1 de maio de 2012

“SOLA FIDE” (A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) NA IGREJA PRIMITIVA


Clemente de Roma:

"Quem quiser sinceramente considerar cada particular, reconhecerá a grandeza dos dons que foram dados por ele. Porque dele, surgiram os sacerdotes e todos os levitas que ministram no altar de Deus. A partir dele também [era descendente] nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne. A partir dele [surgiram] reis, príncipes e governantes da raça de Judá. Nem estão as suas outras tribos em pequena glória, visto que Deus havia prometido, "a tua descendência será como as estrelas do céu". Todos estes foram, portanto, muito honrados, e engrandecidos, não pelo seu próprio bem, ou pelas suas próprias obras, ou pela justiça que eles tinham feito, mas através da operação da Sua vontade. E nós, também, sendo chamados pela sua vontade em Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa própria sabedoria, ou entendimento, ou piedade, ou obras que tenhamos feito em santidade de coração, mas por meio da fé através da qual, desde o início, Deus Todo-Poderoso tem justificado todos os homens; ao qual seja a glória para todo o sempre. Amen.

ANF: Vol. I, The Apostolic Fathers, First Epistle of Clement to the Corinthians, Chapter 32.

Mathetes a Diogneto:

Enquanto suportou o tempo antigo, Ele permitiu que fôssemos levados por impulsos incontroláveis​​, sendo atraídos pelo desejo de prazer e de várias paixões. Não é que ele se comprazeu nos nossos pecados, mas simplesmente suportou-os, nem é que Ele aprovou o tempo da operação da iniquidade que então havia, mas procurou formar uma mente consciente de justiça, de modo que sendo convencidos nesse tempo da nossa indignidade para alcançar a vida através das nossas próprias obras, devesse agora, graças à bondade de Deus, nos ser concedida; e tendo tornado manifesto que em nós mesmos fomos incapazes de entrar no reino de Deus, pudéssemos através do poder de Deus ser capacitados. Mas quando a nossa maldade havia chegado ao seu auge, e tinha sido claramente demonstrado que a sua recompensa, punição e morte, era iminente sobre nós, e quando chegou o tempo que Deus havia antes determinado para manifestar a sua própria bondade e poder, segundo o amor de Deus, excedeu totalmente a consideração para com os homens, não nos considerou com ódio, nem nos afastou para longe, nem lembrou a nossa iniquidade contra nós, mas mostrou grande longanimidade, e carregou connosco. Ele mesmo tomou sobre si o peso das nossas iniquidades, Ele deu o Seu próprio Filho em resgate por nós, o Santo pelos transgressores, o inocente pelo ímpios, o justo pelos injustos, o incorruptível pelo corruptível, o imortal pelos que são mortais. Pois que outra coisa era capaz de cobrir os nossos pecados senão a Sua justiça? Por qual outro era possível que nós, os ímpios e perversos, pudéssemos ser justificados, senão pelo único Filho de Deus? Ó doce troca! Ó operação insondável! Ó benefícios que ultrapassam toda a expectativa! que a maldade de muitos deveria ser encoberta num único justo, e que a justiça de Um deveria justificar muitos transgressores! Tendo, pois, nos convencido no tempo antigo que a nossa natureza era incapaz  de alcançar a vida, e tendo agora revelado o Salvador que é capaz de salvar mesmo aquelas coisas que eram [antigamente] impossíveis de salvar, por esses dois factos ele desejou levar-nos a confiar na Sua bondade, a estimá-lo nosso Provedor, Pai, Professor, Conselheiro, Curador, nossa Sabedoria, Luz, Honra, Glória, Poder e Vida, de modo que não devemos estar ansiosos quanto a roupas e comida.

Ante-Nicene Fathers: Volume I, Mathetes to Diognetus, Chapter 9.

Crisóstomo (349-407):

O próprio patriarca Abraão antes de receber a circuncisão foi declarado justo em resultado da fé somente: antes da circuncisão, o texto diz, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”

Fathers of the Church, Vol. 82, Homilies on Genesis 18-45, 27.7 (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1990), p. 167.

Crisóstomo (349-407): Pois, se mesmo antes disto, a circuncisão tornou-se incircuncisão, muito mais tem-se tornado agora, já que é lançada fora de ambos os períodos. Mas depois de dizer que "foi excluída", ele mostra também, como. Como, então, ele diz que foi excluída? "Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé" Vê que ele chama a fé também uma lei deleitando-se em manter os nomes, e assim afastar a aparente novidade. Mas o que é a "lei da fé?" Trata-se de ser salvo pela graça. Aqui ele mostra o poder de Deus, em que Ele não só salvou, mas também justificou, e os levou à vanglória, e isto sem precisar de obras, mas olhando para a fé somente.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 7, vs. 27.

