terça-feira, 28 de junho de 2022

«PARTO FORÇADO»

 

Abortistas por vezes rotulam a legislação pró-vida de "parto forçado" – como se houvesse algo inerentemente censurável nisso. Consideremos as variações dessa objeção. Qual é exatamente o princípio censurável?

i) A objeção é que ninguém deve ser forçado a fazer algo que não queira? Considere-se indivíduos que voluntariamente incorrem numa obrigação financeira, como usar um motel, um dentista ou um carro alugado. É errado se eles são "forçados" a pagar pelos bens e serviços que usaram? Isso dificilmente é plausível como um princípio geral.

ii) É a objeção de que ninguém tem direito ao uso do corpo de outra pessoa? Em caso afirmativo, considere-se alguns contra-exemplos: suponha-se que alguém numa cadeira de rodas precisa de ajuda para subir umas escadas. Estranhos têm a obrigação moral de ajudá-lo (ou ajudá-la). Nesse sentido, alguém pode reivindicar o uso do corpo de outra pessoa.

Da mesma forma, se uma criança cai num rio e está prestes a se afogar, estranhos que sabem nadar têm o dever de resgatar a criança. Mais uma vez, essa é uma reivindicação moral sobre o uso do corpo de outra pessoa.

Estes são exemplos muito limitados, mas demonstram que não se pode descartar por princípio que uma pessoa em necessidade tenha direito à agência física de outra pessoa.

iii) É a objeção de que, embora possamos ser forçados a fazer algo ou sofrer algo se isso for uma consequência de algo que consentimos, não podemos ser forçados a fazê-lo ou sofrer sem consentimento no início. Se assim é, o que dizer dos homens que são convocados para lutar na guerra? Isso é involuntário. Além disso, muitos deles morrem, ficam mutilados ou inválidos em decorrência do serviço militar. Certamente que isso é pelo menos tão traumático como uma vítima de violação dar à luz.

iv) A propósito (iii), é a objeção não ao "parto forçado" em geral, mas ao "parto forçado" no caso de vítimas de violação? É a objeção de que é grosseiramente injusto fazer vítimas de violação grávidas levarem a gravidez até ao fim.

Se sim, concordo que é injusto fazer uma vítima de violação passar por essa tribulação. No entanto, é possível que algo seja injusto, mas ainda assim seja um dever.

Suponha-se que uma vítima de violação está grávida já no sétimo mês de gestação e levar a gravidez até ao fim não representa um risco grave para a sua saúde física e psicológica. Não é algo que seja psicologicamente insuportável para ela dar à luz aquela criança. Qual é o mal menor? Matar o bebé de sete meses ou levar a gravidez até ao fim? Apesar de ser injusto engravidar como resultado de uma violação, numa situação destas certamente levar a gravidez até ao fim seria um dever.

Suponha-se que eu tenha um irmão adolescente que ficou deficiente num acidente de bicicleta causado por um motorista imprudente. É injusto que ele de repente precise de ajuda especial de mim. Eu tinha a minha vida planeada. Agora tenho que fazer ajustes e sacrificar os meus sonhos. Mas não decorre daí que eu não tenha a obrigação de ajudar o meu irmão deficiente, embora a situação tenha sido imposta a mim (na verdade, imposta a nós dois).

Suponha-se que a minha mulher me traia. Ela tem um filho de outro homem. Na época eu não sei do caso. Não sei que a criança não é minha.

Suponha-se que eu descubra numa data posterior. Suponha-se ainda que quando a criança faz cinco anos, a minha mulher deixa-me com a criança. Ela se divorcia de mim e vai morar com outro homem.

Estou "preso" com uma criança de quem não sou o pai. Isso é "injusto". Mas nesta fase, eu sou o único pai que a criança alguma vez conheceu. Seria psicologicamente prejudicial para a criança colocá-la para adoção aos cinco anos de idade. A criança lembra-me o caso da minha mulher. Devo retirar o meu amor da criança porque é injusto que eu tenha sido empurrado para esta situação? Certamente não!

v) Evidentemente, argumentos morais não têm força quando dirigidos a um niilista moral. Há pessoas que rejeitarão esses exemplos porque são niilistas. E essa é uma das coisas perigosas do ateísmo.

sábado, 11 de junho de 2022

FÉ E OBRAS

 

Esta é uma continuação do post anterior:


Como harmonizamos Paulo e Tiago sobre a justificação? A resposta breve é que Paulo e Tiago falam sobre duas coisas diferentes.

Tiago está preocupado com a natureza da fé salvífica. Entre a fé morta e a fé viva. A fé viva é uma fé vivida. Viver o que se professa com os lábios. A fé posta em prática.

A fé viva é uma fé perseverante. A caminhada da fé é para maratonistas, não para velocistas. O verdadeiro teste não é como se começa, mas como se acaba.

E mesmo se nos atermos à terminologia da “justificação” – que pode ser enganosa (ver o post anterior) – Tiago não diz que a justificação inclui obras. Em vez disso, ele diz que a inclui obras – não no sentido de que a fé é parcialmente uma obra, mas que a fé viva resulta em boas obras.

Em contraste, Paulo usa "justificação" para significar que a justiça é um dom divino. Não temos justiça própria. Em vez disso, temos a justiça de Cristo. Um status atribuído em vez de um status alcançado. Na verdade, apesar do que nós próprios somos. Como o filho de um rei, que é príncipe, não por algo que fez, mas por algo com que nasceu.

O uso de Paulo é idiossincrático. Ele redefine a palavra "justificação" para os seus próprios propósitos. E todo escritor tem essa prerrogativa. Os escritores não estão vinculados ao uso anterior. Eles são livres para aplicar palavras antigas com novos significados. Tiago não usa "justificação" nesse sentido especializado. Por isso não há nenhuma contradição. Mas devido à influência da teologia paulina, o seu uso inovador tornou-se o uso dominante, o que é confuso se lido posteriormente em Tiago.

E Paulo concorda com Tiago sobre a natureza da fé salvífica. Mas Paulo está preocupado com algo diferente. Ele está a lutar com um dilema teológico. Como pode um Deus santo perdoar pecadores? Pecadores não são suficientemente bons para merecer a salvação com base na sua própria bondade.

Na verdade, a situação deles é pior do que isso. É um dever de um Deus justo punir os injustos, não perdoá-los. O que torna justo um Deus justo é que ele exige a retribuição dos injustos. Absolver o culpado é a marca de um juiz injusto. Portanto, como Deus pode perdoar o injusto com justiça?

A solução de Paulo é a substituição penal. A expiação vicária de Cristo.

E a justificação pela fé espelha a expiação vicária. Colocar a fé em outro é renunciar à fé em si mesmo. Esperar em outro põe de lado a esperança em si mesmo.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Somos justificados pela fé e pelas obras?

 

i) Os apologistas católicos romanos (assim como os ortodoxos orientais) tentam negar a doutrina protestante da sola fide citando Tg 2:24. Dado que eles aceitam tudo o que a sua denominação lhes diga, não se preocupam em considerar se isso é consistente. Não prosseguem com as implicações desse apelo. Apenas citam Tg 2:24 e deixam isso por aí. Mas isso é fatalmente míope.

ii) Pensam que esta é uma relação de adição ao invés de uma relação de exclusão. Que a justificação é tanto pela fé como pelas obras. Então simplesmente adicionam Tiago a Paulo.

iii) Mas vejamos como Paulo enquadra a questão:

Romanos 3:20 Porque pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele, visto que pela lei vem o conhecimento do pecado. Romanos 3:27 Onde está, logo, a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé. Romanos 3:28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei. Romanos 4:2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, ele tem do que se gloriar, mas não diante de Deus. Romanos 4:4 Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Romanos 4:6 Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras. Romanos 11:6 Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graçaGálatas 2:16 mas sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, assim também nós cremos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado. Gálatas 3:10 Pois todos os que confiam nas obras da lei estão debaixo de maldição; pois está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, e as praticar..”

