16 de junho de 2011

A proibição da leitura da Bíblia na igreja de Roma

 
Durante os primeiros mil anos da Igreja, não houve restrições à leitura dos Livros Sagrados; pelo contrário, podem-se encontrar muitas recomendações a lê-los. Foi um bispo de Roma, Gregório VII, quem teve o duvidoso privilégio de ter estabelecido em 1080 a primeira proibição: O duque da Boémia tinha-lhe solicitado permissão para publicar as Escrituras em eslavo para serem usadas nos serviços. O papa proibiu que se fizesse tal coisa. Em finais do século seguinte, Inocêncio III escreveu ao bispo de Metz que a prática da leitura da Bíblia era perigosa para os simples e incultos (noção oposta ao que ensina a Bíblia). Seguiram-se proibições locais dos Sínodos de Tolosa (1229), Tarragona (1233) e Oxford (1408) contra a tradução de Wycliffe, de quem se disse no Concílio de Constança “aquele pestilento miserável de maldita heresia que inventou uma nova tradução das Escrituras na sua língua materna”.
A partir da época da Reforma as proibições emanam de Roma. Pio IV, no Index Librorum Prohibitorum de 1559, indica na Regra IV que somente se pode autorizar a leitura da Bíblia aos leigos educados que possam beneficiar com isso, para o que era necessário uma permissão escrita.
Não há dúvida que alentar a leitura da Bíblia por parte dos leigos não foi a atitude da Igreja de Roma até ao século XX.
A 8 de setembro de 1713, na Constituição Dogmática Unigenitus, o papa Clemente XI condenou como erradas uma série de proposições de Pascásio Quesnel, entre elas as seguintes:
70. É útil e necessário em todo tempo, em todo lugar e para todo tipo de pessoas estudar e conhecer o espírito, a piedade e os mistérios da Sagrada Escritura.
71. A leitura da Sagrada Escritura é para todos.
81. A obscuridade santa da Palavra de Deus não é razão para os leigos se escusarem da sua leitura.
82. O dia do Senhor deve ser santificado pelos cristãos com leituras piedosas e, sobretudo, das Sagradas Escrituras. É condenável desejar impedir um cristão de tal leitura.
83. É uma ilusão convencer-se de que o conhecimento dos mistérios da religião não deve ser comunicado às mulheres pela leitura dos Livros Sagrados...
84. Arrebatar das mãos dos cristãos o Novo Testamento ou mantê-lo fechado, tirando-lhes o modo de entendê-lo, é fechar-lhes a boca de Cristo. 
85. Interditar aos cristãos a leitura da Sagrada Escritura, especialmente do Evangelho, é proibir o uso da luz aos filhos da luz, e fazer com que sofram certo tipo de excomunhão.
86. Arrebatar ao povo simples este consolo de unir a sua voz à voz de toda a Igreja, é costume contrário à prática apostólica e à intenção de Deus.
(Denzinger #1429-1434, 1436).
"Porque deverias ter tido diante dos olhos o que constantemente avisaram também os nossos predecessores, a saber: que se os sagrados Livros forem permitidos correntemente e em língua vulgar e sem discernimento, disso resultará mais dano que utilidade. Ora, a Igreja Romana que somente admite a edição Vulgata, por prescrição bem notória do Concílio Tridentino (ver 785 s), rejeita as versões das outras línguas e somente permite aquelas que são publicadas com anotações oportunamente tomadas dos escritos dos Padres e doutores católicos, a fim de que tão grande tesouro não esteja aberto às corruptelas das novidades e para que a Igreja, difundida por todo o orbe, seja de uma só língua e das mesmas palavras (Gen 11,1)."
(Pio VII, carta Magno et acerbo, 3 de setembro de 1816; Denzinger # 1603)
"A iniquidade dos nossos inimigos chega a tanto que ... procuram revirar em prejuízo da religião as Sagradas Letras, que nos foram divinamente dadas para edificação da própria religião. Não se vos oculta, Veneráveis Irmãos, que certa Sociedade vulgarmente chamada bíblica percorre audazmente todo o orbe e, desprezadas as tradições dos santos Padres, contra o conhecidíssimo decreto do Concílio Tridentino [v. 786], juntando para isso as suas forças e todos os meios, tenta que os Sagrados Livros se vertam, ou melhor, se pervertam nas línguas vulgares de todas as nações."
(Leão XII, Encíclica Ubi primum de 5 de maio de 1824).
"Nas regras que foram aprovadas pelos Padres designados pelo Concílio Tridentino, aprovadas por Pio IV e antepostas ao Índice dos livros proibidos, lê-se por sanção geral que não se deve permitir a leitura da Bíblia publicada em língua vulgar a não ser àqueles que se julgue poderem tirar proveito dela para aumento da fé e da piedade. A esta mesma regra,..., foi acrescentada finalmente por autoridade de Bento XIV a declaração de que fosse tida no futuro como permitida a leitura daquelas versões vulgares que tenham sido aprovadas pela Sé Apostólica ou publicadas com notas tomadas dos Padres da Igreja ou de varões doutos e católicos ... Todas as referidas Sociedades Bíblicas, já há muito tempo reprovadas por nossos antecessores, as condenamos novamente por autoridade apostólica..."
(Pio IX, Encíclica Inter praecipuas, 16 de maio de 1844; negrito acrescentado)
As primeiras versões católicas em português e espanhol, realizadas a partir dos manuscritos gregos e hebraicos foram publicadas um século depois da última encíclica citada.
Somente a partir do Concílio Vaticano II a Igreja de Roma alentou seriamente a leitura das Escrituras, exortação que a maioria dos católicos ainda não leva a sério.
Por vezes, ainda hoje se ouve alguns católicos argumentar que a difusão das Escrituras a partir da Reforma protestante teve efeitos indesejáveis e que seria melhor o acesso a elas ser restrito. Este argumento esquece várias coisas.
Em primeiro lugar, que uma razão poderosa dos efeitos tanto desejáveis como indesejáveis da difusão da Bíblia foram as diferenças abismais entre as doutrinas e práticas da Igreja de Roma e as que são ensinadas nas Escrituras. Por sua vez, isso se deveu ao afastamento progressivo da Bíblia por parte dos clérigos; primeiro porque se deu importância exagerada aos ensinamentos dos escolásticos, de modo que a doutrina aprendia-se deles da sua síntese aristotélica-escritural e não da pura fonte da revelação (como aprendiam o que havia sido dito pelos Padres das Sentenças de Pedro Lombardo). Todos os clamores de reforma anteriores ao século XVI insistem na ignorância dos clérigos. E segundo, porque os bispos e cardeais eram em muitos casos não só ignorantes, como também não tinham interesse no estudo e na exposição bíblica séria. Eram príncipes seculares interessados em manter os seus feudos. Como é bem sabido, os bispos de Roma, em particular os que houve no tempo da Reforma, eram o paradigma do que acabo de dizer. Mas já antes se evidenciava claramente isto; por exemplo, Bonifácio VIII era um muito bom jurista mas um péssimo exegeta da Escritura.
Em outras palavras, a Igreja se havia afastado tanto das Escrituras que podia ser nefasto para a sua própria subsistência que o povo soubesse o que na verdade esta dizia.
Em segundo lugar, é preciso ter em conta que a liberdade sempre envolve risco. Adão foi criado livre, e já se sabe o que aconteceu. No entanto, isso não significa que a liberdade não seja um bem desejável para a condição humana. Obviamente, a Igreja de Roma optou por coartar a liberdade do povo em vez de educá-lo, seja por não poder ou não querer fazê-lo. As consequências de séculos da adoção consistente desta política tornaram-se manifestas logo que as pessoas tiveram acesso às Escrituras na sua própria língua. Mas o papado somente colhia o que tinha semeado por quase cinco séculos.

