sábado, 2 de junho de 2018

Uma breve introdução ao Design Inteligente. O que está em causa?


A IRREDUZÍVEL COMPLEXIDADE DA VIDA 

Num artigo publicado na revista Science há mais de três décadas, Michael Polanyi chamava a atenção sobre a semelhança formal entre a complexidade das máquinas feitas pelo homem e os processos vitais. Em ambos os casos, existe uma diversidade de partes que interagem entre si.

"A estrutura das máquinas e o seu funcionamento é assim formado pelo homem, embora os seus materiais e as forças que as operam obedeçam às leis da natureza inanimada. Ao construir uma máquina e fornecê-la com energia, aproveitamos as leis da natureza que trabalham no seu material e na energia que a impulsiona e as fazemos servir o nosso propósito... Assim, a máquina em conjunto funciona sob o controle de dois princípios diferentes. O superior é o princípio do desenho da máquina, e este aproveita o inferior, que consiste nos processos físico-químicos nos quais se baseia a máquina".


(Polanyi, M. Life´s irreducible structure. Science 160: 1308-1312, 1968; página 1308).


São precisamente os limites que a máquina impõe à forma em que nela podem operar as leis naturais o que a torna útil. Igualmente, as leis naturais não suspendem as suas operações nos sistemas biológicos, mas existe neles um princípio superior de organização que aproveita estas leis. Assim, a existência dos ácidos nucleicos sem dúvida obedece a leis químicas, mas neles encontra-se um vasto conteúdo de informação cuidadosamente especificada que não poderia existir só pela operação das leis químicas.


"Suponha-se que a estrutura real de uma molécula de DNA fora devida ao facto das ligações entre as suas bases serem muito mais fortes do que seriam para qualquer outra distribuição de bases; então tal molécula de DNA não teria conteúdo informativo ... Podemos notar que tal é realmente o caso de uma molécula comum. Uma vez que a sua estrutura ordenada é devida a um máximo de estabilidade, correspondente a um mínimo de energia potencial, o seu ordenamento carece da capacidade de funcionar como um código... À luz da atual teoria da evolução, a estrutura codificada do DNA deve ser assumida como tendo surgido por uma sequência de variações ao azar estabelecida por seleção natural. Mas este aspecto evolutivo é irrelevante aqui; qualquer que seja a origem de uma configuração de DNA, ela pode funcionar como código somente se a sua ordem não for devida às forças da energia potencial... Vimos que a fisiologia interpreta o organismo como uma complexa rede de mecanismos, e que um organismo é - como uma máquina - um sistema sob controle dual. A sua estrutura é a de uma condição de contorno que aproveita as substâncias físico-químicas do organismo, ao serviço das funções fisiológicas ... E posso acrescentar que o DNA é tal tipo de sistema, já que todo o sistema que traz informação está debaixo de controle dual, pois qualquer sistema deste tipo restringe e ordena, ao serviço do transporte da sua informação, recursos extensos de particulares que de outro modo seriam abandonados ao azar, e portanto age como uma condição de contorno" 


(Polanyi, l.c., página 1309).


Precisamente, a investigação bioquímica encontrou, repetidamente, sistemas cuja complexidade intrínseca e interdependência entre as suas partes desafia todo o intento de imaginá-los como o produto de uma evolução gradual a partir de sistemas mais simples. 


A força deste argumento foi percebida por George C. Williams, um dos originadores da teoria de seleção de genes popularizada por Richard Dawkins no seu livro O gene egoísta. Não obstante, Williams posteriormente declarou:


"Os biólogos evolucionistas não se deram conta de que trabalham com dois domínios mais ou menos incomensuráveis: o da informação e o da matéria ... Estes dois domínios nunca podem reunir-se de modo algum pelo que habitualmente se implica por ‘reducionismo’ ... O gene é um bloco de informação, não um objeto. O padrão de pares de bases numa molécula de DNA especifica o gene. Mas a molécula de DNA é o meio, não a mensagem. Manter esta distinção entre o meio e a mensagem é absolutamente indispensável para pensar com clareza acerca da evolucão... Em biologia, quando você fala de coisas como genes, genótipos e grupos de genes, está a falar acerca de informação, não de uma realidade física objetiva". 


(Entrevista em John Brockman, Ed. The Third Culture: Beyond the Scientific Revolution. Simon & Schuster, New York, 1995, p. 42-43). 


Quatro exemplos de sistemas complexos 

Poderia abundar-se em exemplos, mas nos limitaremos a citar alguns dos mais óbvios. A propósito do desenvolvimento de órgãos complexos, menciono a extraordinária complexidade da fotossensibilidade, ou propriedade de certas células de responder à luz. Tal processo envolve uma cadeia de reações catalizadas enzimaticamente, variações em concentrações de intermediários, mudanças de permeabilidade iónica nas membranas, libertação de mensageiros químicos e processos de recuperação. 


