26 de fevereiro de 2021

ANÁLISE DO CREDO NICENO

 

É frequente ouvir cristãos fazerem das antigas declarações de fé como o Credo Niceno a sua referência. Se algo não está no Credo Niceno ou no Credo dos Apóstolos, então é secundário e opcional.

Mas Deus não nos mandou fazer desses credos a referência. Os credos podem funcionar como resumos de doutrina úteis e necessários, mas Deus nos ordena que creiamos na sua Palavra (a Bíblia). Ela é o padrão de referência primário. Os credos não substituem a fé na Escritura. Ela é o padrão pelo qual devemos viver.

Analisemos o Credo Niceno:

Cremos em um só Deus,

Pai Todo-poderoso,

i) A tradução portuguesa tem uma vírgula depois de "um só Deus," o que pode sugerir que “um só Deus” inclui o Pai, Filho, e Espírito Santo. Mas, que eu saiba, o texto grego não tem essa pontuação.

ii) Isto parecem ser cláusulas paralelas:

Cremos em um só Deus, Pai  

Cremos em um só Senhor Jesus Cristo

Se assim for, isso sugere que o Credo Niceno apenas afirma o Pai como o único Deus - não o Pai, Filho e Espírito inclusivamente. Nesse caso, é uma formulação muito defeituosa. [1]

Criador do céu e da terra,

i) Na Escritura, a criação do mundo não é exclusiva do Pai. Na verdade, o NT normalmente atribui essa ação ao Filho.

De facto, o Credo prossegue dizendo que "todas as coisas foram feitas por meio" do Filho.

Mas nesse caso, falha em destacar algum ato ou atributo particular que distingue o Pai do Filho.

ii) O Credo é deficiente a esse respeito porque a teologia patrística era subdesenvolvida. Por exemplo, um calvinista diria que a obra do Pai inclui eleição e justificação, bem como a ressurreição de Jesus dos mortos. Na economia da salvação, isso é distintivo do Pai.

de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Em rigor, não diria que tudo o que é invisível foi criado. Os números não foram criados. Mundos possíveis não foram criados. As leis da lógica não foram criadas. São coisas inerentes à mente e à natureza de Deus.

Cremos em um só Senhor Jesus Cristo,

o único Filho de Deus,

nascido do Pai antes de todos os séculos,

Deus de Deus, luz de luz,

verdadeiro Deus de verdadeiro Deus;

gerado, não criado,

Uma cristologia que diz que o Filho deriva sua existência do Pai está mais perto do arianismo do que uma cristologia que afirma a asseidade do Filho. Eu não afirmo a geração eterna do Filho, mas sim a filiação eterna do Filho. Deus não é derivativo.

de igual substância do Pai;

Essa é a melhor parte do Credo. Infelizmente, falha em estender esse princípio ao Espírito. Nunca diz que o Espírito é consubstancial ao Pai. Essa é uma omissão grave.

por Ele todas as coisas foram feitas.

Por nós, homens, e por nossa salvação, Ele desceu do céu e se fez carne, pelo Espírito Santo, da virgem Maria, e se tornou homem.

Também por nós, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado.

Ressurgiu no terceiro dia, conforme as Escrituras.

Subiu ao céu, está sentado à direita do Pai e de novo há de vir, com glória, para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim.

Tudo bem.

Cremos no Espírito Santo, Senhor e Vivificador,

i) Isso é bastante superficial. Falha ao não mencionar a obra do Espírito na regeneração e santificação. Mais uma vez, essa deficiência reflete o estado subdesenvolvido da teologia patrística.

que procede do Pai e do Filho.

Da mesma forma, não afirmo a processão eterna do Espírito. O Espírito Santo não é uma criatura eterna do Pai e do Filho (ou só do Pai como professam os ortodoxos orientais). O Espírito Santo procede de si mesmo. Deus não é derivativo.

com o Pai e o Filho é adorado e glorificado;

que falou através dos profetas.

Certo.

Cremos em uma santa Igreja católica e apostólica.

i) Não é redundante dizer que a igreja é "uma" e "universal"? Por definição, só pode haver uma igreja universal.

ii) Os outros pontos são um tanto arbitrários. Sim, a igreja é "apostólica", mas por que não dizer que a igreja é "profética, apostólica e dominical" (Ef. 2:20)?

Da mesma forma, a igreja é "espiritual". Uma comunhão do Espírito Santo

Confessamos um só batismo para remissão dos pecados.

Não confesso que o batismo confere a remissão dos pecados, se é isso que significa.

Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro.

Certo.

Em suma, o Credo Niceno é muito irregular. Acerta várias coisas, erra em algumas coisas, e é defeituoso em algumas das suas formulações.

Notas

[1Em 1 Coríntios 8:6 Paulo diz “todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.

Mas aqui Paulo não chama apenas o Pai de o “único Deus”.

i) Uma vez que Paulo escreve em grego, ele usa sinónimos gregos para palavras hebraicas. E nós estamos a usar palavras em português. Mas se “retro-traduzíssemos” a afirmação de Paulo à luz do texto que está por detrás, isso capturaria a verdadeira força do uso das palavras:

Ouve, ó Israel: Yahweh (o Senhor) é nosso Elohim (Deus), Yahweh (o Senhor) é único (Dt 6:4).

todavia, para nós há um só Elohim, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Yahweh, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele (1 Cor 8:6).

ii) Elohim não denota necessariamente a única Deidade verdadeira. Mas em Deuteronómio 6:4, a única Deidade verdadeira é o referente pretendido. E Yahweh é uma designação distintiva para a única Deidade verdadeira no uso do AT. Portanto, esse é na verdade o termo mais forte.

Usando o Shemá como sua estrutura, Paulo atribui Elohim ao Pai e Yahweh ao Filho:

O Pai é o único Elohim

enquanto

O Filho é o único Yahweh

Isso é o que Paulo está a dizer. Ele pega na confissão resumida do monoteísmo do AT e distribui os dois títulos divinos ao Pai e ao Filho, respetivamente.

