22 de abril de 2011

A CARTA DE CLEMENTE AOS CORÍNTIOS: EVIDÊNCIA DO PRIMADO DO BISPO DE ROMA?


Argumento católico:

Pelos anos 90 do primeiro século da nossa era, quando ainda vivia o apóstolo João, surgiu um problema interno de não pequena importância na igreja de Corinto. É de supor que o lógico teria sido que uma vez que ainda viva um dos apóstolos, coubesse a este impor a sua autoridade para solucionar a questão. Mas não foi assim. Quem se encarregou de acabar com o desaguisado foi nem mais nem menos que o bispo de Roma.
 
Se com isto se pretende insinuar que um bispo, por mais "sucessor de Pedro" que se o queira considerar, podia ter uma autoridade superior à dos próprios Apóstolos, o mesmíssimo Clemente se encarrega de contradizer tal coisa:
 
Os Apóstolos nos pregaram o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado de Deus. Em resumo, Cristo da parte de Deus, e os Apóstolos da parte de Cristo: uma e outra coisa, por isso, sucederam ordenadamente por vontade de Deus. Assim, pois, tendo os Apóstolos recebido a ordem e plenamente assegurados pela ressurreição do Senhor Jesus Cristo e confirmados na fé pela palavra de Deus, saíram, cheios da certeza que lhes infundiu o Espírito Santo, a dar a alegre notícia de que o reino de Deus estava para chegar. E assim, segundo apregoavam por lugares e cidades a boa nova e batizavam os que obedeciam ao desígnio de Deus, iam estabelecendo os que eram primícias deles – depois de prová-los pelo espírito - como inspetores (episkopous) e ministros (diakonous) dos que haviam de crer. E isto não era novidade, pois já desde há muito tempo se havia escrito acerca de tais inspetores e ministros. A Escritura, com efeito, diz assim em certo lugar: Estabelecerei os inspetores deles na justiça e os seus ministros na fé (Isaías 60:17).
 
Carta Primeira de São Clemente, 42:1-4
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979

Tendo sido estabelecidos eles mesmos pelos próprios Apóstolos, é impossível que a sua autoridade estivesse acima da autoridade de quem lhes a concedeu em primeiro lugar. Além disso, deve sublinhar-se que Clemente, em nenhuma parte, ensina ou insinua a existência de um episcopado monárquico (como o faz, algo mais tarde, Inácio de Antioquia [1]). Pelo contrário, na carta aos Coríntios:
 
Mencionam-se presbíteros várias vezes, mas não são distinguidos dos bispos. Não há absolutamente menção de um bispo em Corinto, e as autoridades eclesiásticas são sempre nomeadas no plural.
 
John Chapman, Pope St. Clement I . Em The Catholic Encyclopedia, vol. IV (1908).

Clemente alonga-se mais à frente quanto à forma de eleição e às condições das autoridades da Igreja:

Também os nossos Apóstolos tiveram conhecimento, por inspiração de nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contenda sobre este nome e dignidade do episcopado. Por esse motivo, pois, ..., estabeleceram os supracitados e juntamente impuseram dali em diante a norma de que, morrendo estes, outros que fossem varões aprovados lhes sucedessem no ministério. Agora pois, estes varões estabelecidos pelos Apóstolos, ou posteriormente por outros exímios varões com consentimento de toda a Igreja; homens que serviram irrepreensivelmente o rebanho de Cristo com espírito de humildade, pacífica e desinteressadamente; com bom testemunho também durante muito tempo de todos; tais homens, vos dizemos, não cremos que possam ser expulsos justamente do seu ministério. E é assim que cometeremos um pecado nada pequeno se depomos do seu posto de bispos aqueles que irrepreensível e religiosamente ofereceram os dons. Felizes os anciãos que nos precederam na viagem para a eternidade, os quais tiveram um fim frutuoso e perfeito, pois já não têm que temer que alguém os afaste do lugar que ocupam. Dizemos isto porque vemos que vós removestes do seu ministério alguns que o honraram com conduta santa e irrepreensível.
 
Carta Primeira de São Clemente, 44:1-6
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979 (negrito acrescentado)

Ou seja, a conduta santa e irrepreensível era para Clemente o requisito mais importante para os bispos e ministros. [2]
 
Por que foi, então, Roma a corrigir os Coríntios, e não o apóstolo João? Teríamos que perguntar a João. Entretanto, é preciso notar que um facto inexplicado - e, se quisermos, intrigante - dificilmente serve como evidência de qualquer coisa. Neste caso particular, foi a Igreja de Roma a que se encarregou da correção. Demonstra isto que ela era superior a Corinto? No meu entender, não mais do que a carta que Ireneu dirigiu a Vítor demonstra que o bispo das Gálias era superior ao de Roma. Ao não existir uma estrutura acima das igrejas locais, nada impedia que uma Igreja se dirigisse a outra, ou que um bispo repreendesse outro. O que demonstra isto? Simplesmente que é pura fantasia, ou wishful thinking, imaginar que a hierarquia que Roma estabeleceu para o Ocidente, na Idade Média, existia nos séculos anteriores.
 
Argumento católico:
 
Apesar de alguns protestantes e ortodoxos tenderem a minimizar a autoridade de Clemente, o certo é que do texto da sua carta se depreende com grande clareza a consciência que o próprio bispo de Roma tinha sobre a sua autoridade à frente da Igreja. Senão vejamos:
 
"Mas se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio vos dirigiu Ele mesmo, saibam que se farão réus de não pequeno pecado e se expõem a grave perigo" 1 Clemente aos Coríntios (LIX 1)
 
Ou seja, o bispo de Roma intervém diretamente nos assuntos internos de outra igreja para impor a sua autoridade que, como se encarrega de reconhecer, lhe vem da parte de Deus.
 
Algumas observações aqui:
 
1. A suposta consciência que Clemente tinha da sua própria autoridade só pode parecer dotada de "grande clareza" a quem, anacronicamente, sustente um poder que Roma reclamou para si mais tarde e que jamais foi reconhecido pelas igrejas orientais.
 
A este respeito, é preciso observar que, na carta, não há o mínimo apelo à autoridade do bispo de Roma enquanto tal.
 
2. Embora não haja dúvida razoável de que Clemente tenha sido o seu autor, é preciso notar que isto o sabemos por evidência externa, a saber, o testemunho unânime da tradição. De facto, o nome de Clemente não aparece na carta. Isto, desde logo, apresenta um notável contraste com as epístolas de Paulo e de Pedro. A longa epístola é dirigida de "A Igreja de Deus que habita como forasteira em Roma, à Igreja de Deus que habita como forasteira em Corinto: aos chamados e santificados pela vontade de Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo". Contra o que costumam afirmar os católicos, o cabeçalho não é o de um superior para um subordinado, mas de uma irmã para outra.
 
Isto o reconhecem até aqueles que sustentam tenazmente a doutrina do primado romano, como Johannes Quasten, que escreveu:
 
É inegável que o texto não contém uma afirmação categórica do primado da Sé Romana. Em nenhuma parte o autor afirma expressamente que a sua intervenção vincule e obrigue, juridicamente, a comunidade cristã de Corinto.
 
Patrología (edição preparada por Ignacio Oñatibia). Madrid: BAC, 1978; 1:56.

De igual modo, Daniel Ruiz Bueno (o.c., p. 118), que como católico também considera a epístola como evidência do suposto primado, afirma categoricamente:
 
E adianto-me a dizer que, por muito que possa investigar-se nela sobre o direito e constituição da Igreja, afirmar que esta carta é uma decisão jurídica em vez de uma homilia, parece-me uma imperdoável falta de penetração no seu espírito, nascida de um excessivo afã apologético.