4 de junho de 2011

São as genealogias de Jesus Cristo contraditórias?


É importante notar que a Igreja cristã aceitou virtualmente desde o princípio a existência de quatro versões da vida de Cristo. Para Ireneu de Lyon no século II a existência e validade dos quatro Evangelhos era tão axiomática como a dos pontos cardeais. À diferença do ocorrido, por exemplo, no Islão, onde as tradições aparentemente divergentes acerca de Maomé foram precocemente suprimidas e o texto do Corão unificado, os cristãos preservaram o Evangelho quádruplo. Uma das razões é que desde o princípio os relatos foram considerados complementares e não antagónicos. Esquematicamente pode dizer-se que Mateus apresenta Jesus como verdadeiro hebreu e herdeiro do trono de David, Marcos como o Servo de Yahweh (cf. 10:45), Lucas como o Filho do homem com uma mensagem de salvação universal, e João como o Verbo de Deus verdadeiramente encarnado. Apesar desta ênfase, todas as características mencionadas (e outras) da pessoa de Jesus estão presentes nos quatro Evangelhos.

No caso concreto da genealogia de Jesus, é preciso entender, antes de tudo, que as genealogias tinham múltiplos propósitos (diferentes mas não contraditórios) já no Antigo Testamento. Por exemplo:

1. Demonstrar a relação entre Israel e as tribos vizinhas traçando-as a ascendentes comuns.

2. Relacionar elementos respeitantes à primitiva história israelita.

3. Estabelecer a continuidade histórica dos relatos.

4. Demonstrar o direito de um indivíduo para determinado ofício (por exemplo, sacerdotal ou régio)

5. Estabelecer a legitimidade de pertença à nação de Israel

6. Formular uma divisão da história em épocas com base nas gerações.

Uma mesma genealogia determinada pode cumprir um ou mais destes propósitos. Portanto é evidentemente incorreto supor que se o propósito da genealogia de Mateus é diferente do da de Lucas, isto as transforma ipso facto em incompatíveis ou que representam contradições.

Se se compararem as genealogias de Mateus e Lucas, observa-se que existem várias diferenças óbvias (além dos nomes dos antepassados de Jesus depois de David, assunto que retomarei mais abaixo):

1. Mateus coloca a sua genealogia precisamente ao princípio do Evangelho, enquanto Lucas a inclui imediatamente antes do começo do ministério público de Jesus. Isto já sugere um diferente propósito teológico.

2. A ordem em Mateus é descendente, enquanto em Lucas é ascendente.

3. Mateus inicia a sua genealogia em Abraão enquanto Lucas retrocede até Adão.

Estas três particularidades, e o contexto geral de ambos os Evangelhos, indicam que Mateus está interessado em demonstrar fundamentalmente, como já o anuncia em 1:1, que Jesus era descendente de Abraão (portanto membro do povo hebreu) e de David (logo legítimo aspirante ao seu trono). Por seu lado Lucas, escrevendo a um cristão gentio, o apresenta como um descendente do primeiro homem, Adão, por sua vez filho de Deus. O facto de Lucas ascender até Adão não contradiz, antes pelo contrário, pressupõe o que é dito por Mateus; só que vai mais além.

4. Mateus nomeia quatro mulheres mas Lucas não menciona nenhuma.

5. Mateus divide esquematicamente a genealogia em três grupos com catorze nomes cada um, enquanto Lucas simplesmente dá a lista de forma contínua.

6. Mateus usa a fórmula “A gerou B” enquanto Lucas usa o artigo tou com o nome correspondente em genitivo (“A tou B”).

7. O número de nomes dado por Lucas é maior que o de Mateus, mesmo sem contar os ascendentes de Abraão; isto indica que, em prol do seu esquema de 14 x 3, Mateus omitiu nomes. Esta prática era frequente e aceite, e sugere que a expressão de Mateus “A gerou B” não deve necessariamente considerar-se em sentido de paternidade biológica.

8. Nos nomes que aparecem em ambas as listas, há diferenças menores de grafia.

Quanto aos nomes de cada lista entre David e Jesus, além de ser em geral diferentes (exceto para Salatiel e Zorobabel) é de destacar o facto de que Mateus segue a linha de Salomão enquanto Lucas segue a de Natã, outro filho de David. F.F. Bruce (p. 544) observa: “É sumamente improvável que os nomes, em qualquer das listas, que não recebem confirmação pelo Antigo Testamento, foram simplesmente inventados pelos evangelistas ou por suas fontes”. Se isto é verdade, terá que haver alguma explicação plausível que justifique as diferenças.

Ao longo da história se propuseram múltiplas explicações, mas as três principais, cada uma delas com diversas variantes, são:

1. Ambas as listas dão a genealogia de Jesus através de José, mas Mateus segue a linha pelo pai real (biológico), Jacob, enquanto Lucas segue a linha do pai legal, Eli.

