sexta-feira, 14 de março de 2025

QUANDO O VATICANO INCITOU O REGIME FASCISTA DE MUSSOLINI A PERSEGUIR OS CRISTÃOS PENTECOSTAIS

 

No livro I pentecostali negli archivi: Introduzione di Giancarlo Rinaldi, a autora, Marina Pagano, pentecostal de terceira geração, aluna na Escola de Estudos de História do Cristianismo da Universidade de Roma La Sapienza, recolhe centenas de documentos relacionados com os acontecimentos dos pentecostais italianos no século XX, vasculhando os arquivos do Estado italiano e do Vaticano.

Os documentos são reproduzidos em fotografias ou transcritos com cuidado, recolhidos, sistematizadas, organizados e oferecidos aos leitores.

O livro demonstra que uma circular chamada “Buffarini Guidi” (que proibia o culto pentecostal) não era uma ordem propriamente fascista, como é repetido ad nauseam, mas foi literalmente "ditada" pelas mais altas autoridades do Vaticano. Prova disso é a sua vigência (8 anos durante o fascismo; 12 anos na 'democracia' do pós-guerra). Quem são os principais autores da infame circular? Podem-se encontrar nomes como o do próprio Papa Pio XI, o núncio Borgongini Duca, Igino Giordani, que mais tarde descobriu o ecumenismo e fundou o movimento dos Focolares, mas na altura era um feroz opositor de todas as formas de protestantismo. Eles ditaram literalmente o texto ao diretor do Ministério do Interior fascista.

Como resultado desta perseguição, dezenas de igrejas foram fechadas, muitos pentecostais foram presos e alguns morreram na prisão ou em campos de concentração.

https://www.academia.edu/128050377/I_pentecostali_negli_archivi


Outros livros interessantes relacionados com a aliança entre a Igreja Católica e o regime fascista italiano contra os protestantes:

Kevin Madigan, The Popes against the Protestants: The Vatican and Evangelical Christianity in Fascist Italy, Yale University Press, 2021.

David I. Kertzer, The Pope and Mussolini: The Secret History of Pius XI and the Rise of Fascism in Europe, Random House Trade Paperbacks, 2015.

domingo, 9 de março de 2025

AS SALSICHAS DE ZURIQUE

 

Neste dia, há 503 anos, um grupo de homens, que incluía Ulrich Zwingli, Leo Jud, Klaus Hottinger e Lorenz Hochrütiner, reuniram-se na gráfica de Christoph Froschauer em Zurique para comer uma refeição de salsichas fumadas numa violação deliberada das leis da cidade sobre o jejum quaresmal.

Zwingli não comeu as salsichas, mas defendeu a liberdade cristã daqueles que o fizeram com a publicação do tratado "Da escolha e liberdade nas comidas" onde dizia “Os cristãos são livres de fazer jejum ou não porque a Bíblia não proíbe de comer carne durante a Quaresma".

O Conselho de Zurique condenou a ação a princípio e Froschauer foi preso.

O evento, no entanto, foi bem-sucedido ao abrir um debate público sobre o assunto. Como resultado, o povo e os governantes da cidade aderiram às ideias da Reforma e um ano depois o Conselho decidiu que todas as leis sobre jejum seriam abolidas, pois não tinham base bíblica. Em Basileia, um evento semelhante aconteceria com os participantes a comer um porco assado.

A Reforma se espalharia a partir daí para vários lugares no sul da Alemanha, para a Holanda, Inglaterra e América.

E qual foi o destino dos participantes na refeição escandalosa? Froschauer veio a ser fundamental na impressão e divulgação da Bíblia de Zurique até a sua morte em 1564.

Zwingli tornou-se a figura de proa dos Reformados até sua morte na batalha de Kappel em 1531. Lugar que Leo Jud assumiria junto com Heinrich Bullinger.

Klaus Hottinger tornou-se o primeiro mártir da Reforma Suíça sendo executado em Lucerna em 1524 por divulgar ensinos bíblicos.

Lorenz Hochrütiner infelizmente separou-se de Zwingli e se tornou um anabatista alguns anos depois. Ele foi expulso primeiro de Zurique, depois de St. Gallen e, por último, de Basileia pelos seus ensinos e acabou em Estrasburgo, onde desapareceu.

O caso das salsichas de Zurique ficou na história como um símbolo da liberdade cristã e é considerado de semelhante importância às 95 Teses de Martinho Lutero em Wittenberg para a Reforma Protestante.

quarta-feira, 5 de março de 2025

O QUE HÁ DE ERRADO COM EXPRESSÕES COMO "MÃE DE DEUS" E "DEUS MORREU NA CRUZ"?

Um dia destes deparei-me com alguém que afirmava energicamente que quem não afirmasse que “Maria é mãe de Deus” e que “Deus morreu na cruz” era um perigoso herege nestoriano, como se o problema do nestorianismo fosse não afirmar certas expressões e não rejeitar a divindade de Jesus Cristo e a sua dupla natureza plenamente divina e plenamente humana.

Quanto à primeira expressão “Mãe de Deus” estava convencido que com as devidas qualificações era tecnicamente correta, mas a segunda expressão “Deus morreu na cruz” soou-me muito mal. O que se passa aqui? Então pensei melhor no assunto e mudei de opinião.

Segundo a communicatio idiomatum (comunicação de atributos), o que é verdadeiro para uma natureza é verdadeiro para a Pessoa portadora dessa natureza. Não é atribuir as propriedades de uma natureza a outra natureza, mas predicar ambos os conjuntos de propriedades ao indivíduo que as compartilha.

E o problema destas expressões está precisamente aqui. Elas confundem as naturezas de Cristo e atribuem uma propriedade da natureza humana (ter uma mãe ou ser mortal) à natureza divina (Deus) e não à Pessoa. O equívoco está na palavra "Deus" que denota uma propriedade da natureza divina da Pessoa e não a Pessoa. 

O correto é dizer que Maria é mãe (ter uma mãe é atributo da natureza humana) de Jesus Cristo (a Pessoa) ou do Filho de Deus (a Pessoa) ou do Senhor (a Pessoa) que é Deus (atributo da natureza divina).

É errado dizer que Maria é mãe (ter uma mãe é atributo da natureza humana) de Deus (atributo da natureza divina).

O correto é dizer que Jesus Cristo (a Pessoa) ou o Filho de Deus (a Pessoa) ou o Senhor (a Pessoa) morreu (ser mortal é atributo da natureza humana) na cruz.

É errado dizer Deus (atributo divino) morreu (atributo humano) na cruz.

Dizer que Maria é mãe de Deus incorre no mesmo erro de dizer que Jesus Cristo homem era omnipresente ou omnisciente. Jesus Cristo homem denota a natureza humana de Cristo e não a Pessoa. O erro é o mesmo - predicar atributos da natureza humana na natureza divina e vice-versa. Mas nem tudo o que é verdade para uma natureza é verdade para a outra. É por isso que estas expressões que contém a palavra “Deus” predicada com atributos humanos soam terrivelmente mal e são metafisicamente incorretas.

«Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus e homem: como Deus não tinha mãe, como homem, sim. Maria era pois mãe da carne dele, mãe da sua humanidade.» (Agostinho de Hipona, Tratados sobre o Evangelho de João, 8.8-9).

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A BÍBLIA DE JESUS

 

A Bíblia de Jesus era o cânon hebraico, conhecido hoje entre nós como o Antigo Testamento, que contém 39 livros segundo a contagem cristã ou 22 ou 24 segundo a contagem hebraica.