3. A declaração, tão cara aos apologistas católicos - "Mas se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio vos dirigiu Ele mesmo [Deus], saibam que se farão réus de não pequeno pecado e se expõem a grave perigo" - deve ser entendida no seu devido contexto. O autor não faz qualquer apelo à sua autoridade pessoal; em vez disso, apresenta as Escrituras como fonte da sua autoridade e demonstra onde reside o erro dos sediciosos de Corinto. É sobre esta base, e não na de algum primado imaginário, que ele pode afirmar, com toda a razão, que aqueles que desprezassem semelhante admoestação, perfeitamente fundamentada, se expunham a grave perigo: não por desobedecerem ao "papa", mas por desobedecerem a Deus. Clemente fala aqui, em nome da Igreja de Roma, com autoridade profética. Isto torna-se claro pelo que se segue à frase citada, que com frequência (como neste caso) se omite transcrever: "Mas nós seremos inocentes deste pecado". Parece que o autor está a pensar nos termos do que Deus disse ao profeta Ezequiel:
 
Quando o justo se desviar da sua justiça para cometer injustiça, eu porei um obstáculo diante dele e morrerá; por não o teres advertido tu, morrerá ele pelo seu pecado e não se lembrará a justiça que tinha praticado, mas do seu sangue eu te pedirei contas. Se, pelo contrário, advertires o justo para que não peque, e ele não pecar, viverá ele por ter sido advertido, e tu salvarás a tua vida.
 
Ezequiel 3:20-22; cf. 33:1-9
 
Argumento católico:
 
Bom, alguém poderá dizer que uma coisa é que o bispo de Roma pretendesse ter tal autoridade e outra que os Coríntios a reconhecessem e aceitassem. Pois temos o testemunho indiscutível de alguém que foi bispo de Corinto várias décadas mais tarde. O seu nome é Dionísio, e escreveu o seguinte a Sotero, que por então era também, bispo de Roma. Na sua carta a Sotero, por volta de 170 d.c., Dionísio lhe diz:
 
"Hoje celebrámos o santo dia do Senhor no qual lemos a vossa carta (a do Papa Sotero) [3], a qual para nossa correção continuaremos a ler sempre, ASSIM COMO A QUE ANTERIORMENTE NOS FOI ESCRITA POR CLEMENTE" (A citação aparece em Eusébio de Cesareia História IV, 23, 11)
 
Ou seja, resulta que na igreja de Corinto, no dia do Senhor, continuava-se a ler a carta do bispo de Roma Clemente quase um século depois de ser escrita e, além disso, lia-se a carta do por então bispo de Roma, Sotero, com a intenção de serem corrigidos por ele.
 
Veja-se que não estamos a falar do papado nos tempos de Constantino, ou do século X ou do XV. Não, estamos a ver qual era a realidade sobre a primazia da sé romana nos séculos I e II da era cristã.
 
O testemunho de Dionísio mostra o efeito benéfico que a epístola teve sobre a Igreja de Corinto e, também, o valor do documento, que até onde sei ninguém questionou. Em outras palavras: a epístola foi recebida, lida e conservada pelo seu valor intrínseco, não porque proviesse de um bispo de Roma.
 
Embora, segundo Eusébio, a carta de Dionísio tenha sido dirigida a Sotero, por então bispo de Roma, leva, segundo o mesmo autor, o título Aos Romanos (pros Rômaious) e dirige-se à comunidade no plural, nomeando o bispo na terceira pessoa (História Eclesiástica IV, 23, 9-10). O responsável pela edição da BAC da obra de Eusébio diz, numa nota de rodapé:
 
A carta de Dionísio é, pois, resposta à que tinha recebido dos romanos, escrita, sem dúvida, «por ministério» de Sotero, como «a primeira» o fora «por ministério de Clemente». O mais provável é que Dionísio diga «primeira» não por relação a uma «segunda de Clemente», mas em relação com a «segunda da Igreja de Roma» - isto é, a mesma de que está a falar, escrita «por ministério» de Sotero.
 
Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica. Texto, versão espanhola, introdução e notas por Argimiro Velasco Delgado, O.P. Madrid: BAC, 1978, 1:249, nota 198.

Velasco Delgado diz "por ministério de" porque, à diferença da tradução oferecida acima - "como a que anteriormente nos foi escrita por Clemente" -, traduz mais corretamente "como a primeira que nos foi escrita por meio de Clemente" (hôs kai tên proteran êmin dia Klêmentos grafeisan).
 
Da forma como o argumento católico é exposto, poderia inferir-se que somente a Igreja de Roma – ou os seus bispos - escrevia a outras comunidades para exortá-las, alentá-las ou admoestá-las. Mas tal inferência seria completamente errada.
 
Por exemplo, precisamente do mesmo bispo de Corinto, Dionísio, cujo testemunho é invocado aqui, diz Eusébio:

... de suas atividades divinas fazia participantes abundantemente não apenas os que estavam sujeitos a ele, mas também os de outros países, fazendo-se utilíssimo a todos com as suas cartas católicas que compunha para as igrejas.
 
Eusébio, o.c., IV, 23, 1 (depois menciona muitas delas, incluída a dirigida aos romanos)

Igualmente, temos as epístolas escritas por Inácio de Antioquia a caminho do seu martírio. E, claro, existe também a carta de Policarpo aos Filipenses, da qual diz Quasten (o.c., 1:89): "É uma exortação moral comparável à Primeira Epístola aos Coríntios de São Clemente".
 
Em outras palavras, que muitos bispos ou comunidades se vissem impulsionados a escrever a outros não era nada estranho nem requeria nenhuma autoridade extraordinária além da que davam o bom testemunho e o conhecimento das Escrituras. [4]
 
Um autor católico observa a este respeito:

Mesmo quando o bispo tem na sua igreja o seu próprio campo de ação, isso não o dispensa da responsabilidade em relação à Igreja universal. Não é somente o sentimento de mera solidariedade com os fiéis de outras comunidades o que impulsiona bispos como Inácio e Policarpo a dirigir-lhes palavras de alento ou admoestação; eles agem assim por se sentirem movidos por um dever claramente sentido. No entanto, não se pode citar nenhum bispo da época pós-apostólica que intervenha na situação de outras igrejas com a mesma autoridade que na sua própria, nem que dê instruções à Igreja universal. O próprio Clemente Romano passa muito para segundo plano em relação à Igreja de Roma como tal, para que, com base na sua carta à igreja de Corinto, se lhe possa atribuir um direito consciente de correção, sustentado por autoridade especial, no sentido, por exemplo, da ideia do primado.
 
Karl Baus, De la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia. Em Hubert Jedin (Dir.), Manual de historia de la Iglesia. Versão de D. Ruiz Bueno. Barcelona: Herder, 1980; 1:240-241 (negrito acrescentado).

Com base nos factos, reafirmo, pois, o que já disse em "Supremacia papal nos escritos antenicenos?":
 
Pode-se ler a carta de cima a baixo, detalhadamente, e não se encontrará vestígio de nenhuma consciência de supremacia; apenas o desejo fervoroso de um santo bispo de que se restabelecesse a paz na turbulenta Igreja coríntia. Clemente ensina, admoesta, exorta; o que nunca faz é ordenar ou apelar à sua investidura como argumento.
 
Notas
 
[1] O episcopado monárquico não aparece em lado nenhum nos 65 capítulos de 1 Clemente, um facto indiscutível e cuidadosamente notado pelos eruditos católicos. Quando esta realidade se confronta com os ensinos de Inácio (m. 107), que pressupõem um episcopado monárquico, parece o mais razoável concluir que existia heterogeneidade na organização eclesiástica da Igreja primitiva. Com o tempo (já na segunda metade do século II), prevaleceu a organização refletida nas cartas de Inácio e não a pressuposta em 1 Clemente. Esta conclusão, evidentemente, não fortalece a hipótese de um primado de autoridade jurisdicional e doutrinal da Igreja de Roma no século I.
 
