16 de janeiro de 2010

O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO


Frequentemente é-nos perguntado que diferença há entre a «Bíblia Católica» e a «Bíblia Evangélica». A resposta é que são idênticas no Novo Testamento, mas as Bíblias católicas incluem no Antigo Testamento alguns livros e porções de livros que não se encontram nas Bíblias evangélicas.

Se a seguir nos perguntarem a razão desta diferença, uma resposta breve é que nós (Cristãos Evangélicos) nos apegamos ao cânon hebraico (palestino), enquanto os Católicos definiram outro cânon mais longo no século XVI, no Concílio de Trento convocado pela Igreja Católica contra o movimento de Reforma Protestante.

A seguinte é uma lista corrigida de mensagens que coloquei num fórum [de debate] católico como resposta a um escrito que apresentava os argumentos a favor do cânon "longo" definido em Trento, sob o provocativo título "A Bíblia Católica: Escritura Completa". Os parágrafos em negrito correspondem a tal documento [opiniões do forista católico], ao qual respondo de maneira detalhada.


A Bíblia Católica: Escritura completa

Por que as Bíblias católicas e protestantes têm mais ou menos livros? Qual é a autêntica? A Bíblia protestante é diferente da católica. Olhando o índice de livros que contém a Bíblia contamos 66 livros, enquanto a Bíblia católica e a Bíblia ortodoxa contêm sete livros mais.

Em seu cânon do Antigo Testamento, tanto as Bíblias protestantes como as ortodoxas diferem das católicas. As protestantes têm menos livros, e as ortodoxas mais livros, que as católicas.

Além dos livros do AT que se encontram nas nossas Bíblias, a Bíblia católica inclui:

Adições a Daniel
Adições a Ester
Baruc
Carta de Jeremias
Eclesiástico (Sabedoria de Jesus ben Sirá)
Sabedoria
Judite
Tobias
1 Macabeus
2 Macabeus


As Bíblias ortodoxas grega e eslava incluem, além do cânon católico do AT, os seguintes livros:

1 Esdras (= 2 Esdras em eslavo = 3 Esdras no apêndice da Vulgata).
Oração de Manassés (no Apêndice da Vulgata)
O Salmo 151, que se segue ao 150 na Bíblia grega
3 Macabeus
Na Bíblia eslava (e no apêndice da Vulgata)
2 Esdras (= 3 Esdras na eslava = 4 Esdras no Apêndice da Vulgata)
(Nota: na Vulgata latina, Esdras e Neemias = 1 e 2 Esdras)

Num apêndice da Bíblia grega:

4 Macabeus

De modo que é erróneo afirmar que as Bíblias ortodoxas reconheçam o mesmo cânon do AT que as católicas.  E se o critério de ser "completa" fosse ter a maior quantidade de livros, então as Bíblias ortodoxas seriam mais completas do que a católica.

(Fonte: The Holy Bible with Apocrypha. New Revised Standard Version. New York: American Bible Society, 1989, p. vi).


Na Bíblia protestante faltam 1 e 2 Macabeus, Tobias (ou Tobite), Judite, Baruc, Sabedoria, e Eclesiástico (ou Sirácides) conhecidos como "deuterocanónicos".

A denominação de "deuterocanónicos" data do século XVI. Por sinal, segundo o autor do artigo "Cânon do Antigo Testamento" na Encyclopedia Catholica, "deuterocanónico" é um termo pouco feliz.


Os irmãos não católicos chamam aos sete livros deuterocanónicos "Apócrifos", embora não seja um termo muito exato para o que se quer assinalar, já que "apócrifo" significa etimologicamente "escondido", fazendo alusão ao autor, que é "desconhecido" e costuma "esconder-se" atrás de um pseudónimo.

Se se esconde sob um pseudónimo deve falar-se propriamente de literatura pseudoepigráfica.

Os evangélicos chamam-lhes apócrifos porque foi o qualificativo com o qual foram conhecidos durante muitos séculos antes que se delineasse o termo "deuterocanónico" depois do Concílio de Trento. Outra forma, talvez a mais correta, é chamá-los "livros eclesiásticos".


Neste sentido há outros livros "apócrifos" que no entanto fazem parte dos livros inspirados (como a carta aos Hebreus, que não foi escrita diretamente por Paulo, mas que leva o seu nome).

Errado. A carta aos Hebreus é anónima, como o são em sentido estrito, entre outros, os quatro Evangelhos canónicos e as cartas de João. Quem terá assessorado o autor deste artigo?

 

De qualquer forma, a realidade é que os protestantes não admitem estes livros como inspirados.

Bem diz, "de qualquer forma": esse é o ponto que deseja tratar. A precisão parece um assunto secundário.


Porquê a diferença?

Foi somente no ano 393 d.C. que os bispos se uniram com os sacerdotes e leigos para discernir quais livros são inspirados, ou também "canónicos".

A sério? A ninguém antes lhe ocorreu considerar o assunto?

O autor faz aqui referência a um sínodo reunido em Hipona, cujas atas não se conservaram. As suas decisões foram sustentadas, porém, em outros de Cartago de 397 e 419. Todos eles sob a influência de Santo Agostinho sobre cuja opinião podemos falar mais tarde. Estes três Concílios, no entanto, foram sínodos locais carentes de autoridade vinculante para a Igreja universal; e prova evidente disso é que muitos Padres ortodoxos e diversos escritores eclesiásticos posteriores mantiveram a distinção entre os livros do cânon hebraico e os chamados apócrifos ou eclesiásticos.


A Igreja tinha o poder de fazer isso porque Jesus lhe deu o poder de atar e desatar (Mt 18, 18) e prometeu enviar o Espírito Santo para a plenitude da verdade (Jo 14, 26).

De acordo, mas não é possível pôr "o carro à frente dos bois". Embora os protestantes discordem em outros ensinamentos católicos, estão de acordo com esta declaração acerca da natureza dos livros canónicos:

"Ora, a Igreja os tem por sagrados e canónicos, não porque compostos só pela indústria humana, tenham sido depois aprovados por ela; nem somente porque contenham a revelação sem erro; mas porque escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor, e como tais foram transmitidos à própria Igreja." (Concílio Vaticano I, Sessão III de 24 de abril de 1870; Constituição dogmática sobre a fé católica, Capítulo 2, Da revelação; Denzinger # 1787; negrito acrescentado).

Dado que os livros sagrados têm uma autoridade intrínseca que provém do seu Autor, o seu caráter canónico não depende da sanção humana em geral, nem eclesiástica em particular. A Igreja não decidiu nem decretou o cânon, mas o discerniu ou reconheceu, e a seguir o confessou e proclamou. Nisto cumpriu a sua vocação como coluna e baluarte da verdade.


No século XV Martinho Lutero pensou que os primeiros cristãos usavam o "cânon judeu da Palestina" (os livros escritos em hebraico), 39 livros.

Martinho Lutero (1483-1546) não tinha entrado na Universidade e muito menos tinha sido ordenado ao terminar o século XV. É óbvio que o nosso autor não é muito cuidadoso nas suas afirmações.

Além disso, as opiniões do Dr. Lutero não diferem muito das sustentadas muito pouco antes dele por alguns ilustres e muito ortodoxos biblistas católicos (sem contar os Padres).


Mas na realidade os 46 livros do "cânon Alexandrino" ou "tradução dos Setenta" (a tradução para o grego dos livros hebraicos, pois o grego era o idioma internacional deste tempo) era aceite pela grande maioria dos judeus dispersos por todo o mundo (a "diáspora"). Alexandria era o maior e mais importante centro judeu no mundo de fala grega.

Quanto ao "cânon Alexandrino" é uma lenda que já não pode sustentar-se. Uma coisa é os judeus helenísticos terem usado a Septuaginta, e outra muito diferente é terem tido um cânon diferente do Hebraico. Durante muito tempo falou-se de um "cânon Alexandrino" mais amplo que o Hebraico. Contudo, não existe evidência de que tal cânon mais amplo tenha alguma vez existido. Copio a seguir duas citações representativas do estado atual da opinião:

O cânon Alexandrino

O Antigo Testamento, tal como chegou em tradução grega dos judeus de Alexandria por via da Igreja Cristã difere em muitos aspectos das Escrituras hebraicas. Os livros da segunda e terceira divisões [Trad., Profetas e Escritos] foram redistribuídos e dispostos segundo categorias de literatura – história, poesia, sabedoria e profecia. Ester e Daniel contêm materiais suplementares, e muitos livros não canónicos, seja de origem hebraica ou grega, entremisturaram-se com as obras canónicas. Estes escritos extracanónicos compreendem I Esdras, a Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (ben Sirá), adições a Ester, Judite, Tobite, Baruc, a carta de Jeremias, e adições a Daniel, como se enumeram no manuscrito conhecido como Codex Vaticanus (ca. 350 E.C.). A sequência dos livros varia, no entanto, nos manuscritos e nas listas sinódicas e patrísticas das Igrejas ocidentais e orientais, algumas das quais incluem também outros livros, como I e II Macabeus.

Deve notar-se que o conteúdo e a forma do inferido cânon judeu alexandrino original não pode ser determinado com certeza porque todas as Bíblias gregas existentes são de origem cristã. Os próprios judeus de Alexandria podem ter estendido o cânon que receberam da Palestina, ou eles podem ter herdado as suas tradições de círculos palestinos nos quais os livros adicionais tinham já sido considerados como canónicos. É igualmente possível que as adições às Escrituras hebraicas sejam de origem cristã.

Encyclopedia Britannica
...........................

Contrariamente ao que se pensou durante largo tempo, nunca existiu um verdadeiro «cânon alexandrino» de língua grega, que pudesse ser considerado como um cânon paralelo ao «palestino» de língua hebraica...


A teoria tradicional sobre a existência de um «cânon alexandrino», que supostamente incluía mais livros que o cânon palestino, se baseava, entre outros dados, no facto de os códices da LXX conterem vários dos livros apócrifos. No entanto, é preciso ter em conta que os grandes códices do s. V tinham uma extensão muito superior à dos códices de séculos anteriores ... Os códices gregos refletem a situação dos ss. IV e V, que não é comparável de modo algum com a de séculos anteriores.

É frequente supor que Filão e os judeus helenistas não compartilhavam o parecer dos rabinos da Palestina, segundo o qual o espírito de profecia tinha cessado há séculos... Na verdade, as obras de Filão não citam nem uma só vez os livros apócrifos, o que invalida toda a hipótese de um cânon helenístico. Por outro lado, seria bem estranho que um livro como 1 Mac[abeus], que insiste em que a profecia tinha cessado há tempo (4,46; 9,27; 14,41) pudesse fazer parte de um suposto cânon helenístico, cuja existência se apoia precisamente na afirmação de que a profecia ainda não cessou, numa época inclusive posterior.

A teoria do cânon alexandrino tinha outros dois suportes que caíram igualmente por terra. O primeiro era que o judaísmo helenístico e o judaísmo palestino eram realidades distintas e distantes. O segundo era que os livros apócrifos foram compostos na sua maioria em língua grega e em solo egípcio.

Julio Trebolle Barrera, La Biblia judía y la Biblia cristiana. Madrid: Trotta, 1993, p. 241-242.

É bem sabido que o filósofo judeu, Filão de Alexandria, apesar de viver na cidade onde supostamente se originou o cânon alternativo, jamais cita os apócrifos/deuterocanónicos.


Por volta dos anos 90-100 d.C. alguns líderes judeus se reuniram para tratar o tema do cânon (conhecido como o cânon da Palestina) tirando os sete livros, o seu objetivo era regressar ao cânon hebraico, e distinguir-se assim dos cristãos. Pensavam que o que não foi escrito em hebraico não era inspirado (embora Eclesiástico e 1 de Macabeus estavam originalmente escritos em hebraico e Aramaico).

No entanto, a discussão entre eles prosseguiu por muitos anos, e as suas decisões não foram universalmente reconhecidas.

As discussões dos rabinos em Jâmnia (entre 85 e 115), numa academia estabelecida por Yohanan ben Zakkai, não "tiraram" sete livros que nunca ali estiveram anteriormente. As discussões giraram à volta da propriedade da pertença de alguns livros como Ezequiel, Cantares, Qohélet (Eclesiastes) e Ester, que já eram aceites. E de facto, não modificaram de modo algum o que fazia tempo estava estabelecido.

"O resultado dos seus debates [de Yohanan ben Zakkai e outros] foi que, pese as objeções, Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Ester foram reconhecidos como canónicos; Eclesiástico não foi reconhecido (TB Shabbat 30 b; Mishná Yadaim 3:5; TB Magillah 7 a; TJ Megillah 70 d). Os debates de Jâmnia «não têm que ver com a aceitação de certos escritos dentro do Cânon, mas antes com o seu direito a permanecer lá» (A. Bentzen, Introduction to the Old Testament, i [Copenhagen, 1948], p. 31). Houve alguma discussão prévia na escola de Shammai acerca de Ezequiel, que já há muito estava incluído entre os Profetas, mas quando um rabino engenhoso mostrou que realmente não contradizia Moisés, como se havia alegado, se afastaram as dúvidas (TB Shabbat 13 b)."

F.F. Bruce, Tradition Old and New. The Paternoster Press, 1970, p. 133, n. 1 (TB = Talmude de Babilónia; TJ = Talmude de Jerusalém).

O mais significativo das conclusões destes rabinos foi a sua resolução de não inovar.

Se me é permitido resumir o exposto até agora:

1. O cânon católico não é igual nem ao ortodoxo nem ao protestante.

2. Os livros de que tratamos denominam-se historicamente "apócrifos" ou "eclesiásticos". A denominação "deuterocanónicos" é tardia (século XVI).

3. Não houve decisão taxativa e precisa de nenhum concílio ecuménico acerca da extensão do cânon antes do grande cisma do século XI. As decisões de sínodos locais não obrigam a toda a cristandade.

4. A opinião de Lutero sobre o cânon do Antigo Testamento não diferia da de muitos Padres nem da de eruditos católicos contemporâneos seus.

5. Não há evidência de que tenha existido um "cânon alexandrino" a par do cânon hebraico do Antigo Testamento.

6. Os rabinos reunidos em Jâmnia não introduziram modificações. Após muitas deliberações, terminaram ratificando o cânon que era aceite desde muito tempo atrás, provavelmente da era pré-cristã.
 


Havia muito desacordo entre os diferentes grupos e seitas judaicas. Os saduceus somente confiavam no Torá, os fariseus não podiam decidir sobre Ester, Cantares e Eclesiastes. Somente no segundo século os fariseus decidiram 39 livros.

Como já disse, é um erro sustentar que os fariseus "decidiram" 39 livros no século II. A verdade é que nesse tempo ficou formalmente estabelecida a posição sustentada por muito tempo antes da sua "oficialização". Quanto aos saduceus, a noção de que somente admitiam a Torá (os cinco livros de Moisés, ou Pentateuco) parece ter surgido de uma confusão de alguns Padres como Hipólito, Orígenes e Jerónimo. Eis aqui o juízo de duas referências confiáveis:

A opinião de numerosos Padres da Igreja no sentido de que os saduceus reconheciam unicamente o Pentateuco e rejeitavam os Profetas não conta com apoio algum em Josefo e, por conseguinte, é considerada errónea pela maior parte dos investigadores modernos.

Emil Schürer, Historia del pueblo judío en tiempos de Jesús. Edición revisada por Geza Vermes y otros. Trad. Cast. Madrid: Cristiandad, 1985, vol. 2, p. 530-531.

A sua atitude fundamental é uma fidelidade ao sentido literal da escritura, à manutenção da Sola Scriptura, perante as tradições e a lei oral dos fariseus: os sacerdotes são os únicos intérpretes autênticos desta Torah... os saduceus, contrariamente ao que afirmaram alguns padres da Igreja, admitiam como Escritura outros livros além do Pentateuco, por mais que este tivesse aos seus olhos valor preponderante...

R. Le Déaut, Los saduceos. Em Augustin George y Pierre Grelot (Dir.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. Cast. Barcelona: Herder, 1982, vol. 1, p. 159.

Nas suas discussões com os saduceus e fariseus, Jesus Cristo nunca se dirigiu a eles como se os primeiros aceitassem um cânon e os segundos outro. A principal diferença era que os fariseus sustentavam a existência de duas Leis, a escrita (em particular o Pentateuco) e a oral, que também teria sido dada a Moisés no Sinai. Os saduceus não aceitavam a suposta "torah oral" que para os fariseus era vinculante. E embora seja verdade que os saduceus consideravam o Pentateuco como dotado de uma autoridade especial acima dos Profetas e dos Escritos (a segunda e terceira divisões do cânon hebraico), também os fariseus tinham o Pentateuco em particular estima. Por exemplo, no Talmude - que reflete a tradição farisaica - se estabelece que pode vender-se um rolo dos Profetas para adquirir um da Lei, mas que o inverso é ilícito.


