10 de fevereiro de 2010

SUPREMACIA PAPAL NOS ESCRITOS ANTENICENOS?


A suposta "supremacia papal" antes do Concílio de Niceia

Segundo o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), na sua obra Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã que publicou imediatamente depois de deixar a Igreja de Inglaterra e ingressar na Igreja de Roma (1845), os textos patrísticos pré-nicenos sobre a supremacia do Papa, embora escassos, são mais numerosos e precisos do que aqueles que permitem defender a presença real na eucaristia.

Esta confissão é bastante significativa vindo do Cardeal Newman, cujo domínio da patrística era assinalável. Em todo o caso, os textos antenicenos que supostamente tratam da supremacia papal (ou seja, do bispo de Roma) também não são muito prometedores para a posição romanista.

A Epístola de Clemente aos coríntios

O documento patrístico mais antigo devido a um bispo de Roma é sem dúvida a Primeira Carta aos Coríntios de Clemente, que data de finais do século I. O sábio bispo escreveu uma extensa epístola por causa de distúrbios dentro da igreja coríntia contra os seus pastores legítimos. Este documento foi muito apreciado na antiguidade, a ponto que foi um candidato a ser incluído dentro do cânon do Novo Testamento. Pode-se ler a carta de cima a baixo, detalhadamente, e não se encontrará vestígio de nenhuma consciência de supremacia; apenas o desejo fervoroso de um santo bispo de que se restabelecesse a paz na turbulenta Igreja coríntia. Clemente ensina, admoesta, exorta; o que nunca faz é ordenar ou apelar à sua investidura como argumento.

Ireneu dá Roma como exemplo, mas nada diz da supremacia do seu bispo

O ilustre bispo susteve contra os hereges do seu tempo que a Igreja universal (católica) de Cristo expressa em todas as congregações locais dispersas pelo mundo, cumpriam fielmente a sua missão de ser "coluna e fundamento da verdade" ao preservar, proclamar e transmitir a autêntica tradição dos Apóstolos, com maior ou menor eloquência mas com uma mesma fidelidade. Diz Ireneu:

"Está portanto dentro da capacidade de todos os que queiram ver a verdade, contemplar claramente em toda a Igreja a tradição dos Apóstolos manifestada no mundo inteiro; e estamos em posição de reconhecer aqueles que pelos apóstolos foram constituídos bispos nas Igrejas, e a sucessão destes homens até aos nossos tempos; aqueles que nem ensinaram nem conheceram nada como os desvarios destes [os hereges]. Pois se os Apóstolos tivessem conhecido mistérios ocultos, os quais costumavam dar aos "perfeitos" privada e separadamente do resto, eles os entregariam especialmente àqueles a quem estavam confiando as próprias Igrejas. Pois eles [os Apóstolos] estavam desejosos de que estes homens fossem perfeitíssimos e irrepreensíveis em tudo, aqueles que deixaram após si como seus sucessores, entregando o seu próprio lugar de governo a estes homens; os quais, se cumprissem as suas funções honestamente, seriam um benefício, mas se apostatassem, a pior calamidade.

Uma vez que seria muito entediante num volume como este enumerar as sucessões em todas as igrejas, indicamos a tradição derivada dos apóstolos e a fé proclamada aos homens, transmitida até aos nossos dias por meio das sucessões de bispos, como se sustenta na grande, antiga e universalmente renomada igreja que foi estabelecida em Roma pelos dois mais gloriosos apóstolos Pedro e Paulo. Deste modo confundimos todos aqueles que de qualquer forma sustentam reuniões não autorizadas por malvada autodeterminação ou vanglória ou cegueira e erróneo juízo. Com esta igreja, por causa da sua superior autoridade, toda a igreja deve concordar – isto é, os fiéis em todos os lugares, toda a igreja na qual a tradição apostólica foi preservada pelos fiéis em todos os lugares" [Adv Haer III, 3:1-2].

Dever-se-á notar aqui que não há ponta de evidência no Novo Testamento de que a Igreja de Roma tenha sido fundada por Pedro ou por Paulo, porém o argumento é válido. Ireneu, que provinha da Ásia Menor e era bispo de Lyon, tomou a Igreja de Roma, de antiguidade e prestígio indiscutíveis, como o paradigma de uma congregação fiel à doutrina dos Apóstolos, como por outro lado o eram todas as demais Igrejas dispersas pelo Império.

Note-se que não há apelação a alguma autoridade única e suprema do bispo de Roma. Já antes na mesma obra, Ireneu tinha esgrimido essencialmente o mesmo argumento acerca da ortodoxia da igreja universal ou católica:

"A Igreja, apesar de dispersa por todo o mundo, até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos esta fé: num Deus, o Pai Omnipotente, Fazedor do céu, e da terra, e do mar, e de todas as coisas que neles há; e num Cristo Jesus, o Filho de Deus, que encarnou para nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou através dos profetas as dispensações de Deus, e as vindas, e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão na carne aos céus do amadíssimo Cristo Jesus, nosso Senhor, e a sua manifestação desde o céu na glória do Pai, "para reunir todas as coisas numa" e para ressuscitar toda a carne da raça humana inteira, de forma que perante Cristo Jesus, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, "todo o joelho se dobre, das coisas no céu, e das coisas na terra e das coisas debaixo da terra, e toda a língua o confesse" a Ele, e que Ele execute o justo juízo de todos; que Ele possa enviar as impiedades espirituais e os anjos que prevaricaram e se tornaram apóstatas, juntamente com os ímpios, e injustos, e malvados, e profanos de entre os homens, para o fogo eterno; mas possa, em exercício da sua graça, conferir imortalidade aos justos, e santos, e àqueles que guardaram os seus mandamentos, e perseveraram no seu amor, alguns desde o princípio e outros desde o seu arrependimento, e possa rodeá-los com sempiterna glória.

Como já observei, a Igreja, tendo recebido esta pregação e esta fé, apesar de dispersa pelo mundo inteiro, mesmo assim, como se não ocupasse senão uma casa, a preserva cuidadosamente. Ela também crê estes pontos exatamente como se possuísse uma só alma, e um e idêntico coração, e ela os proclama, e os ensina, e os transmite, com perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca. Pois ainda que as linguagens do mundo sejam distintas, o conteúdo da tradição é um só e idêntico. Pois as igrejas que foram plantadas na Germânia não creem nem transmitem nada diferente, nem aquelas de Espanha, nem aquelas nas Gálias, nem aquelas do Oriente, nem aquelas do Egito, nem aquelas na Líbia, nem aquelas que foram estabelecidas nas regiões centrais do mundo. Mas como o sol, essa criatura de Deus, é um só em todo o mundo, assim também a pregação da verdade resplandece em todos os lugares, e ilumina todos os homens que estão dispostos a vir a um conhecimento da verdade. Nem nenhum dos governantes das Igrejas, sem importar quão dotado possa ser no tocante à eloquência, ensina doutrinas diferentes destas (pois ninguém é maior do que o Mestre); nem, por outro lado, quem seja deficiente em poder de expressão infligirá dano à tradição. Pois sendo sempre a fé uma só, nem alguém que é capaz de dissertar sobre ela lhe fará adição alguma, nem a diminuirá quem possa dizer pouco" [Adv Haer I, 10, 1-2].

Aqui é interessante observar o resumo que Ireneu formula da fé apostólica e católica; coisas todas elas que se ensinam claramente nas Escrituras e que são cridas hoje nas Igrejas evangélicas. Em outro lado apresenta também uma espécie de credo, e depois continua com uma exposição do ensino cristão baseado nas Escrituras [Adv Haer III, 4, 2ss]. Por último, Ireneu não se cansa de afirmar que é nas Igrejas cristãs, estabelecidas pelos Apóstolos e por aqueles que lhes sucederam no pastorado, onde se achará a exposição fiel da doutrina apostólica que se encontra nas Escrituras.

"O verdadeiro conhecimento é a doutrina dos Apóstolos, e a antiga constituição da Igreja em todo o mundo, e a manifestação distinta do Corpo de Cristo conforme as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram aquela Igreja que existe em todos os lugares, e chegou até nós, sendo guardada e preservada sem nenhuma falsificação de Escrituras, por um sistema muito completo de doutrina, e sem receber adição nem subtração; e a leitura [da Palavra] sem falsificação, e uma exposição lícita e diligente em harmonia com as Escrituras, sem perigo nem blasfémia, e o preeminente carisma do amor, o qual é mais precioso do que o conhecimento, mais glorioso do que a profecia, e que excede todos os outros dons" [Adv Haer IV, 33,8].