2. Ambas as listas dão a genealogia de Jesus através de José, mas Mateus segue a linha pelo pai legal, Jacob, e Lucas pelo pai biológico, Eli.

3. A lista de Mateus dá a genealogia através de José, para estabelecer o direito de Jesus ao trono de David, enquanto a lista ascendente de Lucas corresponderia aos varões dos ascendentes de Maria, e por conseguinte mostra o vínculo biológico com David, Abraão e Moisés.

No meu entender, esta última explicação é a mais acertada, por razões que posso detalhar noutra ocasião. De qualquer modo, o ponto central e básico é que não é absolutamente claro que as genealogias sejam “contraditórias”; para afirmar tal coisa seria preciso mais informação do que a que se dispõe. Ambas coincidem em mostrar que Jesus de Nazaré era descendente de Abraão e de David.

Para quem se interessar pelo tema, eis aqui uma bibliografia sobre o tema:

G.R. Bliss. El Evangelio según Lucas. Comentario Expositivo sobre el Nuevo Testamento). El Paso: Casa Bautista, 1966, 2:251-253.

Raymond E. Brown. El nacimiento del Mesías. Comentario a los relatos de la infancia (Trad. T. Larriba). Madrid: Cristiandad, 1982, p. 51-91.

F.F. Bruce. Genealogía de Jesucristo. Em J.D. Douglas, N. Hyllier (Eds.), Nuevo Diccionario Bíblico. Buenos Aires: Certeza, 1991, p. 543-544.

D.A. Carson. Matthew. Em Frank E. Gaebelein (Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984; 8:61-70.

Norman Geisler e Thomas Howe. When Critics Ask. A Popular Handbook on Bible Difficulties. Wheaton: Victor Books, 1992, p. 325-326; 385-386.

Norman Hyllier. The genealogies of Jesus Christ. Em Colin Brown (Ed.), New International Dictionary of New Testament Theology. Gran Rapids: Zondervan, 1978; 3: 653-660.

Joachim Jeremias. Jerusalén en tiempos de Jesús. Estudio económico y social del mundo del Nuevo Testamento (Trad. J. Luis Ballines). Madrid: Cristiandad, 1977; p. 303 –309.

M.D. Johnson. Genealogy of Jesus. Em Geoffrey W. Bromiley (Ed.), International Bible Standard Encyclopedia. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1982; 2: 428-431.

Walter L. Liefield. Luke. Em Frank E. Gaebelein (Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984; 8: 860-862.

Jim Loucks. The genealogies in Matthew and Luke (Bible Commentary Matthew 1:1-7; Luke 3:23 b- 38). Em http://www.answering-islam.org/BibleCom/mt1-1.html

A.T. Robertson. Una armonía de los cuatro Evangelios, 3ª Ed. El Paso: Casa Bautista, 1975, p. 211-214.

Antonio Salas. La infancia de Jesús (Mt 1-2). ¿Historia o teología?. Madrid: Biblia y Fe, especialmente p. 204-206.

1 de junho de 2011

Qual foi a primeira? A tentação do monte ou a do templo?


Lucas 4:5 e ss.

5 E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. 6 E disse-lhe: Dar-te-ei toda a autoridade e glória destes reinos, porque me foi entregue, e a dou a quem eu quiser (…) 9 E o levou a Jerusalém e o colocou sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; 10 porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito, que te guardem (…) 13 Assim, tendo o Diabo acabado toda sorte de tentação, retirou-se dele até ocasião oportuna.

Mateus 4:5 e ss.

5 Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo, 6 e disse-lhe: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo (…) 8 Novamente o Diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; 9 e disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. (…) 11 Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram.

Antes de falar das discrepâncias, notemos as semelhanças entre o relato de Mateus e o de Lucas:

1. Ambos dizem que Jesus foi levado ao deserto pelo Espírito.
2. Ambos dizem que Jesus jejuou.
3. Ambos dizem que depois sentiu fome.
4. Ambos dizem que o diabo veio prová-lo.
5. Ambos mencionam as mesmas tentações.
6. Ambos mencionam as seguintes citações bíblicas de Satanás (Salmo 91; 11-12) e de Jesus (Deuteronómio 8:3; 6:13; 6:16).
7. Ambos coincidem na ordem da primeira tentação que mencionam.
8. Ambos afirmam que Satanás o deixou depois da terceira tentativa falhada.

Agora vejamos as diferenças:

1. Mateus menciona o propósito da estadia de Jesus no deserto, ao passo que em Lucas está implícito.
2. Lucas, mas não Mateus, menciona o Jordão e que Jesus estava cheio do Espírito Santo.
3. Mateus menciona 40 dias e 40 noites, enquanto Lucas diz simplesmente "por quarenta dias".
4. Mateus chama Satanás "o tentador" (ho peirazôn) e Lucas "o diabo" (ho diabolos).
5. Segundo Mateus, Satanás menciona "pedras" no plural e segundo Lucas "pedra" no singular.
6. A citação de Deuteronómio 8:3 não é exatamente igual em ambos os casos.
7. Mateus, mas não Lucas, menciona a presença de anjos que serviam Jesus.
8. A ordem das duas últimas tentações é diferente em Mateus e em Lucas.

Supostamente esta última diferença demonstraria que a Bíblia não é inspirada nem infalível. Isto baseia-se na suposição fundamental que ambos os evangelistas pretendiam narrar as tentações em ordem estritamente cronológica.

Sem dúvida a ordem cronológica é uma possibilidade, mas por outro lado nenhum dos dois evangelistas afirma que a sua apresentação seja estritamente cronológica.

É natural que ambos coincidam na ordem da primeira tentação, vinculada como está ao facto de Jesus estar faminto.

Quanto às outras duas, algumas partículas que Mateus usa sugerem que se propunha a dispor em ordem de sucessão cronológica o seu material: tote, "então", versículo 5; palin "novamente", "outra vez", versículos 7 e 8.

Há, além disso, indícios de que Mateus tinha em mente um paralelismo entre as tentações de Israel e as tentações de Jesus no deserto.

Em contrapartida, Lucas não usa partículas que exijam sucessão cronológica, mas une as tentações com a conjunção "e" (kai).

