5 de junho de 2012

A SOLA SCRIPTURA É UM PRINCÍPIO BÍBLICO E HISTÓRICO


A Sola Scriptura é um princípio bíblico, amplamente fundamentado na própria Bíblia, observado pelos Padres primitivos e recuperado pela reforma protestante, que tinha ficado sepultado pela avalanche de tradições eclesiásticas acumuladas durante séculos na Igreja de Roma.

A Sola Scriptura como princípio bíblico

Um exame do Novo Testamento nos mostra que:

[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar. 7:8-9 e par.). Não falamos aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.

[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.

[3] Jesus Cristo nunca acusou os judeus de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).

[4] Aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar. 12:24-27 e par.).

[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do Antigo Testamento puseram por escrito os seus.

[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3:15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao Antigo Testamento não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu caráter normativo.

[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3:15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).

[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no Antigo Testamento (Atos 17:11).

[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9:23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.

[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

Durante um intervalo de cerca de mil anos, o tempo que demorou a formar-se o Antigo Testamento, Deus falou de muitas maneiras e em repetidas ocasiões, mas foi inculcando no povo judeu o valor das Escrituras. No caso do Novo Testamento, o intervalo entre os ensinos divinos e a sua colocação por escrito foi vinte vezes menor. A quantidade e qualidade de informação histórica, doutrinal e prática do Novo Testamento não pode comparar-se com as tradições orais, muitas vezes duvidosas, que se encontram nos escritos dos Padres. O apelo válido à tradição nos Padres refere-se à compreensão e aplicação da doutrina estabelecida firmemente nas Escrituras. E, naturalmente, sabemos hoje que apelaram a esta tradição interpretativa... porque eles próprios o puseram por escrito.

A Sola Scriptura como princípio histórico

Diz-se que se se perdessem todas as cópias do Novo Testamento, se poderia reconstruí-lo com base nas citações patrísticas. Os escritores cristãos primitivos, apologistas, pastores e teólogos dos primeiros séculos, não apelavam a supostas tradições doutrinais mas às Escrituras. É certo que encontramos numerosas alusões à "regra de fé da Igreja" e à "tradição eclesiástica", mas não se trata de uma tradição doutrinal à parte das Escrituras, mas da forma tradicional de interpretá-las e aos usos e costumes. Para os Padres dos primeiros séculos, a Sagrada Escritura é a tradição doutrinal da Igreja, e o autêntico registo da tradição Apostólica. Assim, Tertuliano (160-220) diz que aos hereges não se lhes deve conceder o uso das Escrituras para redarguir, porque não lhes pertencem; as Escrituras são património da Igreja, base e fundamento da sua doutrina (J. Quasten, Patrología I, p. 569). "Porque onde vejamos certamente a verdade da doutrina e da fé cristã, aí indubitavelmente se acham também as verdadeiras Escrituras, a verdadeira interpretação, as verdadeiras tradições cristãs" (De Prescriptione Haereticorum, 20).

Por exemplo, nos escritos conservados de Orígenes, homem de vastíssima erudição, não encontramos apelos a tradições doutrinais extrabíblicas, apesar de que, dadas as especulações deste Padre, tais tradições poderiam ter sido muito interessantes. Eusébio de Cesareia (Hist Ecl VI, 25:11-14) conservou as reflexões de Orígenes a propósito do autor de Hebreus, e todas elas se baseiam em evidências internas da epístola. Parece que no seu tempo (segunda metade do século III) não havia tradição confiável a tal respeito.

Ireneu de Lyon (ca. 140-205) escreveu: "... as Escrituras são na verdade perfeitas, sendo que elas foram faladas ou ditadas pela Palavra de Deus e pelo Seu Espírito..." (Adv Haer II, 28).

"Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé" (Adv Haer III, 1,1).

Ireneu também tem a Igreja como depositária das Escrituras e possuidora de um entendimento correto destas: "... mas melhor é que nos refugiemos na Igreja, sejamos educados em seu seio, e nos alimentemos da Escritura do Senhor" (Adv Haer V,20:2).

Numa carta a Florino conservada por Eusébio, Ireneu recorda Policarpo – segundo a tradição discípulo de São João Apóstolo - e o louva porque "tudo relatava em consonância com as Escrituras" (Hist Ecl V, 20:6).

Ainda João Crisóstomo (347-407) escreveu: "Possuímos a regra e o padrão mais exato e perfeito para regular as nossas diversas inquirições: refiro-me à regulação das leis divinas. Eu, portanto, gostaria que todos vocês rejeitassem o que este ou aquele homem diz, e que investigassem todas estas coisas nas Escrituras" (Hom. 13, 4:10 ad fin. in 2 Cor.). Parece que o insigne pregador não estaria hoje de acordo com a Igreja de Roma. Quasten recalca: "O maior orador sagrado da Igreja antiga baseia toda a sua pregação na Escritura" (o.c., p. 528).

