12 de junho de 2012
Resposta a “Uma pergunta para um irmão evangélico sério” do Padre Juan Carlos Sack – 2ª Parte
10 de junho de 2012
PONTOS DE VISTA DE ALGUNS PADRES DA IGREJA SOBRE O BATISMO
9 de junho de 2012
Calvino: O que veio primeiro? A Escritura ou a Igreja?
5 de junho de 2012
A SOLA SCRIPTURA É UM PRINCÍPIO BÍBLICO E HISTÓRICO
A Sola Scriptura é um princípio bíblico, amplamente fundamentado na própria Bíblia, observado pelos Padres primitivos e recuperado pela reforma protestante, que tinha ficado sepultado pela avalanche de tradições eclesiásticas acumuladas durante séculos na Igreja de Roma.
A Sola Scriptura como princípio bíblico
Um exame do Novo Testamento nos mostra que:
[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar. 7:8-9 e par.). Não falamos aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.
[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.
[3] Jesus Cristo nunca acusou os judeus de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).
[4] Aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar. 12:24-27 e par.).
[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do Antigo Testamento puseram por escrito os seus.
[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3:15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao Antigo Testamento não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu caráter normativo.
[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3:15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).
[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no Antigo Testamento (Atos 17:11).
[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9:23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.
[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.
Durante um intervalo de cerca de mil anos, o tempo que demorou a formar-se o Antigo Testamento, Deus falou de muitas maneiras e em repetidas ocasiões, mas foi inculcando no povo judeu o valor das Escrituras. No caso do Novo Testamento, o intervalo entre os ensinos divinos e a sua colocação por escrito foi vinte vezes menor. A quantidade e qualidade de informação histórica, doutrinal e prática do Novo Testamento não pode comparar-se com as tradições orais, muitas vezes duvidosas, que se encontram nos escritos dos Padres. O apelo válido à tradição nos Padres refere-se à compreensão e aplicação da doutrina estabelecida firmemente nas Escrituras. E, naturalmente, sabemos hoje que apelaram a esta tradição interpretativa... porque eles próprios o puseram por escrito.
A Sola Scriptura como princípio histórico
Diz-se que se se perdessem todas as cópias do Novo Testamento, se poderia reconstruí-lo com base nas citações patrísticas. Os escritores cristãos primitivos, apologistas, pastores e teólogos dos primeiros séculos, não apelavam a supostas tradições doutrinais mas às Escrituras. É certo que encontramos numerosas alusões à "regra de fé da Igreja" e à "tradição eclesiástica", mas não se trata de uma tradição doutrinal à parte das Escrituras, mas da forma tradicional de interpretá-las e aos usos e costumes. Para os Padres dos primeiros séculos, a Sagrada Escritura é a tradição doutrinal da Igreja, e o autêntico registo da tradição Apostólica. Assim, Tertuliano (160-220) diz que aos hereges não se lhes deve conceder o uso das Escrituras para redarguir, porque não lhes pertencem; as Escrituras são património da Igreja, base e fundamento da sua doutrina (J. Quasten, Patrología I, p. 569). "Porque onde vejamos certamente a verdade da doutrina e da fé cristã, aí indubitavelmente se acham também as verdadeiras Escrituras, a verdadeira interpretação, as verdadeiras tradições cristãs" (De Prescriptione Haereticorum, 20).
Por exemplo, nos escritos conservados de Orígenes, homem de vastíssima erudição, não encontramos apelos a tradições doutrinais extrabíblicas, apesar de que, dadas as especulações deste Padre, tais tradições poderiam ter sido muito interessantes. Eusébio de Cesareia (Hist Ecl VI, 25:11-14) conservou as reflexões de Orígenes a propósito do autor de Hebreus, e todas elas se baseiam em evidências internas da epístola. Parece que no seu tempo (segunda metade do século III) não havia tradição confiável a tal respeito.
