20 de março de 2011

O purgatório e os Padres da Igreja


Este texto-resposta a um católico que transcrevo a seguir em português - Purgatory and the earliest Fathers - é bastante esclarecedor de como era visto (ou não visto) o purgatório na Igreja antiga e de quais são as origens desta doutrina.  Serve também para refutar o artigo publicado no site Veritatis Splendor: O Purgatório, a Igreja primitiva e os Santos Padres. Os padres citados e os argumentos utilizados são praticamente os mesmos.
filósofo_católico: Não há escritos primitivos na igreja primitiva sobre o purgatório? A evidência extrabíblica mais explícita para a crença na doutrina do purgatório na Igreja antiga é encontrada nas suas liturgias. Sem exceção, no Oriente e no Ocidente, as várias liturgias Eucarísticas continham pelo menos um memento mori, "memória dos mortos". Não teria sentido orar pelos mortos se fosse certo que eles já estivessem no céu, assim como não teriam necessidade de orações. Se eles estivessem no inferno, a oração não lhes poderia fazer nenhum bem. Mas a Igreja sabia então, como sabe agora, que há um "estado intermédio ", onde alguns que morrem em estado de graça e estão seguros da sua salvação podem beneficiar das nossas orações.
O problema com isto é que a igreja primitiva pode ter orado pela "memória dos mortos" sem introduzir uma ideia de purgatório à mistura. A igreja PODE orar pelos mortos independentemente de um purgatório, e isso é o que a evidência revela. O historiador medievalista e académico, Jacques Le Goff, esclarece:
Finalmente, alguns destes textos descrevem um lugar que, apesar de bastante semelhante ao "seio de Abraão", não é sempre idêntico a ele: o refrigerium. Várias inscrições funerárias mencionam as palavras refrigerium ou refrige-rare, (refrigério, refrigerar), tanto isoladamente como em conjunto com a palavra pax (paz): in pace et refrigerium, esto in refrigerio (que ele esteja em refrigerium), in refrigerio anima sua (que a sua alma esteja em refrigerium), deus refrigeret spiritum tuum (que Deus refrigere o seu espírito).
Um excelente estudo filológico de Christine Mohrmann claramente traçou a evolução semântica de refrigerium do clássico para o Latim Cristão: "Paralelamente a estas bastante vagas e inconstantes definições, as palavras refrigerare e refrigerium assumiram, na linguagem Cristã, um significado técnico muito preciso: a felicidade celestial. Encontramos refrigerium usado neste sentido já em Tertuliano, em cujos escritos denota tanto a felicidade temporária das almas esperando o retorno de Cristo no seio de Abraão, segundo a própria concepção de Tertuliano do assunto, como a eterna bem-aventurança do Paraíso, que é gozada pelos mártires desde o momento que morrem e que é prometida aos eleitos após o veredicto divino final… Entre os escritores Cristãos mais tardios refrigerium é usado de uma maneira geral para designar as alegrias do mundo além-túmulo, prometidas por Deus aos eleitos.
"Refrigerium tem um lugar especial na pré-história do Purgatório apenas por causa da concepção pessoal de Tertuliano, à qual Mohrmann alude no parágrafo acima. De facto, como vimos, refrigerium denota um estado quase-paradisíaco de felicidade e não um lugar. Mas Tertuliano imaginou um tipo especial de refrigerium, o refrigerium interim ou "refrigério intermédio" reservado para alguns dos mortos, escolhidos por Deus como merecedores de tratamento especial durante o período da sua morte e o momento do juízo final (The Birth of Purgatory, Ch.1, pp. 46-47).
Como Le Goff afirma acertadamente, estas orações (que dizes que são encontradas nas liturgias antigas) não refletem um pensamento no purgatório. Podia-se orar por "refrigerium", um refrigério de felicidade celestial. Para pôr isto dentro da tua perspetiva, as orações pelos mortos NÃO têm que ser engavetadas numa noção de "não teria sentido orar pelos mortos se fosse certo que eles já estivessem no céu, assim como não teriam necessidade de orações. Se eles estivessem no inferno, a oração não lhes poderia fazer nenhum bem” porque alguns na igreja primitiva ORARAM pelo refrigerium. De modo que, sim, pode-se ter orado pelos mortos na igreja primitiva SEM aderir a um conceito de purgatório.
Aqui estão alguns dos Padres da Igreja e o que eles têm a dizer sobre o Purgatório:
Antes de começarmos, deixa-me apenas dizer que eu reconheço que alguns padres sustentaram um ponto de vista que figurou na pré-história do Purgatório, mas estes são padres tardios. Padres mais antigos, como Tertuliano, falaram de um estado intermédio que era em natureza paradisíaco (como explicarei abaixo) e outros, como Agostinho, teorizaram a possibilidade, embora não tivessem firmes convicções a este respeito. O que é revelador de facto é a ausência de quaisquer escritos primitivos formalizando uma crença no purgatório. De resto, poderias ter adicionado onde encontrar estas citações. Tive que colocar cada uma num motor de busca, para descobrir de onde vinha a citação e encontrei-as citadas por uma multidão de websites católicos com o propósito de apoiar o purgatório.
Tertuliano (160-225AD) “Oferecemos sacrifícios pelos mortos[24] nos seus dias de aniversário" (211 AD)
"Uma mulher, depois da morte do seu marido…  ora pela sua alma e pede que ele possa, enquanto espera, encontrar descanso; e que possa participar na primeira ressurreição. E a cada ano, no aniversário da sua morte, ela oferece o sacrifício" (216 AD)
Tal como Le Goff mencionou na passagem acima, Tertuliano acreditava no refrigerium e não sustentou nenhum entendimento do purgatório. Nada na passagem que forneces alude a ele à luz do refrigerium. A escatologia de Tertuliano é algo semelhante ao que a Igreja Ortodoxa ensina, que a alma recebe uma antecipação da sua morada eterna. Os justos no seio de Abraão (ou um estado como esse) e os ímpios no inferno dos condenados (ver Lc 16:19-31), mas não há purgação na vida após a morte na escatologia de Tertuliano. Novamente, Le Goff afirma sobre Tertuliano (presta atenção especificamente ao quarto parágrafo que acrescenta o contexto às citações que deste):
Um Africano que morreu algum tempo depois de 220, Tertuliano escreveu um breve tratado, hoje perdido, no qual afirmava  "que toda a alma estava confinada no Inferno até o dia [do juízo] do Senhor" (De anima 55,5). Esta foi uma adaptação da ideia de sheol do Antigo Testamento. Este outro mundo encontrava-se localizado debaixo da terra, e foi aqui que Cristo desceu por três dias (De anima 54,4).
Em “Contra Marcião” e “Sobre a Monogamia”, Tertuliano entra em detalhes sobre o outro mundo e apresenta o seu conceito de refrigerium. Marcião argumentou que não apenas mártires mas pessoas comuns justas eram admitidas no Céu ou Paraíso imediatamente depois da sua morte. Tertuliano, por outro lado, baseando a sua discussão na história de Lázaro e do homem rico, mantém que, enquanto aguardam a ressurreição, almas comuns justas residem, não no céu, mas num refrigerium interim, o seio de Abraão. Este lugar, o seio de Abraão, embora não no céu, e acima do inferno, oferece às almas dos justos um refrigério intermédio [refrigerium interim] até que o fim de todas as coisas traga a ressurreição geral e a recompensa final” (Adversus Marcionem 4.34). Até o fim dos tempos o seio de Abraão deve servir como "o recetáculo temporário das almas fiéis".
O pensamento de Tertuliano, de facto, permanece altamente dualista. Na sua opinião existem dois destinos contrastantes: a punição, que é expressa por palavras tais como tormento (tormentum), agonia (supplicum) e tortura (cruciatus), e recompensa, expressa pelo termo refrigério (refrigerium). Em dois lugares é afirmado que estes destinos são eternos.
Por outro lado, Tertuliano põe grande ênfase nas ofertas aos mortos no aniversário das suas mortes e declara que essas práticas piedosas podem ser baseadas na tradição e na fé ainda que não exista fundamento para elas na Escritura. (De um modo geral, com a exceção de Mateus 12:32 e 1 Coríntios 3:10-15 de Paulo, bases textuais para  a doutrina do Purgatório são praticamente inexistentes). Tertuliano escreve: "Fazemos oblações pelos falecidos no aniversário da sua morte ... Se procurares na Escritura por uma lei formal regendo estas e outras práticas similares,  não encontrarás nenhuma. É a tradição que as justifica, o costume que as confirma, e a fé que as observa" (De corona militis 3.2-3).
Em relação à pré-história do Purgatório, a inovação de Tertuliano, se é que foi uma inovação, foi ter o justo a passar um período de tempo no refrigerium interim antes de ir habitar no eterno refrigerium. Mas não há nada realmente novo acerca do lugar de refrigério, que ainda é o seio de Abraão. Entre o refrigerium interim de Tertuliano e o Purgatório existe uma diferença não só de género - para Tertuliano é uma questão de uma espera tranquila até ao Juízo Final, enquanto com o Purgatório é uma questão de um sofrimento que purifica porque é punitivo e expiatório  - mas também de duração: as almas permanecem no refrigerium até a ressurreição mas no Purgatório apenas o tempo que for preciso para expiar os seus pecados.
Tudo levado em conta, não existe purgatório na escatologia de Tertuliano. A citação que  usaste é enganosa à luz do quadro completo. Mas assumo que a tiraste de outro website.
São Cipriano de Cartago (escrito em 253AD) "A força do verdadeiro crente permanece inabalável, e com aqueles que temem e amam a Deus com todo seu coração, a sua integridade continua firme e forte. Até mesmo para adúlteros um tempo de arrependimento é concedido por nós, e paz é dada. No entanto, a virgindade não é por causa disso deficiente na Igreja, nem a concepção gloriosa da continência enfraquece pelos pecados dos outros. A Igreja, coroada com tantos virgens, floresce; e a castidade e a modéstia preserva o teor da sua glória. Nem é o vigor da continência diminuído por o arrependimento e o perdão ser facilitado ao adúltero. Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa, receber simultaneamente a coragem e o salário da fé. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purificado pelo fogo; outra coisa é ter sido purificado de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar em suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser imediatamente coroado pelo Senhor".
De novo, Le Goff fala sobre isto: 
