21 de fevereiro de 2026

O PROBLEMA DO MAL: UMA PERSPECTIVA TEOLÓGICA E FILOSÓFICA

 

O que é o "Problema do Mal"?

O problema intelectual do mal é um argumento que usa a dor e o sofrimento para concluir que a existência de Deus é improvável ou impossível. O argumento geralmente possui três premissas e uma conclusão:

Premissa 1: Um ser perfeitamente poderoso pode prevenir qualquer mal.

Premissa 2: Um ser perfeitamente bom preveniria o mal tanto quanto pudesse.

Premissa 3: Deus é perfeitamente poderoso e perfeitamente bom.

Conclusão: Se esse Deus existisse, não haveria mal. Como o mal existe, esse Deus não existe.

Também é importante distinguir o problema intelectual do problema existencial/emocional. O existencial foca em "Como posso suportar isso?", enquanto aqui foco na apologética: "O mal é um bom argumento contra Deus?".

Esta na verdade é a crítica número um dos ateus. Mas também afeta quem já é cristão e se depara com este dilema.

Em lógica, pode atacar-se um argumento de duas formas:

i) Estrutura: Quando as premissas não levam à conclusão (ex: "Não gosto de pessoas da igreja, logo Deus não existe" — a lógica é falha).

ii) Conteúdo: Quando as premissas em si são questionáveis.

O problema do mal tem uma estrutura lógica perfeita. Se as três premissas forem verdadeiras, a conclusão é inevitável. Por isso, como cristãos, devemos focar no conteúdo, especificamente na Premissa 2.

A Teodiceia do "Bem Maior"

O argumento do "bem maior” desafia a ideia de que um ser perfeitamente bom sempre impediria o mal. E se Deus tiver uma razão perfeitamente boa para permitir o mal? A teodiceia (justificação de Deus) do bem maior diz que o mal desempenha um papel necessário para alcançar bens que não seriam possíveis sem ele.

Eles podem dividir-se em quatro tipos:

i) Manifestação da Justiça: Deus demonstra a sua justiça ao punir o pecado.

ii) Construção da Alma: Deus molda o nosso caráter através das provações.

iii) Megafone de Deus: (Termo de C.S. Lewis) A dor desperta quem está espiritualmente indiferente.

iv) Bens de Ordem Superior: O mal permite que virtudes como coragem e compaixão existam.

Os Três "Js": Jó, José e Jesus

Quais considerações bíblicas apoiam esta abordagem?

Ao estudar as histórias de Jó, José e Jesus, se percebe três temas interligados que sustentam o "bem maior":

i) A Bondade do Propósito de Deus: Em Jó, a vindicação de Seu nome; em José, a preservação de Israel; em Jesus, a salvação do mundo.

ii) A Soberania da Providência: Deus usa o mal (os sofrimentos de Jó, a traição dos irmãos de José, a cruz de Cristo) como meio para esses fins gloriosos.

iii) A Inescrutabilidade dos Caminhos de Deus: Frequentemente, Deus nos deixa no escuro. Quem estivesse assistindo à crucificação não teria ideia de que aquele "mal" era o maior "bem" da história.

Causalidade Primária e Secundária

A explicação da relação entre Deus e o mal e a distinção entre causas primárias e secundárias, costuma ser um ponto difícil. A Bíblia mostra que a intenção de Deus está acima das escolhas das criaturas, sem anular a responsabilidade delas. O versículo chave é Génesis 50:20: "Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem".

i) Causa Secundária: O agente humano que comete o pecado com intenção maligna (ex: os irmãos de José). Eles são responsáveis.

ii) Causa Primária: Deus, que ordena que o evento ocorra, mas com uma intenção santa e boa.

Não é pecado ordenar que o pecado exista para um fim maior. Deus não é o "agente" que pratica o mal na Terra, mas é o Soberano que o utiliza.

Objeções Comuns

Como responder à ideia de que "os fins não justificam os meios"?

O lema "os fins não justificam os meios" não deve ser encarado de uma forma absolutista. Em certas situações, na verdade, "os fins justificam os meios".

Paulo responde a isto em Romanos 3:8. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Sem pecado, não há a manifestação da graça de Deus, mas nós não podemos fazer o mal para que venha o bem porque a nossa sabedoria é limitada. Mas Deus, como Criador, tem o direito e o conhecimento perfeito para ordenar o sofrimento visando um bem maior e eterno.

O terreno comum para todos os cristãos é a Cruz. Se concordamos que Deus planeou o maior mal (a morte de Seu Filho) para o maior bem (a nossa redenção), podemos confiar nEle em todos os outros sofrimentos inescrutáveis.

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