A seguir, apresentamos uma série de passagens dos escritos dos Padres da Igreja, que os apologistas romanos citam fora do contexto, num vão intento de demonstrar que o bispo de Roma tinha uma autoridade de que na realidade carecia na Igreja antiga.
As Igrejas particulares são plenamente católicas pela comunhão com uma delas: a Igreja de Roma, «que preside à caridade» (Santo Inácio de Antioquia Carta aos Romanos, 1, 1).
"Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor dela por Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai"
Santo Inácio de Antioquia [Carta aos Romanos, século II]
Em primeiro lugar, deve notar-se cuidadosamente que a declaração citada, e com negrito, de que as igrejas particulares são plenamente católicas graças à comunhão com Roma, não pertence a Inácio. É meramente a opinião do autor do texto.
Sem dúvida, Inácio tem muitas coisas boas a dizer da Igreja de Roma (tal como era em princípios do século II). Entre outras coisas, diz que está “posta à cabeça da caridade” ou que “preside no amor” (prokathêmenê tês agapês), o que não indica como insinua a citação que tem autoridade sobre as outras mas que as excede em amor. Todas as cartas de Inácio começam com um sentido elogio à Igreja a que se dirige.
Adicionalmente, Inácio dirige-se aos romanos como a seus irmãos, e não faz nenhuma menção de alguma autoridade particular do bispo desta Igreja, o qual nem sequer menciona (à diferença de outras cartas como aos filadélfos, esmirniotas e magnésios).
A Igreja fundada em Roma pelos dois gloriosos Apóstolos Pedro e Paulo" é "a maior, mais antiga e mais famosa de todas as igrejas". "Porque com esta igreja, por causa da sua preeminência especial, tem que concordar toda a igreja, isto é, os fiéis de todo o mundo; pois nela se conservou sempre a tradição apostólica"
Santo Ireneu de Lyon [«Adversus Haereses», III, 3, 2]
O que diz Ireneu é bastante razoável se se considera a citação no seu contexto:
Ireneu dá Roma como exemplo, mas não diz absolutamente nada sobre a supremacia do seu bispo
O ilustre bispo das Gálias sustentou contra os hereges do seu tempo que a Igreja universal (católica) de Cristo, expressa em todas as congregações locais dispersas pelo mundo, cumpria fielmente a sua missão de ser "coluna e fundamento da verdade" ao preservar, proclamar e transmitir a autêntica tradição dos Apóstolos, com maior ou menor eloquência, mas com a mesma fidelidade. Diz Ireneu:
“Está, portanto, ao alcance de todos, em cada Igreja, que desejem ver a verdade, contemplar claramente a tradição dos apóstolos manifestada em todo o mundo; e estamos em condições de enumerar aqueles que pelos apóstolos foram instituídos bispos nas Igrejas e [de demonstrar] a sucessão destes homens até aos nossos dias; os quais nada ensinaram nem conheceram que se assemelhasse àquilo sobre que estes [hereges] deliram. Pois, se os Apóstolos tivessem conhecido mistérios ocultos, os quais costumassem ensinar aos "perfeitos" em privado e à parte dos restantes, teriam-nos transmitido sobretudo àqueles a quem confiavam as próprias Igrejas. Pois eles [os Apóstolos] queriam que fossem perfeitos e irrepreensíveis em tudo aqueles que deixavam como seus sucessores, entregando-lhes o seu próprio lugar de governo; homens que, se cumprissem com retidão as suas funções, seriam de grande proveito, mas, se delas se afastassem, seriam a maior das calamidades.
Como seria muito entediante enumerar as sucessões de todas as igrejas num volume como este, indicamos a tradição derivada dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, transmitida até aos nossos dias por meio das sucessões dos bispos, tal como é conservada na grande, antiga e universalmente conhecida igreja fundada e organizada em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Deste modo confundimos todos aqueles que, por malvada autossuficiência, vanglória, cegueira ou opinião perversa, se reúnem em assembleias não autorizadas. Pois com esta igreja, devido à sua autoridade preeminente, deve concordar toda a igreja – isto é, os fiéis de todas as partes –, visto que nela a tradição apostólica foi continuamente preservada pelos fiéis de toda a parte." [Adv Haer III, 3:1-2].
Cabe notar aqui que não há qualquer evidência no Novo Testamento de que a Igreja de Roma tenha sido fundada por Pedro ou por Paulo; no entanto, o argumento é válido. Ireneu, que provinha da Ásia Menor e era bispo de Lyon, tomou a Igreja de Roma, de antiguidade e prestígio indiscutíveis, como o paradigma de uma congregação fiel à doutrina dos Apóstolos, tal como o eram, por outro lado, todas as demais Igrejas dispersas pelo Império.
Note-se que não há qualquer apelo a uma autoridade única e suprema do bispo de Roma. Já antes, na mesma obra, Ireneu tinha esgrimido essencialmente o mesmo argumento acerca da ortodoxia da Igreja universal ou católica:
“A Igreja, embora dispersa por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos Apóstolos e dos seus discípulos esta fé: num só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu, da terra, do mar e de tudo quanto neles há; e em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que encarnou para nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou pelos profetas as dispensações de Deus, as vindas, o nascimento de uma virgem, a paixão, a ressurreição dentre os mortos e a ascensão em carne aos céus do amadíssimo Cristo Jesus, nosso Senhor, bem como a sua manifestação dos céus na glória do Pai, «para reunir todas as coisas» e ressuscitar toda a carne da humanidade inteira. Assim, perante Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, «todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda a língua confesse» que Ele é o Senhor, e execute o justo juízo sobre todos. Lançará no fogo eterno os espíritos da impiedade e os anjos que prevaricaram e se tornaram apóstatas, juntamente com os ímpios, injustos, malvados e profanos de entre os homens; mas, no exercício da sua graça, concederá a imortalidade aos justos e santos, bem como àqueles que guardaram os seus mandamentos e perseveraram no seu amor, uns desde o princípio, outros desde o seu arrependimento, envolvendo-os com glória sempiterna.
Como já observei, tendo recebido esta pregação e esta fé, a Igreja, embora dispersa pelo mundo inteiro, guarda-as diligentemente, como se habitasse numa só casa. Crê nestas verdades como se tivesse uma só alma e um só coração, e proclama-as, ensina-as e transmite-as em perfeita harmonia, como se possuísse uma única boca. Pois, ainda que as línguas no mundo sejam diversas, o conteúdo da tradição é único e idêntico. As Igrejas que foram plantadas na Germânia não creem nem transmitem nada de diferente, tal como não o fazem as da Hispânia, as das Gálias, as do Oriente, as do Egito, as da Líbia ou as estabelecidas no centro do mundo. Mas, tal como o sol, essa criatura de Deus, é um só e o mesmo em todo o mundo, assim também a pregação da verdade resplandece em toda a parte e ilumina todos os homens que desejam chegar ao conhecimento da verdade. E nenhum dos governantes das Igrejas, por mais dotado de eloquência que seja, ensinará doutrinas diferente destas (pois ninguém é superior ao Mestre); nem, por outro lado, quem seja menos hábil na palavra trará qualquer prejuízo à tradição. Pois sendo a fé uma e a mesma, nem quem é capaz de falar extensamente sobre ela a aumenta, nem quem diz menos a diminui." [Adv Haer I, 10, 1-2; negrito acrescentado].
