sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Análise do Credo Niceno

 

É frequente ouvir cristãos fazerem das antigas declarações de fé como o Credo Niceno a sua referência. Se algo não está no Credo Niceno ou no Credo dos Apóstolos, então é secundário e opcional.

Mas Deus não nos mandou fazer desses credos a referência. Os credos podem funcionar como resumos de doutrina úteis e necessários, mas Deus nos ordena que creiamos na sua Palavra (a Bíblia). Esse é o padrão de referência primário. Os credos não substituem a fé na Escritura. Esse é o padrão pelo qual devemos viver.

Analisemos o Credo Niceno:

Cremos em um só Deus,

Pai Todo-poderoso,

i) A tradução portuguesa tem uma vírgula depois de "um só Deus," o que pode sugerir que “um só Deus” inclui o Pai, Filho, e Espírito Santo. Mas, que eu saiba, o texto grego não tem essa pontuação.

ii) Estas parecem ser cláusulas paralelas:

Cremos em um só Deus, Pai  

Cremos em um só Senhor Jesus Cristo

Se assim for, isso sugere que o Credo Niceno apenas afirma o Pai como o único Deus - não o Pai, Filho e Espírito inclusivamente. Nesse caso, é uma formulação muito defeituosa. [1]

Criador do céu e da terra,

i) Na Escritura, a criação do mundo não é exclusiva do Pai. Na verdade, o NT normalmente atribui essa ação ao Filho.

De facto, o Credo prossegue dizendo que "todas as coisas foram feitas por meio" do Filho.

Mas nesse evento, falha em destacar algum ato ou atributo particular que distingue o Pai do Filho.

ii) O Credo é deficiente a esse respeito porque a teologia patrística era subdesenvolvida. Por exemplo, um calvinista diria que a obra do Pai inclui eleição e justificação, bem como a ressurreição de Jesus dos mortos. Na economia da salvação, isso é distintivo do Pai.

de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Em rigor, não diria que tudo o que é invisível foi criado. Os números não foram criados. Mundos possíveis não foram criados. As leis da lógica não foram criadas. São coisas inerentes à mente e à natureza de Deus.

Cremos em um só Senhor Jesus Cristo,

o único Filho de Deus,

nascido do Pai antes de todos os séculos,

Deus de Deus, luz de luz,

verdadeiro Deus de verdadeiro Deus;

gerado, não criado,

Uma cristologia que diz que o Filho deriva sua existência do Pai está mais perto do arianismo do que uma cristologia que afirma a asseidade do Filho. Eu não afirmo a geração eterna do Filho, mas sim a filiação eterna do Filho. Deus não é derivativo.

de igual substância do Pai;

Essa é a melhor parte do Credo. Infelizmente, falha em estender esse princípio ao Espírito. Nunca diz que o Espírito é consubstancial ao Pai. Essa é uma omissão grave.

por Ele todas as coisas foram feitas.

Por nós, homens, e por nossa salvação, Ele desceu do céu e se fez carne, pelo Espírito Santo, da virgem Maria, e se tornou homem.

Também por nós, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado.

Ressurgiu no terceiro dia, conforme as Escrituras.

Subiu ao céu, está sentado à direita do Pai e de novo há de vir, com glória, para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim.

Tudo bem.

Cremos no Espírito Santo, Senhor e Vivificador,

i) Isso é bastante superficial. Falha ao não mencionar a obra do Espírito na regeneração e santificação. Mais uma vez, essa deficiência reflete o estado subdesenvolvido da teologia patrística.

que procede do Pai e do Filho.

Da mesma forma, não afirmo a processão eterna do Espírito. O Espírito Santo não é uma criatura eterna do Pai e do Filho (ou só do Pai como professam os ortodoxos orientais). O Espírito Santo procede de si mesmo. Deus não é derivativo.

com o Pai e o Filho é adorado e glorificado;

que falou através dos profetas.

Certo.