Um segundo exemplo o constitui o mecanismo de transporte intracelular de proteínas. Quando uma proteína é produzida, tem de ser colocada no sítio correto da célula. Este direcionamento exige um complexo sistema de membranas, passos intermédios, enzimas e cofatores, a maioria dos quais são imprescindíveis, de modo que o processo falha se faltar ou estiver alterado um deles. 


Outro exemplo o constitui o mecanismo de hemostasia, ou detenção da hemorragia de uma ferida, através da coagulação do sangue. Trata-se de uma cascata de reações que envolvem precursores de enzimas, enzimas e cofatores. A falta ou alteração de um só deles ocasiona, por exemplo, a hemofilia. Outros defeitos podem ocasionar o transtorno oposto, uma excessiva coagulabilidade do sangue, de graves consequências. Em consequência, a coagulação deve ser precisamente regulada tanto para que o sangue coagule quando isso é favorável ao organismo, como para que não coagule quando isso é prejudicial. 


Um quarto exemplo o constitui o sistema imunitário, com a sua capacidade de produzir anticorpos contra substâncias estranhas (antígenos) com a consequente destruição, através de outra cascata enzimática chamada complemento, das células estranhas ao organismo. De novo, é essencial que o organismo possua mecanismos de defesa contra as infeções, mas ao mesmo tempo é vital que tais mecanismos não reajam contra as próprias células do hóspede. 


Estes últimos dois sistemas, da coagulação e do complemento caracterizam-se portanto, além da sua complexidade, pela necessidade de uma rigorosa regulação que impeça a sua ativação em condições inapropriadas. Tanto a ativação do mecanismo da coagulação como a de mecanismos imunológicos são imprescindíveis para conservar a vida, mas podem pô-la em perigo se não forem cuidadosamente regulados. 


Chamativamente, não existem explicações adequadas, no marco neodarwinista, sobre a aparição destes sistemas; a sua existência não pode negar-se, mas o modo em que vieram à existência não está de todo claro. Como sublinha Michael Behe:


"A impotência da teoria darwinista para dar conta das bases moleculares da vida é evidente não só das análises deste livro, mas também da ausência completa, na literatura científica profissional, de quaisquer modelos detalhados pelos quais poderão ter-se produzido sistemas bioquímicos complexos... Perante a enorme complexidade que a moderna bioquímica descobriu na célula, a comunidade científica está paralisada. Ninguém na Universidade de Harvard, ninguém nos Institutos Nacionais de Saúde, nenhum membro da Academia de Ciências, nenhum ganhador do prémio Nobel - ninguém em absoluto pode dar um relato detalhado de como o cílio [complexo órgão motor], ou a visão, ou a coagulação do sangue, ou qualquer processo bioquímico complexo pode ter-se desenvolvido ao modo darwiniano. Mas estamos aqui. As plantas e os animais estão aqui. Os sistemas complexos estão aqui. Todas estas coisas chegaram aqui de alguma maneira; se não ao modo darwiniano, como?" (Behe MJ. Darwin's Black Box. The biochemical challenge to evolution New York, The Free Press, 1996; página 187).


Desenho sem desenhador? 

O argumento do desenho, de longa data, foi apresentado nos tempos modernos por William Paley na sua Teologia Natural e foi ridicularizado por décadas pelos partidários do dogma evolutivo. Talvez a mais conhecida tentativa seja a de Richard Dawkins no seu O relojoeiro cego. Este cientista britânico explica que pode considerar-se um ateu intelectualmente satisfeito graças a Darwin e define a biologia como o estudo de coisas complicadas que dão a impressão, ou melhor criam a ilusão, de terem sido criadas com um propósito. 


"O problema do biólogo é o problema da complexidade. O biólogo tenta explicar o funcionamento, e o início da existência, de coisas complexas em termos de coisas mais simples... 
A seleção natural é o relojoeiro cego, cego porque não pode ver o que há por diante, não planeja as consequências, não tem propósito em vista. No entanto, os resultados vivos da seleção natural nos impressionam avassaladoramente com a aparência de desenho e planificação" 

(Richard Dawkins, The Blind Watchmaker, 3rd Ed. W.W. Norton, New York, 1996, página 15,21) 

Paley defendia a noção de desenho com base na presumida perfeição da criação, e os seus adversários foram capazes de assinalar muitas imperfeições, verdadeiras ou supostas. No entanto, a noção de desenho não traz implícita a ideia de perfeição. Podemos perceber desenho quando num sistema ou objeto se deteta uma disposição deliberada, significativa e inteligente das suas partes. Uma tosca ferramenta neolítica é considerada prova de desenho inteligente em arqueologia. Além disso, deve sublinhar-se que a ideia de desenho inteligente não contradiz de modo algum a operação das leis naturais, nem nos diz nada diretamente sobre a identidade do desenhador.

