18 de abril de 2026

COMO COMBATER O NEGACIONISMO DA INQUISIÇÃO

 

Existe uma linha muito ténue - e frequentemente cruzada - entre o legítimo revisionismo académico (que busca precisão factual) e o negacionismo ou apologismo desonesto (que usa esses factos para validar o injustificável).

Quando o revisionismo deixa de ser uma ferramenta de análise para se tornar uma ferramenta de propaganda, ele utiliza várias falácias perigosas. Aqui está uma crítica direta a essas táticas:

1. A Falácia da "Comparação Suavizadora"

Um argumento comum é dizer: "A Inquisição matou menos que os protestantes ou que a Revolução Francesa".

Isto é um whataboutism (falácia da distração). O facto de outros regimes terem sido brutais não reduz a brutalidade da Inquisição. A morte de uma pessoa por delito de opinião continua a ser uma atrocidade, independentemente de haver vizinhos a matar dez. Usar estatísticas para minimizar o sofrimento humano é uma forma de desumanização estatística.

2. A Falácia do "Tribunal Moderno e Justo"

Alguns apologistas afirmam que a Inquisição era "preferível aos tribunais civis" porque tinha advogados e regras.

Isto ignora a natureza do crime. Não importa se o processo é "organizado" se o que está a ser julgado é o pensamento, a ascendência étnica (no caso dos cristãos-novos) ou a prática religiosa privada. Um sistema jurídico "eficiente" dedicado a uma causa injusta é, na verdade, mais perigoso do que um sistema caótico, pois dá uma aparência de legitimidade e santidade à opressão.

3. O Uso Seletivo de Fontes (Cerejismo)

Muitos defensores modernos da inquisição citam apenas os manuais de inquisidores que pediam "moderação", ignorando os relatos das vítimas e os efeitos de longo prazo nas sociedades.

É desonesto focar na "teoria" do manual e ignorar a "prática" do terror. O medo da denúncia anónima e o confisco de bens eram pilares do sistema que destruíam famílias inteiras, mesmo quando não havia execução. O revisionismo desonesto apaga o trauma geracional e o clima de suspeição que a Inquisição instalou em países como Portugal e Espanha.

Esta abordagem ignora deliberadamente que um manual de instruções não é um retrato fiel da realidade vivida nas masmorras, servindo muitas vezes apenas como uma máscara burocrática para a arbitrariedade. Ao tratar normas processuais como se fossem a prática quotidiana, estes apologistas ocultam a cultura de delação e o estado de vigilância constante que sufocaram o pensamento crítico e a liberdade religiosa por séculos.

4. A Falácia do Relativismo Cultural Extremo

O argumento de que "eram os valores da época" é frequentemente esticado para impedir qualquer julgamento moral.

Embora o contexto histórico seja vital para a compreensão, ele não é um atestado de inocência para os inquisidores. Mesmo naquelas épocas, havia vozes críticas, humanistas e vítimas que reconheciam a injustiça do sistema. Tratar a Inquisição como uma "necessidade social inevitável" é ignorar que ela foi uma escolha política e institucional para manter o poder através do medo.

Onde o Revisionismo se torna Desonestidade

O revisionismo torna-se desonesto quando tenta transformar o inquisidor de carrasco em burocrata incompreendido.

A verdade histórica exige um equilíbrio difícil:

1) Reconhecer que a "Lenda Negra" exagerou números para fins políticos.

2) Mas manter a firmeza moral de que a Inquisição foi um sistema de terrorismo de Estado e religioso que violou a dignidade humana de forma sistemática.

Limpar os números não limpa o sangue, nem apaga a vergonha de uma instituição que usou o nome de Deus para policiar o espírito humano.

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