Cremos em uma santa Igreja católica e apostólica.

i) Não é redundante dizer que a igreja é "uma" e "universal"? Por definição, só pode haver uma igreja universal.

ii) Os outros pontos são um tanto arbitrários. Sim, a igreja é "apostólica", mas por que não dizer que a igreja é "profética, apostólica e dominical" (Ef. 2:20)?

Da mesma forma, a igreja é "espiritual". Uma comunhão do Espírito Santo

Confessamos um só batismo para remissão dos pecados.

Não confesso que o batismo confere a remissão dos pecados, se é isso que significa.

Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro.

Certo.

Em suma, o Credo Niceno é muito irregular. Acerta várias coisas, erra em algumas coisas, e é defeituoso em algumas das suas formulações.

Notas

[1Em 1 Coríntios 8:6 Paulo diz “todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.

Mas aqui Paulo não chama apenas o Pai de o “único Deus”.

i) Uma vez que Paulo escreve em grego, ele usa sinónimos gregos para palavras hebraicas. E nós estamos a usar palavras em português. Mas se “retro-traduzíssemos” a afirmação de Paulo à luz do texto que está por detrás, isso capturaria a verdadeira força do uso das palavras:

Ouve, ó Israel: Yahweh (o Senhor) é nosso Elohim (Deus), Yahweh (o Senhor) é único (Dt 6:4).

todavia, para nós há um só Elohim, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Yahweh, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele (1 Cor 8:6).

ii) Elohim não denota necessariamente a única Deidade verdadeira. Mas em Deuteronómio 6:4, a única Deidade verdadeira é o referente pretendido. E Yahweh é uma designação distintiva para a única Deidade verdadeira no uso do AT. Portanto, esse é na verdade o termo mais forte.

Usando o Shemá como sua estrutura, Paulo atribui Elohim ao Pai e Yahweh ao Filho:

O Pai é o único Elohim

enquanto

O Filho é o único Yahweh

Isso é o que Paulo está a dizer. Ele pega na confissão resumida do monoteísmo do AT e distribui os dois títulos divinos ao Pai e ao Filho, respetivamente.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Não vos torneis escravos de homens


Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens. (1 Coríntios 7:23)

Cada igreja local é autónoma e ainda que tenha comunhão e relações de colaboração com outras comunidades, reconhece apenas um "chefe" e esse chefe é Cristo.

Nenhum "corpo" pode ter pretensões de superioridade sobre os outros e nenhuma "autoridade" tem o direito de exercer "poder" sobre as comunidades.

Estai firmes na liberdade. (Gálatas 5:1)


sábado, 2 de janeiro de 2021

O mal como necessário para a manifestação da Glória de Deus

 

O terceiro método para lidar com esta questão é ficar satisfeito com os pronunciamentos simples da Bíblia. A Escritura ensina, 1. Que a glória de Deus é o fim ao qual a promoção da sacralidade, e a produção da felicidade, e todos os outros fins estão subordinados. 2. Que, como tal, a automanifestação de Deus, a revelação da sua infinita perfeição, sendo a mais elevada concebível, ou bem possível, é o fim último de todas as suas obras na criação, providência e redenção. 3. Como criaturas sencientes são necessárias para a manifestação da benevolência de Deus, não poderia haver qualquer manifestação da sua misericórdia sem miséria, ou da sua graça e justiça, se não houvesse pecado. Do mesmo modo que os céus declaram a glória de Deus, também Ele engenhou um plano de redenção, “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef. 3:10). O conhecimento de Deus é a vida eterna. É para as criaturas o bem mais elevado. E a promoção desse conhecimento, a manifestação multiforme das perfeições do Deus infinito, é o fim mais nobre de todas as suas obras. Isto é declarado pelo apóstolo ser o fim contemplado, tanto no castigo dos pecadores como na salvação dos crentes. É um fim ao qual, diz ele, nenhum homem pode objetar. “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Rom. 9:22-23). O pecado, como tal, segundo a Escritura, é permitido, para que a justiça de Deus possa ser conhecida no seu castigo, e a sua graça no seu perdão. E o universo, sem o conhecimento destes atributos, seria como a terra sem a luz do sol.