Ora, o que Ireneu dizia no século II não é sustentável depois dos cismas do Oriente e Ocidente, pelo menos não no sentido que o nobre bispo lhe deu. Para além disso, as igrejas evangélicas acreditam nas coisas que segundo Santo Ireneu eram o núcleo da fé sustentada em todos os lugares.

A controvérsia pascal do século II e como o bispo de Roma teve que reconsiderar

O testemunho de Ireneu acerca da Igreja de Roma pode entender-se melhor à luz desta controvérsia e do papel que coube ao bispo de Lyon em restaurar a paz.

No Livro V, Capítulos 23 ao 25, da sua História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia apresenta um relato da controvérsia pascal, por causa das diferenças entre a forma de observar a Páscoa dos bispos asiáticos e outros, incluído o de Roma, Vítor. O asiático Polícrates escreveu a Vítor:

"Nós, pois, celebramos intacto este dia, sem acrescentar nem tirar nada. Porque também na Ásia repousam grandes luminárias ... Felipe ... João, o que se recostou sobre o peito do Senhor ...repousa em Éfeso. E em Esmirna, Policarpo, bispo e mártir. E Traseas, também ele bispo e mártir ... repousa em Esmirna. E é preciso falar de Sagaris, bispo e mártir, que descansa em Laodiceia, assim como do bem-aventurado Papírio e de Melitão, o eunuco, que ... repousa em Sardes esperando a visita que vem dos céus no dia em que ressuscitará dentre os mortos? Todos estes celebraram como dia da Páscoa o da décima quarta lua, conforme o Evangelho, e não transgrediam, mas seguiam a regra da fé.

E eu mesmo, Polícrates, o menor de todos vós, [sigo] a tradição de meus parentes ... Sete parentes meus foram bispos, e eu sou o oitavo... Portanto, irmãos, eu, com os meus sessenta e cinco anos no Senhor, que conversei com irmãos procedentes de todo o mundo e que recorri toda a Sagrada Escritura, não me assusto com os que tratam de impressionar-me, pois os que são maiores do que eu disseram: Importa mais obedecer a Deus do que aos homens... Poderia mencionar os bispos que estão comigo, que vós me pedistes que convidasse e que eu convidei. Se escrevesse os seus nomes, seria demasiado grande o seu número. Eles, mesmo conhecendo a minha pequenez, deram o seu comum assentimento à minha carta, sabendo que não é em vão que trago os meus cabelos brancos, mas que sempre vivi em Cristo Jesus".

Eusébio diz que em resposta Vítor, bispo de Roma, "tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou a condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem exceção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou aos bispos, que por sua parte exortavam-no a ter em conta a paz e a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se inclusive as palavras destes, que repreendem Vítor com bastante energia".

Uma de tais enérgicas cartas foi escrita por Ireneu, bispo de Lyon, admirador da Igreja de Roma (ver mais acima) e partidário da posição de Vítor quanto à celebração pascal mas não do seu procedimento contra os asiáticos. Eis aqui o que cita Eusébio:

"Efetivamente, a controvérsia não é somente sobre o dia, mas também sobre a própria forma do jejum, porque uns pensam que devem jejuar durante um dia, outros que dois e outros que mais; e outros dão a seu dia uma medida de quarenta horas do dia e da noite. E uma tal diversidade de observantes não se produziu agora, em nossos tempos, mas já muito antes, sob nossos predecessores, cujo forte, segundo parece, não era a exatidão, e que forjaram para a posteridade o costume em sua simplicidade e particularidade. E todos eles nem por isso viveram menos em paz uns com os outros, tanto quanto nós; o desacordo quanto ao jejum confirma o acordo quanto à fé. ... Entre eles, também os presbíteros antecessores de Sotero, que presidiram a igreja que tu reges agora, quero dizer Aniceto, Pio e Higino, assim como Telésforo e Sisto: nem eles mesmos observaram o dia nem permitiam aos que estavam com eles escolher, e nem por isso eles mesmos, que não observavam o dia, viviam menos em paz com os que procediam das igrejas em que se observava o dia... E nunca se rechaçou ninguém por causa desta forma, antes, os próprios presbíteros, teus antecessores, que não observavam o dia, enviavam a Eucaristia [em sinal de comunhão] aos de outras igrejas que o observavam. E encontrando-se em Roma o bem-aventurado Policarpo nos tempos de Aniceto, surgiram entre os dois pequenas divergências, mas em seguida estavam em paz, sem que sobre este capítulo se querelassem mutuamente, porque nem Aniceto podia convencer Policarpo a não observar o dia – como sempre o havia observado, com João, discípulo de nosso Senhor, e com os demais apóstolos com quem conviveu -, nem tampouco Policarpo convenceu Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia manter o costume dos presbíteros seus antecessores. E apesar de estarem assim as coisas, mutuamente comunicavam entre si, e na Igreja Aniceto cedeu a Policarpo a celebração da eucaristia, evidentemente por deferência, e em paz se separaram um do outro; e toda a Igreja tinha paz, tanto os que observavam o dia como os que não o observavam".

(Citações da edição preparada por Argimiro Velasco Delgado; Madrid: BAC, 1973).

Cipriano de Cartago

Diversos textos do bispo de Cartago citam-se como supostos testemunhos do século III a favor da supremacia papal; por exemplo, a sua declaração na Epístola 54 a Cornélio acerca de certos hereges:

"Depois de tais coisas como estas, ainda se atrevem – tendo sido nomeado para eles um falso bispo pelos hereges - a embarcar e levar cartas de pessoas cismáticas e profanas ao trono de Pedro, e à Igreja principal onde a unidade sacerdotal tem a sua fonte; e a não considerar que estes foram os romanos cuja fé foi louvada na pregação pelo Apóstolo, aos quais a falta de fé não podia aceder".

Elogiosas palavras que, se forem tomadas fora do contexto, parecem dizer mais do que São Cipriano quis. Com efeito, o bispo e mártir continua dizendo:

"Mas qual foi a razão da sua vinda e anúncio da feitura do pseudobispo em oposição aos bispos? Porque eles ora estão satisfeitos de como fizeram as coisas, e persistem na sua impiedade; ou, se estão descontentes e se retratam, sabem para onde podem voltar. Porque, como foi decretado por todos nós – e é igualmente equânime e justo - que o caso de cada um seja ouvido ali onde o delito foi cometido; e uma porção do rebanho foi confiada a cada pastor individual, a qual ele deve dirigir e governar, devendo dar conta dos seus atos ao Senhor; certamente não corresponde àqueles sobre quem estamos o correr por aí nem quebrantar a unidade dos bispos com a sua artificiosa e enganosa precipitação, mas o apresentar a sua causa ali onde eles podem ter tanto os acusadores como as testemunhas do seu crime; a menos que porventura pareça demasiado pouco a uns poucos homens abandonados e desesperados a autoridade dos bispos de África, que já os julgaram e finalmente condenaram, pela gravidade do seu juízo, estando a consciência daqueles atada em muitas ligaduras de pecado. O seu caso já foi examinado, a sua sentença já foi pronunciada; nem convém à dignidade dos sacerdotes ser culpados pela leveza de uma mente mutável e inconstante, quando o Senhor ensina e diz, "Que o teu sim seja sim, e que o teu não seja não".

Em outras palavras, depois dos seus elogios São Cipriano diz muito claramente que o caso destes hereges não deve ser julgado por Roma, já que isso é, de comum acordo entre os bispos (e não por algum dictum papal) prerrogativa dos bispos em cuja sede foi cometido o delito.

Os bispos africanos retificam um erro do bispo de Roma

E que este e não outro é o sentido das suas palavras não somente se depreende do contexto, fica claramente demonstrado em primeiro lugar por um incidente a propósito da destituição de dois bispos ibéricos. Os bispos depostos apelaram a Estêvão e obtiveram deste o apoio para a sua restauração. No entanto, aqueles que tinham deposto os bispos apelaram a Cipriano e aos bispos africanos, que ratificaram a condenação dos bispos depostos. Este último critério foi o que prevaleceu, e não o do bispo romano Estêvão:

"Consequentemente alguns dos seus companheiros bispos se puseram do seu lado, mas os outros levaram o caso perante São Cipriano. Uma assembleia de bispos africanos convocada por ele renovou a condenação de Basílides e Marcial, e exortou o povo a entrar em comunhão com os sucessores deles. Ao mesmo tempo, [os bispos africanos] se esmeraram em assinalar que Estêvão tinha agido como o tinha feito porque «situado à distância, e ignorante dos verdadeiros factos do caso» tinha sido enganado por Basílides."