A deteção de desenho inteligente é usada continuamente pelos arqueólogos para a deteção de restos de atividade humana. Mais ainda, se projetos como o da "deteção de inteligência extraterrestre" (SETI) detetasse uma mensagem (informação) proveniente do espaço exterior, por mais simples que esta fosse, isso seria considerado evidência em favor da existência de inteligência extraterrestre. De igual modo, é difícil evitar a conclusão de que a deteção de desenho inteligente nos sistemas biológicos implica que, conforme a nossa experiência, a ideia de um desenhador está longe de ser absurda, ainda que não soubéssemos nada acerca da sua identidade. De facto, fora da biologia tal como esta é entendida pelos neodarwinistas, a existência de um verdadeiro desenho não explicável pela simples operação de forças físicas é considerada evidência irrefutável da existência de um desenhador inteligente.

É a seleção natural um fracasso?

A crítica anterior sobre a validade da seleção natural como mecanismo da evolução não implica de modo algum negar a realidade da seleção natural; mas salienta que é altamente improvável que tal mecanismo possa ser responsável pela diversidade de espécies.

A seleção natural parece ser um importante mecanismo na microevolução. Um exemplo famoso é o das populações da chamada borboleta do abedul (Biston betularia). Este inseto é normalmente de cor clara, embora ocasionalmente surgem, por mutação, exemplares escuros. Antigamente tais exemplares escuros eram eliminados rapidamente pelos predadores, pois a sua cor os tornava muito visíveis sobre o tronco das árvores. Quando a revolução industrial em Inglaterra fez que as árvores se escurecessem pela fuligem, a população de Biston tornou-se predominantemente escura. Em tempos recentes, as medidas ecológicas clarificaram os troncos, e os insetos claros voltaram a predominar. 

É importante observar 1) que havia borboletas claras e escuras durante todo o período, e até hoje e 2) que o predomínio de uns exemplares ou outros não envolve o surgimento de uma nova espécie. Apesar disso, muitos pensam que estes mecanismos seletivos são similares aos envolvidos na especiação. No entanto, o que é verdade numa escala não necessariamente o é em outra. Por exemplo, a temperaturas de muitos milhares de graus, como as existentes no interior das estrelas, produzem-se reações termonucleares. Os fenómenos de combustão também elevam a temperatura. No entanto, não se podem produzir reações termonucleares com um fogareiro ou um forno de padaria. A escala é muito diferente. O facto da seleção natural modificar o equilíbrio de populações, por exemplo, de bactérias resistentes a um antibiótico, não implica que possa transformar umas espécies em outras, nem que seja o mecanismo responsável pela fantástica diversidade dos seres vivos.

De facto, ainda que não o digam nos seus tratamentos do tema dirigidos à opinião pública, a comunidade científica evolucionista está dolorosamente consciente destes problemas. 

"Passou aproximadamente meio século desde que foi formulada a síntese neodarwiniana. Realizou-se muita investigação dentro do paradigma que ela define. No entanto, os êxitos da teoria limitam-se às minúcias da evolução, como mudanças adaptativas na cor das borboletas; ao passo que tem notavelmente pouco que dizer sobre as perguntas que nos interessam mais, como por exemplo, de como chegou a haver borboletas em primeiro lugar" (Ho, M.W.; Saunders, P. Beyond Neo-Darwinism - An epigenetic approach to evolution. Journal of Theoretical Biology 78: 589, 1979). 

Os artrópodes, invertebrados de patas articuladas que incluem crustáceos, quelicerados, miriápodes e insetos, constituem mais de metade de todas as espécies conhecidas. No entanto, 

"...para lá desta rudimentar taxonomia, há pouco acordo sobre como se relacionam os artrópodes, existentes e extintos ... Permanece a pergunta evolucionista central: Como, em termos tanto de padrão como de processo, veio à existência a incomparável diversidade e persistência dos artrópodes? ... Os estudos de morfologia e embriologia comparativas somente polarizaram ainda mais o debate... por agora, os dados moleculares são muito escassos, e a diversificação demasiado rápida e antiga para permitir a reconstrução de filogenias não ambíguas... Mesmo se a filogenia historicamente correta pudesse ser decifrada..., só teríamos a metade de uma resposta à pergunta evolucionista central. Permaneceria o desafio de reconciliar o padrão filogenético com o processo evolutivo". 

(Grosberg, R.K.: Out on a limb: Arthropod origins. Science 250: 632-633, 1990; ver também Lemarchand, F. Les premiers insectes. La Recherche 296: 85, Mar. 1997).

segunda-feira, 19 de março de 2018

Poema para Galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.