Aqui é interessante observar o resumo que Ireneu formula da fé apostólica e católica; tudo coisas claramente ensinadas nas Escrituras e professadas hoje pelas Igrejas evangélicas. Noutra passagem, apresenta também uma espécie de credo, prosseguindo depois com uma exposição da doutrina cristã baseada nas Escrituras (Adv. Haer. III, 4, 2 ss.). Por fim, Ireneu não se cansa de afirmar que é nas Igrejas cristãs, estabelecidas pelos Apóstolos e por aqueles que lhes sucederam no pastorado, que se encontra a exposição fiel da doutrina apostólica contida nas Escrituras.
"O verdadeiro conhecimento é a doutrina dos Apóstolos, a antiga constituição da Igreja no mundo inteiro e a manifestação distinta do Corpo de Cristo segundo as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram a Igreja que existe em toda a parte. Esta chegou até nós guardada e preservada sem qualquer falsificação das Escrituras, por um sistema muito completo de doutrina, sem receber adição nem sofrer redução [nas verdades em que crê]; e [consiste em] ler [a Palavra de Deus] sem falsificação, numa exposição legítima e diligente em harmonia com as Escrituras, isenta quer de perigo quer de blasfémia; e [acima de tudo, consiste no] preeminente dom do amor, que é mais precioso do que o conhecimento, mais glorioso do que a profecia e superior a todos os demais dons [de Deus]." [Adv Haer IV, 33,8]
Ora, o argumento eclesiológico de Ireneu, fundado na perfeita unidade e comunhão visível de todas as Igrejas, tornou-se historicamente inviável após os cismas entre o Oriente e o Ocidente. Já não é possível apelar a um consenso único como o que o bispo de Lyon conheceu no século II. Por outro lado, as Igrejas evangélicas subscrevem precisamente os conteúdos que, segundo Santo Ireneu, constituíam o núcleo da fé professada em toda a parte.
O grande são Máximo Confessor, bispo de Turim do século IV, afirmava: ”Com efeito, desde a descida a nós do Verbo Encarnado, todas as Igrejas cristãs de toda parte consideraram e continuam considerando a grande Igreja que está aqui [em Roma] como única base e fundamento, visto que, segundo as próprias promessas do Salvador, as portas do inferno nunca prevaleceram sobre ela” (CIC, 834).
Antes de mais, o grande são Máximo está obviamente equivocado. No entanto, pode ser oportuno fazer notar que Máximo (580-662) deve ter escrito isto, não no século IV como diz a citação, mas depois de 640. A razão é que a partir desse ano, este monge e abade tornou-se um ardente opositor da heresia monotelita. Acontece que o primeiro Concílio de Latrão condenou esta heresia sendo bispo de Roma Martinho I, em 649. No entanto, um antecessor próximo de Martinho, Honório, foi anatematizado precisamente por monotelita por um concílio ecuménico, e a sua condenação como herege permaneceu no breviário romano até ao século XVIII, quando foi piedosamente omitido.
Honório sucedeu a Bonifácio V, foi bispo de Roma entre outubro-novembro de 625 e 12 de outubro de 638. A condenação de Honório pelo III Concílio de Constantinopla mostra cabalmente que o bispo de Roma estava sujeito à mesma disciplina que os demais bispos, e que podia ser disciplinado se errava como mestre e pastor. A Igreja antiga não conhece nada da atual doutrina da infalibilidade sancionada por Roma há pouco mais de um século.
O contexto histórico é o da heresia monotelita, que ensinava a existência de uma só vontade em Cristo, o que tendia a minimizar a natureza humana de nosso Senhor como antes o tinham feito os monofisitas.
O imperador Heráclio desejava conciliar os monofisitas com os ortodoxos, e uma fórmula que parecia adequada para ambos os grupos foi remetida a Sérgio, patriarca de Constantinopla. Por sua vez Sérgio enviou a Honório de Roma uma carta dogmática, solicitando a sua opinião.
Honório aceitou a fórmula de compromisso entre monofisismo e ortodoxia ("Estas coisas pregará vossa fraternidade convosco, assim como nós as pregamos juntamente com vós", disse a Sérgio). O pior é que, em vez de "uma energia" como os gregos, Honório expressou: "Também confessamos uma só vontade de nosso Senhor Jesus Cristo" (ver Denzinger # 251). O ensino de Honório deu origem à formulação do monotelismo (uma vontade).
Perante o facto de que como bispo de Roma, consultado formalmente pelo bispo de Constantinopla, confirmou este no seu erro em vez de corrigi-lo, Honório recebeu de Sofrónio, patriarca de Jerusalém, e de outros bispos, um documento que defendia a ortodoxia. Como resposta, Honório escreveu uma segunda carta a Sérgio, onde ratificava e ampliava o dito; a carta concluía:
“E estas coisas decidimos manifestar à vossa mui santa fraternidade para que, estabelecendo esta confissão, possamos mostrar-nos de uma mesma mente com vossa santidade, estando claramente de acordo num mesmo espírito, com um mesmo ensino da fé ... E escrevemos aos nossos colegas e irmãos, Ciro e Sofrónio, para que não persistam na nova expressão de uma ou duas energias.”
Os defensores da infalibilidade papal usaram sem êxito diversas táticas para eludir a condenação de Honório: a partir da época de Torquemada, se questionaram as atas do Concílio que condenou Honório; posteriormente, ao fracassar isto, se quis reinterpretar o que foi dito por Honório para tomá-lo em sentido ortodoxo (suponho que por esta razão a sua declaração é publicada no Denzinger). Outra artimanha de valor histórico foi tomar o ensino de Honório como a opinião de um teólogo privado. A este respeito diz John Chapman, autor do artigo sobre Honório na Catholic Encyclopedia: A carta [de Honório] não pode ser tida como privada, pois é uma resposta oficial a uma consulta formal.”
No entanto, Chapman por sua vez recorre a outro subterfúgio, a saber, que a carta supostamente não define nem condena nada, nem se apresenta como vinculativa para todos os cristãos, pelo que não pode ser considerada ex cathedra segundo a moderna definição do Concílio Vaticano I (1870). Na verdade, Honório subscreve plenamente, com toda a sua autoridade, o dito por Sérgio, e ainda por cima acrescenta a confissão de "uma só vontade".
Independentemente das subtilezas, a questão é que por muitos séculos ninguém pôs em dúvida que Honório fosse herege.
Chapman diz de Honório que "A sua maior notoriedade veio pelo facto de ter sido condenado como herege pelo sexto concílio ecuménico (680)…".
“Na Sessão 13ª de 28 de março, as duas cartas de Sérgio foram condenadas, e o concílio acrescentou: «Àqueles cujos ímpios dogmas execramos, julgamos que os seus nomes também sejam expulsos da santa Igreja de Deus ... E além destes decidimos que Honório também, que foi papa da antiga Roma, seja com eles expulso da santa Igreja de Deus, e anatematizado com eles, porque verificamos na sua carta a Sérgio que seguiu a opinião deste em tudo, e confirmou os seus dogmas ímpios». Estas últimas palavras são suficientemente verdadeiras, e, se Sérgio tinha de ser condenado, Honório não podia ser recuperado. Os legados [papais] não objetaram a sua condenação.
... A condenação do papa Honório foi guardada nas lições do Breviário para 28 de junho (São Leão II) até ao século XVIII ..."
(John Chapman, Pope Honorius I. The Catholic Encyclopedia, vol. VII).
O Concílio dirigiu uma carta ao então bispo de Roma, Agatão, na qual se incluía Honório entre os que "erraram na fé".
No Édito imperial que concedia força legal às decisões conciliares, se mencionava como anatematizado "Honório, que foi papa da antiga Roma, o qual em todas as coisas promoveu e cooperou e confirmou a heresia".