Pela mesma época, Gregório de Nissa (330-395) afirmou: "Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos"; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso" (De anima et resurr.)

Igualmente Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito de seu tempo, disse: "É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques" (Adv Helv).

Também o grande Agostinho de Hipona (354-430) era do mesmo parecer. O bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento: "Nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa". Nas suas Confissões (VI, 5:2-3) declara: "Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não creem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..."

Os exemplos poderiam multiplicar-se. De maneira que os Padres a partir do século II baseiam as suas doutrinas nas Escrituras e, ainda que se mostrem zelosos em conservar a tradição interpretativa eclesiástica, não apelam a tradições orais doutrinais. A ter existido tal coisa, deverá ter sido de natureza independente e secreta; mas é precisamente este género de tradição o que Ireneu severamente condena, por sua origem espúria (Adv Haer III, 3:1).

17 de maio de 2012

Os concílios ecuménicos e a perpétua virgindade de Maria


A crença na perpétua virgindade de Maria difundiu-se rapidamente a partir da sua formulação por Jerónimo e Sirício em finais do século IV, até ao ponto de a partir do século seguinte os bispos de Roma a incorporarem nos seus escritos e provavelmente (ver mais abaixo) aparecer tal crença no contexto de cânones conciliares, embora estes fossem destinados primariamente a salvaguardar a Pessoa de Cristo e não a exaltar Maria.
É instrutivo comparar os ensinamentos dos Concílios Ecuménicos sucessivos para notar a forma em que se desenvolveu a crença na perpétua virgindade de Maria.
Ano 325. Segundo o Credo de Niceia, Jesus Cristo “por nós homens e por nossa salvação desceu e encarnou e se fez homem”.
Maria não é sequer mencionada.
Ano 381. Segundo o Credo chamado Niceno-Constantinopolitano, Jesus Cristo “por nós homens e por nossa salvação desceu do céu e encarnou pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, e se fez homem”.
Aqui menciona-se Maria, e a sua condição virginal no momento da concepção.
Ano 431. Segundo os anátemas de Cirilo contra Nestório no Concílio de Éfeso,
Se alguém não confessa que Deus é segundo verdade o Emanuel, e que por isso a santa Virgem é mãe de Deus (pois deu à luz carnalmente o Verbo de Deus feito carne), seja anátema”.
Também aqui não se menciona a “sempre virgem”.
Ano 451. No Concílio de Calcedónia, na definição sobre as duas naturezas de Cristo, diz-se que foi
“...gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e o mesmo, nos últimos dias, por nós e por nossa salvação, gerado de Maria Virgem, mãe de Deus, quanto à humanidade...”
Os bispos de Calcedónia acrescentaram esta advertência:
Assim, pois, depois de com toda a exactidão e cuidado em todos os seus aspectos ter sido por nós redigida esta fórmula, definiu o santo e ecuménico Concílio que a ninguém será lícito professar outra fé, nem sequer escrevê-la  ou compô-la, nem senti-la, nem ensiná-la.
Apesar da extrema exactidão e cuidado que os bispos conciliares afirmam ter exercido, ainda não dizem “Maria sempre Virgem”, mas “Maria Virgem” no contexto da concepção de Jesus.
Em outras palavras, o dogma da perpétua virgindade não aparece de forma implícita, nem explícita, nos cânones dos quatro primeiros concílios ecuménicos.
Note-se que isto não se deveu a que não tivesse havido quem ensinasse o contrário. Já Tertuliano em princípios do século III e no IV primeiro Helvídio, depois Joviniano e mais tarde Bonoso, bispo de Ilíria, sustentaram que Maria teve mais filhos depois de dar à luz Jesus. Isto ocorreu décadas antes dos concílios de Éfeso e Calcedónia.
Ano 553. O Concílio II de Constantinopla é habitualmente indicado como tendo sido o primeiro a fazer referência à virgindade perpétua. No cânon 2 dos anátemas contra os «três capítulos» lê-se:
Can. 2. Se alguém não confessa que há dois nascimentos de Deus Verbo, um do Pai, antes dos séculos, sem tempo e incorporalmente; outro nos últimos dias, quando Ele mesmo baixou dos céus, e se encarnou da santa gloriosa mãe de Deus e sempre Virgem Maria, e nasceu dela; esse tal seja anátema.
No entanto, inclusive em relação a este próprio concílio II de Constantinopla, a evidência é questionável:
As actas gregas originais do Concílio perderam-se, mas existe uma versão latina muito antiga, provavelmente contemporânea e feita para o uso de Vigílio, certamente citada pelo seu sucessor Pelágio I.... No seguinte Concílio Geral de Constantinopla (680) verificou-se que as Actas originais do Concílio tinham sido adulteradas (Hefele, op.cit., II, 855-58) a favor do monotelismo; nem é seguro que na sua forma presente as tenhamos na sua plenitude original (ibid., pp. 859-60).
(Thomas J. Shahan, em The Catholic Encyclopedia, s.v. Constantinople, Second Council of)
É interessante que no seguinte Concílio III de Constantinopla (sexto ecuménico) os bispos se expressaram como se segue:
Seguindo os cinco santos Concílios Ecuménicos e os santos e aprovados Padres com uma voz define que nosso Senhor Jesus Cristo deve ser confessado como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, subsistente em alma racional e corpo; consubstancial com o Pai na sua divindade e consubstancial connosco na sua humanidade; em todas as coisas como nós, excluindo somente o pecado; gerado de seu Pai antes de todas as épocas segundo a sua divindade, mas nestes últimos dias, por nós homens e por nossa salvação se fez homem do Espírito Santo e da Virgem Maria, estrita e propriamente a mãe de Deus segundo a carne; um e o mesmo Cristo nosso Senhor, o unigénito Filho no qual deve reconhecer-se duas naturezas inconfundível, imutável, inseparável e indivisivelmente ...”
(Sessão XVIII; negrito acrescentado).
Como pode ver-se, nesta declaração que expressamente afirma a sua adesão aos cinco Concílios Ecuménicos anteriores, não diz aqui «sempre Virgem Maria» mas, como nos Concílios anteriores a II Constantinopla, simplesmente «a Virgem Maria».
Traduzido da edição de Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, 14:345.
Conclusão
1) Não há evidência de que a perpétua virgindade de Maria fosse ensinada por autores ortodoxos (em sentido estrito) dos primeiros três séculos do cristianismo.
2) A doutrina da perpétua virgindade foi exposta por Jerónimo em 384, no seu tratado contra Helvídio. Com o auge do ascetismo e do monaquismo, tornou-se popular nos séculos seguintes.
3) A primeira referência expressa num cânon conciliar é, ainda que questionável, no Concílio II de Constantinopla de 553, celebrado contra a vontade e sem a participação do bispo de Roma Vigílio. O cânon em questão é uma definição cristológica sobre a natureza divina e humana do Senhor, que menciona de passagem a «sempre Virgem». Não é, pois, uma definição dogmática sobre a perpétua virgindade.
4) A doutrina da perpétua virgindade de Maria não foi objecto de uma definição dogmática por um concílio ecuménico no primeiro milénio.