António Gedeão (1906-1997)

sexta-feira, 2 de março de 2018

O "Não" Problema do Mal


O problema do mal geralmente assume a forma de um tétrade inconsistente:

i) Deus é omnipotente

ii) Deus é omnisciente

iii) Deus é benevolente

iv) O mal existe

Este problema costuma ser usado por ateus como argumento contra a existência de Deus. Um ateu tenta mostrar que estes pontos são mutuamente inconsistentes, gerando assim um dilema para o cristão. Para evitar a inconsistência, um cristão tem de prescindir de pelo menos uma das proposições. Se, no entanto, (i-iii) não são negociáveis, então o seu sistema de crenças falha. Como é um sistema de tudo ou nada, pegar-ou-largar, se for inconsistente em qualquer ponto, então tem que abandonar-se o todo.

Mas um problema com o argumento do mal é que ele ataca uma versão muito abstrata de teísmo. Algo derivado da teologia filosófica. Teísmo clássico ou teologia do ser perfeito.

Normalmente, o argumento do mal não é formulado em referência a uma religião histórica viva, como o judaísmo do AT ou o cristianismo do NT.

Por exemplo, seria muito mais difícil mostrar que o argumento do mal refuta a existência de Yahweh, uma vez que Yahweh não é "benevolente" no sentido em que os ateus normalmente definem a benevolência ao formular o argumento do mal. Na verdade, muitos incrédulos rejeitam o teísmo bíblico porque pensam que Yahweh, Jesus e/ou Deus, o Pai, não é benevolente como eles vêem a benevolência. Eles ficam melindrados com várias ações divinas, ordens e proibições na Escritura.

Mas aonde isso leva o argumento do mal? Se, pela sua própria admissão, o teísmo bíblico não se conforma com as suas noções preconcebidas de benevolência, então a existência do mal está em consonância com a existência de uma Deidade como essa.

Além disso, a existência do mal é uma pressuposição necessária do teísmo bíblico. Se vivêssemos num mundo desprovido de mal moral e natural, a ausência, em vez da presença do mal, falsificaria a descrição bíblica da realidade. A história da Bíblia está repleta de mal. A salvação e o julgamento escatológico são o remédio final.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

OS FINAIS DO EVANGELHO DE MARCOS


Os manuscritos gregos e de antigas versões (traduções) do Novo Testamento apresentam cinco finais diferentes para o Evangelho de Marcos, a saber:

1. Alguns finalizam no versículo 16:8 e simplesmente omitem os vv. 9-20: “Elas saíram fugindo do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. São assim os códices Sinaítico e Vaticano, L*, o manuscrito k da Antiga Versão Latina, a Siríaca sinaítica, e diversos manuscritos das versões antigas arménia, georgiana e etíope. Eusébio e Jerónimo notaram que a maioria dos manuscritos gregos que conseguiram examinar careciam do final longo. Aparentemente, nem Clemente nem Orígenes conheceram tal final. Finalmente, ainda alguns dos manuscritos que o possuem, apresentam observações ou marcas dos escribas indicando que se trata de uma adição.

2. Outros acrescentam o seguinte texto: “Mas [as mulheres] relataram resumidamente a Pedro e aos que estavam com ele tudo quanto lhes tinha sido dito. E depois disto o próprio Jesus enviou por meio deles, do oriente ao ocidente, a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”. Entre eles apenas este versículo no códice Bobbiensis (k) do século IV ou V.

3. Ainda outros intercalam o versículo acima citado antes do final longo (16:9-20) em unciais dos séculos VII ao IX (L, Psi, 099, 0112), alguns minúsculos e cópias de versões antigas.

4. Muitos manuscritos contêm o final longo que inclui os versículos 9-20, alguns com o acréscimo do texto recém-mencionado. É o que se encontra no chamado Textus Receptus, e é atestado pelos unciais A C D L W Delta Sigma Theta 047, pela maioria dos manuscritos minúsculos e da Antiga Latina, da Vulgata, da siríaca curetoniana e Peshitta (“vulgata” siríaca), e da versão copta. Além de outros testemunhos posteriores, Ireneu e Hipólito o conheciam; aparentemente é citado pela Epistula Apostolorum e Taciano o incluiu na sua harmonia ou Diatessaron de finais do século II.

5. Finalmente, existe uma versão ampliada do final “longo” que imediatamente depois do versículo 14 (“..porque não haviam crido nos que o tinham visto já ressuscitado”) acrescenta: “E eles se desculparam dizendo «Esta era de iniquidade e incredulidade está debaixo de Satanás, que não permite que a verdade e o poder de Deus prevaleçam sobre a impureza dos espíritos. Portanto, revela agora a tua justiça». Assim falaram a Cristo. E Cristo lhes respondeu, «O fim de anos do poder de Satanás se cumpriu, mas outras terríveis coisas se aproximam. E por aqueles que pecaram eu fui entregue à morte, para que possam voltar à verdade e não pecar mais; para que possam herdar a glória espiritual e incorruptível de justiça que está no céu»”. Esta adição foi notada por Jerónimo, e é atestada pelo códice W adquirido em 1906 por Charles L. Freer, que data da última parte do século IV ou princípios do seguinte.