Crisóstomo (349-407):

Para uma pessoa que não tinha obras, ser justificado pela fé, não era nada implausível. Mas para uma pessoa ricamente adornada com boas ações, não ser feito justo segundo isso, mas segundo a fé, é coisa para causar espanto, e para definir o poder da fé numa forte luz.

NPNF1: Vol. XI, Homilies on the the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, Homily 8, Rom. 4:1, 2.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), escreveu ao comentar 1 Cor. 1:4b:

Deus decretou que uma pessoa que crê em Cristo pode ser salva sem obras. Somente pela fé ela recebe o perdão dos pecados.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VII: 1-2 Corinthians (Downers Grove: InterVarsity Press, 1999), p. 6.

Latim de Migne: Datam dicit gratiam a Deo in Christo Jesu, quae gratia sic data est in Christo Jesu; quia hoc constitutum est a Deo, ut qui credit in Christum, salvus sit sine opere: sola fide gratis accipit remissionem peccatorum. In Epistolam B. Pauli Ad Corinthios Primam, PL 17:185

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 1:11:

A misericórdia de Deus foi dada por esta razão, para que deixassem as obras da lei, como eu já disse muitas vezes, porque Deus, tendo piedade das nossas fraquezas, decretou que a raça humana seria salva pela fé somente, juntamente com a lei natural.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 23.

Latim de Migne: Nam misericordia Dei ad hoc data est, ut Lex cessaret, quod saepe jam dixi; quia Deus consulens infirmitati humanae, sola fide addita legi naturali, hominum genus salvare decrevit. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:53.

Ambrosiaster (fl. c. 366-384), sobre Rom. 2:12:

Porque, se a lei é dada não para os justos, mas para os injustos, quem não peca é um amigo da lei. Para ele, somente a fé é o caminho pelo qual ele é aperfeiçoado. Para outros mera evitação do mal não lhes vai obter alguma vantagem com Deus a menos que eles também creiam em Deus, de modo que possam ser justos em ambos os casos. Para a justiça é um temporal; o outro é eterno.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament VI: Romans (Downers Grove: InterVarsity Press, 1998), p. 65.

Latim de Migne: Si enim justo non est lex posita, sed injustis; qui non peccat, amicus legis est. Huic sola fides deest, per quam fiat perfectus quia nihil illi proderit apud Deum abstinere a contrariis, nisi fidem in Deum acceperit, ut sit justus per utraque; quia illa temporis justitia est, haec aeternitatis. In Epistolam Ad Romanos, PL 17:67.

Ecuménio (Século VI), comentando sobre Tiago 2:23:

Abraão é a imagem de alguém que é justificado somente pela fé, pois o que ele acreditou lhe foi imputado como justiça. Mas ele também foi aprovado por causa das suas obras, uma vez que ele ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar. É claro que ele não fez esta obra por si só, ao fazê-la, ele permaneceu firmemente ancorado em sua fé, crendo que através de Isaque a sua descendência seria multiplicada até que fosse tão numerosa como as estrelas.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. XI, James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 33. Ver PG 119:481.

Beda (672/673-735), comentando sobre Paulo e Tiago:

Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras, aqueles que entendem por isto que não importa se levam uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de fé, para mostrar que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão, porque o dom da justificação vem somente pela fé.

Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New Testament XI: James, 1-2Peter, 1-3 John, Jude (Downers Grove: InterVarsity Press, 2000), p. 31.

Texto Latino: Quoniam Paulus apostolus praedicans justificari hominem per fidem sine operibus, non bene intellectus est ab eis qui sic dictum acceperunt, ut putarent, cum semel in Christum credidissent, etiam si male operarentur, et facinorose flagitioseque viverent, salvos se esse per fidem: locus iste hujus epistolae eumdem sensum Pauli apostoli quomodo sit intelligendus exponit. Ideoque magis Abrahae exemplo utitur, vacuam esse fidem si non bene operetur, quoniam Abrahae exemplo etiam Paulus usus est, ut probaret justificari hominem sine operibus posse. Cum enim bona opera commemorat Abrahae, quae ejus fidem comitata sunt, satis ostendit apostolum Paulum, non ita per Abraham docere justificari hominem per fidem sine operibus, ut si quis crediderit, non ad eum pertineat bene operari, sed ad hoc potius, ut nemo arbitretur meritis priorum bonorum operum se pervenisse ad donum justificationis quae est in fide. Super Divi Jacobi Epistolam, Caput II, PL 93:22.

Hilário de Poitiers (c 315-67) sobre Mateus 9:

Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Sancti Hilarii In Evangelium Matthaei Commentarius, PL 9:961.

Basílio de Cesareia (Ad 329-379):

Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, que Cristo para nós foi feito por Deus santificação, sabedoria, justificação, e redenção. Este é o perfeito e puro gloriar-se em Deus, quando alguém não se orgulha devido à sua própria justiça, mas sabe que é realmente indigno da verdadeira justiça e é (ou foi, δεδικαιωμένον) justificado unicamente pela fé em Cristo.

