Os apologistas católicos afirmam frequentemente que os Padres da Igreja ensinaram não ser possível ter certeza do significado objetivo de um texto bíblico determinado sem recorrer à interpretação do Magistério. Na fundamentação desta afirmação, referem-se amiúde à alegada citação de Santo Agostinho: «Roma locuta est, causa finita est».
Afirma-se que esta declaração provém do Sermão 131 de Agostinho, proferido a 23 de setembro de 417. Em primeiro lugar, estas palavras não aparecem em nenhuma das suas obras — ele simplesmente nunca as disse... pelo menos na sua totalidade. A expressão exata que pronunciou foi «Causa finita est» (Sermo 131, 10) [1]. Em segundo lugar, estas palavras nada têm a ver com a interpretação bíblica por parte de Roma.
Ironicamente, esta frase é muito utilizada pela apologética romana para tentar demonstrar que Agostinho acreditava ser a palavra do bispo de Roma a decisão final em matéria doutrinária. No entanto, Agostinho proferiu-a num contexto histórico que contradiz diretamente esse uso apologético.
Agostinho e os bispos de Cartago excomungaram Pelágio e o seu principal seguidor, Celéstio, num sínodo local. O bispo de Roma, Inocêncio I, concordou com esta decisão e apoiou-a oficialmente. Contudo, o sucessor de Inocêncio na Sé romana, Zósimo, enganado por confissões de fé ambíguas apresentadas pelos pelagianos, anulou a decisão de Inocêncio e pediu a Agostinho e aos bispos africanos que aceitassem a reabilitação dos acusados.
Em resposta, Agostinho e os bispos cartagineses reuniram-se num novo sínodo (com a presença de cerca de 200 bispos), no qual rejeitaram a decisão de Zósimo e reafirmaram a condenação de Pelágio. Só após investigações adicionais e sob a firme oposição dos bispos africanos é que Zósimo recuou, alterou a sua posição e confirmou a condenação do pelagianismo.
É fundamental notar que foi antes de todas estas reviravoltas que Agostinho proferiu a célebre declaração no seu Sermão 131:
«Jam enim de hac causa duo concilia missa sunt ad sedem apostolicam; inde etiam rescripta venerunt; causa finita est: Utinam aliquando finiatur error!». (Migne, PL 38:734)
Tradução: «Pois, sobre esta causa, já foram enviados dois concílios à Sé Apostólica, de onde também chegaram rescritos. A causa está encerrada; oxalá se encerre finalmente o erro!»
Para conferir maior credibilidade a esta breve descrição dos acontecimentos, veja-se o que relatou o historiador católico romano Karl Joseph von Hefele:
"No início de 417, ele [Inocêncio] enviou respostas aos bispos que se tinham reunido em Cartago e aos que se tinham encontrado em Mileve... Ele concordou plenamente com a sentença pronunciada contra Celéstio e Pelágio pelos bispos cartagineses, elogiou os africanos pelo seu discernimento, confirmou a sentença de excomunhão pronunciada contra Celéstio, ameaçando com
A propósito da reação dos africanos perante a anulação inicial feita por Zósimo, Hefele refere:
"Os africanos estavam demasiado certos da sua causa para aceitarem submeter-se a um julgamento tão fraco, que, aliás, se encontrava em manifesto conflito com o de Inocêncio. Num concílio em Cartago, em 417 ou 418, protestaram — respeitosa mas decididamente — contra a decisão de Zósimo, dando-lhe a entender que se estava a deixar enganar profundamente pelas explicações ambíguas de Celéstio. Num concílio geral africano realizado em Cartago, em 418, os bispos — mais de 200 em número — definiram a sua oposição aos erros pelagianos em oito (ou nove) cânones, que são inteiramente conformes à visão agostiniana... Tudo isto produziu uma mudança na posição de Zósimo e, em meados do ano 418, este emitiu uma carta encíclica para todos os bispos do Oriente e do Ocidente, pronunciando anátema sobre Pelágio e Celéstio… e declarando a sua concordância com as decisões do concílio de Cartago relativamente à doutrina da corrupção da natureza humana, do batismo e da graça. Quem se recusasse a subscrever a encíclica devia ser deposto, expulso da sua igreja e privado dos seus bens" (2)
A eclesiologia de Agostinho
O exposto acima prova, sem margem para dúvidas, que a visão eclesiológica de Agostinho é precisamente aquela que W. H. C. Frend descreve:
«A sua visão do governo da Igreja é a de que as questões menos importantes devem ser resolvidas por concílios provinciais, e os assuntos de maior dimensão em concílios gerais.» (3)
A conclusão a que chegamos à luz dos factos sobre a eclesiologia de Agostinho, demonstrada tanto pela sua exegese como pela sua prática, é que, no seu entendimento e no dos bispos norte-africanos em geral, a mais alta autoridade e o tribunal de última instância não é o bispo de Roma, mas sim um concílio plenário e geral.