O apóstolo Paulo, que viajou por todo o mundo de língua grega, utilizava a versão dos LXX.

Não há dúvida de que a Septuaginta (versão dos LXX, uma tradução do Antigo Testamento para o grego produzida em Alexandria entre os séculos III a I a.C.) foi a Bíblia usada correntemente pelos apóstolos, pelos escritores do Novo Testamento e pelos primeiros cristãos. Mas este facto não convalida a autoridade canónica dos livros eclesiásticos, por várias razões.

Em primeiro lugar, porque na época apostólica não havia outra tradução à qual apelar.

Em segundo lugar, porque o Novo Testamento jamais cita um livro apócrifo/eclesiástico como Escritura (não porque os seus autores não os conheceram).

Em terceiro lugar, porque não há evidência de que na era pré-cristã a Septuaginta circulasse em códices com todos os livros compilados numa mesma encadernação. O modo usual era o rolo, pelo que o texto bíblico circulava como rolos separados.


Quando a São Jerónimo se lhe pediu que traduzisse a Bíblia em latim (em 382 d.C.) optou por seguir a decisão dos judeus e rejeitou os sete livros, chamando-os "apócrifos". Esta decisão de Jerónimo foi rejeitada pelos concílios já mencionados e Jerónimo aceitou a decisão dos concílios.

Dificilmente poderiam dizer-se mais imprecisões em igual espaço.

1. Em 382 ninguém pediu a Jerónimo que traduzisse "a Bíblia" para o latim. Por esse ano, o bispo de Roma, Dâmaso I, solicitou a Jerónimo, a quem tinha em grande estima como erudito bíblico, que fizesse uma revisão dos Evangelhos e dos Salmos da antiga versão latina. Jerónimo pôs mãos à obra e completou a tarefa com bastante rapidez.

2. Depois da morte de Dâmaso em 384, Jerónimo emigrou para o Oriente, e em 386 se estabeleceu em Belém da Judeia. Aí continuou por sua própria conta (sem encargo oficial) com uma tradução para o latim baseada no texto da Septuaginta. Mas chegou à conclusão de que para fazer bem a sua tarefa, devia basear-se no texto hebraico. De modo que aproximadamente entre 391 e 404 Jerónimo se ocupou deste trabalho.

3. Os concílios provinciais de Hipona (393) e Cartago (397) tomaram como texto padrão não a Vulgata de Jerónimo – que estava em plena elaboração e durante séculos não seria conhecida por esse nome –, mas a versão Antiga Latina (Vetus Latina).

4. Jerónimo expressou o seu ponto de vista sobre o cânon do Antigo Testamento privadamente no prefácio a Samuel e Reis, dirigido aos seus amigos Eustóquio e Paula, que data de 391.

Jerónimo enumera o cânon hebraico exatamente, e dá conta da dupla numeração como 24 ou 22, segundo se Rute e Lamentações se contassem por separado ou agregados, respetivamente, a Juízes e Jeremias: "E assim há também vinte e dois livros do Antigo Testamento; isto é, cinco de Moisés, oito dos profetas, nove dos hagiógrafos, embora alguns incluam Ruth e Kinoth (Lamentações) entre os hagiógrafos, e pensam que estes livros devem contar-se por separado; teríamos assim vinte e quatro livros da Antiga Lei". Os 22 ou 24 correspondem exatamente com o cânon hebraico e protestante; a diferença entre os 39 contados por este último se deve a que Esdras-Neemias, Samuel, Reis e Crónicas são contados como dois livros cada um (soma 4), e os Profetas menores, que se incluíam num só rolo na Bíblia hebraica, são contados por separado (soma 11). Depois prossegue Jerónimo:

"Este prólogo às Escrituras pode servir como um prefácio com elmo [galeatus] para todos os livros que vertemos do hebraico para o latim, para que possamos saber – os meus leitores tanto como eu mesmo - que qualquer [livro] que esteja para lá destes deve ser reconhecido entre os apócrifos. Portanto, a Sabedoria, que é comumente atribuída a Salomão, e o livro do Filho de Sirá [Eclesiástico] e Judite e Tobias e o Pastor não estão no Cânon."

Jerónimo traçou a diferença entre os livros canónicos e os eclesiásticos como se segue:

"Como a Igreja lê os livros de Judite e Tobite e Macabeus, mas não os recebe entre as Escrituras canónicas, assim também lê Sabedoria e Eclesiástico para a edificação do povo, não como autoridade para a confirmação da doutrina."

De igual modo, sublinhou que as adições a Ester, Daniel e Jeremias (o livro de Baruc) não tinham lugar entre as Escrituras canónicas.

Fonte: Prefácio aos Livros de Samuel e Reis. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 489-490.

5. Não há a menor indicação de que Jerónimo se tivesse inteirado das decisões dos sínodos africanos. Vários anos mais tarde, em 403, escreveu uma longa carta a Laeta, que o havia consultado sobre a educação de sua filha Paula. Jerónimo dá uma série de conselhos; entre eles, que a instrua nas Escrituras, sugerindo a ordem em que deve lê-las. Depois acrescenta:

"Que [Paula] evite todos os escritos apócrifos, e se ela for levada a lê-los não pela verdade das doutrinas que contêm mas por respeito aos milagres contidos neles, que ela entenda que não são escritos por aqueles a quem são atribuídos, que muitos elementos defeituosos se introduziram neles, e que é preciso uma perícia infinita para procurar ouro no meio da sujeira."

Epístola 107:12 (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 194)

6. Finalmente, Jerónimo não realizou traduções dos livros apócrifos, com exceção de Judite e Tobias, que traduziu apressadamente do aramaico por pedido de alguns amigos. Os restantes apócrifos foram acrescentados à versão de Jerónimo tal como estavam na versão Antiga Latina.

Como pode ver-se, o autor do artigo simplesmente desconhece os factos.


Ao fim e ao cabo, os judeus expulsaram os cristãos da sinagoga e não os deixaram participar na decisão sobre o cânon. Hoje em dia muitos se baseiam nas decisões judaicas sobre o cânon. Ora, esses mesmos judeus já tinham decidido rejeitar Jesus como Messias: por que dar a eles a autoridade sobre o cânon do AT?

Por que, diria eu, dar autoridade aos judeus da diáspora acima dos da Judeia?

Este argumento é um dos mais estranhos que apresenta o autor deste curioso escrito. Primeiro apela à existência de um suposto "cânon Alexandrino" mais amplo que o Hebraico. Agora argumenta que os judeus não tinham autoridade em primeiro lugar para decidir que livros do Antigo Testamento eram canónicos. Em outras palavras, nega aos judeus palestinos a autoridade que reconhece aos judeus da diáspora. Com que critério? Não são uns e outros judeus? Os judeus de Roma que aparecem em Atos 28, ou os de Tessalónica, etc, eram mais judeus que os residentes na Palestina?

Se se argui que a decisão foi tomada em Jâmnia em finais do século I, replico que se enganam. Como já indiquei antes, em Jâmnia apenas se ratificou um consenso que vinha de muito antes.


Martinho Lutero e os demais reformadores decidiram seguir a decisão judaica de basear o cânon do AT sobre o idioma hebraico e retiraram os sete livros da sua Bíblia. Os chamaram "apócrifos" seguindo a ideia de São Jerónimo. Assim começou a Bíblia Protestante.

Outro concentrado de imprecisões às quais nos tem acostumado o anónimo autor. Lutero em particular não era propriamente um apaixonado pelas opiniões judaicas. Os Reformadores admitiram o cânon hebraico porque a sua autenticidade era indubitável, e porque os mais doutos eruditos e Padres eram de igual opinião.

Sim é correto que os chamaram apócrifos, seguindo Jerónimo. Mas não é verdade que os retiraram da Bíblia. Durante séculos continuaram sendo incluídos nas principais versões protestantes, frequentemente agrupados entre o Antigo e o Novo Testamento. Em geral, com a advertência de Jerónimo, de que deviam usar-se para edificação mas não para formular ou defender doutrinas.


- No tempo da Reforma, Lutero (1534) introduziu a ideia de qualificar os vários livros do NT segundo o que ele considerava a sua autoridade.

- Atribuiu um grau secundário a Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, os pôs no final da sua tradução.

- Fez igual com os sete livros do AT, mas não os tirou da Bíblia.

- Disse que não são iguais às Sagradas Escrituras, mas sim são úteis e bons para ler (Artigo VI dos 39).

Em que ficamos? Primeiro diz que os tirou, agora que não os tirou...

O critério distintivo de Lutero foi até que ponto cada livro dava testemunho de Cristo. Mas a ideia de um "cânon dentro do cânon" não nasceu com Lutero. Pode remontar-se a Ireneu, vislumbrar-se em Orígenes e Eusébio de Cesareia, e pouco antes de Lutero, nos seus contemporâneos católicos Erasmo de Roterdão e no Cardeal Tomás de Vio (conhecido como Caetano).

Os 39 artigos são anglicanos. Não foram escritos por Lutero.


- Em 1643 o professor John Lightfoot lhes chamou"apócrifa desgraçada".

- Em 1827 a Sociedade Britânica e Estrangeira da Bíblia os omitiu completamente na sua Bíblia.

- Depois, outras editoras fizeram o mesmo.

A decisão definitiva da SBBE tomou-se em 1826 e susteve-se até 1968. Os excluíram por razões práticas, já que de qualquer modo não os consideravam inspirados. Outras Sociedades Bíblicas continuaram a inclui-los conforme o costume eclesiástico estabelecido.


Alguns irmãos dizem que a Igreja católica acrescentou estes sete livros no Concílio de Trento (século XVI), mas Lutero não poderia rejeitar estes livros se eles não tivessem já estado no cânon.

Os livros incluíam-se nos manuscritos e nas primeiras versões impressas. Isso não lhes conferia condição canónica, mas dava testemunho de um costume antigo. Durante séculos os livros apócrifos/eclesiásticos/deuterocanónicos tinham estado ali, o que não significava que fossem considerados canónicos ao mesmo nível que o cânon hebraico. O que teve de particular a decisão de Trento é que pela primeira vez um concílio que pretendia ser ecuménico se arrogou o poder de estabelecer como artigo de fé a lista de livros canónicos incluindo os apócrifos, com o habitual anátema para quem a rejeitar.

Como é bem sabido, nos grandes concílios ecuménicos da antiguidade (antes do cisma entre a Igreja Ocidental e a Oriental) participavam centenas de bispos. Não ocorreu a mesma coisa em Trento, o concílio que determinou dogmaticamente a posição católica com respeito ao cânon da Bíblia.

É um facto que o Concílio de Trento teve uma história tão longa como acidentada. Foi inaugurado a 13 de Dezembro de 1545 após inevitáveis adiamentos, "com a assistência de apenas 31 bispos, na sua maioria italianos... O concílio, além disso, se havia atribuído a sua própria forma, que se afastava notavelmente do estatuto dos concílios do século quinze." (Hubert Jedin, S.J., Breve historia de los Concilios. Barcelona: Herder, 1963, p. 115, 116). Depois juntaram-se mais bispos. Uma das primeiras coisas a considerar foi o tema da revelação e das relações entre Escritura e Tradição.

"Gerou-se um considerável debate sobre se devia fazer-se uma distinção entre dois tipos de livros (Canónicos e Apócrifos) ou se deviam identificar-se três tipos (Livros Reconhecidos; Livros Disputados do Novo Testamento, depois geralmente reconhecidos; e os Apócrifos do Antigo Testamento). Finalmente a 8 de Abril de 1546, por um voto de 24 a 15, com 16 abstenções, o Concílio sancionou um decreto (De Canonicis Scripturis) no qual, pela primeira vez na história da Igreja, a questão do conteúdo da Bíblia foi feito um artigo absoluto de fé e confirmado com um anátema."

Bruce M. Metzger, The Canon of the New Testament- Its origin, development, and importance. Oxford: Clarendon Press, 1987, p. 246; negrito acrescentado.

Não havia ali 318 bispos de toda a cristandade, como em Niceia, nem 600 como em Calcedónia, nem sequer 150 como em I Constantinopla. Não, nada mais que 55 bispos, a maioria italianos. E o malfadado decreto sobre o cânon sancionou-se com o voto favorável de menos da metade dos presentes.

Resumo:

1. Não há evidência de que os saduceus reconheceram um cânon escritural diferente do reconhecido pelos fariseus.

2. A Septuaginta foi amplamente usada pelos cristãos, mas não há evidência de que na época apostólica circulasse em forma de códice (livro) encadernado com inclusão dos apócrifos. Também não há evidência de que Jesus ou os apóstolos considerassem inspirados estes livros.

3. A tradução de Jerónimo do AT não foi encomendada por alguma autoridade eclesiástica, nem sancionada oficialmente até ao Concílio de Trento.

4. Os cânones de Hipona e Cartago não eram vinculantes para toda a cristandade, e Jerónimo continuou firme na sua opinião depois de ambos os sínodos.

5. Jerónimo não traduziu a maioria dos apócrifos, exceto Judite e Tobias a pedido de amigos.

6. A opinião de Lutero em relação ao cânon não é singular. Além disso, não excluiu os apócrifos da sua edição da Bíblia.

7. No Concílio de Trento, em 1546, um punhado de bispos ocidentais (principalmente italianos) declarou pela primeira vez como artigo de fé para todos os cristãos que os livros apócrifos eram Escritura sem distinção com o cânon hebraico quanto à sua canonicidade e inspiração.


Outros dizem que não são citados no NT. Porém, o Novo Testamento também não cita Ester, Obadias e Naum, e no entanto os irmãos os aceitam na sua Bíblia.

Não há comparação possível. Na época de Jesus a divisão tripartida do cânon – Torah, Profetas, Escritos - estava muito claramente estabelecida, como o demonstram as próprias palavras do Mestre:

Depois lhes disse: «Estas são as minhas palavras que vos falei quando ainda estava convosco: É necessário que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim.» (Lucas 24:44)

Os especialistas coincidem em entender aqui a referência aos Salmos como uma sinédoque dos denominados "Escritos". Ester fazia parte deles, e portanto a sua canonicidade é indiretamente atestada ainda que não seja citado, provavelmente porque os autores do NT não necessitaram de fazê-lo.

Igualmente, Obadias e Naum faziam parte de um único livro, o dos Doze Profetas menores. Estes constituíam um único rolo, de modo que o facto de serem citadas outras partes do mesmo rolo (megillah-séfer), como Amós, Miqueias, Joel e Malaquias avaliza todo o seu conteúdo.

Em conjunto há à volta de 250 citações diretas do cânon hebraico do Antigo Testamento no Novo (as alusões chegam a 10 vezes mais). No entanto, nenhum livro apócrifo/deuterocanónico é citado sequer uma vez como Escritura. Considerados por título, citam-se 80% dos pertencentes ao cânon hebraico, cifra que ascende a 90% se forem considerados por rolo. Valores bastante significativos comparados com 0% dos deuterocanónicos/apócrifos.


Os cristãos usavam mais o rolo grande que o pequeno por ser escrito em grego. O grego, idioma universal deste tempo, era o idioma do NT.

Antes da era cristã (e ainda hoje no uso litúrgico da Bíblia hebraica) as Escrituras não vinham encadernadas todas juntas, mas em rolos individuais. Isto se devia a várias razões. Uma delas era prática: o formato limitava a extensão do texto que podia incluir-se em cada rolo individual. Por exemplo, o grande rolo de Isaías recuperado entre os manuscritos do Mar Morto aproxima-se deste limite com uma altura de 25 cm e uma extensão de algo mais de sete metros. Em contrapartida, como disse, os Profetas Menores podiam ser incluídos todos num único rolo. Era virtualmente impossível contar com todo o AT manuscrito num só rolo.

Voltando à afirmação do nosso apologista, em princípios da era cristã não existia o Antigo Testamento num "rolo grande" e noutro "rolo pequeno".

Não foi senão em finais do século I da nossa era ou princípios do seguinte que os manuscritos bíblicos começaram a colecionar-se em códices (formato similar ao dos livros modernos). O códice era menos volumoso e muito mais cómodo para procurar textos do que o rolo, no qual havia que desenrolar uma ponta e enrolar a outra até achar o texto desejado; é a mesma diferença que procurar uma faixa numa cassete e procurá-la num CD.