9 de janeiro de 2021

NÃO VOS TORNEIS ESCRAVOS DE HOMENS


«Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens.» (1 Coríntios 7:23)

A Igreja é não-denominacional e não-sectária.

Cada igreja local é absolutamente autónoma, livre, e soberana e ainda que tenha comunhão e relações de colaboração com outras comunidades, reconhece apenas um "chefe" e esse chefe é Cristo.

Os condutores da comunidade, pastores e anciãos, diáconos e diaconisas, são eleitos pela igreja local para a igreja local, sem nenhum envolvimento de entidades externas.

Nenhum "corpo" pode ter pretensões de superioridade sobre os outros membros e nenhuma "autoridade" tem o direito de exercer "poder" sobre as comunidades.

Estai firmes na liberdade. (Gálatas 5:1)

2 de janeiro de 2021

O MAL COMO NECESSÁRIO PARA A MANIFESTAÇÃO DA GLÓRIA DE DEUS

 

O terceiro método para lidar com esta questão é ficar satisfeito com os pronunciamentos simples da Bíblia. A Escritura ensina, 1. Que a glória de Deus é o fim ao qual a promoção da sacralidade, e a produção da felicidade, e todos os outros fins estão subordinados. 2. Que, como tal, a automanifestação de Deus, a revelação da sua infinita perfeição, sendo a mais elevada concebível, ou bem possível, é o fim último de todas as suas obras na criação, providência e redenção. 3. Como criaturas sencientes são necessárias para a manifestação da benevolência de Deus, não poderia haver qualquer manifestação da sua misericórdia sem miséria, ou da sua graça e justiça, se não houvesse pecado. Do mesmo modo que os céus declaram a glória de Deus, também Ele engenhou um plano de redenção, “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef. 3:10). O conhecimento de Deus é a vida eterna. É para as criaturas o bem mais elevado. E a promoção desse conhecimento, a manifestação multiforme das perfeições do Deus infinito, é o fim mais nobre de todas as suas obras. Isto é declarado pelo apóstolo ser o fim contemplado, tanto no castigo dos pecadores como na salvação dos crentes. É um fim ao qual, diz ele, nenhum homem pode objetar. “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Rom. 9:22-23). O pecado, como tal, segundo a Escritura, é permitido, para que a justiça de Deus possa ser conhecida no seu castigo, e a sua graça no seu perdão. E o universo, sem o conhecimento destes atributos, seria como a terra sem a luz do sol.

A glória de Deus sendo o fim maior de todas as coisas, não estamos obrigados a assumir que este é o melhor mundo possível para a produção da felicidade, ou até mesmo para assegurar o maior nível de piedade entre criaturas racionais. Este mundo está sabiamente adaptado ao fim para que foi desenhado, nomeadamente, a manifestação das multiformes perfeições de Deus. Que Deus, ao se revelar, promove o bem maior das suas criaturas, de forma consistente com a promoção da sua própria glória, pode ser admitido. Mas inverter esta ordem, fazendo do bem da criatura o fim mais elevado, é perverter e subverter todo o sistema; é pôr os meios no lugar do fim, subordinar Deus ao universo, o Infinito ao finito. Isto de pôr a criatura no lugar do Criador, perturba os nossos sentimentos e convicções morais e religiosas, assim como a nossa compreensão intelectual de Deus, e da sua relação com o universo.

Os teólogos mais antigos quase unanimemente fazem da glória de Deus a epítome, e o bem da criatura o fim subordinado de todas as coisas. Twesten, de facto, diz que não faz qualquer diferença se dizemos que Deus apresenta a sua glória como fim último, e, para esse propósito, determinou-se a produzir o mais alto grau de bem; ou se dizemos que Ele planeou o bem maior das suas criaturas, da qual a manifestação da sua glória flui por consequência. Contudo, faz toda a diferença do mundo, se o Criador está subordinado à criatura, ou a criatura ao Criador; se o fim é os meios, ou os meios o fim. Há uma grande diferença entre ser a terra ou o sol o centro do nosso sistema solar. Se fazemos da terra o centro, a nossa astronomia ficará numa confusão. E se fizermos da criatura, e não Deus, o fim de todas as coisas, a nossa teologia e religião ficarão do mesmo modo deturpadas. Pode ser, em conclusão, seguramente afirmado que um universo construído para o propósito de fazer Deus conhecido, é muito melhor que um universo desenhado para a produção de felicidade.

Teologia Sistemática Vol. I, 1872, Charles Hodge, “A Existência do Mal”.

https://sensocomumempt.home.blog/2019/08/02/teologia-sistematica-vol-i-1872-charles-hodge-a-existencia-do-mal/

21 de novembro de 2020

Argumentos populares a favor de Deus


Por popular, quero dizer argumentos ou evidências mais acessíveis a não especialistas. Mas isso não significa que sejam inferiores às provas teístas filosóficas/científicas.

1. Argumento da experiência religiosa

Existem exemplos específicos. Por exemplo:

i) Argumento da oração respondida (ou providência especial):

Isso é algo que muitos cristãos experimentam em primeira mão. É claro que é importante distinguir entre coincidência e intercessão divina. Muitos exemplos de oração respondida (ou providência especial) podem ser classificados como milagres de coincidência. Embora possam ser o resultado final de uma cadeia natural de eventos, o resultado é demasiado distintivo, oportuno, pontual e improvável para ser uma questão de sorte.

ii) Argumento dos milagres

Exceto para a Ressurreição, o argumento dos milagres é negligenciado na apologética moderna. Embora filósofos cristãos dediquem grande atenção ao assunto dos milagres, eles normalmente defendem o conceito, a possibilidade e a credibilidade dos milagres, em vez de apresentar evidências de milagres reais.

