17 de setembro de 2011

BATISMO


O verbo grego baptizō é uma forma intensiva de bapto e significa primariamente “submergir” ou “mergulhar”; secundariamente, pode significar “lavar” ou “fazer perecer”. Na antiga versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, é utilizado na imersão sétupla de Naamã, o sírio, nas águas do Jordão (2 Reis 5:14).

G. R. Beasley-Murray explica: “Apesar de afirmações contrárias, parece que baptizō, tanto em contextos judeus como cristãos, normalmente significava ‘submergir’ e que, mesmo quando se tornou um termo técnico para o batismo, a ideia de imersão permanece... Os usos metafóricos do termo no Novo Testamento parecem dar isto por adquirido; por exemplo, a profecia de que o Messias batizaria em Espírito [Santo] e fogo, como num líquido (Mateus 3:11), o ‘batismo’ dos israelitas na nuvem e no mar (1 Coríntios 10:2) e a noção da morte de Jesus como um batismo (Marcos 10:38-39, baptisma; Lucas 12:50...). A representação paulina do batismo como a sepultura e a ressurreição com Cristo é consistente com esta opinião, embora não a exija.” [1]

O batismo de João

O antecedente imediato do batismo cristão é o batismo realizado por João, filho de Zacarias, mais conhecido como João o Batista. Por sua vez, João poderá ter sido influenciado pelas lavagens cerimoniais dos grupos judaicos dominantes ou de Qumran (os essénios, a seita do Mar Morto). Contudo, este tipo de limpeza ritual não se realizava uma única vez, mas de maneira repetida e periódica [2]. Um antecedente mais interessante, ou pelo menos um paralelo (não estando claro qual surgiu primeiro), é o batismo dos prosélitos — ou seja, de pessoas de origem gentílica que se convertiam ao judaísmo [3]. Pelo primeiro século da nossa era, quando os judeus tinham adotado uma decidida atitude proselitista (ver Mateus 23:15), aos convertidos da gentilidade não só se exigia a circuncisão, como mandava a Lei a todos os varões, mas também uma lavagem ou batismo, que simbolizava a purificação da imundície pagã.

O desafio imposto pelo batismo de João é que este não chamava apenas os prosélitos, mas, muito particularmente, os judeus de nascimento, a batizar-se. João estava com isto a transmitir que não só os pagãos, mas também os “filhos de Abraão” precisavam de se arrepender e voltar para Deus. O batismo de João foi, pois, sobretudo um apelo ao arrependimento pelos pecados (Mateus 3:11 e paralelos) e uma expressão do desejo de receber o perdão divino.

Por que era isto necessário? Porque, como Paulo viria a dizer mais tarde, “todos pecaram”, e a João fora dada a missão de ser o precursor do Messias e o arauto do reino dos céus (Mateus 3:1-3; João 1:15-23). A pregação e o batismo de João foram, portanto, uma preparação para a manifestação definitiva de Deus em glória, com vista a trazer recompensa e juízo; por conseguinte, todos deviam preparar-se para esse acontecimento.

À luz do exposto, parece estranho que Jesus pedisse a João que o batizasse — e o primeiro a surpreender-se foi o próprio João. No entanto, a razão do pedido de Jesus reside na sua identificação com aqueles que vinha salvar. Tinha nascido de mulher e debaixo da Lei (Gálatas 4:4) e deu este passo “para que se cumpra toda a justiça” (Mateus 3:15). Neste acontecimento fundamental, Jesus, que jamais pecou (2 Coríntios 5:21; Hebreus 4:15), identificou-se com a humanidade pecaminosa e, deste modo, iniciou formalmente o seu ministério. Isto fica claro pelo que aconteceu imediatamente após o batismo de Jesus: foi declarado pelo Pai como seu Filho amado e ungido pelo Espírito Santo (Mateus 3:17). A voz celestial declarou-o Rei Messias e Servo Sofredor (cf. Salmo 2:7 e Isaías 42:1). É significativo que, quando a autoridade de Jesus foi questionada, ele respondeu com outra pergunta: “O batismo de João, era do céu ou dos homens?” (Marcos 11:27-33 e paralelos). Esta não foi uma maneira astuta de fugir à questão “Com que autoridade fazes isto?”, mas guardava uma relação crucial com ela. Se o batismo de João era do céu, a inevitável conclusão seria que a autoridade de Jesus provinha da mesma fonte, já que a sua unção ocorrera após ter sido batizado por João [4].