A ordem de Lucas sugere um deslocamento geográfico progressivo e centrípeto (deserto-monte-templo) e sobretudo um crescendo na subtileza da tentação: No primeiro caso apela à fome, ou seja, às necessidades físicas e à procura de soluções rápidas à parte da fé em Deus; no segundo caso, à ambição e à ânsia de poder. Na terceira tentação – nesta ordem climática de Lucas - Satanás pretende instigar Jesus a nada menos do que tentar Deus. Esta tentação é a muito mais subtil, e a prova está em que muitos cristãos sucumbem a ela. Está disfarçada de fé em Deus! Tanto, que é a única das três ocasiões em que o Tentador ousa citar as Sagradas Escrituras. No entanto, Jesus não cai na armadilha: ele, que conhecia o Pai como ninguém e gozava de todo o seu amor, não confundia fé com imprudência; e nós faríamos bem em proceder de igual forma.

Em resumo, a suposta contradição baseia-se num pressuposto erróneo que demanda estrita ordem cronológica e não admite outra ordem como a de Lucas.

Os cristãos entendem que ambos os relatos, com as suas diferentes ênfases que justificam a mudança de ordem, são na realidade complementares, e nos permitem entender melhor, mediante perspetivas diferentes, o significado deste facto. Esta complementaridade é a razão pela qual a Igreja aceitou desde a antiguidade os quatro Evangelhos canónicos tal como são. Sem os quatro, o quadro não está completo.

29 de maio de 2011

Esvaziando o purgatório


Assim se esvazia o purgatório no site «Catholic Answers».

Este grupo de católicos segue o que lhes é ensinado segundo o qual  «prometeu o Senhor a Santa Gertrudes, que seriam libertas 1000 Almas do Purgatório, cada vez que esta Oração fosse rezada, sendo ainda extensível aos pecadores.»

A chamada «Oração de Santa Gertrudes» reza assim:

«Eterno Pai, ofereço o Preciosíssimo Sangue de Vosso Divino Filho Jesus, em união com todas as missas que hoje são celebradas em todo o Mundo, por todas as santas Almas do Purgatório, pelos pecadores, em todos os lugares, pelos pecadores, na Igreja Universal, pelos da minha casa e meus vizinhos. Ámen.»


Fonte: paroquias.org

É incrível que aquilo que o sofrimento de Cristo na cruz não conseguiu efetuar, ou seja, a purificação do pecado, a repetição desta oração de Santa Gertrudes pode consegui-lo!

Bem disse a Sabedoria: «Ainda que pisasses o insensato no gral entre grãos pilados, contudo não se apartaria dele a sua estultícia» (Prov. 27:22).

28 de maio de 2011

CONCÍLIOS ECUMÉNICOS VS. CONCÍLIOS CATÓLICOS ROMANOS


Embora, a Igreja de Roma, conte como concílios ecuménicos os convocados pelo Papa depois do grande cisma entre a Igreja do Ocidente e as do Oriente (século XI), a verdade é que o título lhes fica muito grande. A partir do I Concílio de Latrão, e até ao Vaticano II inclusive, são concílios católicos romanos.

Além disso, apesar de na Igreja de Roma só o Papa poder convocar um concílio ecuménico, os concílios da Antiguidade foram convocados pelos imperadores, os quais não necessitavam da autorização de nenhum bispo, nem mesmo do de Roma. Houve, inclusive, um concílio contra a vontade expressa do bispo romano: o II Concílio de Constantinopla (553).

Também não é verdade que a sanção papal fosse exigida imprescindivelmente para que as decisões de um concílio ecuménico fossem válidas. Na realidade, um concílio antigo condenou, como herege, um bispo de Roma: Honório I.

Certamente que o assentimento do bispo de Roma era importante, visto que Roma era a principal sede do Ocidente; mas a validade dependia do consenso dos bispos participantes.

Creio que o sistema conciliar dos séculos IV ao VII produziu esclarecimentos muito importantes na teologia cristã. Em vez de invocarem algum "iluminado" infalível, os bispos debatiam e tentavam chegar a decisões consensuais.

Porém, lamentavelmente, as decisões conciliares não estiveram completamente livres das vicissitudes da política, inclusive da política eclesiástica (a luta de poder entre a Igreja de Roma e as Igrejas do Oriente, em particular Bizâncio).

Esta atividade profundamente carnal causou uma decadência do sistema, que chegou ao seu auge quando, em 787, no II Concílio de Niceia, a liderança cristã de então (sob a autoridade imperial) sustentou como lícito e proveitoso o abominável culto às imagens.

Depois veio o grande cisma, e os concílios "ecuménicos" transformaram-se em concílios romanos que, desde Latrão ao Vaticano II, moldaram a doutrina e a prática da instituição vaticana.

14 de maio de 2011

CITAÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO


No Novo Testamento, há pelo menos 295 citações diretas do Antigo Testamento, que ocupam à volta de 350 versículos do NT. Citam-se 278 versículos do AT (alguns várias vezes): 94 da Torá, 99 dos Profetas e 85 dos escritos.

(Fonte: Roger Nicole, "The Old Testament in the New Testament", em Frank E. Gaebelein, The Expositor's Bible Commentary, 1:617)

Se se incluírem as alusões, além das citações diretas, o número ascende, segundo diferentes autores, a um valor entre 613 e mais de 4000.

Se se analisarem estas citações, observar-se-á que podem classificar-se como se segue:

1. Na grande maioria dos casos, correspondem a um texto no qual coincidem a Septuaginta e o texto massorético.

2. Em outros casos, diferem tanto da Septuaginta como do texto massorético.

3. Também pode ocorrer que concorde com o texto massorético, mas não com a Septuaginta.

4. Pode haver concordância com uma variante textual da Septuaginta, mas não com outra.

5. Ou pode concordar com a Septuaginta, mas não com o texto massorético.

Isto sugere que o próprio Jesus e os autores sagrados exerceram uma considerável liberdade na hora de citar as Escrituras, usando a forma que melhor transmitia o que queriam dizer.

Ver:

F.F. Bruce, This is that. The New Testament Development of Some Old Testament Themes. The Paternoster Press, 1970.

A.W. Robertson, El Antiguo Testamento en el Nuevo. Buenos Aires: Nueva Creación, 1996.

11 de maio de 2011

Sobre a fábula de Fátima

 
1º – Lúcia asseverou que a Virgem lhe afirmara em 13 de Outubro de 1917 que a "Grande Guerra" (1914-1918) havia acabado nesse dia. Como a guerra acabou treze meses mais tarde, quem mentiu: Lúcia ou a Virgem?