"Alguns autores têm creditado Cipriano com uma importante contribuição doutrinária para o Purgatório já em meados do século terceiro. Na sua Carta a Antoniano [Carta 51:20] Cipriano faz a distinção entre dois tipos de Cristãos: 'Uma coisa é esperar o perdão e outra coisa é chegar à glória; uma coisa é ser enviado para a prisão [no cárcere] para ser solto apenas quando o último centavo for pago e outra coisa é receber imediatamente a recompensa da fé e virtude; uma coisa é ser aliviado e purificado dos seus pecados através de um longo sofrimento no fogo e outra coisa é ter todas as suas falhas limpas pelo martírio; e é uma coisa ser enforcado pelo Senhor no Dia do Juízo e outra ser imediatamente coroado por ele.'... A refutação de Jay sobre a noção de que Cipriano propôs uma doutrina semelhante à do Purgatório parece-me bem fundamentada. Segundo Jay, o que está a ser discutido na carta a Antoniano é a diferença entre Cristãos que não resistem à perseguição (os lapsos e apóstatas) e os mártires. Não é uma questão de "purgatório" na vida após a morte, mas de penitência aqui em baixo. A referência à prisão não tem a ver  com o Purgatório, que ainda não existia, mas sim com a disciplina penitencial da Igreja". (The Birth of Purgatory, pp57-58)
São João Crisóstomo (347-407 AD) "Deixem-nos ajudar e comemorar. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai, por que deveríamos duvidar que as nossas ofertas pelos mortos lhes trazem alguma consolação? Não hesitemos em ajudar aqueles que morreram e em oferecer as nossas orações por eles".
Verifiquei de onde a passagem veio (Homilias sobre I Coríntios, 41:5) e não encontrei nada que trouxesse um contexto de purgatório à passagem. À luz dos outros padres, Crisóstomo pode estar a falar sobre outra coisa aqui. Tens mais alguma coisa dele para qualificar esta passagem de maneira diferente das outras?
Santo Agostinho (354-430AD) "Lemos no livro de Macabeus que o sacrifício foi oferecido aos mortos. Mas mesmo que não fosse encontrado em nenhum lugar nos escritos do Antigo Testamento, a autoridade da Igreja universal que é clara neste ponto não tem peso pequeno, onde, nas orações do sacerdote derramadas ao Senhor Deus em Seu altar, o louvor dos mortos tem seu lugar".
Citarei o meu amigo, Jason Engwer desta vez:
Agostinho é largamente considerado o pai do Purgatório. Os católicos romanos citam-no muitas vezes referindo-se a algo semelhante à moderna doutrina católica. Mas o que estes católicos não explicam é que Agostinho reconheceu que estava a especular. Em outras palavras, ele não estava a passar alguma tradição apostólica proferida de geração em geração em sucessão ininterrupta desde os apóstolos. Ao contrário, ele estava a especular sobre o que pode acontecer na vida após a morte. Jacques Le Goff explica:
"[Joseph Ntedika] pôs o dedo num ponto chave, mostrando não apenas que a posição de Agostinho evoluiu ao longo dos anos, o que era de se esperar, mas que passou por uma mudança acentuada num ponto específico no tempo, que Ntedika situa no ano 413 .... Na Carta a Dardinus (417), ele [Agostinho] esboçou uma geografia do além, onde não há lugar para o Purgatório". (The Birth of Purgatory [Chicago, Illinois: The University of Chicago Press, 1986], pp 62, 70).
Em outras palavras, as opiniões de Agostinho sobre o tema desenvolveram-se ao longo do tempo, e ele foi inconsistente. O historiador Protestante George Salmon explica o significado destes factos:
"Da mesma forma, quando Agostinho ouve a ideia sugerida de que, como os pecados dos homens bons lhes causam sofrimento neste mundo, então  também podem causar até certo ponto no próximo, diz que não vai arriscar dizer que nada do tipo não possa ocorrer, porque talvez possa. Bem, se a ideia de purgatório não tinha conseguido ir além de um "talvez" no início do século V, podemos dizer com segurança que não foi pela tradição que a Igreja mais tarde chegou à certeza sobre o assunto; pois, se a Igreja tivesse alguma tradição no tempo de Agostinho, esse grande Padre não podia ter deixado de conhecê-la" (The Infallibility of the Church [London, England: John Murray, 1914], pp. 133-134).
Aqui está um exemplo de Agostinho expressando a sua incerteza:
"E não é impossível que algo do mesmo tipo possa ocorrer mesmo depois desta vida. É uma matéria que pode ser investigada, e apurada ou deixada na dúvida, se alguns crentes devem passar por uma espécie de fogo purificador, e na proporção em que amaram com mais ou menos devoção os bens que perecem, ser mais ou menos rapidamente livres dele" (O Enchiridion, 69).
São Cirilo de Jerusalém (315-386AD) Então fazemos menção também dos que já dormem; em primeiro lugar, os patriarcas, profetas, apóstolos, e mártires, que por suas orações e súplicas, Deus receba a nossa petição. Depois, fazemos menção também dos santos padres e bispos que já dormem e, para pô-lo em forma simples, de todos entre nós que já dormem, pois acreditamos que isso será de grande benefício para as almas daqueles por quem a petição é feita, enquanto este santo e solene sacrifício é apresentado".
De novo, na melhor das hipóteses, esta citação poderá ser usada para transmitir que Cirilo acreditava que os que estão no céu oram por nós e que nós podemos orar por eles durante a celebração da Eucaristia. De novo, à luz dos outros padres anteriores a Cirilo, não podemos simplesmente assumir que estas orações são para aqueles que estão no purgatório.
Epifânio de Salamina (escrito em 375 AD)  "São úteis, com efeito, as orações que são feitas em seu favor, mesmo que não possam eliminar todas as suas culpas. E também é útil, porque neste mundo frequentemente tropeçamos voluntaria ou involuntariamente, e isto é um lembrete para fazermos melhor”.
Gostaria de ver isto num contexto mais alargado, antes de poder comentar. Parece-me que isto vem do seu Panarium, mas não consigo encontrá-lo em lado nenhum. Não sei por quem ele está a dirigir as orações. Apenas se afirma "em seu favor”. A quem se refere o pronome "seu"? Como sabes se é de um morto que se está a falar aqui? Talvez ele acreditasse numa purificação após a morte, ou talvez não. Não há nenhuma maneira de realmente saber.
São Gregório de Nissa, (escrito em 382 AD) "Se um homem distinguir em si o que é peculiarmente humano do que é irracional, e se ele estiver atento a uma vida de maior urbanidade para si mesmo, nesta vida presente purificar-se-á a si próprio de qualquer mal contraído, superando o irracional pela razão. Se ele tiver tendência para a pressão irracional das paixões, usando para as paixões a cooperação oculta das coisas irracionais, ele pode posteriormente de uma forma completamente diferente estar bastante interessado no que é melhor, quando, depois de sua partida do corpo, ele ganhar conhecimento da diferença entre a virtude e o vício, e descobrir que não pode participar da divindade até que seja purificado do contágio imundo na sua alma pelo fogo purificador" (Sermão sobre a Morte).
A mesma coisa acontece aqui. Não obstante, Orígenes e Clemente de Alexandria viveram no segundo e terceiro séculos. Eles propuseram a possibilidade de uma purificação após a morte. Há padres que viveram durante ou após este período que também buscaram esta possibilidade. De modo que, não é nenhuma surpresa ver a ideia do purgatório desenvolver-se inteiramente. Contudo, houve outros padres que contradisseram a ideia do purgatório. Novamente, cito o meu amigo, Jason Engwer e os seus comentários:
Clemente de Roma sempre refere que os Cristãos falecidos estão no céu. Ele repetidamente menciona esta noção, sem referência ao Purgatório. A Igreja Católica Romana acredita que “alguns” cristãos não têm que ir para o purgatório, mas como poderia Clemente de Roma e outros padres da igreja saber que uma pessoa foi capaz de evitar o Purgatório? Uma vez que eles não teriam tido esse conhecimento, a explicação mais provável para a sua referência aos Cristãos falecidos estarem no Céu parece ser que eles não tinham noção do Purgatório. Clemente escreve:
"Pedro, por injusta inveja, suportou não um ou dois, mas numerosos trabalhos e quando ele sofreu finalmente o martírio, partiu para o lugar de glória que lhe era devido .... Portanto foi ele [Paulo] removido do mundo, e entrou no lugar santo, tendo provado ser ele um notável exemplo de paciência… A estes homens que passaram as suas vidas na prática da santidade, há que acrescentar uma grande multidão dos eleitos, que, tendo por inveja suportado muitas indignidades e torturas, deram-nos mais um exemplo excelentíssimo. Por inveja, aquelas mulheres, Danaides e Dirces, sendo perseguidas, após terem sofrido terríveis e indizíveis tormentos, terminaram a carreira da sua fé com firmeza e, embora fossem fisicamente fracas, receberam uma nobre recompensa ... Abençoados os presbíteros que, tendo terminado a sua carreira até agora, obtiveram uma frutífera e perfeita partida deste mundo; porque eles não temem que alguém os prive do lugar agora lhes designado … Todas as gerações desde Adão até este dia já passaram; mas aqueles que, pela graça de Deus, foram aperfeiçoados em amor, possuem agora um lugar entre os piedosos, e serão manifestados na revelação do reino de Cristo" (Primeira de Clemente, 5-6, 44, 50).
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Gregório Taumaturgo parece não ter tido nenhuma noção do Purgatório. Como os Protestantes, ele se refere a dois reinos da vida após a morte, e não três, com todos os "homens bons" a irem para o Céu na morte:
"E o homem bom deve partir com alegria para a sua própria habitação eterna; mas o vil, deve ocupar o seu lugar com choro, e nem prata armazenada, nem ouro provado, terão mais qualquer utilidade. Porque um acidente poderoso cairá em cima de todas as coisas, até mesmo sobre o cântaro junto ao poço, e sobre a roda da vasilha que pode porventura ter sido deixada no buraco, quando o curso do tempo chegar ao seu fim e o período de estudo de uma vida que é como água tiver passado" (Uma Paráfrase do Livro de Eclesiastes, 12).
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Ireneu não acreditava na doutrina do Purgatório. Sabemos que Jesus foi para o Paraíso no dia da sua crucificação (Lucas 23:43), e Ireneu refere que todos os crentes vão para o mesmo lugar até o momento da ressurreição. Ele também identifica este lugar como o lugar onde Paulo foi em 2 Coríntios 12:2-4. Ireneu refere que todos os crentes vão para o Paraíso, que ele distingue do Céu, até ao momento da ressurreição. Como expliquei em relação a Papias, o Paraíso é simplesmente outra *região* a que os evangélicos se referem como "Céu". A terminologia de Ireneu é diferente da dos evangélicos, mas as suas definições são basicamente as mesmas, como é provado por suas referências a Jesus indo para este lugar e a sua referência a 2 Coríntios 12. O Catolicismo Romano diz-nos para rezar para que os Cristãos falecidos possam ser tirados de um lugar de sofrimento antes da ressurreição. Ireneu, por outro lado, refere que todos os cristãos falecidos estão no Paraíso, não num lugar de sofrimento, até a ressurreição:

