Cipriano quem tinha razão não é relevante; o facto é que a autoridade do bispo de Roma não era tida por inquestionável, nem pouco mais ou menos, pelo resto dos bispos.

Eis aqui o que diz Cipriano:

"... já que quiseste que o que Estêvão, nosso irmão, respondeu às minhas cartas, fosse posto em teu conhecimento, enviei-te uma cópia da sua resposta; ao ler a qual observarás mais e mais o seu erro em esforçar-se por sustentar a causa dos hereges contra os cristãos, e contra a Igreja de Deus... Ele proibiu que alguém que proviesse de qualquer heresia fosse baptizado na Igreja; ou seja, julgou o baptismo de todos os hereges como justo e legítimo... E insistiu em que nada se inovasse ...; como se fosse um inovador quem, mantendo a unidade, defende para a única Igreja um único baptismo; e não manifestamente o fosse quem, esquecendo a unidade, adopta as mentiras e o contágio de uma lavagem profana... De onde é esta tradição? Até que ponto descende da autoridade do Senhor e do Evangelho, ou dos mandamentos e epístolas dos apóstolos? ... De modo que ninguém deve difamar os apóstolos como se eles tivessem aprovado o baptismo dos hereges, ou tivessem tido comunhão com eles sem o baptismo da Igreja, quando eles, os apóstolos, escreveram semelhantes coisas dos hereges... que obstinação é, ou que arrogância, preferir a tradição humana à ordenança divina, e não observar que Deus está indignado e furioso todas as vezes que a tradição humana relaxa e substitui os preceitos divinos [cita Isaías 29:13; Marcos 7:13; 1 Ti 6:3-5].

Certamente uma excelente e legítima tradição é disposta diante de nós por nosso irmão Estêvão, a qual pode conceder-nos uma adequada autoridade! Pois no mesmo lugar da sua epístola ele acrescentou e continuou: 'Já que aqueles que são especialmente heréticos não baptizam os que vêm a eles de uns para outros, mas os recebem em comunhão.' A este ponto de maldade chegou a Igreja de Deus e Esposa de Cristo, que segue os exemplos dos hereges; que com o propósito de celebrar os sacramentos celestiais, a luz deva obter a sua disciplina das trevas, e os cristãos devam fazer o que fazem os anticristos. Mas o que é esta cegueira da alma, o que é esta degradação da fé, a de recusar-se a reconhecer a unidade que provém de Deus Pai, e da tradição de Jesus Cristo o Senhor e nosso Deus!?

... Mas como nenhuma heresia, e igualmente nenhum cisma, estando fora [da Igreja] pode ter a santificação do baptismo que salva, por que é que a amarga obstinação de nosso irmão Estêvão irrompeu até ao ponto de sustentar que nascem filhos de Deus do baptismo de Marcião, ou até mesmo, de Valentino e Apeles, e de outros que blasfemam contra Deus o Pai; e de dizer que a remissão dos pecados é concedida no nome de Jesus Cristo onde se vociferam blasfémias contra o Pai e contra Cristo, o Senhor Deus?" [Ep. 73 a Pompeu]

Por seu lado Firmiliano, bispo de Cesareia da Capadócia, concorda de todo o coração com o africano, compara Estêvão com Judas, e afirma como coisa sabida de todos que a Igreja de Roma não mantém em tudo as tradições originais:

"Excepto que podemos neste assunto agradecer a Estêvão, que foi agora através da sua descortesia que recebemos a prova da tua fé e sabedoria. Mas ainda que tenhamos recebido o favor deste beneficio por causa de Estêvão, certamente Estêvão nada fez que mereça amabilidade e agradecimento. Pois Judas também não pode considerar-se digno por sua perfídia e traição com a qual impiamente procedeu em relação ao Salvador, como se ele tivesse sido a causa de tão grandes vantagens, que através dele o mundo e os gentios fossem libertados pela paixão do Senhor.

Mas deixemos de momento estas coisas que foram feitas por Estêvão, não seja que recordando a sua audácia e orgulho tragamos uma tristeza mais duradoura sobre nós por causa das coisas que impiamente fez. E sabendo, em relação a ti, que tu concluíste o assunto... demos graças a Deus que achámos em irmãos tão distantes tal unanimidade de fé e verdade.

E certamente, em relação ao que Estêvão disse, como se os apóstolos proibissem que fossem baptizados os que vêm da heresia, e tivessem entregue isto também para ser observado pelos seus sucessores, tu respondeste abundantissimamente, que ninguém é tão tolo para crer que os apóstolos transmitiram isto, quando é bem sabido que estas mesmas heresias, execráveis e detestáveis como são, surgiram subsequentemente...