Uma evidência indireta do cânon hebraico, sobre o qual claramente existia um consenso no século I, é o modo em que Jesus fez referência ao primeiro e ao último mártir segundo a ordem tradicional hebraica:

“Por isso disse a Sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns os matarão e perseguirão, para que se peçam contas a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo, desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o santuário. Sim, vos asseguro que se pedirão contas a esta geração.” Lucas 11:49-51

Jesus refere-se aqui a todos os justos e enviados de Deus que sofreram o martírio segundo as Escrituras. A frase grega apo haimatos Abel eôs haimatos Zachariou, «desde (o) sangue de Abel ... até (o) sangue de Zacarias» (Lucas 11:51 = Mateus 23:35) abarca a totalidade dos mártires do Antigo Testamento, desde Abel às mãos do seu irmão Caim, até o martírio de Zacarias, que é narrado em 2 Crónicas:

"O Senhor enviou-lhes profetas que deram testemunho contra eles para que se convertessem a ele, mas não lhes deram ouvidos. Então o Espírito de Deus revestiu Zacarias, filho do sacerdote Joiadá que, apresentando-se diante do povo, lhes disse: «Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do Senhor? Não tereis êxito, pois, por ter abandonado o Senhor, ele vos abandonará a vós». Mas eles conspiraram contra ele, e por ordem do rei, o apedrejaram no átrio da casa do Senhor." 2 Crónicas 24:17-21

No entanto, a referência a Abel e Zacarias como o primeiro e o último mártir, respetivamente, registados nas Escrituras não é cronológica. Há pelo menos um mártir posterior a Zacarias, a saber, Urias, filho de Semaías, que foi assassinado no século VII a.C., durante o reino de Joaquim (Jeremias 26:20-24); entretanto Zacarias tinha sido martirizado muito antes, no século IX a.C., durante o reino de Joás em Judá.

Como deve entender-se então a referência de Jesus a Abel e Zacarias? A amplitude da lista de mártires não é evidente no Antigo Testamento das nossas versões modernas, pois a ordem dos livros difere da ordem hebraica. No Antigo Testamento da maioria das edições modernas, os livros dos Profetas aparecem no final, começando por Isaías e finalizando com Malaquias. Em contrapartida, os 24 livros do cânon hebraico (que correspondem aos 39 das Bíblias protestantes) se ordenavam como se segue:

I. A Torah (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio)

II.  Os Profetas

A. Profetas anteriores: Josué, Juízes, Samuel I e II, Reis I e II)

B. Profetas posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)

III. Os Escritos (Salmos, Provérbios, Job, Cantares, Rute, Lamentações, Qohélet [Eclesiastes], Ester, Daniel, Esdras-Neemias, Crónicas I e II).

Em outras palavras, aqui Crónicas figurava no final da lista. A abrangente expressão de Jesus adquire sentido quando, no contexto de juízo pelo sangue inocente derramado, se entende como uma referência ao primeiro e último assassinato registado nas Escrituras, segundo a ordem tradicional do cânon hebraico: dizer «desde Abel até Zacarias» era equivalente a «de Génesis a Crónicas», ou seja desde o primeiro até ao último livro do cânon do Antigo Testamento. É como se hoje disséssemos, segundo a ordem tradicional do nosso Antigo Testamento, «De Génesis a Malaquias».

Logo, estas palavras do Senhor implicitamente sancionam o cânon hebraico como os oráculos de Deus confiados aos judeus, de que fala Paulo (cfr. Rom 3:2).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

SOBRE APARIÇÕES MARIANAS (OU OUTROS SERES DO ALÉM)


Sinais, milagres e maravilhas devem ser julgados por nós. Se te aparece um ser sobrenatural que diz ser a virgem Maria, mais católica romana do que o Papa, que afirma dogmas católicos que tu sabes que são claramente falsos e manda fazer coisas irracionais e imorais, isso funciona como derrotantes para essa aparição e, portanto, não deves dar crédito a esse ser vindo do além, seja ele quem for.

«E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz.» (2 Coríntios 11:14).

domingo, 9 de fevereiro de 2025

DEFENDAMOS BASÍLIO MAGNO DOS ICONÓDULOS

 

Confesso a aparência do Filho de Deus na carne, e a santa Maria como a mãe de Deus, que deu à luz segundo a carne. E eu recebo também os santos apóstolos e profetas e mártires. Suas semelhanças eu reverencio e beijo com homenagem, pois elas são transmitidas dos santos apóstolos e não são proibidas, mas, pelo contrário, pintadas em todas as nossas igrejas.” (Basílio Magno, Epístola 360).

Apesar de este texto ter sido usado no Concílio de Niceia II como argumento a favor do culto das imagens, Basílio não escreveu isto. Todos os estudiosos da área concordam que este é um texto espúrio, uma falsificação iconófila.

O que não impede que ainda hoje se tente passar este texto como autêntico em algumas fontes católicas ou ortodoxas pouco escrupulosas.

A linguagem da epístola 360, aparentemente endereçada a ninguém em particular, revela uma origem muito posterior ao tempo de Basílio, própria da época da controvérsia iconoclasta. Sabemos por outras evidências da igreja primitiva que pelo menos partes significativas da igreja proibiam ícones, e portanto a afirmação de que a iconografia, descrita na referida homenagem e beijo das imagens, “não é proibida” é falsa. Além disso, se a iconografia foi realmente “transmitida” desde o início e era onipresente, como a epístola afirma, por que razão Basílio declararia o óbvio? Ou seja, por que razão um cristão antigo escreveria a outro sobre uma prática cristã supostamente antiga e difundida afirmando que ela “não era proibida”, se todos sabiam que ela não era proibida? Quando é que nós defendemos práticas cristãs antigas e difundidas como cantar? A epístola 360 tem fortes evidências de “anacronismos” e é tão amplamente questionada que não aparece na maioria das coleções das cartas de Basílio.

The Acts of the Second Council of Nicaea (787), ed. Richard Price, Liverpool University Press 2018, p. 314.



«A alegação iconoclasta de que a reverência para com as imagens não remontava à época de ouro dos padres, e muito menos aos apóstolos, seria hoje julgada por historiadores imparciais como simplesmente correta. A visão iconófila da história do pensamento cristão e da devoção cristã era [em Niceia II] virtualmente uma negação da história».

The Acts of the Second Council of Nicaea (787), ed. Richard Price, Liverpool University Press 2018, p. 43.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

O DOM DA FÉ

 

"Se a fé é devida unicamente à livre escolha e não é dada por Deus, por que oramos por aqueles que não estão dispostos a crer para que possam crer?"

(Agostinho, Sobre a Graça e a Livre Escolha, cap.29)


1. Os teístas do livre-arbítrio (ou arminianos) dizem que a fé é como uma mão vazia que agarra a oferta de salvação. A fé não é um produto da graça salvífica; antes, a graça salvífica é o resultado da fé.

Comparemos isso com Efésios 2:8:

«Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.»