Defesas filosóficas: 

John Earman, Hume’s Abject Failure: The Argument Against Miracles (Oxford, 2000)

D. Geivett & G. Habermas, eds., In Defense of Miracles: A Comprehensive Case for God's Action in History (IVP, 1997)

Joseph Houston, Reported Miracles: A Critique of Hume (Cambridge, 1994)

Peter vanInwagen: http://andrewmbailey.com/pvi/Of_Of_Miracles.pdf

Estudos de casos:

Craig Keener, Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, 2 vols. (Baker, 2011)

Rex Gardner, Healing Miracles: A Doctor Investigates (Darton, Longman & Todd Ltd, 1986)

2. Argumento da profecia

T. D. Alexander, The Servant King: The Bible's Portrait of the Messiah (Regent College Publishing, 2003)

Herbert Bateman et al. Jesus the Messiah: Tracing the Promises, Expectations, and Coming of Israel's King(Kregel, 2012)

J. Alec Motyer, Look to the Rock: An Old Testament Background to Our Understanding of Christ (Kregel Academic & Professional; 1st ed., 2004)

O. Palmer Robertson, The Christ of the Prophets (P & R Publishing, 2008)

Michael Rydelnik’s The Messianic Hope: Is the Hebrew Bible Really Messianic? (B& H 2010)

John H. Sailhamer, The Meaning of the Pentateuch: Revelation, Composition and Interpretation (IVP, 2009)

3. Argumento moral 

https://plato.stanford.edu/entries/moral-arguments-god/

https://appearedtoblogly.files.wordpress.com/2011/05/linville-mark-22the-moral-argument22.pdf

4. Argumento existencial

Levanta a questão de saber se o ateísmo implica niilismo moral e/ou existencial. Por exemplo:

https://www.reasonablefaith.org/writings/popular-writings/existence-nature-of-god/the-absurdity-of-life-without-god/

5. A Bíblia

Se a Bíblia for aproximadamente verdadeira, então isso não apenas prova o mero teísmo, como também o teísmo cristão. Existem muitos livros que expõem a confiabilidade histórica geral das Escrituras, bem como do Jesus histórico em particular.

Paul Barnett, Finding the Historical Jesus (Eerdmans, 2009)

Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses (Eerdmans, 2nd ed., 2017) 

Daniel Block, et al. eds. Israel: Ancient Kingdom or Late Invention? (B&H Academic, 2008)

Craig Blomberg, The Historical Reliability of the New Testament (B&H Academic, 2016)

C. John Collins, Reading Genesis Well (Zondervan 2018)

I. Provan, et al. A Biblical History of Israel (WJK, 2nd ed., 2015)

Peter Williams, Can We Trust the Gospels? (Crossway 2018)

James Hoffmeier. The Archaeology of the Bible (Lion Hudson, 2008)

James Hoffmeier, Israel in Egypt: Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition (Oxford, 1997)

James Hoffmeier, Ancient Israel in Sinai: The Evidence for the Authenticity of the Wilderness Tradition (Oxford, 2005)

D. A. Carson, ed. The Enduring Authority of the Christian Scriptures (Eerdmans, 2016)

S. Cowan & T. Wilder. In Defense of the Bible: A Comprehensive Apologetic for the Authority of Scripture (B&H, 2013)

D. Bock & R. Webb, eds., Key Events in the Life of the Historical Jesus: A Collaborative Exploration of Context and Coherence (Eerdmans, 2010). 

Paul Rhodes Eddy & Gregory Boyd, The Jesus Legend: A Case for the Historical Reliability of the Synoptic Jesus Tradition (Baker, 2007)

Colin Hemer, The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History (Eisenbrauns, 1990)

Craig A. Evans, Jesus and His World: The Archeological Evidence (WJK, 2012)

R. Hess, et al. eds. Critical Issues in Early Israelite History (Eisenbrauns, 2008)

James Hoffmeier & Dennis MaGary, eds., Do Historical Matters Matter to Faith? (Crossway, 2012)

Kenneth Kitchen, On the Reliability of the Old Testament (Eerdmans 2003)

Alan Millard et al. eds. Faith, Tradition, and History: Old Testament Historiography in Its Near Eastern Context(Eisenbrauns, 1994)

Stanley Porter, John, His Gospel, and Jesus (Eerdmans, 2016)

Vern Poythress, Inerrancy and the Gospels (Crossway 2012)

Andrew Steinmann. From Abraham to Paul: A Biblical Chronology (Concordia, 2011)

Bruce. W. Winter, The Book of Acts in Its First Century Setting, vols. 1-4 (Eerdmans)

18 de novembro de 2020

Evidência de Deus e o deus das lacunas


I. É importante ter expectativas razoáveis ​​quanto à evidência de Deus. Se o Deus do teísmo clássico existe, então ele não é diretamente detetável. Deus não é um objeto empírico. Deus é impercetível para os cinco sentidos. A evidência pública de Deus envolve inferir a existência de Deus dos seus efeitos e/ou do seu poder explicativo.

Este não é um conceito incomum. Por exemplo, o passado não é detetável diretamente. No presente, o passado é impercetível para os cinco sentidos. Em alguns casos, temos registos de áudio e visuais do passado. Na maioria dos outros casos, inferimos o passado a partir de evidências residuais. Inferimos o passado a partir do efeito residual do passado sobre o presente. Da mesma forma, podemos inferir objetos abstratos (por exemplo, números, mundos possíveis) com base no seu valor explicativo indispensável. Portanto, os tipos de evidência de Deus não são exclusivos do teísmo clássico. Existem temas análogos em que recorremos aos mesmos tipos de evidência.