Ora bem, exceto para alguns fragmentos, os principais códices da Septuaginta que chegaram a nós são de origem cristã, de modo que não podem utilizar-se para sustentar um suposto "cânon alexandrino". Os cristãos colecionaram escritos que eram reconhecidos unanimemente como canónicos juntamente com outros que não o eram, tanto para o Antigo como para o Novo Testamento. De modo que a mera presença de um livro num códice antigo não o torna nem canónico nem inspirado só por esta causa (ver mais abaixo).


Justino Mártir escreveu que a Igreja tinha um AT distinto do dos judeus. Contudo, por consideração aos judeus, sobretudo nas controvérsias, alguns representantes isolados da Igreja, pelo menos na prática, não colocaram logo desde o princípio, os sete ao mesmo nível dos outros 39.

Sim, é verdade que no fragor da controvérsia Justino acusou os judeus de terem adulterado as Escrituras. Não sei qual texto tem em mente o autor católico, mas eu recordo tê-lo lido no Diálogo com Trifão o judeu, capítulo 73. Aí diz: E do salmo noventa e cinco, das palavras de David, suprimiram estas breves expressões: "Do alto do madeiro". Pois dizendo a palavra: «Dizei entre as nações: O Senhor reina desde o alto do madeiro», só deixaram: "Dizei entre as nações: O Senhor reina".

Esta frase cuja omissão Justino questiona é desconhecida nos manuscritos tanto hebraicos como gregos. Portanto, é razoável pensar que Justino estava errado e que o seu interlocutor tinha razão.

Habitualmente quando Justino menciona as Escrituras refere-se ao Antigo Testamento, que conhece fundamentalmente na antiga versão Septuaginta. Um aspecto interessante é que na atualidade os católicos apelam ao facto de os manuscritos da Septuaginta incluírem os livros que desde o século XVI chamam "deuterocanónicos" (e nós apócrifos) como prova da existência de um imaginário "cânon alexandrino" similar senão idêntico ao estabelecido dogmaticamente no Concílio de Trento. Ora bem, o mestre e mártir Justino usa a Septuaginta, da qual cita profusamente o Pentateuco, os profetas e os salmos. No entanto, o exame dos seus escritos mostra que jamais cita textos dos apócrifos/deuterocanónicos.

Justino conhece também e cita os Evangelhos sinópticos, aos quais chama "memórias dos Apóstolos", e menciona que eram lidos nos cultos cristãos. A maior parte das citações evangélicas provêm de Mateus, mas também apela a Lucas e ocasionalmente a Marcos. Rara vez apela ao Evangelho de João, embora deva tê-lo conhecido.

Além disso, há nas suas obras, particularmente no Diálogo com Trifão, alusões a algumas cartas paulinas, em concreto Efésios, Romanos e 1 Coríntios; também uma alusão no capítulo 81 do citado Diálogo..., mostra que conhecia o Apocalipse e lhe atribuía autoridade apostólica.


Os judeus da Palestina decidiram o cânon do AT por volta dos anos 90-100, como se disse, rejeitando os sete livros escritos em grego.

Como já disse e repeti, as discussões de Jâmnia não resultaram em nenhuma novidade, mas na reafirmação do que já se cria desde muito antes. Não é por muito repetir uma falácia que ela se torna verdadeira.


Alguns irmãos baseiam-se em Rm 3, 1-2 para dizer que o cristão deve reconhecer esta decisão judaica palestina: "Que vantagem tem pois o judeu? Primeiramente, porque lhes foi confiada a palavra de Deus". No entanto, daqui não se segue que eles tenham mais autoridade que a Igreja do Novo Testamento para aprovar os livros sagrados. Como pode ser que rejeitem o Messias, se a eles tinha sido confiada precisamente a Palavra de Deus? O facto de que Deus lhes tenha dado a Palavra de Deus não garante que sejam infalíveis na sua interpretação ou discernimento; se o tivessem sido, nunca rejeitariam o Messias. Além disso: quem tinha que decidir o cânon? Que judeus? Que autoridade? Quem se reuniu em Jâmnia para essa decisão? Há algum documento?

Os resultados das discussões de Jâmnia conservam-se no Talmude. De novo, não decidiram o cânon, mas simplesmente ratificaram, perante algumas objeções, o consenso pré-cristão.

O resto das objeções são insubstanciais. No grego diz que «lhes foram confiados os oráculos [logia] de Deus». O verbo grego é pisteuô que significa "crer", "confiar", "ter fé", e na voz passiva (como neste caso), "confiar" algo a alguém. Aparece neste último sentido em outros três sítios do Novo Testamento: Lucas 16:11, 1 Timóteo 1:11 e Tito 1:3. Lucas 16:11 é uma pergunta retórica de Jesus: "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito. Assim, pois, se não fostes fiéis no dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro?" (vv. 10-11). Aqui "confiar" ou "encomendar" significa claramente entregar em depósito a alguém confiável.

As outras duas passagens, ambas de Paulo, são ainda mais relevantes (negrito acrescentado):

"..segundo o Evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado." (1 Timóteo 1:11)

"Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar os escolhidos de Deus à fé e ao pleno conhecimento da verdade que é conforme à piedade, com a esperança de vida eterna, prometida desde toda a eternidade por Deus que não mente, e que no tempo oportuno manifestou a sua Palavra pela pregação a mim confiada segundo o mandato de Deus nosso Salvador..." (Tito 1:1-3)

Como pode ver-se, nas palavras do Senhor trata-se de confiar algo verdadeiro para ser guardado. Nas outras duas referências de Paulo, o depósito de que se fala é nada menos que o Evangelho e a sua pregação. Portanto, quando o Apóstolo diz que aos judeus lhes foram confiados os ditos ou oráculos de Deus, deve entender-se sem dúvida a totalidade da revelação do Antigo Testamento, facto admitido por comentaristas católicos:

"À pergunta formulada pelo imaginário interlocutor responde Paulo, em geral, que a superioridade é grande em muitos aspectos. Em primeiro lugar – e como fonte de todos os privilégios não enumerados aqui [cf. Romanos 9:1-5- Fernando D. Saraví] -, aos judeus lhes foi confiada a revelação de Deus, especialmente as promessas messiânicas [Nota de rodapé: Entendemos por logia todo o A.T., sobretudo as promessas...]".

José Ignacio Vicentini, S.I. Carta a los Romanos. Em La Sagrada Escritura. Texto y comentario por Profesores de la Compañía de Jesús, 2ª Ed. Madrid: BAC, 1965, NT vol. II, p. 199; negrito acrescentado.

Além disso, o próprio Paulo refutou de antemão as objeções do nosso anónimo defensor dos apócrifos; pois o mesmo texto que ele questiona, prossegue:

"Pois quê? Se alguns deles foram infiéis, anulará, porventura, a sua infidelidade a fidelidade de Deus? De modo nenhum! Deus tem que ser veraz e todo o homem mentiroso, como diz a Escritura: Para que sejas justificado nas tuas palavras e triunfes ao ser julgado." Romanos 3:3-4

De maneira que é muito impróprio rebaixar a declaração de Paulo em Romanos 3:2 questionando a prerrogativa divinamente atribuída aos hebreus de serem recetores, guardiães e custódios da revelação do Antigo Pacto. E que isto não é modificado, de modo algum, pela infidelidade de uma parte de Israel, o afirma explicitamente o Apóstolo no mesmo texto.

Além disso, os judeus demonstraram efetivamente ser diligentes e zelosíssimos conservadores e guardiães das Escrituras, como o mostra a fidelidade da transmissão do texto hebraico ao longo dos séculos.


Os manuscritos mais antigos do AT (por mil anos) contêm os Deuterocanónicos. Salvo a ausência de Macabeus no Codex vaticanus, o mais antigo texto grego do AT, TODOS OS DEMAIS manuscritos contêm os sete livros.

Se nos limitarmos aos mais antigos códices da Septuaginta que se conservam, ou seja o Alexandrino (A), o Vaticano (B) e o Sinaítico (Alef), vemos que:

O Códice Alexandrino, do século V, inclui as adições gregas a Ester e Daniel, Baruc, Tobite, Judite, 1 e 2 Macabeus, a Sabedoria de Salomão, e a Sabedoria de Jesus ben Sirá (= Eclesiástico). Mas também inclui livros que a Igreja Católica nunca admitiu como canónicos, a saber: 1 Esdras (não confundir com o Esdras canónico), 3 e 4 Macabeus e, no Novo Testamento, 1 e 2 Clemente e os Salmos de Salomão.

O Códice Vaticano, do século IV, inclui a Sabedoria, o Eclesiástico, adições a Ester e Daniel, Judite, Tobite, Baruc com a epístola de Jeremias, mas também 1 Esdras, nunca aceite como canónico, e exclui os livros dos Macabeus.

O Códice Sinaítico, também do século IV, inclui Tobite, Judite, 1 Macabeus e ambas as Sabedorias. Faltam Baruc e 2 Macabeus, mas estão 4 Macabeus e, no NT, a Epístola de Barnabé e um fragmento de O Pastor de Hermas, livros nunca tidos por canónicos pela Igreja Católica.

Portanto, a presença dos livros eclesiásticos/deuteros/apócrifos nestes códices não é mais garantia da sua canonicidade do que a de 3 e 4 Macabeus, 1 Esdras, 1 e 2 Clemente, a Epístola de Barnabé ou O Pastor de Hermas.


"Dos 850 documentos que acharam restos em Qumrán, uns 223 são cópias de distintos livros do Antigo Testamento; se encontram representados quase todos os livros da Bíblia hebraica (menos Ester), e alguns deuterocanónicos (Tobias, e Ben Sira ou Eclesiástico)...

Como se sabe, a atual Bíblia hebraica tem como base um manuscrito de Leningrado copiado no ano 1008 D.C., e representa o texto consonântico oficial rabínico (Texto Massorético), fixado com toda a precisão no século II d. C., e transmitido sem variantes até aos nossos dias. Diante dele, os cristãos do Oriente e os ocidentais não reformados utilizaram habitualmente os livros e o texto representados pela antiga versão grega dos LXX... Ao publicar-se os primeiros manuscritos bíblicos de Qumrán, em concreto, os rolos de Isaías encontrados na cova 1, verificou-se que estes textos - mil anos mais antigos que os manuscritos medievais em que se baseiam as bíblias hebraicas e anteriores à unificação massorética.- eram praticamente iguais ao texto conhecido".

Los documentos del Qumrán, ¿qué aportan al cristianismo, por Eulalio Fiestas Le-Ngoc en Palabra, Octubre 1994, p. 71.

Perfeito, isto corrobora a fidelidade com que os escribas judeus conservaram o depósito dos oráculos de Deus, de que fala Paulo em Romanos 3:2 e 9:1-5.

A existência de livros apócrifos/deuteros em Qumran não lhes confere nenhum valor canónico, pois acharam-se ali muitos outros livros apreciados pela seita que nunca entraram no cânon hebraico nem tampouco no católico, como a Regra da Congregação, o Génesis Apócrifo, o Livro dos Jubileus e A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas.

Nota F.F. Bruce:

«Porém, os homens de Qumran não deixaram uma declaração indicando precisamente quais dos livros representados na sua biblioteca tinham categoria de sagrada escritura na sua estimação, e quais não. Um livro que estabelecia a regra da comunidade para a vida ou a prática litúrgica era sem dúvida considerado como autoridade, do mesmo modo que o é (ou o era) o Livro de Oração Comum na Igreja de Inglaterra, mas isto não lhe dava status escritural.
...
É provável, de facto, que no começo da era cristã os essénios (incluída a comunidade de Qumran) estivessem em substancial acordo com os fariseus e os saduceus sobre os limites da Escritura hebraica.


F.F. Bruce, The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, p. 39,40; negrito acrescentado.


Os Padres conciliares (de Trento) sabiam que os concílios africanos (Hipona, Cartago) do século IV tinham aceitado os livros deuterocanónicos; é curioso, que Trento, ao aceitar um cânon mais longo, parece ter conservado uma autêntica lembrança dos primeiros dias do cristianismo, enquanto outros grupos cristãos, em seu reconhecido intento de voltar ao cristianismo primitivo, decidiram-se por um cânon judeu mais reduzido que, se estão certos alguns investigadores protestantes como A.C. Sundberg e J.P. Lewis, era uma criação de época posterior".

Estes investigadores protestantes descobriram que a Igreja primitiva usava o rolo grande!

Como disse, "o rolo grande" significando a Septuaginta com apócrifos, somente existe na imaginação do autor. As cópias da Septuaginta com apócrifos e outros livros não canónicos que se conservaram não estão em forma de rolo, mas de códice (livro).

Nada pode ser "curioso" em Trento, se considerarmos que entre os bispos ali presentes dificilmente haveria algum que conhecesse os factos históricos, e soubesse dos resultados da erudição mais recente. Tenho para mim que os bispos tridentinos fizeram assim porque não sabiam mais. A conclusão dos eruditos protestantes que nomeia (sem citar) não faz justiça aos ensinos da vasta maioria dos eruditos bíblicos que até ao próprio século XVI opinaram sobre o cânon.


Quando os autores do NT citam algo do AT, o citam segundo a tradução grega dos Setenta 86% das vezes. Alguns irmãos admitem isto mas tratam de dizer que os sete livros eram "suplemento" do rolo grande, e por isso Cristo e os apóstolos não os citaram. Mas os autores do NT não faziam esta distinção. Citar o rolo era admitir que todo ele é inspirado. Se eram falsos, juntá-los como "suplemento" teria sido fazer impuro todo o rolo (e o culto no qual se os utilizava). Sabemos a reverência dos judeus para com as Sagradas Escrituras. Quando Jesus entrou na sinagoga para ler o livro (Lc 4, 6-17) teria sido um momento proveitoso para dizer que entre os livros havia sete que não eram inspirados.

Todo este parágrafo se baseia no erro já apontado de crer que todo o AT circulava como um único rolo, quer fosse na sua versão "curta" ou "longa". Tudo indica que não era assim, pois nos tempos de Jesus e dos Apóstolos usavam-se com exclusividade rolos separados para os diferentes livros (com algumas exceções como Esdras-Neemias e os Doze Profetas Menores); ver Lucas 4:17, "o volume de Isaías" (= o rolo de Isaías; a palavra latina volumen significava "algo enrolado"); possivelmente também 2 Timóteo 4:13 atesta este uso.

Portanto, os Apóstolos e os seus discípulos podiam perfeitamente usar os rolos dos livros canónicos da Septuaginta sem por isso avalizar os rolos dos apócrifos.


Além disso, os sete são citados na Tradição oral, como demonstram os padres apostólicos. E são citados direta ou indiretamente nos seguintes: Mt 6, 7 alude a Eclo 7, 14. Mt 6, 14 alude a Eclo 28, 2; Rm 1, 19-32 alude a Sab de 12, 24 a 13, 9; Ef 6, 14 a ideia está em Sab 5, 17-20, e Tg 1, 19 é influenciado por Eclo 5, 13. 1 P 1, 6-7 se vê em Sab 3, 5-6. Compara Heb 1, 3 e Sab 7, 26-27 1 Co 10, 9-10 com Jud 8, 24-25, 1 Co 6, 13 e Eclo 36, 20, etc. É importante recordar que os irmãos aceitam livros do AT que nunca são citados no NT como Rute, Eclesiastes, Cantares, e que a Carta de Judas (vv. 14 e 9) cita 1 Enoque e a "Assunção de Moisés"! Por que aceitar alguns livros, mas não todos quando foi a própria Igreja que decidiu aceitar toda a Bíblia de uma vez como a têm os católicos?

De novo, as decisões dos sínodos locais de Hipona e Cartago não foram vinculantes para a Igreja Universal ou Católica.

Sobre o facto de alguns livros do cânon hebraico não serem citados no Novo Testamento já falamos antes.

É verdade que o Novo Testamento faz alusão em Judas a um incidente que é narrado em 1 Enoque, mas isto não bastaria para conceder status canónico a este livro tardio. Primeiro, porque é possível que ambos dependam de uma fonte comum. O que concede status canónico à tradição de Enoque é precisamente ser citada no Novo Testamento, não ao contrário. E por outro lado este livro em particular, 1 Enoque, nunca foi aceite por católicos nem protestantes.

Para além disso, no Novo Testamento também há citações de autores pagãos (Atos 17:28, palavras que aparecem no Hino a Zeus de Cleantes e nos Phaenomena de Arato; Tito 1:2, palavras de Epiménides; e outros possíveis exemplos). Isso não outorga estado canónico a estes autores da gentilidade. (Veja-se Poets, Pagan, Quotations from, em Merril C. Tenney, Ed., The Zondervan Pictorial Bible Dictionary. London-Edinburgh: Marshall, Morgan & Scott, 1963 p. 672.)