Como ficou patente na controvérsia pelagiana, Agostinho e os bispos norte-africanos não consideravam que o decreto do bispo de Roma constituísse a decisão final e vinculativa para a Igreja universal. Quando Zósimo, o bispo de Roma, anulou a decisão da Igreja norte-africana e a do seu antecessor, Inocêncio I, os africanos opuseram-se a Zósimo e recusaram-se a submeter-se à sua posição. Tanto basta para desmistificar o famoso “Roma locuta est, causa finita est”.
Agostinho não é, de modo algum, um defensor de uma eclesiologia papal nos moldes do Concílio Vaticano I.
Conclusão
Como foi referido acima, a famosa frase atribuída a Santo Agostinho — «Roma locuta est, causa finita est» — é uma completa fabricação. Ele nunca proferiu tais palavras na sua totalidade. A única parte da frase que efetivamente disse foi «causa finita est» («a causa está encerrada»). No entanto, muitos apologistas romanos continuam a deturpar o pensamento deste eminente Padre da Igreja, atribuindo-lhe falsamente esta declaração.
Em momento algum nos escritos de Agostinho ou na sua prática eclesial se encontra a crença de que o bispo de Roma constituísse o critério último da ortodoxia, ou que o seu julgamento representasse a autoridade final em qualquer controvérsia. A disputa com Pelágio e o bispo Zósimo prova-o sem margem para dúvidas. Como aponta o Abbé Guettée, a sentença do bispo de Roma não funcionava como autoridade definitiva na controvérsia pelagiana. Guettée resume da seguinte forma o conflito com Zósimo e a posição de Agostinho e dos bispos norte-africanos:
"Além de tudo isto, outra prova de que, mesmo em Roma como noutras partes da Igreja, a sentença de Inocêncio I não foi considerada o encerramento definitivo do caso encontra-se no facto de, após a sua sentença, a causa ter sido reexaminada na própria Roma por Zósimo, o seu sucessor, bem como por várias igrejas num grande número de sínodos e, finalmente, pelo Concílio Ecuménico de Éfeso, que julgou o caso e confirmou a sentença dada em Roma e em todos os outros lugares onde havia sido examinado.
Quan
Os bispos africanos condenaram os erros de Pelágio em dois concílios, sem pensar em Roma ou na sua doutrina. Os pelagianos evocaram então, para lhes opor, a alegada fé de Roma, a qual diziam harmonizar-se com a sua. Em seguida, os bispos africanos escreveram a Inocêncio a perguntar-lhe se essa afirmação dos pelagianos era verdadeira. Foram levados a isso porque os pelagianos tinham grande influência em Roma. Não escreveram ao Papa para lhe pedir uma sentença que os devesse guiar, mas para poderem silenciar aqueles que afirmavam que a heresia era defendida em Roma. Inocêncio condenou-a e, portanto, Agostinho diz: “Fingiste que Roma estava contigo; Roma condena-te, tal como foste condenado por todas as outras igrejas; por isso, a causa está encerrada.” Em vez de pedirem uma decisão a Roma, os bispos africanos indicaram ao Papa o caminho que este devia seguir nesta questão." (4)
Se os cartagineses tivessem subscrito o sentido popular atribuído à frase «Roma locuta est, causa finita est», teriam concordado primeiro com a condenação pronunciada por Inocêncio, depois com a anulação feita por Zósimo e, caso Zósimo voltasse a mudar de posição sem a pressão dos bispos norte-africanos, teriam igualmente concordado com essa nova condenação. No entanto, não foi absolutamente nada disso que aconteceu.