2º – Segundo declarações de Lúcia, a Virgem tinha-se designado a si própria pelos nomes de "Nossa Senhora" ou de "Senhora do Rosário".
- Pode acreditar-se em tal contra-senso?
- Nós, portugueses, quando nos referimos ao Chefe de Estado, dizemos o "nosso Presidente da República". Ele é que nunca pronunciaria o seguinte dislate:
- Eu sou o "nosso Presidente da República".

3º – Alguém poderá crer que a Virgem falasse sem mexer os lábios, sem modificar a expressão do rosto, sem fazer o mínimo gesto, como os videntes declararam?

4º – Seria possível que a Virgem medisse de altura 1 metro e dez centímetros?
A altura da Virgem foi calculada pelo Padre Ferreira de Lacerda, tomando por base o que Lúcia lhe disse a esse respeito.

5º – É credível que a Virgem se tenha exibido na Cova da Iria com argolas de ouro nas orelhas, conforme Lúcia asseverou?

6º – Quando se deve acreditar em Lúcia? Quando afirmou para o cónego Nunes Formigão que não via vir a Senhora de nenhuma parte; ou quando disse para o Padre Ferreira Lacerda que a Virgem aparecia vindo do lado Nascente?

7º – Em 13 de Julho de 1917 a Virgem ordenou a Lúcia que comparecesse na Cova da Iria no dia 13 do mês imediato. Lúcia e os primos não puderam cumprir a ordem recebida, em virtude do administrador do concelho de Vila Nova de Ourém os ter levado para aquela vila. Qual a explicação para o caso?
Teria o administrador do concelho mais poder que a Virgem pois impediu que os três videntes cumprissem uma ordem expressamente dada por ela?
Para quem leu "Fátima Desmascarada", a explicação é fácil de encontrar; quem mandara comparecer os videntes no dia 13 de Agosto na Cova da Iria, não tinha sido a Virgem, mas sim o Padre Faustino José Ferreira, que exercia sobre Lúcia e os primos poderes ilimitados. O que não podia ter previsto, com um mês de antecedência, era que o administrador do concelho impediria que os três pastores fossem à Cova da Iria no dia 13 de Agosto.

8º – Podia Lúcia, que sempre demonstrou possuir péssima memória (veja-se Fátima Desmascarada) e que, já em 1917, se mostrava incapaz de reproduzir as chãs e curtas frases por ela atribuídas à Virgem, podia Lúcia, repito, reproduzir, quando mulher, longas falas do anjo e da Virgem, que continham numerosas palavras cujo significado ela ignorava completamente?

9º – Quando em 1938 chegou ao lugarejo natal dos videntes, Aljustrel, o eco da inverosímil história dos "sacrifícios" e das "mortificações" a que os pequenos se teriam submetido logo após as primeiras aparições, os familiares, os vizinhos e os pais de Jacinta e Francisco (os de Lúcia já haviam falecido) abriram a boca de espanto e declaravam unanimemente:
- «Nunca soubemos nada de nada! Eram exactamente como os demais».
Quem atirou essa inverosímil história para o caixote do lixo foi Lúcia, quando declarou para o Padre H. Jongen:
«Nós continuávamos a brincar como dantes. Certas mulherzinhas devotas diziam-nos: Vocês viram a Nossa Senhora. Por isso já não deviam brincar». Mas que podíamos fazer senão brincar?» (Revista "Stella". 9-Nov-1946).

10º – Quando nas Doroteias, em Pontevedra, em cujo convento Antero de Figueiredo entrevistou Lúcia, esta atestou que tudo o que esse escritor registou como tendo-lhe sido dito por Lúcia era absolutamente exacto.
Pois bem, Lúcia negou para Antero de Figueiredo que, antes das aparições de 1917, tivesse estado em contacto com o sobrenatural. – «Antes das aparições – disse ela -, criança e pastora, nunca pensei nestas coisas». («Fátima». pág. 149).

Mais tarde nas suas Memórias, Lúcia relata várias aparições de um Anjo antes de 1917.

11º – Lúcia asseverava que nunca poderia revelar o segredo que ela dizia ter-lhe sido revelado pela Virgem em 1917. Afirma-o também o bispo de Leiria numa Carta Pastoral datada de 13-10-1930 e reafirmou-o Lúcia, por forma categórica, em 1936, para Antero Figueiredo.
«Em 1946, porém, Lúcia declarou para o Padre Jongen, que já em 1927 tinha revelado dois dos segredos ao bispo de Leiria e ao cónego Galamba de Oliveira».
A declaração de Lúcia não era verdadeira; mas o Bispo de Leiria e o cónego Galamba de Oliveira, que se contavam entre os mais categorizados dirigentes de Fátima, em vez de desmentirem a afirmação de Lúcia, perfilharam-na, atitude que se me afigura estranha e muito grave.

12º – Lúcia afirmou para o cónego Nunes Formigão que o segredo (na Velha História havia apenas um segredo; na Nova, passou a haver três) somente dizia respeito a ela e aos primos.
Poderá aceitar-se como verdadeiro o texto desses dois segredos, conforme se lêem em «Jacinta»?
Acerca de Lúcia, o sr. Oliveira Santos, (filho de Artur de Oliveira Santos, administrador do concelho que, em Agosto de 1917, interrogou Lúcia, Jacinta e Francisco) contou que assim falava António Santos, o "Abóbora", pai da vidente, referindo-se à filha:
- «O sr. administrador não acredite na minha filha, que ela é uma intrujona!».

Do livro de João Ilharco, "Fátima Desmascarada: polémica"; Coimbra, 1972.

6 de maio de 2011

Pode-se afirmar que os saduceus e os essénios, especialmente os de Qumran, tinham um cânon das Escrituras diferente do resto dos judeus?