1 de maio de 2012

“SOLA FIDE” (A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) NA IGREJA PRIMITIVA


Clemente de Roma:

"Quem quiser sinceramente considerar cada particular, reconhecerá a grandeza dos dons que foram dados por ele. Porque dele, surgiram os sacerdotes e todos os levitas que ministram no altar de Deus. A partir dele também [era descendente] nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne. A partir dele [surgiram] reis, príncipes e governantes da raça de Judá. Nem estão as suas outras tribos em pequena glória, visto que Deus havia prometido, "a tua descendência será como as estrelas do céu". Todos estes foram, portanto, muito honrados, e engrandecidos, não pelo seu próprio bem, ou pelas suas próprias obras, ou pela justiça que eles tinham feito, mas através da operação da Sua vontade. E nós, também, sendo chamados pela sua vontade em Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa própria sabedoria, ou entendimento, ou piedade, ou obras que tenhamos feito em santidade de coração, mas por meio da fé através da qual, desde o início, Deus Todo-Poderoso tem justificado todos os homens; ao qual seja a glória para todo o sempre. Amen.

ANF: Vol. I, The Apostolic Fathers, First Epistle of Clement to the Corinthians, Chapter 32.

Mathetes a Diogneto:

Enquanto suportou o tempo antigo, Ele permitiu que fôssemos levados por impulsos incontroláveis​​, sendo atraídos pelo desejo de prazer e de várias paixões. Não é que ele se comprazeu nos nossos pecados, mas simplesmente suportou-os, nem é que Ele aprovou o tempo da operação da iniquidade que então havia, mas procurou formar uma mente consciente de justiça, de modo que sendo convencidos nesse tempo da nossa indignidade para alcançar a vida através das nossas próprias obras, devesse agora, graças à bondade de Deus, nos ser concedida; e tendo tornado manifesto que em nós mesmos fomos incapazes de entrar no reino de Deus, pudéssemos através do poder de Deus ser capacitados. Mas quando a nossa maldade havia chegado ao seu auge, e tinha sido claramente demonstrado que a sua recompensa, punição e morte, era iminente sobre nós, e quando chegou o tempo que Deus havia antes determinado para manifestar a sua própria bondade e poder, segundo o amor de Deus, excedeu totalmente a consideração para com os homens, não nos considerou com ódio, nem nos afastou para longe, nem lembrou a nossa iniquidade contra nós, mas mostrou grande longanimidade, e carregou connosco. Ele mesmo tomou sobre si o peso das nossas iniquidades, Ele deu o Seu próprio Filho em resgate por nós, o Santo pelos transgressores, o inocente pelo ímpios, o justo pelos injustos, o incorruptível pelo corruptível, o imortal pelos que são mortais. Pois que outra coisa era capaz de cobrir os nossos pecados senão a Sua justiça? Por qual outro era possível que nós, os ímpios e perversos, pudéssemos ser justificados, senão pelo único Filho de Deus? Ó doce troca! Ó operação insondável! Ó benefícios que ultrapassam toda a expectativa! que a maldade de muitos deveria ser encoberta num único justo, e que a justiça de Um deveria justificar muitos transgressores! Tendo, pois, nos convencido no tempo antigo que a nossa natureza era incapaz  de alcançar a vida, e tendo agora revelado o Salvador que é capaz de salvar mesmo aquelas coisas que eram [antigamente] impossíveis de salvar, por esses dois factos ele desejou levar-nos a confiar na Sua bondade, a estimá-lo nosso Provedor, Pai, Professor, Conselheiro, Curador, nossa Sabedoria, Luz, Honra, Glória, Poder e Vida, de modo que não devemos estar ansiosos quanto a roupas e comida.