A condenação de Honório foi renovada pelos Concílios II de Niceia (787) e IV de Constantinopla (869-870).
Ainda antes do Concílio Ecuménico citado, um importante sínodo de Latrão em 649, presidido por um sucessor de Honório, Martinho (649-655) condenou todo aquele que confessasse uma só vontade e operação em Cristo, o que incluía Honório, embora talvez por vergonha, o seu nome não aparecesse na lista.
O papa Leão II (682-683), sucessor de Agatão, reiterou a condenação de Honório. Numa carta ao imperador diz do papa herege que Honório "não santificou esta apostólica Igreja com o ensino da tradição apostólica mas com profana traição transtornou a sua fé imaculada". Noutro lado coloca-o junto a outros hereges como Ário, Apolinário, Nestório e Eutiques.
Durante vários séculos, o Liber Diurnus, que continha os juramentos que cada bispo de Roma devia prestar, incluía um anátema contra "Honório, que acendeu o fogo das afirmações ímpias". Este anátema foi pronunciado por cerca de cinquenta papas que prestaram juramento no período mencionado.
Honório foi tido por herege durante séculos, e tal opinião generalizada, sustentada ainda por dezenas de seus sucessores, somente foi questionada pelo seu efeito pulverizador sobre a doutrina da infalibilidade papal.
Que um bispo de Roma caísse na heresia era uma coisa pouco frequente, além de uma grande desgraça; mas a ninguém, nem sequer aos próprios bispos de Roma, passava pela cabeça que fosse impossível. O atual Código de Direito Canónico da Igreja de Roma estabelece que o seu bispo não pode ser julgado por ninguém, mas isto não era assim ainda no século VII.
Por último, a história mostra que a solução romanista para as diferenças na interpretação das Escrituras não é válida. A Igreja teria admitido o arianismo se tivesse capitulado com Libério; teria afirmado o pelagianismo se os africanos não tivessem corrigido Zósimo; estaria ainda hesitante se seguisse o usurpador Vigílio; e seria monotelita se de Honório tivesse dependido.
Como o expressa muito bem George Salmon:
"Quando se sugeriu que poderíamos contentar-nos com a guia das Sagradas Escrituras, os defensores do romanismo replicaram que embora a Bíblia possa ser infalível não é uma guia infalível; ou seja, não protege aqueles que a seguem do perigo de errar. Certamente agora podemos dizer o mesmo do papa. Que seja infalível, se quiserdes; que seja em seu coração da mais admirável ortodoxia, ainda assim não é uma guia infalível se pelas suas afirmações públicas leva ao erro o povo cristão. É indisputável que houve casos em que o povo cristão erraria se seguisse a guia do bispo de Roma. Mesmo se fosse possível demonstrar que nenhum bispo de Roma jamais albergou sentimentos que não fossem da mais rígida ortodoxia, ficaria demonstrado que o papa não é uma guia infalível. Podemos assinalar caso após caso em que foi concedida autoridade papal a decisões que sabemos erróneas, e em cada caso pode fazer-se alguma tentativa engenhosa para mostrar que a decisão errónea não compromete o atributo da infalibilidade; mas mais cedo ou mais tarde os homens despertarão para ver que o resultado de todos estes pedidos de exceção é que, enquanto esperavam uma guia que sempre os dirigisse corretamente, eles têm em seu lugar uma guia que sempre consegue encontrar alguma desculpa plausível para cada vez que os extravia".
(The Infallibility of the Church, pp. 441-442, vi).
São Cirilo, bispo de Alexandria diz: “A fim de permanecermos unidos ao nosso chefe apostólico, que ocupa o trono dos Pontífices Romanos, de quem nos compete receber o que devemos crer e professar, nós o veneramos e a ele rogamos, de preferência a todos os mais. Porque só ele pode repreender, corrigir, determinar, dispor, desatar e ligar, em lugar do fundador da Igreja, que a nenhum outro, só a ele, deu a plenitude do poder; a quem todos, por direito divino, inclinam a cabeça e os mais elevados chefes do mundo lhe obedecem como ao próprio Senhor Jesus Cristo.”
Seria interessante contar com a fonte desta citação, mas não me surpreenderia que o malicioso Cirilo tivesse dito semelhante coisa.
Na ilustre Igreja onde presidira Atanásio tinham-se instaurado as intrigas palacianas e a inveja para com a sede rival de Bizâncio. O tio e predecessor de Cirilo, Teófilo, foi o principal responsável pela deposição de João Crisóstomo, anterior patriarca de Constantinopla. Cirilo, homem violento e implacável, foi um digno émulo de seu tio, com a mesma hostilidade para com a sede imperial da qual era bispo Nestório.
Ora, para atacar com êxito a segunda sede do Império, o melhor aliado possível era a Igreja da antiga capital, Roma.
O historiador jesuíta Hubert Jedin o explica assim:
“Desde logo, parece lógico que depois de o magistério eclesiástico ter considerado a fé trinitária nos dois primeiros concílios ecuménicos, se orientasse o pensamento teológico para o mistério da pessoa de Cristo. No entanto, não se deveu isto a um processo lógico, mas antes a um antigo conflito entre duas escolas teológicas, ao mesmo tempo agudizado por uma rivalidade de política eclesiástica.
A escola catequética de Alexandria ... servia-se do método alegórico para a explicação da Sagrada Escritura. O seu pensar era platónico e o seu forte a especulação teológica ... o seu maior teólogo em princípios do século quinto era são Cirilo de Alexandria, patriarca desta cidade desde o ano 412. No seu empenho de apresentar a união da divindade e da humanidade de Jesus Cristo como a mais íntima possível, falava Cirilo de «uma natureza do Verbo encarnado» ... Ele próprio não se importava de que tal modo de falar poderia acabar por esfumar a natureza humana de Cristo e dar lugar a uma concepção da união como «confusão» (synkrasis) das duas naturezas.
Ao invés, a escola de Antioquia ... distinguia-se pela sua sóbria exegese histórico-gramatical da Sagrada Escritura. De pensar antes aristotélico, estava influenciada por um ligeiro sopro de racionalismo. A sua benemérita e altamente venerada cabeça no século quarto, Diodoro de Tarso (m. antes de 394), como consciencioso exegeta que era, levou tão a sério o ser humano de Cristo, que correu perigo de relaxar a sua união substancial com a divindade (que ele, sem dúvida, reconhecia) e reduzi-la a uma união puramente moral. Esta tendência aflora no seu grande discípulo são João Crisóstomo, que em 398 sucedeu a Nectário na sede de Constantinopla, algo mais no influente Teodoro de Mopsuéstia (m. 428), e é fortemente acentuada no seu discípulo Nestório, que à morte do seu mestre foi nomeado bispo de Constantinopla...
Cirilo, patriarca de Alexandria; Nestório, patriarca de Constantinopla: a tensão que emanava das tendências da escola ficou reforçada pela rivalidade de ambas as sedes episcopais. Constantinopla, a residência imperial no Bósforo, foi deixando na sombra e postergada a prestigiosa Alexandria, sede da ciência e baluarte da ortodoxia. Crisóstomo (m. 407) tinha já sofrido dos ciúmes do patriarca de Alexandria, Teófilo, homem ambicioso e ávido de poder; a este sucedeu o seu sobrinho Cirilo. Assim, é facilmente compreensível que este último se constituísse em ardente impugnador das inquietantes teorias de Nestório sobre a pessoa de Cristo.
(Hubert Jedin, S.J.: Breve historia de los Concilios. Trad. A. Ros. Barcelona: Herder, 1963, p. 29-30; negrito acrescentado).