A glória de Deus sendo o fim maior de todas as coisas, não estamos obrigados a assumir que este é o melhor mundo possível para a produção da felicidade, ou até mesmo para assegurar o maior nível de piedade entre criaturas racionais. Este mundo está sabiamente adaptado ao fim para que foi desenhado, nomeadamente, a manifestação das multiformes perfeições de Deus. Que Deus, ao se revelar, promove o bem maior das suas criaturas, de forma consistente com a promoção da sua própria glória, pode ser admitido. Mas inverter esta ordem, fazendo do bem da criatura o fim mais elevado, é perverter e subverter todo o sistema; é pôr os meios no lugar do fim, subordinar Deus ao universo, o Infinito ao finito. Isto de pôr a criatura no lugar do Criador, perturba os nossos sentimentos e convicções morais e religiosas, assim como a nossa compreensão intelectual de Deus, e da sua relação com o universo.

Os teólogos mais antigos quase unanimemente fazem da glória de Deus a epítome, e o bem da criatura o fim subordinado de todas as coisas. Twesten, de facto, diz que não faz qualquer diferença se dizemos que Deus apresenta a sua glória como fim último, e, para esse propósito, determinou-se a produzir o mais alto grau de bem; ou se dizemos que Ele planeou o bem maior das suas criaturas, da qual a manifestação da sua glória flui por consequência. Contudo, faz toda a diferença do mundo, se o Criador está subordinado à criatura, ou a criatura ao Criador; se o fim é os meios, ou os meios o fim. Há uma grande diferença entre ser a terra ou o sol o centro do nosso sistema solar. Se fazemos da terra o centro, a nossa astronomia ficará numa confusão. E se fizermos da criatura, e não Deus, o fim de todas as coisas, a nossa teologia e religião ficarão do mesmo modo deturpadas. Pode ser, em conclusão, seguramente afirmado que um universo construído para o propósito de fazer Deus conhecido, é muito melhor que um universo desenhado para a produção de felicidade.

Teologia Sistemática Vol. I, 1872, Charles Hodge, “A Existência do Mal”.

https://sensocomumempt.home.blog/2019/08/02/teologia-sistematica-vol-i-1872-charles-hodge-a-existencia-do-mal/

sábado, 21 de novembro de 2020

Argumentos populares a favor de Deus


Por popular, quero dizer argumentos ou evidências mais acessíveis a não especialistas. Mas isso não significa que sejam inferiores às provas teístas filosóficas/científicas.

1. Argumento da experiência religiosa

Existem exemplos específicos. Por exemplo:

i) Argumento da oração respondida (ou providência especial):

Isso é algo que muitos cristãos experimentam em primeira mão. É claro que é importante distinguir entre coincidência e intercessão divina. Muitos exemplos de oração respondida (ou providência especial) podem ser classificados como milagres de coincidência. Embora possam ser o resultado final de uma cadeia natural de eventos, o resultado é demasiado distintivo, oportuno, pontual e improvável para ser uma questão de sorte.

ii) Argumento dos milagres

Exceto para a Ressurreição, o argumento dos milagres é negligenciado na apologética moderna. Embora filósofos cristãos dediquem grande atenção ao assunto dos milagres, eles normalmente defendem o conceito, a possibilidade e a credibilidade dos milagres, em vez de apresentar evidências de milagres reais.

Defesas filosóficas: 

John Earman, Hume’s Abject Failure: The Argument Against Miracles (Oxford, 2000)

D. Geivett & G. Habermas, eds., In Defense of Miracles: A Comprehensive Case for God's Action in History (IVP, 1997)

Joseph Houston, Reported Miracles: A Critique of Hume (Cambridge, 1994)

Peter vanInwagen: http://andrewmbailey.com/pvi/Of_Of_Miracles.pdf

Estudos de casos:

Craig Keener, Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, 2 vols. (Baker, 2011)

Rex Gardner, Healing Miracles: A Doctor Investigates (Darton, Longman & Todd Ltd, 1986)