[2] A Igreja de Roma ensina que o Papa não perde a sua autoridade por ser simoníaco, nepotista ou moralmente dissoluto. Nisto se vê que não "obedecem" a Clemente.
 
[3] Quando fala da "vossa carta", indica a dos romanos, escrita por meio do seu bispo Sotero. É um agradecimento à comunidade de Roma no seu conjunto, não ao seu bispo em particular.
 
[4] Por que interveio, então, a Igreja de Roma, e não a de Éfeso, a de Tessalónica ou qualquer das igrejas muito mais próximas de Corinto do que Roma?
 
Ao carecer a Igreja primitiva da organização hierárquica que mais tarde se impôs (para não falar da hierarquia romana medieval), não estavam delimitadas as jurisdições. De modo que, de uma maneira saudável e evangélica, uma igreja podia exortar outra sem violar a inexistente lei canónica. Não havia nada que o impedisse.
 
Além disso, se o bispo de Roma tivesse tido, numa época tão primitiva, pretensões de Papa universal, não seria fácil explicar por que razão - tendo as seitas gnósticas sido estabelecidas na mesmíssima Roma por Valentim e por Cerdão (antecessor de Marcião) - estas não foram repreendidas pelos próprios bispos locais (Higino, Pio e Aniceto), mas por outros, como Ireneu, bispo de Lyon, e Justino, que não era bispo (Eusébio, História Eclesiástica IV, 11).

16 de abril de 2011

Citações trinitárias primitivas


Existem grupos que negam a Trindade e afirmam que a doutrina não foi mencionada até o tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.). Este concílio, primeiro ecuménico, "foi convocado pelo imperador Constantino para tratar o erro do arianismo, o qual ameaçava a unidade da Igreja cristã". Teria sido Constantino quem introduziu a noção e o termo da Trindade.

Para refutar esta fábula que atribui a doutrina trinitária a Constantino, eis aqui algumas citações de autores cristãos anteriores ao tempo de Constantino, que desmentem tal erro:

As seguintes citações mostram que a doutrina da Trindade na verdade estava vigente e generalizada muito antes do concílio de Niceia.

Policarpo (70-155/160). Bispo de Esmirna, discípulo do Apóstolo João.

"Senhor Deus omnipotente: Pai de teu amado e bendito servo Jesus Cristo ... Eu te bendigo, porque me tiveste por digno desta hora, a fim de tomar parte ... na incorrupção do Espírito Santo... Tu, o infalível e verdadeiro Deus. Portanto, eu te louvo ... por mediação do eterno e celeste Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu servo amado, pelo qual seja glória a Ti com o Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros" (Martírio de São Policarpo, 14:1-3, em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apostólicos, p. 682).

Inácio de Antioquia (aprox. 35-107). Bispo de Antioquia. No seu caminho para o martírio, escreveu várias cartas em defesa da fé cristã.

"Sois pedras do templo do Pai, preparadas para o edifício de Deus Pai, levantadas às alturas pelo guindaste de Jesus Cristo, que é a cruz, fazendo vezes de corda o Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 9:1; Ruiz Bueno, o.c., pág. 452-453).

"A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi trazido por Maria no seu seio conforme a dispensação de Deus [Pai]; da linhagem, certamente, de David; por obra, no entanto, do Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 17:2; Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, pág. 457).

Justino Mártir (aprox. 100-165). Foi um mestre, apologista e mártir, discípulo de Policarpo.

"A Ele [o "Deus verdadeiríssimo"] e ao Filho, que d`Ele veio e nos ensinou tudo isto ... e ao Espírito profético, damos culto e adoramos, honrando-os com razão e verdade" (Primeira Apologia 6:2; em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apologetas Griegos, pág. 187)

"então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai e Soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo." (Primeira Apologia 61:3; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 250).

Ireneu (115-190). Originário da Ásia Menor, em jovem foi discípulo de Policarpo. Veio a ser bispo de Lyon, nas Gálias. Foi o principal teólogo do segundo século.

"A Igreja, ainda que dispersa em todo o mundo, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e seus discípulos esta fé: ... num Deus, o Pai Omnipotente, fazedor do céu e da terra e do mar e de todas as coisas que neles há; e num Jesus Cristo, o Filho de Deus, que encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou por meio dos profetas as dispensações de Deus e os adventos e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão ao céu, na carne, do amadíssimo Jesus Cristo, nosso Senhor, e a Sua manifestação desde o céu na gloria do Pai, a fim de 'reunir num todas as coisas', e para ressuscitar renovada toda carne da inteira raça humana, para que diante de Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, 'se dobre todo o joelho, das coisas nos céus, e das coisas na terra, e das coisas debaixo da terra, e que toda a língua o confesse, e que Ele execute um justo juízo sobre todos..." (Contra todas as heresias, I, 10:1; em Ante-Nicene Fathers vol. 1).

Teófilo de Antioquia (Segunda metade do século II). Bispo de Antioquia e apologista. Apresentou a doutrina cristã aos pagãos. É o primeiro a utilizar o termo "Trindade" (grego, trias).

"Igualmente também os três dias que precedem a criação dos luminares são símbolos da Trindade, de Deus, do seu Verbo e da sua Sabedoria [o Espírito]" (Três livros a Autólico II:15; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 805).

Atenágoras de Atenas (Segunda metade do século II). Defensor da fé cristã. Dirigiu uma "Legação" ou defesa dos cristãos ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cómodo, em 177.

"Quem, pois, não se surpreenderá de ouvir chamar ateus aos que admitem um Deus Pai e um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram a sua potência na unidade e a sua distinção na ordem?" (Legação a favor dos cristãos, 10; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 661).

Tertuliano de Cartago (160-215). Apologista e teólogo africano. De profissão advogado, escreveu eloquentemente em defesa do cristianismo.

"Definimos que existem dois, o Pai e o Filho, e três com o Espírito Santo, e este número está dado pelo modelo da salvação ... [o qual] traz unidade em trindade, inter-relacionando os três, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Eles são três, não em dignidade, mas em grau; não em substância mas em forma; não em poder, mas em espécie. Eles são de uma substância e poder, porque há um Deus de quem estes graus, formas e espécies se mostram no nome do Pai, Filho e Espírito Santo." (Contra Práxeas, 23; PL 2.156-7).

Orígenes (aprox. 185-254). Teólogo de Alexandria, crítico e exegeta bíblico, prolífico autor. Discípulo de Clemente de Alexandria.

"Se alguém disser que o Verbo de Deus ou a Sabedoria de Deus tiveram um começo, advirtamos esse tal não seja que dirija a sua impiedade também contra o ingénito Pai, já que negaria que Ele foi sempre Pai e que Ele gerou sempre o Verbo, e que sempre teve sabedoria em todos os tempos anteriores ou idades, ou qualquer coisa que possa imaginar-se anteriormente. Não pode haver título mais antigo do Deus omnipotente que o de Pai, e é através do Filho que Ele é Pai." (Sobre os princípios 1.2.; Patrologia Graeca 11.132).

"Pois se este fosse o caso [que o Espírito Santo não fosse eternamente como Ele é, e tivesse recebido conhecimento em algum momento e então chegado a ser o Espírito Santo] o Espírito Santo nunca teria sido reconhecido na unidade da Trindade, ou seja, junto com os imutáveis Pai e Filho, a menos que Ele sempre tivesse sido o Espírito Santo... De qualquer modo, parece apropriado inquirir qual é a razão pela qual quem é regenerado por Deus para salvação tem que ver tanto com o Pai e o Filho como com o Espírito Santo, e não obtém a salvação senão com a cooperação de toda a Trindade; e por que é impossível ter parte com o Pai e o Filho, sem o Espírito Santo" (Sobre os princípios I, 3:4-5, em Alexander Roberts and James Donaldson, eds., The Ante-Nicene Fathers, Grand Rapids: Eerdmans, Reimpr. 1989, Vol. 4, pág. 253).

