12 de junho de 2012

Resposta a “Uma pergunta para um irmão evangélico sério” do Padre Juan Carlos Sack – 2ª Parte


À resposta anterior recebi uma réplica do P. Juan Carlos, que por minha vez respondi.

Este diálogo prosseguiu até que o P. Juan Carlos teve que interrompê-lo devido às suas muitas ocupações.

[Juan Carlos] Tinha-te escrito uma carta muito mais extensamente, mas mudei de opinião, e creio que seria mais conveniente nos limitarmos a algum aspecto do tema, e segundo creio este é o aspecto central do artigo que escrevi, e que não me parece tenhas respondido diretamente, a saber, em que momento a Igreja passou de aceitar toda a tradição, a oral e a escrita, ao meramente escrito. Em relação a tudo o resto que me dizes, e que li com grande atenção, devo dizer-te que há coisas que me parecem muito oportunas, observações muito claras. Por outro lado há também muitos raciocínios que não acho lógicos, pois tentam provar coisas que eu aceito, junto com toda a Igreja Católica, como as Escrituras serem inspiradas por Deus. Não compreendo por que insistes em que "a pregação deve estar baseada na Bíblia", etc., pois isso o aceitamos também nós, e poderia citar-te Padres e Concílios que dizem isso. O que NÃO aceitamos é a doutrina da SOLA scriptura, como sabes.

[Fernando Saraví] Não me lembro de ter escrito a frase que citas entre aspas. Sem dúvida, não tem muito sentido esforçar-se por convencer alguém do que já crê. O tema central é se Sola Scriptura é um princípio válido ou não é.

Antes de prosseguir o nosso diálogo, convém resumir – para evitar mal-entendidos - o que os evangélicos entendem por Sola Scriptura. Digo isto porque embora "Sola Scriptura" – somente a Bíblia - possa tomar-se como uma declaração que não necessita de comentários, na realidade não é assim. Ocorre mais ou menos como com a teoria da Relatividade ... que não significa que "tudo é relativo". Sola Scriptura significa:

1. Que a Bíblia é a única regra infalível da fé (doutrina) e da prática (costumes).

2. Que o ensino da Bíblia é suficiente para que as pessoas aceitem Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e fazendo o que ela diz, alcancem a vida eterna.

Corolários:

1. A Igreja de Jesus Cristo não necessita de revelações que não se achem explicitamente ou por lógica e clara implicação na Bíblia.

2. Não há outra regra infalível de fé fora das Escrituras.

Por outro lado, Sola Scriptura NÃO significa:

1. Que a Bíblia contenha absolutamente tudo o que Deus disse e fez.

2. Que a Palavra de Deus não se tenha transmitido oralmente em muitas ocasiões e situações históricas.

3. Que a Igreja careça de autoridade para interpretar, ensinar e defender a Palavra de Deus.

4. Que toda a tradição não escrita deva ser rejeitada a priori e a fortiori.

Os cristãos evangélicos acreditam que a Igreja é coluna e fundamento da verdade, que deve ter mestres piedosos e conhecedores das Escrituras, e que muitas tradições são expressões válidas da fé cristã. Aceitam as expressões normativas dos Credos dos primeiros concílios ecuménicos, e levam a sério os ensinos dos Padres, assim como dos muitos e muito bons mestres, doutores e comentaristas que Deus deu à Igreja ao longo dos séculos. Não acreditam que a Escritura seja de interpretação privada (livre interpretação), mas sustentam o princípio do Livre Exame.

Se aceitam algumas coisas e rejeitam outras, o fazem com base no que consideram ser os ensinos das Escrituras. O ensino da tradição – sim, mesmo da sua própria tradição - , dos concílios, dos Padres, etc, deve conformar-se às Escrituras, que são a Palavra final, inspirada e infalível de Deus.

[Juan Carlos] De modo que, se não te importas, proponho delimitar o diálogo à própria pergunta do artigo: qual seria então o teu fundamento para pensar que o que não ficou escrito na Bíblia - por exemplo, a suposta Assunção de Maria aos céus -, ao não encontrar-se explicitamente relatado aí deva ser esquecido pela Igreja? Em outras palavras, QUANDO começou a doutrina de só a bíblia?

Tu escreves-me, por exemplo:

Até que ponto podem ser relevantes para a doutrina e a prática as coisas que os autores do Novo Testamento, inspirados pelo Espírito Santo, declinaram incluir nos seus escritos?

Conforme escreves, dá a impressão que para ti o que os autores do NT não puseram por escrito é pelo menos "pouco relevante". Estás a dizer, com bastante clareza, que o que não ficou escrito não é relevante.

[Fernando Saraví] Sugiro-te que leias de novo o parágrafo que precede a pergunta que citas. Em relação ao teu comentário, com efeito, a minha resposta é, certamente, que o que não ficou escrito não é relevante para a doutrina ou a prática.

Ora, o facto de eu ter uma resposta não significa que a pergunta seja retórica. Dado que se trata de um diálogo sobre certas diferenças, a pergunta exige uma resposta fundada.

Eu admitiria como resposta válida uma lista daquelas coisas ensinadas por Jesus ou pelos Apóstolos que, não contendo-se explicitamente ou por clara implicação nas Escrituras, são absolutamente necessárias para a salvação do ponto de vista doutrinal ou prático. Evidentemente, tal lista deverá ser acompanhada da documentação probatória de que tais coisas realmente remontam a Jesus ou aos Apóstolos.

Em relação às coisas que não são ensinadas na Bíblia e que hoje algumas Igrejas acreditam, muitas delas podem ser admitidas como crenças piedosas desde que não se oponham às Escrituras, mas de modo algum como algo que é necessário para a salvação. Isso não exime a Igreja de investigar diligentemente a origem de tais crenças, se é que quer cumprir a sua função como proclamadora da Verdade revelada por Deus. Se a origem é duvidosa ou diretamente espúria, pois... terá que discerni-lo e ensiná-lo claramente.

[Juan Carlos] Terias gostado que os escritores sagrados tivessem terminado os seus escritos com palavras deste teor: "Pois bem, aqui termina o meu evangelho-carta-atos, tudo o que eu não escrevi no meu livro, seja considerado irrelevante, ainda que tenha sido ensinado por Jesus e pelos Apóstolos". Considerarás ridícula tal expressão. Mas parece que não te é tão ridículo o conteúdo, pois perguntas até que ponto pode ser relevante o que não escreveram, sugerindo claramente a resposta: "pouco relevante, ou melhor, totalmente irrelevante, pois o Espírito Santo lhes mandou que o deixassem de fora". Ou seja, gostarias que cada livro bíblico tivesse terminado como te disse mais acima.

[Fernando Saraví] Suponho que um pouco de reflexão te convencerá da fraqueza deste argumento; parece-me que não corresponde ao nível desta discussão. A minha resposta breve é não, não gostaria, e além disso acharia muito difícil de acreditar que um escritor inspirado pelo Espírito Santo tivesse escrito tal coisa: “...seja considerado irrelevante, ainda que tenha sido ensinado por Jesus e pelos Apóstolos”. Quanto à ideia subjacente não se trata do meu gosto pessoal, mas dos factos tal como estão registados na história. Creio que um exame da evidência permite concluir razoavelmente que nada importante “para a vida e para a piedade” ficou de fora, e quem opine o contrário deverá fornecer evidência de quais verdades ou mandamentos fundamentais foram excluídos com o consentimento do Espírito Santo para serem transmitidos por via oral.