O batismo cristão

No seu caráter de último e maior dos profetas em sentido veterotestamentário, João anunciou o juízo vindouro. João proclamou o que Deus lhe ordenara que proclamasse e, evidentemente, estava certo. Contudo, Jesus introduz um novo elemento — que decerto estava presente na profecia do Antigo Testamento (Isaías 42; 49; 50; 53), mas não fora compreendido pelos judeus —, a saber: que o reino dos céus não haveria de ser inaugurado com a violência de um conquistador guerreiro, mas através da obra de um humilde Servo. E este Servo, que mais ninguém era senão o próprio Jesus, devia submeter-se a outro “batismo”, do qual o de João não fora senão um sinal (Lucas 12:49-50). Ele falava, claro está, do seu sacrifício na cruz.

Depois de ressuscitar, Jesus Cristo disse aos seus discípulos:

“Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Portanto, ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado. E eis que eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mateus 28:18-20).

O batismo cristão na água tem agora um novo e imprevisto significado: assim como Jesus se identificou connosco no batismo de João, nós devemos identificar-nos com Ele mediante o batismo cristão (Romanos 6, etc.).

Quem deve batizar-se?

É claro que todos os que creem em Cristo devem batizar-se. Aqueles que se tornam seus discípulos devem ser batizados, e a eles deve ensinar-se tudo o que Jesus mandou (Mateus 28:16-20). Depois de Pedro ter proclamado as boas-novas da salvação no dia de Pentecostes, perguntaram-lhe a ele e aos demais Apóstolos: “Irmãos, que faremos?”. A resposta de Pedro foi: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:37-38). Como diz Brooks:

“Os sermões cristãos mais primitivos convocavam para o batismo como o ato externo que representava a decisão interna. A exigência de Pedro do batismo [cristão] continuava a linha do batismo de João, pois ambos expressavam a nova relação do indivíduo com Deus e com o seu reino. A diferença significativa, no entanto, residia na relação que Pedro estabeleceu com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus.” [5]

A mesma sequência — isto é, crer primeiro e ser batizado a seguir — observa-se em Samaria e no caso do alto oficial etíope (Atos 8:12, 26-39). O mesmo se verifica depois de Pedro ter pregado o Evangelho em casa do centurião Cornélio (Atos 10:44-48). Aí, o Apóstolo exclamou: “Pode porventura alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?”

O que dizer sobre o batismo de bebés?

Em comparação com o claro mandato de batismo para os que se arrependem e creem em Jesus, coloca-se a questão de saber se as crianças demasiado pequenas para compreender o Evangelho devem ser batizadas. Este tem sido um tema de controvérsia ao longo dos séculos [6].

Deve ter-se em conta que a maior parte das Igrejas cristãs históricas — como a Católica Romana, as Ortodoxas, a Luterana, a Reformada, a Presbiteriana, entre outras — pratica o batismo infantil. Uma das melhores defesas do batismo de crianças é a obra escrita por Michael Green [7]. Os principais argumentos a favor desta prática são os seguintes:

1. O batismo é um sinal ou sacramento da Nova Aliança, tal como a circuncisão o era da Antiga Aliança. Visto que todos os bebés do sexo masculino eram circuncidados, por analogia e do mesmo modo todos os filhos de famílias cristãs devem ser batizados.