"Além disso, nada na Trindade pode ser chamado maior ou menor, uma vez que sozinha a fonte da divindade contém todas as coisas pela Sua palavra e razão, e pelo Espírito de Sua boca santifica todas as coisas que são dignas de santificação ... Tendo feito estas declarações respeitantes à Unidade do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, voltemos à ordem em que começamos a discussão. Deus o Pai concede, antes de tudo, a existência; e a participação em Cristo, considerando que o Seu ser é a palavra da razão, os torna seres racionais ... [e] é a graça do Espírito Santo presente pela qual aqueles seres que não são santos por essência, podem ser tornados santos por participar dela" (Sobre os princípios I, 3:7-8, em Roberts and Donaldson, pág. 255).

Se é verdade, como sustentam os antitrinitários, que a Trindade não é uma doutrina bíblica nem nunca foi ensinada até o Concílio de Niceia em 325, por que razão existem estes textos? A resposta é simples: A Trindade é uma doutrina bíblica e foi ensinada antes do Concílio de Niceia.

Poderia acrescentar-se que o Concílio de Niceia não fez mais que tornar claro, de forma consensual, o que já era, há muito tempo, a doutrina ortodoxa ensinada e aceite pelos cristãos.

8 de abril de 2011

Seria Agostinho de Hipona católico romano?


Agostinho de Hipona, no seu tempo, desconheceu atuais doutrinas peculiares da Igreja Católica Romana como, por exemplo:

1) A eficácia ex opere operato dos sacramentos,
2) O culto às imagens,
3) A infalibilidade do Papa,
4) A confissão auricular como sacramento,
5) A imaculada conceição de Maria,
6) A transubstanciação,
7) A missa como repetição do sacrifício de Cristo,
8) O primado de jurisdição do bispo de Roma sobre a igreja universal.

Ora, a pergunta que se impõe é: pode alguém ser católico romano sem crer nestas doutrinas?

7 de abril de 2011

Leituras erradas do texto bíblico


Génesis 11:3ss ensina que se pode construir uma torre com tijolo e betume que "chegue ao céu".

Em primeiro lugar, a expressão "que chegue até ao céu" é um hebraísmo para referir um projeto desmesurado, que tenta ultrapassar todos os limites conhecidos: Isaías 14:13-14; ver Ezequiel 28:2; Mateus 11:23. É errado interpretá-lo em termos astronómicos modernos.

Além disso, mesmo tomado literalmente, Génesis 11:3ss não ensina que se possa fazer tal coisa. O relato bíblico diz simplesmente que essa era a intenção dos construtores devido ao seu desejo de obter glória para eles próprios em vez de dá-la a Deus. Por esta razão trouxeram sobre si o juízo divino contra a soberba humana.

Levítico 11:20-21 ensina que os insetos têm 4 patas.

Novamente, Levítico 11:20-21 não diz que os insetos tenham quatro patas. O texto distingue entre os insetos alados que quando não usam as suas asas apenas são capazes de caminhar da mesma forma que os animais quadrúpedes, e aqueles que são capazes de saltar. R.K. Harrison explica:

"Os insetos alados impuros não eram especificados como os mamíferos e as aves, mas classificados pela descrição daqueles que «andam em quatro». Esta frase dificilmente descreve os insetos como possuidores de quatro patas, já que os Insectae como classe normalmente têm seis patas. A referência é evidentemente aos seus movimentos, que lembram o deslocamento ou a corrida de animais quadrúpedes. Os insetos puros são membros do grupo Orthoptera, e podiam ser identificados pelas patas traseiras articuladas, que são mais longas que as outras e capacitam o inseto para saltar... Todos os insetos que não saltavam por não possuir as patas traseiras alongadas deviam ser considerados detestáveis. Este grupo impuro incluiria todos os insetos que se alimentavam de imundícia, lixo ou carniça, e eram portanto transmissores potenciais de doença."

(R.K. Harrison, Leviticus. An introduction and commentary. Tyndale OT Comm. # 3. Downers Grove: InterVarsity Press, 1980, p. 128-129).

Mateus 4:8 ensina que se pode ver toda a superfície da terra de um monte alto.

Pela terceira vez, Mateus 4:8 não ensina que seja possível ver toda a superfície da terra de um monte alto. Tampouco é uma lição de geografia. O que os evangelistas relatam é como Satanás tentou tentar Cristo com poder político absoluto. Isto ocorreu segundo os relatos num "monte muito alto", como aquele ao qual foi transportado Ezequiel (40:2) "em visões". Em outras palavras, aparentemente tratou-se de um acontecimento no âmbito espiritual, de uma visão. Reforça esta impressão que Lucas diz que todos os reinos do mundo foram mostrados a Jesus "num instante" (grego en stigmê chronou, Lucas 4:5).

1 de abril de 2011

JUSTINO MÁRTIR SOBRE A EUCARISTIA


Justino foi um bom mestre cristão, e um mártir por causa de Cristo. Claro está que as suas palavras não são inspiradas no sentido que o são as Escrituras, mas ainda assim é uma testemunha importante do século II.

Evidentemente, se o citamos, convém citar tudo o que diz a respeito, e ler com cuidado.

Justino Mártir

De origem palestina, filho de pais pagãos, Justino foi um dos grandes defensores da fé cristã do segundo século. Fundou uma escola em Roma, onde morreu mártir em 165.

Nos seus escritos encontram-se várias referências à Eucaristia, como era praticada e qual era o seu significado. O pão e o vinho, que são capazes de nutrir o corpo, nutrem também as almas ao ser consagrados pela ação de graças. É precisamente esta ação de graças aquilo que constitui um sacrifício agradável a Deus (Diálogo com Trifão, 117).

Cito da edição de Padres Apologetas Griegos de Daniel Ruiz Bueno (Madrid: BAC); os negritos foram acrescentados.

Apologia I

65. (2) Terminadas as orações, damos mutuamente o ósculo da paz.
(3) Depois, ao que preside aos irmãos, se lhe oferece pão e um vaso de água e vinho, e tomando-os ele tributa louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças, por ter-nos concedido esses dons que d`Ele nos vêm. E quando o presidente terminou as orações e a ação de graças, todo o povo presente aclama dizendo: Amén.
(4) "Amén", em hebraico, quer dizer "assim seja".
(5) E quando o presidente deu graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam "ministros" ou diáconos, dão a cada um dos assistentes parte do pão e do vinho e da água sobre que se disse a ação de graças e o levam aos ausentes.

66. (1) E este alimento se chama entre nós "Eucaristia", da qual a ninguém lhe é lícito participar, senão ao que crê verdadeiramente nos nossos ensinamentos e se lavou no banho que dá a remissão dos pecados e a regeneração, e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
(2) Porque não tomamos estas coisas como pão comum nem bebida ordinária, mas como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por virtude do Verbo de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação; assim foi-nos ensinado que por virtude da oração ao Verbo que de Deus procede, o alimento sobre que foi dita a ação de graças – alimento do qual, por transformação, se nutrem o nosso sangue e as nossas carnes - é a carne e o sangue d`Aquele mesmo Jesus encarnado.
(3) E é assim que os Apóstolos nas Memórias, por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi a eles mandado, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: Fazei isto em minha memória, isto é o meu corpo. E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: Isto é o meu sangue, e que só a eles deu parte.

