1 de novembro de 2009

A IRREPETIBILIDADE DO SACRIFÍCIO DE CRISTO, SEJA DE FORMA CRUENTA OU INCRUENTA


Doutrina da Igreja de Roma

Concílio de Trento

Sessão XXII de 17 de Setembro de 1562

"E porque neste divino sacrifício, que na Missa se realiza, se contém e incruentamente se imola aquele mesmo Cristo que uma só vez se ofereceu Ele mesmo cruentamente no altar da cruz [Heb. 9,27]; ensina o santo Concílio que este sacrifício é verdadeiramente propiciatório [Can. 3] ... (Denzinger 940).

Cânon 3. Se alguém disser que no sacrifício da Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecê-lo não é outra coisa que dar-se-nos a comer Cristo, seja anátema".

Em outras palavras, ainda que se reconheça a natureza única e irrepetível do sacrifício de Jesus Cristo na cruz, ao mesmo tempo se afirma que em cada missa que é celebrada, o sacerdote imola a Deus, ainda que de forma incruenta, o próprio Senhor.

Doutrina bíblica

Hebreus 7:15-16, 21-28

"Isto é ainda mais evidente se outro sacerdote se levanta à semelhança de Melquisedeque, que não foi constituído conforme ao mandamento da lei acerca da linhagem carnal, mas segundo o poder de uma vida indestrutível.

...
Os outros foram feitos sacerdotes sem juramento, enquanto este o foi pelo juramento daquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá: "Tu és sacerdote para sempre". De igual maneira, Jesus foi feito fiador de um pacto superior. Na verdade, muitos foram feitos sacerdotes, porque devido à morte não podiam permanecer. Mas este, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio perpétuo. Por isso também pode salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, visto que vive para sempre para interceder por eles".

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão porque:

1. Não está ligado à linhagem.

2. Foi estabelecido com juramento.

3. Foi estabelecido com um pacto superior.

4. É perpétuo e inclui uma intercessão permanente.

5. É suficiente para a salvação de todos os que nele confiam.

"Porque nos convinha tal sumo sacerdote: santo, inocente, puro, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus. Ele não tem cada dia a necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer sacrifícios, primeiro por seus próprios pecados e depois pelos do povo; porque isto o fez uma vez para sempre, oferecendo-se a si mesmo. A lei constitui como sumos sacerdotes homens débeis; mas a palavra do juramento, posterior à lei, constituiu o Filho, feito perfeito para sempre".

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão também porque:

1. O Sacerdote é perfeito em todo sentido.

2. Não necessita de oferecer sacrifício pelo seu próprio pecado.

3. Não necessita de repetir o único sacrifício que realizou uma vez para sempre.

Hebreus 8:6

"Mas agora Jesus alcançou um ministério sacerdotal tanto mais excelente porquanto ele é mediador de um pacto superior, que foi estabelecido sobre promessas superiores".

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão, ainda, porque:

1. O seu ministério sacerdotal é excelente.

2. Ele é o mediador de um melhor Pacto.

3. Este Pacto inclui promessas superiores.

Hebreus 9:8-14

"Com isto o Espírito Santo dava a entender que ainda não havia sido mostrado o caminho para o lugar santíssimo, enquanto estivesse em pé a primeira parte do tabernáculo. Isto é uma figura para o tempo presente, segundo a qual se ofereciam dons e sacrifícios que não podiam fazer perfeito, quanto à consciência, o que prestava culto. Estes são ordenanças da carne, que consistem somente em comidas e bebidas e diversas lavagens, impostas até ao tempo da renovação". Mas estando já presente Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por meio do maior e mais perfeito tabernáculo não feito por mãos, isto é, não desta criação, entrou uma vez para sempre no lugar santíssimo, obtendo assim eterna redenção, já não mediante sangue de bodes e novilhos, mas mediante o seu próprio sangue. Porque se o sangue de bodes e de touros, e a cinza da vitela aspergida sobre os impuros, santificam para a purificação do corpo, quanto mais o sangue de Cristo, que mediante o Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mancha a Deus, limpará as nossas consciências das obras mortas para servir ao Deus vivo!

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão porque:

1. Porque não consiste em "ordenanças da carne", ritos repetitivos que apenas prefiguravam a realidade presente.

2. Porque o tabernáculo era somente uma imitação transitória do santuário perfeito e celestial no qual entrou Jesus Cristo.

3. Porque o Senhor somente necessitou entrar uma vez no tabernáculo celestial.

4. Porque o fez uma vez por meio do seu próprio sangue.

5. Porque este único e irrepetível sacrifício bastou para a eterna redenção.

Hebreus 9:23-28

"Era, pois, necessário purificar as figuras das coisas celestiais com estes ritos; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo não entrou num lugar santíssimo feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para apresentar-se agora diante de Deus a nosso favor. E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como entra cada ano o sumo sacerdote no lugar santíssimo com sangue alheio. De outra maneira, lhe haveria sido necessário padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora, ele se apresentou uma vez para sempre na consumação dos séculos, para tirar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo. Então, tal como está estabelecido que os homens morram uma só vez, e depois o juízo, assim também Cristo foi oferecido uma só vez para tirar os pecados de muitos. A segunda vez, já sem relação com o pecado, aparecerá para salvação aos que o esperam".

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão:

1. Porque as coisas celestiais requeriam uma purificação perfeita e definitiva.

2. Porque por sua própria natureza tal sacrifício podia e devia oferecer-se somente uma vez, "na consumação dos séculos".

3. Porque tem eficácia perpétua e universal para tirar o pecado.

Hebreus 10:8-14

"Tendo dito acima: Sacrifícios, ofertas e holocaustos pelo pecado não quiseste nem te agradaram (coisas que se oferecem segundo a lei), depois disse: Eis-me aqui para fazer a tua vontade! Ele tira o primeiro para estabelecer o segundo. É nessa vontade que somos santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo feita uma vez para sempre. Todo sacerdote se apresenta, dia após dia, para servir no culto e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios que nunca podem tirar os pecados. Mas este, havendo oferecido um só sacrifício pelos pecados, sentou-se para sempre à direita de Deus, esperando daí por diante até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os santificados".

O sacerdócio de Jesus Cristo é superior em todos os sentidos ao de Arão:

1. Porque o seu sacrifício incluiu perfeita obediência.

2. Porque trouxe consigo a abolição do sistema antigo e imperfeito.

3. Porque não foi necessário apresentar mais do que um único sacrifício.

4. Porque esta única oferta perfeita basta para a expiação de todos os pecados.

Nas passagens citadas é afirmado pelo menos seis vezes que o sacrifício de Cristo foi feito uma só vez e que a sua eficácia é perpétua, "para salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus", "para oferecer sacrifício... pelos pecados deles", para ser mediador de "um pacto superior", para obter "eterna redenção", para "limpar as nossas consciências", para "tirar os pecados", para que sejamos santificados e para que sejamos aperfeiçoados.

A ideia de que seja necessário, ou sequer possível, repetir este sacrifício, seja de maneira cruenta ou incruenta, é completamente alheia ao texto e contexto da Escritura.

26 de outubro de 2009

João 6:28-65: Um texto eucarístico?


Embora a interpretação romanista da Eucaristia se baseie em grande medida em João 6, no seu contexto esta passagem não está diretamente relacionada com ela. Na verdade, o Evangelho de João é o único que omite as palavras de instituição da Eucaristia.