Ireneu de Lyon (ca. 140-205) escreveu: "... as Escrituras são na verdade perfeitas, sendo que elas foram faladas ou ditadas pela Palavra de Deus e pelo Seu Espírito..." (Adv Haer II, 28).
"Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé" (Adv Haer III, 1,1).
Ireneu também tem a Igreja como depositária das Escrituras e possuidora de um entendimento correto destas: "... mas melhor é que nos refugiemos na Igreja, sejamos educados em seu seio, e nos alimentemos da Escritura do Senhor" (Adv Haer V,20:2).
Numa carta a Florino conservada por Eusébio, Ireneu recorda Policarpo – segundo a tradição discípulo de São João Apóstolo - e o louva porque "tudo relatava em consonância com as Escrituras" (Hist Ecl V, 20:6).
Ainda João Crisóstomo (347-407) escreveu: "Possuímos a regra e o padrão mais exato e perfeito para regular as nossas diversas inquirições: refiro-me à regulação das leis divinas. Eu, portanto, gostaria que todos vocês rejeitassem o que este ou aquele homem diz, e que investigassem todas estas coisas nas Escrituras" (Hom. 13, 4:10 ad fin. in 2 Cor.). Parece que o insigne pregador não estaria hoje de acordo com a Igreja de Roma. Quasten recalca: "O maior orador sagrado da Igreja antiga baseia toda a sua pregação na Escritura" (o.c., p. 528).
Pela mesma época, Gregório de Nissa (330-395) afirmou: "Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos"; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso" (De anima et resurr.)
Igualmente Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito de seu tempo, disse: "É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques" (Adv Helv).
Também o grande Agostinho de Hipona (354-430) era do mesmo parecer. O bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento: "Nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa". Nas suas Confissões (VI, 5:2-3) declara: "Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não creem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..."
Os exemplos poderiam multiplicar-se. De maneira que os Padres a partir do século II baseiam as suas doutrinas nas Escrituras e, ainda que se mostrem zelosos em conservar a tradição interpretativa eclesiástica, não apelam a tradições orais doutrinais. A ter existido tal coisa, deverá ter sido de natureza independente e secreta; mas é precisamente este género de tradição o que Ireneu severamente condena, por sua origem espúria (Adv Haer III, 3:1).
17 de maio de 2012
Os concílios ecuménicos e a perpétua virgindade de Maria
1 de maio de 2012
“SOLA FIDE” (A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) NA IGREJA PRIMITIVA
Clemente de Roma:
"Quem quiser sinceramente considerar cada particular,
reconhecerá a grandeza dos dons que foram dados por ele. Porque dele, surgiram
os sacerdotes e todos os levitas que ministram no altar de Deus. A partir dele
também [era descendente] nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne. A partir
dele [surgiram] reis, príncipes e governantes da raça de Judá. Nem estão as
suas outras tribos em pequena glória, visto que Deus havia prometido, "a
tua descendência será como as estrelas do céu". Todos estes foram,
portanto, muito honrados, e engrandecidos, não pelo seu próprio bem, ou pelas
suas próprias obras, ou pela justiça que eles tinham feito, mas através da
operação da Sua vontade. E nós, também, sendo chamados pela sua vontade em
Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa própria
sabedoria, ou entendimento, ou piedade, ou obras que tenhamos feito em
santidade de coração, mas por meio da fé através da qual, desde o início, Deus
Todo-Poderoso tem justificado todos os homens; ao qual seja a glória para todo
o sempre. Amen.
ANF: Vol.
I, The Apostolic Fathers, First Epistle of Clement to the Corinthians, Chapter
32.