Muito precocemente na controvérsia entre Nestório e Cirilo, iniciada em 429, este procurou uma aliança com a sede romana. No ano seguinte, um concílio presidido pelo bispo de Roma, Celestino, pronunciou-se a favor de Cirilo. Ao que parece os romanos tinham sido informados da suposta doutrina de Nestório pelo próprio Cirilo. Desde logo, além da doutrina, os romanos também tinham o seu rancor contra Constantinopla, à qual se tinha concedido o segundo lugar de honra no cânon terceiro do Segundo Concílio Ecuménico (381) apesar dos protestos dos bispos romanos.
Embora o sínodo romano presidido por Celestino tenha advertido Nestório a abandonar as suas “ímpias novidades” e retornar à ortodoxia, a carta não surtiu nenhum efeito, o que demonstra que a autoridade do bispo romano, mesmo à cabeça de um sínodo local, não era vinculante para outros bispos de sedes importantes. Além disso, a oposição contra Nestório foi encabeçada por Cirilo, não por Celestino, ainda que o apoio deste tenha sido muito bem-vindo para o intriguista bispo alexandrino; provavelmente daí a sua súbita apoteose do bispo de Roma.
Em caso de ser autêntica, a citação transcrita é uma ironia, semelhante à declaração de Celestino a Cirilo de que a doutrina deste coincide com a romana, quando neste caso foi Alexandria quem disse a Roma o que devia ensinar.
Apesar do sínodo romano, como também de outro reunido em Alexandria por Cirilo, a controvérsia não se resolveu até ao terceiro Concílio Ecuménico, convocado como de costume pelo imperador e reunido em Éfeso em 431. O Concílio foi presidido, desde logo, por Cirilo, que segundo as atas conciliares representava também o bispo de Roma, apesar deste ter enviado legados.
Nestório queixou-se da manipulação do Concílio por parte de Cirilo: “Fui convocado por Cirilo, que reuniu o concílio, por Cirilo que era o seu chefe. Quem era juiz? Cirilo. Quem era o acusador? Cirilo. Quem era o bispo de Roma? Cirilo. Cirilo era tudo. Cirilo era bispo de Alexandria e ocupava o lugar do santo e venerável bispo de Roma, Celestino.”
(Citado por Pierre Thomas Camelot, Los Concilios ecuménicos de los siglos IV y V, em El Concilio y los Concilios, trad. D.G. Jiménez. Madrid: Ediciones Paulinas, 1962, p. 82, n. 50).
Finalmente, Nestório foi deposto por decisão do Concílio (por ter-se negado a comparecer) e não porque o bispo de Roma tivesse condenado as suas doutrinas, embora claro está isso tenha ajudado. Mas na realidade, só a decisão do bispo romano em matéria de doutrina não bastava no século V para dar por concluído um assunto.
“Por acaso ignorais que o costume era este: que se escreva primeiro a nós e daí venha a ser estabelecido o que é justo? Se, portanto, se suspeitava alguma coisa do gênero a respeito do bispo de lá, devia haver-se escrito à Igreja daqui”
Papa São Júlio I [Carta aos antioquenos, século IV]
Aqui o que há que reter é que a afirmação de São Júlio é clara e manifestamente falsa. Era antes uma expressão do seu desejo, e era o que a sede romana estava a lutar por impor. Mas certamente não era assim ao princípio.
Eis aqui um exemplo do século II...
A controvérsia pascal do século II e como o bispo de Roma foi obrigado a recuar
No Livro V, capítulos 23 a 25, da sua História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia apresenta o relato da controvérsia pascal, desencadeada pelas divergências na observância da Páscoa entre os bispos asiáticos e os restantes, incluindo o bispo de Roma, Vítor. O asiático Polícrates escreveu a Vítor:
“Nós, pois, celebramos intacto este dia, sem acrescentar nem tirar nada. Porque também na Ásia repousam grandes luminárias ... Filipe ... João, o que se recostou sobre o peito do Senhor... repousa em Éfeso. E em Esmirna, Policarpo, bispo e mártir. E Trásias, também ele bispo e mártir ... repousa em Esmirna. E é preciso falar de Sagaris, bispo e mártir, que descansa em Laodiceia, assim como do bem-aventurado Papírio e de Melitão, o eunuco, que ... repousa em Sardes, esperando a visita que vem dos céus, no dia em que ressuscitará dentre os mortos. Todos estes celebraram como dia da Páscoa o da décima quarta lua, conforme o Evangelho, e não transgrediam, mas seguiam a regra da fé.
Como o expressa muito bem George Salmon:
"Quando se sugeriu que poderíamos contentar-nos com a guia das Sagradas Escrituras, os defensores do romanismo replicaram que embora a Bíblia possa ser infalível não é uma guia infalível; ou seja, não protege aqueles que a seguem do perigo de errar. Certamente agora podemos dizer o mesmo do papa. Que seja infalível, se quiserdes; que seja em seu coração da mais admirável ortodoxia, ainda assim não é uma guia infalível se pelas suas afirmações públicas leva ao erro o povo cristão. É indisputável que houve casos em que o povo cristão erraria se seguisse a guia do bispo de Roma. Mesmo se fosse possível demonstrar que nenhum bispo de Roma jamais albergou sentimentos que não fossem da mais rígida ortodoxia, ficaria demonstrado que o papa não é uma guia infalível. Podemos assinalar caso após caso em que foi concedida autoridade papal a decisões que sabemos erróneas, e em cada caso pode fazer-se alguma tentativa engenhosa para mostrar que a decisão errónea não compromete o atributo da infalibilidade; mas mais cedo ou mais tarde os homens despertarão para ver que o resultado de todos estes pedidos de exceção é que, enquanto esperavam uma guia que sempre os dirigisse corretamente, eles têm em seu lugar uma guia que sempre consegue encontrar alguma desculpa plausível para cada vez que os extravia".
(The Infallibility of the Church, pp. 441-442, vi).
São Cirilo, bispo de Alexandria diz: “A fim de permanecermos unidos ao nosso chefe apostólico, que ocupa o trono dos Pontífices Romanos, de quem nos compete receber o que devemos crer e professar, nós o veneramos e a ele rogamos, de preferência a todos os mais. Porque só ele pode repreender, corrigir, determinar, dispor, desatar e ligar, em lugar do fundador da Igreja, que a nenhum outro, só a ele, deu a plenitude do poder; a quem todos, por direito divino, inclinam a cabeça e os mais elevados chefes do mundo lhe obedecem como ao próprio Senhor Jesus Cristo.”
Seria interessante contar com a fonte desta citação, mas não me surpreenderia que o malicioso Cirilo tivesse dito semelhante coisa.
Na ilustre Igreja onde presidira Atanásio tinham-se instaurado as intrigas palacianas e a inveja para com a sede rival de Bizâncio. O tio e predecessor de Cirilo, Teófilo, foi o principal responsável pela deposição de João Crisóstomo, anterior patriarca de Constantinopla. Cirilo, homem violento e implacável, foi um digno émulo de seu tio, com a mesma hostilidade para com a sede imperial da qual era bispo Nestório.
Ora, para atacar com êxito a segunda sede do Império, o melhor aliado possível era a Igreja da antiga capital, Roma.
O historiador jesuíta Hubert Jedin o explica assim:
“Desde logo, parece lógico que depois de o magistério eclesiástico ter considerado a fé trinitária nos dois primeiros concílios ecuménicos, se orientasse o pensamento teológico para o mistério da pessoa de Cristo. No entanto, não se deveu isto a um processo lógico, mas antes a um antigo conflito entre duas escolas teológicas, ao mesmo tempo agudizado por uma rivalidade de política eclesiástica.