[Juan Carlos] No entanto isso não é assim, Deus não teve esse plano. TUDO o que disse e fez Jesus é relevante. "Ide e ensinai a guardar TUDO o que vos disse", disse Jesus. Houve algum apóstolo que pelo menos tenha sugerido que o que ele escreveu transmite TUDO? Realmente acreditas que é irrelevante o que não ficou escrito? A questão é esta: foi intenção de Deus REDUZIR o relevante da doutrina ao que ficou por escrito ou não? Tu dizes que sim, segundo toda a tua carta, eu digo que não.

[Fernando Saraví] Dizer que tudo o que disse e fez Jesus é relevante pode soar muito piedoso, mas creio que um instante de reflexão mostrará que é pouco realista. A Bíblia cala por completo tudo o que Jesus fez e disse até aos doze anos, e desde aí até aos (tradicionalmente) trinta anos. A Bíblia cala inclusive o conteúdo preciso dos ensinamentos relativos a muito do que Jesus disse depois de ressuscitar (Lucas 24:25-27, 44-47; Atos 1:3). Com toda a probabilidade, estas coisas foram, no entanto, incorporadas na paradosis apostólica, inicialmente oral e depois cristalizada por escrito no Novo Testamento. Eu creio que é bastante razoável afirmar que, ainda que nenhum Apóstolo individualmente tenha transmitido TUDO o que Jesus ensinou e mandou, o seu trabalho conjunto no Novo Testamento é um registo confiável e perpétuo do cumprimento dessa ordem do Senhor ressuscitado.

Embora se trate de uma hipérbole, julgo que há muito de substância no dito em João 21:25, “Jesus fez também muitas outras coisas, tantas que se cada uma delas fosse escrita, penso que os livros que se poderiam escrever não caberiam no mundo”. Há pouco tempo li que foram escritos algo como 65000 livros sobre Jesus.

Ora, o argumento que tu aplicas às Escrituras se aplica também à tradição oral: também não poderia conter TUDO o que fez e disse Jesus. Mesmo que pudesse, seria impossível para qualquer cristão individual, por mais erudito e consagrado que fosse, ter um conhecimento adequado de semelhante hipotético cúmulo de informação. Por outro lado, como antes te assinalava, à diferença das Escrituras, jamais Igreja alguma determinou sequer aproximadamente o conteúdo da suposta tradição oral de origem apostólica.

De modo que, voltando ao tema, creio que na revelação escrita em seu conjunto – Antigo e Novo Testamento - está contido TUDO o que Deus quis que soubéssemos para a nossa salvação e vida de fé. Aplica-se aqui aquilo de “As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas são para nós e para os nossos filhos, para que observemos todas as palavras desta Lei” (Deut 29:29).

[Juan Carlos] Não interessa o que a ti ou a mim nos pareça, como tu bem dizes citando Santo Agostinho, pois em questões de religião devemos buscar o que DEUS estabeleceu, não o que NÓS cremos ser o melhor (Jesus, tudo o que estabeleceu, o estabeleceu de modo oral... curioso, verdade?.

[Fernando Saraví] Acabas de tirar do contexto a citação a que te referes, uma vez que o bispo de Hipona continua dizendo “Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa”. Ou seja, que as Escrituras eram o árbitro final, e isto devido a que são o que Deus estabeleceu.

Deus mandou a Moisés que escrevesse tudo quanto lhe havia mandado, sem acrescentar nem diminuir (Deut 4:2). Também a Isaías, etc. Jesus e os Apóstolos usaram as Escrituras, não a tradição oral, para ensinar e refutar falsas crenças.

É verdade que Jesus não escreveu nada, como também é verdade que, desde a criação do mundo até ao tempo de Moisés não houve um registo inspirado do que Deus quis que soubéssemos... e não se trata de uma crónica exaustiva da história do mundo nem de TUDO o que Deus fez nesse tempo, mas da história da salvação. No caso dos ensinamentos de Jesus, o intervalo entre os factos e o seu registo escrito é de umas poucas décadas se tanto.

Ambos admitimos que os Apóstolos não agiram caprichosamente, mas em obediência à ordem do Senhor de transmitir fielmente os Seus ensinamentos. Quando São João recebeu a Revelação ou Apocalipse, Jesus lhe mandou que a escrevesse: Apoc 1:3, 11, 19; 2:1, 12 etc.).

Em outro lado, São João afirma que escreve “o que foi desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, isto vos anunciamos a respeito do Verbo da vida.” (1 João 1:1).

[Juan Carlos] No meu artigo eu dizia que é preciso ver o que Deus quis fazer e como Deus o quis fazer. Ele pode ter excluído da doutrina revelada - como o fazem, de facto, os evangélicos - tudo o que não está escrito explicitamente na Bíblia, ou melhor dizendo, pode ter querido que nós nos fiquemos com o que explicitamente diz a Bíblia, e basta. Mas... de onde tiramos essa doutrina? É evangélica? Foi ensinada por Jesus ou pelos apóstolos? Podes dar-me algumas citações? Que me dizes das citações onde se fala de conservar a doutrina oral, de cujas citações não mencionas nada?

[Fernando Saraví] Creio que podemos conhecer o que Deus quis fazer com base no que efetivamente fez, visto que os Seus propósitos não podem ser torcidos pela vontade do homem. É um erro grave sustentar que os evangélicos excluem da doutrina revelada tudo o que não está explicitamente escrito na Bíblia. Um exemplo óbvio deste erro é a doutrina da Santíssima Trindade, que não é ensinada explicitamente na Bíblia, mas pode deduzir-se dela como uma necessidade lógica das afirmações que sustentam que há um só Deus verdadeiro, que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus e ao mesmo tempo Pessoas diferentes.

Do mesmo modo, a doutrina da Sola Scriptura pode deduzir-se como logicamente necessária a partir dos dados da Bíblia e da história. Mais à frente ocupo-me da história; por agora vejamos como se deduz da Bíblia, porque

[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar 7:8-9 e par.). Não falamos aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.

[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.

[3] Porque Jesus Cristo acusou os judeus não de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).

[4] Porque aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar 12:24-27 e par.).

[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do AT puseram por escrito os seus.

[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3:15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao AT não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu caráter normativo.

[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3:15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).

[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no AT (Atos 17:11).

[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9: 23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.

[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

[Juan Carlos] Ou pelo menos, foi ensinada pela Igreja em algum momento da história? Tu sabes quando os cristãos começaram a guiar-se exclusivamente pelo que diz a Bíblia, deixando de lado os ensinamentos da Igreja que não estavam contidos explicitamente na Bíblia?