Mas que os que estão em Roma não observam em todos os casos aquelas coisas que foram transmitidas desde o princípio, e vãmente pretendem a autoridade dos apóstolos; qualquer um pode sabê-lo também do facto que, em relação à celebração da Páscoa, e em relação a muitos outros sacramentos de assuntos divinos, pode ver que há algumas diferenças entre eles, e que nem todas as coisas são observadas igualmente entre eles, como são observadas em Jerusalém, do mesmo modo que em muitas outras províncias também muitas coisas são variadas devido à diferença dos lugares e nomes. E no entanto, nem por isso há separação da paz e da unidade da Igreja Católica, como a que Estêvão se atreveu agora a realizar; quebrantando a paz contra vós, a qual os seus predecessores mantiveram sempre convosco em mútuo amor e honra, até difamando, com isto, os benditos apóstolos Pedro e Paulo, como se os mesmos homens que nas suas epístolas execraram os hereges, e nos advertiram que nos apartássemos deles, tivessem transmitido isto. Daí que é uma tradição humana a que defende os hereges, e afirma que eles têm um baptismo, que pertence somente à Igreja." [Ep. 74, de Firmiliano a Cipriano (256)].

De modo que, na Igreja Católica antiga, o bispo de Roma tinha sem dúvida um lugar preeminente, mas de modo algum estava por cima de todos, e em mais de uma ocasião teve que ser posto no seu lugar pelos seus colegas.

Finalmente, deve realçar-se que com excepção de Clemente, numa única carta autêntica, os bispos de Roma não tiveram um papel destacado como mestres da cristandade nos primeiros séculos. Distinguem-se os asiáticos e os africanos; mas dentre os que escreveram em Roma, nenhum foi bispo de tal cidade (na verdade, Hipólito foi transitoriamente "antipapa").

Fernando D. Saraví

5 comentários:

  1. A paz do senhor meu camarada, gostei muito de seu blog, coloquei um texto seu em meu blog muito bom que fala muita verdade, forte abraço

    http://levandocristoparaasruas.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  2. Paz Ulisses!

    Obrigado pelas suas amáveis palavras. Sinta-se livre para utilizar os textos que quiser deste blog.

    Bênçãos em Cristo

    ResponderEliminar
  3. Paz amado.
    Gostei da sua materia, pois professor de seitas e heresias e historia da igreja.
    Ja estou te seguindo.

    www.pitante.blogspot.com

    ResponderEliminar
  4. Deixo aqui uma questão que foi feita através de email por parte de um leitor, uma vez que pode interessar a outros.
    ---------------------------------------------------------------------------


    Oi tudo bem, gostaria que você tirasse uma duvida minha.


    Os católicos sempre usam uma frase de São Cipriano para provar a superioridade da Igreja Romana. A frase de São Cipriano é essa :

    “Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica.” (Epist. 48, n.3, Hartel, 607).

    Você poderia me explicar essa frase, o porque Cipriano disse isso. Ou se essa carta é forjada, ou se Cipriano errou em dizer isso já que os pais da Igreja cometiam erros também.

    Obrigado

    Fique com Deus

    T+++

    ResponderEliminar
  5. Eis a resposta:

    Essa citação de Cipriano está adulterada e isolada do contexto. As palavras «Roma» e «trono» são interpolações, pois não constam do texto original.

    O texto a que essa citação se refere encontrei na edição ANF na epístola 44 de Cipriano. http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf05.iv.iv.xliv.html

    E diz assim:

    "Porque nós, que fornecemos todas as pessoas que navegam daqui com um plano para que possam navegar sem qualquer ofensa, sabemos que os exortamos a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica (ut ecclesiae catholicae matricem et radicem agnoscerent ac tenerent)".

    O contexto é o seguinte.

    Esta carta de Cipriano é dirigida a Cornélio.

    Naquela altura havia um cisma na comunidade cristã de Roma, e era vital para os católicos cartagineses entrar em comunhão lá com a comunidade católica. Esta era a comunidade liderada por Cornélio, o bispo da Igreja Católica em Roma, e não a de Novaciano, o líder de um grupo cismático.

    Cipriano que era bispo de Cartago, no norte de África, menciona que pediu àqueles que viajavam para Roma para ter muito cuidado com o partido a que se juntariam naquela cidade para ter comunhão. Ele exortou-os "... a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica." A matriz e raiz aqui não se refere à Igreja Romana, como tal, mas o «seio e raiz» são a Igreja Católica.

    Em outras palavras, o que Cipriano diz é que exortou os cartagineses a não sair da raiz e do seio da Igreja Católica, da qual a Igreja Romana era uma parte, juntando-se em Roma ao grupo liderado por Novaciano.

    Portanto, esta passagem não tem a ver com uma supremacia jurisdicional da Igreja de Roma sobre as demais Igrejas. O primeiro bispo de Roma que explícita e claramente manifesta pretensões de supremacia sobre a Igreja universal é Leão Magno no século V. Atribuir tal ideia a Cipriano ou a qualquer outro Padre da Igreja anterior ao século V é um anacronismo.

    Para mais informações sobre Cipriano ver:

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/02/supremacia-papal-nos-escritos-ante.html

    http://www.e-cristianismo.com.br/pt/apologistas/248-cipriano-de-cartago-e-a-catedra-de-pedro

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/10/mateus-1618-nos-padres-da-igreja.html

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2011/03/igreja-primitiva-sobre-o-papado-segundo.html


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