É também correto que no NT existem alusões a livros apócrifos/deuterocanónicos e a outros que não pertencem ao cânon católico (pseudoepígrafos, que os católicos chamam apócrifos). A compilação mais extensa que consegui encontrar destas alusões, trinta páginas! encontra-se nas pp. 190-219 da obra de Craig A. Evans, Noncanonical Writings and New Testament Interpretation (Peabody: Hendrickson, 1992).

O que o entusiasta apologista católico não dá sinais de entender é que precisamente este grande número de alusões constitui a evidência mais clara de que os autores inspirados do Novo Testamento conheciam bem estes livros, e no entanto não os citam jamais como Escritura.

Como hebreus que eram em sua maioria, é natural que conhecessem muita literatura judaica não canónica, facto que é refletido frequentemente na sua linguagem, mas ainda assim não extraíram nem sequer um texto dos apócrifos para citá-lo formalmente como Escritura. Pelo que esta evidência, longe de provar a tese católica, a refuta de maneira terminante.

Em resumo:

1. No Novo Testamento citam-se como Escritura 80% dos livros canónicos (ou 90% se forem contados como rolos) e 0% dos apócrifos/deuterocanónicos.

2. No tempo de Jesus o Antigo Testamento não se reunia num livro, mas em rolos individuais com um só livro ou vários curtos. Era impossível escrever todo o Antigo Testamento num único rolo de dimensões manejáveis.

3. Romanos 3:1-2 e 9:1-5 ensina que as Escrituras do Antigo Pacto (os oráculos de Deus e as Promessas) foram confiadas aos judeus, e que a infidelidade de alguns deles não invalidava este facto. Portanto, os cristãos devem admitir o cânon hebraico.

4. Os mais antigos códices cristãos (Alexandrino, Vaticano e Sinaítico) diferem entre si quanto aos apócrifos/deuterocanónicos que incluem, e além disso contêm livros que nunca foram admitidos como canónicos; portanto a mera presença de um livro apócrifo ali não é prova da sua canonicidade.

5. A existência de alguns apócrifos na biblioteca do Mar Morto também não é prova de um cânon mais amplo que o hebraico, porquanto não temos uma lista essénia de livros canónicos e, além disso, havia ali muitos livros que não se encontram no cânon católico.

6. É verdade que Justino usou a Septuaginta, mas chamativamente não cita os escritos apócrifos/deuterocanónicos.

7. O Novo Testamento contém numerosas alusões aos apócrifos/deuterocanónicos, o que demonstra que os apóstolos e seus discípulos conheciam estes livros. Apesar disso, nunca os citam como Escritura.


Ao fim e ao cabo o debate sobre se os sete livros são apócrifos ou não, é um debate sobre como sabemos se eles são inspirados. E vimos que sem a Igreja não podemos saber isso. O católico sabe com certeza que a Bíblia é inspirada porque a Igreja católica disse que o era, a última vez no concílio de Trento.

Ah! Até que enfim o disse...Toda a discussão está encaminhada a justificar uma autoridade abusiva da Igreja. Que não seria o que hoje chamamos "Igreja Católica", mas a autenticamente católica Igreja antiga, que compreendia toda a cristandade e não apenas parte da cristandade ocidental.

A ser assim, um católico teria permanecido na incerteza por mais de quinze séculos, já que não havia decisão explícita prévia de nenhum concílio ecuménico. E porque além disso, como explico mais abaixo, a lista de livros canónicos do Antigo Testamento de Hipona e Cartago não coincide exatamente com a de Trento.

Os membros da Igreja não sabem que são inspirados por eles próprios, mas pelo testemunho do Espírito Santo.


Martinho Lutero no seu Comentário sobre São João disse: "Estamos obrigados a admitir aos Papistas que eles têm a Palavra de Deus, que a recebemos deles, e que sem eles não teríamos nenhum conhecimento desta".

Correto, porque o Dr. Lutero formou-se como "papista", foi ordenado na Igreja Católica e, naturalmente, conheceu as Escrituras aí. Não teria dito a mesma coisa se tivesse nascido em Bizâncio ou Antioquia.


Esta Igreja pronunciou que TODOS os 73 livros que compõem o Antigo e Novo Testamento são revelação.

Sim, em 1546, numa decisão sem precedentes tomada por um punhado de bispos mal informados. O Concílio tinha sido inaugurado a 13 de dezembro de 1545.

"O assunto da Sagrada Escritura e da Tradição foi então trazido para a sua discussão preliminar a 12 de fevereiro. Quatro artigos tomados dos escritos de Lutero foram propostos à consideração, ou melhor, para a sua condenação. Destes, o primeiro afirmava que só a Escritura (sem tradição) era a única e completa fonte de doutrina; o segundo que somente o cânon hebraico do Antigo Testamento e os livros reconhecidos do Novo Testamento deviam ser admitidos como providos de autoridade. Estes dogmas foram discutidos por cerca de trinta eclesiásticos em quatro reuniões. Sobre o primeiro ponto houve um acordo geral. Admitiu-se que a tradição era uma fonte de doutrina coordenada com a Escritura. Sobre o segundo ponto houve grande variedade de opiniões. Alguns propuseram seguir o juízo do Cardeal Caetano e distinguir dois tipos de livros como, se argumentou, tinha sido a intenção de Agostinho. Outros desejavam traçar a linha de distinção ainda mais exatamente, e formar três tipos, (1) os Livros Reconhecidos, (2) os Livros Disputados do Novo Testamento, como tendo sido depois geralmente recebidos, [e] (3) os Apócrifos do Antigo Testamento. Um terceiro partido desejava dar uma mera lista, como a de Cartago, sem nenhuma definição adicional da autoridade dos livros incluídos nela, de modo a deixar o assunto ainda aberto. Um quarto partido, influenciado por uma falsa interpretação das decretais papais anteriores, insistiu na ratificação de todos os livros do cânon ampliado como de autoridade igualmente divina. A primeira opinião depois se fundiu com a segunda, e a 8 de março se confecionaram três minutas compreendendo as três opiniões persistentes. Estas foram consideradas privadamente, e a 15 [de março] a terceira foi aceite por uma maioria de vozes. O decreto no qual foi finalmente expressa foi publicado a 8 de abril, e pela primeira vez a questão do conteúdo da Bíblia foi feito um artigo absoluto de fé e confirmado com um anátema.

Este decreto fatal, no qual o Concílio, acossado pelo medo aos críticos laicos e "gramáticos", deu um novo aspecto a toda a questão do cânon, foi ratificado por cinquenta e três prelados, entre os quais não havia nenhum alemão, nenhum estudioso distinguido por sua erudição histórica, nem um que fosse apto mediante especial estudo para o exame dum assunto no qual a verdade somente poderia ser determinada pela voz da antiguidade. Quão completamente oposta era a decisão ao espírito e à letra dos juízos originais das Igrejas grega e latina, quanto diferia na igualação doutrinal dos livros disputados e reconhecidos do Antigo Testamento com a opinião tradicional do Ocidente, quão absolutamente sem precedentes foi a conversão de um costume eclesiástico num artigo de fé..."

Brooke Foss Westcott, The Bible in the Church, 3rd Ed. London-Cambridge: Macmillan & co., 1870, p. 255-257.


Ao condenar poucos dias depois da morte de Martinho Lutero (ocorrida a 18 de fevereiro de 1546) a doutrina da Sola Scriptura, os bispos de Trento acreditaram percorrer um caminho seguro. Adeririam à decisão de Cartago, a qual tinha sido enviada a Roma para sua corroboração, apesar de esta nunca ter ocorrido de maneira oficial. No entanto, mais tarde o papa Inocêncio I, numa carta de 405 dirigida ao bispo de Tolosa, Exupério, deu uma lista idêntica à de Cartago para o Antigo Testamento (ver # 96 em Enrique Denzinger, El Magisterio de la Iglesia. Manual de los Símbolos, Definiciones y Declaraciones de la Iglesia en Materia de Fe y Costumbres. Versión directa de los textos originales de Daniel Ruiz Bueno. Barcelona: Herder, 1955, p. 37). E algum tempo depois a mesma lista apareceu numa série de Decretais atribuídas variavelmente aos papas Dâmaso (366-384), Gelásio (492-496) ou Hormisdas (514-523), que na realidade parecem ter sido fruto de uma compilação privada feita no século VI em algum lugar de Itália. Além disso, no Concílio de Florença (Bula Cantate Domino de 4 de fevereiro de 1442, Denzinger #706) tinha sido imposto a mesma lista aos cristãos jacobitas. Ao que parece, isto foi suficiente para os bispos tridentinos. Eis aqui a declaração de Trento sobre o cânon do Antigo Testamento:

Ora, [o sacrossanto, ecuménico e universal Concílio de Trento] acreditou ser seu dever escrever adjunto a este decreto um índice [o cânon] dos livros sagrados, para que a ninguém possa ocorrer dúvida sobre quais são os que pelo mesmo Concílio são recebidos. São os que a seguir se escrevem: do Antigo Testamento, 5 de Moisés; a saber: o Génesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronómio; o de Josué, o dos Juízes, o de Rute, 4 dos Reis, 2 dos Paralipómenos, 2 de Esdras (dos quais o segundo se chama de Neemias), Tobias, Judite, Ester, Job, o Saltério de David, de 150 salmos, as Parábolas, o Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, a Sabedoria, o Eclesiástico, Isaías, Jeremias com Baruque, Ezequiel, Daniel, 12 Profetas menores, a saber: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias; 2 dos Macabeus: primeiro e segundo.

Denzinger #783-784; p. 223.

Para os não habituados, aclaro que os quatro de Reis são 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis; que Paralipómenos é outro nome de Crónicas, e que Parábolas se refere a Provérbios. O conjunto é muito parecido ao decidido em Cartago.

Porém havia um erro fatal. A decisão do III Concílio de Cartago sobre o cânon da Sagrada Escritura dizia o seguinte para o Antigo Testamento:

Can. 36 (ou 47). [Acordou-se] que, fora das Escrituras canónicas, nada se leia na Igreja sob o nome de Escrituras divinas. Ora, as Escrituras canónicas são: Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, Jesus Navé [Josué], Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois livros dos Paralipómenos, Job, Psaltério de David, cinco livros de Salomão (Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria, Eclesiástico), doze livros dos profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras, dois livros dos Macabeus.

Na transcrição desta decisão na obra de Denzinger (#92, p. 35) se omite a menção aos dois livros de Esdras. Isto é particularmente notável porque precisamente aí está a discrepância entre o cânon proclamado pelos bispos de Cartago e o sancionado pelos de Trento.

Com efeito, é preciso ter em conta que os bispos do norte de África usavam por aquela época a tradução da Septuaginta conhecida como a Antiga Latina, ou Ítala. E como naquele tempo os códices da Septuaginta incluíam outros livros além dos pertencentes ao cânon hebraico, não é estranho que os incluíssem entre os livros canónicos. No entanto, os dois livros de Esdras de que fala Cartago não são os mesmos a que se quis dar sanção canónica em Trento. Isto se explica por uma diferença entre as versões Antiga Latina e a Vulgata de Jerónimo.

Havia na realidade quatro livros atribuídos ao sacerdote e escriba Esdras. O autor católico Charles L. Souvay observa:

"Não pouca confusão surge dos títulos destes livros. Esdras A [= 1 Esdras] da Septuaginta é o 3 Esdras de São Jerónimo, enquanto que o Esdras B [= 2 Esdras] grego corresponde a 1 e 2 Esdras da Vulgata, os quais estavam originalmente unidos num livro. Os escritores protestantes, de acordo com a Bíblia de Genebra, chamam 1 e 2 Esdras da Vulgata respetivamente Esdras e Neemias, e 3 e 4 Esdras da Vulgata respetivamente 1 e 2 Esdras. Seria desejável contar com uma uniformidade de títulos."

s.v. Esdras (Ezra) em The Catholic Encyclopedia, vol 5, 1909.

Na Septuaginta cristã, como na Antiga Latina baseada nela que usava Agostinho e os africanos, 2 Esdras era o que hoje conhecemos como Esdras e Neemias. Por seu lado, 1 Esdras era um apócrifo que incluía algum material original sobre o retorno de Zorobabel juntamente com outro retirado principalmente de Crónicas e do Esdras canónico. Os cartaginenses admitiram este livro no seu cânon. Mas na Vulgata que conheciam os prelados de Trento, 1 e 2 Esdras correspondiam a Esdras e Neemias, enquanto o livro 1 Esdras de Cartago encontrava-se num apêndice da Vulgata como 3 Esdras (4 Esdras é o chamado Apocalipse de Esdras).

Em resumo, o Concílio de Trento na verdade deixou fora do seu Cânon um livro que tinha sido sancionado como canónico em Cartago. Devido a este erro, os cânones de Trento e de Cartago não são de facto iguais entre si no que ao Antigo Testamento diz respeito.

É preciso acrescentar que além de invalidar o decidido em Cartago, em Trento se contradisse na verdade também o papa Inocêncio I (e quiçá outros) que tinha aderido à lista cartaginesa baseada na Antiga Latina.


Em 1615 o Arcebispo Anglicano de Cantebury proclamou uma lei que previa um castigo de um ano na prisão para qualquer pessoa que publicasse a Bíblia sem os sete livros deuterocanónicos, uma vez que a versão original da King James os tinha. "Foi decidido que nada seja lido na Igreja além das Escrituras divinas. As Escrituras canónicas são as seguintes: Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, Josué...Tobite, Judite,... os dois livros de Macabeus, dois livros..." (Cânon N° 3).

Muito bem, mas não se trata de uma "definição infalível".

Os Trinta e Nove Artigos da Igreja de Inglaterra estabeleceram a posição oficial anglicana em relação aos livros apócrifos em 1563, nos seguintes termos: E os outros Livros (como disse Jerónimo) a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não se dirige a eles para estabelecer doutrina alguma. (Artigo VI).


Irmão, imaginemos que um cristão somente tem o Evangelho de Marcos, lhe faltaria muito no seu conhecimento de Jesus Cristo, não saberia nada da sua infância, porque isto se encontra somente em Lucas e Mateus; nada do Pai Nosso (não está em Marcos), a parábola do filho pródigo, a boda de Caná, etc. Se um irmão tivesse somente uma folha da Bíblia, poderia pensar que sabe toda a revelação de Deus? Sem a Bíblia católica um irmão dificilmente saberia toda a revelação de Deus sobre:

-Os defuntos e o purgatório (2 Mac 12, 45; Sab 3, 5-6), sobre a alma (Sab 3,1),


-O bom uso do vinho (Eclo 31, 25-27),

-Maria, a mãe de Jesus (Jdt 13, 18-20),

-A intercessão dos Santos por nós (2 Mac 15,13-14)

E muitas outras coisas. Por que não pedir a Deus luz sobre este assunto importante?

Haveria que analisar cada um destes textos no seu contexto para ver se realmente apoiam o que se diz. De momento, simplesmente notarei que a maioria das coisas que se mencionam ora são ensinadas noutros textos, ora são doutrinas especificamente católicas, e daí o óbvio interesse em conservar estes livros dentro do cânon. Não se trata de se são inspirados ou não, mas se servem para ser usados como textos de prova para doutrinas que possuem escasso ou nulo apoio no cânon hebraico ou no Novo Testamento.


Que disse a Igreja primitiva? Entre os padres da Igreja

-Clemente cita Judite, Tobias e Ester. Na sua Carta aos Coríntios (27, 5). Cita Sab. 12, 12.

-Didaquê cita Eclo 4, 31 (em 4, 5) e Sab12, 5 (em 5, 2).

-Carta de Barnabé cita Sab 2, 12 (em 6, 7).

-Policarpo, na sua Carta aos Filipenses (10:2) cita Tobias 4, 10.

Também os sete livros "deuterocanónicos" ofereceram aos antigos artistas cristãos matéria para decorar as catacumbas.

É uma pena que não tenha explicitado as citações de Judite, Tobias e Ester. Parece-me que o autor confunde Clemente de Roma com o seu homónimo que viveu em Alexandria no século seguinte (não lhe importa, o fundamental é provar a sua tese a qualquer custo). É verdade que Clemente de Roma reproduz o texto de Sabedoria 12:12 na sua carta aos coríntios (27:5), mas também é verdade que não introduz tal texto como se fosse Escritura.