A ideia aqui é que do mesmo modo em que, pelo metabolismo ("transformação"), ou seja, pelo processo fisiológico de digestão, absorção e incorporação de substâncias, o pão e o vinho são uma fonte de nutrição física, ao serem santificados estes elementos pela oração e ação de graças possuem um efeito análogo no âmbito espiritual. Justino diz que nutrem os nossos corpos, e portanto conservam as suas propriedades químicas; mas afirma que em virtude da sua consagração, o pão e o vinho se tornam em mais que pão e vinho ordinários. Este ponto de vista da Eucaristia, chamado metabólico, parece ter sido o mais comum ao princípio. O tradutor e editor da Apologia na série Ante-Nicene Fathers cita o papa Gelásio I, de finais do século V: "O sacramento do corpo e do sangue de Cristo, que recebemos, é uma coisa divina, porque por ele nos tornamos participantes da natureza divina. No entanto, a substância ou natureza do pão e do vinho não deixa de existir." Não é de admirar que esta afirmação de Gelásio não tenha sido incluída no Denzinger... Também não aparece o seu decreto (contra os maniqueus) ratificando a recepção da Eucaristia sob as duas espécies [mencionado em The Catholic Encyclopedia, s.v. Gelasius I, pope]. Em contrapartida, sim, aparecem outros documentos seus.

(Prossegue Justino)

Apologia I

67. (3) No dia que se chama do sol é celebrada uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, quando o tempo o permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas.
(4) Depois, quando o leitor termina, o presidente, de viva voz, faz uma exortação e um convite a que imitemos estes belos exemplos.
(5) Seguidamente, nos levantamos todos juntos e elevamos as nossas preces, e estas terminadas, como já dissemos, se oferece pão e vinho e água, e o presidente, segundo as suas forças, faz igualmente subir a Deus as suas preces e ações de graças e todo o povo exclama dizendo "amén". A seguir vem a distribuição e participação, que se faz a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças e o seu envio por meio dos diáconos aos ausentes.

Diálogo com Trifão

No Diálogo, Justino mostra através de um longo debate a superioridade do cristianismo sobre o judaísmo. Numa parte trata de como os sacrifícios e ofertas do Antigo Pacto prefiguravam as coisas do Novo Pacto.

41. (1) A oferta da flor de farinha, senhores – prossegui - que se mandava fazer pelos que se purificavam da lepra, era figura do pão da Eucaristia que nosso Senhor Jesus Cristo mandou oferecer em memória da paixão que ele padeceu por todos os homens que purificam as suas almas de toda a maldade, a fim de que juntamente demos graças a Deus por ter criado o mundo e quanto nele há por amor do homem, por ter-nos livrado da maldade em que nascemos e ter destruído com destruição completa os principados e potestades daquele que, segundo o seu desígnio, nasceu passível.
(2) Daí que sobre os sacrifícios que vós então oferecíeis, diz Deus, por boca de Malaquias, um dos doze profetas: Não está a minha complacência em vós – diz o Senhor -, e os vossos sacrifícios não os quero receber das vossas mãos. Porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Porque grande é o meu nome nas nações – diz o Senhor -, e vós o profanais [Malaquias 1:10-12].
(3) Já então, antecipadamente, fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo o lugar, ou seja, do pão da Eucaristia e também do cálice da Eucaristia, ao mesmo tempo que diz que nós glorificamos seu nome e vós o profanais.

Como se pode ver, Justino de modo algum nega, antes afirma, que o que é oferecido na Eucaristia não seja pão e vinho, ainda que creia que depois da oração eucarística estes elementos não devem ter-se por pão e vinho ordinários (com o que concordo plenamente).

Diálogo com Trifão

117. (1) Assim, pois, Deus atesta de antemão que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que se lhe oferecem pelo nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, ou seja, os da Eucaristia do pão e do vinho, que celebram os cristãos em todo o lugar da terra. Em contrapartida, Deus rejeita os sacrifícios que vós lhe ofereceis por meio dos vossos sacerdotes, quando diz: E não receberei das vossas mãos os vossos sacrifícios, porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado – diz - nas nações e vós o profanais.

Aqui, como no texto anterior (Diálogo com Trifão 41) repete que aquilo que é oferecido em nome de Cristo é o pão e o vinho. Não há a menor sugestão da ideia de repetir o sacrifício do Senhor na cruz.

Diálogo com Trifão

(2) Vós continuais ainda a dizer persistentemente que Deus diz não receber os sacrifícios que se lhe ofereciam em Jerusalém pelos israelitas que naquele tempo a habitavam; e sim as orações que lhe faziam os homens daquele povo que se encontravam na dispersão, e estas orações são as que chama sacrifícios. Ora, que as orações e ações de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus, eu mesmo vo-lo concedo.
(3) Justamente são só esses que os cristãos aprenderam a oferecer mesmo na consagração do pão e do vinho, em que se recorda a Paixão que por seu amor sofreu o Filho de Deus...
(5) Pois não há raça alguma de homens, chamem-se bárbaros ou gregos ou com outros nomes quaisquer, ora habitem em casas ou se chamem nómadas sem habitações ou morem em tendas de pastores, entre os quais não sejam oferecidas pelo nome de Jesus crucificado orações e ações de graças ao Pai e fazedor de todas as coisas.

O que Justino diz aqui é conforme à interpretação metabólica já mencionada. Precisamente as orações e as ações de graças (o que significa "eucaristia") são os sacrifícios válidos; a eucaristia é também synaxis (reunião) e anamnesis (memória) da paixão de Cristo.

Da eucaristia como "atualização" do sacrifício de Cristo, nada; da transubstanciação, menos ainda!

31 de março de 2011

Resposta a “O Purgatório” de Catholic Answers [1]


O PURGATÓRIO

O catecismo da igreja católica define purgatório como uma "purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu", que é experimentada pelos "que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados" (CIC 1030). Observa que "esta purificação final dos eleitos… é absolutamente distinta do castigo dos condenados" (CIC 1031).

Efetivamente, o novo Catecismo da Igreja Católica (CIC) dá esta "definição". Para comparação vejamos o que diz o Denzinger, uma obra de referência reconhecida, sendo uma compilação de documentos oficiais até 1954. Os números remetem para os parágrafos de tais documentos; os que estão em itálico correspondem a proposições condenadas.

2) O que é o purgatório. Não consiste unicamente no temor do moribundo: 744; mas em penas satisfatórias sofridas pelas almas: 464, 530, 570 t, 693, 840, 983; sendo atormentadas pelo fogo: 570 t. Não pecam procurando alívio e horrorizando-se das penas: 779.

Enquanto a explicação light do CIC fala de "purificação" e apenas menciona, como tradição da Igreja, o "fogo purificador", acrescentando uma citação de Gregório Magno.

Entretanto, o Denzinger alude a documentos da Igreja que falam de penas e tormentos.

O primeiro documento que se cita em relação ao purgatório é a carta Sub catholicae de Inocêncio IV de 1254 e afirma (baseado em Mateus 12:32 e 1 Coríntios 1:13,15) a existência do purgatório e acrescenta:

... visto que dizem [os gregos] que o lugar desta purgação não lhes foi indicado pelos seus doutores com nome certo e próprio, nós que, de acordo com as tradições e autoridades dos Santos Padres o chamamos purgatório, queremos que daqui por diante se chame com este nome também entre eles. Porque com aquele fogo transitório são purgados certamente os pecados, não os criminais ou capitais, que antes não tenham sido perdoados pela penitência, mas os pequenos e miúdos, que mesmo depois da morte pesam, ainda que tenham sido perdoados em vida.

Denzinger # 456

Como pode ver-se, Inocêncio IV diz que o purgatório é um lugar, não uma condição nem um processo. E nesse lugar a purificação é realizada pelo fogo, chamado "transitório" para distingui-lo das chamas eternas do inferno.

Na carta Super quibusdam de 1351 dirigida por Clemente VI aos arménios, fazem-se uma série de perguntas que equivalem a uma profissão de fé; entre elas a seguinte:

Perguntamos se creste e crês que existe o purgatório, a que descem as almas dos que morrem em graça, mas não satisfizeram os seus pecados por uma penitência completa. Também se crês que são atormentadas com fogo temporariamente e, que logo que estejam purgadas, ainda antes do dia do juízo, chegam à verdadeira e eterna beatitude que consiste na visão de Deus cara a cara e em amor.

