15 de janeiro de 2026

O JUDAÍSMO RABÍNICO ATUAL NÃO REPRESENTA O JUDAÍSMO DO SÉCULO I

 

Um dos argumentos mais comuns usados contra a fé cristã é o seguinte: “A Trindade é impossível porque o judaísmo sempre foi estritamente unitário.”

O problema desta afirmação é simples: o judaísmo rabínico moderno não é o mesmo judaísmo do tempo de Jesus.

O que hoje se chama “judaísmo normativo” é, na realidade, um desenvolvimento tardio, posterior à destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Quando voltamos às fontes do século I - Bíblia hebraica, literatura apocalíptica, escritos intertestamentários e tradições judaicas antigas - o quadro é muito mais complexo (ver abaixo).

Graças, em grande parte, a académicos judeus, é hoje mais comum, ainda que não seja generalizado ou universal, o reconhecimento de que doutrinas cristãs como a Trindade, a divindade e a encarnação do Messias, a compatibilidade entre a soberania divina e a responsabilidade humana, a natureza caída do ser humano (ou pecado original), a expiação penal substitutiva, etc., eram ideias inegavelmente judaicas antes, e por vezes ainda depois, da vinda Jesus Cristo ao mundo no século I. Durante o período rabínico que se seguiu à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C, estas crenças amplamente difundidas entre os judeus foram em grande parte suprimidas, e é esta forma resultante de judaísmo que a maioria das pessoas considera quando diz que certas doutrinas cristãs não são "judaicas". Ao mesmo tempo, embora amplamente difundidas anteriormente e em grande parte suprimidas posteriormente, muitas destas crenças não conseguiram ser completamente erradicadas, e alguns judeus resistentes ao que mais tarde se tornou a corrente dominante por vezes as reafirmam de várias formas.

A dicotomia clássica entre conceitos judaicos e cristãos deve, portanto, ser refinada numa relação dialética: antigas noções judaicas influenciaram as primeiras ideias cristãs e foram posteriormente suprimidas pelo judaísmo rabínico. Isto explica porque é que o cristianismo primitivo contém frequentemente temas e motivos judaicos antigos - ainda que completamente transformados - que desapareceram no judaísmo rabínico.

Houtman, A., De Jong, A., & Misset-Van de Weg, M. (Eds.). (2008). Empsychoi Logoi—Religious Innovations in Antiquity: Studies in Honour of Pieter Willem van der Horst (Vol. 73). Brill. p. 441)

“…De acordo com muitos académicos contemporâneos, o judaísmo rabínico não possuía uma visão simples e indiferenciada de Deus. Os historiadores aceitam que o judaísmo na Antiguidade apresentava uma variedade de estruturas intra-divinas... As pesquisas históricas atuais demonstram que, durante este período, não existia um monoteísmo judaico puro em contraste com a Trindade cristã; pelo contrário, o judaísmo possuía também uma visão mais complexa de aspetos de Deus.

(Alan Brill, A Jewish Trinity: Contemporary Christian Theology through Jewish Eyes, (Fortress Press, 2025), pp. 4-5)

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Fontes judaicas do século I

1. Pluralidade divina no judaísmo do Segundo Templo

Diversas fontes judaicas pré-rabínicas apresentam mais de uma figura divina ao lado de YHWH, sem que isso fosse entendido como politeísmo.

I) O “Ancião de Dias” e o “Filho do Homem” (Daniel 7)

Daniel 7 descreve duas figuras entronizadas, ambas participando da autoridade divina.

“Daniel 7 apresenta uma clara distinção entre duas figuras divinas, algo que o judaísmo posterior tentou reinterpretar.”

(John J. Collins, Daniel (Hermeneia Commentary, Fortress Press, 1993), p. 304)

II) O Nome, a Palavra (Memra) e a Sabedoria

No judaísmo pré-rabínico, atributos divinos como a Sabedoria (Hokmah) e a Palavra eram hipostasiados, isto é, tratados como realidades pessoais.

“A Sabedoria não é apenas uma metáfora, mas uma realidade divina distinta, participante da criação.”

(Gerhard von Rad, Wisdom in Israel (Abingdon Press, 1972), p. 144)

O Targum palestino frequentemente substitui YHWH por Memra (a Palavra), funcionando como agente pessoal de Deus.

“A Memra atua, fala, cria e salva — funções divinas.”

(Martin McNamara, Targum and Testament (Eerdmans, 1972), p. 99)

2. A doutrina dos “Dois Poderes no Céu”

O judaísmo rabínico reconhece explicitamente que existiu uma doutrina herética chamada “dois poderes no céu”, que precisou ser combatida.

Obra fundamental

Alan F. Segal, Two Powers in Heaven: Early Rabbinic Reports about Christianity and Gnosticism (Brill, 1977)

Segal demonstra que:

- A doutrina não surgiu com os cristãos

- Era uma crença judaica antiga

- Foi posteriormente classificada como heresia

“A crença em dois poderes no céu era originalmente uma especulação judaica legítima.”

Segal, p. 23

“O rabinismo redefiniu os limites do monoteísmo para excluir essas tradições.”

Segal, p. 260

3. Literatura de Enoque e o Messias divino

I) 1 Enoque (pré-cristão)

O “Filho do Homem”:

- Preexiste

- Julga o mundo

- É entronizado

“O Filho do Homem de 1 Enoque possui atributos exclusivamente divinos.”

(George W. E. Nickelsburg, 1 Enoch 1 (Hermeneia, Fortress Press, 2001), p. 250)

II) 4 Esdras (final do século I)

O Messias:

- Vem do céu

- Reina eternamente

- É adorado

“A cristologia elevada encontra paralelos diretos no judaísmo apocalíptico.”

(Larry Hurtado, Lord Jesus Christ (Eerdmans, 2003), p. 57)

4. O Espírito como realidade pessoal no judaísmo antigo

O Espírito de Deus no judaísmo do Segundo Templo:

- Fala

- Ensina

- Pode ser entristecido

- Atua independentemente

“O Espírito no judaísmo antigo é muito mais do que uma força impessoal.”

(Max Turner, Power from on High (Sheffield Academic Press, 1996), p. 38)

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