Para dar um exemplo específico, interpretar uma cena de crime é um exercício de reconstrução histórica. Um detetive de homicídios pode ter que determinar a causa da morte. Foram causas naturais? Foi acidental? Ou foi assassinato? Um assassino inteligente tentará ocultar a verdadeira causa. Um detetive de homicídios deve estar alerta a pistas subtis de agência inteligente.

É claro que Deus pode tornar a sua existência mais explícita por meio de uma voz audível ou milagres. Na verdade, muitas pessoas dizem que testemunharam isso. Mas isso não é uma experiência universal.

II. Os argumentos científicos a favor de Deus são geralmente atacados como argumentos da ignorância. Defende-se que devemos operar presumindo o naturalismo, porque o naturalismo metodológico tem um grande histórico no preenchimento de lacunas.

Há, no entanto, vários problemas com esta objeção:

i) Ela substitui o deus das lacunas pelo naturalismo das lacunas.

ii) Ela deturpa a teologia cristã. Deus não causa diretamente todos os eventos - ou mesmo a maioria dos eventos. Antes, há uma doutrina da providência geral, onde os eventos naturais são normalmente o resultado de causas físicas. Portanto, o facto da ciência descobrir mecanismos naturais não preenche lacunas que eram anteriormente a instância do «fiat» imediato de Deus. A religião popular pode ser culpada disso, mas não a teologia cristã.

iii) Além disso, a objeção às vezes assume o que é preciso demonstrar. Por exemplo, um ateu dirá que as pessoas costumavam atribuir a doença mental à possessão demoníaca, mas agora sabemos que a doença mental tem causas naturais.

No entanto, afirmar que a possessão demoníaca é inerentemente supersticioso e não científico não apenas é uma petição de princípio como ignora as evidências em contrário. Por exemplo:

http://www.craigkeener.com/exorcism-stories/

https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2016/07/01/as-a-psychiatrist-i-diagnose-mental-illness-and-sometimes-demonic-possession/

M. Scott Peck, Glimpses of the Devil A Psychiatrist's Personal Accounts of Possession, Exorcism, and Redemption (Free Press, 2009)

iv) Argumentos de design são argumentos do conhecimento. Indicações de agência racional. Para fazer uma comparação, um detetive pode ter que determinar se uma morte foi acidental ou um homicídio. Um assassino inteligente encenará um assassinato para fazer parecer uma morte acidental ou morte por causas naturais. No entanto, pode haver indicações subtis de que foi assassinato. Imagine-se um ateu objetando com o fundamento de que devemos sempre ser pacientes e assumir que a morte foi acidental ou devido a causas naturais. Mesmo que não possamos explicar dessa forma, devemos esperar até desenvolver uma teoria para fazê-lo. Invocar um agente pessoal (assassino) é homicídio das lacunas.

v) Algumas questões, como o difícil problema da consciência, defensavelmente pertencem a um domínio diferente do fisicalismo. Argumentos para a irredutibilidade da consciência são metafísicos em vez de científicos.

28 de outubro de 2020

A quadratura do círculo do sistema "Bíblia, Tradição e Magistério"


Assumindo os pressupostos romanistas, não é possível a uma pessoa chegar à conclusão que a Igreja católica romana é a verdadeira Igreja de Cristo sem primeiro contradizer esses mesmos pressupostos. 

Como pode, na verdade, uma pessoa chegar a tal conclusão, sem primeiro reconhecer autoridade à Bíblia e interpretá-la por si mesmo? Como é que ela estabelece o magistério da Igreja romana como autêntico, se não pode fazer livre exame das fontes da revelação - Bíblia e Tradição?

O sistema "Bíblia, Tradição e Magistério" é autoderrotante, já que o magistério ao estabelecer-se como única entidade capaz de reconhecer e interpretar autenticamente o cânon bíblico e a tradição, tira a si mesmo a possibilidade de ser justificado de forma independente. Só se pode assumir que a Igreja católica romana é a verdadeira Igreja de Cristo porque ela diz que é, caindo-se assim num raciocínio circular, não se pode chegar a essa conclusão por meios próprios justificantes.

1 de abril de 2020

O QUE DEUS ESTÁ A FAZER ATRAVÉS DA PANDEMIA


Está a fazer morrer os pecadores que Ele quer fazer morrer, como também os justos que Ele quer fazer morrer; por isso está fazer descer ao hades estes pecadores, e a salvar no seu reino celeste estes justos.

Está a livrar da morte os pecadores que Ele quer, como também os justos que Ele quer.

Está a dar aos ímpios a sua retribuição como também está a dar aos justos a sua retribuição!

Está a enriquecer alguns, e a empobrecer outros.

Está a acorrentar o ímpio, e está a libertar o aflito pela aflição.

Está a endurecer os corações de muitos para que não se convertam, e a abrir o coração dos que estão ordenados à vida eterna para que prestem atenção à Palavra de Deus.

Está a dirigir os corações das autoridades na direção que Ele quer, para que executem os Seus desígnios que são firmes e seguros.

Está a frustrar os desígnios dos astutos, para fazer subsistir o Seu plano.

Está a apanhar os sábios na sua astúcia, demonstrando que não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho que valha contra Deus.

Está a envergonhar os incrédulos e os cobardes, e a honrar os que creem nas Suas promessas e são corajosos.

Está a humilhar os soberbos, e a exaltar os humildes.

Está a criar necessidades no meio do Seu povo, para que se pratiquem as boas obras para a glória do Seu nome.

Está a mostrar a diferença que há entre aqueles que servem o seu ventre, e aqueles que servem o Senhor Jesus Cristo.

Está mostrar a diferença que há entre o ingénuo que acredita em tudo o que se diz, e o prudente que cuida dos seus passos.

Está a fazer muitos crentes entenderem que o local de culto não é a Igreja nem a Casa de Deus.

Está a fazer muitos crentes redescobrir ou descobrir a alegria, a paz e a bênção que há em reunirem-se nas casas para oferecer o culto a Deus como faziam os antigos discípulos.

