31 de outubro de 2013

Mateus em grego ou Mateus em aramaico? A história e o que dizem os eruditos

 
«Ao longo dos anos, alguns académicos têm debatido a ideia de que o evangelho de Mateus pode ter sido escrito originalmente em hebraico, e depois traduzido para o grego. Esta possibilidade se baseia numa declaração de Papias, um dos primeiros padres da igreja, que afirmou que Mateus registou ditos de Cristo em hebraico. Mas outros eruditos têm assinalado que é improvável que Papias se estivesse a referir com isso ao nosso evangelho de Mateus. Em primeiro lugar, o evangelho de Mateus, escrito em grego, não apresenta "nenhuma das características de uma obra traduzida" (Walvoord, Matthew: The Kingdom Come pag. 10). Segundo, nunca foi encontrado algum evangelho hebraico (ou aramaico) deste tipo. Terceiro, Mateus pode ter escrito muitos dos ditos de Cristo em hebraico para benefício dos judeus, sem que tal compilação fosse o mesmo que (nem a base de) o seu evangelho grego.
 
A erudição conservadora concorda em que, quer tenha havido uma versão hebraica anterior, quer não, a atual versão grega foi obra própria de Mateus, e que é a Palavra inspirada de Deus. Sejam quais forem os materiais anteriores que Mateus possa ter produzido na sua língua materna, o essencial é que o evangelho grego foi inspirado por Deus e traz o selo da autoridade de ser a Palavra de Deus (Walvoord pag.11)».
 
(Arthur K. Robertson, Matthew (Everymans Bible Commentaries), Lightning Source Inc, pag. 78)
 
«Papias mencionou os quatro evangelhos canónicos, mas o único atribuído a Mateus é aquele supostamente escrito "em língua hebraica" e composto por logia do Senhor. Falava de um único evangelho atribuído a Mateus, não de dois "Mt", um em "hebraico" e outro em grego. Isto é importante. Pois bem, o evangelho segundo Mateus que possuímos não é produto de uma tradução grega de um suposto original em "hebraico" (aramaico) mas foi escrito originalmente em grego... Não se pode demonstrar que Mt seja tradução de um original aramaico porque não temos esse suposto original. A única referência é a de Papias, que estamos tentando compreender. O nosso é um evangelho escrito desde o início integralmente em grego, como se tem demonstrado amplamente. Será que Papias ignorava a existência do evangelho que conhecemos, apesar de ter sido amplamente utilizado na igreja? ou, talvez Papias se equivocou quanto à origem deste evangelho, ou estava mal informado? É digno de nota que Eusébio menciona Mt. depois de Mc. Sabemos que Mc. foi escrito em grego por volta do ano 70, e que o evangelho segundo Mateus se apoia fortemente nesse segundo Marcos. Isto indica que a obra de Mateus nem foi a primeira a escrever-se nem foi obra totalmente independente já que se apoia em Marcos. Mateus, com efeito, apoiou-se massivamente em Mc., que foi escrito em grego. Todos com exceção de uns 40 versículos dos 675 que constituem Mc. se encontram em Mt., incluído o relato (literal) da conversão de Levi/Mateus. Não só isso, mas seguiu a mesma ordem e em muitas partes. Se Mt. é produto de uma tradução grega do aramaico, por que se baseou o seu autor em Mc.? Se Mt. foi escrito tal como lemos de Papias, não usou Mc. e não seria o evangelho que temos hoje? E se Mc. é posterior e usou Mt., porque omitiria o Sermão do Monte, de Mt. 5-7, por exemplo?
 
A comunidade cristã se dispersou rapidamente na Palestina e se estabeleceu como comunidades em outras regiões do Império Romano. Escrever-se-ia um evangelho para um grupo reduzido em língua aramaica, sendo também que na própria Judeia não poucos membros eram helénicos (At.7), isto é, que falavam grego? Recordemos que Paulo escreveu todas as suas cartas em grego, e Marcos o seu evangelho no mesmo idioma.
 
O interesse em afirmar a suposição de um original em aramaico não é científico, como se costuma apresentar, mas ideológico ou dogmático. Dada a rápida expansão do cristianismo no mundo greco-falante, teria sentido escrever obras num idioma desconhecido pelos seus recetores, ou seja, em aramaico para os que são de língua grega? O próprio Paulo, um hebreu (Fil.3:5), escreveu todas as suas cartas em idioma grego! O facto é que, se não fosse pela afirmação de Papias citada por Eusébio de Cesareia, não estaríamos especulando sobre a existência de um possível "evangelho de Mateus em aramaico"!
 
Em resumo se existiu um evangelho de Mateus em "dialeto hebraico", não nos restam vestígios reconhecíveis e definitivamente não é aquele que possuímos em grego. Além de Papias e todos os que se apoiam nele, não temos referências de um Mateus-aramaico. Por tudo isto, com pouquíssimas exceções, os estudiosos concordam em que a afirmação de Papias e a consequente hipótese de um Mateus-aramaico carece de credibilidade; é uma conjetura sem fundamento; é "wishful thinking"».
 
