Um dos melhores livros sobre as origens históricas do cânon dos quatro evangelhos é Who Chose The Gospels? (Quem Escolheu os Evangelhos?), de C.E. Hill (New York: Oxford University Press, 2010). As passagens que cito a seguir representam apenas uma pequena parcela da vasta evidência apresentada pelo autor:
«Nas últimas
duas ou três décadas do século II, Ireneu na Gália, Clemente em Alexandria,
Teófilo e Serapião em Antioquia, e o autor do Fragmento Muratoriano em Roma ou
nas suas proximidades - em pontos muito distantes uns dos outros no mapa -
afirmam ou sugerem, todos, que a igreja possui os mesmos quatro Evangelhos
reconhecidos...
Não é,
portanto, sem razão que Perkins vê o Apócrifo de Tiago [um documento
herético anti-ortodoxo escrito entre o início e meados do século II] como um
exemplo "da influência crescente dos Evangelhos canónicos". Ele assume a aceitação prévia de, provavelmente, todos os quatro Evangelhos e
não contesta a tradição de que estes remontam aos discípulos originais de
Jesus. Simplesmente trata esses Evangelhos como inadequados...
E não se pode
esquecer o facto de que os opositores do "cristianismo apostólico"
geralmente concediam que a sua fé era realmente "apostólica". O Evangelho
de Judas, por exemplo, escreve DeConick, "tenta atacar o cristianismo
apostólico pela sua dependência cega da autoridade dos doze apóstolos para os
seus ensinamentos". Nem os opositores normalmente disputavam a ideia de
que os quatro Evangelhos remontavam, em última instância, aos apóstolos de
Jesus. Como vimos nos capítulos 7 e 8, alguns dos testemunhos mais marcantes a
favor dos quatro Evangelhos, e de outras partes do Novo Testamento, provêm de
fora do cristianismo apostólico. A maioria, se não todos, os evangelhos rivais
conhecidos, bem como outras obras pseudepigráficas, pressupõem, em maior ou
menor grau, o testemunho dos Evangelhos canónicos. Críticos pagãos do
cristianismo, como Celso, quando dedicavam tempo a ler as fontes cristãs, recorriam
aos mesmos Evangelhos canónicos, os quais Celso, pelo menos, aceitava como
tendo sido escritos pelos discípulos de Jesus...
Contudo, de um modo geral, os apóstolos de Jesus podiam ser tratados [pelos hereges] simplesmente como noviços espirituais, ou algo muito menos elogioso. Pois o recurso supremo entre grupos como estes era, tipicamente, um professado "conhecimento secreto", superior ao ensino público e comumente recebido dos apóstolos (cf. Ireneu, AH 3.2.1). O Evangelho de Tomé começa: "Estas são as palavras secretas que Jesus, o vivente, falou e que Dídimo Judas Tomé registou." O Evangelho de Judas começa: "O discurso revelatório secreto no qual Jesus falou com Judas Iscariotes." O recurso persistente a ensinamentos secretos de Jesus, dados a um ou outro dos apóstolos, é uma admissão tácita de que não se podia obter muito apoio [para as crenças heréticas] a partir dos seus ensinamentos públicos reconhecidos.» (pp. 99, 169, 234-235)
Em síntese, o autor defende que ninguém “escolheu” os Evangelhos; a igreja simplesmente recebeu e reconheceu os quatro livros por causa da sua ligação única com os apóstolos (Mateus e João) ou com os seus colaboradores (Marcos e Lucas). Citando Bruce Metzger, os quatro Evangelhos “impuseram-se como canónicos à igreja” e não foram impostos por qualquer decreto político ou eclesiástico tardio.
Na primeira metade do século II, os quatro Evangelhos - Mateus, Marcos, Lucas e João - já circulavam como uma coleção separada de livros entre as comunidades cristãs primitivas, sendo citados com a mesma autoridade que as Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento).

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