Existe uma
linha muito ténue - e frequentemente cruzada - entre o legítimo revisionismo académico (que busca
precisão factual) e o negacionismo ou
apologismo desonesto (que usa esses factos para validar o
injustificável).
Quando o
revisionismo deixa de ser uma ferramenta de análise para se tornar uma
ferramenta de propaganda, ele utiliza várias falácias perigosas. Aqui está uma
crítica direta a essas táticas:
1. A Falácia da "Comparação Suavizadora"
Um argumento
comum é dizer: "A Inquisição matou menos que os protestantes ou que a
Revolução Francesa".
Isto é um whataboutism
(falácia da distração). O facto de outros regimes terem sido brutais não reduz
a brutalidade da Inquisição. A morte de uma pessoa por delito de opinião
continua a ser uma atrocidade, independentemente de haver vizinhos a matar dez.
Usar estatísticas para minimizar o sofrimento humano é uma forma de
desumanização estatística.
2. A Falácia do "Tribunal Moderno e Justo"
Alguns
apologistas afirmam que a Inquisição era "preferível aos tribunais
civis" porque tinha advogados e regras.
Isto ignora a natureza
do crime. Não importa se o processo é "organizado" se o que está
a ser julgado é o pensamento, a ascendência étnica (no caso dos cristãos-novos)
ou a prática religiosa privada. Um sistema jurídico "eficiente"
dedicado a uma causa injusta é, na verdade, mais perigoso do que um sistema
caótico, pois dá uma aparência de legitimidade e santidade à opressão.
3. O Uso Seletivo de Fontes (Cerejismo)
Muitos
defensores modernos da inquisição citam apenas os manuais de inquisidores que
pediam "moderação", ignorando os relatos das vítimas e os efeitos de
longo prazo nas sociedades.
É desonesto
focar na "teoria" do manual e ignorar a "prática" do
terror. O medo da denúncia anónima e o confisco de bens eram pilares do sistema
que destruíam famílias inteiras, mesmo quando não havia execução. O
revisionismo desonesto apaga o trauma geracional e o clima de suspeição
que a Inquisição instalou em países como Portugal e Espanha.
Esta abordagem
ignora deliberadamente que um manual de instruções não é um retrato fiel da
realidade vivida nas masmorras, servindo muitas vezes apenas como uma máscara
burocrática para a arbitrariedade. Ao tratar normas processuais como se fossem
a prática quotidiana, estes apologistas ocultam a cultura de delação e o estado
de vigilância constante que sufocaram o pensamento crítico e a liberdade
religiosa por séculos.
4. A Falácia do Relativismo Cultural Extremo
O argumento de
que "eram os valores da época" é frequentemente esticado para
impedir qualquer julgamento moral.
Embora o
contexto histórico seja vital para a compreensão, ele não é um atestado de
inocência
para os inquisidores. Mesmo naquelas épocas, havia vozes críticas,
humanistas e vítimas que reconheciam a injustiça do sistema. Tratar a
Inquisição como uma "necessidade social inevitável" é ignorar que ela
foi uma escolha política e institucional para manter o poder através do medo.
Onde o Revisionismo se torna Desonestidade
O revisionismo
torna-se desonesto quando tenta transformar o inquisidor de carrasco em
burocrata incompreendido.
A verdade
histórica exige um equilíbrio difícil:
1) Reconhecer
que a "Lenda Negra" exagerou números para fins políticos.
2) Mas manter a
firmeza moral de que a Inquisição foi um sistema de terrorismo de
Estado e religioso que violou a dignidade humana de forma sistemática.
Limpar os números não limpa o sangue, nem apaga a vergonha de uma instituição que usou o nome de Deus para policiar o espírito humano.

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