Notas
[1] Apesar de tudo, ainda se encontram defensores do papado que argumentam que, embora Agostinho não tenha dito «Roma locuta est», disse efetivamente «Causa finita est» («a causa está encerrada»). Isto é verdade.
Eis o trecho relevante do Sermão 131 no seu contexto:
"Pois, sobre esta causa, dois concílios já enviaram escritos à Sé Apostólica, de onde também chegaram rescritos. A causa está encerrada; oxalá se encerre um dia o erro! Por isso, admoestamos para que prestem atenção, ensinamos para que sejam instruídos e oramos para que mudem de caminho."
Embora ele tenha afirmado «a causa está encerrada», este aforismo não favorece a apologética papal, pelo menos por três razões fundamentais:
1) O apelo refere-se à autoridade conciliar estabelecida, e não à autoridade episcopal romana como tal. Assim sendo, a síntese «Roma falou, o caso está encerrado» não é rigorosa. Uma síntese mais exata seria: «dois concílios falaram — o caso está encerrado». Isto não nega que os rescritos tenham vindo de Roma, pois vieram efetivamente.
1) O apelo refere-se à autoridade conciliar estabelecida, e não à autoridade episcopal romana como tal. Assim sendo, a síntese «Roma falou, o caso está encerrado» não é rigorosa. Uma síntese mais exata seria: «dois concílios falaram — o caso está encerrado». Isto não nega que os rescritos tenham vindo de Roma, pois vieram efetivamente.
2) A referência aos rescritos diz respeito a uma resposta de Roma relativamente às decisões conciliares. O rescrito, em si mesmo, não possui infalibilidade própria nem confere infalibilidade aos decretos dos concílios, quer na perspetiva da época quer na perspetiva do dogma romano atual.
3) Note-se que existiram dois concílios, e não apenas um. Esse é um elemento central no argumento de Agostinho. O seu ponto é que, em termos de processo judicial eclesial, insistir neste debate equivale a insistir num ponto já transitado em julgado. Agostinho não está a dizer que dois concílios são um número mágico, tal como não está a dizer que obter uma resposta de Roma torna magicamente as decisões conciliares corretas.
Bibliografia
(1) Charles Joseph Hefele, A History of the Councils of the Church (Edinburgh: Clark, 1895), Volume II, pp. 456-457.
(2) Philip Schaff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1910), Volume Three, p. 798-799).
(3) W.H.C. Frend, The Early Church (Philadelphia: Fortress, 1965), p. 222).
(4) Abbé Guettée, The Papacy (Blanco: New Sarov, 1866) pp. 180-181).

Rafael Rodrigues ataca de novo...
ResponderEliminar“Roma Locuta est, Causa Finita Est” – Santo Agostinho não disse isto?
http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/patristica/controversias/562-roma-locuta-est-causa-finita-est-santo-agostinho-nao-disse-isto
Passo para aqui parte de um outro post por se relacionar com o mesmo assunto.
ResponderEliminarPapa Inocêncio I
"Ao buscar as coisas de Deus . . . Vocês reconheceram que todo o juízo deve ser remetido a nós [o papa], e demonstraram saber que é devido à Sé Apostólica [Roma], já que todos os que estamos neste lugar desejamos seguir o próprio apóstolo [Pedro] de quem este episcopado e toda a autoridade deste nome surgiram" (Epístolas 29:1 [A.D. 408]).
Esta citação é muito interessante, pois esta carta do bispo de Roma Inocêncio I é a resposta à solicitação de ratificação da condenação dos erros pelagianos feita pelos bispos africanos, encabeçados nada menos que por Agostinho de Hipona.
De novo, é necessário examinar o fundo histórico, que é o da heresia pelagiana. Pelágio era um monge que provavelmente provinha das Ilhas Britânicas, mas iniciou a sua carreira em Roma pelo ano 400. Alto, imponente, conhecedor da teologia e capaz de expressar-se fluidamente em latim e em grego, rapidamente adquiriu boa reputação por sua austeridade. Desenvolveu uma antropologia e soteriologia heréticas, já que entre outras coisas negava a absoluta necessidade da graça para a salvação. Durante anos pregou em Roma a sua doutrina, junto com o seu seguidor, o advogado Celéstio. Deve notar-se que não houve oposição alguma a esta actividade por parte dos bispos de Roma.