Horace K. Mann, Pope St. Stephen I (Catholic Encyclopedia, vol. XIV)

Em bom português, com toda a delicadeza os africanos "desculparam" Estêvão por ter sido vítima de um engano por causa da sua ignorância da verdadeira situação.

A controvérsia batismal

Em segundo lugar, pela atitude que Cipriano e os demais bispos africanos, além do mais célebre bispo da Ásia, Firmiliano, adotaram quando Estêvão, o bispo de Roma, quis impor a sua opinião acerca do batismo dos hereges. Se era Estêvão ou Cipriano quem tinha razão não é relevante; o facto é que a autoridade do bispo de Roma não era tida por inquestionável, nem pouco mais ou menos, pelo resto dos bispos.

Eis aqui o que diz Cipriano:

"... já que quiseste que o que Estêvão, nosso irmão, respondeu às minhas cartas, fosse posto em teu conhecimento, enviei-te uma cópia da sua resposta; ao ler a qual observarás mais e mais o seu erro em esforçar-se por sustentar a causa dos hereges contra os cristãos, e contra a Igreja de Deus... Ele proibiu que alguém que proviesse de qualquer heresia fosse batizado na Igreja; ou seja, julgou o batismo de todos os hereges como justo e legítimo... E insistiu em que nada se inovasse ...; como se fosse um inovador quem, mantendo a unidade, defende para a única Igreja um único batismo; e não manifestamente o fosse quem, esquecendo a unidade, adota as mentiras e o contágio de uma lavagem profana... De onde é esta tradição? Até que ponto descende da autoridade do Senhor e do Evangelho, ou dos mandamentos e epístolas dos apóstolos? ... De modo que ninguém deve difamar os apóstolos como se eles tivessem aprovado o batismo dos hereges, ou tivessem tido comunhão com eles sem o batismo da Igreja, quando eles, os apóstolos, escreveram semelhantes coisas dos hereges... que obstinação é, ou que arrogância, preferir a tradição humana à ordenança divina, e não observar que Deus fica indignado e furioso todas as vezes que a tradição humana relaxa e substitui os preceitos divinos [cita Isaías 29:13; Marcos 7:13; 1 Ti 6:3-5].

Certamente uma excelente e legítima tradição é disposta diante de nós por nosso irmão Estêvão, a qual pode conceder-nos uma adequada autoridade! Pois no mesmo lugar da sua epístola ele acrescentou e continuou: 'Já que aqueles que são especialmente heréticos não batizam os que vêm a eles de uns para outros, mas os recebem em comunhão'. A este ponto de maldade chegou a Igreja de Deus e Esposa de Cristo, que segue os exemplos dos hereges; que com o propósito de celebrar os sacramentos celestiais, a luz deva obter a sua disciplina das trevas, e os cristãos devam fazer o que fazem os anticristos. Mas o que é esta cegueira da alma, o que é esta degradação da fé, a de recusar-se a reconhecer a unidade que provém de Deus Pai, e da tradição de Jesus Cristo o Senhor e nosso Deus!?

... Mas como nenhuma heresia, e igualmente nenhum cisma, estando fora [da Igreja] pode ter a santificação do batismo que salva, por que é que a amarga obstinação de nosso irmão Estêvão irrompeu até ao ponto de sustentar que nascem filhos de Deus do batismo de Marcião, ou até mesmo, de Valentino e Apeles, e de outros que blasfemam contra Deus o Pai; e de dizer que a remissão dos pecados é concedida no nome de Jesus Cristo onde se vociferam blasfémias contra o Pai e contra Cristo, o Senhor Deus?" [Ep. 73 a Pompeu]

Por seu lado Firmiliano, bispo de Cesareia da Capadócia, concorda de todo o coração com o africano, compara Estêvão com Judas, e afirma como coisa sabida de todos que a Igreja de Roma não mantém em tudo as tradições originais:

"Exceto que podemos neste assunto agradecer a Estêvão, que foi agora através da sua descortesia que recebemos a prova da tua fé e sabedoria. Mas ainda que tenhamos recebido o favor deste beneficio por causa de Estêvão, certamente Estêvão nada fez que mereça amabilidade e agradecimento. Pois Judas também não pode considerar-se digno por sua perfídia e traição com a qual impiamente procedeu em relação ao Salvador, como se ele tivesse sido a causa de tão grandes vantagens, que através dele o mundo e os gentios fossem libertados pela paixão do Senhor.

Mas deixemos de momento estas coisas que foram feitas por Estêvão, não seja que recordando a sua audácia e orgulho tragamos uma tristeza mais duradoura sobre nós por causa das coisas que impiamente fez. E sabendo, em relação a ti, que tu concluíste o assunto... demos graças a Deus por encontrarmos em irmãos tão distantes tal unanimidade de fé e verdade.

E certamente, em relação ao que Estêvão disse, como se os apóstolos proibissem que fossem batizados os que vêm da heresia, e tivessem entregue isto também para ser observado pelos seus sucessores, tu respondeste abundantissimamente, que ninguém é tão tolo para crer que os apóstolos transmitiram isto, quando é bem sabido que estas mesmas heresias, execráveis e detestáveis como são, surgiram posteriormente...

Mas que os que estão em Roma não observam em todos os casos aquelas coisas que foram transmitidas desde o princípio, e vãmente pretendem a autoridade dos apóstolos; qualquer um pode sabê-lo também do facto que, em relação à celebração da Páscoa, e em relação a muitos outros sacramentos de assuntos divinos, pode ver que há algumas diferenças entre eles, e que nem todas as coisas são observadas igualmente entre eles, como são observadas em Jerusalém, do mesmo modo que em muitas outras províncias também muitas coisas são variadas devido à diferença dos lugares e nomes. E no entanto, nem por isso há separação da paz e da unidade da Igreja Católica, como a que Estêvão se atreveu agora a realizar; quebrantando a paz contra vós, a qual os seus predecessores mantiveram sempre convosco em mútuo amor e honra, até difamando, com isto, os benditos apóstolos Pedro e Paulo, como se os mesmos homens que nas suas epístolas execraram os hereges, e nos advertiram que nos apartássemos deles, tivessem transmitido isto. Daí que é uma tradição humana a que defende os hereges, e afirma que eles têm um batismo, que pertence somente à Igreja." [Ep. 74, de Firmiliano a Cipriano (256)].

De modo que, na Igreja Católica antiga, o bispo de Roma tinha sem dúvida um lugar preeminente, mas de modo algum estava por cima de todos, e em mais de uma ocasião teve que ser repreendido pelos seus colegas.

Por fim, deve realçar-se que com exceção de Clemente, numa única carta autêntica, os bispos de Roma não tiveram um papel destacado como mestres da cristandade nos primeiros séculos. Distinguem-se os asiáticos e os africanos; mas dentre os que escreveram em Roma, nenhum foi bispo de tal cidade (na verdade, Hipólito foi transitoriamente "antipapa").

31 de janeiro de 2010

O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO ANTES DO CONCÍLIO DE TRENTO


A opinião amplamente maioritária, até ao século XVI, é que o cânon do AT, como regra de fé, era o hebraico, admitindo-se, ao mesmo tempo, que os livros chamados Apócrifos ou Eclesiásticos - e, depois, deuterocanónicos - são úteis para edificação, mas não para fundar doutrinas.

I. O cânon do Antigo Testamento: séculos II e III

Além do que pode inferir-se com base no uso de determinados livros, o primeiro autor cristão cuja opinião explícita do cânon do AT se conservou (graças a Eusébio de Cesareia) é Melitão, bispo de Sardes na Ásia Menor (m. cerca de 190). Na sua carta a Onésimo, dá um «catálogo dos escritos admitidos do Antigo Testamento» que corresponde, essencialmente, ao cânon hebraico, apenas com a omissão de Ester (Eusébio, História Eclesiástica IV, 26:12-14).

Um catálogo similar e provavelmente contemporâneo (século II), mas com o acréscimo de Ester, foi achado em 1875 no mesmo manuscrito em que se encontrou a Didaquê, ou Doutrina dos Doze Apóstolos, um dos mais antigos documentos cristãos extracanónicos.