Ante-Nicene Fathers: Volume I, Mathetes to Diognetus, Chapter 9.

Crisóstomo (349-407):

O próprio patriarca Abraão antes de receber a circuncisão foi declarado justo em resultado da fé somente: antes da circuncisão, o texto diz, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”

Fathers of the Church, Vol. 82, Homilies on Genesis 18-45, 27.7 (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1990), p. 167.

Crisóstomo (349-407): Pois, se mesmo antes disto, a circuncisão tornou-se incircuncisão, muito mais tem-se tornado agora, já que é lançada fora de ambos os períodos. Mas depois de dizer que "foi excluída", ele mostra também, como. Como, então, ele diz que foi excluída? "Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé" Vê que ele chama a fé também uma lei deleitando-se em manter os nomes, e assim afastar a aparente novidade. Mas o que é a "lei da fé?" Trata-se de ser salvo pela graça. Aqui ele mostra o poder de Deus, em que Ele não só salvou, mas também justificou, e os levou à vanglória, e isto sem precisar de obras, mas olhando para a fé somente.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 7, vs. 27.

Crisóstomo (349-407):

Para uma pessoa que não tinha obras, ser justificado pela fé, não era nada implausível. Mas para uma pessoa ricamente adornada com boas ações, não ser feito justo segundo isso, mas segundo a fé, é coisa para causar espanto, e para definir o poder da fé numa forte luz.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 8, Rom. 4:1, 2.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), escreveu ao comentar 1 Cor. 1:4b:

Deus decretou que uma pessoa que crê em Cristo pode ser salva sem obras. Somente pela fé ela recebe o perdão dos pecados.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VII: 1-2 Corinthians (Downers Grove: InterVarsity Press, 1999), p. 6.

Latim de Migne: Datam dicit gratiam a Deo in Christo Jesu, quae gratia sic data est in Christo Jesu; quia hoc constitutum est a Deo, ut qui credit in Christum, salvus sit sine opere: sola fide gratis accipit remissionem peccatorum. In Epistolam B. Pauli Ad Corinthios Primam, PL 17:185

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 1:11:

A misericórdia de Deus foi dada por esta razão, para que deixassem as obras da lei, como eu já disse muitas vezes, porque Deus, tendo piedade das nossas fraquezas, decretou que a raça humana seria salva pela fé somente, juntamente com a lei natural.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 23.

Latim de Migne: Nam misericordia Dei ad hoc data est, ut Lex cessaret, quod saepe jam dixi; quia Deus consulens infirmitati humanae, sola fide addita legi naturali, hominum genus salvare decrevit. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:53.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 2:12:

Porque, se a lei é dada não para os justos, mas para os injustos, quem não peca é um amigo da lei. Para ele, somente a fé é o caminho pelo qual ele é aperfeiçoado. Para outros mera evitação do mal não lhes vai obter alguma vantagem com Deus a menos que eles também creiam em Deus, de modo que possam ser justos em ambos os casos. Para a justiça é um temporal; o outro é eterno.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 65.

Latim de Migne: Si enim justo non est lex posita, sed injustis; qui non peccat, amicus legis est. Huic sola fides deest, per quam fiat perfectus quia nihil illi proderit apud Deum abstinere a contrariis, nisi fidem in Deum acceperit, ut sit justus per utraque; quia illa temporis justitia est, haec aeternitatis. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:67.

Ecuménio (Século VI), comentando sobre Tiago 2:23:

Abraão é a imagem de alguém que é justificado somente pela fé, pois o que ele acreditou lhe foi imputado como justiça. Mas ele também foi aprovado por causa das suas obras, uma vez que ele ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar. É claro que ele não fez esta obra por si só, ao fazê-la, ele permaneceu firmemente ancorado em sua fé, crendo que através de Isaque a sua descendência seria multiplicada até que fosse tão numerosa como as estrelas.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. XI, James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 33. Ver PG 119:481.