2. Jesus chamou a si as criancinhas e repreendeu severamente os discípulos por tentarem impedi-lo (Marcos 10:13-16).

3. No livro de Atos há vários casos de pessoas que creram e é dito que foram batizadas “com toda a sua casa” (Lídia, Atos 16:14-15; o carcereiro de Filipos, Atos 16:30-34); compare-se também 1 Coríntios 1:16, “a casa de Estéfanas”.

4. O batismo infantil é testemunhado na Igreja pelo menos desde o início do século III, sendo praticado por muitas denominações cristãs.

Por outro lado, aqueles que, como nós, se opõem ao batismo infantil assinalam que:

1. A Nova Aliança tem tanto semelhanças como diferenças com a Antiga Aliança. Por conseguinte, deve ter-se muita cautela com o raciocínio por analogia. Por exemplo, uma diferença óbvia é que a circuncisão se aplicava apenas aos elementos do sexo masculino, ao passo que o batismo cristão é para homens e mulheres por igual. Além disso, os mesmos que invocam esta analogia habitualmente rejeitam a noção de que o batismo deva adiar-se, tal como a circuncisão, até ao oitavo dia de vida. Finalmente, embora os filhos de pais cristãos participem, em certo sentido, das bênçãos destes (Atos 2:38; 1 Coríntios 7:14), não é de todo evidente que tal condição exija necessariamente que as crianças sejam batizadas.

2. Jesus certamente chamou a si as criancinhas, mas não as batizou nem ordenou que fossem batizadas. Com efeito, é inequívoco e bastante revelador o facto de não existir qualquer instrução explícita acerca do batismo infantil em todo o Novo Testamento, tendo os defensores desta prática de basear-se em conjeturas e suposições.

3. Deve notar-se que, nos textos que mencionam Lídia, Cornélio ou Estéfanas, o termo grego oikia (“casa”) abrange muito mais do que o núcleo familiar estrito, incluindo habitualmente os criados e dependentes. Os defensores do batismo infantil partem do pressuposto de que havia crianças de tenra idade nas “casas” de Lídia, Cornélio ou Estéfanas, mas não existe qualquer indício seguro de que tal fosse o caso. Nada sabemos acerca do estado civil de Lídia; na casa de Cornélio, Pedro disse que deviam ser batizados aqueles que tinham crido e sobre os quais o Espírito Santo tinha descido de forma manifesta; e ignoramos se o carcereiro de Filipos tinha filhos e, caso os tivesse, que idades possuíam. Seja como for, Lucas afirma explicitamente em Atos 16:34 que o carcereiro se alegrou “com toda a sua casa por ter crido em Deus”, uma qualificação de fé consciente que obviamente não se aplica a bebés.

4. É sabido que no período pós-apostólico se introduziram práticas batismais estranhas ao modelo apostólico original. Uma delas foi o costume de retardar o batismo até que a morte se afigurasse iminente, impulsionado pela noção errónea de que nenhum pecado cometido após o batismo poderia ser perdoado. Outra foi a introdução de um longo período de instrução entre a profissão de fé e o rito batismal, acompanhado por complexos ritos destituídos de respaldo neotestamentário. Por conseguinte, o mero facto de o batismo infantil se praticar em finais do século II ou inícios do século III não constitui fundamento suficiente para validar essa prática como de origem apostólica. A primeira menção inequívoca a favor do batismo infantil encontra-se no tratado sobre práticas eclesiásticas de Hipólito de Roma, intitulado A Tradição Apostólica [8]; em contrapartida, a segunda alusão conhecida surge para contestar tal prática, através do opúsculo Sobre o Batismo, da autoria de Tertuliano de Cartago [9]. Ambos os testemunhos datam do século III.

O que significa o batismo?

O significado do batismo poderá resumir-se do seguinte modo:

1. É um ato de obediência que todo o cristão deve levar muito a sério. Jesus Cristo ordenou que todo aquele que se tornasse seu discípulo fosse batizado (Mateus 28:16-20).