2. Argumento da profecia

 T. D. Alexander, The Servant King: The Bible's Portrait of the Messiah (Regent College Publishing, 2003)

Herbert Bateman et al. Jesus the Messiah: Tracing the Promises, Expectations, and Coming of Israel's King(Kregel, 2012)

J. Alec Motyer, Look to the Rock: An Old Testament Background to Our Understanding of Christ (Kregel Academic & Professional; 1st ed., 2004)

O. Palmer Robertson, The Christ of the Prophets (P & R Publishing, 2008)

Michael Rydelnik’s The Messianic Hope: Is the Hebrew Bible Really Messianic? (B& H 2010)

John H. Sailhamer, The Meaning of the Pentateuch: Revelation, Composition and Interpretation (IVP, 2009)

3. Argumento moral 

https://plato.stanford.edu/entries/moral-arguments-god/

https://appearedtoblogly.files.wordpress.com/2011/05/linville-mark-22the-moral-argument22.pdf

4. Argumento existencial

Levanta a questão de saber se o ateísmo implica niilismo moral e/ou existencial. Por exemplo:

https://www.reasonablefaith.org/writings/popular-writings/existence-nature-of-god/the-absurdity-of-life-without-god/

5. A Bíblia

Se a Bíblia for aproximadamente verdadeira, então isso não apenas prova o mero teísmo, como também o teísmo cristão. Existem muitos livros que expõem a confiabilidade histórica geral das Escrituras, bem como do Jesus histórico em particular.

Paul Barnett, Finding the Historical Jesus (Eerdmans, 2009)

Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses (Eerdmans, 2nd ed., 2017) 

Daniel Block, et al. eds. Israel: Ancient Kingdom or Late Invention? (B&H Academic, 2008)

Craig Blomberg, The Historical Reliability of the New Testament (B&H Academic, 2016)

C. John Collins, Reading Genesis Well (Zondervan 2018)

I. Provan, et al. A Biblical History of Israel (WJK, 2nd ed., 2015)

Peter Williams, Can We Trust the Gospels? (Crossway 2018)

James Hoffmeier. The Archaeology of the Bible (Lion Hudson, 2008)

James Hoffmeier, Israel in Egypt: Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition (Oxford, 1997)

James Hoffmeier, Ancient Israel in Sinai: The Evidence for the Authenticity of the Wilderness Tradition (Oxford, 2005)

D. A. Carson, ed. The Enduring Authority of the Christian Scriptures (Eerdmans, 2016)

S. Cowan & T. Wilder. In Defense of the Bible: A Comprehensive Apologetic for the Authority of Scripture (B&H, 2013)

D. Bock & R. Webb, eds., Key Events in the Life of the Historical Jesus: A Collaborative Exploration of Context and Coherence (Eerdmans, 2010). 

Paul Rhodes Eddy & Gregory Boyd, The Jesus Legend: A Case for the Historical Reliability of the Synoptic Jesus Tradition (Baker, 2007)

Colin Hemer, The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History (Eisenbrauns, 1990)

Craig A. Evans, Jesus and His World: The Archeological Evidence (WJK, 2012)

R. Hess, et al. eds. Critical Issues in Early Israelite History (Eisenbrauns, 2008)

James Hoffmeier & Dennis MaGary, eds., Do Historical Matters Matter to Faith? (Crossway, 2012)

Kenneth Kitchen, On the Reliability of the Old Testament (Eerdmans 2003)

Alan Millard et al. eds. Faith, Tradition, and History: Old Testament Historiography in Its Near Eastern Context(Eisenbrauns, 1994)

Stanley Porter, John, His Gospel, and Jesus (Eerdmans, 2016)

Vern Poythress, Inerrancy and the Gospels (Crossway 2012)

Andrew Steinmann. From Abraham to Paul: A Biblical Chronology (Concordia, 2011)

Bruce. W. Winter, The Book of Acts in Its First Century Setting, vols. 1-4 (Eerdmans)

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Evidência de Deus e o deus das lacunas


I. É importante ter expectativas razoáveis ​​quanto à evidência de Deus. Se o Deus do teísmo clássico existe, então ele não é diretamente detetável. Deus não é um objeto empírico. Deus é impercetível para os cinco sentidos. A evidência pública de Deus envolve inferir a existência de Deus dos seus efeitos e/ou do seu poder explicativo.