Clemente, um dos vários bispos que por então havia em Roma, em finais do século I escreveu uma extensa carta aos coríntios. Demonstra conhecer muito bem tanto o Antigo Testamento como os escritos apostólicos. Cita os Evangelhos, as cartas de Paulo, de Pedro e de Tiago. Também Hebreus, epístola com a qual mostra grande afinidade. Do Antigo Testamento cita as três divisões, Lei, Profetas e Salmos, estes últimos com muita frequência. No entanto, não cita nenhum dos livros eclesiásticos embora umas poucas alusões indicam que conhecia a Sabedoria de Salomão (facto já mencionado). Eis aqui pois, um pastor romano do primeiro século que se distingue pelo seu conhecimento das Escrituras e que jamais cita os livros eclesiásticos (apócrifos, deuterocanónicos) como Escritura.

A Didaquê (4:5) não introduz Eclesiástico 4:31 como uma citação escritural. E do longo versículo 12:5 de Sabedoria, em 5:2 somente coincide (de novo sem citá-lo como Escritura) nas palavras "assassinos dos seus filhos".

A Epístola de Barnabé diz em 6:7 "Como, pois, havia o Senhor de manifestar-se e sofrer na carne, foi de antemão mostrada a sua paixão. Diz, com efeito, o profeta contra Israel: Ai da alma deles, pois tramaram desígnio mau contra si mesmos! Amarremos o justo, porque ele nos incomoda."

Por seu lado, Sabedoria 2:12 diz: "Armemos laços ao justo porque nos incomoda, e se opõe à nossa forma de atuar. Censura-nos as transgressões da Lei, acusa-nos de sermos infiéis à nossa educação."

No entanto, tanto Barnabé como Sabedoria parecem depender do muito canónico Isaías: "Ai deles, porque fazem o mal a si mesmos! Feliz o justo, porque tudo lhe vai bem! Com efeito, colherá o fruto do seu procedimento. Mas ai do ímpio, do homem mau! Porque será tratado de acordo com as suas obras." (Isaías 3:9-11, Bíblia de Jerusalém)

Finalmente, Policarpo reproduz as palavras de Tobias 4:10, "a esmola livra da morte", mas novamente sem citá-las como Escritura.

É verdade, por outro lado, que outros escritores cristãos primitivos, como Clemente de Alexandria, foram mais amplos nas suas citações dos apócrifos. No entanto, virtualmente todos os Padres que se pronunciaram explicitamente sobre o cânon põem os apócrifos/deuterocanónicos num nível inferior ao do cânon hebraico, como livros "eclesiásticos", contrariamente ao que séculos mais tarde se decidiu em Trento.

Em resumo:

1. Se fosse necessário a autoridade infalível da Igreja Católica Romana para conhecer o cânon do Antigo Testamento, todo o cristão teria permanecido no erro ou pelo menos na incerteza até 1546.

2. Após algumas deliberações de uns poucos bispos, o Concílio de Trento condenou de facto os pontos de vista de Lutero sobre a suficiência da Escritura e sobre o cânon do Antigo Testamento (onde Lutero coincidia com São Jerónimo).

3. A posição oficial da Igreja Anglicana coincide com a de São Jerónimo e Lutero.

4. No Concílio de Trento fez-se do conteúdo preciso da Bíblia, pela primeira vez na história da Igreja, um artigo de fé obrigatório, sancionado com um anátema.

5. No entanto, por um grosseiro erro, o Cânon do Antigo Testamento sancionado em Trento deixou fora do cânon um livro (1 Esdras da Antiga Latina = 3 Esdras do Apêndice da Vulgata) que tinha sido declarado canónico pelo Concílio de Cartago e por vários papas.

6. Uma razão pela qual a Igreja Católica defende tão decididamente os apócrifos/deuterocanónicos é que crê achar neles apoio para algumas das suas doutrinas peculiares.

7. Outra razão é que se se admite a sua autoridade para decidir o cânon, forçosamente terá de admitir-se a sua autoridade noutros assuntos.

8. É verdade que os Padres Apostólicos conheciam os Apócrifos, mas não os citam como Escritura.

9. Outros foram mais amplos na prática, mas a maioria admitiu a distinção entre livros canónicos (os do cânon hebraico) e livros eclesiásticos, de valor mas não ao mesmo nível que os primeiros.

11 de janeiro de 2010

A DOUTRINA DE SOLA SCRIPTURA COMO A ENTENDERAM OS REFORMADORES


Os apologistas católicos, por ignorância culposa ou dolosa, costumam caricaturar a doutrina de Sola Scriptura ao seu gosto. Eis aqui algumas amostras do que os Reformadores verdadeiramente afirmaram; podem ver-se muitas mais em Philip Schaff, The Creeds of Christendom. With a history and critical notes. Vol. 3: The Evangelical Protestant Creeds, 6th Ed. Grand Rapids: Baker Books, 1983 (original 1931).

Citação:

Cremos, confessamos e ensinamos que a única regra e norma, de acordo com a qual todos os dogmas e todos os doutores devem ser estimados e julgados, não é outra senão os escritos proféticos e apostólicos tanto do Antigo como do Novo Testamento...

Mas outros escritos, seja dos padres ou dos modernos, com qualquer que seja o nome que se apresentem, não devem ser de modo algum igualados às Sagradas Escrituras, mas devem ser estimados como inferiores a elas, de forma que não sejam recebidos de outro modo senão na categoria de testemunhas, para mostrar que doutrina se ensinou também depois do tempo dos Apóstolos, e em que partes do mundo a mais íntegra doutrina dos Profetas e Apóstolos foi preservada.

II. E na medida em que imediatamente depois do tempo dos Apóstolos, inclusive até enquanto eles ainda estavam vivos, surgiram falsos mestres e hereges, contra os quais na Igreja primitiva se compuseram símbolos, ou seja, confissões breves e explícitas, que continham o consentimento unânime da fé Católica Cristã, e a confissão da ortodoxa e verdadeira Igreja (como o são os Credos dos Apóstolos, Niceno e de Atanásio): publicamente professamos que os abraçamos, e rejeitamos todas as heresias e todos os dogmas que alguma vez se trouxeram à Igreja que sejam contrários às suas decisões.

Fórmula da Concórdia, 1576, 1584

A Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação: assim que qualquer coisa que aí não se leia, nem possa provar-se por ela, não deve ser exigido a nenhum homem que seja crido como um artigo de fé, ou considerado um requisito ou necessidade para a salvação.

A Igreja tem poder para decretar ritos ou cerimónias, e autoridade nas controvérsias de fé; e não obstante não é lícito que a Igreja ordene alguma coisa que seja contrário à Palavra escrita de Deus, nem pode expor uma parte da Escritura de tal forma que seja contrária a outra. Portanto, ainda que a Igreja seja uma testemunha e uma guardadora da sagrada Escritura, ainda assim, do mesmo modo em que não deve decretar nada contra esta, também não deve fora dela impor nada para ser crido como necessário para a salvação.

Artigos VI e XX dos 39 Artigos Anglicanos

Os Reformadores cunharam o lema sola Scriptura, só a Escritura. Que significa isto? Não significa que não devamos usar nada mais do que a Bíblia – que não há lugar para dicionários de teologia e coisas semelhantes. Não significa que devamos aprender a doutrina cristã somente de maneira direta da Bíblia, o que tornaria redundantes os sermões e outros livros. Não significa sequer que não devamos reconhecer outra autoridade senão a Bíblia no nosso cristianismo. A tradição e a igreja inevitavelmente funcionam como autoridades em algum sentido. Porém, a Bíblia permanece como a autoridade decisiva e final, a norma pela qual todo o ensino da tradição e da igreja deve ser julgado.

New Dictionary of Theology, Ed. Sinclair B. Ferguson, David F. Wright, James I. Packer. Grand Rapids: Zondervan, 1988, p. 633.

Por herança e convicção eu mesmo sou um biblicista; teológica tanto como academicamente sou homo unius libri. Uma das funções de normas subordinadas reconhecidas, como a Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos Maior e Menor na tradição presbiteriana, é a de fornecer orientações para a interpretação e aplicação da Escritura. Onde as normas subordinadas não são reconhecidas, não significa que não existam tais orientações: é muito provável que se estabeleçam orientações e mesmo cânones mais precisos, mas porque tomam a forma de tradição não escrita, a sua verdadeira natureza pode passar despercebida.

Sola Scriptura, na frase luterana, denota a Escritura como o principium cognoscendi, a fonte primária do conhecimento teológico. A apelação de Lutero só à Escritura como a norma pela qual os concílios, a lei canónica e todas as outras formas de tradição eclesiástica devem ser provadas foi determinado como resultado da sua confrontação com Johann Meier von Eck na disputa de Leipzig de 1519 e achou expressão histórica na Dieta de Worms dois anos mais tarde... "A marca distintiva da Reforma e dos seus discípulos", diz um teólogo luterano moderno, "é a partícula exclusiva, a palavra «sola» ... Concretamente expresso, a relação entre a comunidade e a Palavra de Deus não é reversível; não há um processo dialético pelo qual a comunidade criada pela Palavra se torne ao mesmo tempo uma autoridade disposta sobre a Palavra para interpretá-la, para administrá-la, para possuí-la... Pois a comunidade permanece como serva da Palavra." (E. Kasëmann, New Testament Questions for Today, ET, London, 1969, p.. 261s).

F.F. Bruce, Tradition Old and New. The Paternoster Press, 1970, p. 13-14.

21 de dezembro de 2009

Resposta a “Uma pergunta para um irmão evangélico sério” do Padre Juan Carlos Sack [1]


Deve a Igreja esquecer o que não está escrito?

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O P. Juan Carlos Sack é um sacerdote católico missionário na Rússia, actualmente cursando estudos exegéticos em Roma. Responderá com todo o gosto às suas perguntas ou sugestões. apologetica@ive.org
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[Juan Carlos] É por todos conhecido o facto que tantas religiões e movimentos religiosos evangélicos veneram as Sagradas Escrituras com uma reverência e amor apreciáveis. Deles, creio eu, bem podem aprender tantos católicos que, por um motivo ou outro, não
levam à prática aquelas palavras do último Concílio Universal da Igreja, a saber, o Concílio Vaticano II, quando nos ensina que "é tão grande o poder e a força da palavra de Deus, que constitui o sustento e vigor da Igreja, firmeza de fé para seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual… Os fiéis devem ter fácil acesso à Sagrada Escritura" (DV 21 e 22).

Ora bem, também é conhecido por todos a rejeição que estes nossos irmãos manifestam, em geral, por tudo aquilo que não se encontra explícita ou, ao menos, implicitamente nas Sagradas Escrituras.

[Fernando Saraví] Esta "rejeição" não é generalizada nem indiscriminada, mas se refere a considerar em pé de igualdade com as Sagradas Escrituras doutrinas ou práticas que, como correctamente dizes, não se encontram explícita ou implicitamente nelas.

[Juan Carlos] Ou seja, coincidimos com estes nossos irmãos no amor e na veneração às Sagradas Escrituras, mas diferimos quando eles dizem que só aquilo que se encontra nas Sagradas Escrituras é digno de ser tomado como mensagem certa de Deus para nossa salvação. O católico afirma que a Palavra de Deus escrita está contida, sim, exclusivamente nas Sagradas Escrituras, porém a Palavra de Deus não é só aquela que se pôs por escrito nas Escrituras, mas a Palavra de Deus excede as Escrituras: a prova está em que Jesus, o grande revelador do Pai, "fez e disse muitas outras coisas que não se encontram escritas neste livro", e que, obviamente, podemos considerar como Palavra de Deus, embora não escrita, mas oral.

[Fernando Saraví] Não pode negar-se que a Palavra de Deus excede as Escrituras, nem que existem muitas outras coisas que fez e disse Jesus que não se encontram no Evangelho segundo São João (obviamente, "este livro" não se refere a todo o Novo Testamento). Na realidade, muitas destas outras coisas encontram-se nos Evangelhos sinópticos, os quais João complementa, e em dados dispersos nos Actos, nas Epístolas e no Apocalipse. No entanto, ninguém no seu perfeito juízo afirmaria que aí está absolutamente tudo o que Deus disse e fez.

O que o evangélico sério se pergunta e pergunta ao seu não menos sério irmão católico é: Até que ponto podem ser relevantes para a doutrina e a prática as coisas que os autores do Novo Testamento, inspirados pelo Espírito Santo, declinaram incluir nos seus escritos?

Uma segunda pergunta estreitamente relacionada seria quais foram os critérios que guiaram os autores do Novo Testamento para a selecção do material proveniente da revelação divina que finalmente incluíram?

Outra pergunta mais que o evangélico se faz é: com que critério extrair-se-á da tradição oral, o que realmente corresponde aos ensinamentos de Jesus e dos seus Apóstolos de adições posteriores ou estranhas? Simplesmente para dar um exemplo, Ireneu e outros autores citam ditos de Pápias de Hierápolis que supostamente remontam aos Apóstolos, mas que quase certamente são erróneos (por exemplo, sobre a morte de Judas Iscariotes, Felipe e suas filhas, ou o reino milenário).

[Juan Carlos] Esta Palavra de Deus transmitida por Jesus e os Apóstolos oral e literalmente é chamada tecnicamente Tradição, escrita aqui a propósito com maiúscula, para diferenciá-la do que entendemos habitualmente por "tradições", ou seja, costumes de origem mais ou menos desconhecida que se vão repetindo de geração em geração, e cuja única autoridade é "que assim se faz", e basta. Semelhantes "tradições", quando são de carácter religioso, podem ser boas ou más, podem mudar ou permanecer, podem aumentar ou diminuir, podem desaparecer.

A Tradição (com maiúsculas) da Igreja tem a sua origem em Jesus Cristo e nos Apóstolos e se entrega de geração em geração por meio da pregação e da celebração dos mistérios da salvação, sob a guia do Espírito Santo. A palavra "tradição", como se sabe, vem do latim "tradere", que significa "entregar". Neste sentido as Sagradas Escrituras são parte da Tradição que recebemos de nossos antepassados na fé; ou seja, a Bíblia é uma mensagem que tem sido "entregue" de geração em geração, sob a guia do Espírito Santo.

[Fernando Saraví] Em minha opinião, a distinção deve traçar-se entre uma tradição doutrinal e uma tradição interpretativa e usual, ou seja, entre o que constitui o ensinamento inspirado pelo Espírito Santo (seria a Tradição com maiúscula) e o que é a forma de interpretá-lo e a maneira em que se fazem as coisas (costumes). A Bíblia é, para todos os cristãos, o depósito da Revelação, a verdadeira e segura Tradição da Igreja de Jesus Cristo. Tudo o mais pode ter-se em conta – por exemplo, os escritos dos Padres primitivos – mas deve ser julgado à luz da Escritura.

[Juan Carlos] Porém, conforme dissemos, os cristãos assim chamados "evangélicos" negam que devamos dar ouvidos a qualquer outra "Tradição" que não seja esta Tradição escrita, ou seja a Bíblia. A Igreja Católica, ao contrário, sustenta que aquela Sagrada Tradição (ou "ensinamento da salvação entregue") que devemos manter e conservar é mais ampla do que a Sagrada Escritura, e, digamo-lo desde já, não se opõe a ela nem a contradiz, já que se trata de uma mesma Tradição que se "entrega" sob duas formas distintas: escrita e oral.

[Fernando Saraví] Qualquer grupo humano desenvolve certa tradição e é natural e lógico que assim seja. Esta tradição se transmite de geração em geração, em geral modificando-se através de desenvolvimentos e adições.

O problema que um evangélico sério vê aqui é que os cristãos assim chamados "católicos" consideram a suposta Tradição oral como uma fonte de revelação divina a par da Palavra Escrita de Deus, "recebida pelos Apóstolos da boca do próprio Cristo, ou pelos próprios Apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo transmitida como de mão em mão..."

Esta doutrina começou a ensinar-se com clareza, por influência de Cirilo de Alexandria, no II Concílio de Constantinopla de 553, ou seja, alguns séculos depois da época apostólica. Reafirmou-se no II de Niceia (787) e no IV de Constantinopla (869). Ensina-se no Símbolo de Leão IX (1053) e numa carta de Gregório IX, entre outros documentos papais. O Concílio de Trento ratificou a doutrina na Sessão IV (8 de Abril de 1546), no I Vaticano (1870) e recentemente no II Vaticano, que conclui que "resulta assim que a Igreja não deriva somente da Sagrada Escritura a sua certeza acerca de todas as verdades reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com um mesmo espírito de piedade" (Const. Dogm. Dei Verbum, II,9).

Um evangélico sério não crê na realidade que não deva prestar-se atenção a toda a tradição extra-escritural. Ao contrário, crê que toda a suposta tradição deve examinar-se à luz do revelado por escrito. Neste sentido, simplesmente segue o exemplo do Senhor Jesus, para quem a declaração "Está escrito" concluía uma discussão com os seus discípulos, com os fariseus, com os saduceus e com o próprio Satanás (Mateus 4 e paralelos). É a mesma atitude que tinham os de Bereia quando, depois de ouvir os ensinamentos do mesmíssimo São Paulo e de Silas, "estudavam diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim". São Lucas elogia esta atitude (Actos 17: 10-12).