Está a fazer muitos crentes entender que aqueles que pensavam que eram pastores, na realidade são servos de Mamon, que pensam só e exclusivamente em dinheiro. 

Está a levar muitos crentes a examinar as Escrituras e está a converter os seus corações.

Eis algumas das muitíssimas coisas que está a fazer o nosso Deus.

15 de março de 2020

O conselho pastoral de Martinho Lutero durante a Peste Negra


“Pedirei a Deus para, misericordiosamente, proteger-nos. Então farei vapor, ajudarei a purificar o ar, a administrar remédios e a tomá-los.  Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária para não ficar contaminado e, assim, porventura infligir e poluir outros e, portanto, causar a morte como resultado da minha negligência. Se Deus quiser me levar, ele certamente me encontrará e eu terei feito o que ele esperava de mim e, portanto, não sou responsável pela minha própria morte ou pela morte de outros. Se, no entanto, meu próximo precisar de mim, não evitarei o lugar ou a pessoa, mas irei livremente conforme declarado acima. Veja que essa é uma fé que teme a Deus, porque não é imprudente nem audaciosa e não tenta a Deus”

Martin Luther, Works, v. 43, p. 132. Carta "Se alguém pode fugir de uma praga mortal" escrita ao Rev. Dr. John Hess

11 de dezembro de 2019

Fake News em formato de livro


O branqueamento e a manipulação massiva da História é a forma moderna da Inquisição.

https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/1371/781

25 de abril de 2019

Exortações várias


O amor seja sem hipocrisia. Aborrecei o mal, e apegai-vos ao bem. 

Quanto ao amor fraternal, sede cheios de afeição uns pelos outros; quanto à honra, preveni-vos uns aos outros; quanto ao zelo, não sejais preguiçosos; sede fervorosos no espírito, servi o Senhor; sede alegres na esperança, pacientes na aflição, perseverantes na oração; provede às necessidades dos santos, praticai com diligência a hospitalidade. 

Abençoai os que vos perseguem; abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que estão alegres; chorai com os que choram. Tende entre vós um mesmo sentimento; não ambicioneis coisas altas, mas deixai-vos atrair pelas humildes. 

Não vos estimeis sábios aos vossos próprios olhos. Não retribuais a ninguém mal por mal. Aplicai-vos às coisas que são honestas, perante todos os homens.

Se for possível, pelo que depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor. Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo assim, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem. 

(Romanos 12:9-21)

20 de abril de 2019

O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele


Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do Senhor? Ele veio como renovo perante ele, como raiz que sobe de uma terra seca; não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Desprezado e abandonado pelos homens, homem de dores, experimentado nos trabalhos e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. E, no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava, eram as nossas dores que carregava; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e humilhado! Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e, pelas suas pisaduras, fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Maltratado, se humilhou a si mesmo, e não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e entre os da sua geração quem refletiu que ele foi arrancado da terra dos vivos e ferido por causa das transgressões do meu povo? E puseram a sua sepultura com os ímpios mas foi com o rico, na sua morte; porquanto nunca fez injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao Senhor agradou o moê-lo com sofrimentos. Depois de dar sua vida em sacrifício pela culpa, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a obra do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do tormento da sua alma e ficará satisfeito; pelo seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Pelo que lhe darei a sua parte entre os grandes, e com os poderosos, repartirá ele o despojo; porquanto se deu a si mesmo à morte, e foi contado entre os transgressores, porque levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53)

28 de outubro de 2018

Não há autoridade que não proceda de Deus


Está escrito: "Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação". (Romanos 13:1-2)

Portanto, não importa absolutamente nada se num país existe uma república ou uma monarquia, uma democracia ou uma ditadura, nós somos chamados a sujeitar-nos à autoridade instituída. Obviamente, no caso da autoridade nos ordenar a desobedecer a Deus em alguma coisa, nós somos chamados a desobedecer à autoridade para agradar a Deus. Mas isso nunca nos deve induzir a entrar em lutas sociais ou políticas ou armadas ilegais contra a autoridade instituída por Deus para instaurar uma democracia ou uma monarquia, porque isso significa resistir à ordenação de Deus. Se, portanto, parte da população, fora da lei, começar com lutas sociais ou políticas ou armadas para instaurar ou restaurar algum regime político, os cristãos não devem de modo algum participar nelas, porque essas lutas não fazem parte da vontade de Deus para nós. Somos filhos do Rei dos reis, não revolucionários ou guerrilheiros.

27 de outubro de 2018

A BRUTAL INJUSTIÇA DO ANIQUILACIONISMO E DO UNIVERSALISMO


No aniquilacionismo todos os homens que não forem salvos sofrerão a mesma pena, isto é, a aniquilação eterna, a passagem à não-existência. Não há qualquer tipo de gradação. Todos acabarão da mesma forma.

É como condenar à mesma pena um pilha-galinhas e um violador e assassino de crianças.

O mesmo se aplica ao universalismo, isto é, a teoria que defende que no fim todos os homens serão salvos. Todos também acabarão da mesma forma, independentemente do que fizeram em vida. O universalismo despreza por completo a justiça. 

É como decretar a impunidade geral para todos os homens.

O paradoxo do amor de Deus


Deus ama-me porque eu aceito o seu amor. Mas eu aceito o seu amor porque ele me amou primeiro. Esse é o paradoxo.

29 de agosto de 2018

Sobre o anonimato dos Evangelhos


É popular afirmar que os evangelhos inicialmente circularam anonimamente, mas aqui estão algumas das razões para pensar o contrário:

- Havia vários evangelhos e documentos semelhantes a circular já em meados do século I (Lucas 1:1-4; para evidências de que Lucas foi escrito em meados do século I, ver https://triablogue.blogspot.com/2016/12/more-reason-to-date-synoptics-and-acts.html). Havia uma necessidade de distinguir esses documentos. A prevalência, a partir do século II, da distinção entre eles por meio dos nomes dos autores, acompanhada de nenhum meio concorrente de distinção entre eles, sugere que eles estavam a ser distinguidos pelos nomes dos autores já em meados do século I.