João 6: 28-29

"Então lhe disseram [os judeus]: - Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu Jesus e lhes disse: - Esta é a obra de Deus: que creiais naquele que ele enviou."
Aqui Jesus afirma claramente que Deus não está exigindo obras como condição para receber a salvação, exceto a "obra" de crer em Jesus Cristo, que foi enviado pelo Pai. Esta fé leva à salvação e à vida eterna.
vv. 30-31
"Então lhe disseram: - Que sinal, pois, fazes tu, para que vejamos e creiamos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram [efagon] o maná no deserto, como está escrito: Pão do céu lhes deu a comer [faguein]."
 Para poder crer, os judeus exigiam um sinal ou milagre; como, por exemplo, o milagre do maná que seus antepassados tinham recebido no deserto. Este foi o seu primeiro erro. Note-se cuidadosamente que foram os interlocutores de Jesus que trouxeram para o debate o tema do alimento milagroso. A resposta de Jesus deve interpretar-se à luz deste desafio.
vv. 32-33
"Portanto Jesus lhes disse: - Em verdade, em verdade vos digo que não vos deu Moisés o pão do céu, mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo."
"Portanto" indica a reação de Jesus perante a exigência dos seus ouvintes. Agora o Senhor usa as próprias palavras deles para ensiná-los com autoridade. Começa afirmando que a descida do maná não foi obra de Moisés mas do próprio Deus e, logo a seguir, estabelece que o verdadeiro pão que desce do céu não é o maná, mas uma Pessoa enviada pelo Pai para que o mundo pudesse ter vida através dela. O maná que sustentou o povo peregrino e faminto de Israel e permitiu a sua sobrevivência física não foi senão uma sombra ou tipo do verdadeiro alimento celestial, ou seja, Cristo, por meio de quem temos vida eterna.
vv. 34-36
"Disseram-lhe: - Senhor, dá-nos sempre este pão. Jesus lhes disse: - Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Mas vos disse que me vistes, e não credes."
Apesar da declaração de Jesus, os seus ouvintes continuam pensando em comidas, como uma espécie de "super-maná". Portanto, agora o Senhor se torna mais explícito: os judeus não devem esperar simplesmente um melhor maná, mas a definitiva salvação de Deus, a qual não se encontra senão em Cristo. Não se trata, como ensina a doutrina da transubstanciação, de o pão se converter em Cristo, mas de que Ele é como um pão que dá vida eterna. A única forma de comer este pão é crer em Jesus, que por disposição do Pai é Senhor e Salvador. Jesus é capaz de levar à vida eterna todo aquele que crê.
vv. 37-40
"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim, jamais o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia. Esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha vida eterna, e que eu o ressuscite no último dia."
Quem desceu do céu não é outro senão Jesus, e portanto Ele é a comida e a bebida da salvação. Mas como ocorre com frequência nos Evangelhos, e particularmente neste de João, aqueles que falam com Jesus não entendem o que lhes está a dizer.
vv. 41- 42
"Então os Judeus murmuravam dele porque dissera: "Eu sou o pão que desceu do céu." E diziam: - Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que agora diz: "Desci do céu"? "
A segunda coisa que os interlocutores de Jesus questionam é a origem celestial do Senhor. Eles objetam que o conhecem a ele e à sua família. Jesus parecia ser mais um deles. Como poderiam crer que este homem tinha sido enviado diretamente por Deus?
vv. 43-47
"Jesus respondeu e lhes disse: - Não murmureis mais entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: E serão todos ensinados por Deus. Assim que, todo aquele que ouve e aprende do Pai vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, mas aquele que provém de Deus, este viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê tem vida eterna."
- Aqui Jesus reafirma a sua autoridade em termos inequívocos. Somente por meio d`Ele podem os seus ouvintes ter vida eterna. O Senhor fundamenta o seu ensinamento com uma citação bíblica (ver Isaías 54:1-3). A seguir, Jesus retoma e elabora o que lhes tinha dito antes.
- Como se tem argumentado que Jesus falava de comê-lo literalmente (na Eucaristia) com base em João ter usado o verbo trögö em vez do verbo mais comum esthiö ou éfagon, indiquei entre colchetes o verbo usado em cada referência a "comer". O primeiro verbo (esthion) aparece oito vezes nesta passagem, e o segundo (trögö) quatro vezes. As quatro vezes que aparece trögö figura com a mesma construção, "ho trögös", ou "aquele que comer". Mas também em quatro ocasiões (versículos 50, 51 e 53 [duas vezes]), esthion/éfagon se refere a comer "a carne do Filho do homem". Por conseguinte, uma vez que ambas as expressões se usam obviamente como sinónimos, não pode construir-se um argumento com base no uso de "trögö".
vv. 48-51
"Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram [efagon] o Maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que coma [fagëi] dele não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém come [fagëi] deste pão, viverá para sempre. O pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne."
 A comparação é direta. Aqueles que, guiados por Moisés, comeram o maná do céu, de qualquer modo morreram. Em contrapartida, Jesus oferece agora nada menos que vida eterna, e tal vida perdurável somente pode obter-se por meio dele. Por esta razão, o maná era um tipo ou prefiguração da realidade que se encontra somente em Cristo. Por esta razão ele se descreve a si mesmo como o pão definitivo, um pão que será dado para a salvação do mundo, como depois dirá o Apóstolo, "morto na carne mas vivificado no Espírito". Os seus ouvintes se mostram cada vez mais confundidos, pela simples razão de que eles estão a pensar que Ele fala de comer literalmente a carne de Jesus Cristo. O seu erro foi precisamente desconhecer o paralelo que Jesus traçava.
vv. 52–59
"Então os judeus contendiam entre si, dizendo: - Como pode este dar-nos a comer [fagein] a sua carne? E Jesus lhes disse: - Em verdade, em verdade vos digo que se não comerdes [fagëte] a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós. Aquele que come [trögön] a minha carne e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Aquele que come [trögön] a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele. Assim como me enviou o Pai vivente, e eu vivo pelo Pai, da mesma maneira aquele que me come [trögön] também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como os pais que comeram [efagon] e morreram, aquele que come [trögön] deste pão viverá para sempre. Estas coisas disse na sinagoga, quando ensinava em Cafarnaum."
Em vez de dar-lhes mais explicações, Jesus insiste no que disse: Ele é o pão da vida. Para os que desejam vida eterna, a sua carne é a única verdadeira comida e o seu sangue é a única verdadeira bebida.
vv. 60–63
"Então, ao ouvi-lo, muitos dos seus discípulos disseram: - Dura é esta palavra; quem a pode ouvir? Sabendo Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: - Isto vos escandaliza? E se vísseis o Filho do Homem subir para onde estava primeiro? O Espírito é o que dá vida; a carne não aproveita para nada. As palavras que eu vos falei são Espírito e são vida."
- Muitos dos que ouviram Jesus, incluídos alguns dos seus discípulos, se ofenderam pelo que eles pensaram que era um ensinamento escandaloso. Em vez de suavizar as suas palavras, o Senhor coloca mais outro desafio: se eles achavam isto tão duro que por essa razão rejeitavam a oferta de salvação, quanto mais duro haveria de ser quando vissem Jesus em glória e se dessem conta do que haviam perdido por causa da dureza dos seus corações?
 - A chave para entender corretamente as palavras de Jesus encontra-se na sua declaração sobre o valor do Espírito e da carne, e no facto de que as suas palavras são Espírito e vida. A ênfase está posta na necessidade de crer em Jesus e aceitar a sua salvação.
vv. 64-65
"Mas há entre vós alguns que não creem. Pois desde o princípio Jesus sabia quem eram os que não criam e quem o havia de entregar, e dizia: - Por esta razão vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido."
- De novo, o tema central do discurso é a necessidade de crer em Jesus, uma atitude do coração da qual "comer a sua carne e beber o seu sangue" não é senão uma imagem. Erra-se gravemente se se confunde a imagem com a realidade espiritual que representa.
- A teologia católica romana usa esta passagem como uma das suas evidências mais firmes da sua doutrina da transubstanciação, isto é, que em virtude das palavras da consagração de um sacerdote, o pão e o vinho se convertem, sem variar em sua aparência, na carne e no sangue (e Trento acrescenta "alma e divindade", sem justificativa bíblica alguma) de nosso Senhor. Com isto põem a Escritura de pernas para o ar, pois o que o Senhor estava a ensinar não era que o pão e o vinho eucarísticos fossem converter-se n`Ele, mas que Ele era como um pão e um vinho que levam à vida eterna, à diferença do maná que não tinha tal poder.
Deve sublinhar-se enfaticamente que o que entenderam os ouvintes de Jesus a partir das palavras dele é completamente irrelevante, uma vez que eles obviamente interpretaram mal o seu ensinamento:
1. Eles equivocadamente exigiram um sinal como o maná do deserto.
2. Eles equivocadamente rejeitaram que Jesus viesse do céu.
3. Eles equivocadamente ignoraram a exigência de Jesus de crer nele para alcançar a vida eterna.
4. Eles entenderam mal a descrição que Jesus fez de si mesmo como o definitivo pão de Deus, pensando erroneamente que se referia a um ato de canibalismo. 