(Eduardo Arens, Los Evangelios ayer y hoy: una introduccion hermenêutica, pags.105-109)
 
«O grego do Evangelho, como o conhecemos nós, não se lê como uma "tradução para o grego", e a proximidade literária em grego de Mt. com os Evangelhos de Mc. e Lc. faz que a sua origem em algum outro idioma seja pouco provável. É possível que os crentes dos primeiros séculos d.C. conhecessem uma obra hebraica ou aramaica tradicionalmente associada com Mt. mas é improvável que fosse o nosso Evangelho»
 
(G.J. Wenham, J.A. Motyer, D.A. Carson e R.T. France, Comentário Bíblico, Vida Nova, pag. 940)

«Qualquer que seja a data e o conhecimento de Papias, aquilo que ele de fato escreveu está ao nosso alcance apenas em citações preservadas por Eusébio. Os cinco livros exegéticos de Papias, Àoyíojv KvpíaKcov 'E^rjyqatç (Logiõn Kyriakõn Exegêsis, Exegese das Logia do Senhor), sobreviveram até à Idade Média em algumas bibliotecas da Europa, mas não existem mais. É dessa obra que Eusébio (H.E,3,39.14-16) cita os dois únicos comentários de Papias sobre a autoria dos evangelhos de que temos conhecimento. O que diz respeito ao quarto evangelho é analisado adiante nesta obra; o que diz respeito diretamente a Mateus é reconhecidamente difícil de traduzir, conforme mostrado aqui, "Mateus aweTfX^eTO (synetaxeto, 'compôs?', 'compilou?', 'dispôs [de forma organizada]'?) TÒ Xòyia (ta logia, 'as declarações'?, 'o evangelho'?) em fE(3paíÔi SiaXéKTcp (Hebraidi dialektõ, na 'língua hebraica [aramaica]'?, 'o estilo hebraico [aramaico]'?), e cada um os fippr|veuaev (hêrmêneusen, 'interpretou?, 'traduziu'?, 'transmitiu'?) da melhor forma que pôde".
 
Não há dúvida de que a igreja primitiva entendia que o sentido disso era que Mateus havia escrito o seu evangelho em hebraico (ou aramaico; a palavra grega era usada para designar as duas línguas cognatas) e que foi então traduzido por outros. Mas existem problemas sérios com este ponto de vista. Embora uns poucos estudiosos contemporâneos sustentem que todo o evangelho de Mateus foi escrito inicialmente em aramaico [1], dados linguísticos sólidos contrariam tal ponto de vista. Em primeiro lugar, as muitas citações do Antigo Testamento não refletem uma forma textual única. Algumas são, sem sombra de dúvida, tiradas da Septuaginta; outras são aparentemente traduções de um original semítico; outras ainda são tão pouco convencionais que desafiam uma classificação simples. Se o evangelho tivesse sido escrito originalmente em aramaico, o normal seria que as citações do Antigo Testamento ou fossem traduzidas pelo linguista que traduziu todo o texto, ou copiadas da Bíblia aceite pela igreja primitiva, a Septuaginta. A mistura que encontramos faz-nos pensar que o autor do Evangelho escreveu em grego, e que tinha conhecimentos de línguas semitas, pelo que pode ter consultado diferentes textos.
 
Em segundo lugar, supondo que Mateus dependa de Marcos (ver o cap. 2 sobre o problema sinótico), as ligações verbais entre Mateus e Marcos dizem-nos que é muito pouco provável que Mateus tivesse sido escrito originalmente em aramaico.
 
Finalmente o texto grego não pode ter sido um texto traduzido…
 
Alguns associam logia "dito" com algumas coleções independentes dos ditos de Jesus, talvez Q. Isso converteria Mateus num autor de uma fonte de ditos. Papias confundiu esta fonte com o Mateus canónico. Mas então, como uma fonte apostólica tão importante como esta ia cair no esquecimento até perder-se? Certamente, toda a hipótese de Q, por mais razoável que seja, continua sendo uma mera hipótese. Resumindo a evidência nos leva a uma difícil conclusão. A menos que adotemos a solução de Kurzinger [2], o mais natural é pensar que Papias estava equivocado quando disse que Mateus foi escrito originalmente em aramaico. E se se equivocou ao fazer esta afirmação, por que não poderia ter-se equivocado ao dizer que Mateus era o autor desse material? Este ceticismo soa plausível à primeira vista, mas no fundo não tem tanto fundamento como parece. Quando um autor se equivoca num ponto, não podemos descartar sem mais a demais informação que nos oferece! Além disso, existem várias razões que poderiam explicar o erro de Papias quanto à língua original do Evangelho de Mateus. De fato, embora a sua conclusão seja equivocada, é o resultado de uma conclusão lógica se tivermos em conta a informação que circulava nos seus dias. Os primeiros Padres da Igreja acreditavam que Mateus tinha sido o primeiro Evangelho. Dado que Jesus e os seus discípulos viveram e serviram entre os judeus, parece lógico concluir que o primeiro Evangelho foi escrito "no dialeto hebraico", isto é, "aramaico", muito mais se Papias, que formava parte do mundo helenístico, não tinha conhecimento do uso do grego na Palestina do primeiro século, especialmente na Galileia. Além disso, Papias pode ter confundido o Evangelho canónico de Mateus com um Evangelho escrito em aramaico ou hebraico que era bem conhecido no século II. Nos chegaram notícias de um "Evangelho segundo os hebreus", um "Evangelho dos nazarenos", e "um Evangelho dos ebionitas". Não sabemos se estes títulos fazem referência a três livros distintos, ou se dois deles ou mais fazem referência ao mesmo livro. Epifânio assegura que os ebionitas, segundo ele um grupo herético, baseavam as suas crenças num Evangelho de Mateus que eles chamavam "segundo os hebreus", escrito em hebraico, mas (segundo Epifânio) manipulado e mutilado…
 
O grande tradutor Jerónimo diz que traduziu "o Evangelho segundo os hebreus", tanto para o grego como para o latim. E associa tal livro com os nazarenos, os quais lhe deram permissão para copiar o original hebraico do Evangelho segundo Mateus. Não obstante, depois de analisar as muitas referências que faz, o conteúdo desse Evangelho de Mateus tem pouco a ver com o do Mateus canónico. Tudo isto sugere que havia muita possibilidade de confundir aquele "Evangelho segundo os hebreus" com Mateus, e que muito provavelmente isso foi o que deu origem à teoria de que Mateus foi escrito originalmente em hebraico ou aramaico»