Denzinger # 570 t

De novo, segundo outro papa, o purgatório é um lugar onde as almas são atormentadas pelo fogo.

Em 1547, o Concílio de Trento, no seu Cânon 30 também implica que o purgatório é um lugar:

Se alguém disser que depois de recebida a graça da justificação, de tal maneira que é perdoada a culpa e é apagada a dívida de pena eterna a qualquer pecador arrependido, que não resta dívida alguma de pena temporal que tenha de pagar-se ou neste mundo ou no outro no purgatório, antes que possa abrir-se a entrada no reino dos céus, seja anátema.

Denzinger # 840

Em outras palavras, a absolvição sacerdotal é incompleta pois não tira uma suposta "pena temporal" pelo pecado que deve pagar-se ora por ações meritórias, ora com sofrimentos purificadores.

O mesmo Concílio, no seu Decreto sobre o Purgatório de 4 de Dezembro de 1563 reafirma uma vez mais a existência do purgatório (Denzinger # 983).

A purificação é necessária porque, como a Escritura ensina, nada impuro entrará na presença de Deus no céu (Apoc. 21:27) e, enquanto podemos morrer com os nossos pecados mortais perdoados, podem ainda ficar muitas impurezas em nós, especificamente pecados veniais e o castigo temporal devido aos pecados já perdoados.

Dois julgamentos

Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo" (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: "Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos". Neste juízo geral todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5).

Não há disputa quanto aos juízos individual e final. O caso é que a doutrina do purgatório supõe uma demora entre o veredicto do juízo individual e o acesso à presença de Deus, que carece de justificação bíblica.

Santo Agostinho disse, em A Cidade de Deus, que os "castigos temporais são sofridos por alguns nesta vida somente, por outros depois da morte, por outros em ambas as situações, agora e depois; mas todos antes do mais estrito juízo final".

Muito interessante especulação do ilustre bispo de Hipona. No entanto, não constitui o que eu chamaria evidência.

É entre os juízos particular e geral, então, que a alma é purificada das consequências restantes do pecado: "Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo" (Lucas 12:59).

Por favor! Extraordinária forma de meter à pressão a doutrina do purgatório numa parábola que fala de chegar a um acordo com o oponente a caminho do juiz ...

O seu significado fica claro no texto paralelo de Mateus:

Mateus 5:21-26

Ouvistes que foi dito aos antigos: "Não matarás"; e, "Quem matar será réu de juízo". Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irritar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.

Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que não sairás dali até que pagues o último centavo.

Aqui não se está a falar de penas purgatórias. Os versos 25 e 26 são um chamado a pôr-se em paz com os adversários em vez de arriscar as possíveis consequências, em forma de uma parábola tirada da vida quotidiana.

Isto o reconhece inclusive um comentário católico:

Pretendeu-se retirar do v. 26 de Mt a ideia do purgatório. Mas este não é mais que uma redação parabólica, popular e de tipo «sapiencial». É uma advertência de prudência humana, para os assuntos da terra, sem mais pretensões, e que se deve aproveitar para evitar outras complicações. Assim deve-se aproveitar, analogicamente, esta lição para a ética cristã (cf. Mt 18,34.35), mas sem matizações estritas.

Manuel de Tuya, O.P. Profesores de Salamanca: Biblia Comentada, 3a Ed. Madrid: BAC, 1977, vol. 5A, p. 78; negrito acrescentado.

Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro

Um dos argumentos que os anticatólicos usam frequentemente para atacar o purgatório é a ideia de que a Igreja católica faz dinheiro ao promulgar esta doutrina. Sem purgatório, afirmam, a Igreja iria à falência. Um bom número de livros anticatólicos expõe que a Igreja deve a maioria das suas receitas a esta doutrina. Mas os números não o sustentam.

...

Corto isto porque não tenho interesse algum em discutir números. O problema da doutrina do purgatório não é primariamente de se tratar de um subterfúgio para arrecadar dinheiro (ainda que o arrecade) ou exercer poder (ainda que o permita exercer).

O problema é que carece de base bíblica, e apesar disso transformou-se num dogma de assentimento obrigatório para os católicos que, para mais, justifica o sistema de indulgências e corrobora o caráter sacrificial da missa.

Uma "Invenção" Católica?

Os Fundamentalistas podem gostar de dizer que a Igreja católica "inventou" a doutrina do purgatório para fazer dinheiro, mas têm dificuldade para determinar exatamente quando. A maioria dos anticatólicos profissionais - os que dedicam a sua vida a atacar o "Romanismo" – parecem atribuir a culpa ao Papa Gregório o Grande, que reinou entre os anos 590-604 d.C.

Mas nunca consideram a petição de Mónica, a mãe de Santo Agostinho, que pediu ao seu filho, no século IV, que se lembrasse da sua alma nas suas missas. Isto não teria nenhum sentido se ela pensasse que a sua alma não beneficiaria destas orações, como seria o caso se ela estivesse no inferno ou na glória completa do céu.

O autor deste penoso panfleto desqualifica os seus oponentes descrevendo-os como "fundamentalistas" e "anticatólicos", mas carece por completo de autocrítica na hora de expor argumentos.

Quanto ao primeiro, as crenças privadas de Santa Mónica não são o mesmo que o ensino de um bispo de Roma na sua qualidade de tal. De modo que não pode comparar-se o que a mamã de Agostinho tenha acreditado com o que Gregório Magno ensinou. Primeiro disparate.

Atribuindo a doutrina ao Papa Gregório não se poderiam explicar as pinturas nas catacumbas, onde os cristãos, durante as perseguições dos primeiros três séculos, registaram as orações pelos mortos.

Segundo disparate: as catacumbas também não defendem o purgatório. Os registos mais primitivos indicam uma afirmação ou uma expressão de desejo (Descansa em Paz, etc), sem uma oração formal a Deus. Mais tarde se acrescentam orações no sentido de que Deus guarde a alma do defunto ou tenha misericórdia dela. Mas não se insinua a ideia de que as almas foram retidas em algum sítio intermédio de purgação.

Na verdade, alguns dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, como os Atos de Paulo e Tecla e o Martírio de Perpétua e Felicidade (ambos escritos durante o segundo século), referem a prática cristã da oração pelos mortos.

Deveria ter vergonha de chamar "escritos cristãos" ao apócrifo Atos de Paulo e Tecla.

Quanto ao Martírio de Perpétua e Felicidade não é do século II mas de princípios do terceiro, já que com toda a probabilidade ambas foram executadas durante a perseguição de Septímio Severo em 202.

De qualquer modo, no capítulo 2 desta obra Perpétua tem um sonho onde vê o seu irmãozinho Dinócrates, que tinha perecido aos 7 anos "tão corroído o seu rosto por um cancro que a sua morte causou repugnância a todos". No sonho vê-o a sofrer, e ora fervorosamente por ele até que o contempla alegre, fora do lugar de sofrimento onde estava. Não menciona absolutamente a presença de Deus.

O editor da obra faz a seguinte observação:

A avidez com que os escritores controversialistas latinos agarram esta fantasiosa passagem (a qual, na verdade, é subversiva de toda a sua doutrina acerca do purgatório...) enfatiza a absoluta ausência nos Padres primitivos de alguma referência a tal dogma; o qual, a ter existido, devia aparecer em cada referência ao estado dos mortos, e em cada relato da disciplina dos penitentes.

R.E. Wallis, PhD. Appendix. The Martyrdom of Perpetua and Felicitas. Em Ante-Nicene Fathers, 3:706.

Como bem diz Wallis de passagem, este texto vai contra o dogma católico pois não há a menor evidência de que Dinócrates, filho de pais pagãos e descrito por Perpétua como "meu irmão segundo a carne", tivesse sido batizado. Pelo que somente poderia encontrar-se, segundo a doutrina católica, ou no limbo dos infantes ou, se se o considerar em idade da razão, no inferno (isto é o que parece crer Perpétua). Mas segundo a doutrina católica, tanto o inferno como o limbo das crianças são estados definitivos e portanto não modificáveis pela intercessão.