Colin Brown observou acerca deste texto:
"Supõe-se habitualmente que João 6 é sobre a Ceia do Senhor, embora não haja indício no próprio texto de alguma forma de comida, seja litúrgica ou outra. Apesar disso, é chamado repetidamente um discurso eucarístico, embora não haja referência à Eucaristia ou à última Ceia. Há, no entanto, pelo menos um [caso] prima facie para dizer o inverso. João 6 não é sobre a Ceia do Senhor; antes, a Ceia do Senhor é sobre o que se descreve em João 6. Tem que ver com aquele comer e beber que consiste em crer em Cristo (6:35), o qual é vida eterna (6: 54), e que é descrito em outras palavras como permanecer nele (6:56). O discurso de João 6 representa estas atividades como centrais para a fé e para a relação dos homens com Jesus. Elas não estão confinadas a uma comida sacramental. Pertencem à própria essência das relações quotidianas. Ao apresentar este discurso e omitir uma narração da instituição da Ceia do Senhor, João está na verdade a dizer que o todo da vida cristã deveria caracterizar-se por este alimentar-se de Cristo, e que disso trata precisamente a comida sacramental da Igreja."
(s.v. "Lord's Supper." Colin Brown, Ed. New International Dictionary of New Testament Theology. Grand Rapids: Zondervan, 1976, 2:535; negrito acrescentado).

Em resumo, muitos rejeitaram Jesus porque não conseguiam entender o que ele lhes dizia. Esta notória incompreensão nunca pode ser uma base adequada para a doutrina cristã. Muitos também não o entenderam quando disse que era a Videira, a Porta, que o seu corpo era o Templo, etc.
O texto em consideração não se refere diretamente à Eucaristia, cuja instituição, como antes notei, é omitida no Evangelho de João. O contexto não é eucarístico, mas soteriológico. Trata acerca de quem é Jesus e o que Deus nos oferece por intermédio dele. A imagem da comida e da bebida verdadeiras foi apresentada em resposta à exigência dos ouvintes de Jesus de um milagre como o do antigo maná.
Enquanto a teologia romana ensina que o pão se torna Jesus, nosso amado Senhor ensinou que ele era o pão da vida. E há uma diferença abismal entre ambas as concepções.

Fernando D. Saraví

20 de outubro de 2009

A EUCARISTIA


Se quisermos adquirir uma compreensão correta do significado e importância da Eucaristia ou Ceia do Senhor, devemos começar pelas referências escriturais primárias:

Mateus 26: 26-29

Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue do pacto, o qual é derramado por muitos para a remissão dos pecados. Mas digo-vos que desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de meu Pai.

Marcos 14: 22-25

Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: Tomai; isto é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue do pacto, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.

Lucas 22: 14-20

E, chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Desejei ardentemente comer convosco esta páscoa, antes de padecer; porque vos digo que não comerei mais dela até que se cumpra no reino de Deus. Depois tomou um cálice, e tendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós, porque vos digo que desde agora não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto em meu sangue, que é derramado por vós.

1 Coríntios 11: 23-34

Porque eu recebi do Senhor o ensino que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei. Isto é o meu corpo que por vós é partido; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que coma este pão e beba este cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque o que come e bebe, não discernindo o corpo, juízo come e bebe para si. Por isso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Mas se nos examinássemos bem a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas sendo julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para que não sejamos condenados com o mundo. Assim que, meus irmãos, quando vos reunais para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em sua casa, para que não vos reunais para juízo. As demais coisas as porei em ordem quando chegar.

Dos relatos dos Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) sabemos que, no contexto de uma ceia pascal, Jesus tomou pão, deu graças a Deus, o partiu e o deu aos seus discípulos dizendo "Isto é o meu corpo." Também agradeceu pelo cálice de vinho, e lhes mandou beber. Mateus e Marcos nos informam que o Senhor disse "Isto é o meu sangue do pacto..."

Os católicos romanos acreditam que as palavras de Cristo devem interpretar-se num sentido completamente literal, ou seja, que Jesus verdadeiramente transformou o pão e o vinho em Seu corpo e Seu sangue, Sua alma e Sua divindade.

Os principais argumentos a favor desta opinião são:

1. O próprio texto, ou seja, as palavras da instituição.

2. As circunstâncias: Cristo não devia ser ambíguo nem enganaria os seus discípulos neste momento solene.

3. As consequências práticas derivadas por Paulo a partir das palavras da instituição (1 Cor 11:27ss).

4. O fracasso dos argumentos contra uma interpretação literal. Embora em algumas passagens o verbo "ser" tenha um sentido figurativo, nestes casos isso é evidente (por exemplo, "o campo é o mundo", Mateus 13:38).

[Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, 6th Ed, pp. 557s].

A estes argumentos pode responder-se, por ordem:

1. Os próprios textos têm várias indicações que mostram que não deve interpretar-se como uma transubstanciação literal do pão e do vinho na carne e no sangue do Senhor. Quando, segundo Lucas, o Senhor disse "Isto é o meu corpo que por vós é dado. Fazei isto em memória de Mim", a crucificação não havia ocorrido ainda, e portanto Jesus estava a referir-se a um acontecimento ainda futuro. O mesmo é verdade acerca do vinho, uma vez que o Senhor disse que o seu sangue haveria de ser derramado (ou seja, não havia sido derramado ainda durante a última ceia). Alguém também se poderia perguntar como é que o sangue seria literalmente bebido e literalmente derramado, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Também segundo o relato de Marcos (seguido também por Mateus), Jesus lhes deu a beber do cálice enquanto Ele mesmo se absteve de beber então do que chamou, naturalmente, "o fruto da videira". Destas palavras do próprio Senhor sabemos que o vinho continuava sendo vinho, e não se havia tornado sangue como o afirma a doutrina romana. Finalmente, segundo o relato de Lucas, em vez de dizer que o vinho é o sangue do Senhor, Jesus diz que o cálice é "o Novo Pacto em meu sangue". Obviamente o cálice não é o Novo Pacto, mas o representa; de igual modo o vinho não é o sangue, mas o representa.

2. O mero facto de os discípulos terem comido o pão e terem bebido o vinho sem protesto nem objeção é em si mesmo um poderoso indicador de que não entenderam literalmente as palavras do Senhor. Beber sangue era absolutamente proibido para um judeu, e os Apóstolos levavam a sério a Lei (cf. Atos 10:9-16 e 15:19-29). Certamente Jesus saberia melhor do que qualquer teólogo se os seus discípulos necessitavam de maior explicação acerca de um ato que, por sua própria natureza, tinha obviamente de ser tomado em sentido não literal.