Para Paulo, a justificação pelas obras é antitética à justificação pela fé. A justificação pela fé exclui a justificação pelas obras e vice-versa. As obras não podem complementar a fé como princípio de justificação. Se se adicionar obras à fé na justificação, fé e obras anulam-se mutuamente.

iv) O apelo católico assume que Paulo e Tiago estão a usar as mesmas palavras da mesma maneira. Mas se esse for o caso, então Paulo e Tiago são contraditórios em vez de complementares. E nesse caso, não podemos dizer qual escritor está correto, ou se algum dos escritores está correto. A tática católica leva a uma destruição mútua assegurada.

v) No entanto, é falacioso assumir que as mesmas palavras denotam os mesmos conceitos. Não só a mesma palavra pode ter mais de um significado, como não é idêntico palavras e conceitos. O conceito de justificação de Paulo não é derivável de um único termo do seu grupo de palavras em particular. O conceito poderia estar presente mesmo que ele nunca usasse a palavra "justificação". A justificação paulina é uma construção teológica, baseada num argumento complexo. Um argumento que inclui inferência lógica e exegese do AT. Um argumento que contrasta uma posição com outra.

Da mesma forma, temos que interpretar Tiago nos seus próprios termos. Não apenas uma palavra em particular, mas o seu argumento mais amplo.

vi) Se Paulo e Tiago não estão a referir-se à mesma coisa, então não há nenhuma tensão entre as suas respetivas posições. Mas isso também significa que não se pode citar Tiago para modificar Paulo. O que Tiago diz só qualifica o que Paulo diz se eles estivessem a falar sobre a mesma coisa. Além disso, isso só funcionaria se eles fossem mutuamente consistentes.

Se, no entanto, eles estiverem a usar as mesmas palavras da mesma maneira, isso gera uma contradição imediata. Por outro lado, se eles não estão a referir-se à mesma coisa, então o que Tiago diz não tem relação direta com o que Paulo diz. Não se pode usar Tiago para interpretar Paulo, muito menos usar Tiago para atenuar a força das formulações inflexíveis de Paulo. A posição de Paulo é separada da de Tiago. 

Paulo e Tiago são conciliáveis porque as suas discussões não coincidem. Eles estão simplesmente a usar termos semelhantes para discutir questões diferentes. É ingénuo confundir gramática superficial com gramática de fundo.

sábado, 23 de abril de 2022

Fazendo uma defesa da Ressurreição

 

Há vários apologistas cristãos proeminentes que escreveram livros inteiros a defender a Ressurreição. Exemplos notáveis incluem John Warwick Montgomery, C.E.B. Cranfield, William Lane Craig, Timothy e Lydia McGrew, Richard Swinburne, Gary Habermas, N. T. Wright e Mike Licona. Craig, em particular, tem sido influente a fazer uma defesa estereotipada da Ressurreição, com base na sua estratégia de factos mínimos, que é amplamente copiada.

Então, pensei recentemente em como eu faria uma defesa da Ressurreição se me pedissem para fazer uma apresentação na igreja ou na faculdade.

I. Evidência histórica prima facie

Uma coisa que muitas vezes é perdida de vista nos debates sobre a Bíblia é que o testemunho é uma evidência prima facie por direito próprio, a menos que tenhamos razões para duvidar dele. Não são precisas evidências corroborativas para o testemunho ter valor probatório.

Por exemplo, a minha avó costumava contar-me histórias sobre a sua vida. Essa é a minha fonte primária de informação sobre ela antes de eu nascer. Não tenho nenhuma razão para pensar que ela estava a mentir ou a lembrar-se mal de factos básicos sobre a sua vida.

A maior parte do que sei sobre os meus pais antes de eu nascer vem do que eles me contaram sobre a sua vida. Em alguns casos, posso corroborar o testemunho deles, mas isso dificilmente é necessário para que o testemunho deles seja confiável.

A menos que tenhamos evidências de que a testemunha é um mentiroso crónico, ou a menos que tenhamos evidências de que a testemunha foi motivada a mentir neste caso em particular, é irracional descartar provas testemunhais.

1. Os Evangelhos

O NT consiste em 27 documentos do século I sobre uma figura histórica do século I.

i) No caso dos Evangelhos, existe a antiguidade senão a originalidade dos títulos. A uniformidade dos títulos na tradição textual é difícil de explicar, a menos que sejam atribuições editoriais originais ou extremamente primitivas. E assim que mais do que um Evangelho começou a circular, era necessário que cada Evangelho tivesse um título, para distingui-lo de outro ou de outros. Cf. Martin Hengel, The Four Gospels and the One Gospel of Jesus Christ (Trinity Press International, 2000), cap. 3, §3.

ii) De acordo com Atos 12:12, a cidade natal de Marcos era Jerusalém. Assim, a sua casa era o local de uma igreja doméstica original em Jerusalém. Dado o tempo e o lugar, ele provavelmente foi uma testemunha ocular de alguns eventos do ministério público de Cristo e teve acesso aos discípulos para obter mais informações.

Este é um detalhe incidental na narrativa de Lucas, por isso não pode ser atribuído a um falsificador que está a tentar dar ao Evangelho de Marcos um pedigree ilustre.

iii) Mateus tem uma preocupação com o judaísmo que seria duvidosa após a queda de Jerusalém e a dissolução do establishment judaico. E assumindo a autoria apostólica de Mateus, que é defensável, ele foi testemunha ocular de muito do que regista.

iv) Lucas e Atos compartilham o mesmo autor. Devido a Atos cruzar com mais história romana do que Lucas, há mais evidência corroborativa. Dado que Lucas é comprovadamente preciso em Atos, é de esperar que ele seja preciso no seu Evangelho. Evidências para a precisão histórica de Atos incluem: Colin Hemer, The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History (Eisenbrauns, 1990); Craig Keener, Acts: A Exegetical Commentary, 4 vols. (Baker Academic, 2012-2015).

v) Numa solução convencional para o Problema Sinótico, Mateus e Lucas usam Marcos como fonte. Isso nos dá a oportunidade de verificar duplamente como eles lidam com as fontes. Podemos comparar Mateus a Marcos e Lucas a Marcos. Ambos são extremamente conservadores no seu uso de Marcos. Isso nos dá razão para acreditar que eles são igualmente fiéis na forma como se apropriam ou editam as suas outras fontes.

vi) O Evangelho de João contém muitos detalhes inesperados que são consistentes com um observador em primeira mão que está a lembrar-se do passado – na verdade, a ver o passado na sua memória, a saber, a hora do dia ("por volta da décima hora" [1:39]; "por volta da hora sexta" [4:6]; "seis potes de pedra de água, cada um contendo vinte ou trinta galões" [2:6]). Para mais detalhes, cfr. J. B. Lightfoot, "Internal evidence for the authenticity and genuineness of St. John's Gospel," Biblical Essays (Baker, 1979), cap. 3.

A arqueologia confirmou a exatidão da descrição detalhada de João em 5:2. Cf. Craig Blomberg, The Historical Reliability of John's Gospel (IVP, 2001), 109; Craig Keener, The Gospel of John (Hendrickson, 2003), 1:636-38. Isso é espantoso, considerando o facto de que os romanos arrasaram Jerusalém em 70 dC.

Alguns críticos tentam minimizar a confirmação arqueológica do NT dizendo que autores de ficção histórica deliberadamente polvilham suas histórias com pedaços factuais para lhes dar um ar de verossimilhança. No entanto, os críticos também pensam que Atos e os Evangelhos foram escritos por autores muito distantes no tempo e no lugar dos eventos que pretendem registar. Mas, nesse caso, eles não teriam acesso a informação detalhada e contextualizada necessária. Se o tiveram, essa é uma razão para pensar que os seus relatos são geralmente precisos, uma vez que se baseiam no acesso a informação em primeira mão. Os críticos não podem defender as duas coisas ao mesmo tempo.

vii) Uma característica interessante do Evangelho de João é o número de apartes editoriais. Cf. Andreas J. Köstenberger, Encountering John (Baker Academic; 2ª ed, 2013), Excursus 3. João irá citar uma declaração de Jesus ou narrar um evento na vida de Cristo, então adicionar um comentário explicativo para evitar o mal-entendido do leitor. Isso, no entanto, seria um recurso muito desajeitado, se o seu Evangelho é ficção piedosa. Nesse caso, por que primeiro fazer uma declaração confusa que tem depois de esclarecer? Se ele está a inventar histórias inteiras, por que não constrói a sua interpretação diretamente na narração, em vez de interromper a história com essas interjeições distrativas?

