16 de dezembro de 2025

VENÂNCIO FORTUNATO vs. A IMACULADA CONCEIÇÃO

 

Venâncio Honório Clementiano Fortunato (c. 530–c. 600/609) foi um poeta latino e hinógrafo na corte merovíngia, bem como bispo da Igreja Católica Antiga. Na sua obra Expositio symboli (19-20), refere o seguinte:

«Deve-se, contudo, notar isto: uma vez que o Espírito Santo é o criador da carne do Senhor, a majestade do Espírito Santo é por aí demonstrada. Pois o facto de o Deus de majestade ter nascido na carne através de Maria não significa que Ele tenha sido manchado ao nascer de uma virgem, Ele que não foi contaminado ao criar o homem a partir do pó. Afinal, se o sol ou o fogo incidirem sobre a lama, purificam o que tocaram e, no entanto, não se poluem a si mesmos.»

Lat.: Hoc tamen notandum est, quia dum Spiritus Sanctus est dominicae carnis creator, Spiritus Sancti hinc maiestas ostenditur. Quod vero Deus maiestatis ex Maria in carne natus est, non est sordidatus nascendo de virgine, qui non fuit pollutus hominem condens de pulvere. Denique sol aut ignis si lutum inspiciat, quod tetigerit purgat et se tamen non inquinat.

Fortunato afirma algo semelhante em In laudem sanctae Mariae (251–254):

«E, no entanto, é gerado Deus e homem verdadeiro, um só Cristo de espírito e carne, reunindo ambas as naturezas: na divindade igual ao Pai e no corpo igual à mãe, mas uma carne assumida da mãe sem pecado.»

Lat.: Et tamen est genitus Deus et homo verus et unus spiritus atque caro Christus utrumque genus. In deitate patri aequalis vel corpore matri sed sine peccato de genetrice caro.

As passagens analisadas de Venâncio Fortunato mostram que o poeta do século VI não defendia a Imaculada Conceição de Maria, inscrevendo-se antes na tradição patrística clássica.

Três elementos do seu texto sustentam esta conclusão:

1. A purificação na Encarnação (Expositio symboli 19-20): A analogia do sol e do fogo sublinha que é a ação do Espírito Santo, no momento da concepção de Cristo, que purifica a carne humana assumida de Maria, impedindo que a divindade se "manche".

2. A distinção entre a carne da mãe e a do Filho (In laudem sanctae Mariae 251-254): Ao afirmar que Cristo assume da progenitora «uma carne sem pecado» (sed sine peccato de genetrice caro), Fortunato situa a ausência de pecado na carne de Cristo, recebida de Maria, e não numa preservação prévia da própria pessoa de Maria.

3. A santificação no momento do Fiat: Tal como a maioria dos Padres da Igreja da sua época, Fortunato via a purificação total de Maria como ocorrendo na Anunciação/Encarnação (para tornar o seu ventre um templo puro para o Verbo) e não no primeiro instante da sua própria concepção.

Assim, Fortunato atribuía a isenção do pecado à obra do Espírito Santo na pessoa de Cristo, aproximando-se da linha teológica que mais tarde seria defendida por Tomás de Aquino e pelos dominicanos.

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