"Portanto, também os anciãos que eram discípulos dos apóstolos nos dizem que aqueles que foram trasladados foram transferidos para esse local (porque o Paraíso foi preparado para os homens justos, aqueles que têm o Espírito; em cujo lugar também o apóstolo Paulo, quando foi preso, ouviu palavras que são indizíveis quanto a nós na nossa presente condição), e que aí devem os que foram trasladados permanecer até a consumação de todas as coisas, como um prelúdio para a imortalidade ... Pois como o Senhor foi ao meio da sombra da morte onde as almas dos mortos estavam, mas depois ressurgiu no corpo, e após a ressurreição foi elevado ao céu, é manifesto que também as almas dos Seus discípulos, por quem o Senhor passou estas coisas, irão para o lugar invisível lhes atribuído por Deus, e ali permanecerão até a ressurreição, esperando esse evento; então recebendo os seus corpos, e ressuscitando na sua totalidade, ou seja corporalmente, exatamente como o Senhor ressurgiu, eles chegarão assim à presença de Deus. “Porque nenhum discípulo está acima do Mestre, mas todo aquele que é perfeito será como o seu Mestre”. Como o nosso Mestre, portanto, não partiu logo para o céu, mas aguardou o momento da Sua ressurreição prescrito pelo Pai, que tinha sido também manifestada através de Jonas, e ressurgindo três dias depois foi elevado ao céu; assim devemos também aguardar o momento da nossa ressurreição prescrito por Deus e preanunciado pelos profetas, e assim, ressurgidos, sermos elevados, tantos quantos o Senhor considerar dignos deste privilégio" (Contra as Heresias, 5:5:1, 5:31:2).

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Justino Mártir contradisse a doutrina do Purgatório, não apenas ao referir que os remidos vão para um lugar melhor, mas também ao mencionar apenas duas regiões no além, e não três. Ele parece não ter noção das pessoas irem para um terceiro lugar, sendo depois transferidas para o Céu algum tempo antes do juízo:

"As almas dos piedosos permanecem num lugar melhor, enquanto as dos injustos e perversos estão num pior, esperando o momento do juízo" (Diálogo com Trifão, 5).

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Atenágoras rejeita a noção de Purgatório em favor dos crentes irem para o Céu quando morrem. Não apenas diz que os crentes vão para o Céu, mas menciona o Inferno como a única alternativa, sem mencionar qualquer Purgatório:

"Porque, se cremos que viveremos apenas a vida presente, então podemos ser suspeitos de pecar, sendo escravos da carne e sangue, ou vencidos pelo ganho ou desejo carnal; mas como sabemos que Deus é testemunha do que pensamos e do que dizemos tanto de noite e de dia, e que Ele, sendo Ele mesmo luz, vê todas as coisas em nosso coração, estamos convencidos de que quando formos retirados da vida presente vamos viver uma outra vida, melhor do que a presente, e celestial, não terrena (já que habitaremos junto de Deus, e com Deus, livres de todas as alterações ou sofrimento na alma, não como carne, apesar de termos carne, mas como espírito celestial), ou, caindo com o resto, uma pior e no fogo; pois Deus não nos fez como ovelhas ou animais de carga, uma mera mão-de-obra, e que devamos morrer e ser aniquilados“ (Apelo em favor dos Cristãos, 31).

Por que acreditaria eu num escritor que nasceu no século 20 e escreveu contra o purgatório? Prefiro antes colocar a minha fé no que os Antigos Padres da Igreja ensinaram.

Resposta: Porque estás a ser seletivo e a supor que esses padres estão a sugerir o purgatório, partindo da suposição de que um purgatório existe. E depois ainda supões que houve um consenso entre todos os padres sobre o purgatório, quando evidentemente não houve.

Quanto mais próximo da fonte, mais clara é a água.