Eis o que um comentador e estudioso do grego diz:

«Em grego, os eventos como um todo são tratados como coisas neutras singulares com artigos neutros (p. ex., to pisteuein, "crer"), pronomes relativos neutros (p. ex., Ef 5:5) ou pronomes demonstrativos neutros, como no v8b (também, p. ex., 6:1; 1 Co 6:6,8; Fp 1:22,28; Cl 3:20; 1 Ts 5:18; 1 Tm 2:1-3). Portanto, o antecedente de touto [isto] é o evento inteiro: "Ser salvo pela graça por meio da fé". Uma implicação desta compreensão correta de touto é que todos os componentes do evento também são referenciados como originários não da capacidade ou esforço humano, mas como um dom de Deus. Isto significa que até mesmo o ato de crer do crente vem de Deus, como é dito mais explicitamente por Paulo em outro lugar: "Porque a vós vos foi concedido, por amor de Cristo, não somente crer nele..." (Fp 1:29). Isto é parte da evidência da posição histórica do protestantismo de que a salvação é sola gratia e sola fide. Os humanos não contribuem em nada para esta salvação, já que até mesmo crer (o que os eleitos são habilitados a fazer) é um dom divino (cf. Rm 3:24-25). No contexto de Ef 2:8, a chave para “isto” é o que Paulo vem enfatizando com tanta força até aí: antes da intervenção graciosa de Deus, os crentes estavam irremediavelmente mortos, com as suas vontades aprisionadas por natureza em atos que levavam apenas à transgressão e ao pecado (2:1-5a,12).» S. M. Baugh, Ephesians (Lexham Press, 2016), 160-61.

Portanto, o dom na segunda cláusula se refere, através de touto, a "Pois pela graça sois salvos, por meio da fé". Portanto, o dom de Deus é a salvação pela graça por meio da fé. A fé está incluída no dom. A fé não é algo pelo qual os cristãos recebem o dom, mas uma parte da dotação graciosa e salvífica de Deus.

2. Por outro lado, os teístas do livre-arbítrio habitualmente dizem que para algo ser um dom, o destinatário deve poder recusá-lo. Compare-se isso com Paul and the Gift (cap. 2) de John Barclay, onde ele analisa diferentes conotações de um "dom" ou benfeitoria na antiguidade. Considere-se a sua categoria de "eficácia", onde dar dons é uma coisa poderosa, cumprindo o seu propósito - como quando os pais dão o dom da vida aos seus filhos ou alguém é resgatado da morte. Nessas situações, o destinatário está passivo e desamparado.

Adicionalmente, ele cita uma passagem de Filão enfatizando a eficácia da graça perante a passividade e inatividade humana, atribuindo tudo à soberania de Deus.

Além disso, no sistema de patrocínio do Império Romano, um poderoso benfeitor não oferece um dom, mas confere um dom.

E a dinâmica assimétrica entre superiores sociais e inferiores sociais no mundo antigo é muito mais análoga ao relacionamento entre Deus e criaturas do que presentes de aniversário e de Natal entre iguais.

O conceito eficaz de dar dons é incompatível com a graça no teísmo do livre-arbítrio, a qual é resistível e, portanto, ineficaz.

sábado, 18 de janeiro de 2025

CATOLICISMO PIRRÓNICO: A ORIGEM DO APELO AO NIILISMO EPISTÉMICO, À IRRACIONALIDADE E À OBEDIÊNCIA CEGA À AUTORIDADE NA APOLOGÉTICA CATÓLICA ROMANA

 

«Esta exploração da Contrarreforma na França tentará traçar e explicar um dos desenvolvimentos mais estranhos deste período — a aliança dos católicos mais ortodoxos com os seguidores mais céticos de Montaigne em uma cruzada comum contra o calvinismo. Alguns estudos recentes na história da teologia francesa após o Concílio de Trento apontam que as correntes predominantes da teoria católica eram principalmente negativas e agostinianas, e eram mais contra o escolasticismo, o racionalismo e o calvinismo do que por qualquer defesa intelectual sistemática e coerente da fé. O que examinarei é um lado importante deste capítulo na história intelectual que tem sido bastante negligenciado, a relação entre o renascimento da teoria cética grega, o pirronismo, e a estratégia e teoria da Contrarreforma entre muitos dos líderes dinâmicos da época….

A publicação dos escritos de um cético grego do século III d.C. em 1569 pode parecer ter pouco a ver com a ação da Contrarreforma. Mas para que não ficasse dúvidas, o tradutor e editor garantiu no seu prefácio que a ligação seria clara. Gentian Hervet, um proeminente líder católico francês, veterano do Concílio de Trento, secretário do Cardeal de Lorena e um volumoso panfletário contra os vícios e vilanias do Calvinismo, contou no seu prefácio (escrito para o seu patrão, o Cardeal de Lorena), datado de 16 de março de 1567, como ele encontrou os escritos de Sexto por acidente na biblioteca do Cardeal. Desgastado pelas suas traduções dos comentários dos padres da igreja sobre as Escrituras e pelos seus escritos polémicos, ele procurava algo divertido para ler durante uma viagem. E, vejam só, ele encontrou um manuscrito desse tesouro cético que leu com "incrível prazer". Este livro fonte do pirronismo grego mostrou a ele que nenhuma posição, nenhuma ciência humana poderia resistir ao ataque dos argumentos que podem ser propostos contra ela. A única coisa certa é a revelação de Deus para nós. Todos os modernos que tentam avaliar questões além deles pela sua razão podem ser derrubados. E este grupo inclui os pagãos modernos (chamados de Novos Académicos, provavelmente os naturalistas italianos) e os calvinistas, que, presumivelmente, tentavam teorizar sobre Deus, que só pode ser acreditado, não compreendido. Todas as teorias humanas podem ser destruídas pelo ceticismo. Ao fazer isso, somos ensinados à humildade e podemos restaurar o equilíbrio na mente dos excessos do dogmatismo e nos preparar para ceder à doutrina de Cristo.

Assim, o douto Hervet concebeu o calvinismo como mais uma forma de dogmatismo e arrogância humana, tentando compreender Deus em termos da razão mesquinha do homem. O ceticismo completo, então, que humilhará todas as pretensões racionais humanas, deve humilhar os calvinistas. Portanto, o ceticismo é a arma da Contrarreforma, e a publicação de Sexto Empírico ajudará na defesa do catolicismo ao demolir o inimigo. A verdadeira religião deve ser baseada na fé cega, e não em argumentos abertos aos ataques do antigo pirronismo.

...Esta nova e potente arma foi moldada nos colégios jesuítas no final do século XVI e início do século XVII, especialmente no Collège de Clermont e de Bordeaux. Pode-se encontrá-la em uso, no todo ou em parte, em vários escritores treinados ou a ensinar nestas instituições, como São Francisco de Sales, o Cardeal Belarmino, o Cardeal du Perron e os Padres Gontery e Veron. O objetivo do ataque é mostrar que as visões dos reformadores levam a vários dos quebra-cabeças céticos gregos clássicos, a dificuldades insolúveis, e que a fé dos reformadores é duvidosa para a qual nenhuma base segura pode ser oferecida.»

Richard H. Popkin, Skepticism and the Counter-Reformation in France, 1960.

Não nos esqueçamos da máxima ensinada pelo fundador dos jesuítas, Inácio de Loyola: «Para em tudo acertar, devemos estar sempre dispostos a que o branco, que eu vejo, acreditar que é negro, se a Igreja hierárquica assim o determina».

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

OS PRIMEIROS REFORMADORES SOBRE A CEIA DO SENHOR

 

O Consenso Tigurinus ou Consenso de Zurique foi um documento protestante escrito em 1549 por João Calvino e Heinrich Bullinger. Foi subscrito pelas igrejas reformadas da Suíça e recebido favoravelmente por Martin Bucer, Filipe Melanchthon, Pietro Martire Vermigli, pelos huguenotes na França, pela Igreja de Inglaterra e por partes da Alemanha. Entre os primeiros reformadores, o entendimento de Lutero da “consubstanciação” é fortemente idiossincrática.