Não, não pode afirmar-se com absoluta certeza. Em particular, não está claro se os qumranitas incluíam algum outro texto entre os considerados "inspirados" além dos pertencentes ao cânon hebraico atual. [1]

Sobre o tema em geral, as seguintes observações são pertinentes:

"A investigação nas últimas décadas pôs em dúvida posições mantidas há muito tempo relacionadas com a história da formação do cânon bíblico hebraico e a existência de um cânon grego alexandrino. Até há um par de décadas costumava-se distinguir três etapas na história do cânon do Antigo Testamento. Para isso tomava-se como ponto de referência o cisma samaritano, que supostamente tinha tido lugar no século V a.C. Dizia-se que o Pentateuco adquiriu reconhecimento canónico antes do cisma dos samaritanos, dado que estes reconhecem valor canónico a esta coleção de cinco livros. A coleção de livros proféticos, que não foi reconhecida pelos samaritanos, teve de formar-se e de adquirir estatuto canónico posteriormente ao cisma, por volta do século III a.C. Por fim a coleção de escritos constituiu-se e entrou a formar parte do cânon numa época muito tardia. O processo final terminou em finais do século I d.C., com ocasião do chamado Sínodo de Yabneh [Yamnia], em que ficou definitivamente fechado o cânon da Bíblia hebraica.

Por outro lado, dizia-se também que, junto a este «cânon palestino», existiu também outro «cânon alexandrino», próprio do judaísmo da diáspora. Estava representado por uma coleção de livros que aparece recolhida na versão grega dos LXX. O cristianismo fez seu esse cânon antes de os rabinos de Yabneh terem fechado definitivamente o cânon hebraico em finais do século I. d.C., deixando «fora» os livros «exteriores» ou apócrifos, alguns dos quais figuravam na Bíblia grega dos cristãos.

Os descobrimentos do Mar Morto e outra série de estudos deitaram por terra esta hipótese clássica, que pode encontrar-se ainda em muitos livros. Hoje reconhece-se que o chamado cisma samaritano ocorreu seguramente em finais do século II a.C., ou seja, quando a coleção de livros proféticos estava já formada desde há muito tempo. A teoria do cânon judeu alexandrino caiu por terra ao não existir prova alguma da sua existência.
...

Uma corrente importante da investigação atual tende a considerar que o cânon hebraico se formou na época macabeia, em meados do século II a.C. Esta explicação deixa, no entanto, no ar a questão do que mais tarde veio a ser o cânon cristão do Antigo Testamento. Se já não pode dizer-se que os cristãos herdaram da diáspora judaica uma coleção mais ampla que a da Bíblia hebraica, ter-se-á que procurar uma explicação que justifique o facto de os cristãos não se sentirem obrigados a ater-se ao estrito cânon hebraico. Este facto pode ter antecedentes na comunidade essénia de Qumran. Seguramente os essénios de Qumran não tinham consciência nem intenção alguma de reabrir um cânon supostamente já fechado. No entanto, dá a impressão de que reconheciam a alguns escritos, como pode ser o caso do livro dos Jubileus, um carácter sagrado comparável ao de outros livros incluídos no cânon."

(Florentino García Martínez e Julio Trebolle Barrera, Los hombres de Qumrán. Literatura, estructura social y concepciones religiosas. Madrid: Trotta, 1993, p. 132-133; negrito acrescentado)

Ofereço agora as seguintes explicações de um dos mais destacados eruditos evangélicos contemporâneos, F.F. Bruce [2]. Depois de examinar a evidência de Qumran, Bruce diz:

"É provável, de facto, que no começo da era cristã os essénios (incluindo a comunidade de Qumran) estivessem em substancial acordo com os fariseus e os saduceus sobre os limites da Escritura hebraica. Podem ter havido algumas diferenças de opinião e prática em relação a um ou dois dos 'Escritos', mas as discordâncias entre partidos lembradas na tradição judaica têm muito pouco que ver com os limites do cânon. A ideia de que os saduceus (como os samaritanos) reconheciam somente o Pentateuco como sagrada escritura baseia-se num mal-entendido: quando Josefo, por exemplo, diz que os saduceus «não admitem nenhuma observância fora das leis» [41], não quer dizer o Pentateuco com exclusão dos Profetas e dos Escritos mas a lei escrita (do Pentateuco) com exclusão da lei oral (a interpretação e aplicação farisaica da lei escrita, a qual, como a própria lei escrita, se defendia em teoria ter sido recebida e transmitida por Moisés) [42]. Seria compreensível que os saduceus não aceitassem Daniel, o qual contém a afirmação mais explícita sobre a esperança da ressurreição em todo o Antigo Testamento [43]." [3]

Notas

[41] Josefo, Antiguidades, 18.16; o seu significado é esclarecido em Antiguidades 13.297, onde se diz que os saduceus 'sustentam que só as leis escritas devem ser tidas por válidas, mas que aquelas transmitidas por tradição dos pais não necessitam ser observadas. Foi provavelmente uma interpretação errada de Josefo, direta ou indiretamente, o que levou Orígenes (Contra Celso, 1.49) e Jerónimo (Comentário sobre Mateus, sobre 22:31s) a dizer que os saduceus aceitavam como escritura os livros de Moisés apenas.

[42] Esta lei oral é a 'tradição dos anciãos' mencionada em Marcos 7:5.

[43] Daniel 12:2. Quando Jesus apelou à Escritura na sua refutação da negação da ressurreição pelos saduceus, citou Êxodo 3:6, baseando o seu argumento no carácter de Deus (Marcos 12:26s).

(F.F. Bruce, The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, p. 40-41; negrito acrescentado).

Em conclusão, não foi demonstrado que os saduceus e os essénios tivessem um cânon particular.

Por outro lado, autores modernos indicam que provavelmente o cânon ficou estabelecido consensualmente na época dos macabeus, ou seja, na segunda metade do século II a.C. A partir daí, houve ocasionalmente discussões sobre se havia que excluir algum livro, nunca sobre incluir algum outro até onde sabemos.

De modo que até onde pode emitir-se um juízo histórico deve aceitar-se que no século I existia substancial acordo em todo o judaísmo em relação à lista de livros considerados sagrados.


Notas

[1] Há quem diga que os homens de Qumran rejeitavam o livro de Ester, e aceitavam Jubileus. Mas a evidência de que os qumranitas «rejeitavam» o livro de Ester (que por outro lado sempre andou próximo da margem do cânon entre judeus e cristãos) é basicamente negativa: não se encontraram fragmentos deste livro entre os manuscritos do Mar Morto. Mas não há nenhuma declaração explícita a tal respeito.

Por outro lado, há evidência positiva de que os qumranitas consideravam os livros da Bíblia hebraica como inspirados.