Notas
 
[1] C. F. BURNEY, em The poetry of our Lord; C. C. TORREY, em Our translated Gospels; A. Sc HL ATTER, em Der Evangelist Matthäus: Seine Sprache> sein Ziel, seineSelbständigkeit; P. Ga echter, em Die literarische Kunst im Matthäuseoangelium; J. W.WENHAM, em Gospel origins (TrinJ 7; 112-34). Bem recentemente um pequeno número de estudiosos tem sustentado que o hebraico (e não o aramaico) está subjacente aos evangelhos canónicos, mas essa proposta tem sido corretamente rejeitada pela imensa maioria daqueles que estudaram o assunto.
 
[2] J. Kürzinger, acredita que XóyLa (ta logia) refere-se ao Mateus canónico, mas que 'EppaíÔi SLaXeKTtp (Hebraidi dialektõ) refere-se não à língua hebraica ou aramaica, mas ao estilo ou forma literária semíticos; Mateus organizou ou compôs (cruvÉTa^éTo [synetaxetdi) seu evangelho em forma literária semítica (i.e., judaico-cristã), dominada por temas e recursos literários semíticos. Essa é uma tradução improvável, ainda que certamente possível.
 
(D.A. Carson, Douglas J. Moo e Leon Morris, Introdução ao Novo Testamento, Vida Nova, pags. 75-79)

5 de setembro de 2013

Isaías 7:14 não prediz o nascimento virginal do Messias?


A passagem citada diz: «O mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel». Segundo o Evangelho de Mateus, este anúncio profetizava o nascimento de Jesus (Mt. 1:22ss). Evidentemente, o judaísmo rejeita tal aplicação. Sobre o texto profético de Isaías 7:14 diz o rabino Eliezer Gervitz:

«A pessoa não familiarizada poderá pensar que se trata de uma profecia do relato do nascimento de Jesus no Novo Testamento. No entanto, aquele que estuda o versículo no original hebraico poderá observar que o termo usado é “almá” que significa “mulher jovem” e não “virgem”. A palavra hebraica correspondente a virgem é “betulá” segundo é mencionado em Vaikrá [Lv.] 21:3». [1]

Segundo este argumento, se Isaías quisesse referir-se a uma virgem, teria usado o vocábulo bêtulâ em vez de escrever alma. No entanto, esta objeção carece de força porque no tempo do Tanach nenhuma das duas palavras era um termo técnico para designar uma virgem, mas ambas admitiam esse significado.

Por exemplo, bêtulâ usa-se em relação a virgens, mas também pode designar uma mulher jovem. Prova disso é que é usada juntamente com alusões a homens jovens. [2]

Em Ester 2:17 são mencionadas as betulot que estavam com o rei Assuero, que certamente não eram virgens. Em Joel 1:8 fala-se da jovem (bêtulâ) que chora a seu esposo; portanto trata-se de uma mulher casada e presumivelmente não virgem. O uso desta palavra como termo técnico para referir uma virgem é um desenvolvimento tardio no hebraico e no aramaico, que estava difundido no começo da era presente. É um anacronismo atribuir-lhe especificidade sete séculos antes, no tempo de Isaías.

O professor Bruce K. Waltke, cuja autoridade em hebraico bíblico é mundialmente reconhecida, diz:

«É claro que não se pode arguir que se Isaías [7:14] no seu famoso oráculo a Acaz quisesse significar uma virgem, poderia ter usado bêtulâ como um termo mais preciso que “alma”» [3]

Por outro lado, a palavra alma jamais se aplica na Bíblia a uma mulher casada. Por isso, é mais preciso que bêtulâ como termo para referir uma virgem. No Cântico dos Cânticos há uma referência a três tipos de mulheres, e usa-se o termo alma para o terceiro tipo; a tradução natural seria «rainhas… concubinas… virgens» (Cnt. 6:8). Em resumo, pode aduzir-se em favor da interpretação tradicional cristã o seguinte:

1) Embora alma signifique etimologicamente «mulher jovem», se presume como um dos seus atributos a virgindade.

2) Nas Escrituras hebraicas, a palavra nunca se aplica a uma mulher casada (à diferença de bêtulâ).

3) Em nenhum dos textos em que aparece alma pode provar-se com segurança que se aplica a uma mulher que não é virgem.

4) Os sábios judeus que produziram a versão Septuaginta verteram alma com o termo grego parthenos, virgem, apenas em duas ocasiões: em relação a Rebeca, a noiva virgem de Isaque (Gn. 24:13, cf. v. 16, 43) e no oráculo de Isaías 7:14.

5) José foi convencido a não repudiar a virgem Maria precisamente com base nesta profecia, facto que seria inexplicável se José não entendesse alma como «virgem» (Mt. 1:18-25). [4]

Notas

[1] Eliezer Gervitz, A guide to Torah hashkofoh: questions and answers on Judaism, Feldheim Publishers, [n.1], p.146, 1980.

[2] Dt. 32:25; 2Cr. 36:17; Sal. 148:12; Is. 62:5; Jer. 51:22; Lm. 1:18; 2:21; Zac. 9:17.

[3] Bruce K. Waltke, Art. bêtulâ, nº 295 em TWOT 1:138.

[4] Cf. Allan A. MacRae, Art. almâ, nº 1630 em TWOT 2:672.