Ver Chemnitz, Examination of the Council of Trent, Part 1, trans. Fred Kramer (St. Louis: Concordia Publishing House, 1971), p. 505.

Texto Grego: `O kaucw,menoj evn Ku,ri,w| kauca,sqw( le,gw o[ti Cristo.j h`mi/n evgenh,qh sofi,a avpo. Qeou/( dikaiosu,nh te kai. a`giasmo.j kai. avpolu,trwsij\ `Ina kaqw.j ge,graptai( `O kaucw,menoj( evn Ku,ri,w| kauca,sqw) Au[th ga.r dh. h` telei,a kai. o`lo,klhroj kau,chsij evn Qew/|( o[te mh,te evpi. dikaiosu,nh| tij epai,retaith/| e`autou/( avll v e;gnw me.n evndeh/ o;nta evauto.n dikaiosu,nhj avlhqou/j( pi,stei de. mo,nh| th/| eivj Cristo.n dedikaiwme,on)

Homilia XX, Homilia De Humilitate, §3, PG 31:529. No contexto, Basílio apelava ao exemplo do Apóstolo Paulo como um homem regenerado.

Jerónimo (347-420) sobre Romanos 10:3:

Deus justifica somente pela fé.

Ignorantes enim justitiam Dei, et suam quaerentes statuere: justitiae Dei non sunt subjecti. Ignorantes quod ***Deus ex sola fide justificat*** et justos se ex legis operibus, quam non custodierunt, esse putantes: noluerunt se remissioni subjicere peccatorum, ne peccatores fuisse viderentur, sicut scriptum est: Pharisaei autem spernentes consilium Dei in semetipsis, noluerunt baptizari baptismo Joannis. Item quia sacrificia legis, et caetera, quae umbra erant veritatis, quae per Christum perfici habebant, praesentia Christi cessaverunt: cui credere noluerunt: In Epistolam Ad Romanos, Caput X, v. 3, PL 30:692D.

Hilário sobre Mateus 9:

"Este foi perdoado por Cristo pela fé, porque a Lei não poderia conceder, pois somente a fé justifica."

Ou veja-se a tradução em Tomás de Aquino, Catena Aurea: A Commentary on the Four Gospels Collected out of the Works of the Fathers, 4 Volumes, trans. and ed. John Henry Cardinal Newman (London: The Saint Austin Press, reprinted 1997), onde se lê: "os pecados da sua alma que a Lei não poderia remir lhe são remidos, pois somente a fé justifica.

Latim de Migne: Et remissum est ab eo, quod lex laxare non poterat; fides enim sola justificat. Commentarius in Evangelium Matthaei, Caput VIII, PL 9:961

Tomás de Aquino:

Os sacramentos da Nova Lei no entanto, embora sejam elementos materiais, não são elementos carenciados, por isso podem justificar. De novo, se houve alguém na Velha Lei, que foi justo, ele não foi feito justo pelas obras da Lei mas somente pela fé em Cristo "a quem Deus propôs para ser uma propiciação mediante a fé", como se diz em Romanos (3:25). Assim, os sacramentos da Antiga Lei eram determinadas protestações da fé em Cristo, tal como os nossos sacramentos são, mas não da mesma maneira, porque esses sacramentos estavam configurados para a graça de Cristo como algo que está no futuro, os nossos sacramentos, no entanto, testemunham como coisas que contém uma graça que está presente. Portanto, ele diz significativamente, que não é pelas obras da lei que somos justificados, mas pela fé em Cristo, porque, apesar de alguns que observaram as obras da Lei em tempos passados ​​ terem sido feitos justos, não obstante, isso foi efetuado somente pela fé em Jesus Cristo.

St. Thomas Aquinas, Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galations, trans. F. R. Larcher, O.P. (Albany: Magi Books, Inc., 1966), Chapter 2, Lecture 4, (Gal. 2:15-16), pp. 54-55.

2 de abril de 2012

Lutero disse que Cristo pecou cometendo adultério?


Uma citação que geralmente é apresentada por católicos romanos contra Lutero é a seguinte:

“Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Tischredden, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107).

Comecemos por fazer uma breve introdução.

As "Conversas à mesa" (Tischreden) de Martinho Lutero são uma compilação de diálogos com os seus discípulos e colegas, não um tratado formal de teologia.

A primeira edição alemã foi preparada por um dos que tomavam notas, Johannes Aurifaber (Goldschmitt) e publicada em 1566.

O texto das "Conversas" está disponível online numa tradução para o inglês em:

http://www.ccel.org/ccel/luther/tabletalk

http://www.reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html

Lutero disse e escreveu muito (a edição Weimar das suas obras soma 125 volumes) e nem tudo de qualidade uniforme. Não o consideramos de modo algum infalível. Como de qualquer outro cristão pós-apostólico, retemos apenas o que é bom.