Este não é um conceito incomum. Por exemplo, o passado não é detetável diretamente. No presente, o passado é impercetível para os cinco sentidos. Em alguns casos, temos registos de áudio e visuais do passado. Na maioria dos outros casos, inferimos o passado a partir de evidências residuais. Inferimos o passado a partir do efeito residual do passado sobre o presente. Da mesma forma, podemos inferir objetos abstratos (por exemplo, números, mundos possíveis) com base no seu valor explicativo indispensável. Portanto, os tipos de evidência de Deus não são exclusivos do teísmo clássico. Existem temas análogos em que recorremos aos mesmos tipos de evidência.

Para dar um exemplo específico, interpretar uma cena de crime é um exercício de reconstrução histórica. Um detetive de homicídios pode ter que determinar a causa da morte. Foram causas naturais? Foi acidental? Ou foi assassinato? Um assassino inteligente tentará ocultar a verdadeira causa. Um detetive de homicídios deve estar alerta a pistas subtis de agência inteligente.

É claro que Deus pode tornar a sua existência mais explícita por meio de uma voz audível ou milagres. Na verdade, muitas pessoas dizem que testemunharam isso. Mas isso não é uma experiência universal.

II. Os argumentos científicos a favor de Deus são geralmente atacados como argumentos da ignorância. Defende-se que devemos operar presumindo o naturalismo, porque o naturalismo metodológico tem um grande histórico no preenchimento de lacunas.

Há, no entanto, vários problemas com esta objeção:

i) Ela substitui o deus das lacunas pelo naturalismo das lacunas.

ii) Ela deturpa a teologia cristã. Deus não causa diretamente todos os eventos - ou mesmo a maioria dos eventos. Antes, há uma doutrina da providência geral, onde os eventos naturais são normalmente o resultado de causas físicas. Portanto, o facto da ciência descobrir mecanismos naturais não preenche lacunas que eram anteriormente a instância do «fiat» imediato de Deus. A religião popular pode ser culpada disso, mas não a teologia cristã.

iii) Além disso, a objeção às vezes assume o que é preciso demonstrar. Por exemplo, um ateu dirá que as pessoas costumavam atribuir a doença mental à possessão demoníaca, mas agora sabemos que a doença mental tem causas naturais.

No entanto, afirmar que a possessão demoníaca é inerentemente supersticioso e não científico não apenas é uma petição de princípio como ignora as evidências em contrário. Por exemplo:

http://www.craigkeener.com/exorcism-stories/

https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2016/07/01/as-a-psychiatrist-i-diagnose-mental-illness-and-sometimes-demonic-possession/

M. Scott Peck, Glimpses of the Devil A Psychiatrist's Personal Accounts of Possession, Exorcism, and Redemption (Free Press, 2009)

iv) Argumentos de design são argumentos do conhecimento. Indicações de agência racional. Para fazer uma comparação, um detetive pode ter que determinar se uma morte foi acidental ou um homicídio. Um assassino inteligente encenará um assassinato para fazer parecer uma morte acidental ou morte por causas naturais. No entanto, pode haver indicações subtis de que foi assassinato. Imagine-se um ateu objetando com o fundamento de que devemos sempre ser pacientes e assumir que a morte foi acidental ou devido a causas naturais. Mesmo que não possamos explicar dessa forma, devemos esperar até desenvolver uma teoria para fazê-lo. Invocar um agente pessoal (assassino) é homicídio das lacunas.

v) Algumas questões, como o difícil problema da consciência, defensavelmente pertencem a um domínio diferente do fisicalismo. Argumentos para a irredutibilidade da consciência são metafísicos em vez de científicos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A quadratura do círculo do sistema "Bíblia, Tradição e Magistério"


Assumindo os pressupostos romanistas, não é possível a uma pessoa chegar à conclusão que a Igreja Católica Romana é a verdadeira Igreja de Cristo sem primeiro contradizer esses mesmos pressupostos. 