A escola catequética de Alexandria ... servia-se do método alegórico para a explicação da Sagrada Escritura. O seu pensar era platónico e o seu forte a especulação teológica ... o seu maior teólogo em princípios do século quinto era são Cirilo de Alexandria, patriarca desta cidade desde o ano 412. No seu empenho de apresentar a união da divindade e da humanidade de Jesus Cristo como a mais íntima possível, falava Cirilo de «uma natureza do Verbo encarnado» ... Ele próprio não se importava de que tal modo de falar poderia acabar por esfumar a natureza humana de Cristo e dar lugar a uma concepção da união como «confusão» (synkrasis) das duas naturezas.
Ao invés, a escola de Antioquia ... distinguia-se pela sua sóbria exegese histórico-gramatical da Sagrada Escritura. De pensar antes aristotélico, estava influenciada por um ligeiro sopro de racionalismo. A sua benemérita e altamente venerada cabeça no século quarto, Diodoro de Tarso (m. antes de 394), como consciencioso exegeta que era, levou tão a sério o ser humano de Cristo, que correu perigo de relaxar a sua união substancial com a divindade (que ele, sem dúvida, reconhecia) e reduzi-la a uma união puramente moral. Esta tendência aflora no seu grande discípulo são João Crisóstomo, que em 398 sucedeu a Nectário na sede de Constantinopla, algo mais no influente Teodoro de Mopsuéstia (m. 428), e é fortemente acentuada no seu discípulo Nestório, que à morte do seu mestre foi nomeado bispo de Constantinopla...
Cirilo, patriarca de Alexandria; Nestório, patriarca de Constantinopla: a tensão que emanava das tendências da escola ficou reforçada pela rivalidade de ambas as sedes episcopais. Constantinopla, a residência imperial no Bósforo, foi deixando na sombra e postergada a prestigiosa Alexandria, sede da ciência e baluarte da ortodoxia. Crisóstomo (m. 407) tinha já sofrido dos ciúmes do patriarca de Alexandria, Teófilo, homem ambicioso e ávido de poder; a este sucedeu o seu sobrinho Cirilo. Assim, é facilmente compreensível que este último se constituísse em ardente impugnador das inquietantes teorias de Nestório sobre a pessoa de Cristo.
(Hubert Jedin, S.J.: Breve historia de los Concilios. Trad. A. Ros. Barcelona: Herder, 1963, p. 29-30; negrito acrescentado).
Muito precocemente na controvérsia entre Nestório e Cirilo, iniciada em 429, este procurou uma aliança com a sede romana. No ano seguinte, um concílio presidido pelo bispo de Roma, Celestino, pronunciou-se a favor de Cirilo. Ao que parece os romanos tinham sido informados da suposta doutrina de Nestório pelo próprio Cirilo. Desde logo, além da doutrina, os romanos também tinham o seu rancor contra Constantinopla, à qual se tinha concedido o segundo lugar de honra no cânon terceiro do Segundo Concílio Ecuménico (381) apesar dos protestos dos bispos romanos.
Embora o sínodo romano presidido por Celestino tenha advertido Nestório a abandonar as suas “ímpias novidades” e retornar à ortodoxia, a carta não surtiu nenhum efeito, o que demonstra que a autoridade do bispo romano, mesmo à cabeça de um sínodo local, não era vinculante para outros bispos de sedes importantes. Além disso, a oposição contra Nestório foi encabeçada por Cirilo, não por Celestino, ainda que o apoio deste tenha sido muito bem-vindo para o intriguista bispo alexandrino; provavelmente daí a sua súbita apoteose do bispo de Roma.
Em caso de ser autêntica, a citação transcrita é uma ironia, semelhante à declaração de Celestino a Cirilo de que a doutrina deste coincide com a romana, quando neste caso foi Alexandria quem disse a Roma o que devia ensinar.
Apesar do sínodo romano, como também de outro reunido em Alexandria por Cirilo, a controvérsia não se resolveu até ao terceiro Concílio Ecuménico, convocado como de costume pelo imperador e reunido em Éfeso em 431. O Concílio foi presidido, desde logo, por Cirilo, que segundo as atas conciliares representava também o bispo de Roma, apesar deste ter enviado legados.
Nestório queixou-se da manipulação do Concílio por parte de Cirilo: “Fui convocado por Cirilo, que reuniu o concílio, por Cirilo que era o seu chefe. Quem era juiz? Cirilo. Quem era o acusador? Cirilo. Quem era o bispo de Roma? Cirilo. Cirilo era tudo. Cirilo era bispo de Alexandria e ocupava o lugar do santo e venerável bispo de Roma, Celestino.”
(Citado por Pierre Thomas Camelot, Los Concilios ecuménicos de los siglos IV y V, em El Concilio y los Concilios, trad. D.G. Jiménez. Madrid: Ediciones Paulinas, 1962, p. 82, n. 50).
Finalmente, Nestório foi deposto por decisão do Concílio (por ter-se negado a comparecer) e não porque o bispo de Roma tivesse condenado as suas doutrinas, embora claro está isso tenha ajudado. Mas na realidade, só a decisão do bispo romano em matéria de doutrina não bastava no século V para dar por concluído um assunto.
“Por acaso ignorais que o costume era este: que se escreva primeiro a nós e daí venha a ser estabelecido o que é justo? Se, portanto, se suspeitava alguma coisa do gênero a respeito do bispo de lá, devia haver-se escrito à Igreja daqui”
Papa São Júlio I [Carta aos antioquenos, século IV]
Aqui o que há que reter é que a afirmação de São Júlio é clara e manifestamente falsa. Era antes uma expressão do seu desejo, e era o que a sede romana estava a lutar por impor. Mas certamente não era assim ao princípio.
Eis aqui um exemplo do século II...
A controvérsia pascal do século II e como o bispo de Roma foi obrigado a recuar
No Livro V, capítulos 23 a 25, da sua História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia apresenta o relato da controvérsia pascal, desencadeada pelas divergências na observância da Páscoa entre os bispos asiáticos e os restantes, incluindo o bispo de Roma, Vítor. O asiático Polícrates escreveu a Vítor:
“Nós, pois, celebramos intacto este dia, sem acrescentar nem tirar nada. Porque também na Ásia repousam grandes luminárias ... Filipe ... João, o que se recostou sobre o peito do Senhor... repousa em Éfeso. E em Esmirna, Policarpo, bispo e mártir. E Trásias, também ele bispo e mártir ... repousa em Esmirna. E é preciso falar de Sagaris, bispo e mártir, que descansa em Laodiceia, assim como do bem-aventurado Papírio e de Melitão, o eunuco, que ... repousa em Sardes, esperando a visita que vem dos céus, no dia em que ressuscitará dentre os mortos. Todos estes celebraram como dia da Páscoa o da décima quarta lua, conforme o Evangelho, e não transgrediam, mas seguiam a regra da fé.
E eu mesmo, Polícrates, o menor de todos vós, [sigo] a tradição de meus parentes ... Sete parentes meus foram bispos, e eu sou o oitavo... Portanto, irmãos, eu, com os meus sessenta e cinco anos no Senhor, que conversei com irmãos procedentes de todo o mundo e que percorri toda a Sagrada Escritura, não me assusto com os que tentam intimidar-me, pois aqueles que são maiores do que eu disseram: Importa mais obedecer a Deus do que aos homens... Poderia mencionar os bispos que estão comigo, que vós me pedistes que convidasse e que eu convidei. Se escrevesse os seus nomes, seria demasiado grande o seu número. Eles, mesmo conhecendo a minha pequenez, deram o seu comum assentimento à minha carta, sabedores de que não é em vão que trago os meus cabelos brancos, mas que sempre vivi em Cristo Jesus." (negrito acrescentado).