É claro que, nem todos estes finais têm o mesmo peso. É extremamente improvável que Marcos, com seu estilo simples, tenha escrito algo tão altissonante como “a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”, ou “a glória espiritual e incorruptível de justiça”, expressões que delatam influências helenistas posteriores. Este facto, somado ao número e idade dos testemunhos, praticamente isenta de maiores considerações os finais listados (2) (3) e (5).

Apesar de alguns terem sustentado – por exemplo Lohse, p. 144-145 - que o Evangelho finalizava originalmente no versículo 8, isto também é pouco provável, em parte porque aparece como um final anticlimático, muito pouco apropriado para concluir “o evangelho de Jesus Cristo” (1:1).

Mais importante é a evidência fornecida pela última cláusula do versículo 8, “porque tinham medo” (grego efobounto gar). Metzger nota que “de um ponto de vista estilístico, terminar uma frase grega com a palavra gar é extremamente incomum e raríssimo – só se acharam relativamente poucos exemplos em toda a vasta gama de obras literárias gregas, e não se achou nenhum caso no qual gar se encontre no final de um livro. Mais ainda, é possível que no versículo 8 Marcos use o verbo efobounto para significar «estavam assustadas com...» algo (como o faz em quatro das outras aparições deste verbo no seu Evangelho [ver Marcos 9:32, 11:32, 12:12 e especialmente 11:18, “efobounto gar auton”, eles o temiam]). Em tal caso, obviamente é preciso algo para concluir a frase” (p. 228). Em suma, estes factos sugerem que falta algo do que Marcos originalmente escreveu, e que tal ausência motivou mais tarde a aparição de diferentes conclusões.

A versão que aparece nas nossas Bíblias como os versículos 16:9-20 também não parece a original, apesar de ser atestada por muitos manuscritos. Para começar, há uma transição muito abrupta entre o v. 8 e o 9; o sujeito do primeiro versículo (8) são as mulheres, enquanto Jesus é obviamente o sujeito no segundo (9). No entanto, no texto grego o sujeito está tácito: “E tendo ressuscitado cedo no primeiro [dia] da semana, apareceu primeiro a Maria a Madalena...” Este facto não resulta evidente em muitas versões em português porque os tradutores incluem habitualmente o nome de Jesus nesta frase.

Em segundo lugar, no v. 9 se fala de Maria Madalena como se não tivesse sido mencionada antes, quando já se falou dela no relato marcano da crucificação, sepultura e ressurreição. O resto das mulheres desaparece da cena, ainda que tivessem sido comissionadas para relatar a ressurreição no v. 7. No mesmo versículo o anjo anuncia que verão Jesus na Galileia, mas as manifestações do Ressuscitado dão a impressão de ocorrer na área de Jerusalém; pelo menos, não é mencionada a Galileia.

O estilo destes versículos difere também da linguagem habitual de Marcos. Das 101 palavras gregas dos versículos 9-20, há 75 significativas (excluídos conjunções, artigos e nomes próprios), das quais 15 não aparecem no resto do Evangelho e 11 que aparecem, usam-se com um sentido diferente. Mesmo considerando a diferença do tema, a linguagem se apresenta prima facie como não própria de Marcos.

Também não há no resto do segundo Evangelho nenhuma recriminação tão severa como a indicada no versículo 14. Por outro lado, a promessa de imunidade diante das serpentes e do veneno não só é alheia a Marcos, mas aos outros três evangelhos, e ao resto do Novo Testamento.

Há quem pense que os versículos 9-20 são uma tentativa de harmonizar o relato de Marcos com os dos outros Evangelhos canónicos; são desta opinião por exemplo Bruce e Linnemann (citado por Kümmel). Por outro lado tal “conclusão foi contestada, com muito acerto” (Leon-Dufour), por Joseph Hug, numa tese doutoral publicada em 1978. Esta análise literária indicaria que os versículos 9-20 seriam um acréscimo original que deve datar-se entre finais do século primeiro ou em todo caso antes de meados do segundo (Metzger, p. 297). O acréscimo teria tido como propósito fornecer instruções missionárias à comunidade cristã de fala grega com tendências carismáticas. Deste ponto de vista, Marcos 16:9-20 seria um testemunho muito primitivo proveniente da Igreja sub-apostólica.

Em suma, considerada toda a evidência, aparentemente o texto autêntico e original de Marcos, tal como este Evangelho foi conservado, termina em 16:8. Portanto, não é prudente basear doutrinas nos versículos 9-20.


Bibliografia

Bruce, Frederick Fyvie: Answers to questions. The Paternoster Press, 1972 (p. 155).