Podem reprovar-se muitas coisas a Lutero. Em muitos sentidos foi um filho do seu tempo e um homem de contrastes entre a sua vasta erudição e as suas maneiras e formas de expressão.

Por outro lado, as indiscrições de Lutero, como as grosserias que, juntamente com coisas muito mais valiosas, poder-se-ão ter dito à sua mesa, empalidecem em comparação com a conduta dos supostos sucessores de Pedro contemporâneos seus.

"Parece que a época do Renascimento foi chamada a provar qual era a divindade romana mais indicada para ser patrona do Papado. Logo que foi afastada Vénus (Alexandre Bórgia), instalou-se na Cadeira de Pedro Marte: Júlio II (1503-1513), amigo da guerra ainda mais do que das artes, pelo que tomou o nome de Júlio César. Quando Miguel Ângelo quis retratá-lo com um livro na mão, se opôs com veemência: «Melhor, empunhando a espada»."

(Albert Wucher, Breve historia de los Papas. Trad. Pablo Simón. Buenos Aires: El Ateneo, 1963, p. 147; com censura eclesiástica).

Feita esta breve introdução passemos à citação em concreto.

A citação de Lutero tomada das suas Tischreden, originalmente, na mistura de latim e alemão em que Lutero costumava expressar-se nestas ocasiões, diz:

Christus ist am ersten ein Ebrecher (Ehebrecher) worden bei dem Brunn cum muliere, quia illi dicebant... Quid facit cum ea? Item cum Magdalena, item cum adultera (Tischr. 1472 II 107).

Que, literalmente traduzido, significa (a tradução é minha):

Cristo é primeiro adúltero junto ao poço com a mulher, porque naquele lugar diziam… Que faz com ela? Do mesmo modo, com Madalena. Do mesmo modo, com a adúltera.

Não obstante, como diz o historiador católico Ricardo García-Villoslada, na sua obra “Martín Lutero”, tomo II, página 251:

“É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.

Portanto feito este esclarecimento necessário, conclui-se que a citação de Lutero tal como é apresentada está adulterada ou pelo menos foi grosseiramente mal-interpretada. Lutero não blasfemou contra nosso Senhor Jesus Cristo chamando-o de adúltero como querem fazer crer alguns apologistas católicos mal-intencionados.

17 de março de 2012

Os Evangélicos também são Católicos


Aos membros da Igreja de Roma, é preciso fazer notar que todos nós, evangélicos, somos católicos em sentido próprio, e não de título ou denominação oficial da nossa congregação.

Nós somos:

Cristãos porque somos discípulos de Jesus Cristo, redimidos pelo seu sangue,

Evangélicos porque cremos, pregamos e proclamamos o glorioso Evangelho de Jesus Cristo,

Católicos ou universais porque sem importar onde nos congregamos, pertencemos à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo,

e

Apostólicos porque perseveramos na doutrina dos Apóstolos.

O que não somos nem queremos ser, claro, é "Romanos".

6 de fevereiro de 2012

DOIS BISPOS DE ROMA QUE NÃO CONHECIAM A TRADIÇÃO APOSTÓLICA E ESTÃO SOB O ANÁTEMA DO CONCÍLIO DE TRENTO


No entanto,
O bispo de Roma Inocêncio I, numa carta ao bispo de Tolosa, Exupério, dá em 405 uma lista de livros do AT que inclui os apócrifos/deuterocanónicos com 1 Esdras que não é considerado canónico pela Igreja de Roma.
Gregório Magno, bispo de Roma (590-604) insistia na distinção entre livros canónicos e eclesiásticos:
Em relação a tal particular não estamos a agir irregularmente, se dos livros, ainda que não canónicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46].
Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424; negrito acrescentado.
Portanto, estes dois bispos de Roma não conheciam a Tradição apostólica, que os católicos dizem que fez a Igreja discernir o cânon, que foi proclamado no Concílio de Trento.
Mas, a verdadeira Tradição apostólica está registada nas Escrituras, e diz o seguinte:
"Que vantagem, pois, tem o judeu? ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todo sentido; primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. Pois quê? Se alguns foram infiéis, porventura a sua infidelidade anulará a fidelidade de Deus? De modo nenhum; antes seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado" (Romanos 3:3-4).
Por conseguinte, a verdadeira Tradição apostólica diz que foi aos Judeus que a revelação do Antigo Testamento foi confiada. Logo, as Escrituras do Antigo Testamento devem ser as do cânon hebraico, mesmo que alguns bispos digam o contrário.
A Tradição apostólica, que fez a Igreja Romana discernir o cânon, é espúria; não veio dos apóstolos e, por isso, o cânon do Antigo Testamento que discerniram não é o hebraico, como diz que deve ser a verdadeira Tradição apostólica.

5 de fevereiro de 2012

Agostinho sobre infalibilidade


Agostinho (354-430): Só Deus jura de forma segura, porque só Ele é infalível.

