Orígenes sobre a forma como o crente pode reconhecer a inspiração da Escritura:
“É certo que, no próprio ato, enquanto
ele lê e perscruta cuidadosamente, tendo a sua mente e os seus sentidos sido
tocados por um sopro divino, reconhecerá que o que lê não são elocuções
humanas, mas as palavras de Deus; e em si mesmo discernirá que estes livros
foram compostos não por habilidade humana, nem por eloquência mortal, mas, por
assim dizer, em um estilo que é divino.”
Orígenes de Alexandria; Sobre os Primeiros Princípios, (A Reader’s Edition; John Behr (trans.), Oxford University Press, 2019) p. 241-2
Orígenes (c.
184–253 d.C.) foi um dos maiores teólogos da Igreja primitiva. Nesta passagem,
ele defende que a prova da inspiração das Escrituras não é apenas externa ou
lógica, mas uma experiência pessoal e espiritual: o leitor atento sente
o "sopro" de Deus (o Espírito Santo) agindo sobre o seu intelecto e
sensibilidade durante o estudo. A Escritura autentica-se através das qualidades
divinas e do reconhecimento produzido pelo Espírito.
Séculos
depois, João Calvino ecoaria
essa mesma percepção na sua doutrina do testemunho interno do Espírito Santo.
Para
Calvino, a Bíblia é autopiston (autoautenticável), o que significa que a sua autoridade não depende de provas lógicas externas ou da aprovação da
Igreja, mas da sua própria evidência intrínseca comunicada ao crente pelo
Espírito. Ele utiliza uma analogia sensorial muito próxima à de Orígenes para
explicar que a percepção da divindade no texto é direta e imediata: assim como “as
coisas brancas mostram a sua brancura e as doces a sua doçura, a Escritura
demonstra ser a Palavra de Deus pela sua própria majestade” (Institutas,
I.vii.2). Para ambos os teólogos, a Escritura não é apenas um objeto de estudo,
mas uma realidade que "se impõe" à consciência do leitor através de
uma iluminação divina.

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