Além de existir manuscritos completos ou fragmentários de todos eles exceto Ester, muitos deles (das três divisões do Tanach) são citados como «assim foi escrito». A parte mais citada é o Pentateuco, seguido pelos Profetas e pelos Escritos, nessa ordem.

Num dos rolos, 4QMMT, menciona-se uma divisão tripartida como a que já se encontra em Jesus ben Sirá (Eclesiástico), Josefo, e o Novo Testamento: «no livro de Moisés, nas palavras dos Profetas, e em David».

Os homens de Qumran também escreveram comentários (pesharim) sobre diversos livros do Tanach, como por exemplo Isaías, Salmos, Oseias, Habacuque; mas não há vestígios de tais comentários a livros apócrifos.

Finalmente, é verdade que os qumranitas tiveram em grande estima livros pseudoepigráficos como Jubileus, 1 Enoque e o Rolo do Templo; mas não é absolutamente claro que os tivessem ao mesmo nível que os livros canónicos. Seja como for, estes livros não figuram nem no cânon palestino nem no católico.

[2] Outros autores que dizem mais ou menos o mesmo que Bruce sobre os saduceus são:


Nas suas descrições das três filosofias Josefo contrasta os saduceus com os fariseus e os essénios ... Nota também que ... aceitam somente as leis escritas em contraste com as tradições dos fariseus.

James F. Driscoll, Sadducees (The Catholic Encyclopedia, vol. 13)

Eles rejeitavam igualmente as tradições orais que os fariseus mantinham e enfatizavam como um suplemento divinamente ordenado para a lei escrita.

W.J. Moulder, Sadducees. Em Geoffrey W. Bromiley (Ed.), International Standard Bible Encyclopedia, Rev. Ed. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1988; 4:279; negrito acrescentado.

Josefo indicou que os saduceus não concediam autoridade vinculante à lei oral porque «não está registada nas leis de Moisés» (Ant. XIII, 10:6 [297]). Os fariseus, em contraste, afirmavam que as ...«tradições dos anciãos» remontavam até ao próprio Moisés e eram portanto obrigatórias. Até que ponto a rejeição saduceia da tradição oral se estendia até a negação do status canónico dos Profetas e Escritos veterotestamentários (como afirmavam vários Padres; por exemplo Hipólito, Ref. IX,29; Orígenes Contra Celso 1,49; Jerónimo In Matt 22:31s...) é outro assunto, no entanto, já que durante o período intertestamentário estes escritos eram considerados como Escrituras por todos os judeus. Já que nem Josefo nem o NT dizem nada sobre os saduceus rejeitarem estas porções da Escritura, a maior parte dos eruditos modernos crê que os Padres estavam num erro.

R. Le Déaut, Los saduceos. Em Augustin George e Pierre Grelot (Dir), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. J. Cabanes y M. Villanueva. Barcelona: Herder, 1983 1:159

A sua atitude fundamental é uma fidelidade ao sentido literal da escritura, a manutenção da Sola Scriptura, perante as tradições e a lei oral dos fariseus ...
Os saduceus tinham as suas tradições e a sua halakha, que defendiam tenazmente; mas nunca lhes deram a mesma categoria que a lei escrita.

Emil Schürer, Historia del pueblo judío en tiempos de Jesús, 175 a.C.-135 d.C., Ed. Rev. Por Geza Vermes, Fergus Millar e Matthew Black. Trad. J. Valiente Malla. Madrid: Cristiandad, 1985; 1:530-531.

A opinião de numerosos Padres da Igreja de que os saduceus reconheciam unicamente o Pentateuco e rejeitavam os Profetas não conta com apoio algum em Josefo e, por conseguinte, é considerada errónea pela maior parte dos investigadores modernos. [25].

Nota 25. Cf. Le Moyne, op. cit., 358-359; é possível que tanto os fariseus como os saduceus estimaram que os profetas e os escritos tinham menor autoridade que a Torá ...

[3] Como os Saduceus podiam aceitar a canonicidade do livro de Daniel se negavam a ressurreição que está claramente expressa em Daniel? Não é ilógico?

Não, não é nada ilógico. É bem sabido que na história da interpretação bíblica diversos grupos ignoraram ou reinterpretaram porções que não se enquadravam com as suas ideias. Um exemplo manifesto é o Targum de Isaías 53, um texto messiânico que é reinterpretado ou ignorado pelo judaísmo tradicional até hoje. É pois possível que o texto de Daniel 12:1-2 fosse tratado de igual forma pelos saduceus.

Não sabemos muito acerca dos saduceus, mas o pouco que sabemos indica que aceitavam as Escrituras mas rejeitavam as tradições orais, pelo menos as dos fariseus, e se negavam a pô-las como estes ao mesmo nível das Escrituras.

Existe, além disso, evidência de que no judaísmo sempre houve um «cânon dentro do cânon»: a Torá sempre foi considerada suprema acima dos Profetas e dos Escritos, ainda que estes dois últimos se considerassem também Escritura. Isto vê-se ainda em certas regras talmúdicas, como por exemplo que é lícito vender um rolo dos Profetas ou Escritos para comprar um rolo do Pentateuco, mas o inverso não é permitido.

3 de maio de 2011

Os Depoimentos Contraditórios da Irmã Lúcia Sobre as "Aparições de Fátima"


No passado dia 13 de Fevereiro, morreu aos 97 anos (faria 98 em 30 de Março) Lúcia de Jesus dos Santos. E, com o seu abandono do mundo dos vivos, estão criadas condições para a hierarquia da Igreja Católica consumar aquilo que há muito parece ser o seu desejo: beatificar a mais importante das videntes de Fátima. Os fatimistas indefectíveis - e os políticos mais oportunistas - irão entretanto produzir sobre ela os já previsíveis discursos hagiográficos, os quais não deixarão de apregoar as suas incomensuráveis virtudes católicas e invocar o seu piedoso protagonismo na história das aparições de Fátima. A lamentável morte da irmã Lúcia poderá até servir de álibi para relançar no país e no mundo a imagem de um santuário que no último ano parece ter perdido demasiados peregrinos e, ainda, fornecer fundamentos para que o Vaticano apresse também o processo de beatificação de uma outra preciosa figura do panteão fatimista: o cónego Nunes Formigão.