É exatamente o meu ponto! Quanto mais perto estamos da igreja primitiva, mais percebemos a ausência de qualquer noção de purgatório. Foi a partir das especulações de Clemente de Alexandria que se começou a elaborar a noção de um sítio ou condição de purificação após a morte. A minha objeção é que o purgatório é uma doutrina baseada em conjeturas e sem apoio bíblico adequado.

Eu desafio o autor a refutar o que os Padres da Igreja disseram sobre o Purgatório.

Creio ter dado razão suficiente para mostrar que nenhum desses padres fala do purgatório. Tu simplesmente supões que falam. Os antigos padres não falam desse conceito, outros padres mais tardios não são exatamente claros sobre o que eles acreditam, alguns padres teorizaram o conceito, outros padres contradizem qualquer conceito de purgatório, e outros padres podem ter acreditado em algum tipo de purificação na vida após a morte, feita antes da ressurreição, mas não indicando como. O ponto principal é que os padres da Igreja acreditavam em todo o tipo de coisas e podem ser equiparados a qualquer escritor cristão, do passado e do presente, que nos cede as suas opiniões e reflexões. Eles não são infalíveis. O ponto principal é que tu só podes supor que eles estão a falar sobre o purgatório, sob a presunção de que já existe um purgatório. Isso tornou-se evidente na tua última frase.

CM

17 de março de 2011

O rosário e a sua proporção de 1:1:10 para o Pai-nosso, o Glória, e o Ave-Maria reflete a verdadeira atitude romanista


Não é claro desde quando se usa o Rosário, que ao que parece foi invenção dos monges medievais. Uma tradição documentada desde o século XV diz que foi dado pela Bem-aventurada Maria a São Domingos para auxiliá-lo na sua cruzada contra os albigenses, de infausta memória, em 1214.

Luís Maria Grignion de Montfort [1] explica que esta prodigiosa oração foi revelada em 1214 (pobres os cristãos dos doze primeiros séculos que tiveram que viver sem esta maravilha) [2] quando São Domingos se encontrava empenhado na cruzada contra os albigenses. A coisa não andava, de maneira que Domingos foi a um bosque de Tolosa rezar e jejuar, "de sorte que caiu meio morto. A Santíssima Virgem lhe apareceu - acompanhada de três princesas do céu - e lhe disse: «Sabes, meu querido filho Domingos, de que arma se serviu a Santíssima Trindade para reformar o mundo?» «Oh! Senhora - respondeu ele - Vós o sabeis melhor que eu, porque, depois de vosso Filho Jesus Cristo, fostes o principal instrumento de nossa salvação». Ela acrescentou: «Sabe que a arma principal foi o Saltério angélico, que é o fundamento do Novo Testamento; pelo que, se quiseres ganhar para Deus esses corações endurecidos, prega o meu saltério». 

Na realidade, o rosário não serviu o propósito imediato para o qual foi supostamente dado, já que Domingos fracassou e os albigenses ou cátaros tiveram que ser massacrados com notável crueldade por Simão de Montfort numa sangrenta campanha que terminou em 1218.

Na meditação de cada mistério se reza um (1) Pai-nosso, a seguir dez (10) Ave-marias, e termina-se com um (1) Glória.

Assim, por cada oração dirigida ao Pai e por cada oração dirigida à Trindade, há dez dirigidas a Maria.

Num rosário completo (os quinze mistérios) dizem-se portanto cento e cinquenta Ave-marias, como o número dos Salmos, e só quinze Pai-nossos e quinze Glórias.

O rosário reflete a atitude prevalente na maioria dos católicos: na prática é dedicado muito mais tempo à Bem-aventurada Maria do que a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. 

De facto, o mistério glorioso com que termina o rosário, a cereja no topo do bolo por assim dizê-lo, é segundo Luís Maria Grignion de Montfort dedicado a Maria: "a sua Coroação (como Rainha e Senhora de toda a criação)".

Notas

[1]  Este santo da Igreja Católica tem "pérolas" como esta. No capítulo 20, "Breve explicação do Ave-Maria", exorta os seus leitores como se segue: 

"Estais na miséria do pecado?
Invocai a divina Maria ... E Ela vos livrará do mal dos vossos pecados.
Estais nas trevas da ignorância ou do erro? 
Vinde a Maria e dizei-lhe Ave Maria ... e Ela vos fará participar das suas luzes. 
Vos desviastes do caminho do céu? 
Invocai Maria ... e Ela vos conduzirá ao porto da salvação eterna".

... e continua com outras afirmações tão bíblicas como estas.

(San Luis María Grignion de Montfort: El secreto admirable del santísimo Rosario para convertirse y salvarse. Buenos Aires: Iction, 1980, p. 32, 97-98) 

[2] O rosário não se rezava antes do século XIII, e mesmo nessa altura o Ave-Maria não incluía o rogo pelos pecadores que só veio a ser adicionado no século XVI.

16 de março de 2011

É bíblica a oração do Ave-Maria?


Ave Maria cheia de graça

O Senhor é convosco,

Bendita sois Vós entre as mulheres,

E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

 

Santa Maria, Mãe de Deus,

Rogai por nós pecadores,

Agora e na hora da nossa morte.

Amém


Não, de modo algum esta oração é bíblica.

O Ave-Maria é uma oração de origem medieval (século XII) manifestamente sincrética.

Com efeito, a primeira parte, até "bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus" baseia-se no Evangelho de Lucas.

No entanto,

1) O ato de dirigir uma oração a alguém que não seja Deus, não é bíblico.

2) Pedir a intercessão de um defunto também não é bíblico.

A este propósito, diga-se que só em princípios do século XVI foi acrescentado ao Ave-Maria, até então uma saudação bíblica, o rogo final pelos pecadores "rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém", que não é ensinado no Novo Testamento nem sequer nos Padres dos primeiros séculos.

15 de março de 2011

A MANIPULAÇÃO DAS FONTES NO VATICANO I


Eis um perfeito exemplo de como se cozinham os dogmas em Roma:

Na Sessão IV do Concílio Vaticano I (18 de julho de 1870) sancionou-se a Constituição Dogmática I sobre a Igreja de Cristo, que em concreto fala do primado e da infalibilidade papais. O seu capítulo 3 intitula-se Da natureza e razão do primado do Romano Pontífice. Numa parte diz assim:

[Da jurisdição do Romano Pontífice e dos bispos.] Ora, tão longe está este poder do Sumo Pontífice de danificar aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal pelo qual os bispos que, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28], sucederam aos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respetivos rebanhos; que pelo contrário, este poder é afirmado, robustecido e vindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: «A minha honra é a honra da Igreja universal. A minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou eu verdadeiramente honrado, quando não é negada a honra que a cada um é devida».

(Denzinger #1828; negrito acrescentado)

A citação de Gregório Magno (bispo de Roma, 590-604) parece, tal como é apresentada, concordar perfeitamente com o que se vem dizendo sobre como o primado do Papa, como bispo universal, não afeta a autoridade dos demais bispos.

No entanto, a verdadeira opinião de Gregório sobre o primado torna-se clara quando a parte citada é lida no seu contexto original. Trata-se de uma carta a Eulógio, bispo de Alexandria, que, na parte pertinente, diz:

Vossa Bem-aventurança também foi cuidadoso em declarar que não faz agora uso de títulos orgulhosos, que brotam de uma raiz de vaidade, ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em caráter meus pais. Eu não ordenei, então, mas estava desejoso de indicar o que me parecia ser benéfico. Contudo, não acho que Vossa Bem-aventurança tenha estado disposto a recordar perfeitamente esta mesmíssima coisa que trago à sua memória. Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do género; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo. Pois, quanto a mim, não procuro ser próspero por palavras, mas pela minha conduta. Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles. Pois a minha honra é a honra da Igreja universal; a minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade.

(Epístola 8.30 a Eulógio, bispo de Alexandria)

Como se pode notar, os bispos do Vaticano I realizaram, em prol do primado, a façanha de fazer com que Gregório Magno dissesse exatamente o oposto do que havia dito. Este bispo de Roma dava-se perfeitamente conta de que nenhum bispo tinha direito ao título de universal, e de que conceder tal título a um bispo em particular implicava rebaixar a dignidade dos demais bispos.

Em contrapartida, no Concílio Vaticano I se usou, com uma audácia que raia o cinismo, uma parte desta carta para demonstrar a tese de que o episcopado universal do bispo romano não somente era compatível, mas também benéfico para a autoridade dos demais bispos.

De modo que, na constituição que definiu dogmaticamente o primado e a infalibilidade, a Igreja de Roma deturpa até o que foi dito por um bispo de Roma.