[Fernando Saraví] Como o indiquei antes, “explicitamente” é uma qualificação que não convém nem às crenças católicas romanas, nem às cristãs evangélicas (nem às ortodoxas orientais se formos por aí).

Além disso, não estávamos a discutir os ensinamentos da Igreja. Como já disse, os evangélicos não questionam o direito ou melhor dito a obrigação kerigmática, docente e disciplinar da Igreja, mas os colocam em subordinação ao claro ensinamento escritural.

O foco da discussão era a Sola Scriptura (tal como a delimitei antes) e consequentemente, os supostos ensinamentos orais de origem apostólica que não se encontram na Bíblia.

O problema é que tal tradição oral, se é que existe, carece da precisão, clareza, incorruptibilidade e confiabilidade da revelação escrita. Se pomos como exemplo os ditos e feitos de Jesus e dos Apóstolos que não aparecem no NT, sabes perfeitamente que há um grande acúmulo de literatura apócrifa que tentou preencher este vazio. Diversos estudiosos tentaram identificar possíveis ditos autênticos de Jesus que puderam ter-se transmitido por esta via, com um sucesso muito baixo (por exemplo, o luterano Joachim Jeremias no seu “Palavras desconhecidas de Jesus”). Estas fontes seguramente confiariam em diversas tradições – como a refutada por São João que já mencionei - que não eram de modo nenhum confiáveis. Acertadamente, a antiga Igreja católica cedo rejeitou todas estas lendas e especulações.

Não insisti, como assinalas, nas ordens apostólicas de receber o que eles ensinaram tanto por escrito como verbalmente (embora na minha primeira carta tenha incluído uma série de citações a tal respeito) por uma razão muito simples. Os Apóstolos receberam do Senhor a sua missão como Testemunhas do Cristo ressuscitado. Enquanto eles viviam, era natural que tanto os seus ensinamentos orais como escritos fossem recebidos como a doutrina autorizada pelo próprio Deus. Isto não está em discussão: os Apóstolos ensinaram com autoridade tanto oralmente como por escrito. No entanto, há uma diferença importante entre autoridade e infalibilidade. Como católico, podes facilmente entender esta diferença, pois aplica-se ao magistério ordinário e extraordinário (ex cathedra) do Papa.

O facto dos Apóstolos terem possuído tal autoridade não significa que fossem infalíveis em todos os seus ensinamentos e condutas. Na realidade existem indicações de que este não era o caso, como quando São Paulo teve de exortar São Pedro pelo seu comportamento reprovável em Antioquia (Gálatas 2:11-14). Também São Paulo, nos seus conselhos aos coríntios, distingue entre o que é mandamento do Senhor do que é a sua própria postura, sem dúvida válida e autorizada mas ainda assim não necessariamente inspirada (1 Cor 7:10,12).

Por conseguinte, é preciso traçar uma distinção entre tudo o que os Apóstolos fizeram e disseram, e os seus ensinamentos inspirados e portanto infalíveis. Estes últimos se encontram com certeza no Novo Testamento. Dos outros, pouco sabemos. As supostas tradições orais, pela sua própria natureza, não são fontes confiáveis, muito menos infalíveis, do que os Apóstolos ensinaram. A Bíblia sim.

Deveria ser evidente que a Igreja primitiva compreendeu claramente a diferença entre a autoridade e vigência permanente do escrito. Não se pode assinalar com precisão um “momento”, porque não o houve. Depois que os Apóstolos morreram, persistiram por um tempo alguns dos seus ensinamentos orais, transmitidos pelos seus ouvintes diretos. A julgar por alguns deles que menciona Ireneu, tais ensinamentos sofreram rápida corrupção. O exemplo das tradições supostamente apostólicas conservadas pelo ilustre mas pouco crítico bispo de Hierápolis, Papias, devia bastar como advertência.

Já desde o século II os mestres da Igreja, como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, etc., provam as suas doutrinas mediante as Escrituras. Sem dúvida que defendem o papel fundamental da Igreja, assim como a sua tradição interpretativa, mas não a colocam jamais acima das Escrituras. Em outras palavras, ainda que não usassem a expressão “Sola Scriptura” procuravam basear os seus ensinamentos no escrito, e não em supostas tradições apostólicas independentes. Este feliz estado de coisas manteve-se por séculos, e deu como resultado global (sem discutir detalhes como o batismo infantil) a sustentação da ortodoxia bíblica pelo conjunto da Igreja, expressa entre outras coisas pelos Credos históricos.

Já no segundo século – ou seja, logo que morreu o último Apóstolo - se perfila o núcleo do que constituirá o NT. A autoridade apostólica, a consistência interna, a antiguidade e a catolicidade destes Escritos sagrados foram alguns dos fatores que influíram na sua pronta aceitação. Em finais do século IV o cânon alcançou a sua forma atual, mas já existia desde muito antes um amplo consenso em termos gerais. Ao fixar o cânon, a Igreja universal não concedeu aos escritos alguma autoridade que não tivessem intrinsecamente, como Palavra inspirada de Deus. O que a Igreja fez foi dar testemunho ao mundo de tal qualidade. Notavelmente, em contrapartida, a Igreja primitiva não fez a mesma coisa com alguma tradição oral.

Um par de séculos mais tarde, no entanto, começou a propiciar-se a noção da tradição como “outra fonte de revelação”. O sucesso de tal inovação evidencia-se no curso posterior dos factos. Quando chegamos ao século XVI o clamor de reforma dentro da Igreja do Ocidente (governada desde Roma) era tão intenso como extenso. Os Reformadores não fizeram senão reformular um princípio que tinha sido informalmente admitido já pela Igreja subapostólica.

[Juan Carlos] A minha posição é esta: a própria Bíblia - tomada por ti e por mim como a Palavra de Deus escrita - ensina o contrário: nunca limita a revelação a um livro ou a cem livros.

[Fernando Saraví] Pois, querido irmão, este é um argumento perigosíssimo. Tanto os católicos como os evangélicos sustentam que a revelação de Deus em Cristo é a Palavra divina final e definitiva para a humanidade, e que não devemos esperar outra revelação antes de o Senhor voltar. Que a Bíblia não o diga explicitamente não significa que não possa corretamente inferir-se dela (Hebreus 1:1-3, etc).

Da perspetiva evangélica, os desvios doutrinais mais graves ocorreram não pela adesão à Sola Scriptura, mas precisamente pelo seu abandono. Isto se aplica tanto aos católicos como aos protestantes. Por exemplo, no mormonismo as revelações de Joseph Smith têm precedência sobre a Escritura. Entre as Testemunhas de Jeová pouco importa o que os membros interpretem: o seu Corpo Governante decide por eles qual é A interpretação das Escrituras (e as mudam com frequência). De igual modo, no catolicismo romano é o abandono de Sola Scriptura o que torna tão difícil de conciliar as diferenças com outros cristãos que partilham com ele muitas doutrinas fundamentais.

[Juan Carlos] (o que dizes de Apocalipse 22 é uma aplicação que tu fazes a toda a Bíblia do que São João escreveu em relação às profecias de UM livro: com que autoridade o fazes? posso eu pensar que NÃO se referia a toda a Bíblia? quem decide a questão?).