Tais orações teriam sido oferecidas somente se os cristãos cressem no purgatório, mesmo se não utilizaram esse nome para ele. (Veja-se As Respostas dos Padres Católicos mais conhecidos para conhecer a existência do purgatório nas citações destes e de outras fontes cristãs antigas.)

Esta é uma inferência injustificada, que presume uma correção doutrinal da qual as supostas testemunhas do purgatório com toda a probabilidade careciam. A expressão de afeto através de rogar a Deus pelo descanso das almas dos seres amados falecidos não é evidência da existência de uma doutrina, muito menos de que seja verdadeira.

Porque não há protestos?

Sempre que uma data é definida para a "invenção" do purgatório, pode-se apontar evidências históricas para mostrar que a doutrina do purgatório existia antes dessa data.

Pois seria bom que começasse a exibi-las, porque o apresentado até aqui nem sequer insinua a existência de tal doutrina anteriormente ao século V ou VI.

Além disso, se em algum momento a doutrina foi tirada da cartola por um clérigo, por que a história eclesiástica não regista nenhum protesto contra ele?

Não é preciso supor que foi tirada da "cartola" por um clérigo para declará-la carente de fundamento. Agarrar-se ao mais fraco dos muitos argumentos que potencialmente podem esgrimir-se contra esta doutrina é refutar o mais fácil.

Um estudo da história das doutrinas indica que os cristãos dos primeiros séculos pegavam em armas (às vezes de forma especialmente sangrenta) se qualquer pessoa sugeria a menor mudança nas suas crenças.

Caramba, isto sim é novo... Quer dizer que os cristãos dos primeiros séculos não eram mártires mas guerrilheiros. Sem dúvida o autor está a tentar uma revisão radical da história da Igreja. Tertuliano devia ter dito que o sangue dos hereges, e não o dos mártires, é a semente da Igreja.

Eram pessoas extremamente conservadoras que testavam a verdade de uma doutrina perguntando: Era isto crido pelos nossos antepassados? Foi-nos dada através dos Apóstolos?

Esta é uma visão idealizada, quase bucólica, da história. A realidade é que através dos séculos se foram introduzindo doutrinas das quais não existe a menor evidência nem na Bíblia nem na Igreja pré-nicena (entre elas o purgatório).

Seguramente a crença no purgatório seria considerada uma grande mudança, se não tivesse sido crida desde o primeiro momento. Então, onde estão as evidências dos protestos?

Não existem. Não há nenhuma evidência, nos mais antigos documentos disponíveis para nós (ou, em outros mais tardios, a respeito deste tema), que "verdadeiros crentes" da época pós-apostólica falem do purgatório como uma "nova doutrina".

Este é um argumento tirado do silêncio, e portanto bastante fraco à falta de evidência positiva.

O argumento é cómico, porque nos documentos mais antigos não é de esperar protesto algum para uma noção ausente nessa época entre os mestres ortodoxos. Não era então nem nova nem velha doutrina. Era uma doutrina inexistente.

Por conseguinte, aqueles crentes entendiam que o ensinamento oral dos apóstolos, que os católicos chamam Tradição, e a Bíblia não só não contradizem a doutrina do purgatório, mas, na verdade, a confirmam.

Aqui o autor, depois de falhar em fornecer evidência sólida, dá asas à sua imaginação e visualiza os cristãos dos primeiros séculos abraçando devotamente a doutrina cuja existência não demonstrou.

Não é de admirar, pois, que os que negam a existência do purgatório tendam a abordar apenas superficialmente a história da crença.

E outros, não encontrando evidências da sua crença na história, se dedicam a inventá-las ou imaginá-las.

Preferem afirmar que a Bíblia fala somente de céu e inferno. Mas isto também não é assim. A Bíblia fala claramente de uma terceira condição, geralmente chamada o limbo dos Pais, onde os justos que morreram antes da redenção esperavam que o céu se abrisse para eles.

O "claramente" é por conta do autor.

Depois da sua morte e antes da sua ressurreição, Cristo visitou o limbo dos Pais e lhes pregou a boa nova de que o céu estaria agora aberto para eles (1 Pedro 3:19). Estas pessoas não estavam, portanto, no céu, mas também não experimentavam os tormentos do inferno.

Que simples! Que claro!

Qualquer pessoa que saiba alguma coisa do Novo Testamento sabe que esta é uma das passagens mais difíceis de interpretar.

O exegeta católico Ricardo Franco, S.I., observa: Este versículo é o que suscita maiores dificuldades, e não há palavra nele que não tenha interpretações diversas (La Sagrada Escritura - Profesores de la Compañía de Jesús, 2a Ed. BAC: Madrid, 1967, NT 3:282).

Claríssimo!

Alguns especularam que o limbo dos Pais é igual ao purgatório. Este pode ou não ser o caso. No entanto, se o limbo dos Pais não é o purgatório, a sua existência mostra que um estado temporal, intermédio, não é contrário à Escritura.

Se pretende provar o inexistente a partir do obscuro, não creio que chegue muito longe. Primeiro deveria fundamentar melhor o limbus patrum.

Veja-o desta maneira. Se o limbo dos Pais era o purgatório, então isto nos mostra diretamente a existência do purgatório.

Se tivesse demonstrado a existência do limbo dos Pais... pena por esse insignificante mas irritante detalhe.

Se o limbo dos pais era um estado temporal diferente, então a Bíblia diz pelo menos que tal estado pode existir. E, por conseguinte, prova que pode haver mais estados que o céu e o inferno.

De novo, ainda lhe falta começar a sua demonstração sobre o citado limbo. E se o conseguisse, somente demonstraria que um terceiro estado diferente de céu e inferno não é contrário à Escritura, o que está longe de ser uma evidência positiva em favor do purgatório.

"O purgatório não está na Escritura"

Alguns Fundamentalistas também argumentam, como se isso provasse realmente alguma coisa, "A palavra purgatório não se encontra em nenhum lado da Escritura." Isto é verdade, mas não refuta a existência do purgatório ou o facto de a crença nele ter sido parte sempre do ensinamento da Igreja. Trindade e Encarnação são palavras que também não estão na Escritura, contudo essas doutrinas se ensinam claramente nela. Igualmente, a Escritura ensina que existe o purgatório, mesmo se não utiliza a palavra e mesmo se 1 Pedro 3:19 se refere a um lugar diferente do purgatório.

Não é o mesmo, como pretende ao criar confusão o nosso interlocutor, dizer que a palavra purgatório não se encontra na Bíblia que dizer que a noção do purgatório está ausente das Escrituras.

Se somente se tratasse da ausência do termo latino, certamente que não haveria nenhuma objeção desde que a ideia fosse claramente ensinada.

Já o facto de a doutrina não ser ensinada pela Escritura é um assunto fundamental.

Apesar dos seus ingentes esforços por criar confusão, a verdade é que não demonstrou nem que a noção seja escritural nem que tenha sido crida sempre pela Igreja.

Cristo se refere ao pecador que "não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (12:32 Mt.), sugerindo que alguém se pode libertar depois da morte das consequências dos seus pecados.

Nem é preciso que lhe responda. Deixo que o faça um correligionário seu:

A expressão de [Mateus], «não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro», está perfeitamente documentada nos escritos rabínicos, e significa simplesmente nunca.

Manuel de Tuya, o.c., p. 200.

O facto de o pecado contra o Espírito Santo não se perdoar "nem agora nem nunca" não significa que haja pecados que podem pagar-se no além.

Mesmo que se admitisse por causa do argumento a interpretação proposta, não falaria de alguma pena de além-túmulo, mas de um perdão de além-túmulo!