Eusébio diz que, em resposta, Vítor, bispo de Roma, "tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou a condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem exceção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou aos bispos, que, por sua vez, exortavam-no a ter em conta a paz, a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se, inclusive, as palavras destes, que repreendem Vítor com bastante energia".
Uma de tais enérgicas cartas foi escrita por Ireneu, bispo de Lyon, admirador da Igreja de Roma (ver mais acima) e partidário da posição de Vítor quanto à celebração pascal, mas não do seu procedimento contra os asiáticos. Eis o que cita Eusébio:
“Efetivamente, a controvérsia não é somente sobre o dia, mas também sobre a própria forma do jejum, porque uns pensam que devem jejuar durante um dia, outros que dois e outros que mais; e outros dão a seu dia uma medida de quarenta horas do dia e da noite. E uma tal diversidade de observantes não se produziu agora, em nossos tempos, mas já muito antes, sob nossos predecessores, cujo forte, segundo parece, não era a exatidão, e que forjaram para a posteridade o costume em sua simplicidade e particularidade. E todos eles nem por isso viveram menos em paz uns com os outros, tanto quanto nós; o desacordo quanto ao jejum confirma o acordo quanto à fé.
... Entre eles, também os presbíteros antecessores de Sotero, que presidiram a igreja que tu reges agora, quero dizer Aniceto, Pio e Higino, assim como Telésforo e Sisto: nem eles mesmos observaram o dia nem permitiam aos que estavam com eles escolher, e nem por isso eles mesmos, que não observavam o dia, viviam menos em paz com os que procediam das igrejas em que se observava o dia... E nunca se rechaçou ninguém por causa desta forma, antes, os próprios presbíteros, teus antecessores, que não observavam o dia, enviavam a Eucaristia [em sinal de comunhão] aos de outras igrejas que o observavam. E encontrando-se em Roma o bem-aventurado Policarpo nos tempos de Aniceto, surgiram entre os dois pequenas divergências, mas em seguida estavam em paz, sem que sobre este capítulo se querelassem mutuamente, porque nem Aniceto podia convencer Policarpo a não observar o dia – como sempre o havia observado, com João, discípulo de nosso Senhor, e com os demais apóstolos com quem conviveu -, nem tampouco Policarpo convenceu Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia manter o costume dos presbíteros seus antecessores. E apesar de estarem assim as coisas, mutuamente comunicavam entre si, e na igreja Aniceto cedeu a Policarpo a celebração da eucaristia, evidentemente por deferência, e em paz se separaram um do outro; e toda a Igreja tinha paz, tanto os que observavam o dia como os que não o observavam."
EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Traduzido por Wolfgang Fischer. São Paulo: Novo Século, 2002.
Esta, de fato, parecerá ser a coisa melhor e mais apropriada: que os sacerdotes do Senhor de todas as províncias recorram à cabeça, isto é, à sé do Apóstolo Pedro.
Concílio de Sárdica [Carta «Quod Semper», século IV]
Ah, Sárdica... Bem, o seguinte me parece um comentário apropriado tanto para a citação de Júlio I como para esta de Sárdica.
O caso do papa Zósimo, um "supremo mestre" que no século V não sabia distinguir um documento pelagiano de um ortodoxo, e que desconhecia tanto os cânones de Niceia (que confundiu com os de Sardes) como os limites da sua própria autoridade, e teve de ser ensinado pelos bispos africanos.
Traduzo o seguinte da Catholic Encyclopedia:
“Não muito depois da eleição de Zósimo o pelagiano Celéstio, que tinha sido condenado pelo papa precedente, Inocêncio I, veio a Roma para justificar-se perante o novo papa, tendo sido expulso de Constantinopla. No verão de 417, Zósimo realizou uma reunião com a clerezia romana na basílica de São Clemente, perante a qual compareceu Celéstio. As proposições redigidas pelo diácono Paulino de Milão, por causa das quais Celéstio tinha sido condenado em Cartago em 411, foram dispostas perante ele. Celéstio se recusou a condenar tais proposições, declarando ao mesmo tempo em geral que ele aceitava a doutrina exposta nas cartas do papa Inocente e fazendo uma confissão de fé que foi aprovada. O papa foi conquistado pela conduta astutamente calculada de Celéstio, e disse que não estava seguro de se o herege tinha realmente mantido a doutrina falsa rejeitada por Inocente, e portanto considerava demasiado apressada a ação dos bispos africanos contra Celéstio. Escreveu de imediato neste sentido aos bispos da província africana, e convocou aqueles que tivessem algo que dizer contra Celéstio para que comparecessem em Roma dentro de dois meses. Pouco depois disto, Zósimo recebeu de Pelágio também uma confissão de fé artificiosamente expressa, juntamente com um tratado do heresiarca sobre o livre arbítrio. O papa reuniu um novo sínodo da clerezia romana, perante a qual ambos os escritos foram lidos. As expressões habilmente escolhidas de Pelágio ocultavam o conteúdo herético; a assembleia susteve que as afirmações eram ortodoxas, e Zósimo escreveu de novo aos bispos africanos defendendo Pelágio e reprovando os seus acusadores, entre os quais se encontravam os bispos galos Hero e Lázaro. O arcebispo Aurélio de Cartago rapidamente convocou um sínodo, o qual enviou a Zósimo uma carta em que se provava que o papa tinha sido enganado pelos hereges. Em sua resposta, Zósimo declarou que não tinha determinado nada em forma definitiva, e que não desejava estabelecer nada sem consultar os bispos africanos. Depois da nova carta sinodal do concílio africano, de 1 de maio de 418, ao papa, e depois das medidas tomadas contra os pelagianos pelo imperador Honório, Zósimo reconheceu o verdadeiro caráter dos hereges. Então publicou a sua "Tractoria", na qual eram condenados o pelagianismo e seus autores. Assim, finalmente, o ocupante da Sé Apostólica no momento certo manteve com toda a autoridade o dogma tradicional da Igreja, e protegeu a verdade da Igreja contra o erro.
Pouco depois disto, Zósimo se envolveu numa disputa com os bispos africanos em relação ao direito de apelação à sé romana de clérigos que tinham sido excomungados pelos seus bispos. Quando o sacerdote Apiário de Sicca tinha sido excomungado por causa dos seus delitos, apelou diretamente ao papa, sem consideração pelo curso regular da apelação em África, que estava exatamente prescrito. O papa aceitou a apelação de imediato, e enviou a África legados com cartas para investigar o assunto. Um procedimento mais sábio teria sido remeter primeiro Apiário para o curso ordinário de apelação na própria África. A seguir, Zósimo cometeu o erro adicional de basear a sua ação num suposto cânon do Concílio de Niceia [ecuménico], que era na realidade um cânon do Concílio de Sárdica [local]. Nos manuscritos romanos, os cânones de Sárdica seguiam-se aos de Niceia imediatamente, sem um título independente, enquanto os manuscritos africanos continham unicamente os cânones genuínos de Niceia, de modo que o cânon a que apelou Zósimo não se encontrava nas cópias africanas dos cânones nicenos. Assim surgiu um sério desacordo acerca desta apelação, que se prolongou depois da morte de Zósimo."