[Fernando Saraví] Parece-me que não leste esta parte com cuidado. A minha alusão a Apocalipse 22 era uma resposta concreta a esta afirmação tua: “Ninguém pode dizer baseado em algum texto bíblico que os autores dos textos do Novo Testamento quiseram limitar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos ao que eles estavam escrevendo”.

Agora lê COM CUIDADO o que eu escrevi a tal respeito (depois de citar o texto): “Isto significa que, contrariamente ao que dizes, pelo menos um autor bíblico, e um muito importante, considerou apropriado restringir taxativamente os limites desta revelação. Claro está que em sentido estrito esta advertência somente é válida para o Apocalipse, mas por outro lado o facto de ter sido provavelmente o último livro bíblico a escrever-se, e a Igreja primitiva ter considerado apropriado colocá-lo no final da Bíblia não pode passar-se levianamente por alto”.

Da advertência de João observa-se que ele considerava fundamental que este documento não fosse alterado de modo algum. Não achas que este princípio é apropriado para todo o NT?

10 de junho de 2012

PONTOS DE VISTA DE ALGUNS PADRES DA IGREJA SOBRE O BATISMO


Entre os Padres antenicenos, (pseudo) Barnabé fala do batismo como uma purificação para os que colocaram a sua confiança na cruz.
Justino Mártir menciona que podemos obter «na água a remissão de pecados» quando é pronunciado «sobre quem escolhe ser nascido de novo e se arrependeu dos seus pecados» o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Em outro lado Justino fala do batismo como de água da vida, capaz de purificar a alma, comparando-o com «o batismo que somente limpa a carne e o corpo». E também diz que Cristo nos redimiu sendo crucificado no madeiro e purificando-nos com água.
Teófilo fala do batismo como «um sinal de homens destinados a receber arrependimento e remissão de pecados, através da água e lavagem da regeneração - tantos quantos venham à verdade e nasçam de novo».
Ireneu pergunta, quando trazemos a imagem do Celestial? E responde: «Sem dúvida quando Ele diz, "Haveis sido lavados", crendo no nome do Senhor».
Em outro lado compara o batismo com a lavagem de Naamã o sírio, e toma-o como um símbolo para nós, que somos leprosos em pecados. Somos, diz, «limpos das nossas velhas transgressões por meio da água sagrada e da invocação do Senhor», e cita João 3:5.
Clemente de Alexandria afirma que «nos arrependemos dos nossos pecados, renunciamos às nossas iniquidades, e somos purificados pelo batismo».
Tertuliano tem várias passagens que sugeririam uma regeneração batismal, mas também diz claramente: «Não somos lavados para que possamos cessar de pecar, mas porque cessámos, já que no coração já fomos lavados. Pois o primeiro batismo do crente é este: um perfeito temor...».
Hipólito compara a Igreja com um barco, e diz que a rede que traz é «o banho da regeneração que renova os que creem ... Como o vento, o Espírito que vem do céu está presente, por quem aqueles que creem são selados».
Orígenes nota que o benefício do batismo «está ligado com a intenção da pessoa batizada. Para quem se arrepende, é salvador. No entanto, para quem vem a ele sem arrependimento, produzirá maior condenação».
Entre os Padres do século III, é Cipriano quem apresenta mais claramente a posição da regeneração batismal, embora também Vitorino e Metódio se expressem nesta direção. No entanto, não o entendem no sentido ex opere operato (em virtude do próprio ato) como o ensina a Igreja Católica. [1]
Em finais do seguinte século, as Constituições Apostólicas sustentam que quando os pagãos se arrependem são recebidos na Igreja, mas não são admitidos à comunhão «até terem recebido o selo do batismo e se tornado cristãos completos».

[1] A formulação da eficácia sacramental como ex opere operatum, em virtude do próprio ato realizado, em lugar de opus operans, a ação subjetiva ou opus operantis, em virtude da disposição subjetiva de quem recebe o sacramento, é um legado da escolástica (a partir de finais do século XII). A doutrina foi afirmada dogmaticamente no Concílio de Trento, na sua Sétima Sessão de 3 de Março de 1547.  

9 de junho de 2012

Calvino: O que veio primeiro? A Escritura ou a Igreja?


“Entretanto, tem prevalecido o erro perniciosíssimo de que o valor que assiste à Escritura é apenas até onde os alvitres da Igreja concedem. Como se de fato a eterna e inviolável verdade de Deus se apoiasse no arbítrio dos homens! Pois, com grande escárnio do Espírito Santo, assim indagam: “Quem porventura nos pode fazer crer que essas coisas provieram de Deus?” Quem, por acaso, nos pode atestar que elas chegaram até nossos dias inteiras e intatas? Quem, afinal, nos pode persuadir de que este livro deve ser recebido reverentemente, excluindo um outro de seu número, a não ser que a Igreja prescrevesse a norma infalível de todas essas coisas?””

“Mas, palradores desse gênero se refutam sobejamente com apenas uma palavra do Apóstolo. Categoriza ele [Ef 2.20] que a Igreja se sustém no fundamento dos profetas e dos apóstolos. Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir. Nem procede o que sofisticamente arrazoam, a saber, ainda que daqui derive a Igreja sua origem e começo, a não ser que se interponha o arbítrio da própria Igreja, permanece em dúvida quais coisas se devam atribuir aos profetas e aos apóstolos. Ora, se de início a Igreja Cristã foi fundada nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, onde quer que esta doutrina se encontre, sua aceitação, sem a qual a própria Igreja jamais teria existido, indubitavelmente precedeu à Igreja.

Portanto, mui fútil é a ficção de que o poder de julgar a Escritura está na alçada da Igreja, de sorte que se deva entender que do arbítrio desta, a Igreja, depende a certeza daquela, a Escritura. Consequentemente, enquanto a recebe e com sua aprovação a sela, a Igreja não a converte de duvidosa em autêntica, ou de outro modo seria controvertida; ao contrário, visto que a reconhece como sendo a verdade de seu Deus, por injunção da piedade, a venera sem qualquer restrição.

Quanto, porém, ao que perguntam: Como seremos persuadidos de que as Escrituras provieram de Deus, a não ser que nos refugiemos no decreto da Igreja? É exatamente como se alguém perguntasse: de onde aprenderemos a distinguir a luz das trevas, o branco do preto, o doce do amargo? Pois a Escritura manifesta plenamente evidência não menos diáfana de sua veracidade, que de sua cor as coisas brancas e pretas, de seu sabor, as doces e amargas.”

Fonte: As Institutas de João Calvino I.7.1-2

5 de junho de 2012

A SOLA SCRIPTURA É UM PRINCÍPIO BÍBLICO E HISTÓRICO


A Sola Scriptura é um princípio bíblico, amplamente fundamentado na própria Bíblia, observado pelos Padres primitivos e recuperado pela reforma protestante, que tinha ficado sepultado pela avalanche de tradições eclesiásticas acumuladas durante séculos na Igreja de Roma.

A Sola Scriptura como princípio bíblico

Um exame do Novo Testamento nos mostra que:

[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar. 7:8-9 e par.). Não falamos aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.