3. As consequências práticas derivadas por Paulo certamente não exigem um entendimento literal das palavras da instituição da Eucaristia. É um facto que, para o Senhor, as questões espirituais eram de importância primária; Jesus ensinou que o ódio não era melhor do que o homicídio, e a luxúria não era menos do que o adultério. Portanto, não há dificuldade alguma em admitir que podem derivar-se consequências graves de participar indignamente da Eucaristia sem necessidade de supor a transformação física do pão e do vinho na carne e no sangue de Jesus.

4. Jesus disse: "Eu sou a porta das ovelhas"; "Eu sou o caminho", "Eu sou a videira verdadeira", "Eu sou o alfa e o ómega". Sem dúvida que tudo isto são evidentemente imagens. Não deveria ser menos evidente que o chamado a participar da carne e do sangue de Jesus é uma imagem de uma realidade espiritual e não deve ser entendido em sentido literal. Quem não entendeu isso? Os pagãos que acreditavam que os cristãos praticavam o canibalismo.

Os escritores cristãos primitivos, como Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Ireneu de Lyon falaram da Eucaristia numa linguagem que é compatível com a crença numa presença física, mas que, dada a sua forma habitual de expressar-se, de modo algum a exige.

No terceiro século da nossa era, Tertuliano, Hipólito e Cipriano avançaram na mesma direção. Tertuliano aludiu ao pão como uma figura do corpo. Contudo, Cipriano pensava também a Eucaristia como um sacrifício, embora espiritual e incruento, oferecido pela Igreja como Corpo de Cristo e identificada com o seu Senhor. Gregório de Nissa, Cirilo e João Crisóstomo, e em particular Ambrósio de Milão (339-397) se inclinaram para uma presença física real, ou seja algum tipo de transformação verdadeira dos elementos, pão e vinho, na carne e no sangue de Cristo. Estes desenvolvimentos formaram a base da doutrina católica atual, que exige um sacerdócio especial para realizar o sacrifício.

Entretanto, outros mestres entenderam a Eucaristia num sentido mais espiritual; por exemplo, Orígenes, Basílio e Gregório de Nazianzo. O pão e o vinho eram para eles símbolos de uma realidade espiritual que estava verdadeiramente presente de modo misterioso. Na mesma linha, Agostinho de Hipona (354- 430) "enfatizou a distinção entre o símbolo e a coisa significada, as realidades visíveis e invisíveis, sendo as últimas apreensíveis somente pela fé." [International Standard Bible Encyclopedia 3:167]. As opiniões de Agostinho foram elaboradas por Ratramnus no século IX. Contudo, gradualmente esta interpretação perdeu a batalha numa igreja crescentemente ritualista, e quando no século XI Berengário de Tours a reformulou, os seus ensinamentos foram condenados pela Igreja de Roma.

Um par de séculos antes, Pascasius Radbertus havia formulado a doutrina da transubstanciação, a qual foi sancionada pelo IV Concílio de Latrão de 1215. Pouco depois Tomás de Aquino forneceu uma base filosófica baseada em distinções aristotélicas entre substância e acidentes. O assunto foi definitivamente estabelecido para a Igreja de Roma no Concílio de Trento:

"Can. 1. Se alguém negar que no santíssimo sacramento da Eucaristia está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade, de nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, Cristo inteiro; mas disser que só está nele como em sinal e figura ou por sua eficácia, seja anátema." (Cânon 1; Sessão XIII de 11 de Outubro de 1551; Denzinger 883)

Os Reformadores do século XVI adotaram diferentes pontos de vista acerca da Eucaristia, que se afastavam em medida variável do dogma romanista.

Atualmente há quatro enunciações principais acerca da natureza da Eucaristia:

1. Conceito católico romano: Transubstanciação. Segundo esta crença, pelas palavras da consagração pronunciadas pelo sacerdote, o pão e o vinho se transformam na carne e no sangue de Jesus (a doutrina católica estabelece, além disso, que Cristo está inteiramente presente em cada uma das espécies). Sustentar esta doutrina exige crer que cada vez que se celebra uma missa se produzem dois milagres. O primeiro é que as palavras da consagração operam a suposta transformação; e o segundo, não menos surpreendente, é que produzida a transformação da substância os atributos externos ("acidentes", aparências: cor, consistência, sabor, cheiro) permanecem absolutamente imutáveis. É interessante que, por exemplo, Ambrósio ensinasse a presença real (física) baseado em outros milagres realizados por Jesus, como a transformação da água em vinho em Caná da Galileia. Contudo, todos os milagres realizados por Jesus e pelos Apóstolos tiveram resultados imediatos e evidentes. Em Caná, as pessoas provaram vinho que tinha a cor de vinho, cheirava como vinho e sabia como vinho. Ninguém levaria a sério um suposto milagre sem consequências percetíveis. Além disso, a transubstanciação implica um novo sacrifício, incruento e subordinado ao sacrifício da cruz, mas sempre sacrifício, oficiado por um sacerdote como representante da Igreja, repetido inumeráveis vezes quando Hebreus estabelece claramente que o efeito do único sacrifício de Cristo é perdurável e não requer nem admite repetição. Finalmente, a crença na transubstanciação leva à conclusão lógica de que os elementos consagrados se tornam em objetos de adoração, um costume que não tem absolutamente nenhuma base no Novo Testamento.

2. Conceito luterano: Consubstanciação. Martinho Lutero modificou a doutrina romanista e rejeitou enfaticamente a adoração dos elementos consagrados. Contudo, na sua opinião o corpo e o sangue de Cristo estavam verdadeiramente presentes em, com e sob a forma do pão e do vinho durante a celebração do sacramento, de novo com base numa interpretação muito literal das palavras de Jesus.

3. Conceito calvinista: Calvino ensinou que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia, mas de maneira espiritual – em oposição a uma presença física - e que portanto o pão e o vinho são fontes de poder e santidade para aqueles que participam dignamente deles.

4. Conceito simbólico. Embora às vezes associado ao nome do reformador Ulrico Zwinglio, na verdade este teólogo não negou uma presença espiritual, ainda que a tenha baseado na fé daqueles que partilham a Eucaristia. Algumas Igrejas evangélicas sustentam que o pão e o vinho são exclusivamente símbolos.

Pessoalmente inclino-me para o ponto de vista calvinista, não somente pelas palavras da instituição do próprio Senhor, mas pelo ensino de Paulo acerca das consequências de participar negligentemente da Eucaristia (1 Coríntios 11:23-34). Na minha opinião, estas palavras devem levar-se muito a sério e indicam que Jesus está verdadeiramente presente, embora em sentido espiritual.

Finalmente, ofereço algumas reflexões sobre o significado da Eucaristia.

1. Gratidão pela libertação. Como na páscoa do Antigo Pacto, a ação de graças (eucaristia) pela libertação do pecado é um dos aspectos mais importantes na Ceia do Senhor.

2. Expressão de fé. Paulo afirma que cada vez que celebramos a Eucaristia estamos proclamando a morte expiatória do Senhor, e devemos continuar fazendo-o até à sua segunda vinda em glória e majestade.

3. Comunhão com Deus. Quando recebemos o pão e o vinho é-nos concedida participação nos dons de Deus. A comunhão com Deus é portanto um aspecto importante.

4. Comunhão uns com os outros. A Eucaristia foi desde o princípio um ato comunitário e uma expressão de fraternidade cristã. Portanto, quando a partilhamos expressamos a nossa fé comum e amor uns aos outros.

O resultado de tudo isto é o fortalecimento espiritual das nossas vidas tanto como crentes individuais como no nosso carácter de membros do Corpo de Cristo.