Mathetes a Diogneto:
Enquanto suportou o tempo antigo, Ele permitiu que fôssemos
levados por impulsos incontroláveis, sendo atraídos pelo desejo de prazer e
de várias paixões. Não é que ele se comprazeu nos nossos pecados, mas
simplesmente suportou-os, nem é que Ele aprovou o tempo da operação da
iniquidade que então havia, mas procurou formar uma mente consciente de
justiça, de modo que sendo convencidos nesse tempo da nossa indignidade para
alcançar a vida através das nossas próprias obras, devesse agora, graças à
bondade de Deus, nos ser concedida; e tendo tornado manifesto que em nós mesmos
fomos incapazes de entrar no reino de Deus, pudéssemos através do poder de Deus
ser capacitados. Mas quando a nossa maldade havia chegado ao seu auge, e tinha
sido claramente demonstrado que a sua recompensa, punição e morte, era iminente
sobre nós, e quando chegou o tempo que Deus havia antes determinado para
manifestar a sua própria bondade e poder, segundo o amor de Deus, excedeu
totalmente a consideração para com os homens, não nos considerou com ódio, nem
nos afastou para longe, nem lembrou a nossa iniquidade contra nós, mas mostrou
grande longanimidade, e carregou connosco. Ele mesmo tomou sobre si o peso das
nossas iniquidades, Ele deu o Seu próprio Filho em resgate por nós, o Santo
pelos transgressores, o inocente pelo ímpios, o justo pelos injustos, o
incorruptível pelo corruptível, o imortal pelos que são mortais. Pois que outra
coisa era capaz de cobrir os nossos pecados senão a Sua justiça? Por qual outro
era possível que nós, os ímpios e perversos, pudéssemos ser justificados, senão
pelo único Filho de Deus? Ó doce troca! Ó operação insondável! Ó benefícios que
ultrapassam toda a expectativa! que a maldade de muitos deveria ser encoberta
num único justo, e que a justiça de Um deveria justificar muitos
transgressores! Tendo, pois, nos convencido no tempo antigo que a nossa
natureza era incapaz de alcançar a vida,
e tendo agora revelado o Salvador que é capaz de salvar mesmo aquelas coisas
que eram [antigamente] impossíveis de salvar, por esses dois factos ele desejou
levar-nos a confiar na Sua bondade, a estimá-lo nosso Provedor, Pai, Professor,
Conselheiro, Curador, nossa Sabedoria, Luz, Honra, Glória, Poder e Vida, de
modo que não devemos estar ansiosos quanto a roupas e comida.
Ante-Nicene Fathers: Volume I, Mathetes to Diognetus, Chapter 9.
Crisóstomo (349-407):
O próprio patriarca Abraão antes de receber a circuncisão foi declarado justo em resultado da fé somente: antes da circuncisão, o texto diz, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
Fathers of
the Church, Vol. 82, Homilies on Genesis 18-45, 27.7 (Washington, D.C.: The
Catholic University of America Press, 1990), p. 167.
Crisóstomo (349-407): Pois, se mesmo antes disto, a
circuncisão tornou-se incircuncisão, muito mais tem-se tornado agora, já que é
lançada fora de ambos os períodos. Mas depois de dizer que "foi
excluída", ele mostra também, como. Como, então, ele diz que foi excluída?
"Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé" Vê que ele chama a
fé também uma lei deleitando-se em manter os nomes, e assim afastar a aparente
novidade. Mas o que é a "lei da fé?" Trata-se de ser salvo pela
graça. Aqui ele mostra o poder de Deus, em que Ele não só salvou, mas também
justificou, e os levou à vanglória, e isto sem precisar de obras, mas olhando
para a fé somente.
NPNF1: Vol.
XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 7,
vs. 27.
Crisóstomo (349-407):
Para uma pessoa que não tinha obras, ser justificado pela
fé, não era nada implausível. Mas para uma pessoa ricamente adornada com boas
ações, não ser feito justo segundo isso, mas segundo a fé, é coisa para causar
espanto, e para definir o poder da fé numa forte luz.
NPNF1: Vol.
XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 8,
Rom. 4:1, 2.
Ambrosiaster (fl. c. 366-384), escreveu ao comentar 1 Cor.