Consenso Tigurinus [1]

Artigo 21. Nenhuma Presença Local Deve Ser Imaginada.

Devemos nos resguardar particularmente da ideia de qualquer presença local. Pois enquanto os sinais estão presentes neste mundo, são vistos pelos olhos e manuseados pelas mãos, Cristo, considerado como homem, não deve ser buscado em nenhum outro lugar senão no Céu, e não de outra forma senão com a mente e os olhos da fé. Portanto, é uma superstição perversa e ímpia encerrá-lo sob os elementos deste mundo.

Artigo 22. Explicação das Palavras “Isto É o Meu Corpo.”

Aqueles que insistem que as palavras formais da Ceia, “Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue,” devem ser lidas no que eles chamam de sentido precisamente literal, nós repudiamos como intérpretes absurdos. Pois nós sustentamos sem controvérsia que elas devem ser lidas figurativamente, o pão e o vinho recebem o nome daquilo que eles significam. Nem deve ser considerado algo novo ou inusitado transferir o nome de coisas figuradas por metonímia para o sinal, pois modos semelhantes de expressão ocorrem em todas as Escrituras, e ao dizer isso não afirmamos nada além do que é encontrado nos escritores mais antigos e aprovados da Igreja.

Artigo 23. Do Comer do Corpo.

Quando se diz que Cristo, ao comermos da sua carne e bebermos do seu sangue, que estão aqui simbolizados, alimenta as nossas almas através da fé pela agência do Espírito Santo, não devemos entender isso como se qualquer mistura ou transfusão de substância tivesse ocorrido, mas que extraímos vida da carne uma vez oferecida em sacrifício e do sangue derramado em expiação.

Artigo 24. Transubstanciação e Outras Tolices.

Desta forma, são refutadas não apenas a ficção dos papistas sobre a transubstanciação, mas todas as invenções grosseiras e futilidades que ou derrogam a sua glória celestial ou são em algum grau repugnantes à realidade da sua natureza humana. Pois não consideramos menos absurdo colocar Cristo sob o pão ou juntá-lo ao pão, do que transubstanciar o pão em seu corpo.

Artigo 26. Cristo Não Deve Ser Adorado no Pão.

Se não é lícito afixar Cristo em nossa imaginação ao pão e ao vinho, muito menos é lícito adorá-lo no pão. Pois, embora o pão seja apresentado a nós como um símbolo e penhor da comunhão que temos com Cristo, ainda assim, como é um sinal e não a coisa em si, e não tem a coisa incluída nele ou fixada nele, aqueles que voltam as suas mentes para ele, com o propósito de adorar a Cristo, fazem dele um ídolo.

Consensus Tigurinus, 1549, Art. 21, 22, 23, 24, 26.

[1] O nome deste documento se deve à região de Zurique, na Suíça, que tinha o nome latino de Tigurinus.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

CATOLICISMO PÓS-COLONIAL

 

É interessante comparar e contrastar Trento, Vaticano I e Vaticano II.

i) Trento foi uma ação de reação. O catolicismo pós-Reforma era como um império pós-colonial. Era o que restava do antigo império.

Quando colónias ou países satélites se separam, eles efetivamente redesenham o mapa político. As novas fronteiras do antigo império são traçadas a partir do exterior. As suas fronteiras retrocederam pela perda das suas colónias ou países satélites.

Em Trento, Roma deixou que elas fossem definidas pelos protestantes. Ela ratificou as fronteiras traçadas pelos protestantes. Roma era tudo o que os protestantes não eram, e vice-versa.

Quem primeiro ergue uma cerca traça a fronteira para ambos os lados. Quando Trento foi convocado, a Reforma era irreversível. Trento foi simplesmente um reconhecimento do novo status quo. Uma admissão de derrota. Uma acomodação forçada ao que já não podia mudar.

Trento não foi em si disruptivo. A disrupção já havia ocorrido. Em Trento, Roma estava a conter as suas perdas e a conservar o que restava.

ii) O Vaticano I foi uma viagem do ego de um só homem. Ao contrário de Trento, que era necessário, o Vaticano I foi opciomal.

Embora não tenha sido terrivelmente prejudicial, tem provado ser um embaraço para o papado. O problema é que o papa afirma ser infalível sob circunstâncias vagamente especificadas, mas ele raramente ousa exercer essa alegada prerrogativa, pois no momento em que ele faz uma proclamação "infalível" testável, ele pode refutar as suas pretensões infalibilistas.

Não é coincidência que essa prerrogativa tenha sido exercida apenas duas vezes desde o Vaticano I, e em ambas as ocasiões para proclamar dogmas confortavelmente infalsificáveis. O papa poderia muito bem emitir uma encíclica infalível sobre os hábitos de acasalamento dos unicórnios. Não seria possível refutá-la.

iii) O Vaticano II foi muito disruptivo. E, aparentemente, isso foi um erro não forçado. Não sei por que razão João XXIII o convocou, para além dos bordões sobre "aggiornamento" e "abrir as janelas para deixar entrar ar fresco".

Uma interpretação possível é que João XXIII era como Gorbachev. O seu homólogo russo entendia que o Império Soviético era militar e economicamente insustentável. Nessa situação, existem duas opções: pode simplesmente deixar-se o império desmoronar, como o Império Romano e o Império Otomano. Ou pode tomar-se a iniciativa.

De qualquer das maneiras, haverá perdas. Mas tomando a iniciativa, ter-se-á mais controle sobre o resultado. Se, por outro lado, simplesmente se esperar o império desmoronar por si mesmo, fica-se inteiramente à mercê dos acontecimentos. Outros ditarão o resultado final.

Talvez João XXIII pensasse que o paradigma tridentino/antimodernista era insustentável e quisesse saltar fora antes da inevitável rutura. Na verdade, no tempo do seu antecessor, o papado já fazia concessões táticas ao modernismo (por exemplo, Humani Generis; Divino afflante Spiritu).

Um problema com esta interpretação atraente é que João XXIII não tem a reputação de ter sido um grande pensador. Talvez, porém, o ímpeto tenha vindo de conselheiros teológicos. No próprio concílio, o modernismo estava bem representado entre um contingente de bispos influentes e seus simpatizantes. Até Joseph Ratzinger era originalmente um teólogo progressista.

Mas no Vaticano II, Roma perdeu o seu equilíbrio e ainda não se endireitou. Mas, se ela tivesse tentado manter o paradigma tridentino/antimodernista, isso teria levado à sua derrocada. Quando os alicerces são falhos, não há muito o que se possa fazer para adiar o desastre.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

DOIS FATALISMOS EM DUELO

 

Universalista: Considera-se um apologista do ateísmo?

Ateu: Sim.

Universalista: Como é que faz isso?

Ateu: Temos filósofos ateus. Um jornal ateísta. Uma editora ateísta. blogs e sites ateístas.

Existem muitas formas de transmitir a mensagem.

Universalista: Porque gasta tanto tempo e esforço a fazer proselitismo a favor do ateísmo?

Ateu: Porque é importante que as pessoas acreditem no que é verdadeiro e que vivam em conformidade com isso.

Universalista: O que aconteceu a Hitler quando morreu?