J.P. Kirsch, Pope St. Zosimus. Em The Catholic Encyclopedia, vol. XV).
É provavelmente um facto afortunado para a Igreja de Roma que o bispado de Zósimo (417-418) tenha durado tão pouco, pois do contrário é possível que tivesse cometido ainda mais erros.
Embora o autor do artigo citado pretenda ilibar Zósimo e apresentá-lo como o guardião da ortodoxia que "no momento certo manteve com toda a autoridade o dogma tradicional da Igreja, e protegeu a verdade da Igreja contra o erro", os factos que ele mesmo narra são bem diferentes.
O titular da sé romana examinou cuidadosamente o exposto por Celéstio e Pelágio, e chegou à conclusão de que ambos eram ortodoxos. Vê-se que o Espírito Santo não o assistiu para distinguir a verdade do erro. Como consequência da sua avaliação, corrigiu a condenação pronunciada pelo bispo romano anterior (o que mostra que nesta época os papas não se sentiam ainda obrigados pelos ensinamentos e decisões dos seus predecessores, que podiam ser anuladas se fosse necessário), censurou grandemente os bispos galicanos acusadores – os quais qualificou de maliciosos e turbulentos e pretendeu excomungar -, aconselhou paternalmente os bispos africanos para que não se apressassem a crer o mal do seu próximo, e disse que desejava que os africanos tivessem podido ouvir as exposições de Celéstio e Pelágio, aos quais chamou homens de ortodoxia perfeita (absolutae fidei).
Apesar da decisão do bispo romano, os bispos africanos se mantiveram na sua posição e reafirmaram a condenação dos erros pelagianos. Foi somente perante a firmeza dos africanos e a condenação e desterro de Pelágio pela autoridade imperial (que vaticinava um negro futuro para os seus defensores) que Zósimo publicou a sua condenação dos pelagianos e seus escritos. O fez muito tarde para defender a ortodoxia, que já tinha sido reivindicada pelos bispos da Gália e de África, e apenas a tempo para salvar a sua própria pele da acusação de heresia.
Assim que, se Zósimo não era pelagiano, pelo menos engoliu a isca pelagiana com anzol e chumbo, atreveu-se a admoestar os bispos que defendiam a ortodoxia, e só a muito custo reagiu no instante final. Por certo, um papel muito triste para um pastor e mestre supremo.
E embora o problema do pelagianismo tenha sido muito mais grave, a nova controvérsia sustentada com os africanos a propósito das apelações, mostra o pobre Zósimo como muito pouco versado também em questões de disciplina eclesiástica, outra área na qual se ensina hoje que as decisões dos papas são inapeláveis.
O Código de Direito Canónico vigente estabelece:
"O Romano Pontífice é o juiz supremo para todo o mundo católico e julga pessoalmente, pelos tribunais ordinários da Sé Apostólica ou por juízes por ele delegados" (# 1442).
"Não há lugar para apelação: 1º de uma sentença do próprio Romano Pontífice ou da Assinatura Apostólica..." (# 1629).
"Contra uma sentença ou decreto do Romano Pontífice, não há apelação, nem recurso" (# 333, § 3).
"Em razão do primado do Romano Pontífice, é facultado a qualquer fiel recorrer à Santa Sé ou introduzir perante ela, para julgamento, sua causa contenciosa ou penal, em qualquer grau do juízo e em qualquer estado da lide" (# 1417.1).
Parece que os bispos africanos do século V não estavam inteirados destas leis.
“Alegremo-nos, portanto, e demos graças por nos termos tornado não somente cristãos, mas o próprio Cristo. Compreendeis, irmãos, a graça que Deus nos concedeu ao dar-nos Cristo como Cabeça? Admirai e rejubilai, nós nos tornamos Cristo. Com efeito, uma vez que Ele é a cabeça e nós somos membros, o homem inteiro é constituído por Ele e por nós. A plenitude de cristo é, portanto, a Cabeça e os membros. O que significa isto: a Cabeça e os membros? Cristo e a Igreja”. (Santo Agostinho, In Iohannis evangelium tractatus, 21,8).
Depois de ter mostrado que Cristo é «o único Pastor, no qual todos os Pastores são um», santo Agostinho conclui:
«Que todos se identifiquem com o único Pastor e façam ouvir a única voz do Pastor, para que a ouçam as ovelhas e sigam o único Pastor, e não a este ou àquele, mas ao único e que todos nele façam ouvir a mesma voz, e que não tenham cada um a sua própria voz (...) Que as ovelhas ouçam esta voz, limpa de toda divisão e purificada de toda heresia» (Sermo XLVI, 30: CCL 41, 557).
e «Na medida que alguém ama a Igreja, possui o Espírito Santo» (Santo Agostinho, «In Iohannis evangelium Tractatus», 32, 8).
Que interessante! Segundo os Padres de Sárdica a Cabeça é a sede romana, mas segundo Agostinho é Cristo...
É claro que o que diz aqui Agostinho é completamente escritural (Efésios 5:23; Colossenses 1:18; 1 Pedro 5:1-4). Nada há que objetar, exceto que o apologista romano parece supor que “a Igreja” a que aqui se refere Agostinho é “a Igreja de Roma” e não a Igreja católica antiga.
Queres confundir e envergonhar os pagãos e hereges, demostrando que nem um só deles possui o conhecimento de Deus, e sim unicamente a Igreja Católica? Podes, se assim o pensas, cantar e recitar inteligentemente as palavras do 75.
.....Se quiseres saber a diferença que medeia entre a Igreja católica e os cismáticos, e envergonhar estes últimos, podes pronunciar as palavras do 86.
Carta de Santo Atanásio a Marcelino sobre a Interpretação dos Salmos.
Sem dúvida, Atanásio tem razão aqui. Por outro lado, “Igreja Católica” não é nem de perto sinónimo de “Igreja de Roma”. Isto corre por conta do apologista romano, não do paladino da ortodoxia nicena.
“Aonde está Pedro, aí está a Igreja." - Santo Ambrósio de Milão, (Nos doze Salmos 381 D.C.)"
A citação é muito curta para grandes ilações. De qualquer modo, suponho que é o mesmo Ambrósio que escreveu “a fé é o fundamento da Igreja, porque não da pessoa humana de são Pedro, mas da fé, foi dito que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela” (De Incarnatione V, 34).
Em conclusão, é evidente que o primado do bispo romano não se pode demonstrar pelas Escrituras, e nem sequer é apoiado pela mais antiga tradição. Podemos afirmar sem qualquer receio de errar que os Padres antigos não consideravam o bispo romano com a mesma autoridade que o fazem os romanistas hoje. Eles não eram papistas como alguns apologistas romanos pressupõem.
A pretensão de primazia do bispo de Roma não foi baseada em alguma doutrina revelada e reconhecida pela Igreja universal, mas resultou de um longo e acidentado desenvolvimento, favorecido pela alienação das Igrejas do Oriente, e pelo desaparecimento da Igreja africana, pela anarquia posterior à queda do Império romano do ocidente, etc.
O poder romano foi pois cimentado ao longo de séculos, principalmente a partir da Idade Média (século V), mediante uma astuta e consistente política. Quando se tornou desmesurado, produziu-se o cisma entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente.

Ótima sustentação!!!!!!Belo trabalho!!!!!!"Caia a farsa"(perdão pelo trocadilho..kkkk) e mostra claramente que os padres primitivos não concediam primazia eclesiástica jurisdicional ao Bispo Romano.
ResponderEliminarEspetacular a citação da obra "Adversus Hareses",obra esta que é muito utilizada de forma leviana e descontextualizada na defesa do papado.