2. É um ato que expressa o propósito de ser lavado do pecado e de manifestar uma boa consciência para com Deus (1 Pedro 3:21).

3. É um ato que nos identifica com Jesus Cristo na sua morte e na sua nova vida de ressurreição (Romanos 6).

4. É um ato que significa a incorporação no Corpo de Cristo — a Igreja — e a entrada na participação plena da fraternidade cristã (Efésios 4:4-6).

5. É, além disso, um testemunho público e visível do nosso compromisso de seguir a Cristo.

Relação entre a regeneração e o batismo com água

Visto que o batismo constitui o sinal externo de uma realidade interior, a relação entre estes dois acontecimentos não é de ordem mecânica ou unívoca. No Novo Testamento, aqueles que se arrependem e creem em Cristo são batizados; contudo, uma vez que tanto a profissão verbal de fé quanto o próprio rito batismal pertencem à esfera dos atos externos, nenhum deles constitui uma garantia absoluta da presença prévia ou concomitante da obra interna da graça.

Contudo, pelo modo como o assunto é apresentado na pregação apostólica, F.F. Bruce acerta ao afirmar: “O batismo é o sinal externo e visível do arrependimento e da fé. Na era apostólica, o sinal externo estava, em geral, tão imediatamente associado à graça interior e espiritual que se podia falar de ambos como partes componentes de uma única experiência, ou, por uma espécie de metonímia, o que era estritamente verdade de uma podia atribuir-se à outra” [10].

Isto permite explicar passagens como Atos 22:16, onde Paulo narra a sua própria experiência de conversão e o apelo que lhe foi dirigido: “Agora, pois, por que te demoras? Levanta-te, batiza-te e lava os teus pecados, invocando o seu nome”. Bruce observa: “Paulo, sendo um homem inteligente, saberia que a aplicação externa de água no seu corpo não poderia, em si mesma, tirar os seus pecados; entenderia que o seu batismo na água era o sinal externo e visível da sua purificação do pecado, interior e espiritual, pela graça de Deus — uma purificação que tornou sua pela fé” [11].

De igual modo, o texto de Tito 3:4-7 pode ser interpretado na mesma linha: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, nos salvou, não por obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, mediante a lavagem da regeneração e a renovação do Espírito Santo” [no original grego, dià loutrū palingenesías kaì anakainōséōs pneúmatos hagíū], “que Ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, fôssemos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” (ver também Romanos 5 e 8).

É o batismo necessário para a salvação?

A Igreja Católica Romana constitui a defensora mais preeminente da doutrina segundo a qual o batismo é estritamente necessário para a salvação. O atual Catecismo da Igreja Católica (1992) declara: “O santo Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito («vitae spiritualis ianua – porta da vida espiritual») e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão” [12].

Segundo a doutrina romana, os sacramentos não são apenas sinais externos da graça interior, mas são os próprios meios pelos quais essa graça é conferida; isto é, contêm em si mesmos a graça que simbolizam quando ministrados e recebidos com as devidas disposições [13]. No que concerne especificamente ao batismo, o atual Catecismo sustenta que “o próprio Senhor afirma que o Batismo é necessário para a salvação (cf. Jo 3, 5)” [14]. Não obstante, o desejo sincero de receber o batismo é considerado equivalente ao próprio sacramento, para efeitos de salvação, nos casos em que a sua receção física se revela impossível. É o que sucede, por exemplo, com quem sofre o martírio antes de poder ser batizado — o chamado “batismo de sangue” — ou com o adulto que, impedido pela morte ou por um obstáculo intransponível, alimentava o propósito firme de o receber [15].