Em contraste, isso é consistente com História oral. Com alguém que está a escrever ou a ditar de memória. Ele conta o que alguém disse. Ele conta o que viu. Então ele adiciona o seu próprio comentário entre parênteses para esclarecer a cena em benefício de um ouvinte que não estava lá. Para fornecer o contexto necessário. Quem passa muito tempo a ouvir idosos falarem sobre as suas vidas está familiarizado com esta prática. Na verdade, isso pode ser enlouquecedor. Queremos que vão direto ao assunto.

viii) Os Evangelhos são surpreendentemente reservados nos seus relatos da Ressurreição. Nenhum deles descreve diretamente a própria Ressurreição. Nenhum deles retrata Jesus a voltar à vida no túmulo e a sair do túmulo. Em vez disso, todos eles narram as consequências da Ressurreição. Pessoas a descobrir o túmulo vazio e Jesus a reaparecer para pessoas. E isso é consistente com reportagem de testemunhas oculares, já que não houve testemunhas oculares da própria Ressurreição. Ninguém além de Jesus estava no túmulo. Se, no entanto, os Evangelhos são ficção piedosa, esperaríamos que eles descrevessem esse evento central em detalhes espetaculares.

A sua contenção é uma indicação de historicidade. Eles só reportam o que sabem. Não embelezam os seus relatos com detalhes sensacionais.

É certo que alguns críticos pensam que quaisquer incidentes sobrenaturais são um sinal revelador de embelezamento lendário, mas isso é um reflexo do preconceito secular do crítico.

2. Tiago e Judas

De acordo com os Evangelhos, o ministério público de Jesus o deixou afastado da sua família. Isso não é surpreendente. Ele tornou-se uma figura controversa. Um embaraço para a sua família. Jesus alienou o establishment judaico. Os seguidores foram expulsos das sinagogas (Jo 9:22). Líderes cristãos foram presos (Atos).

Isso não depende da crença prévia na historicidade dos Evangelhos e Atos. Pois essa é uma reação previsível do establishment religioso. É assim que as pessoas no poder normalmente respondem a dissidentes, rivais, revolucionários, "cismáticos" e "hereges". Isso pode ser documentado em todo historiador religioso e político. Não está confinado a nenhuma religião em particular.

Eventualmente, ele foi condenado por blasfémia pelo tribunal supremo de Israel e executado como inimigo do Estado. Seus meios-irmãos estariam fortemente motivados a renegá-lo para sua própria proteção. A excomunhão convidaria a um boicote económico da família dominical. Eles teriam muito a perder por associação culposa com Jesus.

Foi preciso um encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado para que os seus irmãos desafeiçoados (Tiago, Judas) se reconciliassem com Jesus.

Tiago e Judas não se aproveitam do seu meio-irmão. Eles mencionam a ligação familiar de passagem, mas não exploram essa ligação para ganho pessoal. Eles não usam isso como alavanca para fazer reivindicações controversas. Portanto, não há nenhuma razão para pensar que as suas cartas são pseudónimas. E não há nenhuma razão para pensar que Lucas mente sobre a posição de Tiago na igreja primitiva.

3. Pedro e João

De acordo com os Evangelhos, os discípulos ficaram desmoralizados pela morte humilhante de Jesus. Isso não depende da crença prévia na historicidade dos Evangelhos. Essa reação é perfeitamente razoável, dada a psicologia humana comum.

No entanto, de acordo com Atos, assim como 1-2 Pedro, Pedro e João tornam-se representantes declarados da nova fé. Se eles pensassem que Jesus morreu em ignomínia, se eles pensassem que a associação com Jesus, como um reputado "blasfemador", "feiticeiro" e inimigo do Estado, os manchava, eles não fariam o que pudessem para se distanciar de Jesus? A sua saída de cena os deixava muito vulneráveis.

Mesmo que se ache que a defesa da autoria tradicional de 2 Pedro é fraca, uma defesa sólida pode ser feita para a autoria tradicional de 1 Pedro. Eu penso que ambas são defensáveis. Cf. Karen Jobes, 1 Peter (Baker, 2005); E. E. Ellis, The Making of the New Testament Documents (Brill, 1999), 120-33.  

4. Paulo

Concordo com académicos como Paul Barnett e Stanley Porter que Paulo provavelmente teve algum conhecimento em primeira mão de Jesus antes da Ressurreição. Cf. Stanley Porter, When Paul Met Jesus: How an Idea Got Lost in History (Cambridge University Press, 2016).

Alguns críticos pensam que Paulo teve apenas uma visão subjetiva de Jesus. Mas "visões" podem ser objetivas. O facto de ser luminosa não a torna subjetiva. Jesus estava luminoso na Transfiguração.

Se Paulo viu e ouviu Jesus durante as suas visitas a Jerusalém, isso explicaria por que Paulo foi um dos primeiros opositores do Cristianismo, com sede em Jerusalém.

Paulo era uma estrela em ascensão no judaísmo. Ele não tinha nada a ganhar e tudo a perder mudando de equipa.

1 Coríntios 15:3-8. A fonte óbvia da tradição de Paulo é a sua primeira visita aos líderes da igreja de Jerusalém (Gl 1:18-19). Paulo não tem nenhuma motivação para fabricar esta tradição. Ao contrário, dado como ele defende zelosamente a independência da sua comissão e revelação divina, ele tinha um desincentivo para apelar para esta tradição. Portanto, ele relata isso apesar das suas inclinações exclusivistas em contrário.

5. Hebreus

O autor de Hebreus identifica-se incidentalmente como um membro do círculo paulino (Hb 13,23), que está, além disso, em contacto com testemunhas oculares (Hb 2,3). Por que ele mentiria sobre isso? Se ele é um charlatão, por que não alega ser um apóstolo ou testemunha ocular por direito próprio?

6. Mulheres no túmulo

Naquela cultura misógina, as mulheres eram consideradas testemunhas oculares de segunda categoria. Se os Evangelhos são ficção piedosa, por que os narradores inventariam testemunhas inferiores em vez de testemunhas culturalmente mais credíveis?

Ironicamente, alguns críticos se opõem ao NT porque não diz que Jesus apareceu a testemunhas mais sonantes como Pilatos, Caifás, Anás ou César. Mas se os Evangelhos são ficção piedosa, por que eles não dizem isso? Se os Evangelhos são ficção piedosa, eles não estavam limitados pelos factos.

Eles não dizem isso porque relatam o que eles realmente sabem. Porque eles relatam o que realmente aconteceu.

II. Milagres

1. Em resposta a (I), um descrente dirá que mesmo que o testemunho seja evidência prima facie em casos comuns, quando o relato inclui milagres reportados, isso, por si só, o torna factualmente duvidoso. Milagres só acontecem na Bíblia, não na vida real. Ou, de modo mais geral, milagres só acontecem na mitologia e na ficção piedosa, mas não no mundo que vivenciamos.

Mas um problema básico com essa negação é a evidência monumental de milagres extrabíblicos. E não apenas milagres em geral, mas milagres cristãos em particular.

Eu acrescentaria que enquanto os milagres cristãos não são evidência direta da Ressurreição, eles são evidência direta do Cristianismo, o que por sua vez os torna evidência indireta da Ressurreição na medida em que a verdade do Cristianismo implica a verdade da Ressurreição. Coleções úteis de estudos de caso incluem Rex Gardner, Healing Miracles: A Doctor Investigates (DLT, 1987); Craig Keener, Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, 2 vols. (Baker, 2011); Robert Larmer, The Legitimacy of Miracle (Lexington Books, 2013); Robert Larmer, Dialogues on Miracle (Wipf & Stock, 2015). Os livros de Larmer são primariamente uma defesa filosófica dos milagres, mas os seus apêndices incluem relatos em primeira mão de alguns milagres.