Siglas

TWOT: Theological Wordbook of the Old Testament (R. Laird Harris, Gleason L. Archer, Jr. e Bruce K. Waltke, Dir.; Moody Press, Chicago, 1980; dois volumes)

19 de agosto de 2013

A origem da doutrina dos sete sacramentos


O número de sete sacramentos data de meados do século XII, especialmente por influência de Pedro Lombardo (1100-1160) e foi definido por Roma como a posição ortodoxa no concílio de Florença, em 1439, menos de um século antes da Reforma. O número preciso de sete sacramentos (incluída a confissão auricular [1]) não foi definido dogmaticamente até ao Concílio de Trento.
A posição católica romana sobre os sacramentos foi, pois, formulada inicialmente por Pedro Lombardo que efetuou uma síntese (na época havia quem dizia que havia mais do que sete e quem dizia que havia menos do que sete) que depois recebeu sanção conciliar. Como é óbvio, isto não quer dizer, de modo algum, que seja verdade, como afirma a Igreja Católica como dogma de fé, que os sacramentos tenham sido instituídos pelo próprio Cristo, nem que sejam precisamente esses sete.
Por exemplo, num dos seus escritos, Agostinho de Hipona (354-430), reconhece que na Igreja do seu tempo existiam apenas dois sacramentos:
Pois o mesmo Senhor e os ensinamentos dos apóstolos transmitiram-nos não mais uma multidão de sinais, mas um número bem reduzido. São fáceis de serem celebrados, de excepcional sublimidade a serem compreendidos, e a serem realizados com grande simplicidade. Tais são: o sacramento do batismo e a celebração do corpo e sangue do Senhor” (Da doutrina cristã, III, 9).

Nas Igrejas Ortodoxas Orientais foi somente no século XVII, através das "confissões Ortodoxas" dirigidas contra a Reforma Protestante, que o número sete foi geralmente aceite.

Apesar de catecismos e livros ortodoxos contemporâneos afirmarem todos que a Igreja reconhece sete sacramentos, na Igreja Ortodoxa o limite do número de sacramentos não é um dogma de fé. Na verdade, nenhum concílio reconhecido pela Igreja Ortodoxa alguma vez definiu o número de sacramentos. A isto não deve ser alheio o facto de que não há na Escritura nem na tradição patrística nada que sustente a existência de sete sacramentos.

Durante o primeiro milénio, a Igreja Cristã desconheceu a existência de sete sacramentos.

Notas

[1] Pedro Lombardo incluiu a penitência entre os sete sacramentos, mas não havia acordo geral sobre a necessidade da confissão sacerdotal: no século XII, por exemplo, a escola de Pedro Abelardo rejeitou a sua necessidade, enquanto a escola dos Vitorinos insistiu nela. Foi apenas no IV Concílio de Latrão (1215) que a "penitência" tornou-se oficialmente um "sacramento". Este concílio estabeleceu uma obrigação para os crentes de confessarem os seus pecados ao seu sacerdote anualmente.

5 de agosto de 2013

A pontuação de Lucas 23:43 e o Codex Vaticanus


O texto de Lucas 23:43 (“E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”) presta-se a duas pontuações possíveis consoante se colocar uma vírgula antes ou depois da palavra «hoje». Nenhuma das pontuações possíveis afeta a doutrina da imortalidade da alma, pois em qualquer dos casos continua a ser possível sustentar biblicamente esta doutrina. No entanto, se a pontuação correta for com uma vírgula antes de «hoje», o sentido que o versículo adquire, deita por terra a obtusa antropologia, ou doutrina do homem, que as Testemunhas de Jeová (e outros grupos) desenvolveram, a qual nega a existência de uma alma imortal à parte do corpo, pelo que transformam a morte física numa simples aniquilação ou não-existência.

Assim, as Testemunhas de Jeová, na sua própria tradução da Bíblia (chamada tradução do Novo Mundo), pontuam este versículo com uma vírgula depois de «hoje». Um dos seus argumentos é que têm suporte textual para fazer isto, visto que o Codex Vaticanus, um dos principais manuscritos antigos do Novo Testamento, contém um sinal de pontuação - o equivalente a uma vírgula - depois de "hoje". Como respondemos pois a este seu argumento?

Em primeiro lugar, não é de todo claro que o ponto no Codex Vaticanus (B) seja uma marca intencional de pontuação. Pode nada mais ser do que um borrão ou uma mancha acidental.


Uma mancha  'acidental'  ou borrão no Codex Vaticanus. A mancha aparece entre o rho e o kappa em sarkos ("carne") em Romanos 9:8.


Imagem publicada pela Sentinela do suposto ponto baixo de pontuação em Lucas 23:43, Codex Vaticanus.


Todavia, se o ponto for, de facto, uma marca intencional de pontuação [1], não é certamente feito pela mão original. O escriba original não usa o “ponto baixo”, e quando usa pontuação (coisa que ele raramente faz), adiciona tipicamente um espaço extra, o que não é o caso aqui.


Espaçamento típico adicionado depois de um sinal de pontuação no Codex Vaticanus (entre Lucas 22:30 e 22:31)


Além disso, se o escriba pretendesse colocar uma vírgula depois de sêmeron, ele provavelmente usaria um ponto-médio como fez depois de sarka em Romanos 9:5 (e vários outros lugares), não o ponto-baixo, que era mais ou menos equivalente ao nosso ponto e vírgula [2].

Por último, não há notícia que algum comentarista ou crítico textual tenha mencionado a suposta vírgula no Vaticanus. Bruce Metzger, no seu Textual Commentary on the Greek New Testament, nada diz sobre isso, apesar de abordar o Siríaco Curetoniano em relação à pontuação correta de Lucas 23:43, e discutir o sinal de pontuação no Vaticanus em Romanos 9:5 [3].