O problema do destino das crianças que morrem sem ter sido batizadas não tem uma resposta consistente no romanismo. Com efeito, o atual Catecismo reconhece que a Igreja “não pode senão confiá-las à misericórdia de Deus”, esperando “que haja um caminho de salvação para as crianças que morrem sem Batismo” [16]. Esta declaração sobressai pelo contraste com o ensino secular anterior, visto que durante séculos se impôs como dogma de fé que “as almas que saem desta vida em estado de pecado original estão excluídas da visão beatífica de Deus” [17]. 

Em termos claros, tal significava que as almas das crianças que morriam em pecado original — ou seja, sem terem recebido o batismo — ficavam excluídas da visão beatífica de Deus. Adicionalmente, pelo menos dois concílios gerais do Ocidente (considerados ecuménicos por Roma), a saber, o II Concílio de Lyon (1274) e o Concílio de Florença (1438–1445), estabeleceram dogmaticamente que os que morrem em pecado original vão para o inferno: “Mas as almas dos que morrem em pecado mortal atual ou com apenas o original, descem imediatamente ao inferno, para serem castigadas, embora com penas desiguais” [18]. 

Até tempos muito recentes, ensinava-se que as crianças falecidas sem o batismo ingressavam num lugar específico, o limbo dos infantes (limbus infantium), onde gozavam de uma perfeita felicidade natural, embora permanecessem excluídas da visão beatífica de Deus. A este respeito, é esclarecedor o testemunho de um compêndio teológico publicado em 1973:

“O LIMBO. – As crianças que morreram sem o batismo não vão para o paraíso terrenal (Bento XII, [Denzinger] 534), mas para o chamado «limbo das crianças» (Pio VI, [Denzinger] 1526 ). Carecem da visão de Deus, mas não sofrem a pena de fogo (Inocêncio III, [Denzinger] 410).” [19]

No entanto, a Igreja de Roma silencia hoje, de forma quase impercetível, o seu ensino secular sobre a matéria, limitando-se a afirmar que confia as criancinhas à misericórdia divina (Catecismo da Igreja Católica, § 1261). O outrora célebre conceito do limbo é agora remetido para o silêncio, não figurando sequer no índice alfabético do atual Catecismo promulgado por João Paulo II.

Na realidade, por mais relevante que o batismo seja enquanto ordenança instituída por Cristo, em nenhuma passagem do Novo Testamento ele é apresentado como condição sine qua non ou requisito indispensável para a salvação. Os elementos consistentemente exigidos para a justificação e a vida eterna são, de forma inequívoca, o arrependimento do pecado e a fé salvífica em Jesus Cristo.

Apêndice: Exegese de João 3:5

Esta passagem constitui o principal fundamento invocado a favor da doutrina da regeneração batismal — isto é, a tese de que o próprio rito do batismo opera de forma intrínseca a regeneração ou o novo nascimento em Cristo. Torna-se, por isso, indispensável examinar cuidadosamente este texto.

O texto de João 3:1-10 constitui o núcleo da discussão exegética:

«Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: 
— Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.
Respondeu-lhe Jesus:
— Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo [ou do alto], não pode ver o reino de Deus.
Perguntou-lhe Nicodemos:
— Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?
Jesus respondeu:
— Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
Perguntou-lhe Nicodemos:
— Como pode ser isto?
Respondeu-lhe Jesus:
— Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas?» (João 3:1-10)

O contexto imediato desta conversa insere-se na primeira Páscoa celebrada durante o ministério terreno do Senhor (João 2:13–25). Jesus acabara de anunciar veladamente a sua própria ressurreição (v. 19), realizando milagres que levaram Nicodemos a reconhecer que Deus estava com Ele, motivando-o a procurá-lo sob a proteção da noite.