1:4b:
Deus decretou que uma pessoa que crê em Cristo pode ser salva
sem obras. Somente pela fé ela
recebe o perdão dos pecados.
Gerald
Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VII: 1-2
Corinthians (Downers Grove: InterVarsity Press, 1999), p. 6.
Latim de
Migne: Datam dicit gratiam a Deo in Christo Jesu, quae gratia sic data est in
Christo Jesu; quia hoc constitutum est a Deo, ut qui credit in Christum, salvus
sit sine opere: sola fide gratis accipit remissionem peccatorum. In
Epistolam B. Pauli Ad Corinthios Primam, PL 17:185
Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 1:11:
A misericórdia de Deus foi dada por esta razão, para que
deixassem as obras da lei, como eu já disse muitas vezes, porque Deus, tendo
piedade das nossas fraquezas, decretou que a raça humana seria salva pela fé
somente, juntamente com a lei natural.
Gerald
Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans
(Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 23.
Latim de
Migne: Nam misericordia Dei ad hoc data est, ut Lex cessaret, quod saepe jam
dixi; quia Deus consulens infirmitati humanae, sola fide addita legi naturali,
hominum genus salvare decrevit. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:53.
Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 2:12:
Porque, se a lei é dada não para os justos, mas para os
injustos, quem não peca é um amigo da lei. Para ele, somente a fé é o caminho
pelo qual ele é aperfeiçoado. Para outros mera evitação do mal não lhes vai
obter alguma vantagem com Deus a menos que eles também creiam em Deus, de modo
que possam ser justos em ambos os casos. Para a justiça é um temporal; o outro
é eterno.
Gerald
Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans
(Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 65.
Latim de Migne:
Si enim justo non est lex posita, sed injustis; qui non peccat, amicus legis
est. Huic sola fides deest, per quam fiat perfectus quia nihil illi proderit
apud Deum abstinere a contrariis, nisi fidem in Deum acceperit, ut sit justus
per utraque; quia illa temporis justitia est, haec aeternitatis. In
Epistolam Ad Romanos, PL 17:67.
Ecuménio (Século VI), comentando sobre Tiago 2:23:
Abraão é a imagem de alguém que é justificado somente pela
fé, pois o que ele acreditou lhe foi imputado como justiça. Mas ele também foi
aprovado por causa das suas obras, uma vez que ele ofereceu o seu filho Isaac
sobre o altar. É claro que ele não fez esta obra por si só, ao fazê-la, ele
permaneceu firmemente ancorado em sua fé, crendo que através de Isaque a sua
descendência seria multiplicada até que fosse tão numerosa como as estrelas.
Gerald
Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. XI,
James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p.
33. Ver PG 119:481.
Beda (672/673-735), comentando sobre Paulo e Tiago:
Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados
pela fé sem as obras, aqueles que entendem por isto que não importa se levam
uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em
Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe
como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o
exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de fé, para mostrar
que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é
errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou
a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom
da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão,
porque o dom da justificação vem somente pela fé.
Gerald
Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament XI: James,
1-2Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 31.
Texto
Latino: Quoniam Paulus apostolus praedicans justificari hominem per fidem sine
operibus, non bene intellectus est ab eis qui sic dictum acceperunt, ut
putarent, cum semel in Christum credidissent, etiam si male operarentur, et
facinorose flagitioseque viverent, salvos se esse per fidem: locus iste hujus
epistolae eumdem sensum Pauli apostoli quomodo sit intelligendus exponit. Ideoque
magis Abrahae exemplo utitur, vacuam esse fidem si non bene operetur, quoniam
Abrahae exemplo etiam Paulus usus est, ut probaret justificari hominem sine
operibus posse. Cum enim bona opera commemorat Abrahae, quae ejus fidem
comitata sunt, satis ostendit apostolum Paulum, non ita per Abraham docere
justificari hominem per fidem sine operibus, ut si quis crediderit, non ad eum
pertineat bene operari, sed ad hoc potius, ut nemo arbitretur meritis priorum
bonorum operum se pervenisse ad donum justificationis quae est in fide. Super
Divi Jacobi Epistolam, Caput II, PL 93:22.