NPNF1: Vol. VIII, St. Augustin on the Psalms, Psalm 89, § 4.

Texto latino: Deus solus securus jurat, quia falli non potest.

Ver em Psalmum LXXXVIII Enarratio, Sermo I, PL 37:1122.

Agostinho (354-430): Mas a autoridade humana muitas vezes falha.

FC, Vol. 5, Saint Augustine On Divine Providence and the Problem of Evil, Book 2, Chapter 9, §27 (New York: CIMA Publishing Co., Inc., 1948), p. 305.

Texto latino: Humana vero auctoritas plerumque fallit. De Ordine, Liber Secundus, Caput IX, §27, PL 32:1008.

Agostinho (354-430): Uma vez que então, Deus, em cuja eternidade não há mudança alguma, é o Criador e Ordenador do tempo, eu não vejo como se possa dizer que Ele criou o mundo depois de decorridos espaços de tempo, a não ser que se possa dizer que antes do mundo havia alguma criatura por cujo movimento o tempo poderia passar. E se as Sagradas e infalíveis Escrituras dizem que no princípio Deus criou os céus e a terra, para que se possa entender que Ele nada tinha feito previamente – porque se Ele tivesse feito alguma coisa antes do resto, esta coisa seria dita ter sido feita "no princípio" - então seguramente o mundo foi feito, não no tempo, mas simultaneamente com o tempo. Porque o que é feito no tempo é feito depois e antes de algum tempo - depois do que é passado, antes do que é futuro.

NPNF1: Vol. II, The City of God, Book XI, Chapter 6.

Texto latino: Cum igitur Deus, in cujus aeternitate nulla est omnino mutatio, creator sit temporum et ordinator, quomodo dicatur post temporum spatia mundum creasse, non video; nisi dicatur ante mundum jam aliquam fuisse creaturam, cujus motibus tempora currerent. Porro si Litterae sacrae maximeque veraces ita dicunt, in principio fecisse Deum coelum et terram, ut nihil antea fecisse intelligatur, quia hoc potius in principio fecisse diceretur, si quid fecisset ante caetera cuncta quae fecit; procul dubio non est mundus factus in tempore, sed cum tempore. Quod enim fit in tempore, et post aliquod fit, et ante aliquod tempus; post id quod praeteritum est, ante id quod futurum est: De Civitate Dei, Liber Undecimus, Caput VI, PL 41:321-322.

Agostinho (354-430): Quando o homem é devidamente compreendido (ou, se isso não for possível, então, pelo menos, crido) ser feito à imagem de Deus, sem dúvida que é essa parte dele que o eleva acima das partes inferiores que tem em comum com os animais, a qual o traz para mais perto do Supremo. Mas visto que a sua mente, embora, naturalmente, capaz da razão e inteligência está desabilitada por vícios repreensíveis e inveterados não apenas para unir-se com seu Senhor gozando de Deus, mas também para tolerar a sua luz imutável, até que tenha sido gradualmente curada, e renovada, e capacitada de tal felicidade, tinha, em primeiro lugar, de ser impregnada com fé, e assim purificada. E para que nessa fé possa avançar o mais confiadamente para a verdade, a própria verdade, Deus, o Filho de Deus, assumindo a humanidade sem destruir a Sua divindade, estabeleceu e fundou esta fé, que pode haver um caminho para o homem para o Deus do homem através de um Deus-homem. Pois este é o Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. Pois é como homem que Ele é o Mediador e o Caminho. Porque, se o caminho repousa entre aquele que vai, e o lugar para onde ele vai, há esperança de alcançá-lo, mas se não há caminho, ou se ele não sabe onde está, de que serve saber para onde ele deve ir? Ora, o único caminho que é infalivelmente seguro contra todos os erros, é quando a mesma pessoa é ao mesmo tempo Deus e homem, Deus o nosso fim, homem o nosso caminho.

NPNF1: Vol. II, The City of God, Book XI, Chapter 2.

Texto latino: Hic est enim mediator Dei et hominum homo Christus Jesus. Per hoc enim mediator, per quod homo; per hoc et via. Quoniam si inter eum qui tendit et illud quo tendit, via media est, spes est perveniendi: si autem desit, aut ignoretur qua eundum sit, quid prodest nosse quo eundum sit? Sola est autem adversus omnes errores via munitissima, ut idem ipse sit Deus et homo: quo itur, Deus; qua itur, homo. De Civitate Dei, Liber Undecimus, Caput II, PL 41:318.