O manuscrito Vaticanus foi originalmente escrito no século IV em tinta castanha, com um corretor logo em seguida fazendo algumas pequenas alterações. Mais tarde, um escriba posterior no século X ou XI passou por cima das letras tinta preta, ignorando aquelas letras ou marcas que ele pensava serem incorretas, e fazendo algumas alterações adicionais [4]. Embora o ponto seja "castanho desbotado" e isso possa indicar uma data antiga para o ponto, isso não é certo. Mesmo que seja, não está provado que proceda da mão original ou do corretor do século IV, e o facto de não ter sido reforçado pelo corretor posterior indica que ele considerou-o como não intencional ou um defeito. O Dr. Peter M. Head, um especialista em manuscritos do Novo Testamento, escreve:

«Eu não penso que (o ponto) seja pontuação. Certamente não é da produção do escriba original: não existe nada como ele em todos os espaços (a pontuação no Vaticanus é feita quase inteiramente apenas pelo espaçamento), ele não se parece com um ponto, mas mais como um borrão ou como você disse, uma mancha; e, o espaçamento está completamente errado para a pontuação feita pelo escriba original. Penso que poderá ter sido acrescentado mais tarde por alguém que quis repontuar o texto, mas todavia não estou convencido de que a cor é a mesma do outro material introduzido pelo potenciador/acentuador, de modo que você deve atribuí-lo a um desconhecido leitor/pontuador» [5].

Portanto, o máximo que pode ser dito é que, se o ponto é pontuação intencional, não foi copiado de um exemplar primitivo pelo escriba original, mas foi introduzido - por uma razão desconhecida - por alguém desconhecido num momento incerto.

Mas se se pudesse estabelecer que a marca é intencional e data do século IV (por mais improvável que isso pareça) – isso forneceria suporte antigo para a pontuação da tradução do Novo Mundo? Sim e não. Forneceria evidência além do Siríaco Curetoniano que alguém há muito tempo, devido à ambiguidade do Grego, entendeu (ou mal-entendeu) o versículo como a Torre de Vigia faz. Mas isso não provaria nada em relação ao que Lucas entendia. Os académicos textuais que pontuam os nossos autorizados Novos Testamentos Gregos não o fazem com base na pontuação de manuscritos antigos:

A presença de marcas de pontuação em manuscritos antigos do Novo Testamento é tão esporádica e aleatória que não se pode inferir com confiança a construção dada pelo pontuador à passagem [6].

Portanto, a presença de um sinal de pontuação (se tal ele for) num manuscrito antigo não nos diz nada sobre como pontuar corretamente Lucas 23:43. A pontuação correta é uma questão de exegese, e não de crítica textual [7].

Fonte: Baseado num escrito de Robert Hommel, em linha aqui

Notas

[1] "O ponto no topo da linha (·) (stigmh teleia, 'ponto alto') era um ponto final; aqueles sobre a linha (.) (upostigmh) era equivalente ao nosso ponto e vírgula, enquanto um ponto médio (stigmh mesh) era equivalente à nossa vírgula. Mas gradualmente surgiram mudanças sobre estas pausas até que o ponto alto tornou-se equivalente aos nossos dois pontos, o ponto baixo tornou-se um ponto final, e o ponto médio desapareceu, e por volta do século IX dC a vírgula (,) tomou o seu lugar" (Robertson, Grammar, p. 242).

[2] Ver nota 1. No entanto, a pontuação em manuscritos antigos, e particularmente no Codex Vaticanus, estava longe de ser consistente. Por conseguinte, devemos admitir que é possível que um escriba ou corretor pudesse usar um ponto-baixo de uma forma consistente com a nossa vírgula moderna, no entanto dado o facto de que o ponto-baixo não parece ter sido usado de modo nenhum pelo escriba do século IV ou pelo seu corretor contemporâneo, ao mesmo tempo que eles (raramente) usaram tanto o ponto-alto como o ponto-médio, parece muito improvável que um deles fizesse isso aqui. Robertson diz: "B tem o ponto-alto como um período, e o ponto-baixo para uma pausa curta" (Ibid.). No entanto, Robertson não diz que o "ponto baixo" foi feito pelo escriba original ou pelo seu corretor do século IV.

[3] Metzger, p. 155 (c.f., pp. 459-462). Enquanto estava a preparar este artigo, correspondi-me brevemente com o Dr. Wieland Willker sobre a suposta vírgula no Vaticanus. O Dr. Willker tem uma página dedicada ao Codex Vaticanus e um Comentário Textual sobre os Evangelhos Gregos on-line. Como resultado de nossa correspondência, o Dr. Willker adicionou informações sobre o ponto no Vaticanus na terceira edição do seu Comentário. O Dr. Willker concorda que o ponto é "de origem desconhecida", e não é feito pelo escriba original. Ele conclui:

«O ponto em B não é de muita relevância porque a questão da pontuação existe independente dele. A pontuação, se havia alguma, era, como a ortografia, irregular nos manuscritos antigos. Qualquer pontuação em manuscritos antigos é MUITO duvidosa. A pontuação na Nestle-Aland ou GNT NUNCA é baseada numa pontuação de um Manuscrito. É SEMPRE uma decisão baseada na gramática, sintaxe, linguística e exegese» (Willker, Textual Commentary, p. 436, ênfase no original).

O Dr. Willker enumera as seguintes manuscritos que colocam hoti depois de legô, enfatizando assim que "hoje" qualifica "estarás comigo ...": L, 892, L1627, b, c, Co, e Sy-S. Ele enumera AM 118 PS8, 11 (1,8), Apo, e Hil como manuscritos que fazem a mesma coisa com sintaxe diferente.

[4] Finegan, pp. 127-28.