Semelhantemente, Paulo diz-nos que quando formos julgados, as obras de cada homem serão provadas. E o que sucede se a obra de um homem justo falha na prova? "Ele sofrerá perda, se bem que ele mesmo será salvo, como se pelo fogo" (1 Cor 3:15). Ora, esta perda, esta pena, não se pode referir ao envio ao inferno, uma vez que ninguém é salvo ali; e ao céu também não pode referir-se, uma vez que não há sofrimento ("fogo") ali. Só a doutrina católica do purgatório explica esta passagem.

Extraordinária exegese... Leia o texto e veja quando será provada a obra de cada um. Paulo diz que «o dia» a provará, o que no contexto indica claramente não penas de além-túmulo num estado intermédio, mas o juízo final a seguir à Parusia.

Então, é claro, existe a aprovação da Bíblia de orações pelos mortos: "Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado" (2 Mac. 12:43-45). As orações não são precisas pelos que estão no céu, e ninguém pode ajudar os que estão no inferno. Isso significa que algumas pessoas devem estar numa terceira condição, pelo menos temporariamente. Este versículo ilustra tão claramente a existência do purgatório que, durante a reforma, os protestantes tiveram que arrancar os livros dos Macabeus das suas Bíblias para evitar validar a doutrina.

Passo por alto a calúnia, e digo que obviamente, não aceitamos este texto de Macabeus como evidência válida primeiro porque aprendemos dos Padres a não basear doutrinas nos livros chamados Apócrifos, Eclesiásticos ou, desde o século XVI, deuterocanónicos. E segundo, porque este texto também não apoia a intercessão como a apresenta a Igreja Católica.

A atitude de Judas Macabeu não está autorizada por nenhum ensinamento do Antigo Testamento, especialmente se se considerar que os judeus pelos quais orou e apresentou sacrifícios tinham morrido como consequência de ter conservado para si "objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, que a Lei proíbe aos judeus" (12:40). Em outras palavras, tinham violado o solene mandamento de Deus que está em Deuteronómio 7:25.

Por outro lado, embora as ações de Judas Macabeu pareçam muito bem ao autor não inspirado, não há a menor indicação de que Deus tenha respondido a semelhante intercessão em favor dos idólatras.

A oração pelos mortos por causa da idolatria, que segundo a teologia católica constitui pecado mortal, e portanto os judeus que morreram estariam no inferno e não no purgatório, tem pouco apoio a prestar à doutrina do purgatório.

As orações pelos mortos e a consequente doutrina do purgatório, foram parte da religião verdadeira desde antes da época de Cristo. Podemos mostrar que não só foram praticadas pelos judeus da época dos Macabeus, mas que inclusive foram conservadas pelos judeus ortodoxos de hoje, os quais recitam uma oração conhecida como o Kaddish durante onze meses depois da morte de um ser amado, de modo que o amado possa ser purificado.

Nada do que os judeus ortodoxos de hoje seguem é ensinado na Bíblia (na verdade, não admitem 2 Macabeus) mas na sua própria tradição talmúdica. No cristianismo a oração pelos mortos não implica necessariamente a doutrina do purgatório, como antes observei. Era uma expressão de desejo, agradecimento ou prece para que Deus guardasse as suas almas, não para que as privasse de "penas purificadoras".

Não foi a Igreja Católica que acrescentou a doutrina do purgatório. Pelo contrário, a mudança no ensinamento original teve lugar no protestantismo, que rejeitou uma doutrina que tinha sido crida sempre pelos judeus e pelos cristãos.

Fácil é dizer isto. Que bonito seria se o pudesse demonstrar!

Por que ir para o Purgatório?

Por que alguém irá para o purgatório? Para ser purificado, porque "nada impuro entrará [no céu]" (Apoc. 21:27). Alguém que não se libertou totalmente do pecado e dos seus efeitos está, em certa medida, "impuro". Através do arrependimento pode ter ganho a graça necessária para ser digno do céu, o que quer dizer, que foi perdoado e a sua alma está espiritualmente viva. Mas isso não é suficiente para ganhar a entrada no céu. Ele necessita ser purificado totalmente.

Se nos pomos a especular (e a doutrina do purgatório, que veio a ser "de fé" nasceu da especulação) Deus poderia purificar todos os fiéis defuntos de maneira instantânea sem ter que detê-los no purgatório. Esta ideia tem muito mais apoio que a invenção romana, já que Paulo diz que todos os crentes que estejam vivos quando Cristo voltar (entre os quais supomos que haverá muitos imperfeitos) serão transformados num instante, num abrir e fechar de olhos (1 Coríntios 15:51-52).

Os Fundamentalistas protestantes argumentam que "A Escritura claramente revela que todas as exigências da justiça divina no pecador se satisfizeram totalmente em Jesus Cristo. Também revela que Cristo redimiu totalmente ou resgatou todo o que se havia perdido. Os defensores de um purgatório (e da necessidade de oração pelos mortos) dizem, na realidade, que a redenção de Cristo foi incompleta. . . Tudo foi feito por nós por Jesus Cristo, não há nada a ser acrescentado ou ser feito pelo homem".

É inteiramente correto dizer que Cristo conseguiu toda a nossa salvação para nós na cruz. Mas isso não resolve a questão de como esta redenção se aplica a nós. A Escritura revela que se aplica a nós no curso do tempo através, entre outras coisas, do processo da santificação com o qual se torna santo o cristão. A Santificação envolve sofrimento (ROM 5:3-5), e o purgatório é a etapa final da santificação que alguns de nós temos necessidade de experimentar antes de entrarmos no céu. O purgatório é a fase final em que Cristo nos aplica a purificação redentora que ele conseguiu para nós pela sua morte na cruz.

Não existe nenhuma contradição.

A resistência fundamentalista à doutrina bíblica do purgatório presume que há uma contradição entre Cristo que nos redime na cruz e o processo pelo qual nos santificamos. Não há tal. E um fundamentalista não pode dizer que sofrendo na etapa final da santificação se entra em conflito com a suficiência do sacrifício de Cristo sem dizer que o sofrimento nas etapas iniciais da santificação também apresenta um conflito similar. O fundamentalista o tem ao contrário: O nosso sofrimento na santificação não é tirado da cruz. Ao contrário, a cruz produz a nossa santificação , que resulta no nosso sofrimento, porque "nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, mas de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça" (Heb. 12:11).

Nada impuro

O purgatório faz sentido porque existe o requisito de que uma alma que foi declarada justa deve estar realmente limpa antes que um homem possa entrar na vida eterna. Afinal, se uma alma culpável é meramente "aprovada", se o seu estado pecaminoso ainda existe mas é oficialmente ignorado, então ainda é uma alma culpável. Ainda está impura.

A teologia católica leva a sério a noção de que "nada impuro entrará no céu." Disto deduz-se que uma alma menos que purificada, mesmo se "aprovada" continua a ser uma alma suja e não serve para o céu. Necessita ser purificada ou "purgada" das suas imperfeições restantes. A purificação ocorre no purgatório. De facto, a necessidade de purgar é ensinada em outras passagens da Escritura, tal como 2 Tessalonicenses 2:13, a qual declara que Deus nos elegeu "para sermos salvos pela santificação do Espírito". A Santificação não é, portanto, uma opção, algo que pode ou pode não suceder antes que se consiga entrar no céu. É um requisito absoluto, como hebreus 12:14 indica que devemos esforçar-nos "pela santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor".

Sinceramente já me cansei de tanta chachada. Parece-me que não acrescenta nada de novo a não ser repetir argumentos para ver se convence algum incauto.

Somente acrescento que dificilmente o texto esgrimido de 2 Tessalonicenses ensina um purgatório, quando fala da santificação e da fé como parte dos dons ou meios para a salvação. Não diz nada de uma purificação de além-túmulo.

[1] O artigo original em inglês encontra-se publicado Aqui