Beda (672/673-735), comentando sobre Paulo e Tiago:

Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras, aqueles que entendem por isto que não importa se levam uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de fé, para mostrar que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão, porque o dom da justificação vem somente pela fé.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament XI: James, 1-2Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 31.

Texto Latino: Quoniam Paulus apostolus praedicans justificari hominem per fidem sine operibus, non bene intellectus est ab eis qui sic dictum acceperunt, ut putarent, cum semel in Christum credidissent, etiam si male operarentur, et facinorose flagitioseque viverent, salvos se esse per fidem: locus iste hujus epistolae eumdem sensum Pauli apostoli quomodo sit intelligendus exponit. Ideoque magis Abrahae exemplo utitur, vacuam esse fidem si non bene operetur, quoniam Abrahae exemplo etiam Paulus usus est, ut probaret justificari hominem sine operibus posse. Cum enim bona opera commemorat Abrahae, quae ejus fidem comitata sunt, satis ostendit apostolum Paulum, non ita per Abraham docere justificari hominem per fidem sine operibus, ut si quis crediderit, non ad eum pertineat bene operari, sed ad hoc potius, ut nemo arbitretur meritis priorum bonorum operum se pervenisse ad donum justificationis quae est in fide. Super Divi Jacobi Epistolam, Caput II, PL 93:22.

Hilário de Poitiers (c 315-67) sobre Mateus 9:

Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Sancti Hilarii In Evangelium Matthaei Commentarius, PL 9:961.

Basílio de Cesareia (Ad 329-379):

Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, que Cristo para nós foi feito por Deus santificação, sabedoria, justificação, e redenção. Este é o perfeito e puro gloriar-se em Deus, quando alguém não se orgulha devido à sua própria justiça, mas sabe que é realmente indigno da verdadeira justiça e é (ou foi, δεδικαιωμένον) justificado unicamente pela fé em Cristo.

Ver Chemnitz, Examination of the Council of Trent, Part 1, trans. Fred Kramer (St. Louis: Concordia Publishing House, 1971), p. 505.

Texto Grego: `O kaucw,menoj evn Ku,ri,w| kauca,sqw( le,gw o[ti Cristo.j h`mi/n evgenh,qh sofi,a avpo. Qeou/( dikaiosu,nh te kai. a`giasmo.j kai. avpolu,trwsij\ `Ina kaqw.j ge,graptai( `O kaucw,menoj( evn Ku,ri,w| kauca,sqw) Au[th ga.r dh. h` telei,a kai. o`lo,klhroj kau,chsij evn Qew/|( o[te mh,te evpi. dikaiosu,nh| tij epai,retaith/| e`autou/( avll v e;gnw me.n evndeh/ o;nta evauto.n dikaiosu,nhj avlhqou/j( pi,stei de. mo,nh| th/| eivj Cristo.n dedikaiwme,on)

Homilia XX, Homilia De Humilitate, §3, PG 31:529. No contexto, Basílio apelava ao exemplo do Apóstolo Paulo como um homem regenerado.

Jerónimo (347-420) sobre Romanos 10:3:

Deus justifica somente pela fé.

Ignorantes enim justitiam Dei, et suam quaerentes statuere: justitiae Dei non sunt subjecti. Ignorantes quod ***Deus ex sola fide justificat*** et justos se ex legis operibus, quam non custodierunt, esse putantes: noluerunt se remissioni subjicere peccatorum, ne peccatores fuisse viderentur, sicut scriptum est: Pharisaei autem spernentes consilium Dei in semetipsis, noluerunt baptizari baptismo Joannis. Item quia sacrificia legis, et caetera, quae umbra erant veritatis, quae per Christum perfici habebant, praesentia Christi cessaverunt: cui credere noluerunt: In Epistolam Ad Romanos, Caput X, v. 3, PL 30:692D.

Hilário sobre Mateus 9:

"Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica."

Ou veja-se a tradução em Tomás de Aquino, Catena Aurea: A Commentary on the Four Gospels Collected out of the Works of the Fathers, 4 Volumes, trans. and ed. John Henry Cardinal Newman (London: The Saint Austin Press, reprinted 1997), onde se lê: "os pecados da sua alma que a Lei não poderia remir lhe são remidos, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Commentarius in Evangelium Matthaei, Caput VIII, PL 9:961

Tomás de Aquino:

Os sacramentos da Nova Lei no entanto, embora sejam elementos materiais, não são elementos carenciados, por isso podem justificar. De novo, se houve alguém na Velha Lei, que foi justo, ele não foi feito justo pelas obras da Lei mas somente pela fé em Cristo "a quem Deus propôs para ser uma propiciação mediante a fé", como se diz em Romanos (3:25). Assim, os sacramentos da Antiga Lei eram determinadas protestações da fé em Cristo, tal como os nossos sacramentos são, mas não da mesma maneira, porque esses sacramentos estavam configurados para a graça de Cristo como algo que está no futuro, os nossos sacramentos, no entanto, testemunham como coisas que contém uma graça que está presente. Portanto, ele diz significativamente, que não é pelas obras da lei que somos justificados, mas pela fé em Cristo, porque, apesar de alguns que observaram as obras da Lei em tempos passados ​​ terem sido feitos justos, não obstante, isso foi efetuado somente pela fé em Jesus Cristo.