Ateu: Caiu na inexistência.

Universalista: O que aconteceu a Bonhoeffer quando morreu?

Ateu: Caiu na inexistência.

Universalista: Então, de acordo com o ateísmo, o que uma pessoa pensa ou faz nesta vida não faz absolutamente nenhuma diferença no seu destino final.

Ateu: Acho que essa é uma boa forma de colocar as coisas.

Universalista: Nesse caso, por que razão é tão importante que as pessoas acreditem no que é verdadeiro e vivam em conformidade com isso?

Ateu: Poderia fazer-lhe a mesma pergunta.

Universalista: O que quer dizer?

Ateu: Considera-se um apologista do universalismo?

Universalista: Sim.

Ateísmo: Como é que faz isso?

Universalista: Temos filósofos e estudiosos universalistas. Temos um site (Evangélico Universalista). Temos um universalista que é editor em editoras cristãs.

Existem muitas formas de transmitir a mensagem.

Ateu: Porque gasta tanto tempo e esforço a fazer proselitismo a favor do universalismo?

Universalista: Porque é importante que as pessoas acreditem no que é verdadeiro e que vivam em conformidade com isso.

Ateu: O que aconteceu a Hitler quando morreu?

Universalista: Foi para o céu.

Ateu: O que aconteceu a Bonhoeffer quando morreu?

Universalista: Foi para o céu.

Ateu: Então, de acordo com o universalismo, o que uma pessoa pensa ou faz nesta vida não faz absolutamente nenhuma diferença no seu destino final.

Universalista: Acho que essa é uma boa forma de colocar as coisas.

Ateu: Nesse caso, por que razão é tão importante que as pessoas acreditem no que é verdadeiro e vivam em conformidade com isso?

Universalista: Poderia fazer-lhe a mesma pergunta.

Ateu: Já fez.

Universalista: Uma vez que ambas as nossas posições são fatalistas, talvez pudéssemos economizar algumas despesas fundindo os nossos websites, editoras, etc.

Ateu: Isso seria mais eficiente. Os meus parceiros falarão com os seus parceiros sobre uma possível fusão.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

A PECULIARIDADE DISTINTIVA DOS ESCRITOS SAGRADOS

 

Os Padres da Igreja podem nos ensinar muitas coisas. Mas uma convicção que eles mesmos enfatizaram é que eles não eram iguais às Escrituras. Honramos os Padres da Igreja não apenas ouvindo-os, mas avaliando os seus ensinamentos à luz mais clara da Palavra de Deus.

Aqui está um exemplo de Agostinho:

«Quanto aos nossos escritos, que não são uma regra de fé ou prática, mas apenas uma ajuda para edificação, podemos supor que contêm algumas coisas que ficam aquém da verdade em assuntos obscuros e recônditos, e que esses erros podem ou não ser corrigidos em tratados posteriores... Nos inúmeros livros que foram escritos ultimamente, podemos às vezes encontrar a mesma verdade que está nas Escrituras, mas não a mesma autoridade. As Escrituras têm uma sacralidade peculiar a si mesmas. Em outros livros, o leitor pode formar a sua própria opinião e, talvez, por não entender o escritor, pode discordar dele e pode se pronunciar a favor do que lhe parece bem ou contra o que não gosta. Em tais casos, um homem tem a liberdade de reter a sua crença, a não ser que haja alguma demonstração clara ou alguma autoridade canónica para mostrar que a doutrina ou declaração deve ou pode ser verdadeira. Mas, em consequência da peculiaridade distintiva dos escritos sagrados, estamos obrigados a receber como verdadeiro tudo o que o cânon mostra ter sido dito por um profeta, apóstolo ou evangelista» (Contra Fausto 11.5).

domingo, 29 de dezembro de 2024

AROMATERAPIA

 

Eis uma outra forma de expor o princípio da Sola Scriptura:

1. A Sola Scriptura é baseada na primazia da revelação pública.

Por "pública" quero dizer a revelação divina para os cristãos em geral ou para a humanidade em geral. Não descarto a revelação privada (por exemplo, um sonho premonitório para uma pessoa), mas essa revelação não é para a igreja.

2. Nada supera a revelação. Nada está ao mesmo nível da revelação.

3. Neste momento, o único lugar em que encontramos a revelação pública é no registo das Escrituras.

4. Há a questão de como verificamos ou falsificamos uma alegada fonte de revelação. Falsificar uma alegada fonte de revelação não viola a primazia da revelação, pois, se ela é falsa, nunca foi revelação.

5. Verificar uma alegada fonte de revelação significa colocar o que usamos para verificá-la em pé de igualdade com a coisa que verificamos? Ou mesmo superá-la?

Não. Para fazer uma comparação, suponhamos que eu seja uma testemunha ocular de Jesus. Eu vi-o realizar milagres. Eu vi-o morrer na cruz. Eu vi o túmulo vazio. Eu vi-o vivo novamente. Eu toquei nele.

Estou a usar os meus sentidos naturais para verificar a Ressurreição. Mas isso não me coloca ao mesmo nível de Jesus.

6. E se os protestantes cometeram um erro sobre o cânon? E se eles incluíram um livro que deveriam excluir ou excluíram um livro que deveriam incluir? Isso anula a Sola Scriptura?

i) Para começar, as pessoas podem estar enganadas mesmo que haja evidências suficientes para acreditar numa coisa. Elas podem ter uma estrutura de plausibilidade que filtra as evidências suficientes para acreditar numa coisa. Não é a evidência, mas a estrutura de plausibilidade que é defeituosa. Considere-se os ateus que automaticamente desconsideram relatos de milagres independentemente da evidência.

ii) Suponhamos que os protestantes cometeram um erro sobre o cânon porque a evidência disponível é insuficiente. Nesse caso, por que nos deveríamos preocupar ou afligir por um erro inocente e inevitável? Ele não seria suficientemente importante para Deus nos fornecer evidências suficientes para evitar esse erro.

7. Católicos/ortodoxos podem dizer que a sua alternativa é uma proteção contra esse risco de errar. No entanto, uma falsa solução não é uma solução real. É como dizer a um paciente com cancro terminal, para quem a terapia convencional é inútil, para mudar para a aromaterapia ou a medicina tradicional chinesa. Católicos e ortodoxos estão na mesma situação epistémica que os protestantes. Eles apenas disfarçam a situação.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

A ESCATOLOGIA DA IGREJA PRIMITIVA


A opinião largamente maioritária que vemos na igreja primitiva era que o mundo duraria 6000 anos desde a criação e então haveria um reinado de Cristo literal de 1000 anos, seguido pelos novos céus e nova terra (o 8º dia). Vemos isto na Epístola de Barnabé, Ireneu, Justino Mártir, Lactâncio, Papias e Hipólito, que disseram que a construção do terceiro templo significaria o fim do tempo presente e o começo iminente do reinado milenar de Cristo.

«O ponto mais marcante na escatologia do período anteniceno é o proeminente quiliasmo, ou milenarismo, que é a crença num reino visível de Cristo em glória na terra com os santos ressuscitados por mil anos, antes da ressurreição geral e do juízo final. Ele, na verdade, não era a doutrina da igreja incorporada em algum credo ou forma de devoção, mas uma opinião amplamente corrente de mestres ilustres, como Barnabé, Papias, Justino Mártir, Ireneu, Tertuliano, Metódio e Lactâncio.» (Philip Schaff, History of the Christian Church, VIII vols. (Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1973), vol. II, p. 614).