Fernando D. Saraví

13 de outubro de 2009

O “EVANGELHO” DA PROSPERIDADE


Com o título "A velha cruz e a nova", A.W. Tozer notou profeticamente já há algum tempo:

"Sem anúncio prévio, e quase sem ser detetada, uma nova cruz chegou nos tempos modernos aos círculos evangélicos populares. É como a velha cruz, porém diferente: as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais. Desta nova cruz brotou uma nova filosofia da vida cristã... Este novo evangelismo usa a mesma linguagem que o antigo, mas o seu conteúdo não é o mesmo nem a ênfase é a de antes ... A nova cruz... não prega contrastes, mas semelhanças. Procura introduzir-se no interesse do público mostrando que o cristianismo não tem exigências desagradáveis; antes oferece o mesmo que o mundo, só que a um nível superior. Demonstra-se astutamente que, seja o que for que o mundo enlouquecido pelo pecado esteja exigindo neste momento, é exatamente o mesmo que o Evangelho oferece, só que o produto religioso é melhor..." [1]

Estas palavras são hoje ainda mais verdadeiras do que quando foram escritas. Muitos líderes cristãos "descobriram", e estão muito ocupados em propagar, um novo evangelho. No lugar antes reservado à sã doutrina, se instalaram as experiências subjetivas, quanto mais espetaculares melhor; onde antes encontrávamos a humilhação e a negação de si mesmo, habita agora o culto à autoestima; a morada do arrependimento e da confissão dos pecados está agora ocupada pelo aconselhamento psicológico; o sítio central da graça providencial e soberana de Deus foi usurpado pelo dos supostos direitos do crente; a casa da saúde da alma foi invadida pela das curas do corpo e, claro, na mansão da riqueza espiritual se instalou a prosperidade material.

O engano é subtil, por um lado porque tudo o que tende a ser substituído não foi suprimido por completo; simplesmente foi deslocado da sua posição central na vida cristã; e em segundo lugar, porque os substitutos não são geralmente coisas más em si mesmas. É o ênfase exagerado neles o que desvirtua e perverte o Evangelho.

O cristão opulento

O sensacional descobrimento de que os cristãos não somente podem gozar de bens materiais, mas estão chamados a ser ricos como parte integral da mensagem bíblica, foi popularizado por um conjunto de conhecidos evangelistas estado-unidenses que fizeram parte do denominado "Movimento de Fé", entre os quais se destacam Kenneth Copeland, E.W. Kenyon, Don Gossett (mentor e amigo do infame "pastor" Giménez), T.L. Osborn, John Avanzini, Robert Tilton, Oral Roberts, Paul Crouch e Frederick Price.

A riqueza não somente é considerada por estes pregadores como uma parte integral do Evangelho, um direito adquirido, mas é sinal inequívoco de prosperidade espiritual. Ao invés, a pobreza material é sinal de fracasso espiritual e falta de fé; é até pecaminosa porque supostamente vai contra a vontade expressa de Deus para os seus filhos.

Da verdadeira origem deste ensinamento e dos seus motivos falarei depois. De momento, examinarei as suas supostas bases escriturais.

1. O pacto com Abraão. Supostamente, Deus teria proposto a Abraão um pacto, que este aceitou porque o considerou conveniente. Dito pacto ou concerto incluía a promessa de riquezas materiais. Os cristãos, dizem, como descendentes Espirituais de Abraão, herdam os mesmos direitos que ele. Se alguém examinar o chamado pacto de Abraão e os seus termos, como pode ler-se em Génesis 12:1-3; 15:1-20; 17:1- 18:15), notará de imediato que: (1) o pacto e as suas condições são estabelecidos unilateralmente por Deus; o homem não pode rejeitar o chamado sem sofrer as consequências, nem modificar as suas condições; e (2) que o pacto não fala da prosperidade material de Abraão, mas de dar-lhe uma grande descendência, uma terra na qual habitar e de torná-lo uma bênção para toda a humanidade (em 15:14 diz Deus que os israelitas sairiam do Egipto "com grande riqueza"; mas trata-se de uma profecia, e não de uma parte essencial do Pacto). Hebreus 11 contradiz totalmente a noção de que a prosperidade material de Abraão – que a teve – tenha sido um aspecto importante do pacto. Aqui nos é dito que pela fé "os antigos alcançaram bom testemunho", e que a esperança de Abraão estava posta na Jerusalém celestial (v. 10). Todos os heróis da fé do Antigo Pacto "morreram sem ter recebido o prometido, mas olhando-o de longe, crendo-o e saudando-o, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra" (v. 13). O que eles realmente esperavam estava a um nível infinitamente superior à riqueza material, e por esta esperança, enfrentaram com valor todo o sofrimento: "Andaram de cá para lá... pobres, angustiados, maltratados" (v. 37). Precisamente o mesmo tipo de esperança celestial é a que se requer dos cristãos (1 Pedro 2:11).

2. Jesus era rico, e os seus seguidores também. Argumenta-se que o Senhor teve Judas Iscariotes como tesoureiro (João 12:6; 13:29), pagou impostos (Mateus 17: 24-27), e dispunha de meios para alimentar a multidão que o seguia (Marcos 6:37). Sobre isto é preciso dizer que: (1) Não se sabe quanto havia na bolsa (grego glössokomon) que Judas trazia. Certamente não seria muito se a trazia consigo. (2) O imposto do templo era uma obrigação religiosa de todo o varão judeu (Êxodo 30:13-16; 38:26). O seu valor era de apenas dois denários por ano, menos de 1% do salário anual de um trabalhador; no entanto, Jesus recorreu a um milagre para pagá-lo. (3) Em nenhum dos relatos da alimentação dos cinco mil se diz que Jesus dispusesse dos duzentos denários que, segundo a estimativa dos discípulos, eram precisos para comprar pão suficiente (do mesmo modo em que é muito duvidoso que houvesse próximo uma padaria com semelhante disponibilidade; ainda que em Jeremias 37:21 se mencione uma "rua dos padeiros" em Jerusalém, normalmente cada família cozia o seu próprio pão) [2]. Pelo contrário, a perplexidade dos Apóstolos se devia com segurança à impossibilidade de dispor de semelhante soma. Mas além disso, Jesus encarregou os seus que alimentassem a multidão para pô-los à prova, "porque ele sabia o que ia fazer" (João 6:5-6).

3. Cem por um?. Oral Roberts e outros desenvolveram a teoria da "semente de fé". Segundo esta noção, se alguém quer receber algo de Deus, primeiro deve dar; e quanto mais der, mais receberá. Evidentemente, "dar a Deus" significa na realidade colaborar economicamente com o evangelista de serviço. Um texto favorito destes pregadores é Marcos 10:29-30, que segundo eles ensina a centuplicação do ofertado: 100€ por cada euro entregue "a Deus". No entanto, tal interpretação violenta o texto bíblico: (1) Não se fala aí absolutamente das ofertas, mas da renúncia do crente por amor a Jesus; (2) se omite que a recompensa vem "com perseguições"; e (3) a centuplicação de casas e terras pode parecer atrativa, mas o anúncio da centuplicação de familiares nos impede de interpretar a promessa literalmente. Como observa Wessel:

"O retorno centuplicado nesta vida (v. 30) deve ser entendido no contexto da nova comunidade em que ingressa o discípulo de Jesus. Aí encontra uma multiplicação de parentescos muitas vezes mais próximos e com maior significado espiritual do que os laços de sangue" [3]

Do mesmo modo, as casas e terras são aquelas dos nossos irmãos, que se abrem em cristã hospitalidade, não nossa propriedade privada.

4. "Tudo o que pedirem em meu nome". A promessa de Jesus de que aquilo que os discípulos pedissem em seu nome lhes seria concedido (Mateus 7:7-11; João 14:12-14; 15:7; 16:23-24) se amplia até abarcar tudo quanto uma pessoa pode desejar.