- Embora não houvesse necessidade de identificar um autor no corpo principal de um texto, uma vez que relatos orais, etiquetas documentais e outros meios podiam ser usados ​​para identificar o autor, os autores dos evangelhos mostraram interesse em se identificarem mesmo no corpo principal dos seus textos (João 21:24, Atos 16:10).

- No início do século II, Papias demonstra interesse na autoria dos evangelhos, nomeia os autores de pelo menos três dos quatro evangelhos e cita uma fonte anterior que ele chama "o ancião" (provavelmente o apóstolo João) demonstrando interesse na autoria dos evangelhos e nomeando também um dos autores (em Eusébio, História da Igreja, 3:39). Tanto Papias como o ancião que ele cita estavam vivos e ativos nos círculos cristãos do século I, e estavam interessados ​​na autoria dos evangelhos e nomearam os autores.

- O cristianismo não era um sistema filosófico de ideias que estava a ser promovido independentemente de figuras de autoridade. Pelo contrário, era um sistema baseado na autoridade de indivíduos com nome, começando com Jesus e prosseguindo para os apóstolos e outros indivíduos que eram nomeados (Mateus 10:1-3, Marcos 3:13-19, Efésios 2:20, etc.). O evangelho de Lucas abre com uma referência à importância das testemunhas oculares (1:2), um conceito que requer distinção entre fontes (diferenciando entre aquelas que eram testemunhas oculares e aquelas que não eram), o que incluiria a distinção entre os autores de fontes escritas.

- A ampla aceitação das atribuições de autoria tradicionais na antiguidade, incluindo entre fontes heréticas e fontes que nem sequer se diziam cristãs, faz muito mais sentido se as atribuições de autoria se tivessem originado num período primitivo. Se os evangelhos tivessem inicialmente circulado anonimamente, esperaríamos uma combinação de anonimato e autores nomeados mais tarde, e esperaríamos que os nomes citados na nomenclatura dos autores variassem e variassem muito. Não é isso o que observamos.

Para muitos académicos (especialmente Ehrman), é deliberadamente enganoso o uso de um significado altamente técnico de "anónimo". Ou seja, que o nome não aparece no texto. Nesse sentido, os evangelhos ainda hoje circulam anonimamente. Mas obviamente não é isso o que a maioria das pessoas pensa que “anónimo” significa. Elas pensam equivocadamente que ninguém sabia quem os escreveu por um longo tempo.

23 de junho de 2018

Tu és fiel, Senhor



Tu és fiel, Senhor, nosso Pai celeste:
Pleno poder aos Teus filhos darás.
Nunca mudaste: Tu nunca faltaste:
Tal como eras, Tu sempre serás.

Flores e frutos, montanhas e mares,
Sol, lua, estrelas no céu a brilhar:
Tudo criaste na terra e nos ares.
Todo o Universo vem pois Te louvar!

Refrão

Tu és fiel, Senhor! Tu és fiel, Senhor!
Dia após dia, com bênçãos sem fim,
Tua mercê me sustenta e me guarda.
Tu és fiel, Senhor, fiel a mim.

2 de junho de 2018

Uma breve introdução ao Design Inteligente. O que está em causa?


A IRREDUZÍVEL COMPLEXIDADE DA VIDA 

Num artigo publicado na revista Science há mais de quatro décadas, Michael Polanyi chamava a atenção sobre a semelhança formal entre a complexidade das máquinas feitas pelo homem e os processos vitais. Em ambos os casos, existe uma diversidade de partes que interagem entre si.

"A estrutura das máquinas e o seu funcionamento é assim formado pelo homem, embora os seus materiais e as forças que as operam obedeçam às leis da natureza inanimada. Ao construir uma máquina e fornecê-la com energia, aproveitamos as leis da natureza que trabalham no seu material e na energia que a impulsiona e as fazemos servir o nosso propósito... Assim, a máquina em conjunto funciona sob o controle de dois princípios diferentes. O superior é o princípio do desenho da máquina, e este aproveita o inferior, que consiste nos processos físico-químicos nos quais se baseia a máquina".


(Polanyi, M. Life´s irreducible structure. Science 160: 1308-1312, 1968; página 1308).


São precisamente os limites que a máquina impõe à forma em que nela podem operar as leis naturais o que a torna útil. Igualmente, as leis naturais não suspendem as suas operações nos sistemas biológicos, mas existe neles um princípio superior de organização que aproveita estas leis. Assim, a existência dos ácidos nucleicos sem dúvida obedece a leis químicas, mas neles encontra-se um vasto conteúdo de informação cuidadosamente especificada que não poderia existir só pela operação das leis químicas.


"Suponha-se que a estrutura real de uma molécula de DNA fora devida ao facto das ligações entre as suas bases serem muito mais fortes do que seriam para qualquer outra distribuição de bases; então tal molécula de DNA não teria conteúdo informativo ... Podemos notar que tal é realmente o caso de uma molécula comum. Uma vez que a sua estrutura ordenada é devida a um máximo de estabilidade, correspondente a um mínimo de energia potencial, o seu ordenamento carece da capacidade de funcionar como um código... À luz da atual teoria da evolução, a estrutura codificada do DNA deve ser assumida como tendo surgido por uma sequência de variações ao azar estabelecida por seleção natural. Mas este aspecto evolutivo é irrelevante aqui; qualquer que seja a origem de uma configuração de DNA, ela pode funcionar como código somente se a sua ordem não for devida às forças da energia potencial... Vimos que a fisiologia interpreta o organismo como uma complexa rede de mecanismos, e que um organismo é - como uma máquina - um sistema sob controle dual. A sua estrutura é a de uma condição de contorno que aproveita as substâncias físico-químicas do organismo, ao serviço das funções fisiológicas ... E posso acrescentar que o DNA é tal tipo de sistema, já que todo o sistema que traz informação está debaixo de controle dual, pois qualquer sistema deste tipo restringe e ordena, ao serviço do transporte da sua informação, recursos extensos de particulares que de outro modo seriam abandonados ao azar, e portanto age como uma condição de contorno" 


(Polanyi, l.c., página 1309).