No entanto, é preciso qualificar que no Diálogo com Trifão, Justino, embora assuma a posição quiliasta, admite que há muitos com opiniões diferentes, que são, ainda assim, cristãos verdadeiros e ortodoxos. Portanto, temos alguma evidência de uma alternativa ao quiliasmo já no início do século II. Também temos a doutrina amilenista explícita em Clemente e Orígenes, que provavelmente foram os seus inventores.

Isto não pretende ser um argumento acerca da verdade ou falsidade da doutrina quiliasta, mas é apenas um apontamento histórico. Sou agnóstico sobre o que acontecerá em detalhe após a segunda vinda de Cristo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

A LEI E A GRAÇA

 

«Todos, então, que correm para Cristo são salvos pela sua graça e aproveitam o seu dom. Mas aqueles que desejam encontrar justificação na Lei também cairão da graça. Não poderão desfrutar da benevolência do Rei porque estão a esforçar-se para ganhar a salvação pelos seus próprios esforços; atrairão sobre si a maldição da Lei porque nenhuma carne encontrará justificação pelas obras da Lei. Por isso Paulo diz: “Se fores circuncidado, Cristo não terá nenhuma vantagem para ti”. Pois o homem que se esforça para ganhar a salvação pelas obras das Leis nada tem em comum com a graça. Isto é o que Paulo sugeriu quando disse: “Se é por graça, então não é em virtude das obras; de outra forma, a graça não é mais graça. Mas se é por obras, já não é mais graça: de outra forma, a obra não é mais obra”. E ainda: “Se a justiça vem da lei, então Cristo morreu em vão”. E ainda: “Vós que vos justificais na Lei caístes da graça”. Morrestes para a Lei, tornaste-vos um cadáver; doravante já não estais sob o seu jugo, já não estais sujeitos à sua necessidade. Por que razão, então, se esforçam por criar problemas a vós próprios, quando tudo é inútil e em vão?» (João Crisóstomo, Contra os Judeus. Homilia 2, II)

«O que ele quer dizer quando diz: 'Eu declarei a tua justiça?' Ele não disse simplesmente: 'Eu dei', 'Eu declarei'. O que isso significa? Que ele justificou a nossa raça não por ações corretas, nem por labutas, não por trocas e escambos, mas somente pela graça. Paulo também deixou isso claro quando disse: 'Mas agora a justiça de Deus se manifestou independentemente da Lei.' Mas a justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo e não por qualquer trabalho e sofrimento. E Paulo retomou o testemunho deste Salmo quando falou o seguinte: 'Pois a Lei, tendo apenas uma sombra dos bens vindouros, e não a imagem exata das coisas, não pode nunca pelos sacrifícios que se oferecem continuamente, ano após ano, aperfeiçoar aqueles que se aproximam. Por isso, ao vir ao mundo, ele diz: 'Sacrifício e oblação não quiseste, mas um corpo me preparaste.'» (João Crisóstomo, Contra os Judeus. Homilia 7, III,2)

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Justificação pela Fé: uma Doutrina Patrística

 

Este ensaio desafia as críticas geralmente dirigidas aos primeiros Padres anteriores a Agostinho por não articularem uma visão da justificação pela fé que correspondesse ao cristianismo paulino, conforme refletido nas fórmulas dos reformadores do século XVI. Não apenas essa visão é anacrónica e tende a assumir que havia (ou há) uma definição uniforme de justificação, como também há evidência de que a teologia latina antes de Agostinho promulgou os princípios da graça imerecida e da necessidade de justiça que vem somente por meio da fé justificadora. Em particular, o comentário sobre Mateus de Hilário de Poitiers formula explicitamente uma teologia bíblica de 'fides sola iustificat' e provavelmente contribuiu para um renascimento do interesse nas Epístolas Paulinas no final do século IV e início do século V.

https://www.academia.edu/90613266/Justification_by_Faith_a_Patristic_Doctrine?source=swp_share

domingo, 17 de novembro de 2024

ESTÁ CONSUMADO!


As Escrituras são claras ao dizer que não há nenhum sacrifício contínuo e nem pode haver. A expiação de Jesus é final e completa. Não há outro sacrifício pelos pecados. Ele não precisa de nenhuma continuação, repetição ou suplementação.

A irrepetibilidade do sacrifício de cristo, seja de forma cruenta ou incruenta

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

OS NOSSOS PECADOS FORAM IMPUTADOS A CRISTO? SOMOS CULPADOS PELO PECADO DE ADÃO?

 

Há uma diferença moralmente significativa entre imputar a culpa a um inocente e imputar a justiça a um culpado. A primeira é uma aberração moral, mas a segunda pode ser um ato de altruísmo. Por isso, a doutrina sustentada pela Igreja Católica Romana e algumas Igrejas Protestantes de que todos os seres humanos carregam a culpa do pecado original cometido por Adão e Eva é moralmente indefensável e nem há rasto dela na Bíblia.

A consequência do primeiro pecado foi separar Deus da raça humana, quebrar a comunhão que existia entre Deus e os homens. Não a imputação da culpa desse primeiro pecado a todos os descendentes de Adão e Eva. Apenas somos culpados pelos nossos pecados pessoais.

Da mesma forma, os nossos pecados não foram imputados a Cristo, de outra forma assim como nos tornamos justos pela imputação da justiça de Cristo, Cristo se tornaria culpado pela imputação da nossa culpa nele. E, por conseguinte, deixaria de poder fazer qualquer obra de expiação a nosso favor. O cordeiro expiatório precisa de ser puro e imaculado para poder expiar pecados alheios.

O que Cristo fez na cruz foi pagar a pena que nós merecíamos pelos nossos pecados para nos reconciliar com Deus que é um justo juiz, portanto um ato altruísta de substituição penal. O justo pagou pelos injustos. Cristo foi feito justiça para nós pela imputação da sua justiça em nós, sem qualquer imputação da nossa culpa nele.

QUANTAS VEZES O PAPA FALOU INFALIVELMENTE EX CATHEDRA?

 A discussão continua acesa nas hostes romanas.


A infalibilidade papal é como um relógio avariado. Todos os dias marca a hora certa, não se sabe é quando.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

SOLA SCRIPTURA NÃO É ESCRITURALISMO

 

Não se viola a Sola Scriptura, afirmando que existem verdades que podem ser encontradas fora das Escrituras, mas alegando que existem palavras extra-bíblicas que têm a mesma autoridade que as Escrituras, ou superior.

E em momentos de revelação pública ou na segunda vinda de Cristo não há mal nenhum em violar a Sola Scriptura. Isso não representa uma inconsistência do princípio. A aplicação do princípio está condicionada há verificação de um contexto específico. Fora desse contexto o princípio consistentemente não se aplica.

FÉ E FIDEÍSMO

 

A fé bíblica não é fideísmo “crença na ausência de evidências”; pelo contrário, é uma confiança sustentada em evidências suficientes.

sábado, 2 de novembro de 2024

LIVRE EXAME NA IGREJA PRIMITIVA

 

«Na narrativa de Agostinho sobre sua própria experiência de conversão no jardim em Milão, ele diz que no banco daquele jardim havia um códice das Epístolas de Paulo, e que foi isso que ele leu quando ouviu as famosas palavras, “Pega e lê.” Assim, no cerne da experiência de conversão de Agostinho, e portanto de sua vida devocional, estava a leitura privada das Escrituras – embora não devamos esquecer que tal leitura era normalmente feita em voz alta, e que Agostinho ficou surpreso quando viu Ambrósio lendo sem pronunciar o que lia. Da mesma forma, Crisóstomo, Jerónimo e muitos outros repetidamente incentivam os seus ouvintes a ler a Bíblia – em vários casos, a ler em casa

(Justo L. González, The Bible in the Early Church, Eerdmans, 2022).