11 de março de 2011

A IGREJA PRIMITIVA SOBRE O PAPADO SEGUNDO OS APOLOGISTAS ROMANOS


Os apologistas romanos costumam apresentar alguns documentos e citações de escritores antigos para demonstrar que os cristãos primitivos criam no papado. A maioria dessas citações que transcrevem falam do Apóstolo Pedro. Creio que ninguém disputará o destacado papel de Pedro tanto durante o ministério de Jesus como no nascimento e desenvolvimento inicial da Igreja primitiva, tal como é narrado nos 12 primeiros capítulos do livro dos Atos.

Ora bem, o que deve questionar-se, e com a maior energia, é a validade de compilar citações sobre o Apóstolo Pedro e aplicá-las aos bispos de Roma. Isto equivale a deturpar o que foi dito pelos Padres, com exceção dos próprios bispos de Roma, os quais por motivos óbvios foram os que se agarraram à ideia de ser "sucessores de Pedro" de um modo especial e exclusivo, para ganhar poder sobre os demais bispos.

Eis aqui alguns exemplos.

Clemente de Alexandria

"O bendito Pedro, o eleito, o preeminente, o primeiro entre os discípulos, para quem, além de si mesmo, o Salvador pagou o tributo [Mt 17:27], rapidamente compreendeu e entendeu o seu significado. E que é o que ele diz? Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos'" [Mt 19:27; Mc 10:28] (Quem é o rico que é salvo? 21:3-5 [A.D. 200]).

Sem dúvida Clemente não excede os limites dos dados escriturais ao expressar-se assim acerca do Apóstolo Pedro. Além disso, noutros dois casos Clemente coloca Pedro juntamente com os filhos de Zebedeu como os Apóstolos mais destacados (embora aparentemente no segundo texto confunda Tiago o Justo, com o seu homónimo irmão de João). Numa ocasião coloca Pedro em primeiro lugar e na outra em terceiro. No primeiro caso trata-se do facto de nenhum do trio ter tomado para si a honra de ser bispo de Jerusalém:

Clemente [de Alexandria], no livro VI das Hypotyposeis, aduz o seguinte: "Porque -diz - depois da ascensão do Salvador, Pedro, Tiago e João, mesmo tendo sido os preferidos do Salvador, não tomaram para si esta honra, mas elegeram como bispo de Jerusalém Tiago o Justo."

Eusébio, História Eclesiástica, II, 1:3.

No segundo caso trata-se da instrução recebida por Pedro e pelos filhos de Zebedeu e supostamente transmitida por eles ao resto dos Apóstolos:

E o mesmo autor, no livro VIII da mesma obra, diz ainda sobre ele o seguinte: "O Senhor, depois da sua ressurreição, fez entrega do conhecimento a Tiago o Justo, a João e a Pedro, e estes o transmitiram aos demais apóstolos, e os demais apóstolos aos setenta, um dos quais era Barnabé».

Eusébio, História Eclesiástica, II, 1:3.

Em outras palavras, não há em Clemente terreno algum para afirmar que Pedro agisse como chefe ou único mestre supremo, da antiga Igreja.

Tertuliano

"Porque embora vocês creiam que o céu ainda está fechado recordem que o Senhor deixou as chaves do céu aqui a Pedro, e através dele à Igreja, chaves que cada um levará consigo se tiver sido interrogado e tiver feito uma confissão [de fé]" (Scorpiace 10 [A.D. 211]).

Aqui é preciso atender ao contexto. Tertuliano defende a ideia ortodoxa de que os cristãos devem confessar o nome do Senhor aqui na terra (e não no céu como sustentavam certos heterodoxos). E os que confessarem o Senhor aqui, têm já abertas as portas do céu, de modo que «nenhum atraso nem interrogatório há de receber os cristãos no umbral, já que eles não hão de ser ali discriminados uns dos outros, mas aceites, e não questionados, mas recebidos».

A isto se segue o texto citado: «Porque embora vocês concebam o céu ainda fechado, recordem que o Senhor deixou aqui a Pedro e através dele à Igreja, as chaves daquele, as quais cada um que tenha sido questionado aqui, e também feito confissão, levará consigo».

Em outras palavras, segundo o texto de Tertuliano, longe de ser a posse das chaves uma prerrogativa exclusiva do Apóstolo Pedro, as chaves do reino são aqui e agora propriedade de todos os autênticos cristãos.

E, desde logo, o texto não diz nem insinua palavra acerca de supostos sucessores exclusivos de Pedro.

Tertuliano

"O Senhor disse a Pedro, 'Sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, te darei as chaves do reino dos céus [e] tudo o que ligares ou desligares na terra será ligado ou desligado nos céus' [Mt 16:18-19] . . . Sobre ti, diz, eu edificarei a minha Igreja; e eu te darei as chaves a ti, não à Igreja; e qualquer coisa que tu ligares ou desligares, não o que eles ligarem ou desligarem" (Modéstia 21:9-10 [A.D. 220]).

O inveterado hábito de pegar em textos patrísticos que falem de Pedro com o intuito de sustentar as pretensões do papado, sem examinar apropriadamente o seu contexto, pode trazer surpresas. Tal é o caso desta citação do tratado de Tertuliano "Sobre a Modéstia" (De pudicitia).

Este tratado foi escrito no final da vida de Tertuliano, quando fazia mais de uma década que se tinha unido à seita rigorista de Montano, a qual reivindicava para si os carismas proféticos. "Sobre a Modéstia" é um virulento ataque contra o perdão de pecados sexuais cometidos depois do batismo. Diz Quasten:

Segundo o conceito montanista que o autor tem da Igreja, o poder de perdoar não pertence à hierarquia eclesiástica, mas à hierarquia espiritual, isto é, aos apóstolos e profetas.

Johannes Quasten , Patrología. I. Hasta el concilio de Nicea. Madrid: BAC, 1978, 1:610.

Há quem pense que o tratado foi dirigido primariamente contra o bispo de Roma, Calisto (217-222), embora o seu adversário possa também ter sido Agripino, bispo de Cartago. Tertuliano chama sarcasticamente o seu oponente com o título pagão de pontifex maximus (que ainda não havia sido reclamado pelo bispo de Roma).

Em todo o caso, e de forma obviamente contraditória com a atribuição das chaves a todo o cristão autêntico que defendeu no Scorpiace (ver acima), aqui Tertuliano se agarra à ideia de concessões pessoais a Pedro para negar o poder da Igreja institucional para perdoar pecados. Vejamos a passagem no seu contexto:

Agora inquiro a vossa opinião, [para ver] de que fonte usurpas este direito para "a Igreja".

Se, por o Senhor ter dito a Pedro, «Sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja», «a ti eu te dei as chaves do reino celestial», ou «qualquer coisa que ligares ou desligares na terra, será ligada ou desligada nos céus», tu portanto supores que o poder de ligar e desligar derivou para ti, ou seja, para toda a Igreja semelhante a Pedro, que tipo de homem és, subvertendo e mudando totalmente a manifesta intenção do Senhor ao conferir este [dom] pessoalmente a Pedro? «Sobre ti», diz, «eu edificarei a minha Igreja»; e «Eu te darei as chaves a ti», não à Igreja; e «o que desligares ou ligares», não o que «eles desligarem ou ligarem».

Pois assim o ensina também o resultado. No próprio (Pedro) a Igreja foi criada; isto é, através dele próprio; ele próprio testou a chave; e tu vês qual: «Homens de Israel, deixai que o que digo penetre nos vossos ouvidos: Jesus Nazareno, homem destinado por Deus para vós», etc. O próprio (Pedro), portanto, foi o primeiro a abrir, no batismo de Cristo, a entrada para o reino celestial, no qual são «desligados» os pecados que antes estavam «ligados»; e aqueles que não foram «desligados» estão «ligados», de acordo com a verdadeira salvação; e a Ananias o «ligou» com a ligadura da morte, e aos de pés fracos «absolveu» da sua falta de saúde. Ademais, naquela disputa acerca da observância ou não da Lei, Pedro foi o primeiro de todos a ser dotado com o Espírito e, depois de fazer um prefácio respeitante ao chamado das nações, ao dizer «E agora, por que estais vós tentando o Senhor pondo sobre os irmãos um jugo que nem nós nem nossos pais fomos capazes de suportar? Mas, no entanto, através da graça de Jesus cremos que seremos salvos do mesmo modo que eles». Esta frase tanto «desligou» aquelas partes da Lei que foram abandonadas, como «ligou» aquelas que foram conservadas. Daí que o poder de desligar e ligar confiado a Pedro não tinha nada que ver com os pecados capitais de crentes; e se o Senhor lhe tinha dado um preceito de que devia conceder o perdão a um irmão que pecasse contra ele «até setenta vezes sete», é claro que não lhe ordenaria «ligar» – isto é, reter - nada subsequentemente, a não ser porventura os tais [pecados] cometidos contra o Senhor, não contra um irmão. Pois o perdão [dos pecados] cometidos no caso de um homem é um prejuízo contra a remissão de pecados contra Deus.

