Recentemente, a Igreja Católica Romana convocou adolescentes da catequese, catequistas, escoteiros e seminaristas de todo o mundo para confluírem num único ponto do planeta. Uma espécie de cruzada medieval pacífica batizada de Jornada Mundial da Juventude. Conseguiu assim, com o generoso apoio do Estado português, inundar a cidade de Lisboa com cerca de 500 mil pessoas, oficialmente apelidadas de “peregrinos”, que afinal não vieram fazer mais do que turismo religioso, tendo como grande atração principal o Papa Francisco.
Conseguiu também colocar as televisões portuguesas a competir com a TV Canção Nova numa histeria coletiva, como se estivessem a cobrir a sétima aparição de Fátima, o que redundou numa imensa campanha publicitária gratuita a favor da instituição.
Contudo, a dimensão global do evento sai algo esvaziada quando olhamos para os números: metade dos “peregrinos” presentes era oriunda de apenas quatro países (Espanha, com o maior contingente, seguida por Itália, Portugal e França). Se juntarmos os norte-americanos e os brasileiros, chegamos a uns impressionantes 70% de participantes vindos de apenas seis nações. Tendo em conta que metade dos católicos norte-americanos são de origem hispânica, fica difícil não concluir que o catolicismo é, no fundo, uma religião essencialmente latina e para latinos.
P.S. — Ainda cheguei a pensar que iria acontecer algo verdadeiramente surpreendente quando Francisco, adotando aquele seu tom de coach espiritual, ensinou que o único momento em que é lícito olhar alguém de cima para baixo é para o ajudar a levantar — ou seja, que ninguém se deve considerar superior a ninguém. Fiquei à espera que, para dar o exemplo, anunciasse a abolição do cargo de Papa e de todo o sistema hierárquico piramidal, um verdadeiro sistema de castas que molda a Igreja de Roma. Mas parece que passar das palavras aos atos continua a ser a parte mais difícil.

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