Como pode na verdade uma pessoa chegar a tal conclusão, sem primeiro reconhecer autoridade à Bíblia e interpretá-la por si mesmo? Como é que ela estabelece o magistério da Igreja romana como autêntico, se não pode fazer livre exame das fontes da revelação - Bíblia e Tradição?

O sistema "Bíblia, Tradição e Magistério" é autoderrotante, já que o magistério ao estabelecer-se como única entidade capaz de reconhecer e interpretar autenticamente o cânon bíblico e a tradição, tira a si mesmo a possibilidade de ser justificado de forma independente. Só se pode assumir que a Igreja Católica Romana é a verdadeira Igreja de Cristo porque ela diz que é, caindo-se assim num argumento circular, não se pode chegar a essa conclusão por meios próprios justificantes.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O que está a fazer Deus através da pandemia


Está a fazer morrer os pecadores que Ele quer fazer morrer, como também os justos que Ele quer fazer morrer; por isso está fazer descer ao inferno estes pecadores, e a salvar no reino celeste estes justos.

Está a livrar da morte os pecadores que Ele quer, como também os justos que Ele quer.

Está a dar aos ímpios a sua retribuição como também está a dar aos justos a sua retribuição!

Está a enriquecer alguns, e a empobrecer outros.

Está a acorrentar o ímpio, e está a libertar o aflito pela aflição.

Está a endurecer os corações de muitos para que não se convertam, e a abrir o coração dos que estão ordenados à vida eterna para que prestem atenção à Palavra de Deus.

Está a dirigir os corações das autoridades na direção que Ele quer, para que executem os Seus desígnios que são fiéis e estáveis.

Está a frustrar os desígnios dos astutos, para fazer subsistir o Seu plano.

Está a apanhar os sábios na sua astúcia, demonstrando que não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho que valha contra Deus.

Está a envergonhar os incrédulos e os cobardes, e a honrar os que creem nas Suas promessas e são corajosos.

Está a humilhar os soberbos, e a exaltar os humildes.

Está a criar necessidades no meio do Seu povo, para que se pratiquem as boas obras para a glória do Seu nome.

Está a mostrar a diferença que há entre aqueles que servem o seu ventre, e aqueles que servem o Senhor Jesus Cristo.

Está mostrar a diferença que há entre o ingénuo que crê em tudo o que se diz, e o prudente que cuida dos seus passos.

Está a fazer muitos crentes entenderem que o local de culto não é a Igreja nem a Casa de Deus.

Está a fazer muitos crentes redescobrir ou descobrir a alegria, a paz e a bênção que há em reunirem-se nas casas para oferecer o culto a Deus como faziam os antigos discípulos.

Está a fazer muitos crentes entender que aqueles que pensavam que eram pastores, na realidade são servos de Mamon, que pensam só e exclusivamente em dinheiro. 

Está a levar muitos crentes a examinar as Escrituras e está a converter os seus corações.

Eis algumas das muitíssimas coisas que está a fazer o nosso Deus.

domingo, 15 de março de 2020

O conselho pastoral de Martinho Lutero durante a Peste Negra


“Pedirei a Deus para, misericordiosamente, proteger-nos. Então farei vapor, ajudarei a purificar o ar, a administrar remédios e a tomá-los.  Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária para não ficar contaminado e, assim, porventura infligir e poluir outros e, portanto, causar a morte como resultado da minha negligência. Se Deus quiser me levar, ele certamente me encontrará e eu terei feito o que ele esperava de mim e, portanto, não sou responsável pela minha própria morte ou pela morte de outros. Se, no entanto, meu próximo precisar de mim, não evitarei o lugar ou a pessoa, mas irei livremente conforme declarado acima. Veja que essa é uma fé que teme a Deus, porque não é imprudente nem audaciosa e não tenta a Deus”

Martin Luther, Works, v. 43, p. 132. Carta "Se alguém pode fugir de uma praga mortal" escrita ao Rev. Dr. John Hess

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