I) Ausência da Pentarquia. Apesar da alegação do Concílio de ter todos os cinco Patriarcas presentes — Roma, Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém —, Richard Price afirma que os bispos de Antioquia, Alexandria e Jerusalé m não foram nem informados da convocação do Concílio, nem estiveram representados nele por legados oficiais (Price, 198 –205) [1]. O autor sustenta que Niceia II reviveu a ideia da Pentarquia como forma de reforçar a própria autoridade e anular o iconoclasta Concílio de Hieria de 754, mas que isso não passou de uma miragem. No final, apenas Roma e Constantinopla marcaram presença.
II) Ausência do Ocidente. Além dos dois legados papais enviados de Roma, não havia bispos ocidentais presentes em Niceia II. Isto não se deveu à impossibilidade de comparecerem, mas sim à ausência de convite, num momento em que o poderiam ter feito: Carlos Magno estava a construir o que em breve se tornaria o Sacro Império Romano e detinha os recursos e o desejo de intervir nos assuntos da Igreja. No Concílio de Frankfurt, os teólogos carolíngios objetaram que Niceia II não tinha o direito de definir doutrina para toda a Igreja sem "investigar a opinião da Igreja sobre este assunto em cada uma das suas partes" (citado em Price, 72). Assim, com praticamente toda a metade ocidental da cristandade excluída de Niceia II, quão "ecuménico" foi ele?
III) A lenta recepção e rejeição de Niceia II. De todos os sete concílios ecuménicos, a recepção de Niceia II foi a mais lenta, tendo chegado a ser rejeitado em várias partes. No Oriente, antes da realização de Niceia II, o Concílio de Hieria de 754 — que contou com a presença de 338 bispos, mais do que qualquer uma das sessões de Niceia II (Price, 457, 685, 687) — apoiou a pos ição iconoclasta. Este Concílio de Hieri a chegou a ser aclamado como o sétimo concílio ecuménico durante os séculos VIII e IX no Oriente. Após a realização de Niceia II, o Oriente ainda chegou a anulá-lo, sendo apenas em 843 que o "Triunfo da Ortodoxia" pôde ser declarado e o iconodulismo firmemente estabelecido [2].
No Ocidente, Niceia II foi rejeitado por Carlos Magno e pelos seus teólogos, que realizaram o seu próprio concílio — o Concílio de Frankfurt de 794 —, no qual assumiram uma posição intermédia, entendendo que as imagens funcionavam como os "livros dos analfabetos" [3]. Mesmo Roma não aceitou Niceia II como o sétimo concílio ecuménico até 880, e parte dessa decisão parece ter decorrido da tentativa de obter ajuda militar bizantina contra os sarracenos (Price, 75) [4].
Tanto no Oriente como no Ocidente, Niceia II parece ter permanecido desconhecido (ou ignorado) fora de Roma e Constantinopla. Price observa que "durante os séculos seguintes, Nice ia II não foi adicionado à lista de concílios ecuménicos na Síria-Palesti na" (204) e, no Ocidente, foi apenas quando partes d as suas atas foram incluídas no Decretum de Graciano, por volta de 1140, que entrou para o direito canónico "convencional" (76).
Por fim, nenhuma tradição protestante aceitou Niceia II nos seus documentos confessionais, e a maioria manteve-se hostil a parte ou a toda a teologia relativa à veneração de ícones.
Notas:
[1] Isto poderá ter ocorrido devido à dificuldade de comunicação com estes bispos em virtude da oposição ou do controlo dos seus governantes árabes.
[2] Price observa que o Sínodo de Constantinopla de 815, que restabeleceu o iconoclasta Concílio de Hieria, obteve “aceitação imediata […] pela esmagadora maioria dos bispos, clérigos e monges” e, portanto, “podemos presumir que […] a alegação de Niceia II de que não venerar imagens constituía uma verdadeira heresia não colou” (62). Um exemplo é apontado na figura de Germano, descrito como um “iconófilo moderado” que não considerava o iconodulismo idólatra, mas que também não exigia a veneração como obrigatória (Price, 250-251).
[3] Esta era, essencialmente, também a posição de Gregório Magno. Curiosamente, isto não está muito longe da posição adotada em Hieria; como observa Price, “a principal preocupação dos iconoclastas bizantinos não era destruir imagens – e vimos que a extensão da destruição real é desconhecida –, mas sim parar a sua veneração” (18).
[4] Apesar de, conforme os comentários de Adriano na sua carta de 792 a Carlos Magno, este ter afirmado que “aceitamos este concílio” (Price, 66), tal parece constituir uma referência à respetiva aceitação meramente como um sínodo local (Price, 67, 75).
Bibliografia:
Price, Richard. The Acts of the Second Council of Nicaea (787). Liverpool University Press, 2020.

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