St. Thomas Aquinas, Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galations, trans. F. R. Larcher, O.P. (Albany: Magi Books, Inc., 1966), Chapter 2, Lecture 4, (Gal. 2:15-16), pp. 54-55.

2 de abril de 2012

Lutero disse que Cristo pecou cometendo adultério?


Uma citação que geralmente é apresentada por católicos romanos contra Lutero é a seguinte:

“Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Tischredden, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107).

Comecemos por fazer uma breve introdução.

As "Conversas à mesa" (Tischreden) de Martinho Lutero são uma compilação de diálogos com os seus discípulos e colegas, não um tratado formal de teologia.

A primeira edição alemã foi preparada por um dos que tomavam notas, Johannes Aurifaber (Goldschmitt) e publicada em 1566.

O texto das "Conversas" está disponível online numa tradução para o inglês em:

http://www.ccel.org/ccel/luther/tabletalk

http://www.reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html

Lutero disse e escreveu muito (a edição Weimar das suas obras soma 125 volumes) e nem tudo de qualidade uniforme. Não o consideramos de modo algum infalível. Como de qualquer outro cristão pós-apostólico, retemos apenas o que é bom.

Podem reprovar-se muitas coisas a Lutero. Em muitos sentidos foi um filho do seu tempo e um homem de contrastes entre a sua vasta erudição e as suas maneiras e formas de expressão.

Por outro lado, as indiscrições de Lutero, como as grosserias que, juntamente com coisas muito mais valiosas, poder-se-ão ter dito à sua mesa, empalidecem em comparação com a conduta dos supostos sucessores de Pedro contemporâneos seus.

"Parece que a época do Renascimento foi chamada a provar qual era a divindade romana mais indicada para ser patrona do Papado. Logo que foi afastada Vénus (Alexandre Bórgia), instalou-se na Cadeira de Pedro Marte: Júlio II (1503-1513), amigo da guerra ainda mais do que das artes, pelo que tomou o nome de Júlio César. Quando Miguel Ângelo quis retratá-lo com um livro na mão, se opôs com veemência: «Melhor, empunhando a espada»."

(Albert Wucher, Breve historia de los Papas. Trad. Pablo Simón. Buenos Aires: El Ateneo, 1963, p. 147; com censura eclesiástica).

Feita esta breve introdução passemos à citação em concreto.

A citação de Lutero tomada das suas Tischreden, originalmente, na mistura de latim e alemão em que Lutero costumava expressar-se nestas ocasiões, diz:

Christus ist am ersten ein Ebrecher (Ehebrecher) worden bei dem Brunn cum muliere, quia illi dicebant... Quid facit cum ea? Item cum Magdalena, item cum adultera (Tischr. 1472 II 107).

Que, literalmente traduzido, significa (a tradução é minha):

Cristo é primeiro adúltero junto ao poço com a mulher, porque naquele lugar diziam… Que faz com ela? Do mesmo modo, com Madalena. Do mesmo modo, com a adúltera.

Não obstante, como diz o historiador católico Ricardo García-Villoslada, na sua obra “Martín Lutero”, tomo II, página 251:

“É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.

Portanto feito este esclarecimento necessário, conclui-se que a citação de Lutero tal como é apresentada está adulterada ou pelo menos foi grosseiramente mal-interpretada. Lutero não blasfemou contra nosso Senhor Jesus Cristo chamando-o de adúltero como querem fazer crer alguns apologistas católicos mal-intencionados.

17 de março de 2012

Os Evangélicos também são Católicos


Aos membros da Igreja de Roma, é preciso fazer notar que todos nós, evangélicos, somos católicos em sentido próprio, e não de título ou denominação oficial da nossa congregação.

Nós somos:

Cristãos porque somos discípulos de Jesus Cristo, redimidos pelo seu sangue,

Evangélicos porque cremos, pregamos e proclamamos o glorioso Evangelho de Jesus Cristo,

Católicos ou universais porque sem importar onde nos congregamos, pertencemos à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo,

e

Apostólicos porque perseveramos na doutrina dos Apóstolos.

O que não somos nem queremos ser, claro, é "Romanos".