[5] Peter M. Head, PhD, e-mail pessoal para Robert Hommel, datado de 11/1/2005. Larry W. Hurtado, PhD, também suspeita que a marca é uma mancha ou borrão e não um sinal de pontuação (e-mail pessoal para Robert Hommel, datado de 1/5/2005).

[6] Metzger, p. 460, n. 2.

[7] Para uma análise exegética deste versículo ver: A pontuação de Lucas 23:43

Bibliografia

Robertson, Archibald Thomas. 1934. A Grammar of the Greek New Testament: in the Light of Historical Research. Nashville, TN: Broadman Press. (Robertson, Grammar)

Metzger, Bruce M. 1975. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 3rd Edition. Stuttgart, Germany: United Bible Societies.

Finegan, J. 1974. Encountering New Testament Manuscripts. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

30 de julho de 2013

A Origem da Bíblia

Um bom livro, publicado em português pela CPAD, para quem quer saber mais sobre a Bíblia do ponto de vista histórico, teológico, e literário.

Pode ser encontrado aqui:  

28 de julho de 2013

ALGUMAS QUESTÕES A RETER SOBRE A BÍBLIA


Pode provar-se que a Bíblia é inspirada por Deus?
A inspiração divina da Bíblia não pode ser provada positivamente através de uma dedução matemática ou um teste em laboratório, porque é algo do âmbito espiritual e apenas se pode discernir espiritualmente através do testemunho do Espírito Santo. Portanto, a prova ou certeza da sua inspiração somente pode tê-la quem já creu em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador.
No entanto, a inspiração pode ser corroborada através de factos acerca da Bíblia.
Entre as principais razões, menciono:
A. Consistência interna. Apesar de ter sido escrita num longo intervalo, em diferentes lugares e por pessoas de condição diferente, a Bíblia possui uma coerência notável nos seus ensinamentos acerca de Deus, do homem e da salvação. Nas suas páginas pode notar-se um progresso tanto na revelação como na obra de salvação.
B. Ensinamentos. Se mais pessoas obedecessem aos ensinamentos da Bíblia não há dúvida que este mundo seria um melhor lugar para todos.
C. Profecia preditiva cumprida. A Bíblia contém muitas profecias cujo cumprimento está registado na história. Há outras que ainda não se cumpriram, mas a fidelidade das predições anteriores nos levam a crer que tudo será cumprido.
D. Milagres. Muitos milagres bíblicos foram corroborados mesmo por testemunhas hostis. Significativamente, na Bíblia os milagres estão concentrados em três épocas cruciais: o tempo do Êxodo, o dos profetas do século IX, e o de Jesus e dos Apóstolos. Os maiores milagres são, desde logo, a encarnação de nosso Senhor e a sua ressurreição.
E. Confiabilidade histórica. Tanto documentos extrabíblicos como a arqueologia fazem pensar que a história que a Bíblia narra é correta. Ainda que existam lacunas (como em outras áreas do conhecimento da antiguidade) nenhuma das afirmações históricas da Bíblia foi refutada com êxito.
F. Transmissão e conservação providencial do texto bíblico. Tanto o texto hebraico do Antigo Testamento como o texto grego do Novo Testamento foi preservado com notável exatidão em comparação com qualquer outro documento antigo.
G. Resultados nas vidas transformadas daqueles que puseram a sua fé em Cristo e seguem os ensinamentos da Bíblia. Numa ocasião um mestre cristão foi confrontado por um ateu militante que proclamava que o homem melhorava quando rejeitava a religião e admitia a inexistência de Deus. Sem hesitar, o pastor lhe respondeu que com gosto traria no dia seguinte cem pessoas cujas vidas tinham sido transformadas para melhor pelo Evangelho, desde que o seu interlocutor se comprometesse a trazer outras tantas pessoas cujas vidas tivessem sido mudadas para melhor pelo ateísmo... ou pelo menos dez. Obviamente isso não ocorreu.
Quais foram os critérios adotados pela Igreja cristã para a canonização de um livro?
Os critérios que é possível inferir a partir da história da Igreja são:
1. Autoridade apostólica. Devem ser livros escritos por um Apóstolo ou por um dos seus colaboradores (tal é o caso de Lucas, companheiro de Paulo, e de Marcos, intérprete de Pedro).
2. Antiguidade. Este critério, como o que se segue, é subsidiário do primeiro. Se a obra em questão não era antiga, não podia dever-se a um dos Apóstolos ou seus discípulos.
3. Ortodoxia. Conformidade da doutrina com a de outros livros já reconhecidos e com o ensino da Igreja.
4. Universalidade. O livro em questão devia em princípio ser amplamente reconhecido; isto atrasou, embora não tenha impedido, por exemplo, a inclusão de Hebreus (posto em dúvida pela Igreja de Roma). Os escritos apostólicos, mesmo os dirigidos a congregações locais, tiveram na sua maioria ampla circulação e difusão. Estreitamente relacionado está o critério do uso antigo e generalizado.
5. Inspiração divina. O reconhecimento generalizado, guiado pelo Espírito Santo, de que certos livros e não outros foram inspirados por Deus.
Note-se que o cânon bíblico não é fruto de uma decisão arbitrária de algum concílio ou decreto papal, mas obedece a critérios objetivos, baseados em características singulares, pelas quais, os livros canonizados se impuseram a si mesmo à Igreja.
O apóstolo Paulo menciona na sua carta a Timóteo que "Toda Escritura é Inspirada por Deus ...." mas esta citação refere-se ao que os judeus entendiam por Escritura, o Antigo Testamento. Como então aplicar o que diz ao Novo Testamento?
O ensinamento de Paulo não é uma declaração sobre a delimitação da extensão do cânon das Sagradas Escrituras mas uma ajuda para entender a natureza da Escritura como Palavra de Deus. Portanto, se bem que ele se refira primariamente ao Antigo Testamento (embora Paulo também parece chamar Escritura ao Evangelho de Lucas), o que diz é igualmente válido para as Escrituras do Novo Testamento.
Dizes que a declaração de Paulo diz respeito à natureza ou valor das Escrituras. Aceitemos então isso. Ora, quem é que tem autoridade para discernir a natureza ou valor de um texto escrito de forma que passe a ser considerado como parte da Escritura? A IGREJA.