Adicionalmente, existem alguns recursos online, a saber,

http://www.premierchristianity.com/Blog/Derren-Brown-wants-to-see-objective-evidence-for-miracles-Challenge-accepted

http://www.craigkeener.com/talbot-school-of-theology-lecture-1-30-minutes/

http://www.craigkeener.com/talbot-lecture-2/

http://www.craigkeener.com/wp-content/uploads/2020/03/Crooked-Spirits-from-Journal-of-Mind-and-Behavior-39-4-2018-complete.pdf

Relacionado com isto está a oração cristã respondida. Ela às vezes se sobrepõe com milagres cristãos. Refiro-me a orações dirigidas a Jesus ou orações em nome de Jesus ou orações dirigidas ao Pai de Jesus. No caso de orações cristãs respondidas, isso não seria evidência direta da Ressurreição. Seria, no entanto, evidência direta do Cristianismo, que por sua vez fornece evidência indireta da Ressurreição – na medida em que a verdade do Cristianismo implica a Ressurreição.

2. Descrentes descartam milagres relatados alegando que isso por si só torna a testemunha suspeita. Além disso, dizem que os milagres estão em desacordo com o que sabemos sobre o funcionamento do mundo.

No entanto, isso é circular. Como se sabe como o mundo é? Ninguém nasce a saber o que é possível. Descobre-se isso através da própria observação e da observação de outros. E isso inclui milagres relatados. Se, não importa a frequência com que um determinado tipo de evento é relatado, se se descarta os relatos, independentemente de quem os relatou, então tem-se uma cosmovisão que não é baseada na evidência.

III. Sonhos e visões de Jesus

Há casos bem documentados de Jesus aparecendo a pessoas ao longo da história da igreja. Cf. P. Wiebe, Visions of Jesus: Direct Encounters from the New Testament to Today (Oxford 1997).

i) Alguns apologistas cristãos podem ver isso como uma ameaça à defesa da Ressurreição, se considerarmos que é uma explicação alternativa para as aparições pós-Ressurreição de Cristo no NT, mas eu penso que isso é um erro de categoria.

Para começar, "visão" é ambíguo. Uma "visão" não é necessariamente um evento psicológico. Em princípio, pode ser uma aparição física objetiva do Senhor ressuscitado. Não estou a dizer que é assim que todas as aparições relatadas devem ser classificadas. Mas é uma falsa dicotomia definir uma visão em contraste com uma aparição física.

Além disso, as duas coisas podem ser verdadeiras em momentos diferentes. Por exemplo, o facto de Jesus poder aparecer a alguém num sonho verídico não impede a sua Ressurreição. É apenas um modo diferente de comunicação. Há mais de uma maneira pela qual uma pessoa pode encontrar Jesus. Não há nenhuma razão antecedente para que visões de Jesus não possam ser causadas pelo Jesus ressuscitado. Ele é visto, ouvido e sentido através da perceção sensorial normal. Um estímulo externo produzindo a experiência.

Sonhos são psicológicos, mas, da mesma forma, as pessoas não confundem sonhos com encontros físicos.

ii) Se algumas descrições de aparições de Jesus são tangíveis, então isso favorece uma aparição corpórea nesses casos.

iii) Não estou a citar o fenómeno como evidência direta da Ressurreição, mas evidência do facto de que Jesus não caiu no esquecimento depois que morreu. É uma condição necessária, ainda que insuficiente, da Ressurreição, que Jesus ainda exista. E, na verdade, ele continua a aparecer para algumas pessoas em tempo de necessidade. O Cristianismo é uma religião viva com um Salvador vivo. Jesus responde a orações. Jesus aparece a pessoas. Não é apenas uma coisa do passado, registada em livros antigos.

iv) Os relatos podem ser descartados com o argumento de que algumas visões podem ser produto de expectativas piedosas. Alucinações devotas. E tenho certeza de que algumas aparições relatadas são alucinatórias.

No entanto, mesmo no caso de expectativa piedosa, essa é uma razão inadequada para descartar automaticamente a realidade do relato. Para fazer uma comparação, os cristãos oram com a expectativa de que Deus às vezes responde à oração. Mas a sua expectativa não produz oração respondida, e a sua expectativa não pode ser usada para descartar evidência de oração respondida. Na verdade, se Deus existe, a expectativa tem fundamento. A experiência confirma essa expectativa.

Além disso, a explicação alucinatória falha no caso de sonhos e visões verídicos.

v) Adicionalmente, nem todos os sonhos e visões são esperados. Há relatos de visões de Jesus a aparecer para pessoas que não o esperavam. Na verdade, para indivíduos hostis que estão naturalmente predispostos a rejeitar o Cristianismo, a saber, Hugh Montefiore, The Paranormal: A Bishop Investigates (Upfront Publishing, 2002), 234-35; Nabeel Qureshi, Seeking Allah, Finding Jesus (Zondervan, 2016); Tom Doyle, Dreams and Visions. Is Jesus Awakening the Muslim World (Thomas Nelson 2012); David Garrison, A Wind in the House of Islam (WIGTake Resources, 2014); https://triablogue.blogspot.com/2020/04/jewish-visions-of-jesus.html

O meu "post" não pretende ser exaustivo. Estou apenas a destacar o que considero serem as melhores linhas de evidência. Existem outros trabalhos que pormenorizam muitos dos detalhes. Não concordo com tudo o que dizem, mas muitas vezes suplementam o que digo.

IV. Profecia messiânica

Os dois textos-prova do AT da ressurreição do messias são Sl 16:10, que é tipológico, e Is 53:

http://triablogue.blogspot.com/2019/05/the-resurrected-servant-in-isaiah.html

O mais interessante é a conjunção de dois outros temas do AT. Por um lado, há três textos proféticos sobre a morte violenta do messias (Sl 22; Is 52-53; Zc 12:10). Por outro lado, há vários textos sobre o triunfante e eterno reinado do messias davídico. Mas em termos de cronologia relativa, o messias não pode reinar para sempre antes do seu reinado terminar em morte. Isso seria contraditório. Portanto, isso implica uma ressurreição messiânica.

Por certo, um apologista terá que defender a interpretação messiânica de Sl 22, Is 52-53 e Zc 12:10.

Para leitura adicional:

Paul Barnett, Finding the Historical Christ (Eerdmans, 2009)

Richard Bauckham, Jesus: A Very Short Introduction (Oxford University Press, 2011), 104-09.

C. E. B. Cranfield, "The Resurrection of Jesus Christ," On Romans and Other New Testament Essays (T&T Clark, 1998), cap. 11.

William Lane Craig, Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics (Crossway, 3rd ed., 2008), cap. 8.

Gary Habermas & Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus (Kregel, 2004).

Craig Keener, The Historical Jesus of the Gospels (Eerdmans, 2009), cap. 22.

Michael Licona, The Resurrection of Jesus: A New Historiographical Approach (IVP, 2010).

Andrew Loke, Investigating the Resurrection of Jesus Christ: A New Transdisciplinary Approach (Routledge 2020).

Lydia & Timothy McGrew, "The Argument from Miracles: A Cumulative Case for the Resurrection of Jesus of Nazareth"

http://www.lydiamcgrew.com/Resurrectionarticlesinglefile.pdf

John Warwick Montgomery, "A New Approach to the Apologetic for Christ's Resurrection 13 by Way of Wigmore 's Juridician Analysis of Evidence" Journal of the International Society of Christian Apologetics, 3/1 (2010):

http://www.isca-apologetics.org/sites/default/files/JISCA-2010-volume-3_1.pdf

Richard Swinburne, The Resurrection of God Incarnate (Clarendon Press, 2003)

N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God (Fortress, 2003).

sábado, 2 de abril de 2022

Concordamos que a oração não funciona?

 Expandindo uma resposta deixada no Facebook:

Alguém já tentou pedir a Deus para acabar com o Coronavírus ou concordamos todos que a oração não funciona?

Essa é uma abordagem simplista da oração.

i) A existência ou não de um Deus que responde à oração não é determinada pela oração não respondida, mas pela oração respondida. Agarrar-se a um exemplo particular de oração não respondida é arbitrariamente restritivo, como se Deus concedendo essa petição fosse a única evidência saliente de um Deus que responde à oração.

ii) Uma pandemia é, por definição, um evento complexo, neste caso tornando-se global em escala. Portanto, não é como se houvesse apenas um tipo de oração para Deus responder nessa situação. O facto de Deus não impedir ou interromper totalmente a pandemia não significa que Deus não tenha respondido a muitas orações envolvendo casos específicos da pandemia.