Ora, que [tem isto que ver] com a Igreja, e em particular com a tua, Psíquico? Pois, de acordo com a pessoa de Pedro, é a homens espirituais que este poder pertencerá correspondentemente, seja a um apóstolo ou a um profeta. Pois a mesmíssima Igreja é, própria e principalmente, o próprio Espírito, em quem está a Trindade da única Divindade – Pai, Filho e Espírito Santo. [O Espírito] une essa Igreja que o Senhor fez consistir em «três». E assim, desde aquele tempo em diante, todo número [de pessoas] que se uniram entre si nesta fé é contada como «uma Igreja», do Autor e Consagrador [da Igreja]. E concordantemente «a Igreja», é verdade, perdoará pecados; mas a Igreja do Espírito, por meio de um homem espiritual; não a Igreja que consiste num número de bispos. Pois o direito e arbítrio são do Senhor, não dos servos; do próprio Deus, não dos sacerdotes.

Sobre a modéstia, 21.

Em outros termos, Tertuliano ensina aqui a limitação do «poder das chaves» a Pedro pessoalmente, e o nega totalmente à Igreja institucional e hierárquica. É incompreensível que alguém possa ver neste tratado um argumento a favor do episcopado monárquico em geral, ou romano em particular. O texto diz completamente o contrário.

Cipriano de Cartago

"O Senhor disse a Pedro: 'Em verdade vos digo, 'diz, 'que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja' . . . . Sobre ele [Pedro] ele edifica a Igreja, e a ele dá o mandato de apascentar as ovelhas [João 21:17], e apesar de atribuir um poder similar a todos os apóstolos, ainda assim ele fundou uma única sede [cátedra], e estabeleceu por sua própria autoridade uma fonte e uma razão intrínseca para essa unidade. . . . Sem dúvida, os outros também foram o que Pedro foi [i.e., apóstolos], mas a primazia se concedeu a Pedro, pelo que fica claro que há só uma Igreja e uma sede. Do mesmo modo também, [os apóstolos] são pastores e o rebanho é um, alimentado pelos apóstolos num mesmo espírito. Se alguém não se mantém firme nesta unidade de Pedro, pode imaginar-se que ainda sustém a fé? Se desertasse da sede de Pedro sobre a qual a Igreja foi fundada, pode ainda confiar em que está na Igreja?" (A Unidade da Igreja Católica 4; [A.D. 251]).

Cipriano defende aqui a unidade da Igreja com vários argumentos, entre eles o da primazia de Pedro. No entanto, não há razão para pensar que o que Cipriano diz em relação a Pedro deva atribuir-se sem mais ao bispo de Roma. Que isso está longe de ser assim fica claro pela reação do mesmo Cipriano à cabeça dos bispos africanos, juntamente com Firmiliano e os bispos asiáticos, contra o bispo de Roma, Estêvão, a propósito do batismo dos hereges. Vejam-se os textos em "Supremacia papal antenicena", aqui.

Efrém, o Sírio

[Jesus disse:] Simão, meu seguidor, eu te fiz fundamento da Santa Igreja. Eu te chamei Pedro, porque tu suportarás todos os seus edifícios. Tu és o inspetor dos que edificaram uma Igreja na Terra para mim. Se eles quiserem edificar o que é falso, tu, o fundamento, os condenarás. Tu és a cabeça da fonte da qual meu ensinamento flui; tu és o chefe dos meus discípulos. Através de ti darei de beber a todos os povos. Tua é essa doçura dadora de vida que eu dispenso. Te escolhi a ti para ser, por assim dizer, o primogénito na minha instituição de modo tal que, como o herdeiro, possas ser administrador dos meus tesouros. Te entreguei as chaves do meu reino. Olha, te dei autoridade sobre todos os meus tesouros" (Homílias 4:1 [A.D. 351]).

Não tenho este documento à mão para estudar o contexto, mas com base no que diz a citação, parece tratar-se de Pedro pessoalmente, sem que se contemplem "sucessores" em geral ou bispos de Roma em particular.

Ambrósio de Milão

"[Cristo] lhe respondeu: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja . . .' Não podia ele, então, fortalecer a fé do homem ao qual, agindo com a sua própria autoridade, entregou o reino, a quem ele chamou a pedra, declarando-o desse modo fundamento da Igreja [Mt 16:18]?" (A Fé 4:5 [A.D. 379]).

A citação acima é precedida por estas palavras:

Além disso, para que possas saber que é segundo a sua humanidade que intercede, e em virtude da sua divindade que ordena, está escrito para ti no Evangelho de Lucas que disse a Pedro: «Orei por ti, para que a tua fé não falhe». Ao mesmo Apóstolo, de novo, quando numa ocasião anterior disse, «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo», ele lhe respondeu...

Segue-se a citação em cima, e depois a conclusão:

Considera, então, a maneira da sua intercessão, as ocasiões da sua ordenança. Ele intercede quando nos é mostrado como na véspera do sofrimento; Ele ordena, quando é reconhecido como Filho de Deus.

De novo, isto é dito de Pedro pessoalmente e sem ter no horizonte nenhuma "sucessão". O contexto é uma discussão acerca do que Cristo pode ou não fazer, em relação às suas naturezas divina e humana.

Papa Dâmaso I

"Do mesmo modo se decreta . . . que deve anunciar-se que . . . a santa Igreja Romana foi posta à frente não por decisões conciliares de outras igrejas, mas recebeu a primazia pela voz evangélica de nosso Senhor e Salvador, que diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela; e a ti te darei as chaves do reino dos céus. . . ' [Mt 16:18-19]. A primeira sede, portanto, é a de Pedro o apóstolo, a da Igreja Romana, que não tem mancha nem defeito nem coisa parecida." (Decreto de Dâmaso 3 [A.D. 382]).

É bem sabido que aqueles que apelaram, no início sem grande resultado, aos textos que falam de Pedro como se fossem uma razão para fundamentar a autoridade suprema da Igreja de Roma, foram os próprios bispos dessa cidade. Como diz George Salmon, se alguém dissesse que proeminentes intelectuais afirmam que Paris é a capital cultural do mundo, e quando é questionado sobre os que dizem isso responde Victor Hugo, Balzac, e Alexandre Dumas, haveria uma inevitável suspeita de enviesamento. O mesmo ocorre quando o bispo de Roma exalta o seu próprio ofício.

São Jerónimo

"'Mas, tu [Joviniano] dirás, 'foi sobre Pedro que a Igreja foi fundada' [Mt 16:18]. Bom. . . um dentre os doze foi eleito para ser sua cabeça para evitar qualquer ocasião de divisão" (Contra Joviniano 1:26 [A.D. 393]).

É muito curioso que se cite precisamente este texto a favor da supremacia petrina (para não falar do papado), já que o seu propósito no contexto é demonstrar a superioridade do Apóstolo João sobre o Apóstolo Pedro.