[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.

[3] Jesus Cristo nunca acusou os judeus de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).

[4] Aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar. 12:24-27 e par.).

[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do Antigo Testamento puseram por escrito os seus.

[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3:15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao Antigo Testamento não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu caráter normativo.

[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3:15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).

[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no Antigo Testamento (Atos 17:11).

[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9:23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.

[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

Durante um intervalo de cerca de mil anos, o tempo que demorou a formar-se o Antigo Testamento, Deus falou de muitas maneiras e em repetidas ocasiões, mas foi inculcando no povo judeu o valor das Escrituras. No caso do Novo Testamento, o intervalo entre os ensinos divinos e a sua colocação por escrito foi vinte vezes menor. A quantidade e qualidade de informação histórica, doutrinal e prática do Novo Testamento não pode comparar-se com as tradições orais, muitas vezes duvidosas, que se encontram nos escritos dos Padres. O apelo válido à tradição nos Padres refere-se à compreensão e aplicação da doutrina estabelecida firmemente nas Escrituras. E, naturalmente, sabemos hoje que apelaram a esta tradição interpretativa... porque eles próprios o puseram por escrito.

A Sola Scriptura como princípio histórico

Diz-se que se se perdessem todas as cópias do Novo Testamento, se poderia reconstruí-lo com base nas citações patrísticas. Os escritores cristãos primitivos, apologistas, pastores e teólogos dos primeiros séculos, não apelavam a supostas tradições doutrinais mas às Escrituras. É certo que encontramos numerosas alusões à "regra de fé da Igreja" e à "tradição eclesiástica", mas não se trata de uma tradição doutrinal à parte das Escrituras, mas da forma tradicional de interpretá-las e aos usos e costumes. Para os Padres dos primeiros séculos, a Sagrada Escritura é a tradição doutrinal da Igreja, e o autêntico registo da tradição Apostólica. Assim, Tertuliano (160-220) diz que aos hereges não se lhes deve conceder o uso das Escrituras para redarguir, porque não lhes pertencem; as Escrituras são património da Igreja, base e fundamento da sua doutrina (J. Quasten, Patrología I, p. 569). "Porque onde vejamos certamente a verdade da doutrina e da fé cristã, aí indubitavelmente se acham também as verdadeiras Escrituras, a verdadeira interpretação, as verdadeiras tradições cristãs" (De Prescriptione Haereticorum, 20).

Por exemplo, nos escritos conservados de Orígenes, homem de vastíssima erudição, não encontramos apelos a tradições doutrinais extrabíblicas, apesar de que, dadas as especulações deste Padre, tais tradições poderiam ter sido muito interessantes. Eusébio de Cesareia (Hist Ecl VI, 25:11-14) conservou as reflexões de Orígenes a propósito do autor de Hebreus, e todas elas se baseiam em evidências internas da epístola. Parece que no seu tempo (segunda metade do século III) não havia tradição confiável a tal respeito.

Ireneu de Lyon (ca. 140-205) escreveu: "... as Escrituras são na verdade perfeitas, sendo que elas foram faladas ou ditadas pela Palavra de Deus e pelo Seu Espírito..." (Adv Haer II, 28).

"Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé" (Adv Haer III, 1,1).

Ireneu também tem a Igreja como depositária das Escrituras e possuidora de um entendimento correto destas: "... mas melhor é que nos refugiemos na Igreja, sejamos educados em seu seio, e nos alimentemos da Escritura do Senhor" (Adv Haer V,20:2).

Numa carta a Florino conservada por Eusébio, Ireneu recorda Policarpo – segundo a tradição discípulo de São João Apóstolo - e o louva porque "tudo relatava em consonância com as Escrituras" (Hist Ecl V, 20:6).

Ainda João Crisóstomo (347-407) escreveu: "Possuímos a regra e o padrão mais exato e perfeito para regular as nossas diversas inquirições: refiro-me à regulação das leis divinas. Eu, portanto, gostaria que todos vocês rejeitassem o que este ou aquele homem diz, e que investigassem todas estas coisas nas Escrituras" (Hom. 13, 4:10 ad fin. in 2 Cor.). Parece que o insigne pregador não estaria hoje de acordo com a Igreja de Roma. Quasten recalca: "O maior orador sagrado da Igreja antiga baseia toda a sua pregação na Escritura" (o.c., p. 528).

Pela mesma época, Gregório de Nissa (330-395) afirmou: "Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos"; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso" (De anima et resurr.)

Igualmente Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito de seu tempo, disse: "É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques" (Adv Helv).

Também o grande Agostinho de Hipona (354-430) era do mesmo parecer. O bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento: "Nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa". Nas suas Confissões (VI, 5:2-3) declara: "Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não creem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..."

Os exemplos poderiam multiplicar-se. De maneira que os Padres a partir do século II baseiam as suas doutrinas nas Escrituras e, ainda que se mostrem zelosos em conservar a tradição interpretativa eclesiástica, não apelam a tradições orais doutrinais. A ter existido tal coisa, deverá ter sido de natureza independente e secreta; mas é precisamente este género de tradição o que Ireneu severamente condena, por sua origem espúria (Adv Haer III, 3:1).