A pandemia impacta muitas pessoas de muitas maneiras diferentes, por isso não espero uma resposta indiferenciada de Deus. Em vez disso, espero que a resposta de Deus a orações sobre a pandemia seja variada e individualizada.

iii) Num mundo de causa/efeito, cada evento tem um efeito dominó, ainda mais com eventos de grande escala como a pandemia. Males como a pandemia também podem ser fonte de bem. Algumas coisas boas acontecerão como resultado da pandemia que não aconteceriam se Deus a impedisse. Portanto, é uma questão de equilibrar as compensações. Mitigar a pandemia em alguns aspectos sem eliminar os efeitos colaterais benéficos.

quinta-feira, 31 de março de 2022

O coração dos poderosos da terra está na mão de Deus

Num tempo em que se ouve falar tanto de guerra, lembremo-nos sempre que “o coração do rei, na mão do Senhor, é como corrente de águas; ele o inclina para onde quer” (Provérbios 21:1). Por isso também os poderosos da terra têm que submeter-se à vontade de Deus, que opera com eles como quer e ninguém pode impedi-lo de executar a sua vontade. Lembremo-nos do rei do Egito, do rei da Assíria, do rei da Babilónia e de César Augusto, para citar apenas alguns poderosos da terra dos quais Deus se usou para cumprir os seus desígnios sobre a terra.

Como nos ensina o livro de Jó “Deus engrandece os povos e os destrói; amplia as nações e as reconduz às suas fronteiras” (Jó 12:23). Jesus disse-nos que é necessário que guerras e rumores de guerras aconteçam.

A guerra acaba quando Deus na sua soberania decidir que a guerra deve acabar. A paz não está condicionada a mais nada a não ser a sua vontade, como causa primeira de todas as coisas que acontecem na sua criação.

Podemos e devemos orar para que venha a paz, sabendo que a nossa oração pode mudar o futuro, mas não pode mudar os planos de Deus. A oração e a resposta à oração são meios pelos quais o plano de Deus para o mundo se realiza.

Fiquemos, pois, tranquilos sabendo que tudo está sob controle de Deus e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o amam.

Teísmo aberto e oração

Eis que Deus está prestes a cessar a Guerra na Ucrânia, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, que o tenta convencer que é mais sábio e justo terminar já com o conflito bélico, quando de repente Ele ouve a oração urgente de sua santidade o Patriarca de Moscovo, Cirilo I, que incensando o ícone de Nossa Senhora de Kazan, pede a continuação abençoada da guerra santa, até que todos os objetivos russos sejam alcançados e os valores cristãos restabelecidos na Ucrânia decadente. Então, Deus muda de ideias e defere em favor do Patriarca Ortodoxo. 

No entanto, a decisão de Deus não é definitiva, ele pode voltar a mudar de ideias dependendo do número de consagrações feitas ao Imaculado Coração de Maria, da quantidade de terços rezados e da qualidade do incenso utilizado pelo patriarca ortodoxo. Na verdade, Deus não tem qualquer plano para o futuro, nem pode ter dado o imprevisível livre-arbítrio dos humanos. Os seus caminhos podem ser alterados (e presumivelmente melhorados) por uma qualquer oração inesperada. Confuso? E só o Deus do teísmo aberto em ação.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Por que não sou Ortodoxo Oriental

 

1. Eu tenho estudado o Catolicismo Romano com muito mais profundidade do que a Ortodoxia Oriental, e tenho uma visão clara do que o Catolicismo representa. Acho mais difícil entrar no mundo conceptual da Ortodoxia Oriental. Isso em parte porque, na minha leitura, a exposição é muitas vezes metafórica. Portanto, a questão é o que significa a linguagem figurativa.

2. Dito isso, mesmo que eu não tenha claro o que algo é, posso ter bastante claro o que não é. Seja o que for que a Ortodoxia Oriental represente, não é o cristianismo do NT. Quando comparo os dois, são paradigmas diferentes e divergentes.

3. A Ortodoxia Oriental rejeita o conceito forense penal da salvação difundido nas Escrituras. A salvação bíblica não se resume a isso. Há também a santificação. Mas a Ortodoxia Oriental rejeita um elemento central da soteriologia bíblica. Ele não está confinado à teologia paulina ou à sola fide. O modelo sustentado da expiação no NT (prenunciado no AT) é penal e sacrificial. O pecado viola a justiça divina. O pecado é culpável e censurável. Isso não é tudo o que o pecado é. O pecado também é corrupção moral. Mas na minha leitura, a Ortodoxia Oriental apaga o modelo primário de expiação do NT.

4. A alternativa é o conceito Ortodoxo Oriental de theosis. Não tenho inteiramente a certeza do que isso significa. Pelo que entendi, a salvação Ortodoxa Oriental é uma categoria metafísica. O pecado envolve alienação da vida de Deus. A salvação envolve a participação na vida de Deus. Somos libertos do pecado quando somos levados à própria vida de Deus. Compartilhamos, não a sua essência, mas as suas energias.

5. Ora, há um sentido em que a salvação do NT também tem uma dimensão ontológica: santificação e glorificação. E há um sentido em que os cristãos participam na vida de Deus. Mas Deus e o homem não se estendem ao longo de um continuum metafísico comum. Há uma diferença qualitativa e categórica entre o modo de subsistência necessário, incomparável e transcendente de Deus e a existência de agentes contingentes, finitos, limitados no tempo e corporificados. O nosso modo de subsistência nunca interseta com o modo de subsistência de Deus. Deus compartilha a sua vida conosco no sentido de que ele é a fonte de nosso ser e bem-estar. Toda a bondade flui dele.

6. Dá-me a impressão de que a Ortodoxia Oriental cria uma salvaguarda postulando a dicotomia/distinção essência/energia. Isso parece-me uma distinção ad hoc e instável. As energias são Deus ou não são Deus? Idênticas com Deus ou algo diferente de Deus? Se for diferente de Deus, então as energias fazem parte do mundo. Elas caem do lado da criação.

7. Na soteriologia do NT, a Encarnação é uma precondição necessária da expiação, mas não expia por si mesmo. É a morte sacrificial de Cristo que é redentora. E a necessidade de renovação moral/psicológica é suprida pela agência do Espírito Santo.

8. Pelo que li, os teólogos Ortodoxos às vezes falam como se a Encarnação não fosse apenas uma relação confinada a um indivíduo único (Jesus), mas que de alguma forma a Encarnação une Deus e o homem a um nível universal. Como se todos os humanos estivessem ligados à vida de Deus em virtude do Filho Encarnado.

9. Dessa forma, isso está em tensão com a particularidade dos sacramentos. Presumivelmente, os teólogos Ortodoxos têm estratégias para suavizar essa tensão, mas ela pode ser solucionada?

10. A propósito de (9), em 4. há um sacramentalismo sufocante, onde a salvação é canalizada através dos sacramentos. Isso, por sua vez, necessita de sacerdócio. Assim como o Catolicismo, a Ortodoxia Oriental opera com um paradigma sacerdote-sacramento, enquanto a teologia evangélica opera com um paradigma Palavra-Espírito.

11. Depois, há o papel supersticioso dos ícones, que parecem funcionar como projeções ou extensões da Encarnação.

12. Em cima disso está a ficção de uma igreja infalível.

Todo o sistema está muito distante da teologia e da piedade do NT. É claro que os teólogos Ortodoxos tentam provar a posição deles a partir das Escrituras, mas, pelo que observo, a sua exegese é deficiente, forçada e circular, pois apelam para a autoridade dos padres gregos para alavancar as suas interpretações das Escrituras (por exemplo, a luz do Tabor como luz incriada).

13. Tenho outras objeções, não exclusivas para a Ortodoxia Oriental. Eu sou predestinacionista enquanto a Ortodoxia Oriental é libertarianista.

14. Discordo da doutrina de Deus da Ortodoxia Oriental. Rejeito o seu conceito hierárquico da Trindade, onde o Pai é o Deus primário e a fonte metafísica do Filho e do Espírito.