A Igreja, por intermédio dos Apóstolos e alguns dos seus discípulos mais próximos, deu à luz o Novo Testamento, expressão escrita do que eles ensinaram oralmente. Uma vez concluído, o Novo Testamento teve uma autoridade intrínseca que não depende de uma concessão graciosa da Igreja. Em outras palavras, a Igreja não “autoriza” a Palavra de Deus. A reconhece, confessa e proclama (ou deveria).

Uma consideração importante é se se concebe o cânon como uma lista inspirada de livros ou como uma lista de livros inspirados. Em outras palavras, neste segundo caso, se o termo "cânon" é considerado em sentido ativo, em relação aos livros que constituem a norma da vida e fé cristãs; ou, pelo contrário, em sentido passivo, como a lista de livros que foi fixada pela Igreja como normativos.

Os cristãos acreditam que as Escrituras do NT são a norma que governa (norma normans), isto é, um conjunto de livros inspirados com uma autoridade intrínseca que a Igreja se limitou a reconhecer e proclamar. Ou em outras palavras, a Igreja não autorizou o cânon, mas reconheceu que estes livros e não outros eram autorizados por terem sido inspirados por Deus.

A história diz-nos de que foram necessários pelo menos cerca de 4 séculos de discussões durante os quais todos e cada um dos livros que compõem o Novo Testamento foram devidamente questionados num ou noutro momento. Porquê tanta indefinição?
Na realidade o problema que menciona é mais patente em relação ao Antigo Testamento. Com efeito, os livros chamados Deuterocanónicos pelos católicos e Apócrifos pelos protestantes, permaneceram num estado de indefinição (apesar de algumas decisões de sínodos locais) até que, pelo menos para a Igreja de Roma, foram incorporados explicitamente no Concílio de Trento (1546).
Além disso, exagera a situação em mais de um sentido. Não é verdade, por exemplo, que todos e cada um dos livros que compõem o Novo Testamento fossem questionados.
Já na segunda metade do século II existia um consenso indiscutível para os autores ortodoxos acerca dos quatro Evangelhos canónicos, Atos, as epístolas de Paulo, 1 João e 1 Pedro. Acerca do resto dos livros havia opiniões diversas.
Após 4 séculos de discussão foi um concílio CATÓLICO sob a autoridade de um papa que definiu o cânon Bíblico. Como um crente Evangélico que nega qualquer autoridade ao romano pontífice pode ter certeza que o seu cânon bíblico é o correto?
Isto é absolutamente errado; a realidade histórica é muito diferente.
A primeira lista dos 27 livros do NT tal como hoje aparecem em todas as bíblias cristãs a deu Atanásio de Alexandria em 367.
Existe um documento supostamente escrito no século VI, o Decretum Gelasii, segundo o qual em 382 um sínodo de Roma presidido pelo seu bispo, Dámaso, teria sancionado a mesma lista. Mas se isso fosse verdade - e é duvidoso que o seja - o tal decreto não teve nenhum eco na Igreja Católica Antiga (da qual Roma era só uma parte).
O primeiro concílio cuja realidade histórica é indubitável que formulou uma lista dos 27 livros do NT foi o de Cartago de 397, um sínodo local que certamente nem foi convocado pelo bispo de Roma nem contou com a sua sábia opinião.
Nenhum Concílio verdadeiramente ecuménico (isto é, com participação da Igreja Universal) nem nenhum bispo de Roma dos primeiros quinze séculos do cristianismo sancionou o cânon do NT. As listas coincidentes de Atanásio, de Dámaso (se se aceitar a sua autenticidade) e de Cartago, simplesmente mostram o consenso que a Igreja universal alcançou em finais do século IV.
Na Igreja Ocidental, aceitou-se o cânon de 27 livros tal como Jerónimo os tinha incluído na Vulgata, sem maior discussão.
A primeira declaração dogmática documentada da Igreja de Roma a este respeito foi produzida em 1546, pelo que se os pobres cristãos de todo o mundo tivessem tido que esperar que Roma se despachasse, teriam passado quinze séculos sem cânon.
O próprio Lutero na sua tradução da Bíblia para o alemão retirou do Cânon do N.T. alguns livros que colocou no fim da sua Bíblia como livros interessantes e de recomendada leitura para os crentes mas negando a sua Canonicidade,
Lutero pôs em dúvida a canonicidade de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. No entanto, não os excluiu da sua edição do Novo Testamento. Além disso, embora tenha expressado livremente as suas reservas, salientou que não desejava impor a outros as suas opiniões, e explicitamente declarou que não desejava tirar estes escritos do NT.
É muito interessante que sempre se repita este passo em falso do reformador alemão, e ao mesmo tempo se ignore o contexto histórico, já que durante o Renascimento ressurgiram dúvidas sobre a canonicidade de alguns livros do NT. E dado que não existia ainda uma declaração dogmática de assentimento obrigatório por parte de todos os fiéis de Roma, diversos eruditos dessa Igreja fizeram uso da liberdade que se questiona a Lutero.
Por exemplo, o Cardeal Tomás de Vio (1469-1534), mais conhecido como Caetano, escreveu comentários bíblicos nos quais colocava em dúvida a autoria paulina de Hebreus e expressava dúvidas acerca da autoridade apostólica de Tiago, Judas e 2 e 3 João. Não sabemos o que opinava do Apocalipse, já que declinou comentá-lo e se limitou a declarar-se incapaz de penetrar nos seus mistérios.