Kümmel, Werner Georg. Introduction to the New Testament. Rev. English Ed. Trad. Howard Clark Kee. Nashville: Abingdon Press, 1975 (p. 98-101).

Ladd, George Eldon. Crítica del Nuevo Testamento: Una perspectiva evangélica. Trad. Moisés Chávez. El Paso: Mundo Hispano, 1990 (p. 56-59).

Leon-Dufour, Xavier. Los evangelios sinópticos. Em Augustin George e Pierre Grelot (Dirs.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. J. Cabanes e M. Villanueva. Barcelona: Herder, 1982 (pp. 293-295).

Metzger, Bruce M. The text of the New Testament: Its transmission, corruption and restoration, 3ª Ed. New York: Oxford University Press, 1992 (p. 226-228, 296-297).

Wessel, Walter W.. Mark. Em Frank E. Gaebelein (Gen.Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984 (8:791-793).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

AGNUS DEI


Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor. (Prov. 19:21)

domingo, 19 de novembro de 2017

Uma sucessão apostólica… inverificável


Afirma a New Catholic Encyclopedia:

«Deve admitir-se francamente que o viés ou deficiências nas fontes torna impossível determinar, em certos casos, se os pretendentes eram papas ou antipapas... Os autores calculam variavelmente o número de antipapas: Baümer conta 33 colocando três outros entre parêntesis como papas legítimos; Amanieu, 34; Frutaz, 36 mais alguns duvidosos e nove designados impropriamente; Moroni, 39. Desde 1947 o Anuário Pontifício do Vaticano tem publicado a lista de papas de Mercati que inclui 37 antipapas no texto. Todas as listas estão sujeitas a reservas, e o catálogo Mercati tem provocado divergências».

New Catholic Encyclopedia (CUA, 2nd ed., 2003), 1:530b.

Portanto, se a sucessão apostólica servisse para alguma coisa, a igreja hoje estaria numa situação de impraticabilidade, sem saber exatamente quem são os legítimos sucessores dos apóstolos, uma vez que é impossível determinar a validade da sucessão apostólica que os bispos reclamam.

Por exemplo, o atual papa Francisco pode descender tanto de uma linha válida como inválida da sucessão apostólica. Simplesmente não há possibilidade de saber.

Quando alguém diz que o papa Francisco é o sucessor de Pedro, através de uma linha ininterrupta de bispos, faz uma afirmação no vazio que não pode de modo algum ser sustentada documentalmente. É um completo salto no escuro.

O caricato é que as prerrogativas atribuídas ao papa, incluindo a sua infalibilidade ex cathedra, dependem da validade da sua sucessão apostólica, a qual não só não pode ser determinada infalivelmente, como é mesmo impossível determiná-la através dos dados da história. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Arqueologia Bíblica


Mais uma forte evidência da confiabilidade geral do Texto Massorético aqui

Dezenas de artigos sobre Arqueologia Bíblica podem ser encontrados aqui:

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/0

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/1

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/2

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/3

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Fé na Bíblia ou fé cega no Magistério?


A Igreja Católica Romana está dividida entre o Magistério, constituído pelo clero, principalmente o Papa e os bispos em comunhão com ele, e os leigos que são os crentes comuns. Os leigos estão obrigados a acreditar no que o Magistério ensina, porque o Magistério é considerado a voz autorizada da verdade. Esta situação cria uma bizarria epistemológica na relação entre leigos e Magistério, uma vez que o leigo vê os ensinos do Magistério como leis a ser obedecidas juridicamente. Em questões do âmbito da «verdade» isto redunda no absurdo de para um leigo a verdade ser estabelecida «por decreto» do Magistério. Os leigos estão como num estado de niilismo filosófico. A única forma de chegarem ao conhecimento de uma verdade em questões de fé é através do ensino do Magistério.

No caso particular da Bíblia é comum os leigos católicos, aqueles doutrinados pelos sites de apologética católica, dizerem que acreditam na Bíblia porque a “Igreja”, leia-se Magistério Romano, manda acreditar na Bíblia, ou que acreditam na inspiração da Bíblia porque o Magistério diz que os livros da Bíblia são inspirados, só e apenas por isto. Na cosmovisão de um leigo não há outra forma de dar crédito à Bíblia ou de saber que a Bíblia é inspirada por Deus a não ser «por decreto» do Magistério. Ou seja, a confiabilidade e a inspiração da Bíblia é estabelecida «por decreto», não interessa se o Magistério tem bons ou maus argumentos, aliás, está fora do alcance do leigo ajuizar se os argumentos do Magistério são bons ou maus.  