Pode-se objetar que, tradicionalmente, muitas denominações protestantes herdaram um conceito hierárquico da Trindade, então por que isso é uma razão para eu rejeitar a Ortodoxia Oriental, mas não as contrapartes protestantes? Uma razão é que não se pode ser Ortodoxo Oriental honesto a menos que se afirme os dogmas da Ortodoxia Oriental. Não se pode ser um Ortodoxo Oriental honesto se se rejeitar a doutrina de Deus da Ortodoxia Oriental.

Em contraste, há mais liberdade dentro do evangelicalismo. Eu posso ser um protestante honesto sem reafirmar cada transferência reflexiva da Ortodoxia Grega ou da teologia Latina.

15. Finalmente, adiro a uma cristologia de duas-mentes. A inter-relação delas é assimétrica. O Filho é independente da alma humana, enquanto a alma é contingente. O Filho controla a alma humana. O Filho tem acesso completo à alma humana. A alma não tem acesso à mente do Filho, exceto quando o Filho compartilha seu conhecimento com a alma humana de Cristo. Não tenho certeza de que uma cristologia de duas-mentes seja compatível com a cristologia ciriliana, mas também não me importo, porque não presto contas aos Padres Gregos.

terça-feira, 22 de março de 2022

A Aliança Evangélica Mundial já suspendeu as relações ecuménicas com a Igreja Ortodoxa Russa? (que nunca deviam ter começado)


https://worldea.org/news/15148/the-world-evangelical-alliance-has-appointed-an-ambassador-to-the-russian-orthodox-church/

Há dois tipos de critérios para manter relações ecuménicas ou comunhão espiritual com uma Igreja que se diz cristã: critérios morais e critérios doutrinais. A Igreja Ortodoxa Russa não cumpre nem uns nem outros.

Patriarca da Igreja ortodoxa apoia invasão russa da Ucrânia

domingo, 20 de março de 2022

sábado, 19 de março de 2022

Guerra civil na Igreja Ortodoxa Russa


A vida está a ficar difícil para os impérios e os imperialistas. 

Neste momento reina a confusão pelo mundo Ortodoxo (não é que tenha alguma vez sido muito pacífico).

1) Na Ucrânia, alguns sacerdotes ortodoxos russos pararam de evocar Cirilo I durante os seus serviços de culto, argumentando que as suas declarações sobre a guerra – que incluem referências a “forças do mal” na Ucrânia – equivalem a um endosso tácito ao ataque. Alguns pediram aos líderes ortodoxos russos regionais na Ucrânia que considerassem romper com a Igreja Ortodoxa Russa.

2) Mais de 285 sacerdotes e diáconos ortodoxos russos de todo o mundo assinaram uma carta aberta expressando a sua oposição à invasão da Ucrânia pela Rússia, desafiando o governo russo e rompendo com o apoio tácito à ação militar do seu líder, o Patriarca de Moscovo.

A carta pedia “a cessação da guerra fratricida” contra a Ucrânia, insistia que “o povo da Ucrânia deveria fazer sua escolha por conta própria” e lamentava o “julgamento ao qual nossos irmãos e irmãs na Ucrânia foram imerecidamente submetidos”. 

3) Um sacerdote ortodoxo russo, que está entre os signatários desta carta aberta, foi preso depois de pregar um sermão denunciando a invasão russa da Ucrânia. De acordo com uma reportagem da BBC citando ativistas russos, o sacerdote Ioann Burdin foi acusado de “desacreditar o uso das Forças Armadas” por causa do sermão que pregou no “Domingo do Perdão”. O sermão incluía, entre outras coisas, descrições da destruição infligida à Ucrânia pelas forças russas.

4) Vários académicos e clérigos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham e da Academia Volos para Estudos Teológicos acusam o Patriarca de Moscovo, Cirilo I, de heresia, a que chamam heresia do "Mundo Russo".

5) Nos Países Baixos, uma igreja ortodoxa autónoma, até agora sob jurisdição russa, censura sem meios termos o Patriarca de Moscovo, e corta relações com a Igreja Ortodoxa Russa.  

Perante isto conclui-se que, mais depressa sacerdotes ortodoxos russos censuram o Patriarca de Moscovo e condenam claramente a Rússia e o presidente Putin pela guerra de invasão na Ucrânia, pondo o nome aos culpados e às vítimas, aos agressores e aos agredidos, e Igrejas Ortodoxas autónomas cortam relações com a Igreja Ortodoxa Russa do que a Igreja de Roma e o Bispo de Roma o fazem. 

O que prende o Vaticano? Do que tem medo o Papa Francisco? Por que não denuncia pelo nome os culpados, limitando-se a censurar a guerra e as atrocidades na Ucrânia genericamente? 

Como se sentirão neste momento os greco-católicos ucranianos ao ver que o Papa mantém as relações ecuménicas intactas com alguém que até agora não demonstrou senão ser um fantoche de Putin? A Bíblia diz para não ter comunhão com aquele que se diz irmão mas é um iníquo e hipócrita, com um tal não se deve sequer comer. 

quinta-feira, 10 de março de 2022

Essa Igreja é minha!

Foto: (AP/Gregorio Borgia)

O que vale é que, agora, os cristãos da Ucrânia têm três proprietários: o Papa de Roma, o Patriarca de Moscovo e o Metropolita de Kiev. O primeiro e o segundo são grandes amigos, já o terceiro não se dá bem com o segundo. Não se sabe se o primeiro conhece o terceiro ou não. Apesar de ainda haver algumas desavenças com a partilha do território e de qual é a única verdadeira Igreja de Cristo, os cristãos da Ucrânia estão assim, por direito divino, entregues a estas três Suas Santidades, que nesta hora difícil, tudo estão a fazer para os proteger, diminuir o seu sofrimento e parar com a devastação da sua terra. Sabe-se que o Papa de Roma já mandou congelar qualquer conta ligada a oligarcas russos que possa existir no Banco do Vaticano e enviou ao Kremlin o Núncio Apostólico em Moscovo para exortar o presidente Putin a cessar de imediato as hostilidades, a respeitar o direito internacional e prosseguir com a sua política de grande lutador pela liberdade e defensor das minorias étnicas, religiosas e políticas no mundo, facto este que levou nos últimos anos o Vaticano a aproximar-se da Rússia e dos seus altos dignatários, enquanto o Patriarca de Moscovo condenou veementemente a atitude, tão inesperada como violenta, de invadir injustificadamente um país soberano do seu amigo dos tempos do KGB e ídolo, Vladimir Putin.

Também se sabe que o Papa de Roma e o Patriarca de Moscovo, como bons pastores que são, já estão a preparar em conjunto uma grande campanha humanitária para resgatar o seu rebanho bipartido (ou tripartido?) da Ucrânia.

segunda-feira, 7 de março de 2022

A guerra na Ucrânia e a politiquice eclesiástica (sob influência dos Estados Nacionais) das Igrejas Ortodoxas no Oriente


Este é o resultado de quando as igrejas se deixam capturar pelo poder político. Tornam-se igrejas de Estado, governadas pelos príncipes seculares e não pelo Príncipe da Paz.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Segundo a sua vontade

 

Nele obtivemos uma herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (Ef. 1:11).

O que significa dizer que Deus faz todas as coisas segundo a sua vontade?

i) Há uma tradição de voluntarismo teológico, atribuída a Scotus e Ockham, em que Deus age segundo a sua vontade absoluta - onde a sua vontade é independente dos seus outros atributos. Mas não há nenhuma indicação de que é isso que Paulo quer dizer.

ii) A linguagem de Paulo é algo redundante acumulando sinónimos para dar ênfase.

iii) Para responder à questão, devemos perguntar o que constitui o ponto de contraste implícito. O que significaria para Deus não fazer todas as coisas segundo a sua vontade? Qual é a tese oposta?

A alternativa a Deus agir segundo a sua vontade é Deus agir de forma contrária à sua vontade. E no contexto, essa é uma distinção significativa. Paulo está se dirigindo a cristãos gentios que vivem numa cidade pagã. Cristãos convertidos do paganismo greco-romano.