Você andava desaparecido, bem-vindo de volta :)
ResponderEliminarA citação de Ireneu já estava aqui http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/02/supremacia-papal-nos-escritos-ante.html
Depois de toda a evidência histórica exposta nos 25 posts sobre o papado que já conta este blog, haverá ainda algum católico romano com a desfaçatez de vir aqui defender que os bispos de Roma tinham uma autoridade superior à dos outros bispos, e que tinham a primazia de jurisdição e ensino nos primeiros cinco séculos do cristianismo?
OH meu grande amigo!!!!!!!!!!!!!!Tenho muitos testemunhos e novidades para te contar...depois te conto por email!!!!Abraços!!!A paz de Cristo!!!Ando muito ocupado,mas não deixo de acompanhar o blog!
ResponderEliminarConhecereis a verdade, depois do seu texto o Papa renunciou... KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
ResponderEliminar=============================================================================
O Papa x Gezuis x Igreja infalível e guia pelo ispirutu santu
Gezuis católico disse: "Bento, sobre você edificarei a minha igreja."
Mas Bento respondeu: " Eu não aguento mais, Gezuis. O Sr. errou em edificar a igreja sobre um velhinho fraco e dodoi. Rs.
Católicos fiéis refletem: "Puxa! A Igreja errou na escolha do Papa!
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Abraços, meu irmão.
ResponderEliminarDe fato Bento XVI deixa de ser infalível dia 28 de fevereiro às 20:horas locais.
Mas respeitemos os velhinhos e doentes mesmo que alguns sejam nossos inimigos.
Se Pedro tivesse renunciado ao cargo de "Papa" os apóstolos se reuniriam e fariam uma eleição?...Enfim...fiquei curioso...;)
ResponderEliminarCuidado com aqueles evangélicos que são «fãs de Ratzinger», que acham o supra-sumo da reflexão cristã os seus livros de teologia (onde entre outras coisas erradas defende as heresias católicas), e que lamentam a sua demissão do cargo de «vigário de Cristo na terra e chefe da igreja universal», porque perderam todo o discernimento e perto estão de naufragar na fé.
ResponderEliminarCom certeza!!!!Leio Chesterton,mas nem por isso concordo com tudo o que ele diz.É só uma questão de discernirmento!!!
ResponderEliminarAos evangélicos iniciantes...leiam os padres primitivos que não tinham se contaminado com tais heresias espúrias e tardias!!!
[apologeticaprotestante] Se Pedro tivesse renunciado ao cargo de "Papa" os apóstolos se reuniriam e fariam uma eleição?...Enfim...fiquei curioso...;)
ResponderEliminarSe Pedro fosse "Papa" e renunciasse, podiam os apóstolos se reunir e fazer uma eleição ou não, uma vez que a forma como os bispos de Roma acedem ao cargo parece ter pouca ou nenhuma importância para a validade da "sucessão apostólica" da Igreja de Roma. De fato, diferentes bispos de Roma tiveram o seu cargo por voto popular, nomeação "a dedo" pelo imperador, usurpação, nomeação por um concílio ou eleição cardinalícia).
Mas deixando a ficção de lado, a forma como é eleito hoje o Papa tem pouco a ver com a prática antiga. Por exemplo, não existiam cardeais, que é uma instituição medieval. Além disso, era uma eleição local, onde não participavam representantes da Igreja universal. Os bispos de Roma eram eleitos como tais (e não como “papas”) pelos fiéis da própria igreja dessa cidade. De modo que pouco tem a ver a atual eleição realizada pela cúpula vaticana com a história antiga. Se a suposta sucessão apostólica fosse uma realidade, é óbvio que deveria ser cada papa a nomear o seu sucessor.
Este post nunca esteve tão atual :)
ResponderEliminarhttp://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/05/eleicao-dos-bispos-romanos.html
Só para constar o excelente apologista Gustavo foi magistral sobre o assunto:
ResponderEliminarhttp://www.e-cristianismo.com.br/pt/apostolicos/262-irineu-e-a-igreja-em-roma
Desde os primórdios,cidadão,a fé católica sempre foi a fé romana.Eu estou preparando um artigo com os escritos do padres para a réplica deste artigo.
ResponderEliminarEnquanto isto...fiquemos com Sto Agostinho...
Não é possível crer que guardais a fé católica se não ensinais que se deve guardar a fé romana" (Serm.120,13).!!!!!!!!!!1
Faço-lhe um desafio.
ResponderEliminarO sermão 120 pode ser encontrado nesta página:
http://www.newadvent.org/fathers/160370.htm
Agora tente encontrar essa frase no texto, quando a encontrar venha cá dizer em que parágrafo se encontra.
Onde anda o apologista catolico? :)
ResponderEliminarBem, entretanto aproveitemos para desmascarar outra adulteração nos escritos dos Padres da Igreja, que pode ser encontrada em literatura romanista. Dir-se-á que Atanásio alude a Roma como "o trono apostólico".
Felizmente, a obra de Atanásio que é citada encontra-se na colecção Nicene and Post-Nicene Fathers (NPNF), 2nd Series. Esta obra de Atanásio é uma história do arianismo e esta parte, intitulada «Perseguição e queda de Libério» trata dos ataques dos arianos contra o então bispo de Roma. Eis o parágrafo de Atanásio, bispo de Alexandria e defensor máximo da fé nicena:
«Assim, desde o princípio eles não respeitaram nem sequer Libério, bispo de Roma, mas estenderam a sua fúria inclusive até àquelas partes; não respeitaram o seu bispado, embora fosse UM TRONO APOSTÓLICO; não sentiram reverência por Roma, embora seja A METRÓPOLE DA ROMÁNIA [o império]; não recordaram que anteriormente nas suas cartas eles tinham falado dos seus bispos como de VARÕES APOSTÓLICOS. Mas, confundindo todas as coisas juntas, de repente se esqueceram de tudo e se ocuparam somente em mostrar o seu zelo pela causa da impiedade.»
Atanásio, Historia Arianorum, V, 35. NPNF, 4:282
Pode ver-se então que, Atanásio se refere à sede episcopal romana como UM trono apostólico, pelo que se infere que não era a única sede considerada apostólica.
De facto, as sedes episcopais de Alexandria, Antioquia e Jerusalém também eram consideradas como tronos apostólicos, porque supostamente estas Igrejas foram fundadas por um apóstolo. E foi assim até muito tempo depois de Atanásio.
Por exemplo, na sua retractação no II Concílio de Niceia (787), o bispo Basílio de Ancira disse:
«Portanto eu, Basílio, bispo da cidade de Ancira, propondo-me estar unido à Igreja Católica, e a Adriano o santíssimo papa da Antiga Roma, e a Tarásio o beatíssimo Patriarca, e ÀS SANTÍSSIMAS SEDES APOSTÓLICAS, a saber, Alexandria, Antioquia e a Cidade Santa [Jerusalém], assim como a todos os sumos sacerdotes e sacerdotes ortodoxos, faço esta confissão escrita da minha fé, e a ofereço a vós que recebestes poder por autoridade apostólica.»
NPNF 2, 14:532
Portanto, para Atanásio, Roma era UM trono apostólico, não exclusivamente; assim como os seus bispos eram "varões apostólicos", mas também não exclusivamente.
Adicionalmente, o parágrafo também indica que a reverência pela sede romana não se devia só à apostolicidade dos seus bispos, mas ao facto de ser a capital imperial.
É preciso algo mais que isto para demonstrar que a Igreja Oriental em geral, e Atanásio em particular, afirmava o papado.