No entanto, à margem de uma história mística e laudatória que sucessivos cronistas católicos, com o imprimatur da hierarquia da Igreja, souberam tão bem construir e difundir desde 1917, importa responder com rigor e objectividade a esta incontornável questão: qual o papel desempenhado pela irmã Lúcia em todo o processo das aparições de Fátima?

Neste breve e necessariamente preambular artigo de jornal, queria apenas propor aos leitores um exercício (que, obviamente, não é original) de análise comparativa de um conjunto de documentos fundamentais e que permitirá ajudar a responder à questão supracitada: os interrogatórios efectuados pelo pároco de Fátima à mais velha dos pastorinhos, entre Maio e Outubro de 1917 (ver Documentação Crítica de Fátima I, 1992), os interrogatórios aos videntes Lúcia, Francisco e Jacinta, feitos oficiosamente pelo cónego Nunes Formigão, entre Setembro e Novembro de 1917 (ver op. cit.), os interrogatórios oficiais de Lúcia, realizados pelo mesmo cónego e o padre Manuel Marques dos Santos, em 1924 (ver Documentação Crítica de Fátima, II, 1999), e as primeiras memórias redigidas pela freira Carmelita, entre 1935 e 1941, por ordem do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva (ver Memórias da Irmã Lúcia, 8.º edição, 2000) - também ele um protagonista incontornável do processo das aparições e culto da Cova da Iria.

Do primeiro documento, datado de 1917, - e, sem dúvida, o mais fidedigno - ressaltam duas ideias singelas e pouco originais: a oração e a devoção, através da recitação do Rosário; o cumprimento escrupuloso desse popular preceito espiritual teria como contrapartida o final da guerra (de 1914-18) e a implantação da paz no mundo. Deste interrogatório vale ainda a pena reter a falsa profecia presumivelmente avançada por "Nossa Senhora" (em 13 de Outubro de 1917) sobre o final imediato da guerra, efectuada nos seguintes termos: "a guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito breve".

Os segundos e terceiros documentos supracitados, de 1917 e 1924, introduzem já elementos novos que complementam e tornam a mensagem primitiva mais intricada. Atestam o mandamento Mariano da recitação do Rosário em prol do fim da guerra e da implantação da paz no mundo. Contudo, acrescentam à prática da oração os conceitos explícitos de penitência e conversão, aludem ao ensinamento por Maria de uma jaculatória cujo conteúdo consubstancia a existência de um mundo trinitário pós-terreno onde o Céu, por um lado, e o Purgatório e o Inferno, por outro lado, se configuram respectivamente como os destinos dos piedosos (ou seja, dos fiéis ou convertidos aos mandamentos católicos) e dos pecadores. Os mesmos textos mencionam pela primeira vez um (e não três) enigmático(s) e polémico(s) segredo(s) revelado(s) por "Nossa Senhora" às crianças e uma misteriosa aparição, em 1916, de um anjo a Lúcia e a outras crianças da freguesia de Fátima. E reformulam já a profecia feita sobre o final da guerra, agora apresentada em duas versões ambíguas e literariamente retocadas: "Se o povo se emendasse, acabava a guerra", ou "convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito em breve".

Os últimos textos aqui citados, as memórias escritas pela irmã Lúcia, depois de 1935, com singulares e misteriosos pormenores, os quais contrastam aliás com as respostas lacónicas e simples que emitiu nos diversos inquéritos de que foi alvo logo após os acontecimentos de 1917, retomam e ampliam intangíveis revelações, algumas já avançadas em primeira mão pelo cónego Nunes Formigão, ao longo da década de 20: entre muitas outras novidades, a morte precoce de Jacinta e Francisco, a visão de um inferno dantesco e do Imaculado Coração de Maria cercado de espinhos, o famigerado pedido da "Virgem" para "consagrarem a Rússia ao Seu Imaculado Coração". E a referência ao final da guerra, que aqui foi feita de maneira a depurar as perplexidades que as mensagens anteriores encerravam: "A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve."

Em face do exposto, podemos inferir que a história e a mensagem de Fátima que conhecemos através das palavras de Lúcia não são lineares. Isto é, muitos dos factos por ela narrados foram gradualmente alterados e efabulados entre 1917 e os anos 30. E podemos também adiantar, através da análise das diferentes mensagens, que essas transformações estão directamente relacionadas com as diferentes conjunturas político-ideológicas que se verificaram, entre 1917 e a década de 30 do século passado, em Portugal e no mundo.

A quem cabe a responsabilidade desta inequívoca falsificação da história? Não creio que se possa atribuir a Lúcia cuja vida pública e privada foi controlada e mesmo amordaçada desde 1921 (tinha então 14 anos). Pode e deve antes imputar-se a sectores poderosos da hierarquia da Igreja Católica que oportunamente souberam utilizar a última das videntes de Fátima como precioso peão ao serviço de um ambicioso e permanente movimento de renascimento católico de dimensões nacional e mundial.

Sei bem que, hoje como ontem, - num mundo pragmático, contaminado pela preponderância do "parecer" sobre o "ser" - os argumentos que sustentam esta perspectiva de nada valem e aqueles que a advogam são até rotulados, por sectores católicos mais conservadores e intolerantes, de ateus e anticlericais obstinados ou então de loucos inspirados por maquiavélicas teorias da conspiração. São esses mesmos sectores que em público preferem sistematicamente ignorar, omitir ou desvalorizar as contradições que a história de Fátima encerra e branquear os axiomáticos paradoxos consubstanciados nos depoimentos de Lúcia (e de outros cronistas) com o fundamento de que, afinal, o culto da Cova da Iria se impôs ao mundo - e tal facto, na opinião deles, legitima o argumento de que as "aparições de Fátima" beneficiaram da mão de Deus.

Em verdade vos digo, não creio que Deus possa abençoar aqueles que em nome de Cristo se assenhorearam deste culto de primitiva expressão popular - igual a tantos outros que existem no país - e depois construíram de modo premeditado um conjunto elaborado de representações místicas com o desígnio supremo de disciplinar, angariar e manipular fiéis. Contudo, estou já profundamente convicto de que a irmã Lúcia sairá inocente de tal julgamento divino.

Luís Filipe Torgal
Historiador

Bibliografia

"Os depoimentos contraditórios da Irmã Lúcia (1907-2005) sobre as «aparições de Fátima»". In: Público, 21 de Fevereiro de 2005.