Na mitologia grega, mesmo um deus não fazia todas as coisas segundo a sua vontade. Às vezes, um deus era forçado a agir sob coação, contra a sua vontade. Até Zeus teve que se curvar diante da supremacia das Parcas. Da mesma forma, na bruxaria pagã, os deuses podem ser manipulados e coagidos através de rituais mágicos.

Portanto, pelo menos um ponto de contraste contextual é a afirmação retumbante de que o Deus cristão não está sujeito a nenhum poder superior. Ele não tem oposição efetiva. Isso contrasta com o fatalismo pagão e a feitiçaria pagã.

iv) Isto tem equivalentes modernos no teísmo do livre-arbítrio. De acordo com o teísmo do livre-arbítrio, Deus muitas vezes é forçado a agir contra a sua vontade, porque agentes demoníacos e humanos têm a capacidade de vetar a vontade de Deus. Eles podem e frustram as suas melhores intenções. Portanto, Deus tem de tentar contornar as suas criaturas indomáveis. Como os deuses gregos, os seus planos são muitas vezes frustrados por centros de poder rivais.

Da mesma forma, a bruxaria e a magia popular permanecem difundidas no Terceiro Mundo, enquanto bolsas da população do mundo ocidental voltam ao ocultismo numa cultura pós-cristã.

v) Isto também explica a ligação entre a vontade de Deus e "todas as coisas". A razão pela qual todos os eventos acontecem segundo a vontade de Deus é porque não há outro agente igual ou superior a Deus para neutralizar a sua vontade - ao contrário do fatalismo pagão ou do teísmo do livre-arbítrio. Dado que Deus não tem concorrência, então por defeito, cada evento se desenrola segundo a sua vontade, ao invés de apenas alguns eventos acontecerem segundo a sua vontade porque o seu poder é confrontado por outros agentes, que fazem o seu próprio caminho algumas vezes, apesar dos desejos ineficazes de Deus.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O cânon católico

 

Os apologistas católicos consideram o cânon protestante como um calcanhar de Aquiles da teologia protestante. Sendo o cânon uma questão legítima, essa é uma questão para os dois lados. E o que dizer do cânon católico?

Qual é a base do cânon tridentino? É a evidência? Era a evidência suficiente para favorecer o cânon tridentino?

Mas católicos e protestantes têm acesso à mesma evidência. Não é como se os Padres Tridentinos tivessem uma coleção extra de evidências dos arquivos secretos do Vaticano que inclinavam a balança a favor do cânon tridentino. Os protestantes observam a mesma evidência que os católicos.

Ou é a alegação de que a evidência é inconclusiva, de modo que deve ser suplementada pela autoridade de Roma. O cânon tridentino goza de um nível de certeza que vai além da evidência, devido à autoridade eclesiástica. De acordo com esse paradigma, a pura autoridade eclesiástica é o contrapeso que fecha a lacuna entre a evidência e a certeza.

Mas, nesse caso, a certeza é separada da evidência. Poderia haver certeza direta sem qualquer evidência. Certeza por puro decreto eclesiástico. No entanto, os apologistas católicos normalmente defendem o cânon tridentino com base na evidência, como eles a veem.

Se, por um lado, a evidência é suficiente para estabelecer o cânon, então o magistério é supérfluo. Se, por outro lado, a evidência é insuficiente para estabelecer o cânon, a autoridade eclesiástica evoca a certeza do nada, sem nada correspondente para apoiá-la. Eis o dilema.

sábado, 20 de novembro de 2021

Quem criou Deus?

 

Alguns ateístas pensam que podem descartar argumentos cosmológicos simplesmente perguntando: "Quem criou Deus?" Aqui estão algumas observações que são pertinentes para essa resposta:

«Todos os seres que observamos parecem ser seres contingentes; alguns deles certamente são. Parece razoável, portanto, supor que a seguinte afirmação é verdadeira:

   Existem alguns seres contingentes.

Ora, se o Princípio da Razão Suficiente está correto, há alguma explicação para a verdade desta afirmação, alguma resposta à pergunta "Por que existem seres contingentes?". Mas como seria uma explicação para a existência de seres contingentes? Uma possível explicação para este estado de coisas é a seguinte:

  Algo necessariamente existente, algum ser necessário, é de alguma forma responsável pelo facto de existirem coisas contingentes.

Esta não é, obviamente, uma explicação muito detalhada, mas parece ser uma explicação perfeitamente satisfatória até onde vai. É concebível que alguém se oponha a ela com o fundamento de que "apenas empurra o problema da existência das coisas um passo atrás". A preocupação aqui é mais ou menos assim: "Tudo bem, o ser necessário explica a existência de seres contingentes, mas o que explica a sua existência? Por que ele existe?" Mas dizer isso é negligenciar o facto de que um ser necessário é um ser cuja inexistência é impossível. Assim, para qualquer ser necessário, há por definição uma razão suficiente para a sua existência: dificilmente poderia haver uma explicação melhor para a existência de uma coisa do que a sua inexistência ser impossível.

Quanto ao facto de que a explicação é quase totalmente carente de detalhes, devemos notar que há poucas ou nenhuma explicação que não possa ser dada em maiores detalhes. A explicação poderia ser "preenchida" de várias maneiras...» (Peter van Inwagen, Metaphysics, (Westview Press 2015), 160-61).

i) Alguns ateístas podem objetar que definir Deus como um ser necessário é circular. Isso é definir a existência de Deus. Verdade por definição.

ii) Mas essa objeção é mal concebida. Para começar, um debate sobre a existência de Deus é, em primeira instância, um debate acerca da ideia de Deus. O que "Deus" representa? Nessa etapa do argumento, não há nada de errado com uma definição estipulativa. Definir Deus como um ser necessário não significa necessariamente que Deus exista, mas que, se Deus existe, ele existe por necessidade. Em outras palavras, esta é uma declaração sobre o conceito de Deus em análise. Se existe uma realidade correspondente a esse conceito é outra etapa do argumento, mas a ideia de Deus é a ideia de um ser necessário.

E refere-se à ideia de Deus no teísmo clássico, uma vez que esse é o alvo típico dos ateus ocidentais, bem como o que seus opositores cristãos normalmente defendem. Claro, se este fosse um debate sobre o hinduísmo, então a definição seria diferente.

iii) Adicionalmente, este não é um princípio arbitrário. O que torna entidades contingentes contingentes é a sua dependência de outra coisa para a sua existência. É possível que elas não existam. Elas nem sempre existiram e algumas delas deixam de existir.

Isso, por sua vez, levanta a questão de saber se é possível que tudo seja contingente ou se deve haver algo necessário para fundamentar entidades contingentes? Pode ser tudo contingência? Ou deve haver algo que não pode deixar de existir que suporta tudo o resto? Essa, é claro, uma questão calorosamente debatida. Mas possamos ou não provar que coisas possíveis exigem algo necessário, essa é, no mínimo, uma explicação razoável. Se há algo necessário de que entidades contingentes dependem, então essa é uma explicação simples de por que elas existem, já que não há nada em si mesmas que exija a sua existência.

iv) Da mesma forma, não é irrazoável pensar que a regressão explicativa deve terminar em algum ponto. Na verdade, esse é um pressuposto da ciência. Mas a questão é onde traçar a linha. Alguns pontos de paragem são arbitrários ou prematuros. Os meus pais não são a fonte última da minha existência, pois eles têm pais e avós. Além disso, a sua existência física é contingente, não apenas dos seus pais, mas da Terra e do Universo.

v) Isto elimina contraexemplos fáceis como o Bule de Russell e "um deus a menos". O Bule de Russell, se existisse, seria um objeto contingente. Portanto, não tem o mesmo poder explicativo que um ser necessário como Deus. Da mesma forma, divindades pagãs são seres contingentes.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Tribalismo na teologia católica tradicional

 

"No passado, quando um teólogo praticava teologia como membro de uma ordem religiosa, isto é, como membro de uma congregação formada segundo um certo espírito distinto daquele de outras ordens, essa teologia trazia a marca distinta e tangível da teologia dessa ordem. As ordens principais, como os beneditinos, os dominicanos, os franciscanos e os jesuítas, cada uma tinha o seu próprio estilo de teologia, um facto que era então reconhecido. Cada ordem cultivava a sua própria teologia específica e cada uma distinguia a sua teologia daquela de outras ordens religiosas. Elas se orgulhavam das suas respetivas tradições teológicas e até tinham os seus próprios doutores da Igreja oficialmente reconhecidos, bem como figuras centrais nas várias “escolas” teológicas. Em tudo isso, não há nada censurável, desde, é claro, que essas diferenças não degeneram em conflitos obstinados entre as linhas partidárias - algo que ocorreu com bastante frequência no passado. Hoje em dia acho que não é mais assim. No que diz respeito à legislação da minha ordem, devo ensinar, por exemplo, a chamada scientia media e, consequentemente, me opor e rejeitar a teologia tomista da graça como exposta na era barroca".