Agostinho (354-430): Deixe-me, portanto, dizer em poucas palavras à sua Caridade, que o presbítero Bonifácio não foi achado por mim culpado de qualquer crime, e que eu nunca acreditei, e ainda não acredito, em qualquer acusação contra ele. Como, então, poderia ordenar que o seu nome fosse excluído do rol de presbíteros, quando plenamente avisado pela palavra de nosso Senhor no evangelho: "Com o juízo com que julgais, sereis julgados". Pois, vendo que a disputa que surgiu entre ele e Spes foi por seu consentimento submetida à arbitragem divina de uma forma que, se desejar, lhe pode ser dada a conhecer, quem sou eu, para ter a presunção de antecipar a deliberação divina excluindo ou suprimindo o seu nome? Como bispo, eu não devia precipitadamente suspeitar dele, e como sou apenas um homem, eu não posso decidir infalivelmente sobre coisas que estão escondidas de mim. Mesmo em assuntos seculares, quando um apelo é feito para uma autoridade superior, todo o procedimento persiste enquanto o caso aguarda a decisão da qual não há apelo, porque se alguma coisa for alterada enquanto o assunto está dependente da sua arbitragem, isto seria um insulto para o tribunal superior. E como é grande a distância entre mesmo a mais alta autoridade humana e a divina!

NPNF1: Vol. I, Letters of St. Augustin, Letter 77 - To, §2.

Texto latino: Breviter itaque dico Charitati vestrae, Bonifacium presbyterum in nullo crimine apud me fuisse detectum, nequaquam me de illo tale aliquid credidisse vel credere. Quomodo ergo juberem de numero presbyterorum nomen ejus auferri, vehementer terrente Evangelio ubi Dominus ait: In quo judicio judicaveritis, judicabimini Cum enim causa quae inter illum et Spem exorta est, sub divino examine pendeat secundum placitum eorum, quod vobis si volueritis poterit recitari; quis ego sum, ut audeam Dei praevenire sententiam in delendo vel supprimendo ejus nomine, de quo nec suspicari temere mali aliquid episcopus debui, nec dilucide judicare homo de occultis hominum potui, cum in ipsis causis saecularibus, quando ad majorem potestatem refertur arbitrium judicandi, manentibus sicuti erant omnibus rebus, exspectetur illa sententia, unde jam non liceat provocari, ne superiori cognitori fiat injuria, si ejus pendente judicio aliquid fuerit commutatum? Et utique multum interest inter divinam et humanam quamlibet excelsissimam potestatem. Domini Dei nostri misericordia nunquam vos deserat, domini dilectissimi et honorandi fratres. Epistola LXXVII, §2, PL 33:266-267.

Conclusão:

Como podemos constatar Agostinho faz uso do termo "infalível" nos seus escritosSeria de esperar que ele o usasse em algum lugar para descrever a Igreja ou o bispo de Roma se acreditasse que estas entidades eram infalíveis. Mas o uso do termo “infalível” nos escritos de Agostinho é apenas encontrado para descrever Deus e as Escrituras. Em lado nenhum se encontra ele a descrever o Papa ou a Igreja como “infalível”.

De modo que, isto nos deixa entender que para Agostinho, as únicas entidades que ele acreditava serem “infalíveis”, eram Deus e as Escrituras.

27 de janeiro de 2012

ROMA LOCUTA EST; CAUSA FINITA EST

 
Os apologistas católicos dizem que os padres da Igreja ensinaram que não era possível ter qualquer certeza do significado objetivo de um texto bíblico determinado, sem recorrer à interpretação do Magistério. Na fundamentação desta afirmação referem-se à alegada citação de Santo Agostinho "Roma locuta est, causa finita est".
 
Esta declaração é dita provir do Sermão 131 de Agostinho proferido em 23 de setembro de 417. Primeiro, estas palavras não aparecem em nenhuma das obras de Agostinho, ele simplesmente não disse estas palavras ... pelo menos todas elas. Ele disse "Causa finita est" em Sermo 131:10 [1]. Segundo, estas palavras não têm nada a ver com a interpretação de Roma da Bíblia.

Ironicamente, estas palavras são frequentemente usadas por apologistas católicos para demonstrar que Agostinho acreditava que as declarações de Roma eram a palavra final em assuntos doutrinários, mas Agostinho disse estas palavras num contexto que diretamente contradiz este uso apologético delas.

Agostinho e os bispos de Cartago excomungaram Pelágio e o seu principal seguidor Celéstio num Sínodo. O papa Inocêncio I concordou com esta decisão e oficialmente apoiou-a. O sucessor de Inocêncio, Zósimo, enganado por confissões de fé ambíguas, revogou as decisões de Inocêncio e exigiu a Agostinho e aos bispos Cartagineses que aprovassem esta revogação. Agostinho e os Cartagineses responderam com outro Sínodo de cerca de 200 bispos que ignoraram a revogação das decisões de Inocêncio e condenaram Pelágio. Após indagações posteriores, Zósimo revogou a sua revogação e apoiou a decisão dos Cartagineses. Antes de todas estas reviravoltas Agostinho tinha dito o seguinte:

Sermão 131 de Migne, PL 38:734:

"Jam enim de hac causa duo concilia missa sunt ad sedem apostolicam; inde etiam rescripta venerunt; causa finita est: Utinam aliquando finiatur error."