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

DRÁCULA À SOLTA

 

L'Osservatore Romano

A noite de Halloween acordou o conde Drácula do seu descanso milenar. Drácula deixou um rastro de vítimas exsanguinadas na Polónia, Espanha, França, Itália e Irlanda. A polícia não o consegue apanhar pelo facto de Drácula ser um mutante. Para além disso, ele é invisível às câmeras de segurança. Tudo isso o torna extremamente esquivo.

As autoridades da igreja tiveram mais sucesso em afugentá-lo, mas com efeitos desmoralizadores. As técnicas usuais se mostraram ineficazes, tendo o conde Drácula conseguido exsanguinar os melhores caçadores de vampiros da igreja.

A razão é que os caçadores de vampiros católicos não têm nada para usar contra o conde Drácula, já que ele é ortodoxo romeno. Uma cruz latina ou crucifixo latino é ineficaz. Eles precisam de usar uma cruz bizantina. Fazer o sinal da cruz é ineficaz porque os caçadores de vampiros católicos cruzam a mão ao contrário: da esquerda para a direita em vez da direita para a esquerda. Água benta é ineficaz porque os caçadores de vampiros católicos professam o Filioque, invalidando assim o sacramental. O Vaticano está em negociações com o Patriarca Ecuménico para enviar caçadores de vampiros ortodoxos romenos para o Ocidente, mas o Patriarca Ecuménico exigiu que o Papa volte para a Igreja Mãe antes de autorizar tal ação.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

ALHOS E BUGALHOS

 

Quando se fala em “Protestantismo” ou “igrejas protestantes” está-se a falar de uma categoria doutrinal (mais comum) ou uma categoria histórica.

Quando “Protestantismo” significa um conjunto de doutrinas associadas à Reforma Protestante partilhadas por um conjunto de igrejas, estamos perante uma categoria doutrinal.

Quando “Protestantismo” significa igrejas ligadas historicamente à Reforma Protestante estamos a falar de uma categoria histórica.

Se se pretende comparar uma característica eclesial de uma igreja, por exemplo, “a unidade da Igreja Católica Romana”, não se pode comparar com “a unidade do Protestantismo” porque Protestantismo não é uma categoria eclesial mas doutrinal. É como comparar a unidade da Igreja Católica Romana com a unidade de um conjunto de doutrinas que caracterizam “Protestantismo”. É portanto uma comparação sem sentido.

“A unidade da Igreja Católica Romana” tem que se comparar com outra categoria eclesiástica concreta como “a unidade da Igreja Batista”, “da Igreja Presbiteriana”, “da Igreja Luterana”, “da Igreja Anglicana”, “da Igreja Ortodoxa”, "da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, “das Testemunhas de Jeová”, etc.

A unidade institucional da Igreja Católica compara com a unidade institucional de outra instituição eclesiástica.

“Protestantismo” não é uma instituição eclesiástica. “Protestantismo” compara com “Catolicismo”, isto é, doutrinas protestantes com doutrinas católicas.

Características eclesiais de uma igreja concreta compara com características eclesiais de outras igrejas concretas. Tem que se comparar alhos com alhos e bugalhos com bugalhos. Não alhos com bugalhos.

domingo, 20 de outubro de 2024

O QUE É UM CONCÍLIO ECUMÉNICO?

 

Richard Price, historiador católico romano, responde. Numa entrevista no Youtube, ao minuto 1:47, um entrevistador pergunta: "O que é exatamente um concílio ecuménico? Essa tende a ser uma pergunta bastante comum e um tanto difícil de responder. Qual a sua opinião sobre isso?" Price responde:

«A resposta católica padrão é que é um concílio de todos os bispos da igreja. Ora bem, o problema com isso é se realmente aprofundar isso, já houve algum concílio ecuménico? Os concílios católicos recentes foram apenas concílios da igreja católica. E se recuarmos aos primeiros - os famosos sete concílios ecuménicos - de Niceia I a Niceia II – esses concílios realmente representavam toda a igreja? Quase não havia nenhuma representação de fora do território do império romano - da Pérsia ou do sul da Etiópia. E eu penso que se poderia, na verdade, dizer que as igrejas ocidentais não estavam representadas.

Agora, alguém diz: "Sim, claro que estavam, porque havia representantes do papa em todos esses concílios." Mas eles não estavam lá para representar todas as igrejas ocidentais, mas para representar o papa, que era - até o cisma - considerado o bispo número um da igreja.

Então, o que os tornava ecuménicos? Bem, a resposta é que eles eram concílios imperiais, convocados pelo imperador em Constantinopla. Desde o tempo de Constantino, o Grande, era um tema constante que Deus fez do imperador romano-bizantino seu representante na Terra. E tão tarde quanto 1400, quando o Grão-Príncipe Basílio de Moscovo disse: "Temos uma igreja, mas não um imperador", o patriarca António de Constantinopla escreveu-lhe, dizendo: "Isso não é verdade. O imperador de Constantinopla é o imperador de todos os cristãos. É verdade que a maioria deles não reconhece isso, mas é isso que ele é por nomeação divina."

E há uma expressão extraordinária que era usada - certamente no século VII - que dizia que Deus é co-governante juntamente com o imperador - não o contrário - Deus é co-governante com o imperador, porque o imperador é o representante de Deus na Terra. 

Os Concílios tinham que ser convocados pelo imperador, e os seus decretos não tinham força até que o imperador os emitisse como leis imperiais. E isso era a coisa decisiva que os tornava ecuménicos e com autoridade total. Não só os imperadores tinham esse papel significativo no que diz respeito à convocação de concílios e à concessão de autoridade aos seus decretos, como também vemos em muitos desses concílios que os imperadores exerciam uma influência muito forte, de tal maneira que às vezes ditavam aos bispos o que os próprios bispos não escolheriam.»

Não se confunda, pois, História da Igreja com História da Igreja oficial do Império Romano e do Papado.

Uma transcrição maior da entrevista pode ser encontrada aqui https://unapologetica.blogspot.com/2024/07/church-history-and-apologetics.html

domingo, 13 de outubro de 2024

ENQUANTO O MUNDO DORMIA

 

26 E dizia: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente à terra. 27 E dormisse, e se levantasse de noite ou de dia, e a semente brotasse e crescesse, não sabendo ele como. 28 Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga. 29 E, quando já o fruto se mostra, mete-se-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa. (Marcos 4:26-29)

Antes de a sua reputação ficar manchada pelo escândalo dos abusos clericais, a igreja católica dominava o cenário mundial. Ela costumava ser um importante player na geopolítica. Nisso residia muito de seu apelo para muitos. Se Jesus fundou uma igreja universal, certamente é assim que ela se deve parecer. Grande, conspícua, disseminada. Comparadas a isso, as denominações protestantes parecem provincianas e fragmentadas.

Isso encaixa na alegação dos apologistas católicos de que Jesus fundou uma igreja visível (ou seja, uma organização hierárquica unificada). Ela tem um chefe visível (o papa).