Karl Rahner, S.J. "Experiences of a Catholic Theologian", Theological Studies 61 (2000), 10.

Por exemplo, a imaculada conceição de Maria foi durante séculos uma causa de luta entre franciscanos e dominicanos.

Os franciscanos eram a favor e os dominicanos contra. Um famoso dominicano que rejeitou essa doutrina foi o próprio Tomás de Aquino.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Casos em que há uma contradição entre o tomismo e o teísmo bíblico – hilomorfismo e simplicidade divina

 

Há casos em que há uma contradição genuína entre o tomismo e o teísmo bíblico. Por exemplo, é realmente difícil enquadrar a teoria tomista da alma com o estado intermediário. O hilomorfismo é um tipo de fisicalismo, onde a "alma é a forma do corpo" no sentido de matéria estruturada. Mas muitos tomistas admitem que esta antropologia não dá espaço para o estado intermediário. Além de ser filosoficamente problemática.

Da mesma forma, é extremamente difícil conciliar a doutrina da simplicidade divina tomista com arbítrio divino indeterminado, a Trindade, e distinções teologicamente cruciais como justiça e misericórdia.

Há vários modelos da simplicidade divina. Segundo a simplicidade divina tomista Deus é uma unidade indiferenciada. Não há complexidade metafísica em Deus. Os seus atributos são redutivelmente equivalentes. Nós apenas os distinguimos por conveniência ou facilidade de referência. As distinções existem na mente humana, não em Deus.

Eu subscrevo a simplicidade mereológica de Deus. Se Deus é imaterial, então ele não é composto da mesma forma que objetos ou processos materiais por partes físicas. Deus não é composto por “partes” independentes dele e mais fundamentais do que ele. Deus não é, por exemplo, como um carro composto por partes mais básicas como o chassi, os pneus, os pedais, o volante, os assentos etc. Isso, no entanto, é diferente da simplicidade tomista em que os atributos de Deus são intercambiáveis ou em que a vontade de Deus em fazer o mundo não tem nenhum elemento de contingência ou potencialidade. 

Os atributos essenciais de Deus têm a sua origem em Deus e constituem a natureza imutável de Deus. Deus é o exemplar dos seus atributos que podem ser exemplificados noutras instâncias. Por exemplo, o amor é um atributo constitutivo de Deus. Deus é o exemplar ou a fonte do amor que é exemplificado nos seres humanos. Podemos concordar que Deus é idêntico à sua natureza no sentido que não exemplifica nenhuma natureza genérica além ou acima do próprio Deus. Mas cada atributo divino não é idêntico a todos os outros atributos. A justiça de Deus não é idêntica à misericórdia de Deus. 

Assim, o primeiro problema com a simplicidade tomista é que não é compatível com distinções teologicamente cruciais.

Não havendo distinção real entre os atributos divinos, de modo que justiça e misericórdia são equivalentes (para dar um exemplo), as distinções entre os atributos divinos, portanto, desaparecem em Deus. Deus simplesmente é a sua justiça, misericórdia, etc. e se Ele é todas essas coisas, então elas não podem ser verdadeiramente distintas.

Mas se essas distinções "desaparecem" numa realidade indiferenciada, então Deus é igualmente misericordioso para com todos, o que torna absurda a graça discriminativa de Deus.

Na Escritura, misericórdia e justiça divinas, graça e juízo, muitas vezes se contrastam: onde alguns pecadores são objetos de justiça (ou seja, reprovação, condenação), enquanto outros pecadores são objetos de misericórdia (ou seja, eleição, salvação eterna). Não se pode colapsar os dois atributos sem colapsar os destinos escatológicos representados pela expressão temporal dos dois atributos distintos.

Quando se diz que os atributos divinos "desaparecem" numa unidade indiferenciada, então "Deus" torna-se indistinguível de Brahma, o vazio inefável e indiferenciado do Hinduísmo.

O segundo problema na simplicidade tomista é que as escolhas divinas estão absolutamente autodeterminadas.

Segundo a simplicidade tomista a vontade de Deus é idêntica à natureza de Deus, e se a natureza de Deus é necessária, então tudo o que Deus deseja é necessário por sua natureza. Por exemplo, a criação é um ato da vontade divina. Mas segundo a simplicidade tomista, Deus não podia escolher atualizar um mundo diferente do atual ou de não criar absolutamente nada. A sua vontade de fazer o mundo não tem nenhum elemento de contingência ou potencialidade. Deus não pode escolher entre mundos possíveis, só há um mundo possível que é o que Deus deseja.

Se, entretanto, não há contingência no conhecimento, vontade ou ações de Deus, então tudo o que acontece é absolutamente inexorável. Não poderia ser diferente, nem mesmo para Deus. Em contraste, o teísmo bíblico tipicamente afirma a necessidade condicional em vez da necessidade absoluta. Colocado de outra forma, se Deus faz coisas diferentes em diferentes mundos possíveis, então Deus não pode ser simples - neste sentido radical.

É certo que Deus não pode escolher fazer coisas contrárias à sua natureza, por exemplo fazer coisas más porque ser Bom é um atributo de Deus, mas é possível que ele escolha entre uma gama de coisas boas. Deus podia criar um mundo diferente do atual ou não criar nenhum mundo sem que isso “violasse” a sua natureza, pois nenhuma dessas escolhas seria uma maldade. Deus pode ser o mesmo Deus em diferentes mundos possíveis porque a vontade criativa ou decreto criativo de Deus para mundos diferentes não é igual à natureza de Deus. Portanto, ao contrário do que implica a simplicidade tomista, o arbítrio de Deus não está absolutamente autodeterminado.

O terceiro problema é que a simplicidade tomista aniquila a doutrina da Trindade.

A simplicidade divina é unitária e não trinitária. Para que haja três pessoas distintas na Divindade, cada pessoa deve ter pelo menos uma propriedade única que a individualize e a diferencie das outras duas. Mas se todas as propriedades de Deus são redutíveis e intercambiáveis, então não há propriedade diferencial distinguindo uma pessoa da outra.

De maneira mais geral, se natureza, pessoa e relação são estritamente idênticas na Divindade, então Deus é uma pessoa em vez de três.

Subjacente à doutrina da simplicidade tomista parece haver um preconceito monádico sobre a ultimidade de um sobre muitos. Essa realidade última é simples ou estritamente unitária. Parece seguir a intuição de que coisas grandes são feitas de coisas menores, então, à medida que se desce na escala, há cada vez menos constituintes até que, no fundo de tudo, só resta uma coisa. Mas e se a realidade última for um complexo irredutível?

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Evolução naturalística e niilismo moral


Se a evolução naturalística for verdadeira, nós sofremos uma lavagem cerebral para valorizar o altruísmo de parentesco, mas essa é uma projeção que não mapeia a realidade. Nada é realmente bom ou mau, certo ou errado. É assim que os nossos cérebros foram programados pela evolução cega. A valoração é arbitrária. Nós poderíamos muito bem ser reconfigurados para valorizar o canibalismo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Newman nunca se converteu ao catolicismo


cardeal Newman aprofundou-se na história da igreja e descobriu que não conseguia encontrar o catolicismo romano nos primeiros séculos da igreja, então redefiniu o catolicismo ao inventar a teoria do desenvolvimento. Ele não se converteu ao catolicismo; ele converteu foi o catolicismo a si mesmo.

O Desenvolvimento da Doutrina vs A Tradição Católica Romana

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