Tradução =

"Já sobre esta causa dois concílios foram enviados à Sé Apostólica, donde também rescritos chegaram. A causa está terminada. Que o erro possa igualmente terminar."

Para dar um pouco mais de credibilidade à minha extremamente sucinta descrição do evento ...

Como o historiador católico romano Hefele disse,

"No início de 417, ele (Inocêncio) enviou respostas para os bispos que se tinham reunido em Cartago e os que se tinham encontrado em Milevi ... Ele concordou plenamente com a sentença pronunciada contra Celéstio e Pelágio pelos bispos Cartagineses, elogiou os africanos pelo seu discernimento, confirmou a sentença de excomunhão pronunciada contra Celéstio, ameaçando com a mesma punição todos os seus adeptos, e encontrou na obra de Pelágio muitas blasfémias e doutrinas censuráveis. O sucessor de Inocêncio, Zósimo, que no início do seu reinado em 417 foi enganado pela ambígua confissão de fé de Pelágio e Celéstio, adotou outra linha. Ele tinha há não muito tempo assumido o seu posto quando Celéstio ... deu-lhe uma confissão de fé ... Zósimo imediatamente reuniu um Sínodo Romano, em que Celéstio em termos gerais condenou o que o Papa Inocêncio já tinha condenado. Ele influenciou tanto o Papa em seu favor, que, numa carta aos bispos Africanos, declarou Celéstio ortodoxo, censurou a conduta deles anterior, e representou Heros e Lázaro, os principais opositores de Celéstio, como homens extremamente malvados, a quem ele punia com a excomunhão e deposição. Pouco depois disto Zósimo também recebeu a confissão de fé que Pelágio já tinha enviado, juntamente com uma carta, ao Papa Inocêncio I. Zósimo ... imediatamente enviou uma segunda carta aos africanos, para dizer que tanto Pelágio como Celéstio, se tinham completamente justificado, e que ambos reconheceram a necessidade da graça. Heros e Lázaro, pelo contrário, eram homens malvados, e os africanos eram bastante culpados por se terem deixado influenciar por tais caluniadores desprezíveis." (1)

A propósito da reação dos africanos à primeira revogação de Zósimo...

"Os africanos estavam demasiado certos da sua causa, para aceitar submeter-se a um tão fraco juízo, que, aliás, estava em manifesto conflito com o de Inocêncio. Num concílio em Cartago, em 417 ou 418, eles protestaram, respeitosamente mas decididamente, contra a decisão de Zósimo, e lhe deram a entender que ele estava a deixar-se ser grandemente enganado pelas indefinidas explicações de Celéstio. Num concilio geral Africano realizado em Cartago, em 418, os bispos, mais de 200 em número, definiram a sua oposição aos erros pelagianos, em oito (ou nove) Cânones, que são inteiramente conformes à visão agostiniana.... Estas coisas produziram uma mudança nas opiniões de Zósimo, e a meio do ano 418, ele emitiu uma carta encíclica para todos os bispos do Oriente e do Ocidente, pronunciando o anátema sobre Pelágio e Celéstio… e declarando a sua concordância com as decisões do concílio de Cartago na doutrina da corrupção da natureza humana, do batismo e da graça. Quem se recusasse a subscrever a encíclica, devia ser deposto, expulso da sua igreja, e privado dos seus bens" (2)

A eclesiologia de Agostinho

O exposto acima prova sem sombra de dúvida que a visão eclesiológica de Agostinho é precisamente a que W.H.C. Frend diz que é:

A sua visão de governo da Igreja é que as questões menos importantes devem ser resolvidas por concílios provinciais, e os assuntos de maior dimensão em concílios gerais. (3)

A conclusão a que chegamos à luz dos factos sobre a eclesiologia de Agostinho demonstrada pela sua exegese e pela sua prática é que no seu entendimento, e para os bispos norte-africanos como um todo, a mais alta autoridade e tribunal de apelação não é o bispo de Roma, mas um concílio plenário e geral. Como vimos com a controvérsia pelagiana, Agostinho e os bispos norte-africanos não viram o decreto do bispo de Roma ser o juízo final e vinculativo para a Igreja universal. Quando Zósimo, o bispo de Roma, revogou a decisão da Igreja norte-africana e a do seu antecessor, o Papa Inocêncio I, os norte-africanos opuseram-se a Zósimo e recusaram submeter-se aos seus decretos. Demasiado para Roma locuta est, causa finita est.

Agostinho decisivamente não é defensor de uma eclesiologia papal como a do Vaticano I.

Conclusão

Como mencionado acima o famoso dito atribuído a Santo Agostinho: Roma locuta est, causa finita est, é uma completa invenção. Ele nunca disse isso. A única parte da frase que ele disse é causa finita est (o caso está encerrado). Os apologistas romanos, no entanto, continuam a deturpar este eminente padre da Igreja atribuindo falsamente esta declaração a ele.