17 de maio de 2012

Os concílios ecuménicos e a perpétua virgindade de Maria


A crença na perpétua virgindade de Maria difundiu-se rapidamente a partir da sua formulação por Jerónimo e Sirício em finais do século IV, até ao ponto de a partir do século seguinte os bispos de Roma a incorporarem nos seus escritos e provavelmente (ver mais abaixo) aparecer tal crença no contexto de cânones conciliares, embora estes fossem destinados primariamente a salvaguardar a Pessoa de Cristo e não a exaltar Maria.
É instrutivo comparar os ensinamentos dos Concílios Ecuménicos sucessivos para notar a forma em que se desenvolveu a crença na perpétua virgindade de Maria.
Ano 325. Segundo o Credo de Niceia, Jesus Cristo “por nós homens e por nossa salvação desceu e encarnou e se fez homem”.
Maria não é sequer mencionada.
Ano 381. Segundo o Credo chamado Niceno-Constantinopolitano, Jesus Cristo “por nós homens e por nossa salvação desceu do céu e encarnou pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, e se fez homem”.
Aqui menciona-se Maria, e a sua condição virginal no momento da concepção.
Ano 431. Segundo os anátemas de Cirilo contra Nestório no Concílio de Éfeso,
Se alguém não confessa que Deus é segundo verdade o Emanuel, e que por isso a santa Virgem é mãe de Deus (pois deu à luz carnalmente o Verbo de Deus feito carne), seja anátema”.
Também aqui não se menciona a “sempre virgem”.
Ano 451. No Concílio de Calcedónia, na definição sobre as duas naturezas de Cristo, diz-se que foi
“...gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e o mesmo, nos últimos dias, por nós e por nossa salvação, gerado de Maria Virgem, mãe de Deus, quanto à humanidade...”
Os bispos de Calcedónia acrescentaram esta advertência:
Assim, pois, depois de com toda a exactidão e cuidado em todos os seus aspectos ter sido por nós redigida esta fórmula, definiu o santo e ecuménico Concílio que a ninguém será lícito professar outra fé, nem sequer escrevê-la  ou compô-la, nem senti-la, nem ensiná-la.
Apesar da extrema exactidão e cuidado que os bispos conciliares afirmam ter exercido, ainda não dizem “Maria sempre Virgem”, mas “Maria Virgem” no contexto da concepção de Jesus.
Em outras palavras, o dogma da perpétua virgindade não aparece de forma implícita, nem explícita, nos cânones dos quatro primeiros concílios ecuménicos.
Note-se que isto não se deveu a que não tivesse havido quem ensinasse o contrário. Já Tertuliano em princípios do século III e no IV primeiro Helvídio, depois Joviniano e mais tarde Bonoso, bispo de Ilíria, sustentaram que Maria teve mais filhos depois de dar à luz Jesus. Isto ocorreu décadas antes dos concílios de Éfeso e Calcedónia.
Ano 553. O Concílio II de Constantinopla é habitualmente indicado como tendo sido o primeiro a fazer referência à virgindade perpétua. No cânon 2 dos anátemas contra os «três capítulos» lê-se:
Can. 2. Se alguém não confessa que há dois nascimentos de Deus Verbo, um do Pai, antes dos séculos, sem tempo e incorporalmente; outro nos últimos dias, quando Ele mesmo baixou dos céus, e se encarnou da santa gloriosa mãe de Deus e sempre Virgem Maria, e nasceu dela; esse tal seja anátema.
No entanto, inclusive em relação a este próprio concílio II de Constantinopla, a evidência é questionável:
As actas gregas originais do Concílio perderam-se, mas existe uma versão latina muito antiga, provavelmente contemporânea e feita para o uso de Vigílio, certamente citada pelo seu sucessor Pelágio I.... No seguinte Concílio Geral de Constantinopla (680) verificou-se que as Actas originais do Concílio tinham sido adulteradas (Hefele, op.cit., II, 855-58) a favor do monotelismo; nem é seguro que na sua forma presente as tenhamos na sua plenitude original (ibid., pp. 859-60).
(Thomas J. Shahan, em The Catholic Encyclopedia, s.v. Constantinople, Second Council of)
É interessante que no seguinte Concílio III de Constantinopla (sexto ecuménico) os bispos se expressaram como se segue:
Seguindo os cinco santos Concílios Ecuménicos e os santos e aprovados Padres com uma voz define que nosso Senhor Jesus Cristo deve ser confessado como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, subsistente em alma racional e corpo; consubstancial com o Pai na sua divindade e consubstancial connosco na sua humanidade; em todas as coisas como nós, excluindo somente o pecado; gerado de seu Pai antes de todas as épocas segundo a sua divindade, mas nestes últimos dias, por nós homens e por nossa salvação se fez homem do Espírito Santo e da Virgem Maria, estrita e propriamente a mãe de Deus segundo a carne; um e o mesmo Cristo nosso Senhor, o unigénito Filho no qual deve reconhecer-se duas naturezas inconfundível, imutável, inseparável e indivisivelmente ...”
(Sessão XVIII; negrito acrescentado).
Como pode ver-se, nesta declaração que expressamente afirma a sua adesão aos cinco Concílios Ecuménicos anteriores, não diz aqui «sempre Virgem Maria» mas, como nos Concílios anteriores a II Constantinopla, simplesmente «a Virgem Maria».
Traduzido da edição de Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, 14:345.
Conclusão
1) Não há evidência de que a perpétua virgindade de Maria fosse ensinada por autores ortodoxos (em sentido estrito) dos primeiros três séculos do cristianismo.
2) A doutrina da perpétua virgindade foi exposta por Jerónimo em 384, no seu tratado contra Helvídio. Com o auge do ascetismo e do monaquismo, tornou-se popular nos séculos seguintes.
3) A primeira referência expressa num cânon conciliar é, ainda que questionável, no Concílio II de Constantinopla de 553, celebrado contra a vontade e sem a participação do bispo de Roma Vigílio. O cânon em questão é uma definição cristológica sobre a natureza divina e humana do Senhor, que menciona de passagem a «sempre Virgem». Não é, pois, uma definição dogmática sobre a perpétua virgindade.
4) A doutrina da perpétua virgindade de Maria não foi objecto de uma definição dogmática por um concílio ecuménico no primeiro milénio.

1 de maio de 2012

“SOLA FIDE” (A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) NA IGREJA PRIMITIVA


Clemente de Roma:

"Quem quiser sinceramente considerar cada particular, reconhecerá a grandeza dos dons que foram dados por ele. Porque dele, surgiram os sacerdotes e todos os levitas que ministram no altar de Deus. A partir dele também [era descendente] nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne. A partir dele [surgiram] reis, príncipes e governantes da raça de Judá. Nem estão as suas outras tribos em pequena glória, visto que Deus havia prometido, "a tua descendência será como as estrelas do céu". Todos estes foram, portanto, muito honrados, e engrandecidos, não pelo seu próprio bem, ou pelas suas próprias obras, ou pela justiça que eles tinham feito, mas através da operação da Sua vontade. E nós, também, sendo chamados pela sua vontade em Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa própria sabedoria, ou entendimento, ou piedade, ou obras que tenhamos feito em santidade de coração, mas por meio da fé através da qual, desde o início, Deus Todo-Poderoso tem justificado todos os homens; ao qual seja a glória para todo o sempre. Amen.

ANF: Vol. I, The Apostolic Fathers, First Epistle of Clement to the Corinthians, Chapter 32.

Mathetes a Diogneto:

Enquanto suportou o tempo antigo, Ele permitiu que fôssemos levados por impulsos incontroláveis​​, sendo atraídos pelo desejo de prazer e de várias paixões. Não é que ele se comprazeu nos nossos pecados, mas simplesmente suportou-os, nem é que Ele aprovou o tempo da operação da iniquidade que então havia, mas procurou formar uma mente consciente de justiça, de modo que sendo convencidos nesse tempo da nossa indignidade para alcançar a vida através das nossas próprias obras, devesse agora, graças à bondade de Deus, nos ser concedida; e tendo tornado manifesto que em nós mesmos fomos incapazes de entrar no reino de Deus, pudéssemos através do poder de Deus ser capacitados. Mas quando a nossa maldade havia chegado ao seu auge, e tinha sido claramente demonstrado que a sua recompensa, punição e morte, era iminente sobre nós, e quando chegou o tempo que Deus havia antes determinado para manifestar a sua própria bondade e poder, segundo o amor de Deus, excedeu totalmente a consideração para com os homens, não nos considerou com ódio, nem nos afastou para longe, nem lembrou a nossa iniquidade contra nós, mas mostrou grande longanimidade, e carregou connosco. Ele mesmo tomou sobre si o peso das nossas iniquidades, Ele deu o Seu próprio Filho em resgate por nós, o Santo pelos transgressores, o inocente pelo ímpios, o justo pelos injustos, o incorruptível pelo corruptível, o imortal pelos que são mortais. Pois que outra coisa era capaz de cobrir os nossos pecados senão a Sua justiça? Por qual outro era possível que nós, os ímpios e perversos, pudéssemos ser justificados, senão pelo único Filho de Deus? Ó doce troca! Ó operação insondável! Ó benefícios que ultrapassam toda a expectativa! que a maldade de muitos deveria ser encoberta num único justo, e que a justiça de Um deveria justificar muitos transgressores! Tendo, pois, nos convencido no tempo antigo que a nossa natureza era incapaz  de alcançar a vida, e tendo agora revelado o Salvador que é capaz de salvar mesmo aquelas coisas que eram [antigamente] impossíveis de salvar, por esses dois factos ele desejou levar-nos a confiar na Sua bondade, a estimá-lo nosso Provedor, Pai, Professor, Conselheiro, Curador, nossa Sabedoria, Luz, Honra, Glória, Poder e Vida, de modo que não devemos estar ansiosos quanto a roupas e comida.