6 de fevereiro de 2012

DOIS BISPOS DE ROMA QUE NÃO CONHECIAM A TRADIÇÃO APOSTÓLICA E ESTÃO SOB O ANÁTEMA DO CONCÍLIO DE TRENTO


No entanto,
O bispo de Roma Inocêncio I, numa carta ao bispo de Tolosa, Exupério, dá em 405 uma lista de livros do AT que inclui os apócrifos/deuterocanónicos com 1 Esdras que não é considerado canónico pela Igreja de Roma.
Gregório Magno, bispo de Roma (590-604) insistia na distinção entre livros canónicos e eclesiásticos:
Em relação a tal particular não estamos a agir irregularmente, se dos livros, ainda que não canónicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46].
Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424; negrito acrescentado.
Portanto, estes dois bispos de Roma não conheciam a Tradição apostólica, que os católicos dizem que fez a Igreja discernir o cânon, que foi proclamado no Concílio de Trento.
Mas, a verdadeira Tradição apostólica está registada nas Escrituras, e diz o seguinte:
"Que vantagem, pois, tem o judeu? ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todo sentido; primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. Pois quê? Se alguns foram infiéis, porventura a sua infidelidade anulará a fidelidade de Deus? De modo nenhum; antes seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado" (Romanos 3:3-4).
Por conseguinte, a verdadeira Tradição apostólica diz que foi aos Judeus que a revelação do Antigo Testamento foi confiada. Logo, as Escrituras do Antigo Testamento devem ser as do cânon hebraico, mesmo que alguns bispos digam o contrário.
A Tradição apostólica, que fez a Igreja Romana discernir o cânon, é espúria; não veio dos apóstolos e, por isso, o cânon do Antigo Testamento que discerniram não é o hebraico, como diz que deve ser a verdadeira Tradição apostólica.

5 de fevereiro de 2012

Agostinho sobre infalibilidade


Agostinho (354-430): Só Deus jura de forma segura, porque só Ele é infalível.

NPNF1: Vol. VIII, St. Augustin on the Psalms, Psalm 89, § 4.

Texto latino: Deus solus securus jurat, quia falli non potest.

Ver em Psalmum LXXXVIII Enarratio, Sermo I, PL 37:1122.

Agostinho (354-430): Mas a autoridade humana muitas vezes falha.

FC, Vol. 5, Saint Augustine On Divine Providence and the Problem of Evil, Book 2, Chapter 9, §27 (New York: CIMA Publishing Co., Inc., 1948), p. 305.

Texto latino: Humana vero auctoritas plerumque fallit. De Ordine, Liber Secundus, Caput IX, §27, PL 32:1008.

Agostinho (354-430): Uma vez que então, Deus, em cuja eternidade não há mudança alguma, é o Criador e Ordenador do tempo, eu não vejo como se possa dizer que Ele criou o mundo depois de decorridos espaços de tempo, a não ser que se possa dizer que antes do mundo havia alguma criatura por cujo movimento o tempo poderia passar. E se as Sagradas e infalíveis Escrituras dizem que no princípio Deus criou os céus e a terra, para que se possa entender que Ele nada tinha feito previamente – porque se Ele tivesse feito alguma coisa antes do resto, esta coisa seria dita ter sido feita "no princípio" - então seguramente o mundo foi feito, não no tempo, mas simultaneamente com o tempo. Porque o que é feito no tempo é feito depois e antes de algum tempo - depois do que é passado, antes do que é futuro.

NPNF1: Vol. II, The City of God, Book XI, Chapter 6.

Texto latino: Cum igitur Deus, in cujus aeternitate nulla est omnino mutatio, creator sit temporum et ordinator, quomodo dicatur post temporum spatia mundum creasse, non video; nisi dicatur ante mundum jam aliquam fuisse creaturam, cujus motibus tempora currerent. Porro si Litterae sacrae maximeque veraces ita dicunt, in principio fecisse Deum coelum et terram, ut nihil antea fecisse intelligatur, quia hoc potius in principio fecisse diceretur, si quid fecisset ante caetera cuncta quae fecit; procul dubio non est mundus factus in tempore, sed cum tempore. Quod enim fit in tempore, et post aliquod fit, et ante aliquod tempus; post id quod praeteritum est, ante id quod futurum est: De Civitate Dei, Liber Undecimus, Caput VI, PL 41:321-322.