Por exemplo, este católico, com quem tive um breve diálogo, além de se ter suicidado epistemologicamente à segunda mensagem, nem sabe que o fundamento do seu Magistério para ensinar que os livros da Bíblia são sagrados e canónicos é porque os considera inspirados por Deus. Para ele, os livros da Bíblia são sagrados e canónicos, porque simplesmente o Magistério diz que são. E, na verdade, para o leigo católico o fundamento que o Magistério possa ter para ensinar uma doutrina é irrelevante. O que conta é o «ditame» do Magistério. Não é por acaso que acreditam em coisas tão infundadas como a imaculada conceição, a transubstanciação, ou a infalibilidade papal.  

Estamos, portanto, perante uma situação epistemologicamente bizarra que conduz a uma equivocada visão do que é a Bíblia por parte do leigo.

A Bíblia não é um documento legal emitido por uma autoridade eclesiástica, que confere «por decreto» autoridade àqueles determinados livros que doutra forma não a teriam, e a que se tem que obedecer por força de lei.

Não, a Bíblia são relatos históricos, ensinamentos e testemunhos de vários autores transmitidos ao longo de gerações e que nós recebemos e, aos quais podemos dar crédito ou não - sim, podemos, a razão e os sentidos ajudam-nos a discernir a verdade e a dar passos de fé plausíveis, o niilismo filosófico não é cristão. Uma vez dado crédito ao conteúdo da Bíblia, segue-se logicamente que temos de considerá-la como inspirada por Deus, porque ela mesma reclama ser de origem divina. A seguir, a experiência pessoal e o testemunho do Espírito Santo no crente também lhe confirmam a sua inspiração divina.

Portanto, para o crente na Bíblia, ela tem uma autoridade intrínseca que vem do seu autor e não depende de sanção humana em geral nem eclesiástica em particular.

Na vida real podemos observar que quando uma pessoa recebe uma Bíblia, ela vai considerá-la autorizada ou não, na medida em que achar o seu conteúdo confiável, e segundo o que ela vai experimentar através dela na sua vida, e não porque um grupo qualquer no passado, que ela nem conhece, «decretou» que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus. Seria realmente absurdo que tal pessoa acreditasse que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus só e por este motivo. Implicaria acreditar que a verdade se estabelece «por decreto».

Resumindo, a autoridade da Bíblia é independente da autoridade Igreja. Ser verdadeira é a única condição necessária e suficiente para a Bíblia ter autoridade. É a verdade que é autoritativa e obriga.

Os cristãos confessam a Bíblia, exercem fé nela e proclamam a sua verdade, não obedecem ex nihilo a um magistério eclesiástico autossubsistente.

domingo, 5 de novembro de 2017

LUTERO E A CIÊNCIA


Os seguintes extratos são do artigo intitulado "Lutero e a Ciência" de Donald Kobe, professor de física na Universidade do Texas:

Sem a Reforma, a ciência moderna se teria provavelmente desenvolvido de todo o modo por causa do ethos da racionalidade e da doutrina da criação que conduz a ela. A Reforma, porém, acelerou o desenvolvimento pela sua crítica do escolasticismo e a sua ênfase na observação direta da natureza. Lutero foi chamado o Copérnico da teologia enquanto, por outro lado, Copérnico foi chamado o Lutero da astronomia... Na filosofia natural ou ciência, as perguntas acerca da natureza já não se respondiam primariamente mediante citações de Aristóteles e dos escolásticos, mas atentando para a observação e para a experimentação na própria natureza. Similarmente, depois da Reforma, os protestantes não respondiam já perguntas de teologia primariamente por citação de filósofos e teólogos escolásticos, mas virando-se diretamente para a Bíblia. Lutero interpretou a Escritura perguntando: Qual é o significado claro e direto do texto? Os cientistas interpretam a natureza da forma mais simples possível usando o mínimo número de hipóteses.

Lutero acreditava que o mundo estava no começo de uma nova era, a qual traria não somente uma reforma na religião mas também um novo apreço pela natureza. Nas suas informais “Conversas à Mesa” disse:

«Estamos no amanhecer de uma nova era, pois estamos começando a recuperar o conhecimento do mundo externo que foi perdido pela queda de Adão. Agora observamos apropriadamente as criaturas... Mas pela graça de Deus já reconhecemos na mais delicada flor as maravilhas da divina bondade e omnipotência [paráfrase de Romanos 1:20]».

Lutero estava aberto aos autênticos avanços científicos da sua época. Apreciava as invenções mecânicas do seu tempo.

Aceitou o uso dos medicamentos para tratar as doenças ... A alguém que disse que não é permissível para um cristão usar medicamentos, Lutero lhe replicou retoricamente, “Você come quando está esfomeado?” Segundo Andrew White, esta atitude de Lutero fez que as cidades protestantes da Alemanha estivessem mais dispostas do que outras a admitir a investigação e dissecção anatómica.

