Como notámos anteriormente, existe um outro tipo de desacordo que cria problemas interpretativos complexos. Este é subtil, pois pode não surgir apenas de um estudo superficial do texto ou da literatura académica recente.
Por
um lado, um levantamento da erudição mais recente sobre João 3:3-5 mostrará um
consenso razoável que rejeita a visão de que o novo nascimento que Jesus exige
em 3:3,5 se refere (pelo menos no contexto do Jesus histórico) ao rito cristão
do batismo. Por outro lado, a maioria dos padres da Igreja e outros
comentadores ao longo da história acreditaram firmemente que, se não Jesus,
então certamente João Evangelista pretendia referir-se ao batismo com água
nestes dois versículos. Dito de outra forma, os autores patrísticos parecem
frequentemente atribuir às personagens bíblicas interpretações que só poderiam
ter-se desenvolvido mais tarde, sem diferenciar os dois períodos de tempo.
Se
intérpretes ortodoxos de destaque em épocas passadas chegaram a conclusões
diferentes das nossas hoje, isso não se deve a inferioridade intelectual ou
falta de disciplina. Tem mais que ver, muitas vezes, com a falta de ferramentas
literárias desenvolvidas e de acessibilidade a informações abrangentes no grau
que agora desfrutamos.
No
caso de João 3:3,5 sobre o “nascer de novo” (ou “do alto”), o advento e a
prática crescente tanto da crítica histórico-cultural como da crítica literária
foram os catalisadores primordiais que encorajaram os intérpretes
contemporâneos a optar contra a compreensão de gennethe anothen como uma
referência ao batismo. Quando um intérprete lê o texto no seu contexto original
como um resumo preciso de uma conversa histórica que teve lugar entre Jesus e
Nicodemos, o batismo torna-se uma possibilidade menos provável.
O
contexto imediato da conversa de Jesus com Nicodemos torna difícil sustentar
uma interpretação batismal do texto. Embora seja verdade que, na altura em que
João escreveu a sua narrativa do Evangelho, muito provavelmente na década de
90, o rito do batismo cristão fosse bem reconhecido, esse não era ainda o caso
durante a vida de Jesus. Nos Evangelhos, os discípulos de Jesus não são
comissionados a batizar, no sentido cristão pleno, até à Grande Comissão após a
sua morte e ressurreição (Mt 28:19-20). Além disso, não há provas conclusivas
de que o batismo de João Batista fosse tão conhecido que uma simples referência
à água teria trazido imagens do batismo de arrependimento de João a qualquer
das personagens na narrativa. Em 4:1-3, tomamos conhecimento de um ministério
de batismo sob Jesus, mas ainda não chegámos a esse ponto da narrativa em
3:3-5. Se um discurso sobre a necessidade do batismo for o objetivo final do
evangelista, então “esta parte do relato, pelo menos, torna-se uma ficção
narrativa concebida para instruir a igreja [i.e., numa data posterior] sobre a
importância do batismo”. Isto tornaria João, em última análise, num contador de
histórias confuso, na medida em que, alguns versículos mais à frente na
conversa (3:10), Jesus repreende Nicodemos por não compreender algo que ele não
poderia compreender de forma alguma. Contudo, “nascer da água e do Espírito”
poderia muito facilmente levar Nicodemos, que era bem versado nas Escrituras
Hebraicas, a recordar Ezequiel 36:25-27.
C. Blomberg, A Handbook of New Testament Exegesis (Baker 2010), 188-90.

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