Mesmo se as suas intrigas secretas ou abertas não passaram desapercebidas, todavia os dois amigos não foram importunados pelos círculos oficiais romanos. Mas as coisas mudaram quando em 411 deixaram o hospitaleiro solo da metrópole, a qual havia sido saqueada por Alarico, (410) e rumaram para o Norte de África.
Joseph Pohle, Pelagius and Pelagianism em The Catholic Encyclopedia (1911), vol. 11.
Enquanto Pelágio continuou viajando para a Palestina, Celéstio tentou ser feito presbítero em Cartago. No entanto, os seus ensinamentos foram denunciados perante o bispo dessa cidade, Aurélio, que convocou um sínodo (411) que além de negar-lhe a ordenação condenou os seus ensinamentos. Celéstio viajou então para Éfeso, onde conseguiu ser ordenado.
Entretanto, os ensinamentos de Pelágio se tinham difundido no norte de África e motivaram os primeiros escritos de Agostinho contra esta heresia. No entanto, Pelágio se encontrava na Palestina, como um estimado hóspede do bispo João de Jerusalém, e continuava propagando as suas ideias. Tanto Jerónimo como Agostinho se opunham a ele, e aliou-se a eles o bispo Orósio, que acusou Pelágio. Houve um sínodo na Palestina em 415 que, perante a sólida defesa de Pelágio, não chegou a nenhuma conclusão, mas dada a origem do suposto heresiarca, resolveu deixar o juizo aos latinos. No mesmo ano dois bispos ocidentais exilados, Heros de Arles e Lázaro de Aix, acusaram Pelágio perante o bispo Eulógio de Cesareia. Graças a uma série de circunstâncias afortunadas para Pelágio, um sínodo reunido em Diospolis o exonerou dos cargos. De modo que pela segunda vez consecutiva, Pelágio havia triunfado no Oriente.
(continua)
Estes factos causaram profunda inquietação entre os bispos norte-africanos, os quais condenaram as doutrinas pelagianas em dois sínodos, o primeiro com 67 bispos da África proconsular em Cartago (415) e o segundo com 59 bispos de Numídia em Milevi (416), província à qual pertencia a sede de Agostinho. Ambos os sínodos solicitaram a ratificação da sede romana, e cinco bispos (Agostinho, Aurélio, Alípio, Evódio e Posídio) escreveram ao bispo romano Inocêncio expondo a doutrina ortodoxa. Que se solicitasse a ratificação da sede romana era natural dada a confusão reinante no Oriente, a importância da Igreja de Roma e o facto de a heresia ter surgido nessa cidade.
ResponderEliminarO bispo de Roma ratificou com gosto o efectuado pelos africanos, não sem perder a oportunidade de sublinhar os direitos e privilégios de que se cria credor, segundo a citação que está mais acima, e que se reproduz em Denzinger # 100, seguida pelos ensinamentos de Cartago e Milevi (Denzinger# 101-106). É claro que os bispos africanos se alegraram de que Roma ratificasse o efectuado e aderisse aos seus ensinamentos.
Em África, onde a decisão foi recebida com verdadeiro entusiasmo, toda a controvérsia foi agora considerada como encerrada, e Agostinho, a 23 de setembro de 417 anunciou desde o púlpito (Serm., cxxxi, 10 em P. L., XXXVIII, 734), "Jam de hac causa duo concilia missa sunt ad Sedem apostolicam, inde etiam rescripta venerunt; causa finita est". (Tendo dois sínodos escrito à Sé Apostólica sobre este assunto, chegou a resposta; a questão está concluída). Mas estava enganado; o assunto não estava concluído.
Pohle, o.c.