Lutero aceitou a astronomia como ciência, mas rejeitou a astrologia como uma superstição pois não pode ser confirmada por uma demonstração... por exemplo, Lutero estava disposto a aceitar a conclusão dos astrónomos de que a lua é o mais pequeno e baixo dos “astros”. Interpretava a Escritura que chamava o sol e a lua “grandes luminárias” como acomodada à aparência dos fenómenos.
...
Em conclusão, a influência luterana sobre o desenvolvimento da ciência foi geralmente positiva. Lutero, e também Calvino, rejeitaram a ideia de que as vocações religiosas são superiores às seculares. Os homens e as mulheres devem servir a Deus realizando um trabalho honesto e útil com diligência e integridade. O trabalho científico revela a obra de Deus num universo que é tanto racional como ordenado. Também proporciona resultados que podem ser usados para o benefício da humanidade.
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Lutero não estava primariamente interessado na ciência. Mas a Reforma criou um clima de abertura e aceitação de novas ideias, que em geral alentaram o desenvolvimento científico. Depois do julgamento de Galileu em 1633, as áreas protestantes da Europa dominaram os descobrimentos científicos [Owen Gingerich, "The Galileo Affair", Scientific American 247 (August 1982): 132-143].

http://www.leaderu.com/science/kobe.html

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O justo viverá pela fé


Pouco antes de morrer, em 1545, Lutero publicou a edição latina dos seus escritos, e no prefácio descreveu a sua experiência de descoberta da maravilhosa graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, como Paulo a anunciava aos Romanos. Eis o testemunho pessoal de Lutero:

«Naquele ano (1519) tinha voltado a interpretar os Salmos, e pensava estar melhor preparado por ter entretanto comentado as Epístolas aos Romanos, aos Gálatas e aos Hebreus. Desejava ardentemente entender bem um vocábulo usado na Epístola aos Romanos, no primeiro capítulo, onde está dito: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho’; porque até então o considerava com terror. Esta expressão: ‘justiça de Deus’ eu a odiava, porque o costume e o uso que fazem habitualmente dela todos os doutores me tinham ensinado a entendê-la filosoficamente. Entendia a justiça que eles chamam formal ou ativa, aquela pela qual Deus é justo e pune os culpados. Apesar da irrepreensibilidade da minha vida de monge, sentia-me pecador diante de Deus; a minha consciência estava extremamente inquieta, e não tinha alguma certeza que Deus fosse aplacado pelas minhas obras satisfatórias. Por isso não amava esse Deus justo e vingador, antes, o odiava, e se não o blasfemava em segredo, certamente me indignava e murmurava violentamente contra ele, dizendo: “Não basta que nos condene à morte eterna por causa do pecado dos nossos pais, e que nos faça sofrer a severidade da sua lei? É preciso ainda que aumente o nosso tormento com o Evangelho, e que também nele nos anuncie a sua justiça e a sua cólera?” Estava fora de mim, de tão perturbada que estava a minha consciência; e refletia sem trégua essa passagem de São Paulo, desejando ardentemente saber o que São Paulo tinha querido dizer. Finalmente, Deus teve compaixão de mim. Enquanto meditava dia e noite e examinava a conexão destas palavras: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho como está escrito: ‘O justo viverá por fé’, comecei a compreender que a justiça de Deus significa aqui a justiça que Deus doa, e por meio da qual o justo vive, se tem fé. O sentido da frase é pois este: o Evangelho nos revela a justiça de Deus, mas a justiça passiva, por meio da qual Deus, na sua misericórdia, nos justifica mediante a fé, como está escrito: ‘O justo viverá por fé’. Imediatamente me senti renascer, e me pareceu que se escancararam para mim as portas do paraíso. Desde então a Escritura inteira ganhou para mim um significado novo. Percorri os textos como a memória mos apresentava, e notei outros termos que se deviam explicar de modo análogo, como a obra de Deus, isto é, a obra que Deus faz em nós, o poder de Deus, mediante o qual ele nos dá força, a sabedoria pela qual nos torna sábios, a salvação, a glória de Deus. Quanto tinha odiado o termo: ‘justiça de Deus’, outrotanto o amava agora, exaltava esse dulcíssimo vocábulo. Assim essa passagem de São Paulo tornou-se para mim a porta do paraíso. Em seguida li o De spiritu et littera de Agostinho, e inesperadamente observei que interpreta a “justiça de Deus” de modo totalmente análogo, isto é, que entende a justiça da qual Deus nos reveste justificando-nos. E se bem que ele se exprima ainda num modo imperfeito, e não explique claramente tudo aquilo que diz respeito à imputação, tive a alegria de constatar que ensinava a entender, que a justiça de Deus é aquela pela qual somos justificados. Melhor preparado por todas estas reflexões, comecei pela segunda vez a interpretação dos Salmos […]»

(W.A. D. Martin Luthers Werke, Kritische Gesamtausgabe, Weimar, 1883-1983, 54, 185-186)
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