Em lado nenhum nos escritos de Agostinho ou na sua prática se encontra a crença no bispo de Roma como critério último da ortodoxia, ou que o seu juízo era a autoridade final em qualquer controvérsia. A controvérsia com o papa Zósimo e Pelágio prova isso sem qualquer sombra de dúvida. Abbé Guettée aponta que na controvérsia pelagiana a sentença do bispo de Roma não era a autoridade final. 
Guettée faz o seguinte resumo da controvérsia com Zósimo e a atitude de Agostinho e dos bispos norte-africanos:

"Além de tudo isso, outra prova de que mesmo em Roma, bem como em outras partes da igreja, a sentença de Inocêncio I não foi considerada como encerrando o caso encontra-se no facto de, após a sua sentença, o caso ter sido reexaminado na própria Roma por Zósimo, o sucessor de Inocêncio, por várias igrejas num grande número de sínodos, e finalmente pelo Concílio Ecuménico de Éfeso, que julgou o caso e confirmou a sentença dada em Roma e em todos os outros lugares onde havia sido examinado.

Quando é dito como o Papa Inocêncio I foi chamado para dar uma opinião no caso de Pelágio, vemos claramente que os teólogos romanistas aplicaram erradamente o texto.

Os bispos Africanos condenaram os erros de Pelágio em dois concílios, sem pensar em Roma ou na sua doutrina. Os Pelagianos então expuseram, para opor-se a eles, a alegada fé de Roma, a qual diziam harmonizava-se com a sua. Em seguida, os bispos Africanos escreveram a Inocêncio, a perguntar-lhe se a afirmação dos pelagianos era verdadeira. Eles foram levados a isso porque os pelagianos tinham grande influência em Roma. Eles não escreveram ao Papa para lhe pedir uma sentença que devesse guiá-los, mas para que pudessem silenciar aqueles que afirmavam que a heresia era defendida em Roma. Inocêncio condenou-a e, portanto, Agostinho diz: "Tu fingiste que Roma estava contigo; Roma te condena, tu também foste condenado por todas as outras igrejas, por isso o caso está terminado". Em vez de pedir uma decisão de Roma, os bispos Africanos apontaram ao Papa o percurso que ele devia seguir nesta questão" (4)

Se os Cartagineses tivessem subscrito o uso popular das palavras "Roma locuta est; causa finita est" eles teriam concordado com a condenação de Inocêncio, a seguir com a revogação de Zósimo, e se por qualquer razão Zósimo revogasse isto sem o desprezo norte-africano, concordariam com esta revogação. Não foi isso o que aconteceu.


Notas

[1] Apesar de tudo, ainda se pode encontrar defensores do papado que argumentam que, apesar de Agostinho não ter dito: "Roma locuta est," ele disse "Causa finita est" (a causa está terminada). Isso é verdade.

Eis a parte relevante do Sermão 131 no contexto: 

"Já dois concílios sobre esta causa escreveram à Sé Apostólica. Donde também rescritos chegaram. A causa está terminada: que o erro possa um dia terminar! Portanto, nós admoestamos para que eles possam prestar atenção, nós ensinamos para que eles possam ser instruídos, oramos para que o seu caminho mude."

Embora ele tenha dito "a causa está terminada", este slogan na verdade não ajuda o defensor papal, por pelo menos as seguintes três razões:

1) O apelo é para a autoridade conciliar estabelecida não para a autoridade papal como tal. De modo que, "Roma falou, o caso está encerrado" não é um resumo muito preciso. Um resumo mais exato seria "dois concílios falaram - o caso está encerrado". Isto não significa que os rescritos não eram de Roma – eles eram.

2) A referência aos rescritos é uma referência a uma resposta de Roma a respeito das decisões dos concílios. O rescrito como tal, não tem a sua própria infalibilidade, nem dá infalibilidade aos decretos dos concílios, sejam eles considerados pelos moldes romanos daquele tempo ou de hoje.

3) Note-se que houve dois concílios, e não apenas um. Isso é parte do ponto de Agostinho. O seu ponto é que, em termos de processo judicial da igreja, continuar este debate é ficar a bater em cavalo morto. Agostinho não está a dizer que dois concílios é um número mágico, assim como não está a dizer que obter uma resposta de Roma magicamente torna as decisões conciliares corretas.

Bibliografia

(1) Charles Joseph Hefele, A History of the Councils of the Church (Edinburgh: Clark, 1895), Volume II, pp. 456-457.

(2) Philip Schaff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1910), Volume Three, p. 798-799).

(3) W.H.C. Frend, The Early Church (Philadelphia: Fortress, 1965), p. 222).

(4) Abbé Guettée, The Papacy (Blanco: New Sarov, 1866) pp. 180-181).