Isto inclui, claro está, a prosperidade material. Observamos, no entanto, que (1) uma coisa é a provisão das nossas necessidades e outra muito diferente a satisfação dos nossos desejos; e (2) a promessa está indissoluvelmente ligada a esta condição: "Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós" (João 15:7).

A origem e as motivações do "evangelho da riqueza"

Os ensinamentos destes pregadores podem traçar-se sem dificuldade a fontes alheias à Bíblia, e na realidade opostas à Escritura [4]. Baseiam-se em noções esotéricas, segundo as quais as palavras e a fé têm poder em si mesmas: "O que dizes, recebes". O poder para obter o que desejamos é suposto estar presente em nós mesmos, e é independente da graça de Deus. Assim, uma vez que se supõe que os cristãos têm direitos adquiridos aos bens materiais, se inculca que tudo o que necessitamos para aceder efetivamente a eles é pedi-los com total convicção de que nos serão dados. De modo que se tivermos fé em nossa própria fé, Deus está obrigado, por alguma obscura lei cósmica, a dar-nos o que queremos. No "Movimento de Fé", o homem pretende manipular Deus para fazê-lo um instrumento para a satisfação não já das suas necessidades, mas dos seus caprichos. Evidentemente, este ensinamento é completamente oposto às Escrituras, segundo as quais a mais alta dignidade a que um homem pode aspirar é a de ser um servo de Deus (Lucas 17:7-10). Os Apóstolos e os seus discípulos sentiam-se sumamente honrados de serem chamados servos de Jesus Cristo (Romanos 1:1; 2 Pedro 1:1; Tiago 1:1; Judas 1).

Que há por detrás desta "teologia" da prosperidade?

Em primeiro lugar, está a "nova cruz", fácil, prazenteira, acomodada ao mundo, encaminhada a satisfazer os desejos carnais e a obter, como os políticos, numerosos aderentes (e contribuintes) com base em falsas promessas. Claro está que, como também ocorre na política, corre-se o risco de que os seguidores se percam com tanta facilidade como se recrutaram, quando as promessas não se cumprem. Em segundo lugar, há um afã indecente e pecaminoso de riqueza e poder por parte dos pregadores deste evangelho diferente. Durante uma estadia nos Estados Unidos, costumava sintonizar uma emissora de televisão cristã. A maioria dos programas incluíam um pedido de apoio económico para o sustento do ministério em questão. Contudo, enquanto muitos o faziam com prudência e discrição, outros eram desaforados até ao ponto de dedicar mais da metade do tempo disponível para extorquir os telespectadores. É extremamente duvidoso que este "evangelho da prosperidade" tenha verdadeiramente enriquecido os seus seguidores, mas sem dúvida que prosperou materialmente muitos dos seus pregadores. Contra este tipo de "ministros" nos adverte solenemente a Escritura (Atos 20:29-31; 2 Timóteo 3:1-5; 2 Pedro 2:1-3; Judas 3-16).

A Bíblia e as riquezas

A perspetiva bíblica é alheia aos ensinamentos destes pregadores. Embora a prosperidade material possa acompanhar as bênçãos espirituais (Gen 13:2; Salmo 112: 1-3; Provérbios 8:18), já no Antigo Testamento se adverte do perigo que representam as riquezas: Salmo 39:6; Provérbios 11: 4,28; 22:1-2, etc. Em Provérbios lemos: "Não te fatigues para seres rico; sê prudente e desiste. Porventura, fitarás os olhos nas riquezas, que não são nada?" (23: 4-5). No livro de Jó se ensina, por outro lado, que as doenças, a perda de familiares e o empobrecimento não são absolutamente sinais seguros de decadência espiritual ou desfavor divino; o Salmo 73 deixa bem claro que a prosperidade material não implica riqueza espiritual; antes o contrário pode ser verdade.

O Novo Testamento é ainda mais claro. O Evangelho dirige-se de maneira especial aos pobres (Lucas 4:18; Mateus 11:4-5). Os ricos têm dificuldades especiais em aceitá-lo (Marcos 10:23-25; 1 Coríntios 1:26). Desde que começou o seu ministério público, o Senhor Jesus viveu voluntariamente na pobreza (Mateus 8:20; Lucas 8:1-3). Enquanto nos mandou pedir pelas nossas necessidades (Mateus 6:25-34), enfaticamente desencorajou a busca de riqueza material e nos chamou em contrapartida a fazer tesouros no céu (Mateus 6:19-20; Lucas 12:16-21; 16:13).

Os ensinamentos dos Apóstolos são consistentes com os de Jesus. Paulo viveu na pobreza (1 Coríntios 4:9-13) e, ainda que tivesse direito ao seu sustento, renunciou voluntariamente a este (1 Coríntios 9; Atos 20:33-35). É evidente que o Apóstolo não compartilhava as ideias do "Movimento de Fé" sobre a prosperidade material dos ministérios cristãos, e sobretudo a dos ministros! (1 Timóteo 6:9; 2 Timóteo 3:1-5). Pedro nos exorta a não viver conforme às paixões (1 Pedro 4:1-6). Tiago nos convoca a honrar e proteger os pobres, e admoesta severamente os ricos (Tiago 1:9-10; 2:1-7; 5:1-6). João deseja a Gaio saúde física e prosperidade material na medida em que possuía riqueza espiritual, para que fizesse bom uso dos seus recursos (3 João 2).

Conclusão

O chamado "evangelho da prosperidade" é uma distorção grave do ensinamento bíblico, que tende a criar seguidores que desejam encher o seu ventre em vez do seu coração, e que em muitos casos ao ficarem dececionados se tornam rebeldes ao autêntico Evangelho. A posição bíblica em relação aos bens materiais foi estabelecida com exatidão nas seguintes palavras inspiradas pelo Espírito Santo, escritas por um santo do Antigo Pacto:

"Duas coisas te pedi, não mas negues antes que morra: Vaidade e mentira afasta de mim, e não me dês pobrezas nem riquezas, mas sustenta-me com o pão necessário; não seja que, uma vez saciado, te negue e diga: «Quem é o Senhor?», ou que, sendo pobre, roube e blasfeme contra o nome do meu Deus" (Provérbios 30:7-9).

Fernando D. Saraví


Notas

[1] Citado por Francis Grim, Heaven and Hell. Kempton Park : HCF Publications, p. 88-89.

[2] Joachim Jeremias, Jerusalén en tiempos de Jesús, 2ª Ed. Madrid: Cristiandad, 1980, p. 25.

[3] Walter W. Wessel, Mark. Em F.E. Gaebelein (Ed.), The Expositor's Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984, 8:717.

[4] Isto foi irrefutavelmente documentado pelo autor pentecostal Daniel R. McConnell em A different Gospel: An Historical and Biblical Analysis of the Modern Faith Movement. Peabody: Hendrickson, 1988.

Bibliografia adicional

Crenshaw, Curtis I. Man as God: The Word of Faith Movement.
Memphis: Footstool, 1994.

Hanegraaf, Hank. Cristianismo en crisis. Miami: Unilit, 1993.

MacArthur, John F. Charismatic Chaos. Grand Rapids:
Zondervan , 1992.

Saraví, Fernando D. Control mental: Una perspectiva cristiana. Buenos Aires: Certeza, 1994.

29 de setembro de 2009

O HUMANISMO SECULAR: A sua influência na sociedade e na igreja


No século XV, o termo italiano "umanista" (humanista) designava originalmente os professores de gramática e retórica, do mesmo modo em que os termos "jurista" e "artista" designavam aqueles que ensinavam artes e leis. No seguinte século vemos que são as Faculdades de Artes quem ensina as "humanidades", em contraste com os estudos teológicos próprios das Faculdades de Teologia. As humanidades abarcavam as disciplinas que promoviam o desenvolvimento de uma condição plenamente humana.