A obra de Jerónimo Contra Joviniano é basicamente uma defesa da virgindade como um estado superior ao matrimónio. Jerónimo apresenta uma série de argumentos, de diferente valor, a favor da sua tese. Um deles é que João era e permaneceu virgem, e por essa causa foi mais amado pelo Senhor; "e o que Pedro, que era casado, não se atreveu a perguntar, pediu a João que perguntasse". Jerónimo apresenta ainda outros argumentos e continua:

Se, porém, Joviniano obstinadamente contendesse que João não era virgem (ao passo que sustentámos que a sua virgindade foi a causa do especial amor que o Senhor lhe tinha), que explique, se não era virgem, por que era mais amado que os outros Apóstolos. Mas tu dizes, «a Igreja foi fundada sobre Pedro», ainda que em outro lado se diga o mesmo de todos os Apóstolos, e todos eles receberam as chaves do reino dos céus, e a força da Igreja depende de todos eles por igual, no entanto um dos doze é escolhido de modo que se dispôs uma cabeça para que não haja ocasião de cisma. Mas, por que não foi escolhido João que era virgem? Foi prestada deferência à idade, porque Pedro era o mais velho: alguém que era jovem, quase diria um garoto, não podia ser posto sobre homens de idade avançada; e de um bom mestre que se propunha tirar toda a ocasião de disputa entre os seus discípulos, e que lhes havia dito, «Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz» e «O que é maior entre vós, que seja o menor» não pode pensar-se que proporcionaria um motivo de inveja contra o jovem que tinha amado... Pedro é um Apóstolo, e João é um Apóstolo - um é um homem casado, o outro um virgem; mas Pedro é somente um Apóstolo, enquanto João é um Apóstolo, um Evangelista, e um Profeta. Um Apóstolo, porque escreveu às Igrejas como mestre; um Evangelista, porque compôs um Evangelho, coisa que nenhum outro Apóstolo, exceto Mateus, fez; um profeta, porque viu na ilha de Patmos, onde tinha sido desterrado pelo imperador Domiciano como um mártir do Senhor, um Apocalipse contendo os ilimitados mistérios do futuro.

Coloquei em itálico a suposta "citação sobre o papado", que em todo o caso fala pessoalmente de Pedro. E ainda esta alusão é vista sob uma luz muito diferente quando é examinada no contexto, já que Jerónimo – com razão ou sem ela - obviamente minimiza o privilégio de Pedro e exalta a pessoa e a obra de João. De modo que em vez de fortalecer o argumento romanista, esta passagem o contradiz flagrantemente.

São Jerónimo

"Simão Pedro, filho de João, do povo de Betsaida na província da Galileia, irmão de André o apóstolo, e chefe ele mesmo dos apóstolos, depois de ter sido bispo da Igreja de Antioquia e ter pregado à Diáspora . . . foi enviado a Roma no ano segundo de Cláudio para abater Simão Mago, e ocupou aí a cátedra sacerdotal durante vinte e cinco anos até ao final, isto é o décimo quarto ano de Nero. Nas suas mãos recebeu a coroa do martírio sendo cravado na cruz com a cabeça para o chão e os seus pés para o alto, afirmando que não era digno de ser crucificado da mesma maneira que o seu Senhor" (Vidas de Homens Ilustres 1 [A.D. 396]).

Aqui Jerónimo faz eco de uma lenda pós-apostólica que pode traçar-se à literatura pseudoclementina, da primeira metade do século III. Que o Apóstolo Pedro viajasse para Roma numa data tão precoce e permanecesse ali por 25 anos é impossível se se levarem em conta os dados do Novo Testamento. Isto o mostrei noutro lado: Aqui

Papa Inocêncio I

"Ao buscar as coisas de Deus . . . Vocês reconheceram que todo o juízo deve ser remetido a nós [o papa], e demonstraram saber que é devido à Sé Apostólica [Roma], já que todos os que estamos neste lugar desejamos seguir o próprio apóstolo [Pedro] de quem este episcopado e toda a autoridade deste nome surgiram" (Epístolas 29:1 [A.D. 408]).

Esta citação é muito interessante, pois esta carta do bispo de Roma Inocêncio I é a resposta à solicitação de ratificação da condenação dos erros pelagianos feita pelos bispos africanos, encabeçados nada menos que por Agostinho de Hipona.

De novo, é necessário examinar o fundo histórico, que é o da heresia pelagiana. Pelágio era um monge que provavelmente provinha das Ilhas Britânicas, mas iniciou a sua carreira em Roma pelo ano 400. Alto, imponente, conhecedor da teologia e capaz de expressar-se fluidamente em latim e em grego, rapidamente adquiriu boa reputação por sua austeridade. Desenvolveu uma antropologia e soteriologia heréticas, já que entre outras coisas negava a absoluta necessidade da graça para a salvação. Durante anos pregou em Roma a sua doutrina, junto com o seu seguidor, o advogado Celéstio. Deve notar-se que não houve oposição alguma a esta atividade por parte dos bispos de Roma.

Mesmo se as suas intrigas secretas ou abertas não passaram desapercebidas, todavia os dois amigos não foram importunados pelos círculos oficiais romanos. Mas as coisas mudaram quando em 411 deixaram o hospitaleiro solo da metrópole, a qual havia sido saqueada por Alarico, (410) e rumaram para o Norte de África.

Joseph Pohle, Pelagius and Pelagianism em The Catholic Encyclopedia (1911), vol. 11.

Enquanto Pelágio continuou viajando para a Palestina, Celéstio tentou ser feito presbítero em Cartago. No entanto, os seus ensinamentos foram denunciados perante o bispo dessa cidade, Aurélio, que convocou um sínodo (411) que além de negar-lhe a ordenação condenou os seus ensinamentos. Celéstio viajou então para Éfeso, onde conseguiu ser ordenado.

Entretanto, os ensinamentos de Pelágio se tinham difundido no norte de África e motivaram os primeiros escritos de Agostinho contra esta heresia. No entanto, Pelágio se encontrava na Palestina, como um estimado hóspede do bispo João de Jerusalém, e continuava propagando as suas ideias. Tanto Jerónimo como Agostinho se opunham a ele, e aliou-se a eles o bispo Orósio, que acusou Pelágio. Houve um sínodo na Palestina em 415 que, perante a sólida defesa de Pelágio, não chegou a nenhuma conclusão, mas dada a origem do suposto heresiarca, resolveu deixar o juízo aos latinos. No mesmo ano dois bispos ocidentais exilados, Heros de Arles e Lázaro de Aix, acusaram Pelágio perante o bispo Eulógio de Cesareia. Graças a uma série de circunstâncias afortunadas para Pelágio, um sínodo reunido em Diospolis o exonerou dos cargos. De modo que pela segunda vez consecutiva, Pelágio havia triunfado no Oriente.

Estes factos causaram profunda inquietação entre os bispos norte-africanos, os quais condenaram as doutrinas pelagianas em dois sínodos, o primeiro com 67 bispos da África proconsular em Cartago (415) e o segundo com 59 bispos de Numídia em Milevi (416), província à qual pertencia a sede de Agostinho. Ambos os sínodos solicitaram a ratificação da sede romana, e cinco bispos (Agostinho, Aurélio, Alípio, Evódio e Posídio) escreveram ao bispo romano Inocêncio expondo a doutrina ortodoxa. Que se solicitasse a ratificação da sede romana era natural dada a confusão reinante no Oriente, a importância da Igreja de Roma e o facto de a heresia ter surgido nessa cidade.

O bispo de Roma ratificou com gosto o efetuado pelos africanos, não sem perder a oportunidade de sublinhar os direitos e privilégios de que se cria credor, segundo a citação que está mais acima, e que se reproduz em Denzinger # 100, seguida pelos ensinamentos de Cartago e Milevi (Denzinger# 101-106). É claro que os bispos africanos se alegraram de que Roma ratificasse o efetuado e aderisse aos seus ensinamentos.

Em África, onde a decisão foi recebida com verdadeiro entusiasmo, toda a controvérsia foi agora considerada como encerrada, e Agostinho, a 23 de setembro de 417 anunciou desde o púlpito (Serm., cxxxi, 10 em P. L., XXXVIII, 734), "Jam de hac causa duo concilia missa sunt ad Sedem apostolicam, inde etiam rescripta venerunt; causa finita est". (Tendo dois sínodos escrito à Sé Apostólica sobre este assunto, chegou a resposta; a questão está concluída). Mas estava enganado; o assunto não estava concluído.

Pohle, o.c.

Esta citação de Agostinho é o mais próximo que conheço da frase supostamente dita por ele: Roma locuta, causa finita est. E, como diz Pohle, o bispo de Hipona se enganava. A condenação definitiva do pelagianismo teve de aguardar até o Concílio de Éfeso de 431. Curiosamente, foi um bispo de Roma quem retardou o fim da controvérsia. Inocêncio I morreu a 12 de Março de 417 e foi sucedido por Zósimo, que foi convencido pelos heresiarcas de que eles tinham sido injustamente acusados. O papa Zósimo convenceu-se da inocência dos pelagianos, censurou os bispos Heros e Lázaro por agirem contra Pelágio, e acusou os bispos africanos de agirem precipitadamente.

A solicitação de ratificação por parte da sede romana indica a sua importância mas não demonstra de modo algum o primado de jurisdição, nem a infalibilidade, como se pode ver na reação dos bispos africanos perante as exigências de Zósimo. Eles se mantiveram firmes nas suas decisões, e no final foi o papa Zósimo quem teve de ceder.