Pela mesma época, o humanista Erasmo de Roterdão (m. 1536) que nunca abandonou a comunhão romana, questionou na primeira edição do seu NT grego (1516) a autoria tradicional de Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas; declarou que Apocalipse não era devido ao autor do quarto Evangelho (mais tarde tornou-se mais cauteloso, e declarou que estava disposto a submeter-se ao juízo da Igreja se esta dissesse outra coisa).
Mesmo depois do Concílio de Trento, o dominicano Sisto de Siena, na sua obra Bibliotheca Sancta dedicada ao Papa Pio V, dividia os livros do Novo Testamento em Proto e Deuterocanónicos; entre estes últimos incluía Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e o Apocalipse.
Portanto, não vejo que Lutero tenha procedido de maneira diferente de outros seus contemporâneos, fiéis católicos.
Além disso, os protestantes não atribuem ao Dr. Lutero a infalibilidade que negam ao papa.
posteriormente Calvino incluiu de novo esses livros.
Também não é verdade. Houve alguma confusão acerca da extensão do cânon do NT pela época da Reforma, mas por último todas as Igrejas protestantes admitiram o cânon que tinha sido fixado por consenso no século IV.
Calvino não teve que "incluir de novo" os livros em questão pela simples razão de que nunca os retirou antes. Com efeito, em todas as edições da Bíblia publicadas pelos reformadores genebrinos os livros do NT se apresentam do modo tradicional.
As Confissões Protestantes históricas reconheceram também o cânon histórico do NT:
Francesa de 1559;
Belga de 1561;
Trinta e Nove Artigos Anglicanos (1563)
Westminster (1647)
Se um dos critérios de canonização de um livro que os cristãos que determinaram o cânon seguiram era que o seu autor fosse reconhecido como membro dos apóstolos ou diretamente relacionado com eles, como explicar a epístola aos Hebreus caso claro de autor desconhecido e outros muitos livros do N.T. cujo autor conhecido não o é pela certeza de quem o escreveu mas pela Tradição da Igreja que atribui tais escritos a determinados autores, 1ª de João não menciona quem é o seu autor mas a tradição e o estilo segundo eruditos cristãos o atribuem ao apóstolo João, é suficiente isto para declará-los Palavra de Deus, se é assim também a Tradição é Palavra de Deus não achas?? Não terá razão a igreja Romana?
Os protestantes não têm nenhum problema em admitir como válida uma tradição que atribui a autoria de um livro sagrado a determinado autor, desde que seja confiável e não haja evidências para pensar que essa tradição é falsa.
Apesar das dúvidas sobre a autoria, Hebreus foi por fim reconhecido unanimemente pela sua antiguidade (ligação ao círculo apostólico) e ortodoxia. Dificilmente tem razão a Igreja de Roma, já que ela teve um papel importante em atrasar a canonização de Hebreus, mas por fim aderiu ao consenso das demais igrejas.
Não houve dúvidas sérias acerca de 1 João; pelo contrário sim acerca de 2 e 3 João.
Por certo os primeiros cristãos que são exemplo para nós pelo menos assim se nos manifesta no livro de Atos não tinham mais escritura inspirada que o A.T. e posteriormente até que se conciliou um cânon unânime para a cristandade, as diversas igrejas continuavam usando as Escrituras do A.T. como Palavra de Deus ajudando-se com as diversas cartas e evangelhos que circulavam pela época mas que não sabemos se as consideravam Palavra de Deus ou livros de recomendada leitura como fez Lutero com alguns. Se fossem considerados como Palavra de Deus pensais que de verdade teriam desaparecido todos e cada um dos textos originais, não é muita casualidade que dos 27 livros do N.T. não se tenha conservado nem um só deles?? e a cópia mais antiga esteja datada para lá do século III.
É errado dizer que os primeiros cristãos não tinham mais escritura inspirada que o AT até que se conciliou um cânon unânime para a cristandade, pois o próprio Novo Testamento tem evidência de que os escritos apostólicos eram tidos como Escritura pelos próprios apóstolos: 2 Pedro 3:15-16 e 1 Timóteo 5:18 citando Lucas 10:7.
Os papiros do NT mais antigos datam da primeira metade do século II. Que os originais não se tenham conservado se deve a que provavelmente foram escritos em papiro, um material muito menos resistente ao uso contínuo que o pergaminho.
O texto do NT grego é confiável em mais de 99%, e as dúvidas que persistem são principalmente variantes leves que não modificam o significado nem afetam nenhuma doutrina cristã.
Muitos livros do Novo Testamento não foram considerados como canónicos até muitos séculos depois de Cristo? Foi a Igreja Católica que "tirou" as dúvidas sobre esses livros e nos deu o cânon do Novo Testamento.
O reconhecimento do cânon, sem dúvida, é um processo histórico (como foi a redação da Bíblia). A Igreja universal (católica em sentido antigo) efetuou tal reconhecimento em finais do século IV, manifestamente sem precisar de intervenção nem sanção da Igreja de Roma, a qual se limitou a aceitar e reconhecer o que outros tinham determinado – principalmente os bispos africanos. Não foi preciso nenhuma definição ex cathedra ou decreto de algum concílio romano para delimitar o cânon do Novo Testamento, o que é uma sorte pois do contrário o processo levaria uns bons séculos mais.