Jesus declara-lhe que aqueles que desejam entrar no Reino de Deus devem nascer “de novo” ou “do alto”. O texto grego emprega as expressões ean mē tis gennēthē̄ anōthen (“se alguém não nascer do alto”, v. 3) e gennēthē̄ ex hydatos kai pneumatos (“nascer da água e do Espírito”, v. 5). O termo anōthen comporta tanto o sentido temporal de “de novo” (cf. Gl 4,9) como o sentido espacial e teológico de “do alto” (cf. Tg 1,17; 3,15.17). Se Nicodemos interpretou inicialmente a afirmação do Senhor no primeiro sentido, as palavras posteriores de Jesus no versículo 31 confirmam que a intenção primária era indicar um nascimento “do alto”. Em termos claros: apenas uma regeneração cuja origem reside no próprio Deus permite ao ser humano ter parte no seu Reino.

Este mesmo pensamento encontra-se expressamente formulado no Prólogo do Evangelho: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:12–13). De igual modo, este conceito de nascimento do alto surge de forma recorrente na Primeira Epístola de João (cf. 1 Jo 2:29; 3:9; 4:7; 5:1,4,18).

Aqueles que sustentam que as palavras de Jesus constituem uma referência direta e primária ao batismo com água ignoram, contudo, os seguintes elementos exegéticos e históricos fundamentais:

1. A natureza singular do batismo de Cristo: O próprio batismo de Jesus nunca é apresentado nas Escrituras como o modelo ou o arquétipo do batismo dos seus discípulos. Como se demonstrou anteriormente, o batismo do Senhor constituiu um ato de identificação graciosa com a humanidade pecadora, antecipando e preparando a obra redentora que Ele consumaria na cruz.

2. O enquadramento do Quarto Evangelho: O Evangelho de João é o único entre os quatro Evangelhos que não narra o evento do batismo de Jesus. Por conseguinte, o batismo do próprio Cristo não integra nem o contexto imediato nem a estrutura narrativa que antecede esta conversa.

3. O fundo do Antigo Testamento (Tanach): Jesus dirige-se a Nicodemos considerando a sua condição de «mestre em Israel» (v. 10), isto é, alguém profundamente versado na Torá, nos Profetas e nos Escritos. A declaração do Senhor sobre a imperiosa necessidade de nascer «da água e do Espírito» deve, pois, ser interpretada à luz da teologia veterotestamentária. Esta linguagem deveria evocar imediatamente na mente de Nicodemos passagens proféticas de purificação e renovação interior, tais como Zacarias 13:1, Jeremias 33:8, Isaías 43:20 e 55:1, e, sobretudo, Ezequiel 36:25–27: 

«Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei da vossa carne o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.»

Enquanto o batismo cristão não é de modo algum ensinado no Antigo Testamento, nenhum escriba ou mestre judeu podia ignorar estas fundamentais passagens proféticas sobre a purificação espiritual. Por este motivo, Jesus repreende abertamente Nicodemos: “Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas?” (v. 10). Sendo um conhecedor profundo das Escrituras, era de esperar que Nicodemos compreendesse de imediato a alusão profética.

Em conclusão, as palavras de Jesus a Nicodemos não se referem primariamente ao batismo em água, mas antes à renovação espiritual prometida e anunciada pelos profetas do Antigo Testamento — um tema recorrente, como vimos, nos escritos de João. De igual modo, é altamente significativo que o apóstolo Pedro vincule a regeneração (anagennáō, “nascer de novo”) à eficácia purificadora da Palavra de Deus, e não ao rito batismal em água:

«Ao obedecerdes à verdade, purificastes as vossas almas, mediante o Espírito, para um amor fraternal sincero; amai-vos, pois, ardentemente uns aos outros de coração puro, porque nascestes de novo [anagegennēmenoi], não de semente corruptível, mas incorruptível, mediante a palavra de Deus, viva e permanente.» (1 Pe. 1:22–23)

De igual modo, o apóstolo Paulo — que sublinha não ter batizado a maioria dos crentes em Corinto (1 Co 1:14–17) — declara enfaticamente: “Pois em Cristo Jesus eu vos gerei pelo Evangelho” (1 Co 4:15). Esta distinção explícita entre a administração do rito batismal e a proclamação do Evangelho demonstra que, no pensamento apostólico, o nascimento espiritual é operado pela eficácia da Palavra e do Espírito. O batismo em água constitui um sinal visível e um testemunho dessa realidade interior, mas não substitui, nem opera por si mesmo (ex opere operato), a graça da regeneração que visa representar. 