[Juan Carlos] Creio que não há melhor maneira de dizê-lo do que como o disse o próprio São Paulo: "Irmãos: estai firmes e mantende as tradições que recebestes como ensinamento seja de palavra ou por nossas cartas" (2 Tes. 2,13). Algumas traduções deste passo, dito seja de passagem, vertem a palavra do texto original "paradoseis" como "doutrinas", o que é perfeitamente lícito em caso de não tratar-se de uma tradução tendenciosa: não se deve esquecer que a palavra "paradosis" significa inequivocamente "tradição" (à margem do significado de "traição", "detenção" que não se aplica aqui), da raiz verbal "para-didomi", e que é a mesma palavra que usa Jesus ao dizer aos fariseus: "Assim invalidastes a palavra de Deus por causa da vossa tradição (paradosis)".

Como se vê, a palavra "tradição" pode ser tomada como sinónimo da doutrina de Jesus e dos apóstolos e também como sinónimo das doutrinas dos fariseus ou de seus antepassados. Em uma palavra, o termo "tradição" pode usar-se num sentido positivo e também num sentido mais pejorativo, daí que não há que ficar escandalizado quando na Igreja se fala de Tradição, como falava São Paulo. (Em 2 Tes 3,6 também se usa o termo grego "paradosin", que, outra vez, em algumas versões espanholas se traduz como "doutrinas": "…conforme as doutrinas que receberam da nossa parte" - Reina de Valera -; também vale aqui o que dissemos para 2,13: sim, podemos traduzir "paradosin" como "doutrina", porém não percamos de vista que o que diz o texto original é: "…conforme a tradição que receberam da nossa parte"; poderíamos acrescentar que o texto de Mt 15,3 e 6, onde temos no original a mesma palavra que em 2 Tes 3,6, ou seja, "paradosin", é traduzido por quase todas as versões espanholas - inclusive a Reina de Valera - como "tradições". Perguntamo-nos: por que não traduzir aqui "paradosin" como "doutrinas", como se traduz 2 Tes 3,6, que faz referência a uma realidade similar – ensinamentos, tradições, doutrinas -? Certamente a suspeita de imparcialidade da tradução não é de todo infundada: parece que quando o termo "paradosin" aparece para indicar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos se o traduz como "doutrinas", ao passo que quando se trata dos ensinamentos e preceitos humanos dos judeus se o traduz como "tradições". Repetimos uma vez mais que, se bem que o tradutor pode escolher os sinónimos que ele creia conveniente, contudo neste caso me parece que se cumpre o dito "traduttore tradittore", pois pode levar os leitores simples a pensar que "tradição" é uma espécie de "má palavra" que faz alusão às tradições humanas, contra a doutrina de Jesus, quando de facto no texto original se trata de uma mesma palavra, a qual adquire o seu valor positivo ou negativo segundo o "conteúdo" da mencionada tradição. No entanto não é tanto sobre questões de exegese que queria atrair a atenção do leitor, mas antes sobre questões de história da doutrina cristã em seus primeiros passos, logo que recebeu o Espírito Santo em Pentecostes.

[Fernando Saraví] Sem dúvida, a palavra "tradição" pode tomar-se em sentido positivo, pejorativo ou neutro. A tradução Reina-Valera é – como o reconhece Menéndez e Pelayo e qualquer um que aprecie o castelhano - uma jóia do século de ouro da literatura espanhola. Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera (nenhum deles se chamava "Reina de Valera" como dás a entender) optaram efectivamente por traduzir "tradição" em certas partes e "doutrina" em outras talvez como resultado da controvérsia originada na Reforma do século XVI e sua resposta romana em Trento, que ratificou a validade das supostas revelações extra-bíblicas recebidas por tradição oral. Deve-se acrescentar que apesar de alguma escolha discutível – que todas as versões as têm - em matéria de traduzir para o espanhol a Bíblia a partir das línguas originais e pô-las ao alcance das pessoas, os cristãos protestantes ganharam alguns séculos de vantagem aos cristãos católicos.

Voltando ao problema principal, Efésios 2:19-22 e outras passagens nos ensinam que:

1. Jesus Cristo é a Pedra angular
2. Os Apóstolos e os Profetas são o cimento
3. Os demais crentes são o edifício que, sobre dita Pedra angular e Cimento, se levanta como "templo santo ao Senhor".

Os Apóstolos insistem repetidamente na conservação dos seus ensinamentos e na fidelidade a eles. Alguns exemplos:

"Obedecestes de coração àquele modelo de doutrina a que fostes entregues" (Rom 6:17)

"Além disso vos declaro, irmãos, o evangelho que vos preguei, o qual também recebestes, no qual também perseverais, pelo qual também, se retiverdes a palavra que vos preguei, sois salvos, se não crestes em vão" (1 Cor 15:1-2)

"Vivei, pois, segundo Cristo Jesus, o Senhor, tal como o recebestes" (Col 2:6)

"Finalmente, irmãos, vos rogamos e vos exortamos no Senhor Jesus a que vivais como convém para agradar a Deus, segundo aprendestes de nós, e a que progridais mais" (1 Tess. 4:1, cf. 2:13)

"Tudo quanto aprendestes e ouvistes e vistes em mim, ponde isso em prática, e o Deus de paz estará convosco" (Filip 4:9)

"Pois mais lhes valeria não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o conhecer, voltar atrás, abandonando o santo preceito que lhes foi transmitido" (2 Ped 2:21)

É claro que os Apóstolos desejavam que o que eles ensinavam, tanto oralmente como por escrito, fosse recebido pelos cristãos. Entre Pentecostes e a primeira das Epístolas decorreram pelo menos 15 anos, e até onde sabemos neste período a pregação apostólica se propagou de maneira exclusivamente oral, com o apoio, evidentemente, das Escrituras do Antigo Testamento. É preciso admitir igualmente que até à recolha do grosso do corpus que hoje constitui o Novo Testamento, provavelmente na primeira metade do século II (Clemente de Roma cita 1 Coríntios e Ireneu considera axiomática a existência de quatro Evangelhos), predominou a transmissão oral do ensinamento caracteristicamente cristão.

[Juan Carlos] É um facto óbvio e ainda registado nas Sagradas Escrituras que "há muitas outras coisas que fez Jesus que, se fossem escritas uma por uma, penso que não caberiam nem no mundo todos os livros que se precisariam escrever" (Jo 21,25). Jesus passou os anos da sua vida pública pregando e fazendo o bem, coisa que depois fizeram também os Apóstolos do Senhor, que são considerados por todas as igrejas cristãs como fontes da Revelação, ou seja, a Revelação pública do mistério de Jesus Cristo culmina com a morte do último dos Apóstolos, que foi João.

[Fernando Saraví] Um evangélico sério se perguntaria aqui por que citas outra vez o mesmo versículo da Bíblia (João 21:25) em favor da posição que defendes, como se não houvesse outro em que agarrar. Na realidade, este versículo, provavelmente uma adição editorial ao escrito pelo discípulo amado, pode interpretar-se cabalmente à luz de João 20: 30-31: "Fez ainda Jesus muitos outros sinais na presença de seus discípulos, os quais não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome".

Se esse é o problema, então nem a Bíblia nem a tradição oral pode esgotar o que Deus fez, faz e fará. De facto, esta linha de argumentação é uma faca de dois gumes. Por exemplo, alguns grupos cristãos marginais e também seitas derivadas do cristianismo (como os mórmons) apelam a um raciocínio similar para ensinar que Deus continua revelando-se até hoje através dos seus "profetas". O ponto é que não necessitamos – nem poderíamos – de saber tudo o que Deus disse e fez. A Escritura é altamente selectiva, e tem no seu conjunto o mesmo propósito que João: dar testemunho de Jesus Cristo e levar-nos à salvação em Seu santo nome.

[Juan Carlos] Ninguém pode dizer baseado em algum texto bíblico que os autores dos textos do Novo Testamento quiseram limitar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos ao que eles estavam escrevendo. Ou posto de outra maneira, nem a Mateus, nem a Marcos, nem a Lucas, nem a João, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a Tiago, nem a Judas nem a nenhum outro que tenha podido formar parte dos autores do Novo Testamento jamais lhes ocorreu pôr por escrito tudo o que Jesus ensinou, pois seria algo que nunca acabaria, como o diz João (21,25). Jesus também não lhes tinha mandado escrever nada. Nem sequer todos os Apóstolos escreveram algo, mas só cinco, alguns dos quais escreveram apenas duas ou três páginas (ver a carta de Judas, ou de Tiago; de Pedro temos duas cartas).

[Fernando Saraví] Parece-me que não leste com atenção o que São João escreveu no final do Apocalipse: "Eu advirto a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro: Se alguém acrescentar a estas coisas, Deus trará sobre ele as pragas que estão escritas neste livro. E se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida e da cidade santa e das coisas que estão escritas neste livro" (Apocalipse 22:18-19).

Isto significa que, contrariamente ao que dizes, pelo menos um autor bíblico, e um muito importante, considerou apropriado restringir taxativamente os limites desta revelação. Claro está que em sentido estrito esta advertência somente é válida para o Apocalipse, mas por outro lado o facto de ter sido provavelmente o último livro bíblico a escrever-se, e a Igreja primitiva ter considerado apropriado colocá-lo no final da Bíblia não pode passar-se levianamente por alto.
 

[Juan Carlos] Jesus, no entanto, deu aos seus Apóstolos o mandamento de ir por todo o mundo anunciando o Evangelho a toda a criação, "ensinando-lhes a guardar tudo o que vos mandei" (Mt. 28,20). Os Apóstolos e também os outros discípulos do Senhor, uma vez recebido o Espírito Consolador, cumpriram com o que o Senhor lhes havia ordenado e pregaram dia e noite, ainda que ao preço de seu Sangue, o que eles tinham "visto e ouvido" acerca de Jesus. Ora bem, como fica claro os Apóstolos fizeram isto pregando, ou seja, entregando oralmente o mistério da Salvação, já que, como dissemos, só alguns dos Apóstolos, passado já muito tempo de pregação, e sem pretender resumir em seus escritos aquilo "tudo" que Jesus lhes havia mandado (ver acima a citação de Mt. 28,20) escreveram algo do que pregavam (notemos que muitos dos escritos do Novo Testamento são cartas circunstanciais). Com isto queremos dizer que:

1. A nenhum dos Apóstolos lhe ocorreu jamais limitar os ensinamentos de Jesus ao que estavam escrevendo nesse momento;
2. A comunidade cristã do começo não se fundou sobre os escritos do Novo Testamento, mas sobre o ensinamento oral dos Apóstolos e discípulos do Senhor;
3. Milhares de cristãos da primitiva Igreja nunca leram nenhum texto do Novo Testamento.

Poderíamos concluir disto que a comunidade dos primeiros cristãos não conhecia a Palavra de Deus? Claro que não. A conhecia e muito bem, mas para eles (e para muitas igrejas particulares durante séculos) a Palavra de Deus foi entregue de maneira oral, pelo menos em sua quase totalidade.

[Fernando Saraví] Estes factos já foram comentados. Aqui cabe recordar que os primeiros cristãos – mesmo na época Apostólica - possuíam um conjunto de Escrituras que hoje chamamos Antigo Testamento.

[Juan Carlos] Ouvi dizer por aí que, chegado o tempo, Deus fez que se pusessem por escrito os ensinamentos evangélicos, para que não fossem deturpados pelo correr dos anos; hoje devemos ficar-nos com o que ficou escrito, que sem dúvida não contém erro, tudo o mais é perigoso, pouco confiável.

Em relação a isto digamos que tal afirmação está ainda por demonstrar: não se baseia em nenhum mandamento - pelo menos que conheçamos – do Senhor, nem em nenhuma decisão de algum Concílio da Igreja (como por exemplo o Concílio de Jerusalém, em Actos 15, onde a Igreja decide questões que iam aparecendo e sobre as quais Jesus, aparentemente, não tinha deixado uma norma clara de comportamento).

[Fernando Saraví] É um facto que o concílio de Jerusalém que citas pôs por escrito a sua decisão em vez de confiar somente na sua transmissão oral, mesmo tendo sido a carta levada por irmãos irrepreensíveis com São Paulo à cabeça:

"Pelo que eu julgo" – diz Tiago - "que não se inquiete os gentios que se convertem a Deus, mas SE LHES ESCREVA que se abstenham..." (Actos 15:19-20).

"Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja, eleger alguns homens e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé; a Judas, que tinha por sobrenome Barsabás, a Silas, homens principais entre os irmãos, e ESCREVER por intermédio deles ... [segue o texto da carta]. Assim pois, os que foram enviados desceram a Antioquia e, reunindo a congregação, entregaram A CARTA. Tendo-a LIDO, alegraram-se pela consolação" (Actos 15:22-23, 30-31).

[Juan Carlos] Ou seja, a afirmação de que "Deus, vendo que algumas doutrinas corriam o risco de ir-se desviando, dá-nos os escritos do Novo Testamento" pode soar muito bem para alguns, mas a menos que conheçamos os pensamentos de Deus directamente, não a podemos defender com nenhum dado nem histórico nem bíblico, é uma hipótese. Eu poderia dizer, como hipótese, que não, que esse não foi o pensamento de Deus, que esse não foi o motivo pelo qual apareceram os escritos do Novo Testamento, e quem me poderia dizer que me equivoco?.

[Fernando Saraví] O teu raciocínio pode dividir-se em duas partes. Primeiro, os cristãos crêem que Deus actua na história e a dirige para os Seus próprios fins. Neste sentido, parece-me que nenhum cristão cabal negaria que as Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, foram providencialmente preservadas por Deus até aos nossos dias. A documentação textual da Bíblia excede amplamente em qualidade e quantidade a de qualquer outro documento da antiguidade comparável. Por outro lado, pode-se perguntar por que Deus fez isto. Aí sim há lugar para as conjecturas. A mim parece-me muito razoável isso que "ouviste dizer por aí", a saber, que a conservação providencial tinha pelo menos como um dos seus objectivos preservar o ensinamento original livre de corrupção, adição ou emendas. Não nego que possa existir uma melhor explicação, mas ainda não a ouvi.

[Juan Carlos] Sobre este ponto poderíamos aduzir outros aspectos, porém não é o que mais nos concerne agora.

Damos por adquirido, pois, que Jesus e os Apóstolos disseram e fizeram muitíssimo mais do que está escrito, e que na vida dos apóstolos se deram factos importantes que não ficaram por escrito (ou acaso alguém pode pensar que o trabalho dos Doze se limita ao pouco que o livro dos Actos dos Apóstolos relata, quase exclusivamente, sobre Pedro e Paulo?). E damos por adquirido também que se alguém pensa que o importante para nós é só o que ficou escrito, esse pensamento não é nem bíblico - não está em nenhuma parte na Bíblia, nem sequer insinuado, antes o contrário; nem é tampouco histórico - nunca ninguém pensou assim até aos últimos séculos da nossa era.

[Fernando Saraví] Parece que Jesus, Paulo e o resto dos Apóstolos de facto pensaram assim em relação ao Antigo Testamento – única Escritura em seus dias - já que jamais apelaram a fontes extra-bíblicas para provar, explicar ou ensinar acerca de Cristo.

O argumento de que Deus deve ter feito e dito muito mais do que está escrito aplica-se também ao período muito mais extenso que a Era Cristã do que Ele fez desde a criação do mundo até à época do Novo Testamento. De facto, os hebreus possuíam nos tempos de Jesus uma ampla variedade de tradições orais, que algumas seitas como a dos fariseus, colocavam à altura das Escrituras (de facto, dizia-se que no monte Sinai Moisés tinha recebido tanto a Lei escrita como a Lei oral). Jesus Cristo parece que não era de igual opinião. Para Ele a tradição não podia colocar-se ao mesmo nível, nem muito menos acima, da Escritura. A tradição era subordinada, optativa; a Escritura era soberana e obrigatória. Esta devia julgar aquela.

Portanto, o ponto de vista evangélico certamente é bíblico. O que Jesus e os Apóstolos fizeram em relação ao Antigo Testamento, os cristãos evangélicos o aplicam, por analogia, ao Novo Testamento.