Em meados do seguinte século, o destacado erudito bíblico Orígenes de Alexandria, que pode considerar-se com justiça o pai da crítica textual, afirmava: «Não se deve ignorar que os livros  testamentários, tal como os transmitiram os hebreus, são vinte e dois, tantos como o número de letras que há entre eles». Orígenes dá, depois, uma lista de tais livros, que corresponde quase exatamente ao cânon hebraico, exceto pelo acréscimo da «Carta de Jeremias», como parte do livro canónico do mesmo nome, e pela omissão dos Profetas menores (Eusébio, História Eclesiástica VI, 25:1-2). Este último aspecto é seguramente um deslize original ou de transcrição, já que o total referido é de 21 e a canonicidade de dito livro – os Doze Profetas Menores - nunca esteve em dúvida. Diz Orígenes explicitamente que os livros de Macabeus estão «à parte destes». Há que reconhecer, no entanto, que na prática, Orígenes se negou a excluir totalmente os apócrifos, porque eram usados na Igreja, como ele mesmo o explica na sua Carta a Júlio Africano.


II . O cânon do Antigo Testamento: séculos IV e V

Uma evidência da «fluidez» do cânon do AT naquele tempo, no que aos livros Eclesiásticos diz respeito, é indicada pelos mais antigos códices existentes: o Sinaítico e o Vaticano, ambos do século IV, e o Alexandrino, do seguinte século. Estes manuscritos que são cristãos, incluem o AT grego da Septuaginta, a  tradução judaica alexandrina pré-cristã, mas (além de perdas acidentais) diferem nos livros apócrifos/deuterocanónicos incluídos. O Sinaítico inclui, além de Tobite, Judite, 1 Macabeus, Sabedoria de Salomão e Eclesiástico (Sirá), 4 Macabeus (que nunca foi tido por canónico), enquanto exclui 2 Macabeus e Baruc. O códice Vaticano exclui todos os livros de Macabeus; pelo contrário, o Alexandrino inclui os quatro livros de Macabeus. Em outras palavras, nos manuscritos às vezes faltam livros tidos hoje por canónicos pela Igreja de Roma, e noutras ocasiões estão incluídos livros cuja canonicidade rejeita a citada Igreja.

Atanásio, bispo de Alexandria e campeão da ortodoxia nicena, na sua 39ª carta pascal, de 367, dá aos bispos africanos uma lista de livros do AT similar à hebraica, com a diferença de que inclui Baruc e a Carta de Jeremias e omite Ester. A lista é parecida à de Orígenes, ainda que ponha Rute separado de Juízes. Diz Atanásio:

"Mas para maior exatidão devo ... acrescentar isto: há outros livros fora destes, que não estão certamente incluídos no cânon, mas que foram desde o tempo dos padres dispostos para ser lidos aos que são recém-convertidos à nossa comunhão e desejam ser instruídos na palavra da verdadeira religião. Estes são a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirá [Eclesiástico], Ester, Judite e Tobite ... Mas enquanto os primeiros estão incluídos no cânon e estes últimos se leem [na igreja], não se deve fazer menção aos livros apócrifos. São a invenção de hereges que escrevem segundo a sua própria vontade ..."

Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series (= NPNF2), 4:551-552

Como pode ver-se, Atanásio tornou explícito o que Orígenes fez na prática: reconhecer essencialmente o cânon hebraico, enquanto admitia a  existência de livros que, embora fora do cânon, tinham valor para a  instrução. Por outro lado, aqueles que ele chama apócrifos são obra de hereges e devem ser excluídos.

Quatro anos antes de Atanásio escrever esta carta, houve um sínodo em Laodiceia, em cujo cânon 59 se estabelecia que, nas igrejas, deviam ser lidos apenas os livros canónicos do Novo e do Antigo Testamento. O cânon 60 dá uma lista essencialmente igual à de Atanásio, mas inclui o livro de Ester (NPNF2 14:158-159). É possível que este cânon 60 seja uma adição posterior.

Cirilo, bispo de Jerusalém entre 348 e 386, segue basicamente a opinião de Orígenes, mas inclui Baruc (NPNF2, 7:27).

Gregório Nacianceno (330-390) dá uma lista de livros canónicos em verso, onde reconhece vinte e dois livros; omite Ester (Hino 1.1.72.31). Anfilóquio, bispo de Icónio (m. cerca de 394) dá uma lista igual à de Gregório, mas acrescenta: «Juntamente com estes, alguns incluem Ester».

Epifânio, bispo de Salamina em Chipre (315-403) dá uma lista de 22 livros similar à anónima do século II mencionada mais acima (Sobre pesos e medidas, 23). Em outro lado, acrescenta como apêndice a uma lista de livros do Novo Testamento a Sabedoria de Salomão e a de Sirá (Panarion 76:5).

Jerónimo (346-420) foi secretário do bispo de Roma, Dâmaso, entre 382 e 384. Por pedido de Dâmaso, começou a rever os Salmos e os Evangelhos (ou talvez todo o Novo Testamento) da versão bíblica chamada Latina Antiga. Depois da morte de Dâmaso, em 384, começou uma peregrinação até que se estabeleceu em Belém (Palestina) em 386. Aí prosseguiu a sua tarefa. Começou com uma nova revisão do Saltério em latim conforme à Septuaginta (LXX). No entanto, rapidamente se convenceu de que devia trabalhar a partir do texto hebraico. A sua obra de tradução do AT foi completada em 405. Ao que parece não planeava incluir os apócrifos/deuterocanónicos, mas mais tarde cedeu ao costume prevalecente (eclesiástico) e realizou uma tradução de Tobite e Judite «do aramaico»; o resto dos apócrifos/deuterocanónicos não foi traduzido por ele, mas acrescentado por outros tal como se encontravam na Latina Antiga. Não é verdade que os incluísse por ordem de Dâmaso, que já estava morto há mais de 20 anos quando Jerónimo completou o seu trabalho.

Jerónimo enumera o cânon hebraico palestino exatamente e dá conta da dupla numeração como 24 ou 22, conforme Rute e Lamentações eram contados separadamente ou agregados, respetivamente, a Juízes e Jeremias. Depois escreve:

"Este prólogo às Escrituras pode servir como um prefácio com elmo [galeatus] para todos os livros que vertemos do hebraico para o latim, para que possamos saber – os meus leitores tanto como eu mesmo - que qualquer [livro] que esteja para lá destes deve ser reconhecido entre os apócrifos. Portanto, a Sabedoria, que é comumente atribuída a Salomão, e o livro do Filho de Sirá [Eclesiástico] e Judite e Tobias e o Pastor não estão no Cânon."

Jerónimo traçou a diferença entre os livros canónicos e os eclesiásticos como se segue:

"Como a Igreja lê os livros de Judite e Tobite e Macabeus, mas não os recebe entre as Escrituras canónicas, assim também lê Sabedoria e Eclesiástico para a edificação do povo, não como autoridade para a confirmação da doutrina."

De igual modo, sublinhou que as adições a Ester, Daniel e Jeremias (o livro de Baruc) não tinham lugar entre as Escrituras canónicas.

Agostinho (354-430), bispo de Hipona, foi o grande autor cristão quase  contemporâneo de Jerónimo. Agostinho possuía uma bagagem teológica que faltava a Jerónimo, mas em compensação este tinha um sentido crítico bíblico muito mais desenvolvido. Embora Agostinho reconhecesse a importância das línguas originais, não sabia hebraico, e instou na sua correspondência com Jerónimo a que este realizasse a sua nova versão a partir da Septuaginta. Dá uma lista do cânon do Antigo e Novo Testamentos em Sobre a Doutrina Cristã 2 (8):13, no qual inclui os apócrifos/deuterocanónicos. No entanto, em outras ocasiões Agostinho demonstra estar consciente da distinção entre o cânon e o uso eclesiástico:

Desde o tempo da restauração do templo entre os judeus já não houve reis, mas príncipes, até Aristóbulo. O cálculo do tempo destes não se encontra nas Santas Escrituras chamadas canónicas, mas em outros escritos, entre os quais estão os livros dos Macabeus, que não têm por canónicos os judeus, mas a Igreja...

A Cidade de Deus, XVIII:36

No entanto, como outros autores cristãos antes dele, na prática a distinção era frequentemente esquecida.