Com a queda de Constantinopla em 1453 e o desaparecimento do Império Romano do Oriente, deu-se a emigração de eruditos que introduziram a cultura grega no Ocidente. Esta circunstância resultou no que, muito tempo depois, se denominou humanismo renascentista. Este humanismo era sem dúvida aparentado com o anterior, mas ao mesmo tempo representava um fenómeno novo e dinâmico. Jean-Claude Margolin propôs a seguinte definição:

O humanismo europeu é um movimento cultural e intelectual, característico do Renascimento, que abriu o caminho para uma transformação da visão do mundo, uma renovação das formas e tipos de conhecimento, uma ampliação das fontes de inspiração artística e literária, uma reorganização da vida académica, uma liberdade para criticar tradições e instituições, e uma nova visão da condição humana.

Este humanismo do Renascimento foi um dos determinantes-chave das circunstâncias que levaram à Reforma religiosa do século XVI, já que possibilitou e propiciou uma nova visão crítica da autoridade e das doutrinas aceites tradicionalmente por séculos. Também levou a um ressurgimento do estudo da Bíblia nas suas línguas originais e ao surgimento das versões em línguas vernáculas (alemão, espanhol, inglês...). Muitos dos humanistas europeus, como Erasmo de Roterdão e João Calvino, foram cristãos e escreveram a partir de uma perspetiva decididamente bíblica.

Num sentido mais amplo, o humanismo é uma atitude filosófica que se caracteriza por considerar os seres humanos e tudo o que a eles diz respeito - pensamentos, aspirações, empreendimentos - de um valor único e especial; e por esta razão, sublinha também o valor do indivíduo. Existe portanto um humanismo cristão, que valoriza o ser humano acima de todas as demais criaturas ou objetos, como criação especial de Deus, feito à Sua imagem e semelhança e designado como mordomo da Sua criação.

Humanismo secular

Apesar das profundas raízes bíblicas do humanismo europeu, a partir do século XIX os filósofos e ideólogos do marxismo deturparam o termo "humanismo" ao reservá-lo para expressar uma perspetiva do valor humano independente de Deus e na verdade hostil a qualquer consideração teológica. Com isto se preparou o caminho para o que hoje se denomina "humanismo secular".

Dadas as vicissitudes da história, atualmente um humanista secular pode ser marxista ou não sê-lo; na verdade, o marxismo é uma filosofia política em franca decadência. De qualquer forma, o que caracteriza um humanista secular é a adesão ao ponto de vista filosófico conhecido como materialismo ou naturalismo. Portanto, o humanismo secular é uma vertente do naturalismo, enraizado nos pressupostos básicos deste, que podem enunciar-se como se segue.

1. Deus não existe. Somente existe o universo material que, de uma ou outra forma, é eterno, não criado, já que não há tal Criador. A realidade final é a matéria e a energia.

2. O universo é um sistema fechado, no qual tudo ocorre segundo determinadas leis naturais. Isto exclui a possibilidade de influências externas, como o são os milagres. Tudo quanto pode ocorrer é o resultado da operação de princípios próprios do universo material.

3. A vida existe como resultado da combinação ao azar de um conjunto de fatores que possibilitaram a sua aparição a partir da matéria inerte. Todas as formas de vida se originaram de uma célula primordial, a partir da qual evoluíram, ao longo de milhões de anos, todas as demais formas, incluído evidentemente o homem.

4. Os seres humanos são o resultado eventual da evolução natural. Em última análise apenas são organismos mais complexos, cujos aspectos únicos (como inteligência, personalidade e vontade) se podem explicar, ao menos em princípio, pelo conjunto de leis físicas e químicas que regem os sistemas biológicos. Todas as ações e pensamentos dos homens devem-se a causas naturais, sejam estas genéticas ou ambientais.

5. A morte é o fim da existência individual. Já que a existência humana é exclusivamente o resultado de processos naturais, a personalidade individual desaparece com a morte do corpo. O destino inexorável de todo homem é o desaparecimento pessoal, e o retorno dos seus componentes moleculares ao cosmos.

6. A história humana é uma sucessão de acontecimentos vinculados por relações entre causas e efeitos, porém carente de qualquer propósito global. Não há um objetivo da história, nem ninguém que a guie; esta simplesmente ocorre, a partir das ações humanas. Se não ocorrer uma catástrofe cósmica, a história está completamente nas mãos dos homens, para o bem ou para o mal.

7. A moral é um assunto exclusivamente humano. Em termos práticos, isto significa que são os seres humanos por si mesmo, ou cada sociedade no seu conjunto, quem deve estabelecer que princípios e práticas consideram adequados. Evidentemente, podem modificar tais práticas e princípios segundo as necessidades, conveniências ou preferências individuais e sociais, sem nenhum guia superior ao homem nem tribunal supremo ao qual prestar contas.

Como é óbvio, as crenças fundamentais do naturalismo se opõem diametralmente às da fé bíblica, que estabelece a existência de um Criador pessoal, sustentador do universo e ativo nele, originador da vida por um ato especial e deliberado; a criação do homem à imagem e semelhança de Deus como origem da personalidade e da liberdade; a subsistência depois da morte física; a história como o campo no qual se cumpre o plano divino; e a moral baseada no que Deus estabeleceu como bom para o comportamento humano.

Os humanistas seculares acreditam prestar um serviço à humanidade ao libertá-la dos "preconceitos" religiosos, do seu desejo pelo além, ou, como o chama Paul Kurtz, redator do Manifesto Humanista II, "a tentação transcendental". Para os humanistas seculares, todas as religiões são, no melhor caso, uma ajuda psicológica para enfrentar a existência num mundo hostil, e no pior, um instrumento de dominação e uma fonte inesgotável de guerras e perseguições. Quanto antes o homem se desprenda de toda a crença no sobrenatural, dizem, mais depressa poderá aprender a valer-se por si mesmo e moldar o seu próprio futuro. Contudo, a posição humanista secular padece de graves problemas.

Perguntas sem resposta

O humanismo secular propõe respostas para muitas perguntas, mas nem todas elas são adequadas. No campo científico, onde o naturalismo predominou no último século, as grandes perguntas sobre a origem do universo e da vida ainda aguardam uma resposta satisfatória; as numerosas hipóteses propostas, muitas contraditórias entre si, carecem de consenso mesmo entre os próprios humanistas seculares. Eles chegaram à triste conclusão que a Verdade, assim com maiúscula, não existe.

Isto é um paradoxo, pois inicialmente os humanistas seculares se propunham chegar a toda a verdade desprendendo-se das "superstições" e buscando o conhecimento na ciência. Após um século de tentá-lo infrutuosamente, se declararam incapazes de consegui-lo. Agora nos dizem que todo o conhecimento - que é exclusivamente o conhecimento humano - é não só incompleto, mas também provisório e portanto sujeito a retificação. Que diferente da afirmação de Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"!

Um problema mais prático é o da base ética das relações humanas. A maioria dos humanistas seculares, como o professor Kurtz, a quem tive o gosto de conhecer em 1995, são pessoas decentes e corretas. Contudo, a sua ideologia não fornece base alguma para uma moral de aplicação geral. As normas morais são, em sua opinião, simplesmente o resultado de um consenso social, já que o que está bem ou mal numa sociedade é um assunto relativo. Não existe tal coisa como o bem e o mal; é bom o que a sociedade determina como tal, e mau o contrário. Não há uma norma objetiva.