Precisamente, a investigação bioquímica encontrou, repetidamente, sistemas cuja complexidade intrínseca e interdependência entre as suas partes desafia todo o intento de imaginá-los como o produto de uma evolução gradual a partir de sistemas mais simples. 


A força deste argumento foi percebida por George C. Williams, um dos originadores da teoria de seleção de genes popularizada por Richard Dawkins no seu livro O gene egoísta. Não obstante, Williams posteriormente declarou:


"Os biólogos evolucionistas não se deram conta de que trabalham com dois domínios mais ou menos incomensuráveis: o da informação e o da matéria ... Estes dois domínios nunca de forma alguma podem ser reunidos pelo que habitualmente se designa por ‘reducionismo’ ... O gene é um bloco de informação, não um objeto. O padrão de pares de bases numa molécula de DNA especifica o gene. Mas a molécula de DNA é o meio, não a mensagem. Manter esta distinção entre o meio e a mensagem é absolutamente indispensável para pensar com clareza acerca da evolucão... Em biologia, quando você fala de coisas como genes, genótipos e grupos de genes, está a falar acerca de informação, não de uma realidade física objetiva". 


(Entrevista em John Brockman, Ed. The Third Culture: Beyond the Scientific Revolution. Simon & Schuster, New York, 1995, p. 42-43). 


Quatro exemplos de sistemas complexos 

Poderia abundar-se em exemplos, mas nos limitaremos a citar alguns dos mais óbvios. A propósito do desenvolvimento de órgãos complexos, menciono a extraordinária complexidade da fotossensibilidade, ou propriedade de certas células de responder à luz. Tal processo envolve uma cadeia de reações catalizadas enzimaticamente, variações em concentrações de intermediários, mudanças de permeabilidade iónica nas membranas, libertação de mensageiros químicos e processos de recuperação. 


Um segundo exemplo o constitui o mecanismo de transporte intracelular de proteínas. Quando uma proteína é produzida, tem de ser colocada no sítio correto da célula. Este direcionamento exige um complexo sistema de membranas, passos intermédios, enzimas e cofatores, a maioria dos quais são imprescindíveis, de modo que o processo falha se faltar ou estiver alterado um deles. 


Outro exemplo o constitui o mecanismo de hemostasia, ou detenção da hemorragia de uma ferida, através da coagulação do sangue. Trata-se de uma cascata de reações que envolvem precursores de enzimas, enzimas e cofatores. A falta ou alteração de um só deles ocasiona, por exemplo, a hemofilia. Outros defeitos podem ocasionar o transtorno oposto, uma excessiva coagulabilidade do sangue, de graves consequências. Em consequência, a coagulação deve ser precisamente regulada tanto para que o sangue coagule quando isso é favorável ao organismo, como para que não coagule quando isso é prejudicial. 


Um quarto exemplo o constitui o sistema imunitário, com a sua capacidade de produzir anticorpos contra substâncias estranhas (antígenos) com a consequente destruição, através de outra cascata enzimática chamada complemento, das células estranhas ao organismo. De novo, é essencial que o organismo possua mecanismos de defesa contra as infeções, mas ao mesmo tempo é vital que tais mecanismos não reajam contra as próprias células do hóspede. 


Estes últimos dois sistemas, da coagulação e do complemento caracterizam-se portanto, além da sua complexidade, pela necessidade de uma rigorosa regulação que impeça a sua ativação em condições inapropriadas. Tanto a ativação do mecanismo da coagulação como a de mecanismos imunológicos são imprescindíveis para conservar a vida, mas podem pô-la em perigo se não forem cuidadosamente regulados. 


Chamativamente, não existem explicações adequadas, no quadro neodarwinista, sobre a aparição destes sistemas; a sua existência não pode negar-se, mas o modo em que vieram à existência não está de todo claro. Como sublinha Michael Behe:


"A impotência da teoria darwinista para dar conta das bases moleculares da vida é evidente não só das análises deste livro, mas também da ausência completa, na literatura científica profissional, de quaisquer modelos detalhados pelos quais poderão ter-se produzido sistemas bioquímicos complexos... Perante a enorme complexidade que a moderna bioquímica descobriu na célula, a comunidade científica está paralisada. Ninguém na Universidade de Harvard, ninguém nos Institutos Nacionais de Saúde, nenhum membro da Academia de Ciências, nenhum ganhador do prémio Nobel - ninguém em absoluto consegue dar um relato detalhado de como o cílio [complexo órgão motor], ou a visão, ou a coagulação do sangue, ou qualquer processo bioquímico complexo pode ter-se desenvolvido ao modo darwiniano. Mas estamos aqui. As plantas e os animais estão aqui. Os sistemas complexos estão aqui. Todas estas coisas chegaram aqui de alguma maneira; se não ao modo darwiniano, como?" (Behe MJ. Darwin's Black Box. The biochemical challenge to evolution New York, The Free Press, 1996; página 187).


Desenho sem desenhador? 

O argumento do desenho, de longa data, foi apresentado nos tempos modernos por William Paley na sua Teologia Natural e foi ridicularizado por décadas pelos partidários do dogma evolutivo. Talvez a mais conhecida tentativa seja a de Richard Dawkins no seu O relojoeiro cego. Este cientista britânico explica que pode considerar-se um ateu intelectualmente satisfeito graças a Darwin e define a biologia como o estudo de coisas complicadas que dão a impressão, ou melhor criam a ilusão, de terem sido criadas com um propósito. 