Notas

[1] G. R. Beasley-Murray, «Baptism», em Colin Brown (ed.), New International Dictionary of New Testament Theology, vol. 1, Grand Rapids: Zondervan, 1975–1978, p. 144.

[2] James C. VanderKam, The Dead Sea Scrolls Today, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1994, pp. 168–170.

[3] C. Perrot, «Los movimientos bautistas», em Augustin George e Pierre Grelot (dirs.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento, vol. 1, Barcelona: Herder, 1983, pp. 177–180.

[4] Joachim Jeremias, Teología del Nuevo Testamento. I. La predicación de Jesús, 4.ª ed., Salamanca: Sígueme, 1980, pp. 73–74.

[5] Oscar S. Brooks, The Drama of Decision: Baptism in the New Testament, Peabody: Hendrickson, 1987, p. 160.

[6] Donald Bridge e David Phypers, The Water that Divides – The Baptism Debate, Leicester: InterVarsity Press, 1977.

[7] Michael Green, Baptism: Its Purpose, Practice and Power, Downers Grove: InterVarsity Press, 1987. Veja-se também Oscar Cullmann, Baptism in the New Testament, London: SCM Press, 1950; e Andrés Manrique, O.S.A., Teología Bíblica del Bautismo – Formulación de la Iglesia Primitiva, Madrid: Editorial Biblia y Fe, 1977.

[8] Hipólito de Roma, A Tradição Apostólica, 21 (61).

[9] Tertuliano, De Baptismo, 18.

[10] F. F. Bruce, Answers to Questions, Exeter: The Paternoster Press, 1972, p. 76.

[11] Ibid., p. 84.

[12] Catecismo da Igreja Católica, § 1213. 

[13] «Se alguém disser que os sacramentos da Nova Lei não contêm a graça que significam, ou que não conferem a própria graça aos que não põem óbice, como se só fossem sinais externos da graça ou justiça recebida pela fé e certos sinais da profissão cristã, pelos quais se distinguem entre os homens os fiéis dos infiéis: seja anátema.» (Concílio de Trento, Sessão VII, de 3 de março de 1547; Cânones sobre os sacramentos em geral, Cânon 6). In Heinrich Denzinger, El Magisterio de la Iglesia: Enchiridion Symbolorum, trad. de Daniel Ruiz Bueno, Barcelona: Herder, 1963, n.º 849 (p. 241) [DH 1606].

[14] Catecismo da Igreja Católica, § 1257.

[15] Ibid., §§ 1258–1260.

[16] Ibid., § 1261.

[17] Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, 6.ª ed., Barcelona: Herder, 1969, pp. 191–192.

[18] Eugénio IV, Concílio de Florença, Decreto para os Gregos na Bula Laetentur caeli (6 de julho de 1439); Denzinger, n.º 693 [DH 1306].

[19] Antonio Royo Marín, O.P., La Fe de la Iglesia – Lo que ha de creer el cristiano de hoy, 2.ª ed., Madrid: BAC, 1973, n.º 352 (p. 232). 

3 comentários:

  1. Muito bom este estudo. Parabéns. Escrevi algo em meu blog, com uma tabela de palavras, mas o seu estudo o completa.

    Marcelo
    João Pessoa-PB-Brasil

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  2. Paz Marcelo

    Não consegui encontrar no teu blog essa tabela de palavras.
    Gostava de vê-la. Coloca aqui o link para esse post.

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  3. Bom dia,
    Muito bom o post! A propósito, vocês possuem algum artigo/argumento a respeito da obra Didaquê? Nessa obra há uma regra sobre o batismo.

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