8 de janeiro de 2026

O SALMO 69, JESUS E UM PROBLEMA ESQUECIDO DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA

 

Entre os salmos mais citados no Novo Testamento, poucos ocupam um lugar tão central quanto o Salmo 69. Ele é usado repetidamente para interpretar a vida, o ministério e, sobretudo, o sofrimento de Jesus. Ainda assim, um dos seus versículos — Salmo 69:8 — raramente é levado até às últimas consequências teológicas. Quando o fazemos, surge uma tensão séria com um dos dogmas marianos mais importantes da Igreja de Roma: a virgindade perpétua de Maria.

Vamos explicar por que o Salmo 69 é legitimamente messiânico e por que o versículo 69:8, quando aplicado a Jesus de forma coerente, levanta um problema real para essa doutrina.

Por que o Salmo 69 é considerado messiânico?

O critério decisivo não é uma leitura cristã tardia, mas o uso direto e consistente do salmo no Novo Testamento. Jesus e os apóstolos aplicam várias passagens do Salmo 69 à experiência de Cristo:

“O zelo da tua casa me consumirá” (Sl 69:9) João 2:17

“Odiaram-me sem causa” (Sl 69:4) João 15:25

“Deram-me fel por comida e vinagre para beber” (Sl 69:21) Mateus 27; João 19

“Fique deserta a sua habitação” (Sl 69:25) Atos 1:20

Não se trata de citações isoladas. O Novo Testamento lê o salmo como um todo, descrevendo o sofrimento injusto do Messias fiel a Deus. David fala historicamente de si mesmo, mas como rei ungido, funciona como tipo do Messias sofredor. O cumprimento pleno encontra-se em Jesus.

O conteúdo do Salmo 69: rejeição, zelo e sofrimento

O Salmo 69 não descreve apenas perseguição externa. Ele insiste num ponto mais doloroso: a rejeição vinda dos próprios. O justo não é apenas odiado por inimigos, mas marginalizado socialmente, ridicularizado e abandonado, inclusive no seu círculo mais próximo.

É neste contexto que surge o versículo 8.

O que diz exatamente o Salmo 69:8?

Tornei-me estranho a meus irmãos, e desconhecido aos filhos de minha mãe.

Aqui não estamos perante uma metáfora vaga. O paralelismo hebraico é claro e cumulativo:

- “meus irmãos”

- “os filhos de minha mãe”

A segunda expressão elimina qualquer ambiguidade possível. O salmista fala de irmãos uterinos, membros da mesma unidade familiar. A ideia central é alienação real, não um simples conflito ou distanciamento emocional.

A aplicação a Jesus faz sentido?

O Novo Testamento responde de forma inequívoca: sim.

Os Evangelhos afirmam repetidamente que Jesus foi rejeitado pelos seus próprios irmãos:

- “Nem mesmo os seus irmãos criam nele” (João 7:5)

- A família considera-o “fora de si” (Marcos 3:21)

- Os irmãos são identificados pelo nome (Mateus 13:55-56)

- Jesus redefine publicamente quem é a sua verdadeira família (Marcos 3:31-35)

O padrão é o mesmo do Salmo 69: rejeição motivada pela missão divina, não por falha moral. A correspondência é histórica, psicológica e teológica.

Onde entra o problema da virgindade perpétua?

A doutrina católica romana afirma que Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto. Para manter essa posição, a tradição desenvolveu explicações alternativas para os “irmãos de Jesus”:

- seriam primos,

- parentes próximos,

- ou filhos de um casamento anterior de José.

O problema é que nenhuma dessas hipóteses surge do texto bíblico. São soluções posteriores, criadas para proteger um dogma já assumido.

Quando Salmo 69:8 é aplicado a Jesus — como o Novo Testamento autoriza — surgem dificuldades sérias:

1. O texto fala de “filhos da minha mãe”, não de primos.

2. A rejeição é interna à família nuclear.

3. Os Evangelhos nunca explicam que os irmãos de Jesus não eram irmãos reais.

4. A explicação alternativa aparece apenas na patrística tardia, sob forte influência ascética.

Em termos simples: a leitura mais natural e histórica do texto entra em conflito com a virgindade perpétua.

Uma escolha hermenêutica inevitável

Aqui surge um dilema claro:

i) Ou o Salmo 69 não deve ser lido como messiânico (o que contradiz o Novo Testamento),

ii) Ou Jesus teve irmãos uterinos, e Maria não permaneceu perpetuamente virgem.

A Igreja apostólica escolheu a primeira via: leu o salmo cristologicamente. A mariologia posterior escolheu outra: reinterpretou os textos bíblicos à luz do dogma.

O conflito não está na Bíblia, mas entre a exegese apostólica e o desenvolvimento dogmático posterior.

Conclusão

O Salmo 69 é um salmo messiânico por direito próprio, confirmado pelo uso explícito que o Novo Testamento faz dele. Dentro desse salmo, o versículo 69:8 descreve a rejeição do Messias pelos seus próprios irmãos, “os filhos de sua mãe”. Quando aplicado a Jesus de forma consistente, esse texto entra em contradição direta com a doutrina da virgindade perpétua de Maria, revelando-a como um desenvolvimento dogmático posterior sem base sólida na exegese bíblica.

Ignorar essa tensão não é exegese; é harmonização dogmática. Levar o texto a sério exige reconhecer que a teologia do Novo Testamento é mais simples — e mais histórica — do que a mariologia desenvolvida séculos depois.

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