Também é histórico. Diz-se que se se perdessem todas as cópias do Novo Testamento, se poderia reconstruí-lo com base nas citações patrísticas. Os escritores cristãos primitivos, apologistas, pastores e teólogos dos primeiros séculos, não apelavam a supostas tradições doutrinais mas às Escrituras. É certo que encontramos numerosas alusões à "regra de fé da Igreja" e à "tradição eclesiástica", mas não se trata de uma tradição doutrinal à parte das Escrituras, mas da forma tradicional de interpretá-las e aos usos e costumes. Para os Padres dos primeiros séculos, a Sagrada Escritura é a tradição doutrinal da Igreja, e o autêntico registo da tradição Apostólica. Assim, Tertuliano (160-220) diz que aos hereges não se lhes deve conceder o uso das Escrituras para redarguir, porque não lhes pertencem; as Escrituras são património da Igreja, base e fundamento da sua doutrina (J. Quasten, Patrología I, p. 569). "Porque onde vejamos certamente a verdade da doutrina e da fé cristã, aí indubitavelmente encontram-se também as verdadeiras Escrituras, a verdadeira interpretação, as verdadeiras tradições cristãs" (De Prescriptione Haereticorum, 20).

Por exemplo, nos escritos conservados de Orígenes, homem de vastíssima erudição, não encontramos apelos a tradições doutrinais extra-bíblicas, apesar de que, dadas as especulações deste Padre, tais tradições poderiam ter sido muito interessantes. Eusébio de Cesareia (Hist Ecl VI, 25:11-14) conservou as reflexões de Orígenes a propósito do autor de Hebreus, e todas elas se baseiam em evidências internas da epístola. Parece que no seu tempo (segunda metade do século III) não havia tradição confiável a tal respeito.

Ireneu de Lyon (ca. 140-205) escreveu: "...as Escrituras são na verdade perfeitas, sendo que elas foram faladas ou ditadas pela Palavra de Deus e pelo Seu Espírito..." (Adv Haer II, 28).

"Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé" (Adv Haer III, 1,1).

Ireneu também tem a Igreja como depositária das Escrituras e possuidora de um entendimento correcto destas: "... mas melhor é que nos refugiemos na Igreja, sejamos educados em seu seio, e nos alimentemos da Escritura do Senhor" (Adv Haer V,20:2).

Numa carta a Florino conservada por Eusébio, Ireneu recorda Policarpo – segundo a tradição discípulo de São João Apóstolo - e o louva porque "tudo relatava em consonância com as Escrituras" (Hist Ecl V, 20:6).

Ainda João Crisóstomo (347-407) escreveu: "Possuímos a regra e o padrão mais exato e perfeito para regular as nossas diversas inquirições: refiro-me à regulação das leis divinas. Eu, portanto, gostaria que todos vocês rejeitassem o que este ou aquele homem diz, e que investigassem todas estas coisas nas Escrituras" (Hom. 13, 4:10 ad fin. in 2 Cor.). Parece que o insigne pregador não estaria de acordo contigo. Quasten recalca: "O maior orador sagrado da Igreja antiga baseia toda a sua pregação na Escritura" (o.c., p. 528).

Pela mesma época, Gregório de Nissa (330-395) afirmou: "Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos"; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso" (De anima et resurr.)

Igualmente Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito de seu tempo, disse: "É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques" (Adv Helv).

Também o grande Agostinho de Hipona (354-430) era do mesmo parecer. O bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento: "Nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa". Nas suas Confissões (VI, 5: 2-3) declara: "Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..."

Os exemplos poderiam multiplicar-se. De maneira que os Padres a partir do século II baseiam as suas doutrinas nas Escrituras e, ainda que se mostrem zelosos em conservar a tradição interpretativa eclesiástica, não apelam a tradições orais doutrinais. A ter existido tal coisa, deverá ter sido de natureza independente e secreta; mas é precisamente este género de tradição o que Ireneu severamente condena, por sua origem espúria (Adv Haer III, 3:1).

[Juan Carlos] Ora bem, suponhamos que na comunidade cristã do começo sucede um facto que não ficou por escrito, e ponhamos já mesmo um exemplo para fazer a questão mais prática e entendível: digamos que a Mãe do Senhor, conhecida e querida por todos os Apóstolos, que tinha estado junto a Jesus durante toda a sua vida, chegado o dia determinado por Deus morreu, e que quando foi visitada na sua sepultura por algumas pessoas, digamos para os ritos próprios dos funerais judeus, se depararam com que o seu corpo não estava mais ali. Este facto, que os católicos tomam por um "ensinamento entregue", uma "Tradição" com maiúscula (a Assunção da Virgem), o tomamos aqui pura e exclusivamente como uma suposição, já que, segundo vimos, certamente sucederam coisas que não ficaram por escrito.

[Fernando Saraví] É um exemplo muito interessante o que elegeste, já que as doutrinas marianas são um tema que separa profundamente católicos e evangélicos. Como bem sabes, a última vez que no Novo Testamento se menciona a Bem-aventurada Maria é em Actos 1:14, onde a achamos orando com os demais discípulos antes de Pentecostes. Depois do "nascimento" da Igreja em tal ocasião, não é mais mencionada pelo nome. Nada nos é dito dos seus feitos posteriores, nem sequer da sua morte ou assunção. Podem aduzir-se muitos raciocínios a tal respeito, e no que a mim concerne, se Enoque e Elias foram arrebatados aos céus, não vejo por que não pudesse sê-lo Santa Maria.

No entanto, o que aqui se discute é a validade da tradição que respalda este dogma. Se alguém ler no Denzinger a definição da Assunção feita em 1950 – levou 19 séculos decidir que era um dogma de fé - notará que se recorre aos textos bíblicos e inclusive à mais antiga tradição patrística (por exemplo Ireneu) para justificar certos raciocínios, mas de modo algum para demonstrar com o testemunho dos Padres, que esta doutrina fosse crida por eles ou parte da suposta tradição extra-bíblica conservada na Igreja.

É um facto por todos reconhecido que não há evidência de que alguém soubesse alguma coisa da assunção corporal de Maria durante os primeiros séculos; com efeito, esta noção aparece pela primeira vez em fontes extremamente duvidosas, nas quais não confiariam os católicos noutros aspectos. No seu Manual de Teologia Dogmática diz Ludwig Ott: "A ideia da assunção corporal da Virgem encontra-se expressa primeiramente nos relatos apócrifos sobre o trânsito da Virgem, que datam dos séculos V e VI... O primeiro escritor eclesiástico que fala da assunção corporal de Maria, seguindo um relato apócrifo do Transitus B.M.V. é Gregório de Tours (m. 594)..." (p. 328).

Quer dizer que neste caso, como em muitos outros em que se apela à tradição oral para fundamentar o que hoje se crê, não existe ponta de evidência de que a informação provenha dos Apóstolos. Além do mais, em alguns casos como o do exemplo que escolheste, a evidência disponível assinala a sua origem marginal e extra-apostólica, de escritos desprovidos de valor em relação aos factos do primeiro século. Se este critério se aplicasse consistentemente a toda a teologia, e não selectivamente a parte dela, quem sabe onde estaríamos, doutrinalmente falando.

[Juan Carlos] Neste suposto caso, e em todos os demais casos que certamente ocorreram, ou seja, nos milhares de factos acontecidos durante a vida de Jesus e dos Apóstolos, e no extensíssimo ensinamento de Jesus e dos Apóstolos que não ficou por escrito (que "não caberiam no mundo os livros que se precisariam escrever" Jo 21,25) que coisa devia fazer a Igreja, ou seja, a comunidade de crentes? Esquecer-se? Por que devia esquecer-se, se a sua missão era precisamente transmitir tudo o que eles tinham visto e ouvido? Em que momento da história da Igreja se tomou a decisão de "esquecer" os eventos que os autores sagrados não tinham deixado por escrito?

Que deve fazer um crente do século XX ao ler 2 Tes 2,13-15?

"... Assim pois, irmãos, mantende-vos firmes e conservai as tradições que haveis aprendido de nós, de viva voz ou por carta."

Baseado em que princípio devo dizer agora que aquilo que se ensinou "de viva voz" há que esquecê-lo e ficar só com o que se entregou "por carta"?

Não se deu conta São Paulo do "perigoso" que era dizer que havia que obedecer às tradições orais…?

Os católicos, por seu lado, continuam mantendo que é preciso conservar ambas as doutrinas, a que foi entregue por carta e a que foi entregue oralmente pelos pastores da Igreja; "ambas" as doutrinas que são uma mesma doutrina comunicada por distintos canais, mas que se complementam, se aperfeiçoam, se explicam mutuamente. Assim era no começo e eles não vêem porque agora devam limitar o ensinamento ao que ficou escrito. Se Deus assim o ensinasse, por exemplo através de algum dos Apóstolos, então haveria que aceitá-lo com gosto. Porém, como dissemos, não existe nenhum motivo que nos permita pensar racionalmente que agora devemos deixar de prestar atenção à Tradição oral.

Em que consiste essa Tradição? Em toda a mensagem evangélica de salvação que pregou a Igreja começando com os Apóstolos ao longo dos séculos através de seus pastores, que devem pregar a toda a criação, "ensinando-lhes a guardar tudo o que eu vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo", mesmo desaparecidos já os Apóstolos do Senhor, como por exemplo no século XX… Também hoje Jesus está com aqueles aos quais os Apóstolos impunham as mãos, bispos, presbíteros e diáconos (1 Tim 5:22; Tito 1,7; Fil 1,1), que têm a obrigação de pregar em nome de Jesus, de tal modo que "quem a vós ouve a mim me ouve, e quem a vós rejeita a mim me rejeita, e rejeita aquele que me enviou" (Lc 10:16). Mas esse já é outro tema, que com gosto trataremos, se Deus quiser, em outro escrito.

[Fernando Saraví] Para um evangélico sério, é chamativo que desde o estabelecimento da Igreja de Roma como mais do que uma "primeira entre iguais", não se tenha delimitado, definido e exposto claramente qual é o conteúdo preciso da suposta tradição doutrinal apostólica; ou seja, quais são exactamente os seus limites. Tal como se deram as coisas, definiram-se como parte de dita tradição dogmas – como a imaculada concepção de Maria ou a infalibilidade papal - que não podem traçar-se claramente nem nas Escrituras nem nos Padres e que, de facto, muito antes da sua definição, foram objecto de ampla e animada discussão entre os próprios teólogos católicos. O "depósito da Tradição" oral permanece até hoje com limites difusos, e as poucas definições que se fizeram mostram quão pouco confiável é tal suposta tradição. Os evangélicos mostram para com ela a mesma atitude que Jesus e os Apóstolos mostraram para com as tradições orais do seu tempo. Cremos que a sucessão Apostólica se exprime na conformidade com a doutrina dos Apóstolos, e esta encontra-se expressa perpetuamente de modo confiável e certo somente no Novo Testamento.

[Juan Carlos] Querido irmão evangélico que me leste até este ponto: agradeço-te o teu interesse e paciência, que falam bem do teu empenho pela verdade que nos fará livres a ti e a mim. Peço-te que reflictas estas coisas, porque são assuntos importantes, de vida eterna. Agradecer-te-ia enormemente que me envies alguma linha de resposta a estas questões que te expus, ou sobre algum outro tema que estejas aprofundar, ou alguma tradução que queiras corroborar, etc. Graças a Deus posso ler (pelo menos tentá-lo!) os textos originais em hebreu e grego, e posso-te ajudar. Tenho um só interesse: fazer-te o bem.

[Fernando Saraví] É nesse espírito que dizes que eu também respondi. Desde já, espero as tuas observações sobre os meus comentários. Obrigado pelo esforço que fizeste, e que Deus abençoe a tua vida e serviço. No amor, no serviço e na fraternidade de Cristo.


[1] O artigo original do P. Juan Carlos Sack pode ser visto em apologetica.org existindo também uma tradução em português deste artigo em veritatis.com.br

5 de dezembro de 2009

EM DEFESA DE SOLA SCRIPTURA


Antes de referir-nos ao artigo traduzido e publicado em apologeticacatolica.org com o título "Bíblia e Tradição...", convém resumir – para evitar mal-entendidos - o que os evangélicos entendem por Sola Scriptura. Digo isto porque embora "Sola Scriptura" – somente a Bíblia - possa tomar-se como uma declaração que não necessita de comentários, na realidade não é assim. Ocorre mais ou menos como com a teoria da Relatividade... que não significa que "tudo é relativo". Sola Scriptura significa:

1. Que a Bíblia é a única regra infalível da fé (doutrina) e da prática (costumes).

2. Que o ensino da Bíblia é suficiente para que as pessoas aceitem Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e fazendo o que ela diz, alcancem a vida eterna.

Corolários:

1. A Igreja de Jesus Cristo não necessita de revelações que não se achem explicitamente ou por lógica e clara implicação na Bíblia.

2. Não há outra regra infalível de fé fora das Escrituras.

Por outro lado, Sola Scriptura NÃO significa:

1. Que a Bíblia contenha absolutamente tudo o que Deus disse e fez.

2. Que a Palavra de Deus não foi transmitida oralmente em muitas ocasiões e situações históricas.

3. Que a Igreja careça de autoridade para interpretar, ensinar e defender a Palavra de Deus.

4. Que toda a tradição não escrita deva ser rejeitada a priori e a fortiori.

Os cristãos evangélicos acreditam que a Igreja é coluna e fundamento da verdade, que deve ter mestres piedosos e conhecedores das Escrituras, e que muitas tradições são expressões válidas da fé cristã. Aceitam as expressões normativas dos Credos dos primeiros concílios ecuménicos, e levam a sério os ensinos dos Padres, assim como dos muitos e muito bons mestres, doutores e comentaristas que Deus deu à Igreja ao longo dos séculos. Não acreditam que a Escritura seja de interpretação privada (livre interpretação), mas sustentam o princípio do Livre Exame.

Se aceitam algumas coisas e rejeitam outras, o fazem com base no que consideram ser os ensinos das Escrituras. O ensino da tradição – sim, mesmo da sua própria tradição - , dos concílios, dos Padres, etc, deve conformar-se às Escrituras, que são a Palavra final, inspirada e infalível de Deus.

Agora dirijamo-nos ao artigo em questão, e vejamos o quão firmemente estabelece a sua tese, e no final incluirei um resumo das razões bíblicas que nos obrigam a reafirmar o princípio de Sola Scriptura.

O autor (Armstrong) reconhece que os Protestantes não ignoram "a importância e validade da história da Igreja, da Tradição, dos Concílios ecuménicos, ou da autoridade dos Padres da Igreja e destacados teólogos. A diferença reside na relativa posição de autoridade mantida pela Escritura e pelas instituições e decretos da Igreja."

Note-se que o autor sabe perfeitamente que a diferença fundamental não é a rejeição de qualquer outra autoridade além das Escrituras, ainda que essa se considere subordinada a estas. Contudo, depois se afirma que "A prevalência do sola Scriptura, de acordo ao pensamento católico, facilitou uma estendidíssima ignorância e desprezo da história da Igreja entre os protestantes comuns."

Suponho que a obscura referência aos protestantes "comuns" se referirá àqueles mais ignorantes. Deveria ser óbvio que ainda que tal coisa seja verdade, não é menos certo que os católicos "comuns" são tão ou mais ignorantes da história, e por acréscimo das Escrituras. Limitam-se a assentir sem examinar tudo quanto a sua Igreja diga que é certo. Quanto ao conhecimento da história entre os católicos, pois, deve referir-se aos católicos cultos, que então deveriam comparar-se com os protestantes instruídos; e neste caso o suposto desnível desaparece ou inclusive se inverte.

"O Catolicismo afirma que a sua Tradição é nem mais nem menos que a conservação do ensino de Cristo tal e como foi revelado e proclamado pelos Apóstolos. Existe um desenvolvimento, mas apenas no sentido de um aumento do entendimento que não na essência, desta Tradição apostólica. O Catolicismo afirma ser o guardião e custódio do depósito original da fé a qual foi uma vez entregue aos santos (Judas 3)."

Deve tomar-se cuidadosa nota deste parágrafo, segundo o qual, e em conformidade com a doutrina católica, se sustenta que a Tradição que a Igreja de Roma considera inspirada e portanto dotada de suprema autoridade não é toda a tradição que possa ter essa ou outras igrejas, mas aquelas que remontam diretamente ao Senhor e aos Apóstolos.

"Deve anotar-se também que a palavra escrita e a massa enorme de literatura foi propagada amplamente apenas desde a invenção da imprensa por volta de 1440. Desse modo, essa palavra escrita não pôde ter sido a principal transmissora do evangelho durante pelo menos catorze séculos. Os cristãos anteriores no tempo à Reforma Protestante aprenderam sobretudo através das homilias, dos sacramentos, da liturgia e seu calendário anual, das festas cristãs, das práticas devocionais, instrução familiar, arquitetura eclesial e outro tipo de arte sacra que refletia temas bíblicos. Para todos esses crentes, o sola Scriptura teria sido claramente uma absurda abstração de impossível colocação em prática."