Para mais informação sobre este tema, veja-se: Aqui

Agostinho

Entre os apóstolos em quase todos os lugares Pedro mereceu representar a Igreja toda. Por causa desta representação da Igreja, que só ele exerceu, mereceu escutar: 'Eu te darei as chaves do reino dos céus'" (Sermões 295:2 [A.D. 411]).

Agostinho

"Dizem-se certas coisas que parecem estar especialmente relacionadas com o apóstolo Pedro, e cujo significado não é claro a não ser que se refiram à Igreja a qual, segundo é reconhecido, a sua figura representou tendo em conta a primazia que exerceu entre os discípulos. Tais como: 'Eu te darei as chaves do reino dos céus,' e outras passagens similares. Do mesmo modo, Judas representa aqueles judeus que foram inimigos de Cristo" (Comentário sobre o Salmo 108 1 [A.D. 415])

Deveria ser óbvio que o suposto ensino de exclusividade de Pedro do primeiro texto é negado pelo segundo. Eis aqui a minha tradução (negrito acrescentado):

Pois como se dizem certas coisas que parecem aplicar-se peculiarmente ao Apóstolo Pedro, e no entanto não são claras em significado, a menos que se refiram à Igreja, a quem ele é reconhecido como tendo representado figuradamente, por causa da primazia que tinha entre os discípulos; como está escrito, «Eu te darei as chaves do reino dos céus» e outras passagens similares; assim Judas representa aqueles judeus que eram inimigos de Cristo... E agora, na sua linha de sucessão, continuando esta espécie de impiedade, o odeiam.

Claramente, Agostinho sugere aqui uma interpretação coletiva (eclesiástica) da entrega das chaves; Pedro as recebeu não como "papa" mas como representante do Corpo de Cristo. Em outro lado diz Agostinho no mesmo sentido, a propósito do facto de, no mesmo capítulo 16 de Mateus, Pedro ser chamado "bem-aventurado" e "Satanás":

Ora, este nome de Pedro lhe foi dado pelo Senhor, [para] que numa figura, representasse a Igreja. Pois vendo que Cristo é a Pedra (Petra), Pedro é o povo cristão. Pois a pedra (Petra) é o nome original. Portanto, Pedro é assim chamado pela Pedra, não a Pedra por Pedro; como Cristo não é chamado Cristo por causa do cristão, mas o cristão por Cristo… Eu te edificarei a ti sobre mim, não me edificarei a mim sobre ti.

Pois os homens que desejam edificar-se sobre homens diziam "Eu sou de Paulo; e eu de Apolo, e eu de Cefas" que é Pedro. Mas outros que não desejam ser edificados sobre Pedro, mas sobre a Pedra, dizem, "Mas eu sou de Cristo". E quando o Apóstolo Paulo notou que ele foi escolhido e Cristo desprezado, disse: "Está dividido Cristo? ou fostes batizados em nome de Paulo?" E, como não em nome de Paulo, também não em nome de Pedro, mas em nome de Cristo: para que Pedro pudesse ser edificado sobre a Pedra, não a Pedra sobre Pedro.

Este mesmo Pedro, portanto, que havia sido pronunciado pela Pedra "bendito", portando a figura da Igreja, sustentando o lugar principal do Apostolado, ... desgostou o Senhor... [que]... o chamou "Satanás"...

Distingamos, vendo-nos a nós próprios neste membro da Igreja, o que é de Deus e o que é de nós. Pois então não vacilaremos, então estaremos fundados na Pedra, estaremos fixos e firmes contra os ventos, e tormentas, e correntes, as tentações, quero dizer, do mundo presente. Vede ainda Pedro, que era então nossa figura; ora confia, ora vacila; ora confessa o Imortal, ora teme que morra. Porquê? Porque a Igreja de Cristo tem tanto fortes como fracos; e não pode existir sem fortes e fracos; pelo que diz o Apóstolo Paulo, "Ora os que são fortes suportem as fraquezas dos fracos". Pedro ao dizer "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo" representa os fortes, mas ao vacilar, e não querer que Cristo sofra, ao temer a morte d`Ele, e não reconhecer a Vida, representa os fracos da Igreja. Naquele único Apóstolo então, ou seja, em Pedro, na ordem dos Apóstolos primeiro e principal, em quem toda a Igreja estava figurada, ambos os tipos deviam estar representados, ou seja, tanto os fortes como os fracos; porque a Igreja não pode existir sem ambos.

Sermão 26 sobre Mateus 16:25; negrito acrescentado.

Agostinho

"Quem ignora que o primeiro dos apóstolos é o mui bendito Pedro?" (Comentário sobre João 56:1 [A.D. 416]).

Poderíamos responder que não o ignora ninguém. Diga-se a propósito, que o contexto desta passagem é a lavagem dos pés, quando Pedro resistiu a ser lavado pelo Senhor. Agostinho nota que "foi um episódio de grande audácia para o servo contradizer o seu Senhor, a criatura o seu Deus".

Concílio de Éfeso

"Felipe, presbítero e legado do Papa [Celestino I] disse: 'Oferecemos o nosso agradecimento ao santo e venerável sínodo, porque quando os escritos de nosso bendito e santo papa vos foram lidos . . . Vós vos unistes à santa cabeça também mediante as vossas santas aclamações. Já que vossas santidades não ignoram que a cabeça da fé toda, a cabeça dos Apóstolos, é o bendito Pedro o Apóstolo'" (Atas do Concílio, sessão 2 [A.D. 431]).

Esta é, finalmente, outra peça de propaganda romana. Isto que Felipe leu não foi votado nem aprovado pelo referido concílio. Representa, portanto, a opinião que o bispo romano tinha de si.

5 de março de 2011

O Evangelho segundo Roma

O Plano da Salvação Católico Romano

4 de março de 2011

O QUE SIGNIFICAVA “IGREJA CATÓLICA” NO PRIMEIRO MILÉNIO DE CRISTIANISMO


Há, em alguns sites ligados à Igreja Católica Romana, a tentativa de aproveitar a expressão "Igreja Católica", usada antigamente pelos Padres da Igreja nos seus escritos, para tentar fazer a identificação com a Igreja Católica Romana, como se significasse a mesma coisa.

O que se entendia por "Igreja Católica" naquele tempo era em sentido próprio, ou seja, a Igreja universal. Mais tarde, a Igreja de Roma apropriou-se, pelo menos no Ocidente onde conseguiu fazê-lo, do título de "Católica" em exclusividade.

Ora, o facto de parte da Igreja arrogar para si o título de "católica" ou "universal" é uma usurpação na qual - parafraseando Gregório Magno na sua horrorizada rejeição do título de "bispo universal" - a honra que Roma tomou para si foi tirada às outras igrejas.

De modo que a identificação da atual Igreja Católica Romana com a Igreja Católica antiga - a que se referiam os Padres da Igreja e que compreendia toda a cristandade - como se fossem uma e a mesma coisa, é uma identificação falsa e um equívoco falacioso.

1 de março de 2011

Solo Scriptura, Sola Scriptura, and Apostolic Succession: A Response to Bryan Cross and Neal Judisch (by Keith Mathison)

O Dr. Keith Mathison escreveu uma extensa resposta a um artigo publicado num site Católico Romano onde se criticava o seu livro The Shape of Sola Scriptura (Canon Press, 2001) . É particularmente interessante a primeira parte da resposta do Dr. Keith Mathison onde alegações de Roma como:

1. A hierarquia eclesiástica Romana foi instituída por Cristo.

2. Cristo designou Pedro para ser a cabeça visível de toda a Igreja e deu-lhe primazia jurisdicional.

3. Os bispos de Roma são os sucessores de Pedro.

4. A Igreja é indefectível.

5. O Papa é infalível quando fala ex cathedra.

6. O ensinamento do Magistério da Igreja Romana é infalível.

7. Concílios ecuménicos são definidos nos termos do papado.

8. A “unidade” da igreja deve ser definida em termos de fé e comunhão com Roma.

9. A “apostolicidade” da igreja deve ser definida em termos de origem, ensino, e sucessão no cargo.

10. Ser a igreja fundada por Cristo.

São desmontadas uma por uma, e demonstrado de forma detalhada porque razão são falsas, quer do ponto de vista bíblico, quer do ponto de vista histórico.

Vale a pena ler

Solo Scriptura, Sola Scriptura, and Apostolic Succession: A Response to Bryan Cross and Neal Judisch (by Keith Mathison)