Concílios africanos. Estes realizaram-se em finais do século IV e princípios do V, e a autoridade de Agostinho parece ter sido decisiva. Não há documentos do Concílio de Hipona de 393, mas outro sínodo em Cartago (397) reafirma a lista de livros do AT e NT, este último tal como hoje o conhecemos (uma lista igual havia sido dada 30 anos antes por Atanásio na sua Carta Pascal), e o AT com os livros Eclesiásticos, incluído 1 Esdras (= 3 Esdras no Apêndice da Vulgata), que não forma parte do Cânon de Trento. A decisão foi ratificada no sexto Concílio de Cartago de 419. Não figuram as distinções que tinha indicado Agostinho (e outros antes dele).

O bispo de Roma Inocêncio I, numa carta ao bispo de Tolosa, Exupério, dá em 405 uma lista de livros do AT que inclui os apócrifos/deuterocanónicos (com 1 Esdras).

Rufino, contemporâneo de Jerónimo, no seu Comentário ao Credo dos  Apóstolos dá depois do Concílio de Cartago de 397 uma lista de livros do AT que corresponde exatamente ao cânon hebraico. Depois precisa:

Mas devia saber-se que há também outros livros que nossos padres não chamam canónicos, mas eclesiásticos, ou seja, Sabedoria, chamado Sabedoria de Salomão, e outra Sabedoria, chamada a Sabedoria do filho de Sirá, o último dos quais os latinos chamam pelo título geral de Eclesiástico ...

Ao mesmo tipo pertencem o livro de Tobite, e o livro  de Judite, e os livros dos Macabeus ... todos os quais se leram nas Igrejas, mas não se apela a eles para a confirmação da doutrina. Aos outros escritos lhes chamaram «Apócrifos»; estes não admitiram que se leiam nas Igrejas.

(NPNF2  3:558)

Atribui-se a Gelásio, bispo de Roma (492-496) um decreto acerca dos livros que devem ser recebidos e dos que não devem ser recebidos, que segundo alguns manuscritos é atribuído ao papa Dâmaso; no entanto, o tal Decreto parece ser uma compilação realizada em Itália no século VI.


III. O cânon do Antigo Testamento: séculos VI e VII

Um século mais tarde Gregório Magno, bispo de Roma  (590-604) continuava a insistir na distinção entre livros canónicos e eclesiásticos:

Em relação a tal particular não estamos a agir irregularmente, se dos livros, ainda que não canónicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46].

Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424; negrito acrescentado.

Que a questão do cânon do AT não estava, nem pouco mais ou menos, resolvida, confirma-o não só Gregório Magno, mas outros bispos, como os africanos Junilo e Primásio (que seguem Jerónimo), Anastácio de Antioquia e Leôncio, que reconhecem o cânon hebraico.

Sexto Concílio Ecuménico. No sínodo de Constantinopla, chamado Trulano, reunido em 692 como uma espécie de continuação do Sexto Concílio  Ecuménico, Terceiro de Constantinopla (680-681), foram ratificados os cânones dos Concílios anteriores, incluindo o de Cartago. Com isto poderia pensar-se que implicitamente foi ratificado o cânon do AT ali determinado. No entanto, no mesmo documento os bispos conciliares também ratificavam os «cânones» (cartas decretais) de Atanásio, Gregório Nacianceno e Anfilóquio, os quais, como vimos, defendiam um cânon virtualmente igual ao hebraico (NPNF2 14:361). De modo que não fica clara a posição destes bispos do VI Concílio Ecuménico acerca do cânon do AT; é possível que eles mesmos não tivessem uma posição uniforme.

No mesmo século João de Damasco (aprox. 675-749), na sua Exposição da Fé Ortodoxa (4:18) defende também o cânon hebraico, o qual explica com certo detalhe, e acrescenta:

Está também o Panaretus, isto é, a Sabedoria de Salomão, e a Sabedoria de Jesus, publicada em hebraico pelo pai de Sirá [=Eclesiástico] e posteriormente traduzido para o grego por seu neto, Jesus filho de Sirá. Estes  são virtuosos e nobres, mas não são contados nem foram depositados na arca.

(NPNF2 9:89-90)


IV. O Cânon do Antigo Testamento: Curso Posterior

Poderiam citar-se muitos outros autores entre os séculos IX e XV que defenderam explicitamente o cânon hebraico e respeitaram a distinção traçada por Jerónimo. Por exemplo, Beda,  Alcuíno, Nicéforo de Constantinopla, Rábano Mauro, Agobardo de Lyon, Pedro Maurício, Hugo e Ricardo de São Vítor, Pedro Comestor, João Belet, João de Salisbury, o anónimo autor da Glossa Ordinaria, João de Columna, arcebispo de Messina, Nicolau de Lira, William Occam, Afonso Tostado, bispo de Ávila, e o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros (editor da famosa Poliglota Complutense, o maior monumento à erudição bíblica católica do século XVI). A posição deste último era a seguinte:

O cardeal Jiménez de Cisneros produz em Espanha a sua monumental Bíblia poliglota chamada Complutense (1514–1517), com o texto latino da Vulgata no centro, o grego da Septuaginta de um lado e o hebraico massorético do outro, que representam respetivamente a Igreja Grega e a Sinagoga, e diz que o texto latino se imprime no meio «como Jesus foi crucificado entre dois ladrões». Mas quanto aos deuterocanónicos, que estão incluídos na Complutense, explica no seu Prefácio que são recebidos pela Igreja para edificação, mas não para fundamentar doutrinas, pelo que se vê que o ditame de São Jerónimo continua ainda em vigência.

(Gonzalo Báez-Camargo, Breve historia del Canon bíblico , 1980, p. 56; negrito acrescentado)

Duas importantes autoridades sobre a Bíblia, nessa mesma época, são Erasmo de Roterdão, o eminente humanista, e o cardeal Caetano. Erasmo dá a lista do cânon hebraico omitindo Ester. E dos deuterocanónicos, entre os quais coloca este livro, sem dúvida porque está considerando-o no seu texto grego (com adições) e não no hebraico, diz que «foram recebidos para o uso eclesiástico», mas que "seguramente (a Igreja) não deseja que Judite, Tobite e Sabedoria tenham o mesmo peso que o Pentateuco".

Eis aqui como resume a situação no Ocidente um autor católico:

Na Igreja latina, ao longo de toda a Idade Média achamos evidência de hesitação acerca do caráter dos deuterocanónicos. Há uma corrente amistosa para com eles, outra distintamente desfavorável para com a sua autoridade e sacralidade, enquanto oscilando entre ambas há um número de escritores cuja veneração por estes livros é temperada por certa perplexidade acerca da sua posição exata, e entre eles encontramos São Tomás de Aquino. Encontram-se poucos que reconheçam inequivocamente a sua canonicidade. A atitude prevalecente dos autores ocidentais medievais é substancialmente a dos Padres gregos.

(George J. Reid,  Canon of the Old Testament, em The Catholic Encyclopedia ,1913; negrito acrescentado)

O peso da evidência indica que por muito tempo existiu uma distinção  entre os livros canónicos (basicamente o cânon hebraico) e os  eclesiásticos, que correspondem aos apócrifos/deuterocanónicos.  Lamentavelmente, a nomenclatura nos autores antigos não é uniforme, e  assim o próprio Jerónimo chama «apócrifos» aos Eclesiásticos; mas às vezes reserva tal apelativo para os livros heréticos. De igual modo, havia confusão acerca do termo «canónico» que em sentido estrito costumava reservar-se para os livros considerados inspirados e santos de maneira singular, mas que com frequência  se referia a toda a coleção, incluindo os eclesiásticos. Este problema foi notado pelo Cardeal Tomás de Vio (Caetano):

Aqui concluímos nossos comentários sobre os livros históricos do Antigo Testamento. Pois o resto (isto é, Judite, Tobite, e os livros de Macabeus) são contados por Jerónimo fora dos livros canónicos. E são postos entre os apócrifos. Juntamente com Sabedoria e Eclesiástico, como é evidente do Prólogo com Elmo. E não te preocupes, como um erudito principiante, se acharem em qualquer lado, seja nos sagrados concílios ou nos sagrados doutores, estes livros reconhecidos como canónicos. Pois as palavras tanto dos concílios como dos doutores devem ser reduzidas à correção de Jerónimo. Ora, segundo o seu juízo, na carta aos bispos Cromácio e Heliodoro, estes livros (e quaisquer outros como eles no cânon da Bíblia) não são canónicos, isto é, não são da natureza de uma regra para confirmar assuntos de fé. Contudo, eles podem ser chamados canónicos, isto é, da natureza de uma regra para a edificação dos fiéis, como tendo sido recebidos e autorizados no cânon da Bíblia para este  propósito. Com a ajuda desta distinção tu podes ver o teu caminho claramente através do que diz Agostinho, e do que está escrito no Concílio provincial de Cartago.

