25 de fevereiro de 2026

A NOÇÃO DE “SUCESSÃO APOSTÓLICA” É FICCIONAL, NÃO HISTÓRICA

 

A ideia de uma cadeia episcopal contínua e ininterrupta desde o século I não se sustenta historicamente porque as fontes antigas são escassas, contraditórias e, em muitos casos, foram reconstruídas séculos depois para legitimar estruturas eclesiásticas posteriores. A historiografia moderna mostra que não existe documentação capaz de demonstrar uma linha sucessória contínua de bispos desde os apóstolos.

I) Falta de documentação nos primeiros séculos

- Os primeiros cristãos não deixaram listas formais e contínuas de bispos.

- A própria noção de “bispo” como porta-voz ou presidente do colégio de presbíteros (um único bispo por cidade) só se consolida gradualmente no século II, não no século I.

- As listas episcopais mais antigas foram compiladas retrospetivamente, muitas vezes com lacunas e ajustes fictícios. São uma construção que tenta traçar “linhagens ininterruptas” até os apóstolos, mas isso se baseia em suposições posteriores, não em registos contemporâneos.

II) Listas episcopais reconstruídas tardiamente

- As listas de Roma, Antioquia, Alexandria e outras sedes foram organizadas séculos depois dos supostos primeiros bispos.

- Em Roma, por exemplo, a lista de bispos anterior a meados do século II é altamente especulativa, para dizer o mínimo.

- A própria ideia de que Pedro foi “bispo de Roma” não aparece em nenhuma fonte anterior ao século III; é uma interpretação posterior usada para fundamentar a primazia romana.

III) Crises históricas que tornam impossível uma linha contínua

Vários períodos da história cristã tornam inviável a ideia de continuidade ininterrupta:

a) O Cisma de Antioquia (séculos IV–V)

- Antioquia teve bispos rivais simultâneos, cada um reivindicando legitimidade.

- Se há duas ou três linhas paralelas, qual delas seria a “ininterrupta”?

- Isto mostra que a sucessão não era um processo claro ou uniforme.

b) O Grande Cisma do Ocidente (1378–1417)

- Houve três papas simultâneos, cada um com a sua própria linha de bispos e ordenações.

- A Igreja posterior escolheu retroativamente qual linha considerar “válida”.

- Isto demonstra que a continuidade é uma construção ficcional, não um facto histórico.

c) Perseguições e períodos sem bispos claros

- Durante as perseguições romanas, várias comunidades ficaram décadas sem liderança episcopal estável.

- Em alguns casos, bispos foram mortos, substituídos irregularmente ou consagrados por hereges ou cismáticos.

IV) Divergências entre tradições

- As tradições católica, ortodoxa, anglicana e outras não reconhecem mutuamente todas as consagrações episcopais.

- Diferentes igrejas discordam sobre quais sucessões são válidas, o que revela que não existe um critério histórico universal.

V) Conclusão

A ideia de uma cadeia episcopal ininterrupta desde o século I é indefensável historicamente porque:

- Não há documentação contínua verificável.

- As listas foram reconstruídas séculos depois.

- Houve múltiplas linhas concorrentes.

- Houve períodos sem bispos ou com consagrações irregulares.

- As próprias igrejas discordam sobre quais sucessões são válidas.

O que existe é uma tradição ficcional, não uma cadeia histórica demonstrável.

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