Ante-Nicene Fathers: Volume I, Mathetes to Diognetus, Chapter 9.

Crisóstomo (349-407):

O próprio patriarca Abraão antes de receber a circuncisão foi declarado justo em resultado da fé somente: antes da circuncisão, o texto diz, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”

Fathers of the Church, Vol. 82, Homilies on Genesis 18-45, 27.7 (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1990), p. 167.

Crisóstomo (349-407): Pois, se mesmo antes disto, a circuncisão tornou-se incircuncisão, muito mais tem-se tornado agora, já que é lançada fora de ambos os períodos. Mas depois de dizer que "foi excluída", ele mostra também, como. Como, então, ele diz que foi excluída? "Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé" Vê que ele chama a fé também uma lei deleitando-se em manter os nomes, e assim afastar a aparente novidade. Mas o que é a "lei da fé?" Trata-se de ser salvo pela graça. Aqui ele mostra o poder de Deus, em que Ele não só salvou, mas também justificou, e os levou à vanglória, e isto sem precisar de obras, mas olhando para a fé somente.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 7, vs. 27.

Crisóstomo (349-407):

Para uma pessoa que não tinha obras, ser justificado pela fé, não era nada implausível. Mas para uma pessoa ricamente adornada com boas ações, não ser feito justo segundo isso, mas segundo a fé, é coisa para causar espanto, e para definir o poder da fé numa forte luz.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 8, Rom. 4:1, 2.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), escreveu ao comentar 1 Cor. 1:4b:

Deus decretou que uma pessoa que crê em Cristo pode ser salva sem obras. Somente pela fé ela recebe o perdão dos pecados.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VII: 1-2 Corinthians (Downers Grove: InterVarsity Press, 1999), p. 6.

Latim de Migne: Datam dicit gratiam a Deo in Christo Jesu, quae gratia sic data est in Christo Jesu; quia hoc constitutum est a Deo, ut qui credit in Christum, salvus sit sine opere: sola fide gratis accipit remissionem peccatorum. In Epistolam B. Pauli Ad Corinthios Primam, PL 17:185

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 1:11:

A misericórdia de Deus foi dada por esta razão, para que deixassem as obras da lei, como eu já disse muitas vezes, porque Deus, tendo piedade das nossas fraquezas, decretou que a raça humana seria salva pela fé somente, juntamente com a lei natural.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 23.

Latim de Migne: Nam misericordia Dei ad hoc data est, ut Lex cessaret, quod saepe jam dixi; quia Deus consulens infirmitati humanae, sola fide addita legi naturali, hominum genus salvare decrevit. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:53.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 2:12:

Porque, se a lei é dada não para os justos, mas para os injustos, quem não peca é um amigo da lei. Para ele, somente a fé é o caminho pelo qual ele é aperfeiçoado. Para outros mera evitação do mal não lhes vai obter alguma vantagem com Deus a menos que eles também creiam em Deus, de modo que possam ser justos em ambos os casos. Para a justiça é um temporal; o outro é eterno.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 65.

Latim de Migne: Si enim justo non est lex posita, sed injustis; qui non peccat, amicus legis est. Huic sola fides deest, per quam fiat perfectus quia nihil illi proderit apud Deum abstinere a contrariis, nisi fidem in Deum acceperit, ut sit justus per utraque; quia illa temporis justitia est, haec aeternitatis. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:67.

Ecuménio (Século VI), comentando sobre Tiago 2:23:

Abraão é a imagem de alguém que é justificado somente pela fé, pois o que ele acreditou lhe foi imputado como justiça. Mas ele também foi aprovado por causa das suas obras, uma vez que ele ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar. É claro que ele não fez esta obra por si só, ao fazê-la, ele permaneceu firmemente ancorado em sua fé, crendo que através de Isaque a sua descendência seria multiplicada até que fosse tão numerosa como as estrelas.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. XI, James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 33. Ver PG 119:481.

Beda (672/673-735), comentando sobre Paulo e Tiago:

Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras, aqueles que entendem por isto que não importa se levam uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de fé, para mostrar que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão, porque o dom da justificação vem somente pela fé.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament XI: James, 1-2Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 31.

Texto Latino: Quoniam Paulus apostolus praedicans justificari hominem per fidem sine operibus, non bene intellectus est ab eis qui sic dictum acceperunt, ut putarent, cum semel in Christum credidissent, etiam si male operarentur, et facinorose flagitioseque viverent, salvos se esse per fidem: locus iste hujus epistolae eumdem sensum Pauli apostoli quomodo sit intelligendus exponit. Ideoque magis Abrahae exemplo utitur, vacuam esse fidem si non bene operetur, quoniam Abrahae exemplo etiam Paulus usus est, ut probaret justificari hominem sine operibus posse. Cum enim bona opera commemorat Abrahae, quae ejus fidem comitata sunt, satis ostendit apostolum Paulum, non ita per Abraham docere justificari hominem per fidem sine operibus, ut si quis crediderit, non ad eum pertineat bene operari, sed ad hoc potius, ut nemo arbitretur meritis priorum bonorum operum se pervenisse ad donum justificationis quae est in fide. Super Divi Jacobi Epistolam, Caput II, PL 93:22.

Hilário de Poitiers (c 315-67) sobre Mateus 9:

Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Sancti Hilarii In Evangelium Matthaei Commentarius, PL 9:961.

Basílio de Cesareia (Ad 329-379):

Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, que Cristo para nós foi feito por Deus santificação, sabedoria, justificação, e redenção. Este é o perfeito e puro gloriar-se em Deus, quando alguém não se orgulha devido à sua própria justiça, mas sabe que é realmente indigno da verdadeira justiça e é (ou foi, δεδικαιωμένον) justificado unicamente pela fé em Cristo.

Ver Chemnitz, Examination of the Council of Trent, Part 1, trans. Fred Kramer (St. Louis: Concordia Publishing House, 1971), p. 505.