Hilário de Poitiers (c 315-67) sobre Mateus 9:
Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não
poderia conceder, pois somente a fé justifica.
Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non
poterat; fides enim sola justificat. Sancti Hilarii In Evangelium Matthaei
Commentarius, PL 9:961.
Basílio de Cesareia (Ad 329-379):
Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, que Cristo para
nós foi feito por Deus santificação, sabedoria, justificação, e redenção. Este
é o perfeito e puro gloriar-se em Deus, quando alguém não se orgulha devido à
sua própria justiça, mas sabe que é realmente indigno da verdadeira justiça e é
(ou foi, δεδικαιωμένον)
justificado unicamente pela fé em Cristo.
Ver
Chemnitz, Examination of the Council of Trent, Part 1, trans. Fred Kramer (St.
Louis: Concordia Publishing House, 1971), p. 505.
Texto Grego: `O kaucw,menoj evn Ku,ri,w| kauca,sqw( le,gw o[ti Cristo.j h`mi/n evgenh,qh sofi,a avpo. Qeou/( dikaiosu,nh te kai. a`giasmo.j kai. avpolu,trwsij\ `Ina kaqw.j ge,graptai( `O kaucw,menoj( evn Ku,ri,w| kauca,sqw) Au[th ga.r dh. h` telei,a kai. o`lo,klhroj kau,chsij evn Qew/|( o[te mh,te evpi. dikaiosu,nh| tij epai,retaith/| e`autou/( avll v e;gnw me.n evndeh/ o;nta evauto.n dikaiosu,nhj avlhqou/j( pi,stei de. mo,nh| th/| eivj Cristo.n dedikaiwme,on)
Homilia XX, Homilia De Humilitate, §3, PG 31:529. No contexto, Basílio apelava ao exemplo do Apóstolo Paulo como um homem regenerado.
Jerónimo (347-420) sobre Romanos 10:3:
Deus justifica somente pela fé.
Ignorantes enim justitiam Dei, et suam quaerentes statuere:
justitiae Dei non sunt subjecti. Ignorantes quod ***Deus ex sola fide
justificat*** et justos se ex legis operibus, quam non custodierunt, esse
putantes: noluerunt se remissioni subjicere peccatorum, ne peccatores fuisse
viderentur, sicut scriptum est: Pharisaei autem spernentes consilium Dei in
semetipsis, noluerunt baptizari baptismo Joannis. Item quia sacrificia legis,
et caetera, quae umbra erant veritatis, quae per Christum perfici habebant,
praesentia Christi cessaverunt: cui credere noluerunt: In Epistolam Ad Romanos,
Caput X, v. 3, PL 30:692D.
Hilário sobre Mateus 9:
"Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não
poderia conceder, pois somente a fé justifica."
Ou veja-se
a tradução em Tomás de Aquino, Catena Aurea: A Commentary on the Four Gospels
Collected out of the Works of the Fathers, 4 Volumes, trans. and ed. John
Henry Cardinal Newman (London: The Saint Austin Press, reprinted 1997), onde se
lê: "os pecados da sua alma que a Lei não poderia remir lhe são remidos,
pois somente a fé justifica.
Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non
poterat; fides enim sola justificat. Commentarius in Evangelium Matthaei, Caput
VIII, PL 9:961
Tomás de Aquino:
Os sacramentos da Nova Lei no entanto, embora sejam
elementos materiais, não são elementos carenciados, por isso podem justificar.