Esta citação de Agostinho é o mais próximo que conheço da frase supostamente dita por ele: Roma locuta, causa finita est. E, como diz Pohle, o bispo de Hipona se enganava. A condenação definitiva do pelagianismo teve de aguardar até o Concílio de Éfeso de 431. Curiosamente, foi um bispo de Roma quem retardou o fim da controvérsia. Inocêncio I morreu a 12 de Março de 417 e foi sucedido por Zósimo, que foi convencido pelos heresiarcas de que eles tinham sido injustamente acusados. O papa Zósimo se convenceu da inocência dos pelagianos, censurou os bispos Heros e Lázaro por actuar contra Pelágio, e acusou os bispos africanos de actuar precipitadamente.
A solicitação de ratificação por parte da sede romana indica a sua importância mas não demonstra de modo algum o primado de jurisdição, nem a infalibilidade, como se pode ver na reacção dos bispos africanos perante as exigências de Zósimo. Eles se mantiveram firmes nas suas decisões, e no final foi o papa Zósimo quem teve de ceder.
O copiador de internet, Rafael Rodriques, tem um problema grave. É que não sabe escolher aquilo que copia e nem sequer entende o que copia.
ResponderEliminarOriginal: http://www.philvaz.com/apologetics/num16.htm
Resposta: http://vintage.aomin.org/Sermo131.html
Agora percebe-se o verdadeiro motivo da demissão do papa. Entrou no www.apologistascatolicos.com.br, e outros sites semelhantes de apologética católica, e ao ver as sandices dos seus seguidores entrou em depressão e demitiu-se.
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKk!!!!!!! Muito engraçada essa da depressão do Papa Bento XVI.
Eliminarkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....boa Conhecereis a Verdade!!!!!!!!!!!!! Fatality!!!!!!!!!!!!! Uma aula de Eclesiologia;de Soteriologia;de História da Igreja....muito bom!!!!!!Altíssimo nível...
ResponderEliminarAmigo, vc acredita mesmo nas "verdades" deste blog? No minimo não conhece patristica, patrologia e fica escorando em blogs como este e do Sr. Lucas Rizoli. Para que se colocar como um apologista protestante se não argumenta? Se coloque como um torcedor dos apologistas protestantes, pois é isto que faz. Que Deus o Abençõe
EliminarAlgumas semanas depois de Agostinho ter anunciado que a causa da heresia pelagiana estava encerrada em África, (o processo tinha chegado ao fim com a concordância de Roma com as decisões dos dois concílios africanos anteriores), eis que morre o bispo de Roma Inocêncio I. O novo bispo de Roma Zósimo desdiz o seu predecessor, põe-se do lado dos pelagianos e invetiva os africanos, com a autoridade da sé apostólica, a retirarem a condenação aos pelagianos.
ResponderEliminarQue fizeram os bispos africanos, com Agostinho incluído? Proclamaram "Roma locuta est; causa finita est"? Não.
Convocaram um concílio em finais de 417 e decidiram manter a sua posição de condenação dos pelagianos, fizeram saber a Zósimo que meteu a pata na poça, e rejeitaram a sua autoridade e as suas conclusões. Como a questão não acabou aqui, em 418 voltou-se a reunir outro concílio em Cartago. O cálculo dos assistentes foi de 212 prelados, não só de África mas de todo o Ocidente. Resolveram apelar ao imperador e informá-lo do mau exemplo que dava o bispo romano apoiando os hereges Celéstio e Pelágio. O imperador Honório decreta a expulsão de Roma mediante desterro dos que eram a cabeça dos pelagianos.
E neste momento o que acontece? Zósimo, temendo o imperador, mudou o seu parecer e se retratou. De modo que, quando é que Zósimo foi infalível. Antes, ou depois?
Condenou Pelágio e Celéstio mediante um documento chamado Tractoria que teve a desfaçatez de enviar a todos os bispos para que o assinassem. Só que 19 bispos italianos se opuseram e apelaram a um concílio ecuménico. Pelos vistos, até em Itália, todo o episcopado ignorava que o papa fosse um pastor e mestre supremo, cuja autoridade era final e inapelável.
Assim que, quem afirma que Agostinho sustentava o axioma «Roma (César) locuta, causa finita» no sentido do direito romano, a verdadeira origem desta expressão, aplicado ao bispo romano é um ignorante ou simplesmente tem uma fé muito cega.
A FACTO AD JUS NON DATUR CONSEQUENTIA
Conhecereis a Verdade, este texto seria, por ventura, de sua autoria?