Texto Grego: `O kaucw,menoj evn Ku,ri,w| kauca,sqw( le,gw o[ti Cristo.j h`mi/n evgenh,qh sofi,a avpo. Qeou/( dikaiosu,nh te kai. a`giasmo.j kai. avpolu,trwsij\ `Ina kaqw.j ge,graptai( `O kaucw,menoj( evn Ku,ri,w| kauca,sqw) Au[th ga.r dh. h` telei,a kai. o`lo,klhroj kau,chsij evn Qew/|( o[te mh,te evpi. dikaiosu,nh| tij epai,retaith/| e`autou/( avll v e;gnw me.n evndeh/ o;nta evauto.n dikaiosu,nhj avlhqou/j( pi,stei de. mo,nh| th/| eivj Cristo.n dedikaiwme,on)

Homilia XX, Homilia De Humilitate, §3, PG 31:529. No contexto, Basílio apelava ao exemplo do Apóstolo Paulo como um homem regenerado.

Jerónimo (347-420) sobre Romanos 10:3:

Deus justifica somente pela fé.

Ignorantes enim justitiam Dei, et suam quaerentes statuere: justitiae Dei non sunt subjecti. Ignorantes quod ***Deus ex sola fide justificat*** et justos se ex legis operibus, quam non custodierunt, esse putantes: noluerunt se remissioni subjicere peccatorum, ne peccatores fuisse viderentur, sicut scriptum est: Pharisaei autem spernentes consilium Dei in semetipsis, noluerunt baptizari baptismo Joannis. Item quia sacrificia legis, et caetera, quae umbra erant veritatis, quae per Christum perfici habebant, praesentia Christi cessaverunt: cui credere noluerunt: In Epistolam Ad Romanos, Caput X, v. 3, PL 30:692D.

Hilário sobre Mateus 9:

"Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica."

Ou veja-se a tradução em Tomás de Aquino, Catena Aurea: A Commentary on the Four Gospels Collected out of the Works of the Fathers, 4 Volumes, trans. and ed. John Henry Cardinal Newman (London: The Saint Austin Press, reprinted 1997), onde se lê: "os pecados da sua alma que a Lei não poderia remir lhe são remidos, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Commentarius in Evangelium Matthaei, Caput VIII, PL 9:961

Tomás de Aquino:

Os sacramentos da Nova Lei no entanto, embora sejam elementos materiais, não são elementos carenciados, por isso podem justificar. De novo, se houve alguém na Velha Lei, que foi justo, ele não foi feito justo pelas obras da Lei mas somente pela fé em Cristo "a quem Deus propôs para ser uma propiciação mediante a fé", como se diz em Romanos (3:25). Assim, os sacramentos da Antiga Lei eram determinadas protestações da fé em Cristo, tal como os nossos sacramentos são, mas não da mesma maneira, porque esses sacramentos estavam configurados para a graça de Cristo como algo que está no futuro, os nossos sacramentos, no entanto, testemunham como coisas que contém uma graça que está presente. Portanto, ele diz significativamente, que não é pelas obras da lei que somos justificados, mas pela fé em Cristo, porque, apesar de alguns que observaram as obras da Lei em tempos passados ​​ terem sido feitos justos, não obstante, isso foi efetuado somente pela fé em Jesus Cristo.

St. Thomas Aquinas, Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galations, trans. F. R. Larcher, O.P. (Albany: Magi Books, Inc., 1966), Chapter 2, Lecture 4, (Gal. 2:15-16), pp. 54-55.

2 de abril de 2012

Lutero disse que Cristo pecou cometendo adultério?


Uma citação que geralmente é apresentada por católicos romanos contra Lutero é a seguinte:

“Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Tischredden, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107).

Comecemos por fazer uma breve introdução.

As "Conversas à mesa" (Tischreden) de Martinho Lutero são uma compilação de diálogos com os seus discípulos e colegas, não um tratado formal de teologia.

A primeira edição alemã foi preparada por um dos que tomavam notas, Johannes Aurifaber (Goldschmitt) e publicada em 1566.

O texto das "Conversas" está disponível online numa tradução para o inglês em:

http://www.ccel.org/ccel/luther/tabletalk

http://www.reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html

Lutero disse e escreveu muito (a edição Weimar das suas obras soma 125 volumes) e nem tudo de qualidade uniforme. Não o consideramos de modo algum infalível. Como de qualquer outro cristão pós-apostólico, retemos apenas o que é bom.

Podem reprovar-se muitas coisas a Lutero. Em muitos sentidos foi um filho do seu tempo e um homem de contrastes entre a sua vasta erudição e as suas maneiras e formas de expressão.

Por outro lado, as indiscrições de Lutero, como as grosserias que, juntamente com coisas muito mais valiosas, poder-se-ão ter dito à sua mesa, empalidecem em comparação com a conduta dos supostos sucessores de Pedro contemporâneos seus.

"Parece que a época do Renascimento foi chamada a provar qual era a divindade romana mais indicada para ser patrona do Papado. Logo que foi afastada Vénus (Alexandre Bórgia), instalou-se na Cadeira de Pedro Marte: Júlio II (1503-1513), amigo da guerra ainda mais do que das artes, pelo que tomou o nome de Júlio César. Quando Miguel Ângelo quis retratá-lo com um livro na mão, se opôs com veemência: «Melhor, empunhando a espada»."

(Albert Wucher, Breve historia de los Papas. Trad. Pablo Simón. Buenos Aires: El Ateneo, 1963, p. 147; com censura eclesiástica).

Feita esta breve introdução passemos à citação em concreto.

A citação de Lutero tomada das suas Tischreden, originalmente, na mistura de latim e alemão em que Lutero costumava expressar-se nestas ocasiões, diz:

Christus ist am ersten ein Ebrecher (Ehebrecher) worden bei dem Brunn cum muliere, quia illi dicebant... Quid facit cum ea? Item cum Magdalena, item cum adultera (Tischr. 1472 II 107).

Que, literalmente traduzido, significa (a tradução é minha):

Cristo é primeiro adúltero junto ao poço com a mulher, porque naquele lugar diziam… Que faz com ela? Do mesmo modo, com Madalena. Do mesmo modo, com a adúltera.

Não obstante, como diz o historiador católico Ricardo García-Villoslada, na sua obra “Martín Lutero”, tomo II, página 251:

“É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.

Portanto feito este esclarecimento necessário, conclui-se que a citação de Lutero tal como é apresentada está adulterada ou pelo menos foi grosseiramente mal-interpretada. Lutero não blasfemou contra nosso Senhor Jesus Cristo chamando-o de adúltero como querem fazer crer alguns apologistas católicos mal-intencionados.

17 de março de 2012

Os Evangélicos também são Católicos


Aos membros da Igreja de Roma, é preciso fazer notar que todos nós, evangélicos, somos católicos em sentido próprio, e não de título ou denominação oficial da nossa congregação.

Nós somos:

Cristãos porque somos discípulos de Jesus Cristo, redimidos pelo seu sangue,

Evangélicos porque cremos, pregamos e proclamamos o glorioso Evangelho de Jesus Cristo,

Católicos ou universais porque sem importar onde nos congregamos, pertencemos à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo,

e

Apostólicos porque perseveramos na doutrina dos Apóstolos.

O que não somos nem queremos ser, claro, é "Romanos".