A ideia de uma cadeia episcopal contínua e ininterrupta desde o século I
não se sustenta historicamente porque as fontes antigas são escassas,
contraditórias e, em muitos casos, foram reconstruídas séculos depois para
legitimar estruturas eclesiásticas posteriores. A historiografia moderna mostra
que não existe documentação capaz de demonstrar uma linha sucessória contínua
de bispos desde os apóstolos.
I) Falta de documentação nos primeiros séculos
- Os primeiros
cristãos não deixaram listas formais e contínuas de bispos.
- A própria
noção de “bispo” como porta-voz ou presidente do colégio de presbíteros (um
único bispo por cidade) só se consolida gradualmente no século II, não no
século I.
- As listas
episcopais mais antigas foram compiladas retrospetivamente, muitas vezes com
lacunas e ajustes fictícios. São uma construção que tenta traçar “linhagens
ininterruptas” até os apóstolos, mas isso se baseia em suposições posteriores,
não em registos contemporâneos.
II) Listas episcopais reconstruídas tardiamente
- As listas de
Roma, Antioquia, Alexandria e outras sedes foram organizadas séculos depois dos
supostos primeiros bispos.
- Em Roma, por
exemplo, a lista de bispos anterior a meados do século II é altamente especulativa, para dizer o mínimo.
- A própria
ideia de que Pedro foi “bispo de Roma” não aparece em nenhuma fonte anterior ao
século III; é uma interpretação posterior usada para fundamentar a primazia
romana.
III) Crises históricas que tornam impossível uma linha contínua
Vários períodos
da história cristã tornam inviável a ideia de continuidade ininterrupta:
a) O Cisma de Antioquia (séculos IV–V)
- Antioquia
teve bispos rivais simultâneos, cada um reivindicando legitimidade.
- Se há duas ou
três linhas paralelas, qual delas seria a “ininterrupta”?
- Isto mostra
que a sucessão não era um processo claro ou uniforme.
b) O Grande Cisma do Ocidente (1378–1417)
- Houve três
papas simultâneos, cada um com a sua própria linha de bispos e ordenações.
- A Igreja
posterior escolheu retroativamente qual linha considerar “válida”.
- Isto
demonstra que a continuidade é uma construção ficcional, não um facto histórico.
c) Perseguições e períodos sem bispos claros
- Durante as perseguições
romanas, várias comunidades ficaram décadas sem liderança episcopal estável.
- Em alguns
casos, bispos foram mortos, substituídos irregularmente ou consagrados por
hereges ou cismáticos.
IV) Divergências entre tradições
- As tradições
católica, ortodoxa, anglicana e outras não reconhecem mutuamente todas
as consagrações episcopais.
- Diferentes
igrejas discordam sobre quais sucessões são válidas, o que revela que não
existe um critério histórico universal.
V) Conclusão
A ideia de uma
cadeia episcopal ininterrupta desde o século I é indefensável historicamente
porque:
- Não há
documentação contínua verificável.
- As listas
foram reconstruídas séculos depois.
- Houve
múltiplas linhas concorrentes.
- Houve
períodos sem bispos ou com consagrações irregulares.
- As próprias
igrejas discordam sobre quais sucessões são válidas.
O que existe é
uma tradição ficcional, não uma cadeia histórica demonstrável.

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