(Sobre o último Capítulo de Ester)

Como pode ver-se, já bem dentro do século XVI, eminentes eruditos católicos ainda sustentavam, para o Antigo Testamento, a distinção entre livros Canónicos propriamente ditos (os do cânon hebraico) e livros Eclesiásticos (num nível inferior e, portanto, não canónicos em sentido estrito).

O cânon do Antigo Testamento que a Igreja Católica determinou, para sua total satisfação, não somente difere do hebraico e protestante, mas é diferente do aceite em Cartago e do admitido pelas diversas igrejas ortodoxas orientais. A decisão dogmática do Concílio de Trento pôs (pelo menos para os católicos) fim a esta distinção muito razoável e sustentada pela maioria durante séculos.

25 de janeiro de 2010

EVIDÊNCIA DO CÂNON HEBRAICO ANTES DA DISCUSSÃO DE JÂMNIA


O conjunto da evidência mostra que, nos tempos de Jesus, os hebreus já sabiam que livros [do AT obviamente] eram canónicos e quais não. Depois de Jesus, houve entre os judeus apenas algumas discussões acerca da permanência de certos livros no cânon, como Ester e Eclesiastes (que permaneceram), mas em caso algum se considerou acrescentar algo.

Eis aqui uma apresentação da evidência, ordenada de forma aproximadamente cronológica.


I.  O testemunho dos Livros Eclesiásticos (Deuterocanónicos ou Apócrifos)

1. Jesus ben Sirá (= Eclesiástico).

Este é o meu deuterocanónico/apócrifo favorito (sem ironia). No prólogo do tradutor, lemos: "Muitos e excelentes ensinamentos nos foram transmitidos pela Lei, pelos Profetas, e por outros Escritos que se lhes seguiram; e, por causa disso, convém louvar Israel pela sua instrução e pela sua sabedoria. E, como não se deve aprender a ciência apenas pela leitura ... Jesus, meu avô, depois de se ter aplicado com afinco ao estudo da Lei, dos Profetas e dos outros Livros dos nossos antepassados … quis também escrever alguma coisa de instrução e de sabedoria..."  Eclesiástico, Prol. 1-12.

Aqui menciona-se, num documento do século II a.C., a divisão tripartida do AT – Lei, Profetas e outros Escritos - da qual o autor fala como coisa conhecida aos seus leitores. Mas, além disso, prossegue: "Sois, portanto, convidados a ler este livro com benevolência e atenção, e a ser indulgentes pois, não obstante todo o engenho com que nos aplicámos, parece não termos conseguido traduzir adequadamente a ênfase de certas expressões." Eclesiástico, Prol. 15-20.

Este tipo de desculpa por um trabalho possivelmente defeituoso nunca se ouve em nenhum livro do cânon palestino.

2. II Macabeus

Igualmente, noutro apócrifo/deuterocanónico, 2 Macabeus, se apela à boa vontade do leitor: "..assumimos este encargo [de resumir] para obter gratidão de muitos. E, deixando ao autor o cuidado de narrar detalhadamente os assuntos, nós esforçámo-nos por expô-los em forma resumida." (2:27-28). "...terminarei também com isto a minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; mas se está imperfeita e medíocre, foi o que pude fazer." 2 Macabeus 15:37-38.

Os autores dos livros canónicos falavam da parte de Deus e diziam o que Ele lhes mandava, sem nenhum tipo de desculpas. É claro que os autores destes livros tinham consciência de estar a escrever por sua própria conta.

3. I Macabeus

O primeiro livro dos Macabeus, um dos que são considerados deuterocanónicos pela Igreja Católica, dá testemunho em repetidas oportunidades da convicção do seu autor da ausência de profetas no seu tempo. As seguintes citações (com negrito acrescentado) provêm da Bíblia de Jerusalém: "Deliberaram sobre o que se deveria fazer com o altar dos holocaustos que estava profanado. Com bom parecer acordaram demoli-lo para evitar um opróbrio, dado que os gentios o tinham contaminado. Demoliram-no, pois, e depositaram as suas pedras no monte da Casa, num lugar conveniente, até que surgisse um profeta que desse resposta sobre elas" 1 Macabeus 4:44-46. "Com a morte de Judas assomaram os sem lei por todo o território de Israel e levantaram a cabeça todos os que praticavam a iniquidade. Houve então uma fome extrema e o país se passou para eles... Tribulação tão grande não sofreu Israel desde os tempos em que deixaram de aparecer profetas" 1 Macabeus 9:23s, 27. "Por conseguinte, o rei Demétrio lhe concedeu [a Simão] o sumo sacerdócio ... aos judeus e aos sacerdotes lhes tinha parecido bem que fosse Simão o seu hegúmeno e sumo sacerdote para sempre até que aparecesse um profeta digno de fé..." 1 Macabeus 14:38,41.

O autor do livro é um judeu palestino que provavelmente escreveu não muito depois dos acontecimentos que narra, provavelmente em finais do século II a.C. Segundo a Introdução da Bíblia de Jerusalém, com as devidas precauções, 1 Macabeus «é um documento precioso para a história daquele tempo».

Uma vez que os profetas eram os homens que falavam da parte de Deus, a convicção de uma ausência de profetas no seu próprio tempo, juntamente com a esperança de que no futuro reapareceriam, é um forte testemunho a favor da ideia de que em finais do século II a.C. já se considerava fechado o cânon das Escrituras.

II.  O testemunho de Filão de Alexandria

Filão de Alexandria foi um destacado filósofo judeu helenista (ca. 20 a.C. – ca. 50 d.C.). É uma testemunha importante do cânon por três razões (1) a sua vida se sobrepõe no tempo com a vida terrenal de Jesus; (2) era judeu e vivia em Alexandria, o suposto berço do hipotético cânon mais extenso do Antigo Testamento; e (3) conhecia e utilizava profusamente as Escrituras.

David M. Scholer, no prólogo da tradução das obras completas de Filão para o inglês, faz as seguintes observações:

«A preocupação de Filão de interpretar Moisés mostra constantemente tanto a sua profunda devoção e compromisso com a sua herança, crenças e comunidade judias, como também reflete o seu uso aberto de categorias e tradições filosóficas ... A discussão erudita de se Filão é primariamente judeu ou grego está na realidade desorientada. No tempo de Filão muito do judaísmo estava significativamente helenizado. O compromisso de Filão com a Lei de Moisés e a paixão por ela era genuíno e reitor. Filão bebeu também profundamente na fonte filosófica da tradição platónica e a viu como fortalecedora e aprofundadora do seu entendimento da Lei de Moisés...

Filão é significativo para a compreensão do judaísmo helenístico do primeiro século d.C. É a principal figura literária sobrevivente do judaísmo helenizado do período do segundo Templo do judaísmo antigo. Filão é crítico para entender muitas das correntes, temas e tradições interpretativas que existiam na Diáspora e no judaísmo helenístico. Filão confirma o caráter multifacetado do judaísmo do segundo Templo; não era certamente um fenómeno monolítico. O judaísmo, apesar das suas preocupações pela pureza e pela identidade étnica em relação à Lei de Moisés, também achou considerável liberdade para participar em muitos aspectos da cultura helénica, como tão claramente o evidencia Filão.

Filão é também valioso para entender a igreja primitiva e os escritos do Novo Testamento, especialmente os de Paulo, João e Hebreus. Às vezes esquece-se que os documentos do Novo Testamento foram escritos em grego por autores que eram judeus (agora comprometidos a entender Jesus como Cristo e Senhor), que eram parte da cultura helenística do mundo greco-romano. A maior parte das igrejas primitivas refletidas e descritas no Novo Testamento eram parte da trama social do mundo helenístico greco-romano. Precisamente porque Filão é um judeu helenístico, é essencial para os estudos do Novo Testamento. A Igreja cristã foi a preservadora primária dos escritos de Filão, que era virtualmente desconhecido para a tradição judaica, desde logo, do seu próprio tempo, até ao século XVI».

The Works of Philo- Complete and unabridged. Transl. C.D. Yonge; New Updated Version. Peabody: Hendrickson, 1993, pp. XIII; negrito acrescentado.