De novo, se houve alguém na Velha Lei, que foi justo, ele não foi feito justo pelas obras da Lei mas somente pela fé em Cristo "a quem Deus
propôs para ser uma propiciação mediante a fé", como se diz em Romanos
(3:25). Assim, os sacramentos da Antiga Lei eram determinadas protestações da
fé em Cristo, tal como os nossos sacramentos são, mas não da mesma maneira,
porque esses sacramentos estavam configurados para a graça de Cristo como algo
que está no futuro, os nossos sacramentos, no entanto, testemunham como coisas
que contém uma graça que está presente. Portanto, ele diz significativamente,
que não é pelas obras da lei que somos justificados, mas pela fé em Cristo,
porque, apesar de alguns que observaram as obras da Lei em tempos passados
terem sido feitos justos, não obstante, isso foi efetuado somente pela fé em
Jesus Cristo.
St. Thomas
Aquinas, Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galations, trans. F. R.
Larcher, O.P. (Albany: Magi Books, Inc., 1966), Chapter 2, Lecture 4, (Gal.
2:15-16), pp. 54-55.
18 de abril de 2012
2 de abril de 2012
Lutero disse que Cristo pecou cometendo adultério?
“Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Tischredden, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107).
Comecemos por fazer uma breve introdução.
As "Conversas à mesa" (Tischreden) de Martinho Lutero são uma compilação de diálogos com os seus discípulos e colegas, não um tratado formal de teologia.
A primeira edição alemã foi preparada por um dos que tomavam notas, Johannes Aurifaber (Goldschmitt) e publicada em 1566.
O texto das "Conversas" está disponível online numa tradução para o inglês em:
http://www.ccel.org/ccel/luther/tabletalk
http://www.reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html
Lutero disse e escreveu muito (a edição Weimar das suas obras soma 125 volumes) e nem tudo de qualidade uniforme. Não o consideramos de modo algum infalível. Como de qualquer outro cristão pós-apostólico, retemos apenas o que é bom.
Podem reprovar-se muitas coisas a Lutero. Em muitos sentidos foi um filho do seu tempo e um homem de contrastes entre a sua vasta erudição e as suas maneiras e formas de expressão.
Por outro lado, as indiscrições de Lutero, como as grosserias que, juntamente com coisas muito mais valiosas, poder-se-ão ter dito à sua mesa, empalidecem em comparação com a conduta dos supostos sucessores de Pedro contemporâneos seus.
"Parece que a época do Renascimento foi chamada a provar qual era a divindade romana mais indicada para ser patrona do Papado. Logo que foi afastada Vénus (Alexandre Bórgia), instalou-se na Cadeira de Pedro Marte: Júlio II (1503-1513), amigo da guerra ainda mais do que das artes, pelo que tomou o nome de Júlio César. Quando Miguel Ângelo quis retratá-lo com um livro na mão, se opôs com veemência: «Melhor, empunhando a espada»."
(Albert Wucher, Breve historia de los Papas. Trad. Pablo Simón. Buenos Aires: El Ateneo, 1963, p. 147; com censura eclesiástica).
Feita esta breve introdução passemos à citação em concreto.
A citação de Lutero tomada das suas Tischreden, originalmente, na mistura de latim e alemão em que Lutero costumava expressar-se nestas ocasiões, diz:
Christus ist am ersten ein Ebrecher (Ehebrecher) worden bei dem Brunn cum muliere, quia illi dicebant... Quid facit cum ea? Item cum Magdalena, item cum adultera (Tischr. 1472 II 107).
Que, literalmente traduzido, significa (a tradução é minha):
Cristo é primeiro adúltero junto ao poço com a mulher, porque naquele lugar diziam… Que faz com ela? Do mesmo modo, com Madalena. Do mesmo modo, com a adúltera.
Não obstante, como diz o historiador católico Ricardo García-Villoslada, na sua obra “Martín Lutero”, tomo II, página 251:
“É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.”
Portanto feito este esclarecimento necessário, conclui-se que a citação de Lutero tal como é apresentada está adulterada ou pelo menos foi grosseiramente mal-interpretada. Lutero não blasfemou contra nosso Senhor Jesus Cristo chamando-o de adúltero como querem fazer crer alguns apologistas católicos mal-intencionados.