Agostinho (354-430): Quando o homem é devidamente compreendido (ou, se isso não for possível, então, pelo menos, crido) ser feito à imagem de Deus, sem dúvida que é essa parte dele que o eleva acima das partes inferiores que tem em comum com os animais, a qual o traz para mais perto do Supremo. Mas visto que a sua mente, embora, naturalmente, capaz da razão e inteligência está desabilitada por vícios repreensíveis e inveterados não apenas para unir-se com seu Senhor gozando de Deus, mas também para tolerar a sua luz imutável, até que tenha sido gradualmente curada, e renovada, e capacitada de tal felicidade, tinha, em primeiro lugar, de ser impregnada com fé, e assim purificada. E para que nessa fé possa avançar o mais confiadamente para a verdade, a própria verdade, Deus, o Filho de Deus, assumindo a humanidade sem destruir a Sua divindade, estabeleceu e fundou esta fé, que pode haver um caminho para o homem para o Deus do homem através de um Deus-homem. Pois este é o Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. Pois é como homem que Ele é o Mediador e o Caminho. Porque, se o caminho repousa entre aquele que vai, e o lugar para onde ele vai, há esperança de alcançá-lo, mas se não há caminho, ou se ele não sabe onde está, de que serve saber para onde ele deve ir? Ora, o único caminho que é infalivelmente seguro contra todos os erros, é quando a mesma pessoa é ao mesmo tempo Deus e homem, Deus o nosso fim, homem o nosso caminho.

NPNF1: Vol. II, The City of God, Book XI, Chapter 2.

Texto latino: Hic est enim mediator Dei et hominum homo Christus Jesus. Per hoc enim mediator, per quod homo; per hoc et via. Quoniam si inter eum qui tendit et illud quo tendit, via media est, spes est perveniendi: si autem desit, aut ignoretur qua eundum sit, quid prodest nosse quo eundum sit? Sola est autem adversus omnes errores via munitissima, ut idem ipse sit Deus et homo: quo itur, Deus; qua itur, homo. De Civitate Dei, Liber Undecimus, Caput II, PL 41:318.

Agostinho (354-430): Deixe-me, portanto, dizer em poucas palavras à sua Caridade, que o presbítero Bonifácio não foi achado por mim culpado de qualquer crime, e que eu nunca acreditei, e ainda não acredito, em qualquer acusação contra ele. Como, então, poderia ordenar que o seu nome fosse excluído do rol de presbíteros, quando plenamente avisado pela palavra de nosso Senhor no evangelho: "Com o juízo com que julgais, sereis julgados". Pois, vendo que a disputa que surgiu entre ele e Spes foi por seu consentimento submetida à arbitragem divina de uma forma que, se desejar, lhe pode ser dada a conhecer, quem sou eu, para ter a presunção de antecipar a deliberação divina excluindo ou suprimindo o seu nome? Como bispo, eu não devia precipitadamente suspeitar dele, e como sou apenas um homem, eu não posso decidir infalivelmente sobre coisas que estão escondidas de mim. Mesmo em assuntos seculares, quando um apelo é feito para uma autoridade superior, todo o procedimento persiste enquanto o caso aguarda a decisão da qual não há apelo, porque se alguma coisa for alterada enquanto o assunto está dependente da sua arbitragem, isto seria um insulto para o tribunal superior. E como é grande a distância entre mesmo a mais alta autoridade humana e a divina!

NPNF1: Vol. I, Letters of St. Augustin, Letter 77 - To, §2.

Texto latino: Breviter itaque dico Charitati vestrae, Bonifacium presbyterum in nullo crimine apud me fuisse detectum, nequaquam me de illo tale aliquid credidisse vel credere. Quomodo ergo juberem de numero presbyterorum nomen ejus auferri, vehementer terrente Evangelio ubi Dominus ait: In quo judicio judicaveritis, judicabimini Cum enim causa quae inter illum et Spem exorta est, sub divino examine pendeat secundum placitum eorum, quod vobis si volueritis poterit recitari; quis ego sum, ut audeam Dei praevenire sententiam in delendo vel supprimendo ejus nomine, de quo nec suspicari temere mali aliquid episcopus debui, nec dilucide judicare homo de occultis hominum potui, cum in ipsis causis saecularibus, quando ad majorem potestatem refertur arbitrium judicandi, manentibus sicuti erant omnibus rebus, exspectetur illa sententia, unde jam non liceat provocari, ne superiori cognitori fiat injuria, si ejus pendente judicio aliquid fuerit commutatum? Et utique multum interest inter divinam et humanam quamlibet excelsissimam potestatem. Domini Dei nostri misericordia nunquam vos deserat, domini dilectissimi et honorandi fratres. Epistola LXXVII, §2, PL 33:266-267.

Conclusão:

Como podemos constatar Agostinho faz uso do termo "infalível" nos seus escritosSeria de esperar que ele o usasse em algum lugar para descrever a Igreja ou o bispo de Roma se acreditasse que estas entidades eram infalíveis. Mas o uso do termo “infalível” nos escritos de Agostinho é apenas encontrado para descrever Deus e as Escrituras. Em lado nenhum se encontra ele a descrever o Papa ou a Igreja como “infalível”.

De modo que, isto nos deixa entender que para Agostinho, as únicas entidades que ele acreditava serem “infalíveis”, eram Deus e as Escrituras.