Mas compare-se isso com a parábola do reino de Deus sobre a semente crescendo à noite. Nesse sentido, o reino de Deus é invisível. Ele cresce à noite enquanto o agricultor dorme. Ele cresce à noite enquanto o mundo dorme. Nos Sinóticos, a igreja e o reino de Deus são categorias intimamente relacionadas.

Nesse sentido, a igreja representa uma revolução silenciosa. Ela cresce e se espalha sob o manto da escuridão. O mundo é apanhado de surpresa. A igreja escapa da atenção do mundo até que de repente se torna evidente. A igreja cria raízes e se espalha onde o mundo menos suspeita. Considere-se a igreja clandestina na China. Considere-se o avivamento cristão no coração do mundo muçulmano, devido a sonhos e visões de Jesus. Considere-se como o movimento pentecostal varreu a América Latina.

Nesse sentido, a visibilidade mundial da igreja católica é a antítese do reino de Deus. O progresso do reino é inesperado e imprevisível. Ele acontece em lugares para onde ninguém está a olhar. A universalidade da igreja não é encontrada nos sinais de néon do catolicismo romano, mas em sítios surpreendentes. Em esquinas e lugares escondidos que o mundo despreza até que seja tarde demais para ignorar.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

O QUE A ERUDIÇÃO MODERNA DIZ A RESPEITO DAS RAÍZES HISTÓRICAS DO BATISMO INFANTIL?

A erudição moderna é da opinião de que o batismo infantil não foi uma prática dos apóstolos. Esta opinião tem sido seguida por muitos teólogos pedobatistas. O batismo de infantes teria sua origem nos filhos de cristãos que corriam risco de vida.  O estudioso luterano pedobatista H.A.W. Meyer diz:

«O batismo dos filhos de cristãos, do qual nenhum vestígio é encontrado no N.T, não deve ser considerado uma ordenança apostólica, pois, na verdade, encontrou imediata e longa resistência; mas é uma instituição da igreja, que surgiu gradualmente nos tempos pós-apostólicos em conexão ao desenvolvimento da vida eclesiástica e do ensino doutrinário. Certamente não foi observado antes de Tertuliano, e por ele ainda foi decididamente combatido. Embora defendido por Cipriano, só se tornou uma prática generalizada após o tempo de Agostinho...» (Commentary on Acts [16:15], New York: Funk & Wagnalls, 1883, p. 312).

O erudito patrístico David F. Wright é um exemplo dessa tendência da erudição moderna:

«Vimos, nesta exposição principalmente atendendo aos textos do desenvolvimento batismal ocidental, uma mudança verdadeiramente enorme na história da igreja de Cristo. De uma corporação que recrutava por resposta intencional ao imperativo do evangelho para o discipulado e o batismo, tornou-se uma sociedade em que se entrava por inscrição desde o nascimento. Foi indiscutivelmente uma das maiores mudanças na história do cristianismo. Ela levou, como vimos, à formação da cristandade, compreendendo um império cristão, nações ou povos cristãos. O cristianismo tornou-se uma questão de hereditariedade e não de decisão pessoal. As famosas e reveladoras palavras de Tertuliano "fiunt, non nascuntur, Christiani" - "Ninguém nasce cristão, mas torna-se cristão", foram viradas do avesso» (What Has Infant Baptism Done To Baptism? (England: Paternoster Press, 2005), p. 74).

Wright ainda diz sobre os credos ecuménicos:

«O único credo ecuménico a mencionar o batismo é o niceno (nenhum menciona a eucaristia) na frase "um batismo para a remissão dos pecados". Defendi em outro lugar que isso originalmente não podia abranger os bebés, porque nos círculos em que este credo surgiu, para ser aprovado no Concílio de Constantinopla em 381 (se aceitarmos o testemunho dos Padres no Concílio de Calcedónia, setenta anos depois, como a maioria dos eruditos faz), acreditava-se que os bebés recém-nascidos não tinham pecados» (Ibid., p. 93).

E continua:

«Peter Leithart afirmou recentemente que "a igreja foi salva da teologia e prática batista por Agostinho de Hipona". Se “batista” aqui implica a rejeição do batismo infantil, essa afirmação temerária é um exagero, mas dentro de limites perdoáveis (...) Para Leithart "o facto notável sobre o batismo na igreja primitiva é que o batismo infantil emergiu... como a prática dominante da Igreja". Esta não é a maneira como a história geralmente é contada! Na verdade, é bastante enganador ver a época dos padres simplesmente como uma era de batismo infantil. De facto, dos indivíduos conhecidos daqueles séculos que tinham pais cristãos e foram batizados em datas conhecidas, a grande maioria foi batizada com base na profissão de fé (...) Como Leithart resume de forma útil: "as primeiras liturgias batismais (...) foram construídas sobre pressupostos batistas, mesmo quando as crianças eram incluídas" (...) Leithart não consegue tirar a conclusão óbvia desta evidência - o batismo infantil nunca pode ter sido a norma neste período inicial (...) A época do longo reinado do batismo infantil se prolonga desde o início do período medieval, a partir do século VI, isto é, depois de Agostinho de Hipona, que morreu em 430. Foi ele quem forneceu a teologia que levou o batismo infantil a se tornar uma prática geral pela primeira vez na história da igreja...» (Ibid., pp. 4-6, 8, n. 7 na p. 8, 12, 17).

O estudioso Anthony Lane expressa uma opinião peculiar:

«A situação nos primeiros séculos foi de que as duas formas de batismo existiram lado a lado, tanto por causa do grande afluxo de conversos quanto porque nem todos os cristãos traziam seus bebés ao batismo. A "dupla prática" de permitir aos cristãos a escolha de batizar ou não os seus filhos, e se sim em que idade, pode parecer hoje a muitos confusa e sem princípios. Mas o facto claro é que tal variedade de práticas existia nos séculos III e IV e ninguém levantou qualquer objeção de princípio contra ela. Na verdade, pode-se argumentar com este facto que é muito provável que tal aceitação de variedade remonta aos tempos apostólicos» (Ibid., p. 7-8).

Everett Ferguson – autor do estudo mais detalhado sobre o tema – escreve:

«Há concordância geral de que não há evidências sólidas do batismo infantil antes da última parte do século II (...) A explicação mais plausível para a origem do batismo infantil é encontrada no batismo de emergência de crianças doentes que se esperava que morressem em breve, de modo a garantir a entrada no reino dos céus» (Baptism in the Early Church, Grand Rapids, 2009, p. 856).

A respeito do período em que o batismo infantil se tornou dominante:

«[O Batismo infantil] era geralmente aceite, mas questionamentos continuaram a ser levantados sobre a sua propriedade até o século V. Tornou-se a prática habitual nos séculos V e VI» (p. 857).

Mesmo os eruditos pedobatistas tendem a afirmar que o batismo infantil não é uma prática que remonta aos apóstolos. A primeira evidência patrística favorável é em meados do século III (Orígenes e Cipriano). Em todo o caso, o consenso sugere que o batismo infantil começou a ser praticado com crianças no leito de morte e até o século V não havia qualquer posição dogmática a respeito. Por isso, era usual que mesmo os filhos de pais cristãos tivessem o batismo adiado. O batismo infantil tornou-se prática generalizada apenas nos séculos V e VI. Os defensores do batismo infantil costumam apontar para a história como o argumento decisivo em favor de sua posição. No entanto, concluímos que a história oferece mais problemas do que apoio à posição pedobatista.


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