Mediante a interpretação alegórica, Filão propôs uma forma de compatibilizar os ensinamentos dos filósofos pagãos com a revelação bíblica. Por esta razão, nos seus escritos encontra-se um grande número de citações bíblicas. A maior parte das suas citações bíblicas provêm da Torah ou Pentateuco, embora também cite Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, os Profetas Menores Oseias e Zacarias, os Salmos, Job, Provérbios e o rolo de Crónicas-Esdras-Neemias.

No índice da edição das suas obras completas já citada (pp. 913-918), contam-se aproximadamente mil citações das Escrituras, o que dá uma ideia da intensidade do uso destes textos por sua parte. Dados todos os factos assinalados acerca de Filão, pode ser uma grande surpresa para alguns que este judeu helenístico, contemporâneo de Jesus, que viveu precisamente em Alexandria, nunca cita nenhum dos livros que supostamente pertenciam ao "cânon alexandrino".

A ausência de citações dos livros deuterocanónicos em Filão é ainda mais notável quando se pensa que alguns destes livros, como por exemplo, a Sabedoria de Salomão ou o Eclesiástico, teriam fornecido excelente material documental para a sua própria tese da compatibilidade entre a filosofia grega e a revelação bíblica. O facto de Filão não ter usado estes livros, que de certeza lhe eram conhecidos, é muito difícil de explicar se não houvesse em Alexandria um consenso acerca dos livros canónicos essencialmente igual ao da Palestina.

III. O testemunho do Targum

Pierre Grelot explica:

"A palavra targum passou para o aramaico e depois para o hebraico a partir do acádio targumanu, o «intérprete», que se designava a si mesmo com uma palavra de origem estrangeira (hitita). No judaísmo é utilizada para falar de todo um sector da literatura rabínica que apresenta «traduções interpretativas» dos livros sagrados. Traduções, porque os livros sagrados continuam a estar na sua base; trata-se de torná-los inteligíveis a pessoas que não leem o hebraico, oralmente ou por escrito; interpretativas, porque não se trata, pelo menos muitas vezes, de traduções literais, mas de textos em que a interpretação do original incorporou-se à leitura mediante ampliações mais ou menos extensas".

Pierre Grelot, Los tárgumes. Textos escogidos. Estella: Verbo Divino, 1987, p. 5


O uso destas paráfrases em aramaico das Escrituras hebraicas incorporou-se ao culto da sinagoga para tornar inteligíveis os textos sagrados para quem não falava hebraico, especialmente para a liturgia dos hebreus de língua aramaica. Existem targumes de quase todos os livros do Antigo Testamento segundo o cânon hebraico, dos séculos II a.C a I d.C.: da Torá, dos Profetas Anteriores e Posteriores, dos Cinco Rolos (Megillot = Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester) e dos Escritos (Salmos, Provérbios, Job, e Crónicas).

Não há, em contrapartida, targumes antigos que expliquem os livros deuterocanónicos. Os poucos que existem são tardios, baseiam-se no texto grego de Tobite e nas adições a Daniel e na oração de Ester. Portanto, o uso das Escrituras parafraseadas na liturgia hebraica, corrobora a autenticidade do cânon hebraico do Antigo Testamento.

IV.  O testemunho do Novo Testamento

Embora o exato processo de agregação dos deuterocanónicos/apócrifos ao cânon hebraico pelo uso da Igreja antiga gere muitas interrogações, o que fica claro é que tais adições carecem por completo de autoridade por parte do Senhor Jesus, dos Apóstolos ou dos autores do Novo Testamento, que não a deram nem explicitamente nem por via de exemplo através de citá-los como Escrituras.

Em contrapartida, é uma evidência indireta do cânon hebraico palestino, sobre o qual claramente existia um consenso no século I, o modo em que Jesus fez referência ao primeiro e ao último mártir segundo a ordem tradicional hebraica:

"Por isso disse a Sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns os matarão e perseguirão, para que se peçam contas a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo, desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o santuário. Sim, vos asseguro que se pedirão contas a esta geração." Lucas 11:49-51

Jesus refere-se aqui a todos os justos e enviados de Deus que sofreram o martírio segundo as Escrituras. A frase grega apo haimatos Abel eôs haimatos Zachariou, «desde (o) sangue de Abel ... até (o) sangue de Zacarias» (Lucas 11:51 = Mateus 23:35) parece abarcar a totalidade dos mártires do Antigo Testamento, desde Abel às mãos do seu irmão Caim, até o martírio de Zacarias, que é narrado em 2 Crónicas:

"O Senhor enviou-lhes profetas que deram testemunho contra eles para que se convertessem a ele, mas não lhes deram ouvidos. Então o Espírito de Deus revestiu Zacarias, filho do sacerdote Joiadá que, apresentando-se diante do povo, lhes disse: «Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do Senhor? Não tereis êxito, pois, por ter abandonado o Senhor, ele vos abandonará a vós». Mas eles conspiraram contra ele, e por ordem do rei, o apedrejaram no átrio da casa do Senhor". 2 Crónicas 24:17-21

No entanto, a referência a Abel e Zacarias como o primeiro e o último mártir, respetivamente, registados nas Escrituras não é cronológica. Há pelo menos um mártir posterior a Zacarias, a saber, Urias, filho de Semaías, que foi assassinado no século VII a.C., durante o reino de Joaquim (Jeremias 26:20-24); entretanto Zacarias tinha sido martirizado muito antes, no século IX a.C., durante o reino de Joás em Judá.

Como deve entender-se então a referência de Jesus a Abel e Zacarias? A amplitude da lista de mártires não é evidente no Antigo Testamento das nossas versões modernas, pois a ordem dos livros difere da ordem hebraica. No Antigo Testamento da maioria das edições modernas, os livros dos Profetas aparecem no final, começando por Isaías e finalizando com Malaquias. Em contrapartida, os 24 livros do cânon hebraico (que correspondem aos 39 das Bíblias protestantes) se ordenavam como se segue:

I.   A Torah (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio)
II.  Os Profetas
A. Profetas anteriores: Josué, Juízes, Samuel I e II, Reis I e II)
B. Profetas posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
III. Os Escritos (Salmos, Provérbios, Job, Cantares, Rute, Lamentações, Qohélet [Eclesiastes], Ester, Daniel, Esdras-Neemias, Crónicas I e II).

Em outras palavras, aqui Crónicas figurava no final da lista. A abrangente expressão de Jesus adquire sentido quando, no contexto de juízo pelo sangue inocente derramado, se entende como uma referência ao primeiro e último assassinato registado nas Escrituras, segundo a ordem tradicional do cânon palestino: dizer «desde Abel até Zacarias» era equivalente a «de Génesis a Crónicas», ou seja desde o primeiro até ao último livro do cânon do Antigo Testamento. É como se hoje disséssemos, segundo a ordem tradicional do nosso Antigo Testamento, «De Génesis a Malaquias». Logo, estas palavras do Senhor implicitamente corroboram o cânon hebraico, e não o chamado alexandrino.

Uma evidência adicional do quanto dito provém do facto de que nos grandes unciais Sinaítico (Alef, século IV) e Alexandrino (A, século V) que contêm livros dos Macabeus, estes se encontram depois de Crónicas. Portanto, se Jesus tivesse admitido o suposto cânon alexandrino (com deuterocanónicos) os últimos mártires, tanto cronologicamente como segundo a ordem dos livros, seriam os heróis macabeus como Judas ou Jónatas.

Deve notar-se que, embora o Novo Testamento não dê um cânon ou lista autorizada de livros considerados inspirados para o que chamamos Antigo Testamento, a evidência indireta sugere firmemente um cânon definido e já fixado de livros a cuja autoridade era válido apelar.

«Primeiro, é difícil exagerar a importância dos nomes ou títulos atribuídos aos escritos do AT pelos autores do NT: assim, "Escritura" (João 10:35; 19:36; 2 Pedro 1:20), "as Escrituras" (Mateus 22:39; Atos 18:24), "Santas Escrituras" (Romanos 1:2), "escritos sagrados" (2 Timóteo 3:15), "Lei" (João 10:34; 12:34; 15:25; 1 Coríntios 14:21), "a Lei e os Profetas" (Mateus 5:17; 7:12; 22:40; Lucas 16:16; 24:44; Atos 13:15; 28:23). Tais nomes ou títulos, embora não definam os limites do cânon, certamente supõem a existência de uma coleção completa e sagrada de escritos judeus que já estão segregados como separados e fixos.