"O problema do biólogo é o problema da complexidade. O biólogo tenta explicar o funcionamento, e o início da existência, de coisas complexas em termos de coisas mais simples... 
A seleção natural é o relojoeiro cego, cego porque não pode ver o que há por diante, não planeja as consequências, não tem propósito em vista. No entanto, os resultados vivos da seleção natural nos impressionam avassaladoramente com a aparência de desenho e planificação" 

(Richard Dawkins, The Blind Watchmaker, 3rd Ed. W.W. Norton, New York, 1996, página 15,21) 

Paley defendia a noção de desenho com base na presumida perfeição da criação, e os seus adversários foram capazes de assinalar muitas imperfeições, verdadeiras ou supostas. No entanto, a noção de desenho não traz implícita a ideia de perfeição. Podemos perceber desenho quando num sistema ou objeto se deteta uma disposição deliberada, significativa e inteligente das suas partes. Uma tosca ferramenta neolítica é considerada prova de desenho inteligente em arqueologia. Além disso, deve sublinhar-se que a ideia de desenho inteligente não contradiz de modo algum a operação das leis naturais, nem nos diz nada diretamente sobre a identidade do desenhador.

A deteção de desenho inteligente é usada continuamente pelos arqueólogos para a deteção de restos de atividade humana. Mais ainda, se projetos como o da "deteção de inteligência extraterrestre" (SETI) detetasse uma mensagem (informação) proveniente do espaço exterior, por mais simples que esta fosse, isso seria considerado evidência em favor da existência de inteligência extraterrestre. De igual modo, é difícil evitar a conclusão de que a deteção de desenho inteligente nos sistemas biológicos implica que, conforme a nossa experiência, a ideia de um desenhador está longe de ser absurda, ainda que não soubéssemos nada acerca da sua identidade. De facto, fora da biologia tal como esta é entendida pelos neodarwinistas, a existência de um verdadeiro desenho não explicável pela simples operação de forças físicas é considerada evidência irrefutável da existência de um desenhador inteligente.

É a seleção natural um fracasso?

A crítica anterior sobre a validade da seleção natural como mecanismo da evolução não implica de modo algum negar a realidade da seleção natural; mas salienta que é altamente improvável que tal mecanismo possa ser responsável pela diversidade de espécies.

A seleção natural parece ser um importante mecanismo na microevolução. Um exemplo famoso é o das populações da chamada borboleta do abedul (Biston betularia). Este inseto é normalmente de cor clara, embora ocasionalmente surgem, por mutação, exemplares escuros. Antigamente tais exemplares escuros eram eliminados rapidamente pelos predadores, pois a sua cor os tornava muito visíveis sobre o tronco das árvores. Quando a revolução industrial em Inglaterra fez que as árvores se escurecessem pela fuligem, a população de Biston tornou-se predominantemente escura. Em tempos recentes, as medidas ecológicas clarificaram os troncos, e os insetos claros voltaram a predominar. 

É importante observar 1) que havia borboletas claras e escuras durante todo o período, e até hoje e 2) que o predomínio de uns exemplares ou outros não envolve o surgimento de uma nova espécie. Apesar disso, muitos pensam que estes mecanismos seletivos são similares aos envolvidos na especiação. No entanto, o que é verdade numa escala não necessariamente o é em outra. Por exemplo, a temperaturas de muitos milhares de graus, como as existentes no interior das estrelas, produzem-se reações termonucleares. Os fenómenos de combustão também elevam a temperatura. No entanto, não se podem produzir reações termonucleares com um fogareiro ou um forno de padaria. A escala é muito diferente. O facto da seleção natural modificar o equilíbrio de populações, por exemplo, de bactérias resistentes a um antibiótico, não implica que possa transformar umas espécies em outras, nem que seja o mecanismo responsável pela fantástica diversidade dos seres vivos.

De facto, ainda que não o digam nos seus tratamentos do tema dirigidos à opinião pública, a comunidade científica evolucionista está dolorosamente consciente destes problemas. 

"Passou aproximadamente meio século desde que foi formulada a síntese neodarwiniana. Realizou-se muita investigação dentro do paradigma que ela define. No entanto, os êxitos da teoria limitam-se às minúcias da evolução, como mudanças adaptativas na cor das borboletas; ao passo que tem notavelmente pouco que dizer sobre as perguntas que nos interessam mais, como por exemplo, de como chegou a haver borboletas em primeiro lugar" (Ho, M.W.; Saunders, P. Beyond Neo-Darwinism - An epigenetic approach to evolution. Journal of Theoretical Biology 78: 589, 1979). 

Os artrópodes, invertebrados de patas articuladas que incluem crustáceos, quelicerados, miriápodes e insetos, constituem mais de metade de todas as espécies conhecidas. No entanto, 

"...para lá desta rudimentar taxonomia, há pouco acordo sobre como se relacionam os artrópodes, existentes e extintos ... Permanece a pergunta evolucionista central: Como, em termos tanto de padrão como de processo, veio à existência a incomparável diversidade e persistência dos artrópodes? ... Os estudos de morfologia e embriologia comparativa somente polarizaram ainda mais o debate... por agora, os dados moleculares são muito escassos, e a diversificação demasiado rápida e antiga para permitir a reconstrução de filogenias não ambíguas... Mesmo se a filogenia historicamente correta pudesse ser decifrada..., só teríamos a metade de uma resposta à pergunta evolucionista central. Permaneceria o desafio de reconciliar o padrão filogenético com o processo evolutivo". 

(Grosberg, R.K.: Out on a limb: Arthropod origins. Science 250: 632-633, 1990; ver também Lemarchand, F. Les premiers insectes. La Recherche 296: 85, Mar. 1997).