Em tal caso, é preciso perguntar o que fazer com os que discordam das normas aceites, já que estes dissidentes são tão humanos como o resto. Até que ponto pode, em ausência de uma norma objetiva, afirmar-se que o abuso infantil, a mentira, o roubo ou o assassinato são maus? É lícito, do ponto de vista do humanista secular, castigar os que pensam diferente?

Isto leva-nos ao segundo grande problema, que é o da liberdade humana. Se o ser humano é o resultado de forças evolutivas e os seus atos são consequências da sua constituição genética e do ambiente, não existe tal coisa como o arbítrio humano. Podemos acreditar que os nossos atos são livres, mas em última análise nunca o seriam. Ora, onde não há liberdade, também não há responsabilidade. Portanto, não parece justo premiar certos comportamentos e castigar outros, se em ambos os casos se trata de atos onde não houve a possibilidade real de optar. No humanismo secular o homem se "livra" de Deus mas à custa de renunciar à sua própria liberdade no sentido pleno do termo.

Também não existe uma base real para o valor único de cada existência individual. A singularidade do homem é qualitativamente similar à de uma bactéria, uma barata ou um golfinho. Cada ser humano é único, mas não como uma criação especial de Deus, mas como uma combinação mais ou menos ao azar de determinada dotação genética e circunstâncias. E esta combinação desaparece com a morte, sem deixar outro rasto, também transitório, que não seja a lembrança das suas ações.

Influência na sociedade

O humanismo secular sempre foi uma ideologia minoritária. A maioria das pessoas não aceita todas as suas crenças tal como foram expostas mais acima. Talvez a noção mais rejeitada seja que a morte é a terminação definitiva da existência pessoal. Contudo, embora as crenças centrais do humanismo secular careçam de popularidade, paradoxalmente alguns dos corolários práticos desta ideologia encontraram eco nos média e exercem grande influência na sociedade.

Uma forma particularmente insidiosa de penetração massiva é através das exposições populares das descobertas científicas, que quase sempre pressupõem e com frequência afirmam a filosofia naturalista. Tipicamente, as publicações científicas de divulgação apresentam factos reais mas os interpretam da perspetiva naturalista, como se esta fosse a única perspetiva razoável. Deste modo, se inculca o materialismo disfarçado de ciência, como se fossem a mesma coisa.

Algumas das lamentáveis consequências da penetração do naturalismo na sociedade são (cf. Romanos 1:18-25):

1. Hedonismo. Consiste na busca do prazer como sentido fundamental da vida. Se isto é tudo quanto existe, como diz Paulo citando um filósofo pagão, "comamos e bebamos, que amanhã morreremos".

2. Consumismo. A obtenção de bens temporais, seja como posses materiais ou como poder económico, político, etc., torna-se um dos objetivos mais apetecíveis perante a perspetiva de que não há nada mais que esperar.

3. Relativismo moral. "O que é verdade para ti não necessariamente o é para mim". Em outras palavras, cada um deve determinar por si mesmo o que está bem e o que está mal; mas além disso podem existir tantas definições do bem e do mal como pessoas que existem, e sem uma norma objetiva nenhuma destas definições é melhor do que as outras. Se esta posição se adotasse até ao seu extremo lógico, seria impossível a vida em sociedade. No estado atual, esta forma de pensar justifica inumeráveis ações imorais do ponto de vista bíblico.

4. Aceitação social de ações e formas de vida antes consideradas imorais. É uma consequência direta do relativismo moral. O adultério e a homossexualidade são exemplos óbvios; enquanto até há não muito tempo estas coisas eram punidas pela lei civil, "avançamos" até ao ponto em que não só se toleram, mas se promovem ativamente. Adúlteros e homossexuais sempre houve; mas a existência de promotores públicos destas práticas abomináveis é uma "maravilha" de finais do século XX.

5. Desprezo pela vida humana. De uma perspetiva materialista, é razoável defender ações como o aborto ou a "eutanásia" (ou seja, a morte provocada como "tratamento" de doenças incuráveis) se elas surgirem de um consenso social.

Penetração na Igreja

Este cancro que corrói a sociedade e a extravia também não deixou intacta a Igreja. Como a Igreja está inserida na sociedade, é ingénuo esperar que fosse completamente alheia às influências do naturalismo em geral e do humanismo secular em particular. Além dos aspectos já assinalados a propósito da sociedade, convém especificar alguns pontos que afetam especialmente a Igreja.

Um deles é a proliferação de livros e seminários, baseados em duvidosas teorias psicológicas, para melhorar a autoestima e promover o bem-estar por meios principal ou exclusivamente psicológicos. Estas atrativas propostas para o "desenvolvimento pessoal" rara vez se analisam seriamente à luz das Escrituras, como faziam os cristãos de Bereia com os ensinamentos dos apóstolos (Atos 17:11). Em vez disso, são aceites com entusiasmo e seguidas por um tempo, até que aparecem outras mais novas que por sua vez ficam na moda. Em contraste com estas técnicas que vão e vêm, a Palavra de Deus permanece para sempre.

Estreitamente relacionado com o anterior está a subestimação do pecado. Nós, cristãos, servimos a um Deus três vezes santo, que aborrece o pecado. Jesus morreu para que pudéssemos ser salvos dos nossos pecados. Contudo, não é raro ver que, o que a Bíblia chama pecado, é interpretado como problemas psicológicos sem ver a sua verdadeira e fundamental raiz espiritual. É claro que a psicologia tem um lugar na Igreja, mas sempre subordinada aos claros ensinamentos bíblicos.

Em ocasiões a influência do humanismo secular se manifesta muito subtilmente através de um ênfase excessivo na função social da Igreja. A Escritura abunda em exortações e mandamentos para ajudar os necessitados, de modo que esta é uma parte irrenunciável do testemunho da Igreja ao mundo. Contudo, a função primária da Igreja é a de levar a todos o Evangelho de Jesus Cristo, o único em que há salvação (Atos 4:12). Tristemente, num sincero desejo de ajudar algumas congregações envolveram-se de corpo e alma num ativismo social que as debilitou no seu aspecto espiritual; sem dúvida, é uma armadilha mestra do Inimigo das almas.

Outra via de penetração do humanismo secular é através do que se chamou o "evangelho da prosperidade". Pode apresentar-se de maneira muito espiritual, mas no fundo da ideia de que todo cristão tem direito a grandes posses materiais está um raciocínio meramente humano, carente de sustento bíblico. Basta ler o capítulo 11 de Hebreus, ou os padecimentos de Paulo narrados em 2 Coríntios. O nosso tesouro e a nossa cidadania estão nos céus... ou deveriam está-lo!

Também toda a congregação corre o risco de sucumbir à tentação de confiar mais em planos, técnicas e esquemas humanos do que em apegar-se fielmente à Palavra de Deus. Uma delas é confiar que a organização pode fazer o que corresponde ao organismo, ao Corpo de Cristo que é a Igreja. Uma boa organização sem dúvida pode ajudar à sábia administração dos recursos para o progresso do reino, mas de modo algum pode substituir a fé, a devoção ou a santidade.

Outra tentação muito importante e grave é a manipulação psicológica dos membros, ou daqueles a quem se prega o evangelho. As emoções são parte da nossa natureza e é normal e lícito que tenham um papel importante no que Paulo chama "culto racional" (Romanos 12: 1-2). Porém, alguns pregadores muito populares parecem recorrer mais às técnicas de manipulação de massas do que ao poder do Espírito Santo, que é quem convence do pecado, da justiça e do juízo.

Como cristãos, faremos bem em seguir o conselho do Senhor de ser simples como pombas, mas prudentes como serpentes. A nossa sociedade moderna é uma fonte constante de confusão, de "filosofias e vãs subtilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo" (Col. 2:8). Contudo, também é o campo ao qual o Senhor nos mandou ceifar.

Fernando D. Saraví


Bibliografia

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