Uma passagem (João 10:35) na qual se usa o termo "escritura" parece referir-se ao cânon do AT no seu conjunto: "e a Escritura não pode ser anulada". De igual modo a expressão "a lei e os profetas" é frequentemente usada num sentido genérico referindo-se a muito mais que meramente a primeira e segunda divisões do AT; parece antes referir-se à antiga dispensação no seu conjunto; mas o termo "a Lei" é o mais geral de todos. Aplica-se frequentemente a todo o AT, e aparentemente tinha nos tempos de Jesus entre os judeus um lugar similar ao que o termo "a Bíblia" tem entre nós. Por exemplo, em João 10:34; 12:34; 15:25, textos dos profetas ou mesmo dos Salmos são citados como parte de "a Lei"; em 1 Coríntios 14:21 também, Paulo fala de Isaías 28:11 como de uma parte de "a Lei". Estes nomes e títulos, consequentemente, são extremamente importantes; jamais são aplicados por escritores do NT aos apócrifos».

G.L. Robinson e Roland K. Harrison, Canon of the Old Testament. Em G.W. Bromiley, Ed.: International Standard Bible Encyclopedia, Rev. Ed. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1979, 1: 597; negrito acrescentado.


Quase todos os livros do AT segundo o cânon palestino são citados individualmente no NT. As exceções são Ester, Eclesiastes, Cantares, Esdras-Neemias e os profetas menores Obadias, Naum e Sofonias. No entanto, estes três últimos faziam parte de um mesmo rolo dos doze profetas "menores" que sim é citado; Esdras e Neemias estavam unidos a Crónicas, que também é citado. Quanto a Ester, Eclesiastes (Qohélet) e Cantares, provavelmente os autores do NT não tiveram necessidade de usá-los. Em resumo, se se os toma pelos seus títulos, citam-se aproximadamente 80% dos livros do cânon hebraico, percentagem que se eleva a 90% se se os considera segundo os rolos de que faziam parte.

Em marcado contraste, não há nem tão-só uma citação de um livro deuterocanónico como Escritura em todo o Novo Testamento. O caso dos deuterocanónicos/apócrifos é que existem muitas alusões a eles no NT (ver a lista exaustiva de Craig A. Stevens, Noncanonical writings and New Testament Interpretation. Peabody: Hendrickson, 1993; Appendix 2, pp. 190-219), o que indica que não eram desconhecidos para os autores sagrados.

Em vista deste facto é bastante significativo que, à semelhança de Filão de Alexandria, eles nunca os citam como Escritura ou equivalente. Na verdade, os autores do NT citaram de outras fontes, incluindo autores pagãos e obras pseudoepigráficas nunca aceites pelos cristãos de nenhuma denominação, às quais, evidentemente, também não chamam "Escritura".

V. O testemunho do Apocalipse de Esdras

O Apocalipse de Esdras (4 Esdras) é uma obra pseudoepigráfica escrita em grego no século I da nossa era, que reflete tradições consideravelmente mais antigas. Segundo este escrito hebreu, Esdras recebe o total da revelação divina em 94 livros que dita a cinco amanuenses. Ao concluir a tarefa, ao cabo de quarenta dias, recebe uma instrução de Deus. Claro que a história é fictícia, mas o dado interessante refere-se ao número de livros nas Escrituras hebraicas:

"E aconteceu que quando se cumpriram os quarenta dias, o Altíssimo falou comigo, e me disse: Os vinte e quatro livros que escrevestes primeiro, torna-os públicos para que aqueles que são dignos e aqueles que não são dignos possam ler daí; mas os [outros] setenta os guardarás e os entregarás aos sábios do teu povo".

The Apocalypse of Ezra. Transl. G.H. Box. London: SPCK, 1917; 14:45-46, p. 113; negrito acrescentado.

Em outras palavras, para o autor havia 24 livros inspirados – o mesmo número que no cânon palestino - que eram para leitura pública. Os 24 livros do cânon hebraico correspondem aos 39 do AT das Bíblias protestantes, já que 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crónicas, os Doze Profetas menores e Esdras-Neemias se contavam cada um como um livro.
Assim:

- A Torah:  (1) Génesis,  (2) Êxodo, (3) Levítico,  (4) Números, (5) Deuteronómio.
- Os Profetas Anteriores: (6) Josué, (7) Juízes, (8) Samuel I e II, (9) Reis I e II
- Os Profetas Posteriores: (10) Isaías, (11) Jeremias, (12) Ezequiel, (13)
- Os Doze (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
- Os Escritos: (14) Salmos, (15) Provérbios, (16) Job, (17) Cantares, (18) Rute, (19) Lamentações, (20) Qohélet [Eclesiastes], (21) Ester, (22) Daniel, (23) Esdras-Neemias, (24) Crónicas I e II.

VI.  O testemunho de Flávio Josefo

Na mesma época de 4 Esdras (finais do século I d.C.) o historiador judeu romanizado Josefo (37-100) publicou Contra Apião ou Antiguidades dos Judeus. Diz Paul L. Maier:

"Josefo continua sendo a nossa única fonte sobrevivente para tanta informação extrabíblica, e nenhuma lista lhe faria justiça. Dá também uma luz cheia de significado sobre as táticas romanas militares e de assédio, assim como alguns detalhes singulares acerca dos imperadores júlio-cláudios. Sabe como manter o interesse, incluir diálogos, plasmar descrições gráficas, exemplificar com coisas específicas, e em geral deleitar o leitor com a cor, drama e excitação da Palestina nas várias épocas sem evitar nada do horror das suas conquistas ou das suas pendências civis. Também sobressai nas suas descrições geográficas e arquitetónicas da terra e das suas estruturas na antiguidade – áreas por vezes silenciadas nas Escrituras – e a sua exatidão está sendo progressivamente afirmada na atualidade por escavações arqueológicas".

Paul L. Maier, Josefo. Las obras esenciales. Grand Rapids: Editorial Portavoz, 1994, p. 10-11.

Não há a menor indicação de que Josefo esteja a dar um ponto de vista sectário. Pelo contrário, fala como representante autodesignado dos judeus em geral. Este autor destaca a exatidão e confiabilidade dos registos hebraicos, que não assentava na simples vontade humana, mas na inspiração de Deus. Diz Josefo (negrito acrescentado):

... porque não temos dezenas de milhares de livros discordantes e em conflito, mas apenas vinte e dois, contendo os registos de todos os tempos, os quais foram justamente considerados como divinos. E destes, cinco são os livros de Moisés ... Depois, os Profetas que se seguiram, compilaram a história do período desde Moisés até ao reino de Artaxerxes sucessor de Xerxes, rei da Pérsia, em treze livros, [sobre] o que se fez nos seus tempos. Os restantes quatro livros compreendem hinos a Deus e instruções práticas para os homens.

Os vinte e dois livros que menciona Josefo correspondem à Torá, aos Profetas e aos Escritos. São com toda a probabilidade os mesmos 24 da Bíblia hebraica e do Antigo Testamento protestante, artificialmente acomodados em seu número às letras do alefato ou alfabeto hebraico. Para isso Rute conta-se com Juízes e Lamentações com Jeremias; todos os livros históricos – incluídos Daniel e Job - agrupam-se com os profetas, e contam-se entre os Hagiógrafos ou Escritos Salmos, Provérbios Cantares e Eclesiastes. Estes, todos estes, e mais nenhuns são estimados, segundo Josefo, como de origem divina. Josefo prossegue:

Desde o tempo de Artaxerxes até ao nosso próprio cada acontecimento foi registado; mas os registos não foram considerados dignos do mesmo crédito que os da época mais antiga, porque a exata sucessão de profetas não foi continuada. Mas que fé pusemos nos nossos próprios escritos se vê pela nossa conduta; pois apesar de ter passado tanto tempo, ninguém se atreveu a acrescentar-lhes nada, nem a subtrair nada deles, nem a alterar nada.


Antiguidades dos judeus 1:42 (negrito acrescentado).


Em resumo

... pela época de Jesus e dos Apóstolos, o número de livros estava fixado, e claramente correspondia aos do Cânon palestino, o único do AT que pode chamar-se propriamente tal. Além disso, estes livros eram tidos por divinos, e não outros. Por fim, Josefo nos indica a data aproximada do fecho do cânon em meados do século V a.C., ao mencionar o reinado de Artaxerxes.

Em resumo, muito antes que fosse ratificado o cânon em Jâmnia, existia obviamente um consenso entre os judeus acerca de quais livros deviam considerar-se sagrados e canónicos, e quais não.