Eis aqui uma falácia repetida até à exaustão pelos apologistas católicos. É tão óbvia que deveria pelo menos dar-lhes vergonha de repeti-la. A existência de milhares de manuscritos bíblicos indica que, por muito tempo, os cristãos puderam fazer para si cópias de parte ou de toda a Bíblia, mas este não é o ponto.

Os protestantes não afirmam que a Palavra escrita tenha sido o principal veículo de transmissão, mas que é a fonte definitiva da Verdade revelada. Por ela é possível julgar as homilias, os sacramentos, a liturgia, etc. A questão é se a nossa pregação e as nossas práticas são conformes às Escrituras, não se cada cristão que existiu teve uma Bíblia. Portanto, o argumento além de falacioso é irrelevante.

"Apenas um preconceito prévio contra tal noção ou uma indevida fixação na rejeição por parte de Cristo do corrupto, tradições humanas farisaicas, poderia cegar alguém perante a considerável força dos dados escriturais. Dito de outra forma, a Escritura não ensina o sola Scriptura, um conceito que se baseia no uso de um documento (a Bíblia) contrariamente ao que o próprio documento testemunha explícita e implicitamente."

A isto se responde no final.

"É absurdo para qualquer cristão desdenhar o que Deus ensinou a milhões de outros cristãos ao longo dos séculos."

Não posso interpretar este parágrafo senão como um profundo preconceito contra os evangélicos. Quem terá dito a este bom senhor que em conjunto desprezamos os santos e os sábios do passado? A questão não é essa, isto não é o que se discute. O que está em jogo é a norma final de autoridade: Bíblia ou Bíblia mais tradição apostólica.

Note-se que aqui se contrapõe Sola Scriptura com "o que Deus ensinou a milhões de outros cristãos ao longo dos séculos." Aqui deixa transparecer - involuntariamente, suponho - a verdadeira origem e natureza da tradição católica, a saber, a religiosidade popular das massas. Porém, esta tradição secular NÃO é a que nominalmente defende Roma, já que teoricamente esta última tradição não foi dada às massas nem ao longo de séculos, mas proviria diretamente do Senhor e dos seus Apóstolos, que a receberam num intervalo de décadas. Contudo, na prática Roma confunde uma com outra, e de facto atribui sanção dominical e apostólica a coisas que provêm da religiosidade popular.

"No Novo Testamento, em primeiro lugar, encontramos um testemunho bem claro do facto de que a Escritura não contém todo o ensino de Cristo. Presumivelmente ninguém negaria isto, mas os Protestantes costumam negar que qualquer dos Seus ensinos não recolhidos na Escritura poderiam ter sido fielmente transmitidos oralmente pela primitiva tradição apostólica."

Não existe razão a priori para negar que alguns ensinos do Senhor que não estão nas Escrituras poderiam ter-se transmitido por tradição oral. Deus é soberano, e pode fazer as coisas como a Ele lhe aprouver. Não corresponde a nenhum ser humano dizer a Deus como fazer melhor as coisas... O problema surge quando queremos determinar a este respeito qual foi a vontade de Deus.

É certo que a investigação histórica sugere que alguns ditos de Jesus poderiam ter-se conservado fora do Novo Testamento (por exemplo, Joachim Jeremias, "Palabras desconocidas de Jesús", trad. cast., Salamanca: Sígueme, 1979). Mas isto é por sua própria natureza duvidoso, e em todo o caso não afeta as doutrinas centrais do cristianismo.

Por outro lado, a própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

Ora bem, segundo o dogma romano, o depósito da tradição apostólica oral ficou fixado no primeiro século, e não é possível tirar nem acrescentar nada a ele (ainda que se admita a noção de "desenvolvimento" tão habilmente proposta pelo Cardeal Newman). Ainda que a Igreja de Roma tenha apelado a tal suposta Tradição oral apostólica (como ao duvidoso "consenso unânime dos Padres) para definir alguns dogmas, o protestante se pergunta – e o católico deveria perguntar-se - o seguinte: por que estranha razão nos séculos decorridos desde o tempo dos Apóstolos, a Igreja de Roma não determinou e enunciou os limites precisos da tradição que diz zelosamente guardar? Por certo, as pretensões do romanismo poderiam levar-se mais a sério se o Papa por si ou mediante uma comissão realizasse tal tarefa. Até que se demonstre o contrário, cabe pensar que a tradição apostólica oral não é mais real do que o traje novo do imperador.

O nosso apologista romano apela depois aos seguintes "textos de prova":

"Marcos 4:33 E lhes anunciava a Palavra com muitas parábolas como estas . . .

Em outras palavras, como se entende, muitas parábolas não estão recolhidas na Escritura"

O Evangelho de Marcos não apresenta senão nove do total de 46 parábolas de Jesus que se encontram nos Evangelhos. Portanto, é lógico pensar que Marcos se refere às outras 35, e portanto a afirmação que "muitas parábolas não estão recolhidas na Escritura" é gratuita.

"Marcos 6:34 . . . e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Nenhuma destas muitas coisas está refletida aí

João 16:12 Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora.

Talvez, este muito foi falado durante as suas aparições depois da Ressurreição, às quais se alude em Atos 1:2-3 (ver mais abaixo). Muito poucos destes ensinos se guardaram por escrito, e aqueles que o foram, contêm apenas mínimos detalhes."

Se o Novo Testamento concluísse com os Evangelhos, o argumento baseado nestes textos e em Atos 1:2-3 teria algum mérito. Contudo, os Apóstolos evidentemente receberam e ensinaram "muitas coisas" que não se encontram nos Evangelhos mas estão registadas nos Atos, nas Epístolas e no Apocalipse. Em outras palavras, cerca da metade do Novo Testamento é dedicado a estes ensinos. O romanista vê-se obrigado a ocultar este facto tão evidente para buscar apoio para a sua tese.

"João 20:30 Jesus realizou em presença dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro."

Aqui esqueceu-se do contexto, ao qual reconhece tanta importância na hora de refutar os evangélicos. O versículo 31 continua: "Mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." Nem o propósito de João nem o de nenhum dos Sinópticos parece ser proporcionar um registo exaustivo. O mesmo vale para João 21:25. Ao que parece o Espírito Santo não o considerou necessário. Além disso, a afirmação de João refere-se somente ao quarto Evangelho, que como é bem sabido é muito parco quanto aos milagres do Senhor, enquanto os sinópticos contêm muitos outros sinais que fez Jesus.

"Se a qualquer protestante evangélico instruído se lhe pede que defina, segundo a Bíblia, qual é a coluna e fundamento da verdade, seguramente responderia: "a própria Bíblia, claro". Mas no entanto a Escritura não se pronuncia assim; declara, em perfeito acordo com o Catolicismo e em oposição ao sola Scriptura:

. . . a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. (1 Timóteo 3:15)

Outras traduções da Bíblia vertem fundamento como bastião, baluarte, ou pilar."

Os evangélicos instruídos conhecem certamente esta passagem, como também aquela de Efésios que diz que a Igreja é edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a sua pedra angular. De modo que não ignoram que a Igreja de Deus é coluna (stylos) e baluarte (edraioma) da verdade. Antes o afirmam. A igreja deve defender a Verdade, que se encontra na Palavra de Deus. Não há contradição alguma com o princípio de Sola Scriptura.

"É bastante evidente que esta passagem [2 Timóteo 3:16] não fornece nenhum argumento acerca de que a Sagrada Escritura, sem a Tradição, é a única regra de fé; porque ainda que a Sagrada Escritura seja útil para estes fins, não obstante não se diz que seja suficiente."

Aqui o apologista romano se enreda com as suas palavras, pois ele já reconheceu que os protestantes em conjunto NÃO ensinam que as Escrituras sejam a única regra de fé. Do contrário, rejeitaríamos todos os credos, concílios, catecismos, e de facto tudo o que não fosse o próprio texto da Escritura. O que afirmamos, sustentamos e defendemos é que é a regra suprema, final, inapelável. Todas as demais devem conformar-se às Escrituras e subordinar-se a elas.

"O Apóstolo busca a ajuda da Tradição (2ª Tessalonicenses 2:15)."

Significativamente, este texto menciona-se mas não se cita: "Assim que, irmãos, estai firmes e retende a doutrina que haveis aprendido, seja por palavra ou por carta nossa."

Paulo não busca aqui uma ajuda extra da tradição, mas exorta os tessalonicenses a reter a doutrina que receberam oralmente ou por escrito. Não há nenhuma razão para pensar que o que Paulo ensinava oralmente fosse diferente do que expressou por escrito no conjunto das suas epístolas. Por exemplo, quando fala do homem do pecado uns versículos antes, no mesmo contexto, pergunta: "Não vos lembrais que quando eu estava convosco vos dizia isto?" Em outros termos, está a colocar por escrito o que já tinha ensinado oralmente. Além disso, naquelas coisas que não resultam óbvias das epístolas – por exemplo, o que detém o "mistério da iniquidade", v. 5-7 – os intérpretes católicos não se encontram em melhor posição do que os protestantes. Por exemplo, Lorenzo Turrado escreve: "Quanto ao «obstáculo» a problemática é ainda maior. Não é possível precisar a natureza desse obstáculo ou impedimento que está a deter a manifestação do Anticristo" (Profesores de Salamanca - Biblia Comentada; Madrid: BAC, 2ª Ed., 1975, vol. VI b, p. 360). Mas esta afirmação é incompreensível se, como afirma a Igreja Católica, ela conservou os ensinos não escritos dos Apóstolos!!! Bastaria olhar para o depósito da tradição apostólica em vez de fazer ociosas conjeturas. Mas a Tradição oral falha miseravelmente justamente onde seria mais necessária.

"Mais ainda, o Apóstolo faz aqui referência às Escrituras que Timóteo tinha aprendido na sua infância. Ora, uma boa parte do Novo Testamento não foi escrito na sua meninice: algumas das Epístolas Católicas nem sequer tinham sido escritas quando São Paulo escreveu isto, e nenhum dos livros do Novo Testamento estavam postos então no cânon dos livros da Escritura. Ele se refere, então, às Escrituras do Antigo Testamento, e se o argumento desta passagem prova alguma coisa, é que as Escrituras do Novo Testamento não eram necessárias para a regra de fé. É necessário sublinhar que esta passagem não fornece prova alguma da inspiração de vários dos livros da Sagrada Escritura, inclusive dos que são admitidos como tais.. porque não se nos diz.. quais são os livros ou porções da Escritura inspirados."

Não há muita dúvida de que Paulo se refere primariamente ao Antigo Testamento. No entanto, o nosso amigo católico confunde as coisas – suponho que involuntariamente – com o seu argumento. A declaração de Paulo diz respeito à natureza das Escrituras. Não é uma declaração respeitante ao cânon, ou seja, à lista dos livros que se consideram inspirados. À semelhança de Jesus, quando disse aos judeus que esquadrinhassem as Escrituras, dá-se por adquirido que existia um conjunto definido e conhecido de livros que eram inspirados. De novo, Paulo se refere ao valor da Escritura. Na medida em que aos livros que preservam o ensino apostólico e hoje formam o nosso Novo Testamento é-lhes reconhecido o status de Escritura, aplica-se-lhes igualmente e sem nenhuma dificuldade o dito por Paulo a Timóteo.

Todo o resto do argumento, como o apelo a Efésios 4:11-15, se assanha inutilmente com uma noção alheia ao princípio de Sola Scriptura, a saber, que é a norma única e exclusiva e que o ministério docente da Igreja carece de valor. O apologista perde o seu tempo ao tentar convencer-nos do que já acreditamos... porque o ensina a Escritura. Isso não significa, como injustificadamente conclui, que o ministério docente e a Escritura estejam ao mesmo nível: aquele deve submeter-se a esta.

"1ª Coríntios 4:6 . . . para que aprendais de nós mesmos a "não ir além do que está escrito", e para que ninguém se ensoberbeça a favor de um contra outro.

... o significado parece bastante claro quando se leva em consideração todo o contexto (pelo menos os versículos 3-6). Este princípio básico da interpretação bíblica (o contexto) é frequentemente abandonado, inclusive por bons eruditos, presumivelmente devido a preconceitos prévios.

Tem-se simplesmente que ler a frase que se segue ao "texto de prova" para ver o que é que São Paulo está a querer dizer. Toda a passagem é uma exortação ética para evitar o orgulho, a arrogância e o favoritismo, e desta maneira, não tem nada que ver com a ideia da Bíblia e da palavra escrita como algum tipo de padrão global de autoridade acima da Igreja.

... Assumindo que ele se está referindo ao Antigo Testamento (tal é a interpretação mais direta), isto não provaria, de novo, nada, porque ele não estaria incluindo todo o Novo Testamento, cujo cânon não foi determinado até 397 A.D."

Sobre esta passagem comenta o P. Lorenzo Turrado:

"Quanto a «não ir além do que está escrito» parece ser uma expressão proverbial para indicar que em nossas apreciações não se deve ir além da norma objetiva, e, neste caso, do que exige a natureza do ministério apostólico. Alguns autores, no entanto, acreditam que se trata de uma citação bíblica, aludindo a toda a Escritura em geral, ou a algum dos textos citados anteriormente (cf. 1,19.31; 3,19). Cremos mais provável a primeira explicação." (o.c, p. 42).

O contexto da passagem está claramente relacionado com as fações existentes em Corinto, e Paulo estabelece aqui como princípio a validade superior do escrito sobre as opiniões humanas ("carnais" segundo 3:1-4).

Ao dirigir-se aos coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9:23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais. O facto de o NT estar então em processo de escrita não nega a sua autoridade quando tal processo se completou.

"Apesar de nenhuma maneira ser evidente que toda a verdade religiosa está num número de obras, ainda que sejam sagradas, as quais foram escritas em diferentes épocas, e nem sempre formaram um livro; de facto, essa é uma doutrina muito difícil de provar . . . É uma presunção estabelecida tão profundamente no sentir popular dos protestantes, que é um trabalho de grande dificuldade o obter deles um reconhecimento de que é uma presunção."

Não há razão para pensar que a Bíblia tem "tudo"; os evangélicos afirmam que tem tudo o que necessitamos saber em ordem à salvação. Não existe inconveniente em reconhecer o que é um facto histórico, a saber, que durante as suas primeiras décadas desde o batismo de Jesus até às primeiras epístolas, o cristianismo se proclamou de maneira predominantemente oral (ainda que com base no Antigo Testamento). Também é evidente que "toda a verdade religiosa" (que incluiria grandes mistérios sobre o ser de Deus, por exemplo) não se encontra em nenhuma "obra", nem mesmo na Bíblia, já que aí está escrito "as coisas secretas pertencem a Yahweh". A questão é se realmente existe outra fonte igualmente confiável que suplemente o que à Bíblia lhe falta. Os católicos dizem que sim, mas na hora de mostrar a evidência de tais supostas tradições apostólicas, tudo fica em declarações vagas e insubstanciais. É difícil evitar a impressão de que estamos simplesmente perante uma tentativa não de estabelecer a verdade, mas de sustentar a posição romana.

Breve reafirmação do princípio de Sola Scriptura

É curioso que os nossos irmãos católicos, que frequentemente nos criticam quando recorremos a "textos de prova", neste tema em particular utilizem precisamente esse enfoque. No entanto, o conjunto do ensino do Novo Testamento nos mostra que:

[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar. 7:8-9 e par.). Não falamos aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.

[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.

[3] Jesus Cristo nunca acusou os judeus de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).

[4] Aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar. 12:24-27 e par.).

[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do AT puseram por escrito os seus.

[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3:15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao AT não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu caráter normativo.

[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3:15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).

[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no AT (Atos 17:11).

[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre fações, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9:23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Seja como for que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um caráter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.

[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

Durante um intervalo de cerca de mil anos, o tempo que demorou a formar-se o Antigo Testamento, Deus falou de muitas maneiras e em repetidas ocasiões, mas foi inculcando no povo judeu o valor das Escrituras. No caso do Novo Testamento, o intervalo entre os ensinos divinos e a sua colocação por escrito foi vinte vezes menor. A quantidade e qualidade de informação histórica, doutrinal e prática do Novo Testamento não pode comparar-se com as tradições orais, muitas vezes duvidosas, que se encontram nos escritos dos Padres. O apelo válido à tradição nos Padres refere-se à compreensão e aplicação da doutrina estabelecida firmemente nas Escrituras. E, naturalmente, sabemos hoje que apelaram a esta tradição interpretativa... porque eles próprios o puseram por escrito.