ResponderEliminarOlá Victor
ResponderEliminarO texto é uma tradução do post
http://truthishonest.blogspot.pt/2011/01/roma-locuta-est-causa-finita-est.html
com algumas adaptações e acréscimos feitos por fim.
Alguma objeção?
ResponderEliminarObjeção alguma. Na verdade, minha intenção era testar sua honestidade intelectual, pois eu já havia me deparado com o texto original em inglês, e percebi que fora transcrito e traduzido para cá sem fazê-lo referência (a menos que eu não tenha visto). E a julgar pela sua acusação de "copiador da internet", pressupus que não era de sua índole fazer o mesmo.
ResponderEliminarPois bem, tudo explicado. Abstenho-me do debate.
Pode procurar à vontade que não há nenhum texto que não seja meu assinado com o meu nome (que não aparece em parte nenhuma deste blogue). Estou mais interessado em publicar conteúdos sérios e de qualidade independentemente de quem seja o autor.
ResponderEliminarMas é bom que teste tudo, principalmente os argumentos e dados apresentados em cada post.
A acusação de "copiador da internet" não partiu de mim mas do Rafael Rodriques que na página linkada no primeiro comentário se referiu a "protestantes copiadores de internet" como se ele não copiasse nada da internet. (Ele até já copiou textos deste blogue).
Aliás copiar não é nenhuma desonestidade intelectual, a menos que se faça passar pelo autor do que copia e obtenha algum benefício com isso. Aqui apenas partilho informação anonimamente sem obter qualquer benefício pessoal com isso. Portanto quanto a honestidade intelectual estamos conversados.
Ah, sim. A questão é que quando não se remete à fonte original, é possível implicar-se que o dono blog é quem assina o texto. Mas isso é mera interpretação. Constato sua honestidade intelectual. Deus o abençoe.
ResponderEliminar"No caso do Norte de África, é interessante notar a atitude de uma Igreja auto-confiante e organizacionalmente intacta para com Roma. O dito do bispo Agostinho de Hipona (396-430), Roma locuta, Causa finita ("Roma falou, o assunto está encerrado") tem sido citado repetidamente. No entanto, a citação é na verdade uma reformulação ousada das palavras desse Padre da Igreja tomadas completamente fora do contexto. ... Tanto o contexto desta declaração como a sua continuidade com o resto do pensamento de Agostinho não permitem outra interpretação senão de que o veredicto de Roma apenas não é decisivo ; pelo contrário, ele acaba com todas as dúvidas depois de tudo o que o precedeu. Isto acontece porque não resta nenhuma outra autoridade eclesiástica de alguma consequência para a qual os pelagianos possam recorrer e, em particular, a própria autoridade da qual eles podiam mais facilmente esperar uma decisão favorável, ou seja, Roma, pronunciou-se claramente contra eles." (p. 34)
ResponderEliminar"A Igreja Africana estava ainda mais determinada a defender a sua autonomia jurisdicional. Os Concílios de Cartago em 419 e 424 proibiram quaisquer apelos a Roma ... Os norte-africanos reagiram, proporcionando um tribunal de apelo, mesmo para presbíteros ordinários do veredicto do seu próprio bispo ao concílio Norte Africano de Cartago. Isso parecia satisfazer as exigências de justiça. Por sua vez eles tomaram uma posição firme contra a intervenção romana ..." (p. 35)
"Portanto, os bispos Norte Africanos proibiram quaisquer apelos 'ultramarinos'. Em contraste com Sardica, aplicaram esta proibição até mesmo aos bispos. Esta decisão particular tinha sido precedida por um caso semelhante envolvendo um bispo que havia rompido com a sua congregação, mas foi protegido por Roma; em que, até Agostinho de Hipona ameaçou demitir-se. A partir de agora, o único tribunal de recurso devia ser o concílio Norte Africano de Cartago. Este caso será levantado várias vezes, no futuro, como um exemplo de resistência por parte do episcopado de uma Igreja nacional contra o centralismo romano." (p. 36)
Klaus Schatz, Papal Primacy: From Its Origins to the Present (Collegeville, Minnesota: Liturgical Press, 1996).